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Êxodo 7:6

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 29 acessos
Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram.
Dois homens de costas, caminhando lado a lado por um caminho de terra ao amanhecer, sem bagagem.

Estudo


Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram.

1. Introdução

Depois de dois capítulos de objeção, a obediência cabe em três palavras.

Moisés discutiu com Deus cinco vezes entre Êxodo 3 e Êxodo 6 — quem sou eu, qual é o seu nome, e se não acreditarem, não sou homem de palavras, envie outro. Cada uma dessas recusas recebeu parágrafos. A obediência recebe uma frase, e ela não tem discurso nenhum dentro.

Duas coisas ficam levantadas.

A primeira é a forma. O versículo diz a mesma coisa duas vezes — "fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram" —, e a repetição é deliberada. O item 10 mostra como o hebraico a monta, e o item 2, por que uma frase assim soava, naquele mundo, como um relatório.

A segunda é mais estranha e passa despercebida: o versículo registra o cumprimento antes de mostrar o que foi cumprido. Nos cinco versículos anteriores não há nenhuma ordem de ir a lugar nenhum, e a ida a Faraó só acontece em Êxodo 7:10. O item 3 trata disso.

E há o que o versículo não faz. Não diz o que os dois pensaram, não registra pergunta, hesitação nem concordância expressa. Não diz sequer se conversaram entre si.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um relatório de cumprimento era um ato administrativo

A frase deste versículo tem o formato de um documento, e vale conhecer o documento.

No mundo em que o Êxodo se passa, uma ordem tinha três partes, e não duas. Primeiro a ordem. Depois a execução. E depois o aviso de volta, dizendo que fora executada. Faltar a terceira parte era falta de serviço, mesmo que a segunda tivesse sido cumprida.

Essa terceira parte tinha forma fixa. Cartas administrativas do Egito e da Mesopotâmia respondem com fórmulas do tipo "fiz tudo o que o meu senhor ordenou"; relatórios de expedição fecham dizendo que tudo foi feito conforme o que havia sido mandado.

E a prova era repetir as palavras da ordem

Aqui está o detalhe que interessa a este versículo.

O relatório não descrevia o trabalho. Ele ecoava o texto da ordem. Quem recebia a resposta conferia o cumprimento comparando as palavras: se o relatório repetia a instrução e acrescentava que tinha sido feita, estava fechado.

Há uma razão prática nisso. Repetir a ordem era o modo de demonstrar que ela tinha sido entendida — e, numa administração que corria sobre recados decorados e cartas lidas em voz alta, entender direito era metade do problema. O sistema de registro diário do trabalho no Egito, com presença e cota anotadas, está tratado no estudo de Êxodo 5:13, e os relatórios de expedição, no de Êxodo 6:13.

É exatamente o que este versículo faz

Compare com Êxodo 7:2: "Você dirá tudo o que eu lhe ordenar."

E agora este: "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram."

O verbo é o mesmo. A frase não conta nada do que aconteceu: devolve a palavra da ordem e declara o cumprimento. É a forma de um relatório, e não a de uma narrativa.

Convém marcar o limite. O Êxodo não diz que está imitando documento administrativo, e a fórmula "e fez assim" é comum na narrativa hebraica desde o Gênesis, em contextos que nada têm de burocráticos. O que este item mostra é que a forma era reconhecível para quem vivia naquele mundo — não que o livro a tenha copiado de algum lugar.

Por que uma frase dessas não soa vazia

Para nós, "assim fizeram" parece pouco — parece que o texto pulou a parte interessante.

Para quem conhecia o formato, era o contrário. A frase que fecha um ciclo de ordem é a que tem valor: ela transforma uma instrução em fato registrado. É o carimbo, não o resumo.

E é por isso que o Êxodo pode usá-la sem contar nada: quem lê não precisa da cena. Precisa do registro.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés e Arão fizeram"

Três observações, e a primeira é de contraste.

Esta é a primeira vez que o Êxodo registra os dois obedecendo juntos. Antes disto, Arão tinha falado ao povo e feito sinais (Êxodo 4:30), e os dois tinham ido a Faraó (Êxodo 5:1) — mas em nenhum desses lugares o texto usa a fórmula do cumprimento.

A segunda é sobre a ordem dos nomes. Moisés vem primeiro, como em quase todo o livro. No capítulo anterior, em Êxodo 6:26, a ordem tinha se invertido por uma linha, e o estudo daquele versículo trata do motivo. Aqui a ordem normal voltou e não se move mais.

A terceira está no hebraico e some na tradução: o verbo está no singular, embora os sujeitos sejam dois. A frase começa tratando os dois homens como um só, e termina no plural. O item 10 mostra a construção.

"como o SENHOR lhes ordenou"

Esta é a metade que devolve a palavra da ordem.

O verbo "ordenar" é exatamente o mesmo de Êxodo 7:2 — "tudo o que eu lhe ordenar". A frase do cumprimento repete o vocabulário da instrução, e o item 2 mostra que essa repetição era, naquele mundo, a forma de demonstrar que a ordem tinha sido entendida.

Repare, porém, num detalhe de número. A ordem de Êxodo 7:2 foi dada a Moisés, no singular: você dirá. Aqui o cumprimento é atribuído aos dois, e a ordem é descrita como tendo sido dada a ambos — "lhes ordenou".

Isso não é erro nem desatenção: em Êxodo 7:1 a fala inteira começou com o SENHOR dizendo a Moisés, e em Êxodo 6:13 já tinha havido uma ordem dada expressamente aos dois. O versículo trata o encargo como conjunto, e é assim que o livro vai tratá-lo daqui em diante.

"assim fizeram"

Duas palavras que repetem o que a frase já disse. E a repetição é o ponto.

Em hebraico, o versículo abre e fecha com o mesmo verbo — fizeram... fizeram —, com a instrução entre os dois. É uma moldura, e ela serve para uma coisa só: dizer que não sobrou nada.

O efeito é o mesmo de "tudo" em Êxodo 7:2. Lá a palavra fechava a margem de quem transmite; aqui a moldura fecha a margem de quem executa. Não se diz que fizeram bastante, nem que fizeram o principal: diz-se que fizeram, e que assim fizeram.

E fizeram o quê?

Aqui está o que o versículo tem de mais estranho, e é preciso ir devagar.

Volte aos cinco versículos anteriores e procure uma ordem. Não há nenhuma.

Êxodo 7:1 é uma declaração de posição — eu o constituí, Arão será. Êxodo 7:2 descreve o que cada um dirá, no futuro. Êxodo 7:3, 7:4 e 7:5 dizem o que Deus fará. Em parte alguma se diz "vá", "vão", "façam".

E a ida a Faraó não acontece neste versículo. Ela só acontece em Êxodo 7:10, depois de uma segunda fala e de uma instrução sobre o cajado.

Ou seja: o versículo registra um cumprimento antes de mostrar o que foi cumprido, e a respeito de instruções que o próprio capítulo não formulou como ordem.

O que se pode e o que não se pode concluir disso

Três leituras circulam, e vale expor o que cada uma custa.

A primeira trata o versículo como fecho de bloco: ele encerra a fala dos versículos 1 a 5 com a nota de que foi obedecida, e o relato dos acontecimentos começa depois. A favor: é como o hebraico costuma fechar seções. Contra: o conteúdo da obediência fica sem objeto no texto.

A segunda trata o versículo como resumo antecipado: ele adianta, numa linha, tudo o que os dois farão dali por diante. A favor: explica por que não há cena. Contra: o hebraico usa o tempo do relato, e não o de um sumário.

A terceira observa que o versículo segue imediatamente uma fala e precede outra, e conclui que ele pertence a uma costura entre partes do texto. A favor: explica a posição. Contra: é hipótese sobre a formação do livro, e não leitura do que está escrito.

Não é possível decidir entre as três, e este estudo não decide. O que se pode afirmar é o dado: a obediência é declarada, e o que foi obedecido não está mostrado.

O que o versículo cala

Vale enumerar, porque a lista é longa para uma frase tão curta.

Não há fala. Nenhum dos dois diz nada — nem "sim", nem pergunta, nem objeção. É a primeira fala divina do livro que Moisés não contesta.

Não há estado de espírito. Não se diz se foram com medo, com fé, com relutância ou com pressa.

Não há Arão, no sentido de personagem. Ele é nomeado e agrupado, e nunca se sabe o que pensa.

E não há intervalo. Não se diz quanto tempo passou entre a ordem e o cumprimento.

Essa economia é o traço do versículo, e ela contrasta com tudo o que veio antes. O Êxodo deu quatro capítulos à resistência de um homem e meia linha à obediência de dois.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Aparece aqui pela última vez neste bloco como alguém que faz alguma coisa, e o que ele faz não é descrito.

Vale medir a distância percorrida. Em Êxodo 3:11 ele perguntou "quem sou eu". Em Êxodo 4:13 pediu que fosse enviado outro. Em Êxodo 6:30, quatro versículos antes deste, ainda alegava os lábios. Aqui não diz nada.

O Êxodo não comenta a mudança e não a explica. Registra o resultado e segue.

Arão

É a terceira vez que o livro o mostra agindo, e a terceira vez que ele o faz sem uma palavra própria.

Em Êxodo 4:27 foi ao encontro do irmão; em Êxodo 4:30 falou e fez sinais diante do povo; aqui obedece junto. Em nenhum desses lugares o Êxodo registra uma frase dele por conta própria — e nem aqui, onde acaba de receber um título e uma tarefa.

O SENHOR

Aparece como quem ordenou, no passado, e é mencionado por causa da ordem — não por causa de uma ação nova.

Nos cinco versículos anteriores ele foi o sujeito de quase tudo: constituí, tornarei duro, multiplicarei, porei, tirarei. Neste versículo ele sai da ação e vira referência.

O que ainda não aconteceu

Convém registrar, porque é fácil ler este versículo como se a cena na corte já tivesse ocorrido.

Não ocorreu. A ida a Faraó está em Êxodo 7:10, quatro versículos adiante, depois de uma nova fala e de uma instrução sobre o cajado. Entre este versículo e aquele há ainda a informação das idades, em Êxodo 7:7.

5. Pontos de Ensino

A obediência não rende narrativa

Este é o ensino mais claro do versículo, e ele é sobre o próprio texto.

O Êxodo deu espaço enorme às objeções de Moisés: cada uma tem pergunta, argumento, resposta e contra-argumento. Quando ele finalmente faz o que foi mandado, não há o que contar.

É assim mesmo, e vale reconhecer em vez de lamentar. Resistência tem enredo; cumprimento, não. Quem espera que a vida obediente produza histórias interessantes está esperando do lugar errado.

A prova de que se entendeu é repetir

A frase do cumprimento devolve o vocabulário da ordem — "ordenou", o mesmo verbo de Êxodo 7:2.

O item 2 mostra que era assim que se prestava conta naquele mundo, e o princípio continua servindo. Antes de dizer que entendeu uma instrução, repeti-la com as palavras de quem a deu é a maneira mais barata de descobrir que não se entendeu.

Não se cumpre "o principal"

A moldura do versículo — fizeram, e assim fizeram — existe para dizer que nada ficou de fora.

É o mesmo que a palavra "tudo" faz em Êxodo 7:2, do lado de quem transmite. Aqui, do lado de quem executa.

Há um ensino modesto e incômodo nisso: cumprir uma ordem em parte é uma categoria que o texto não reconhece. Ou se fez como foi dito, ou não se fez como foi dito.

Um sim pode não ter palavras

Não há concordância registrada. Nem "sim", nem "está bem", nem oração, nem declaração de confiança. Há duas pessoas fazendo.

Vale reter isto num ambiente religioso que costuma medir compromisso pelo que se declara. O Êxodo mede pelo que aconteceu, e essa é a única coisa que este versículo registra.

6. Aspectos Filosóficos

A questão: por que a obediência não deixa rastro?

O versículo levanta um problema pequeno e persistente: um mesmo livro dedica quatro capítulos à recusa de um homem e meia linha à obediência de dois.

Não é descuido de quem escreveu. É uma característica do próprio objeto.

Recusar é um ato com conteúdo: tem motivo, tem argumento, tem alternativa proposta. Ela se deixa contar porque há alguma coisa a ser dita — e quem recusa, em geral, explica.

Cumprir não tem esse interior. A ação já foi descrita pela ordem; executá-la não acrescenta informação. Por isso o relato só pode registrar que houve, e não o que foi.

Daí uma consequência que vale notar, porque ela vai além deste texto: tudo aquilo de que se tem registro tende a ser o que se desviou. O que funcionou não gera documento. Quem lê qualquer relato antigo — um livro bíblico, um arquivo, um processo — está lendo, na maior parte do tempo, a coleção dos problemas.

O Êxodo não formula nada disso. Apenas exibe o desequilíbrio: quatro capítulos para o não, três palavras para o sim.

7. Aplicações Práticas

Repetir a ordem antes de executá-la

É a aplicação mais prática do versículo, e vem da forma dele.

A frase do cumprimento usa o vocabulário da instrução. Naquele mundo, era assim que se mostrava ter entendido, e o hábito continua útil: antes de sair para fazer, dizer de volta o que foi pedido, com as palavras de quem pediu.

Serve numa reunião de trabalho, numa consulta médica, numa combinação em casa. O custo é de trinta segundos, e ele revela, quase sempre, que duas pessoas estavam entendendo coisas diferentes.

Parar de discutir não é o mesmo que ter sido convencido

O Êxodo não diz que Moisés mudou de opinião sobre os próprios lábios. Não diz que ele deixou de achar que Faraó não o ouviria — e, aliás, Êxodo 7:4 tinha acabado de confirmar que não ouviria mesmo.

O que se registra é que ele fez.

Isso tem uso em situações concretas. Há coisas que a pessoa faz sem ter resolvido a objeção que tinha, e o texto não trata isso como falha nem como hipocrisia. A discussão pode continuar aberta enquanto a tarefa é cumprida, e o livro registra apenas a segunda parte.

Convém não deformar isso em elogio da obediência cega. Moisés objetou cinco vezes antes, longamente, e o Êxodo registrou todas as objeções sem reprová-las. O que o versículo mostra é o fim de uma conversa, não a proibição de tê-la.

Não esperar que o cumprimento renda alguma coisa

Há uma aplicação discreta na economia do versículo.

Quem faz o que foi combinado raramente tem o que contar. Não há história, não há reconhecimento, não há cena. O Êxodo trata isso com naturalidade: registra e passa adiante.

Quem precisa que a própria obediência produza efeito visível — em casa, no trabalho, numa igreja — vai se decepcionar, e não por culpa de ninguém. É da natureza da coisa, e o texto mostra isso sem precisar dizer.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Fizeram o quê, exatamente?

Esta é a pergunta do versículo, e a resposta honesta é que o texto não mostra.

Nos cinco versículos anteriores não há nenhuma ordem de ir — há declarações de posição e anúncios do que acontecerá. E a ida a Faraó só é narrada em Êxodo 7:10.

As três leituras possíveis estão expostas no item 3, e não é possível decidir entre elas. O que se pode afirmar é o dado: a obediência é declarada antes de o texto mostrar o que foi obedecido.

Por que Moisés não objetou desta vez?

O Êxodo não diz, e é bom resistir à tentação de explicar.

O que se pode observar é a sequência. A última objeção foi em Êxodo 6:30 — "como Faraó me ouvirá?" —, e a resposta veio em quatro tempos: a posição declarada, a tarefa repartida, o prognóstico confirmado e a finalidade dita. Depois disso, o texto registra obediência.

Se a mudança veio da resposta, do cansaço ou de outra coisa, o texto não diz. Quem preenche está escrevendo.

Este versículo diz que Arão concordou?

Não. Diz que fez.

É a mesma coisa que o livro faz com Arão desde o começo: ele é chamado, é designado, recebe título e tarefa, e nunca se registra uma palavra dele a respeito de nada disso. O único dado sobre a atitude dele é este verbo.

A obediência aqui apaga as objeções anteriores?

Não, e o Êxodo não sugere isso.

As objeções de Moisés continuam no livro, registradas por extenso e sem reprovação. O texto não as retira, não as corrige e não diz que foram erradas.

Quem lê este versículo como o momento em que Moisés "finalmente confiou" está acrescentando um estado interior que não está escrito. O que está escrito é um verbo de ação, duas vezes.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma moldura, no Gênesis

Gênesis 6:22 — "Assim fez Noé; tudo o que Deus lhe ordenou, assim ele fez."

É o paralelo mais próximo em toda a Bíblia, e as peças são as mesmas: o verbo de fazer no começo, a ordem no meio, o verbo de fazer de novo no fim. A diferença é que o Gênesis acrescenta "tudo", e o Êxodo confia a completude só à moldura.

A fórmula reduzida

Gênesis 7:5 — "E Noé fez conforme tudo o que o SENHOR lhe havia ordenado."

Um capítulo adiante, a mesma coisa sem a repetição do verbo. Vale a comparação porque mostra que a moldura dupla é uma escolha, e não a única maneira de dizer.

O que este versículo ainda não mostrou

Êxodo 7:10 — "Moisés e Arão foram a Faraó e fizeram como o SENHOR havia ordenado: Arão jogou o seu cajado diante de Faraó e dos seus servos, e ele virou uma serpente."

Quatro versículos adiante, a mesma fórmula reaparece — e desta vez com o ato descrito depois dela. Ponha os dois lado a lado: em Êxodo 7:6 há a declaração sem a cena; aqui há a declaração e a cena.

A ordem que este versículo devolve

Êxodo 7:2 — "Você dirá tudo o que eu lhe ordenar, e Arão, seu irmão, falará a Faraó, para que ele deixe os filhos de Israel saírem da sua terra."

O verbo "ordenar" de Êxodo 7:6 é o mesmo desta frase. O relatório ecoa a instrução, e é assim que se prestava conta naquele mundo — assunto do item 2.

A mesma fórmula, aplicada ao povo

Êxodo 12:28 — "E os filhos de Israel foram e fizeram; como o SENHOR tinha ordenado a Moisés e a Arão, assim fizeram."

Cinco capítulos adiante, a mesma moldura passa dos dois irmãos para o povo inteiro, na véspera da saída. É a mesma construção, com os mesmos verbos.

E onde ela se fecha

Êxodo 40:16 — "Assim fez Moisés; conforme tudo o que o SENHOR lhe ordenou, assim fez."

É o penúltimo capítulo do livro, no acabamento do santuário. A fórmula que entra aqui, em Êxodo 7:6, atravessa o Êxodo inteiro e termina ali — as mesmas palavras, trinta e três capítulos depois.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram.

Texto hebraico

וַיַּעַשׂ מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן כַּאֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה אֹתָם כֵּן עָשׂוּ׃

Transliteração

wa-ya'as Mosheh we-Aharon ka-asher tsiwwah YHWH otam, ken asu.

Análise palavra por palavra

וַיַּעַשׂ — wa-ya'as, "e fez".

Verbo asah, fazer, no Qal, imperfeito com a conjunção que encadeia a narrativa — a forma corrente do relato hebraico.

E está no singular. Ao pé da letra: "e fez Moisés e Arão".

Não é erro. Em hebraico, quando o verbo vem antes de dois ou mais sujeitos, é comum que concorde só com o primeiro. É regra da língua, e nenhuma tradução tem como reproduzi-la sem soar desastrada.

O efeito, ainda assim, é real para quem lê o original: a frase começa tratando os dois homens como uma unidade.

מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן — Mosheh we-Aharon, "Moisés e Arão".

Ordem normal do livro. A inversão que aparece em Êxodo 6:26 — Arão primeiro — é exceção de uma linha, e o estudo daquele versículo trata do motivo.

כַּאֲשֶׁר — ka-asher, "como", "conforme".

Partícula de comparação mais o relativo. É a palavra que amarra a execução à instrução, e ela volta em Êxodo 7:10 e em Êxodo 7:20, sempre no mesmo lugar da frase.

צִוָּה — tsiwwah, "ordenou".

Raiz tsavah no Piel, perfeito de terceira pessoa masculina do singular.

É o mesmo verbo de Êxodo 7:2, ali na primeira pessoa do futuro — atsawwekka, "eu lhe ordenar" —, e aqui no passado, com Deus como sujeito. A ordem e o relatório usam a mesma palavra, e o item 2 mostra por que isso importava naquele mundo.

⚠️ Repita-se o aviso, porque as três palavras caíram perto: esta raiz não tem relação com tsava, "exército", de Êxodo 7:4, embora as duas soem parecidas em transliteração.

אֹתָם — otam, "a eles".

Partícula de objeto direto com sufixo de terceira pessoa masculina do plural.

Note o contraste com o começo da frase: o verbo estava no singular, e este sufixo está no plural. O mesmo versículo trata os dois homens como um e depois como dois, em cinco palavras de distância.

É o mesmo fenômeno que aparece em Êxodo 6:26, onde um pronome no singular convive com um "a eles" no plural na mesma oração — e o item 10 daquele versículo o registra.

כֵּן עָשׂוּ — ken asu, "assim fizeram".

Aqui está o achado do item.

Ken é o advérbio "assim", "desse modo". Asu é o mesmo verbo do começo da frase — asah, fazer —, agora no perfeito de terceira pessoa do plural.

Ponha a frase inteira em fila e veja o desenho:

fez (singular) — Moisés e Arão — conforme ordenou o SENHOR a eles (plural) — assim fizeram (plural).

São duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira é a moldura: o mesmo verbo abre e fecha, com a instrução no meio. O hebraico usa essa construção para dizer que o que foi mandado e o que foi feito coincidem — nada sobrou, nada foi acrescentado.

A segunda é a passagem do singular ao plural. A frase começa com um verbo que trata os dois como um bloco e termina com um verbo que os conta como dois.

Convém marcar o limite: a primeira concordância é exigida pela gramática, como se explicou acima, e a segunda é a normal. Ler intenção nisso é leitura possível e não é demonstrável. O que é verificável é a alternância.

A fórmula, e onde ela vai dar

Vale registrar, porque é o que faz deste versículo curto um versículo importante.

Esta construção — fazer, conforme foi ordenado, assim fazer — já tinha aparecido no Gênesis, a respeito de Noé, em Gênesis 6:22. Entra no Êxodo aqui.

E daqui em diante ela atravessa o livro: volta em Êxodo 7:10 e 7:20, na execução dos primeiros sinais; passa ao povo inteiro em Êxodo 12:28; e fecha o livro nos capítulos do santuário, em Êxodo 39:32 e 40:16, onde é usada para dizer que a obra ficou conforme a instrução.

É a fórmula com que o Êxodo mede obediência, e este é o lugar em que ela é aplicada pela primeira vez a Moisés e Arão.

O que o hebraico faz e o português não faz

Duas perdas.

O verbo singular diante de dois sujeitos, que em português seria erro e em hebraico é regra.

E a moldura, que nossa versão conservou — "fizeram… assim fizeram" — e que muitas traduções abrandam por parecer repetição desnecessária.

11. Conclusão

Duas conclusões, e uma ressalva.

A primeira: a obediência é registrada, não narrada.

O versículo não conta o que os dois fizeram, não descreve estado de espírito e não registra uma palavra de nenhum deles. Usa a forma de um relatório: devolve o verbo da ordem e declara o cumprimento, com uma moldura que existe para dizer que nada ficou de fora. Conclui-se que o Êxodo mede obediência pelo ajuste entre o que foi mandado e o que foi feito — e que não considera necessário mostrar o segundo quando já mostrou o primeiro.

A segunda: o contraste com o que veio antes é a informação do versículo.

Quatro capítulos de objeção de um lado; três palavras do outro. Conclui-se que o livro não trata a resistência de Moisés como falha a ser corrigida — ela ficou registrada por extenso e não foi reprovada — e que também não trata a obediência como conquista a ser celebrada. Uma teve enredo; a outra tem carimbo.

A ressalva: o que foi cumprido não está mostrado.

Não há ordem de ir nos cinco versículos anteriores, e a ida a Faraó só acontece em Êxodo 7:10. Três leituras explicam a posição da frase, e nenhuma se impõe sobre as outras. Conclui-se apenas o que é verificável — a declaração de cumprimento vem antes do relato do que foi cumprido —, e quem escolher entre as explicações deve dizer que escolheu.

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