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Êxodo 7:22

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 29 acessos
Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas; e o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.
Sala do palácio egípcio com dois sacerdotes inclinados sobre uma bacia de água que escurece em vermelho, enquanto o rei observa de perfil, imóvel.

Estudo


Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas; e o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.

1. Introdução

Os especialistas do Egito fazem o mesmo, e o rei continua igual. É tudo o que o versículo contém, e é preciso lê-lo sem tentar melhorá-lo.

Três coisas organizam o estudo.

Os magos repetem o sinal. Já tinham repetido o do cajado, em Êxodo 7:11. Agora repetem o da água. O Êxodo registra isso em cinco palavras, não explica como, não diz que era truque e não defende ninguém.

E fica uma pergunta que o texto deixa aberta: de onde saiu a água limpa que eles transformaram? O versículo anterior acabou de dizer que havia sangue em toda a terra do Egito. Este diz que eles fizeram o mesmo. Entre uma frase e a outra falta um dado, e o Êxodo não o fornece. O item 3 enfrenta a pergunta e expõe as saídas propostas, sem escolher.

E o coração de Faraó fica firme outra vez. É a quarta menção ao coração do rei neste capítulo — depois de Êxodo 7:3, Êxodo 7:13 e Êxodo 7:14 — e a segunda com este verbo. O sistema dos três verbos hebraicos que o português achata em "endurecer" pertence ao estudo de Êxodo 4:21 e não se refaz aqui.

O que é deste versículo é outra coisa, e é o achado central: a frase final repete, palavra por palavra, o fecho de Êxodo 7:13. Não é uma frase parecida. É a mesma, com as mesmas palavras na mesma ordem. Entre uma e outra houve uma praga inteira — e o texto escreve o mesmo período para dizer o que aconteceu depois dela.

Ou seja: o versículo existe para registrar que nada mudou.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem eram e o que faziam: duas remissões

Duas coisas já têm tratamento próprio e não se repetem aqui. Quem eram os magos do Egito, o que significava o termo e que classe era essa — está no estudo de Gênesis 41:8. E a função concreta que executava rituais a partir de textos escritos, que é o fundo do primeiro confronto na corte, está no estudo de Êxodo 7:11.

O que interessa a este versículo é uma pergunta mais estreita: o repertório egípcio incluía operações sobre líquidos?

O que as fontes egípcias mostram

Incluía, e há um caso mitológico famoso que vale apresentar pelo que ele revela — não como explicação da cena.

Uma composição religiosa egípcia hoje chamada Livro da Vaca Celeste, copiada nas paredes de tumbas reais do Vale dos Reis, conta que o deus-sol, cansado da rebeldia dos homens, soltou sobre eles uma divindade que começou a matá-los e não parava. Para detê-la, mandou-se preparar cerveja em enorme quantidade e tingi-la com ocre vermelho, até que ficasse parecida com sangue. O líquido foi derramado sobre os campos e cobriu a terra. A deusa, vendo aquilo, bebeu, embriagou-se e desistiu da matança.

Repare no que esse texto tem e no que não tem. Tem: uma inundação de líquido vermelho que imita sangue, produzida de propósito, com um pigmento nomeado, por decisão de um deus. Não tem: nenhuma relação com Israel, com Moisés ou com uma praga — é mitologia egípcia interna, e é séculos anterior ou posterior conforme a cópia que se tome.

O que ele demonstra, e é só isto, é que a ideia de um líquido deliberadamente transformado à aparência de sangue existia no repertório religioso do Egito. Um egípcio da corte não precisaria de nenhuma categoria nova para pensar o que estava acontecendo na margem do rio.

O limite, que é grande

Agora as ressalvas, e elas são decisivas.

Não existe documento egípcio que descreva um procedimento para converter água em sangue, nem relato de especialista que o tenha feito. Os papiros de conteúdo ritual que sobreviveram trazem fórmulas, invocações e preparos de outra natureza. Não há nada que sirva de paralelo direto para este versículo.

E há uma ressalva maior. O Êxodo não diz como os magos fizeram. Não descreve gesto, não descreve palavra, não descreve material, não nomeia deus nenhum. A única informação que dá é a expressão traduzida por "artes ocultas", cujo próprio sentido é o de procedimento encoberto — a palavra está examinada no item 10.

Portanto: o fundo egípcio serve para mostrar que o que o texto relata era concebível naquele mundo. Não serve para dizer o que foi feito, e quem o usar para isso estará preenchendo um silêncio que o Êxodo deixou de propósito ou por desinteresse — e não é possível decidir qual das duas coisas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas"

Comece pela frase em hebraico, porque ela é mais precisa do que a tradução deixa ver.

As duas primeiras palavras são exatamente as duas com que Êxodo 7:20 registrou a obediência de Moisés e Arão — "e fizeram assim". A mesma dupla, na mesma ordem, agora com os especialistas egípcios como sujeito. O Êxodo usa para eles a fórmula de cumprimento que vinha usando para os enviados.

Vale medir a distância em relação a Êxodo 7:11, onde a repetição do primeiro sinal foi contada com um "também eles" que marcava a imitação. Aqui esse "também" desaparece. Não há marcador de cópia, não há palavra de contraste, não há nota de rodapé. A frase é seca: fizeram assim.

E agora a pergunta que este versículo obriga a enfrentar

O versículo anterior encerrou dizendo que houve sangue em toda a terra do Egito. Este diz que os magos transformaram água. Onde é que eles acharam água limpa?

A resposta honesta tem uma palavra: o texto não diz.

Não é uma lacuna que o estudo possa fechar, e é importante não fingir que se fecha. O que se pode fazer é expor as saídas propostas e dizer o que cada uma custa.

Água tirada antes. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) supõem que os magos trabalharam com água já recolhida em vasilha antes de o rio ser ferido. Custo: Êxodo 7:19 mandou expressamente que o sangue alcançasse "as vasilhas de madeira e as de pedra". A saída precisa supor que a ordem não se cumpriu ao pé da letra.

Água de poço. Ellicott e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) remetem a Êxodo 7:24: a água veio de cavar, como a do povo. Custo: nenhum, quanto à coerência — mas obriga a admitir que o alcance do "toda a terra do Egito" é menor do que a frase sugere, e a inverter a ordem dos versículos, porque o poço só é mencionado dois versículos depois.

Quantidade pequena. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) observa que o feito dos magos, qualquer que fosse, se deu numa porção de água, e não no rio. Custo: isto responde à escala, não à origem — de onde saiu a porção continua sem resposta.

Truque. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) sugere que tenham apenas tingido a água de vermelho, ou usado destreza de mão. Custo: é a saída que mais acrescenta ao texto. O Êxodo não escreve nada disso — não diz truque, não diz fingimento, não diz ilusão.

Três observações fecham o ponto.

A primeira: as quatro saídas foram construídas para resolver um incômodo que é do leitor, não do texto. O Êxodo põe as duas frases uma ao lado da outra e segue.

A segunda: nenhuma delas é demonstrável, e sustentar a dificuldade em aberto é mais honesto do que escolher a mais confortável.

A terceira, e é a que mais importa: a pergunta não muda nada no versículo. Suponha resolvida do jeito que se quiser — o que o texto registra continua sendo que os especialistas do Egito fizeram o mesmo e que o rei não se moveu. O Êxodo não está construindo um argumento de exclusividade, e por isso não precisa proteger o flanco.

"e o coração de Faraó ficou firme"

A frase é a mesma de Êxodo 7:13, e o verbo é o mesmo. O sistema dos três verbos hebraicos que o português achata em "endurecer", com a discussão sobre quem é o sujeito em cada ocorrência, é do estudo de Êxodo 4:21; a forma sem agente que aparece aqui foi examinada no estudo de Êxodo 7:13.

O que é deste versículo é a repetição, e ela merece ser dita com todas as letras.

Entre Êxodo 7:13 e este versículo aconteceu uma praga. O rio foi ferido diante do rei, os peixes morreram, o país ficou sem água, e o cheiro tomou o Egito por sete dias. Um leitor que chega aqui espera alguma coisa diferente — um agravamento, uma concessão, uma reação.

O texto escreve a mesma frase.

Isso é uma decisão de composição, não um descuido. A praga não produziu nenhum efeito sobre o rei, e o modo de o Êxodo dizer isso é não gastar uma palavra nova. O estado é idêntico ao de antes; a frase também.

"e ele não os ouviu"

Duas notas curtas, porque o essencial já tem dono.

A primeira: "os" são Moisés e Arão, não Deus — o hebraico constrói o verbo com uma preposição que aponta para pessoas, e o ponto está examinado no estudo de Êxodo 7:13. Repare, aliás, que os dois irmãos não são nomeados neste versículo; eles existem nele só como um pronome dentro de uma negativa.

A segunda: em egípcio, ouvir e obedecer eram uma ideia só, e o funcionário que julgava era chamado de "aquele que ouve" — o assunto está tratado no estudo de Êxodo 5:9. Dizer que o rei não ouviu, no vocabulário da corte em que ele vivia, é dizer que ele não cumpriu.

"como o SENHOR havia dito"

A fórmula fecha o versículo, e a correspondência dela — que aponta para a previsão de Êxodo 7:4, "Faraó não os ouvirá", e não para a declaração de Êxodo 7:3 sobre endurecer — foi estabelecida no estudo de Êxodo 7:13. Não se refaz aqui.

O que este versículo acrescenta é o efeito de se repetir a fórmula.

Usada uma vez, ela registra que um acontecimento conferiu com uma fala. Usada de novo, sem nenhuma variação, depois de um episódio muito maior, ela deixa de medir um fato e passa a marcar um padrão. É a segunda de várias vezes em que o Êxodo encerrará um episódio exatamente assim.

E há o que a fórmula continua não dizendo. Não diz que Deus endureceu o coração do rei nesta cena. Não atribui a ninguém a firmeza. Diz que o resultado corresponde ao que fora anunciado — e sobre a causa dele, cala.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os magos do Egito

São os únicos que agem neste versículo, e é a segunda vez que aparecem no capítulo — a primeira foi em Êxodo 7:11, quando repetiram o sinal do cajado.

Quem eram, o que designava o termo hebraico e que classe de especialistas era essa está no estudo de Gênesis 41:8, onde eles entram pela primeira vez na Bíblia, chamados por Faraó para interpretar um sonho — e onde falham. Aqui não falham.

Convém reparar numa diferença em relação a Êxodo 7:11. Lá o rei os convocou: "Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros." Aqui ninguém os chama. Eles aparecem sem convocação, já no meio do trabalho, e o texto não diz quem os mandou nem quando chegaram.

E há um dado de composição que o bloco das pragas vai desenvolver: esta é a última vez que os magos do Egito conseguem fazer o mesmo. A trajetória deles no livro é curta e descendente.

Faraó

O rei não faz nada neste versículo. Aparece como dono de um coração e como sujeito de um verbo negativo.

É útil acompanhar o que o capítulo já disse dele. Em Êxodo 7:13 o coração ficou firme depois do sinal do cajado. Em Êxodo 7:14 estava pesado. Aqui ficou firme de novo, com a mesma palavra do versículo 13. E em Êxodo 7:23 ele vai virar as costas e entrar em casa.

Quatro menções ao coração desse homem em dez versículos, e nenhuma fala na boca dele desde Êxodo 5:2. O rei do Egito atravessa a primeira praga em silêncio.

Moisés e Arão

Não são nomeados. Estão no versículo apenas como o "os" de "não os ouviu".

Vale registrar, porque é o tipo de detalhe que se perde: eles executaram a praga em Êxodo 7:20 e, dois versículos depois, sumiram da frase. Quem ocupa o lugar deles são os especialistas egípcios, com a mesma fórmula de cumprimento.

O acontecimento

Este versículo é o quarto movimento da primeira praga — depois do anúncio, da ordem e dos efeitos, vem a reação.

E a reação é dupla: os técnicos repetem, e o rei não se mexe. O Êxodo põe as duas coisas na mesma frase, ligadas por um "e", sem estabelecer relação de causa entre elas. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem a ligação como causal — a imitação teria contribuído para a firmeza do rei. É leitura possível, e é preciso dizer que o texto apenas justapõe.

5. Pontos de Ensino

O texto não se incomoda com o que incomoda o leitor

Os especialistas do Egito fazem o mesmo, e o Êxodo escreve isso sem uma linha de defesa. Não diz que o deles era falso, não diz que o de Arão era maior, não explica como conseguiram.

Esse silêncio ensina alguma coisa sobre o que o livro está tentando fazer. Ele não está montando um argumento de exclusividade. Não depende de o sinal ser irrepetível. Se dependesse, teria de proteger o flanco — e não protege.

Repetir não é responder

O sinal tinha sido dado, em Êxodo 7:17, com uma finalidade declarada: "Nisto você saberá que eu sou o SENHOR."

Os magos não contestam essa frase. Não dizem que ela é falsa, não argumentam, não apresentam outro deus. Fazem a mesma coisa — e com isso deslocam a conversa do que estava sendo afirmado para quem consegue produzir o efeito.

É um movimento reconhecível e eficaz, e o resultado está no próprio versículo: depois dele, ninguém no Egito voltou a perguntar quem é o SENHOR.

Uma praga inteira não mudou nada

O fecho deste versículo é palavra por palavra o de Êxodo 7:13. Entre os dois houve o rio ferido, o peixe morto, o cheiro e a sede de um país.

Vale reter isso contra uma expectativa corrente: a de que acontecimento grande produza mudança grande. O Êxodo acabou de descrever o maior acontecimento do livro até ali e registra, na frase seguinte, exatamente o mesmo estado de antes.

O silêncio do rei é a informação

Faraó não diz nada neste versículo, nem no anterior, nem no seguinte. A última fala dele foi em Êxodo 5:2.

Um homem que não pergunta nada diante do que acabou de acontecer já respondeu. O texto não precisa de discurso para mostrar a posição dele.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta um problema de lógica que não é religioso: o que fica provado quando alguém reproduz o que o outro fez?

A resposta, exposta friamente, é: menos do que parece. Reproduzir um efeito demonstra que o efeito é produzível por mais de um caminho. Não demonstra que os dois caminhos sejam o mesmo, nem refuta o que o primeiro dizia ao produzi-lo.

E aí está a manobra. O sinal do rio tinha sido dado com uma afirmação colada nele — nisto você saberá quem eu sou. Ao repeti-lo, os especialistas do Egito não negam a afirmação: eles a deixam sem resposta e mudam o assunto para a habilidade de produzir o efeito. A conversa passa do que estava sendo dito para quem também consegue fazer.

O procedimento é antigo e continua em uso fora de qualquer contexto religioso. Quem é acusado de alguma coisa e responde mostrando que o acusador faz o mesmo não respondeu à acusação; interrompeu-a. Quem duvida de um resultado e o reproduz por outro método aprendeu algo sobre o método, não sobre a alegação que o acompanhava.

Fica o limite, e ele é honesto. O Êxodo não faz nenhuma dessas observações. Escreve que eles fizeram o mesmo e passa adiante, sem avaliar o gesto. A análise é de quem lê — e o que o texto oferece a ela é apenas o dado de que, depois da repetição, ninguém mais discutiu a afirmação original.

7. Aplicações Práticas

O versículo é de reação e rende pouco em aplicação. Ficam dois pontos com relação direta com o que está escrito.

Quando alguém "faz o mesmo", repare no que ficou sem resposta

O sinal do rio veio acompanhado de uma afirmação. A repetição dos magos não a contestou — passou por cima dela.

É um movimento comum em discussão de trabalho e em discussão de casa. Alguém aponta um problema; o outro responde mostrando que também sabe fazer aquilo, ou que o primeiro já fez pior. A conversa continua, todo mundo fala, e a questão inicial simplesmente não é mais mencionada.

A prática útil é curta: depois de uma resposta dessas, voltar à frase que estava em jogo e perguntar se ela foi respondida. Quase sempre não foi.

Acontecimento grande não muda ninguém sozinho

Entre Êxodo 7:13 e este versículo houve uma praga que arruinou o abastecimento de água de um país inteiro. A frase sobre o rei é idêntica antes e depois.

Isso desmonta uma expectativa que muita gente carrega a respeito de si mesma e dos outros: a de que basta acontecer alguma coisa suficientemente grande para que a pessoa mude. O sujeito espera o susto, a perda, o diagnóstico — e supõe que a mudança virá junto.

O versículo mostra o contrário, e mostra sem moralizar. O acontecimento aconteceu; o homem continuou o mesmo. Quem quiser mudar alguma coisa em si terá de fazê-lo com os meios de sempre, e não esperando por um episódio grande o bastante.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O Êxodo está admitindo que a magia funcionava?

É a pergunta que a maioria dos leitores traz, e ela merece resposta direta, sem alívio.

O que o texto faz: registra que os especialistas do Egito produziram o mesmo efeito, com o instrumental deles, e não comenta. Não diz que era ilusão. Não diz que era permissão divina. Não diz que era poder de outra origem. Não diz nada.

O que o texto não faz: não endossa e não condena, aqui. A avaliação dessas práticas existe em outros lugares da Bíblia, em forma de proibição legal — o que, aliás, é um dado a considerar. Não se proíbe o que se considera inexistente; proíbe-se o que se considera perigoso. A legislação de Israel a respeito trata a categoria como real e a interdita, o que é posição diferente de negar que haja qualquer coisa ali.

E o que se pode afirmar: no Êxodo, a diferença entre os dois lados nunca é apresentada como diferença de capacidade. Em Êxodo 7:12 os dois lados fizeram cajado virar serpente, e o que distinguiu foi o que aconteceu depois. Aqui os dois lados transformaram água, e o que o texto acompanha é o rei. A pergunta "quem consegue fazer?" não é a pergunta do livro, e ler o capítulo como competição de habilidade é impor a ele um interesse que ele não demonstra.

Fecho honesto: não é possível decidir, a partir deste versículo, o que exatamente aconteceu na mão dos magos. O Êxodo não dá o dado, e quem o fornece está preenchendo um silêncio.

Por que Faraó não pergunta nada?

O texto não explica, e vale reparar no tamanho do silêncio.

A última coisa que o rei disse foi em Êxodo 5:2, dois capítulos atrás: "Quem é o SENHOR?" Desde então houve dois sinais, uma praga e sete dias de rio podre, e ele não abriu a boca uma vez.

Duas leituras são possíveis e nenhuma é demonstrável: que o Êxodo esteja retratando alguém que decidiu não entrar na conversa, ou que simplesmente não tenha interesse em registrar falas do rei nesta parte. O que se pode afirmar é que a próxima fala dele ainda demora, e que o versículo seguinte descreverá a posição dele por um gesto, não por uma palavra.

Os magos pioraram a situação do próprio país?

O texto não faz essa conta, e é curioso que não faça.

Materialmente, a observação se impõe: um país sem água potável acabava de ver os seus melhores técnicos gastarem água boa para produzir mais sangue. Nenhum comentário no Êxodo aponta isso, nenhum personagem reclama, e o rei não pergunta se aquilo ajudava.

Registre-se como observação de leitor, e não como leitura do versículo. Ela mostra, no entanto, o quanto o interesse do texto está em outro lugar: não no que a repetição custou, e sim no que ela não mudou.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira repetição, no mesmo capítulo

Êxodo 7:11 — "Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros; e os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas:"

Duas diferenças valem o registro. Lá o rei os convoca; aqui ninguém os chama. E lá a frase traz um "também eles" que marca a imitação; aqui esse marcador desaparece.

A frase que este versículo repete

Êxodo 7:13 — "E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."

Ponha as duas ao lado e confira: a segunda metade deste versículo é idêntica, palavra por palavra. Entre elas houve a primeira praga inteira.

A fala com que a fórmula confere

Êxodo 7:4 — "Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos."

É a previsão que a fórmula final retoma — o mesmo verbo, a mesma preposição, o mesmo plural. A demonstração está no estudo de Êxodo 7:13.

A pergunta que ficou sem resposta

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

O sinal do rio foi dado, em Êxodo 7:17, como resposta direta a essa pergunta. Depois deste versículo ela continua exatamente onde estava.

A primeira vez que os dois lados fizeram o mesmo

Êxodo 7:12 — "cada um jogou o seu cajado, e eles viraram serpentes; mas o cajado de Arão engoliu os cajados deles."

Vale a comparação, porque mostra o que mudou. No primeiro confronto os dois lados produziram o efeito e o texto acrescentou uma diferença — o que aconteceu depois. Aqui os dois lados produzem o efeito e o texto não acrescenta nada: passa direto ao coração do rei.

Registre-se ainda que a própria lei de Israel admite, em Deuteronômio 13, a hipótese de um sinal que se cumpre e mesmo assim não obriga a nada — o ponto está tratado nos estudos de Êxodo 7:9 e Êxodo 7:11. O pressuposto de que produzir o efeito resolve a questão não é bíblico, e é por isso que o Êxodo pode registrar a repetição dos magos em cinco palavras e passar adiante.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas; e o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.

Texto hebraico

וַיַּעֲשׂוּ־כֵן חַרְטֻמֵּי מִצְרַיִם בְּלָטֵיהֶם וַיֶּחֱזַק לֵב־פַּרְעֹה וְלֹא־שָׁמַע אֲלֵהֶם כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה׃

Transliteração

wa-ya'asu-khen chartummei Mitsrayim be-lateihem; wa-yechezaq lev-Par'oh we-lo-shama alehem, ka-asher dibber YHWH.

Análise palavra por palavra

וַיַּעֲשׂוּ־כֵן — wa-ya'asu-khen, "e fizeram assim".

Aqui está o achado de forma deste versículo, e nenhuma tradução portuguesa o mostra.

Estas são exatamente as duas primeiras palavras de Êxodo 7:20, que registrou a obediência de Moisés e Arão — o verbo asah no plural, ligado por hífen ao advérbio ken. A mesma dupla abriu também Êxodo 7:6 e Êxodo 7:10, sempre para dizer que os enviados cumpriram o que fora ordenado.

Compare agora com Êxodo 7:11, onde a primeira repetição foi contada. Ali a construção é outra: o verbo vem separado, acompanhado de gam-hem, "também eles", e o ken aparece só no fim da frase. Havia um marcador explícito de imitação.

Neste versículo o marcador some. A fórmula de cumprimento dos enviados é aplicada aos especialistas do Egito sem nenhum ajuste. Se isso é intenção do texto ou economia de escrita não é possível decidir — mas o dado é verificável, e é o tipo de coisa que só aparece em hebraico.

חַרְטֻמֵּי מִצְרַיִם — chartummei Mitsrayim, "os magos do Egito".

Chartummim é a palavra que Gênesis 41:8 usa para os especialistas chamados a interpretar o sonho de Faraó, e o termo, a classe e o provável parentesco com um título egípcio estão tratados naquele estudo.

A forma aqui está em ligação com o nome do país: não são magos quaisquer, são os do Egito. A mesma expressão exata aparece em Êxodo 7:11.

בְּלָטֵיהֶם — be-lateihem, "com as suas artes ocultas".

A palavra é rara e tem uma peculiaridade de grafia que o estudo de Êxodo 7:11 expôs por inteiro: a primeira ocorrência do livro traz a forma longa, que puxa para a raiz de arder e flamejar, e as demais trazem a forma curta, que puxa para a raiz de cobrir e fazer às escondidas. As duas leituras estão ali, e o estudo não decide entre elas.

O que cabe registrar aqui é o dado que pertence a este versículo: a forma que aparece nele é a curta, latim, sem a consoante do meio — a mesma que voltará em Êxodo 8:7 e em Êxodo 8:18. A grafia longa ficou só na estreia.

וַיֶּחֱזַק לֵב־פַּרְעֹה — wa-yechezaq lev-Par'oh, "e ficou firme o coração de Faraó".

Raiz chazaq, ser forte, ser firme, ter consistência, na forma simples do hebraico (o Qal) — que nesta raiz é intransitiva: o coração fica firme, e a frase não admite um autor sem ser reescrita.

Duas remissões, e as duas são obrigatórias. O sistema dos três verbos que o português achata em "endurecer" é do estudo de Êxodo 4:21. A análise desta forma sem agente, e o que ela permite e não permite concluir, é do estudo de Êxodo 7:13.

O que é deste versículo é a comparação literal. De "e ficou firme" até o fim, este versículo e Êxodo 7:13 são a mesma sequência de palavras — mesmo verbo, mesma ordem, mesma negativa, mesma fórmula final. Não há uma sílaba de diferença.

וְלֹא־שָׁמַע אֲלֵהֶם — we-lo-shama alehem, "e não ouviu a eles".

Shama, ouvir, escutar, atender. A preposição el com sufixo de plural aponta para pessoas: os dois homens que estavam ali, e não Deus. O ponto está demonstrado no estudo de Êxodo 7:13.

כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה — ka-asher dibber YHWH, "como o SENHOR havia dito".

Fórmula de conformidade, com o verbo dabar, falar, na forma intensiva. A qual fala ela se prende — e por que se prende a Êxodo 7:4 e não a Êxodo 7:3 — é o achado do estudo de Êxodo 7:13, e não se repete.

Registre-se apenas o que a repetição faz. Esta é a segunda vez consecutiva que a fórmula encerra um episódio, com as mesmas palavras. Ela deixa de ser a conferência de um fato e passa a marcar um padrão de escrita, que o livro usará de novo.

11. Conclusão

Do que foi examinado, quatro conclusões.

A primeira: o achado do versículo é que nada mudou, e o texto o diz repetindo-se. De "e o coração de Faraó ficou firme" até o fim, este versículo é a cópia literal do fecho de Êxodo 7:13. Entre os dois houve o rio ferido diante do rei, o peixe morto, o país sem água e sete dias de mau cheiro. O Êxodo tinha aí o maior acontecimento do livro até então e não gastou uma palavra nova para descrever o efeito dele sobre o homem a quem se dirigia.

A segunda: a pergunta sobre a água ficou sem resposta, e ficar sem resposta é o dado. O versículo anterior disse que havia sangue em toda a terra do Egito; este diz que os magos transformaram água. As saídas propostas pelos comentaristas — água recolhida antes, água de poço, quantidade pequena, truque — foram construídas por leitores incomodados, não pelo texto, e nenhuma se demonstra. O Êxodo põe as duas frases lado a lado e segue, porque o argumento dele não depende de o sinal ser irrepetível.

A terceira: a repetição desloca a discussão sem respondê-la. O sinal fora dado, em Êxodo 7:17, com uma afirmação colada nele — nisto você saberá quem eu sou. Os especialistas do Egito não negaram essa afirmação: fizeram o mesmo, e com isso a conversa passou do que estava sendo dito para quem consegue produzir o efeito. Depois deste versículo, a pergunta de Êxodo 5:2 continua exatamente onde foi feita, e ninguém no Egito volta a levantá-la.

A quarta: o hebraico aplica aos magos a fórmula dos enviados, e some com o marcador de imitação. As duas palavras que abrem o versículo são as mesmas que abriram Êxodo 7:20, e o "também eles" que Êxodo 7:11 trazia desapareceu. Não é possível decidir se a escolha é deliberada. O que se pode afirmar é que, no texto original, a frase que registra a obediência de Moisés e Arão e a frase que registra o feito dos magos começam do mesmo jeito — e que nenhuma tradução portuguesa deixa o leitor conferir isso.

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