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Êxodo 6:30

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 34 acessos
Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?”
Homem de perfil, com a boca fechada e o olhar baixo, diante de um horizonte vazio ao fim da tarde.

Estudo


Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?”

1. Introdução

O capítulo termina como o bloco tinha começado: com Moisés objetando, e sem resposta.

São quase as mesmas palavras do versículo 12 — a mesma fórmula de abertura, a mesma imagem, a mesma pergunta final. Mas não são exatamente as mesmas, e as diferenças são o assunto deste estudo.

A objeção encolheu. No versículo 12, Moisés apresentou duas coisas: um fato verificável — o próprio povo não o tinha ouvido — e uma alegação sobre si mesmo. Aqui, o fato sumiu. Sobrou a alegação.

E a ordem se inverteu. Lá, a frase sobre si mesmo vinha por último, como um acréscimo. Aqui ela vem primeiro, logo depois do "eis que", e ocupa o lugar que era do argumento.

O resultado é uma objeção mais curta, mais nua e mais fraca — porque perdeu a prova que tinha. E é com ela que o capítulo acaba: sem réplica, sem concessão e sem resposta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde este texto realmente termina

A sensação de que o capítulo acaba num impasse é real, e é em parte produzida por uma decisão editorial que não é do texto. Vale separar as duas coisas.

A divisão da Bíblia em capítulos é medieval e europeia, e a divisão em versículos é ainda mais recente; quem as introduziu e quando está tratado no estudo de Gênesis 19:27. O que interessa aqui é a consequência: a fronteira entre este capítulo e o seguinte é uma marca de edição posta muitos séculos depois, e o texto hebraico corre sem ela.

O que o texto hebraico tem, e é muito mais antigo

Um rolo da Torá não é escrito em bloco corrido. Ele tem divisões próprias, feitas com espaço em branco, e que fazem parte das regras de como um rolo deve ser copiado.

São de dois tipos. A divisão aberta — petuchah, "aberta", em hebraico — deixa o resto da linha em branco e começa a seção seguinte numa linha nova. A divisão fechada — setumah, "fechada" — deixa apenas um vão no meio da linha, e o texto continua na mesma linha depois do espaço.

Essas marcas são a paragrafação que o texto de fato traz. Não são numeradas, não têm título, e o único recurso delas é o espaço — mas elas dizem onde uma unidade termina e outra começa, e são muito anteriores à numeração dos capítulos: espaços desse tipo já aparecem nos rolos achados junto ao mar Morto, embora nem sempre nos mesmos pontos dos manuscritos posteriores.

A unidade de leitura a que este versículo pertence

Há ainda outra divisão, e é a que mais importa aqui: a das porções semanais lidas na sinagoga.

A porção que se abre em Êxodo 6:2 chama-se Va'era ("apareci", a primeira palavra significativa do versículo 3, em hebraico), e vai de Êxodo 6:2 até Êxodo 9:35. Dentro dela, a leitura é repartida em sete trechos. O primeiro vai de Êxodo 6:2 a 6:13. O segundo cobre a genealogia inteira e mais os dois versículos de identificação, de Êxodo 6:14 a 6:28.

E o terceiro começa em Êxodo 6:29 — e vai até Êxodo 7:7.

Quer dizer: na tradição de leitura, este versículo não é um fim. Ele está no meio de uma unidade que atravessa a fronteira do capítulo sem parar. Quem ouve a leitura na sinagoga recebe a ordem, a objeção e o que vem depois dela como um bloco só.

O que isso muda, e o que não muda

Muda a impressão de suspense. O impasse dramático com que este capítulo parece terminar é, em boa medida, efeito de uma linha traçada no século treze, e não de uma decisão de quem escreveu.

Não muda o dado. A objeção deste versículo fica sem resposta neste versículo, em qualquer divisão que se adote, e nada no que foi dito até aqui a responde. O que se pode afirmar é isto, e não mais do que isto: o texto registra a objeção e não a trata. Qual é a continuação, e se ela responde ou muda de assunto, é matéria do capítulo seguinte e do estudo dele.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas Moisés respondeu diante do SENHOR"

A fórmula é a mesma do versículo 12, e há nela um detalhe que o português quase apaga: o hebraico não diz que Moisés falou ao SENHOR, e sim diante dele.

A diferença é pequena e é real. "Falar a alguém" é conversa; "falar diante de alguém" é a linguagem de quem se apresenta — de quem está na presença de uma autoridade e diz o que tem a dizer ali, no espaço dela. É a mesma construção que a Bíblia usa para o que se faz no santuário, e aqui não há santuário nenhum.

O efeito é o de uma alegação apresentada, e não de uma réplica lançada. Moisés não interrompe e não contesta a autoridade de quem mandou: ele expõe uma dificuldade no lugar em que ela deve ser exposta.

Vale ainda registrar uma troca de verbo entre as duas versões, porque é curiosa. No versículo 12, o verbo é o de falar — exatamente o verbo que Moisés alega não conseguir exercer. Aqui é o verbo comum de dizer. O texto não comenta, e a nossa versão traduz os dois por "respondeu", que é o que o português pede.

"Eis que sou incircunciso de lábios"

A imagem é a mesma do versículo 12, e o sentido dela — a palavra do rito da aliança aplicada à boca — está tratado ali, no estudo daquele versículo.

O que é próprio deste versículo é a posição da frase, e ela mudou de lugar.

No versículo 12, a ordem era esta: primeiro o fato — os filhos de Israel não me ouviram —, depois a pergunta — como Faraó me ouvirá? —, e só no fim, quase como um acréscimo, a frase sobre si mesmo. A alegação pessoal vinha pendurada no fim do argumento.

Aqui, ela vem primeiro, logo depois do "eis que", ocupando exatamente o lugar em que antes estava o fato. E a pergunta vem depois dela.

Traduzindo o que a inversão faz: no versículo 12, a razão de Faraó não ouvir era o comportamento do povo; a boca de Moisés era um agravante. Aqui, a razão de Faraó não ouvir é a boca de Moisés, e não há mais nada.

O que desapareceu

Este é o achado do versículo, e ele é uma ausência.

No versículo 12, Moisés tinha um argumento de fato. Ele podia apontar para o versículo 9 e dizer: aconteceu, e está registrado — o povo não me ouviu. Era a primeira vez, em todo o livro, que uma objeção dele se apoiava em alguma coisa verificável, e não numa alegação sobre si mesmo. Em Êxodo 4:10, ele tinha alegado a própria boca; no versículo 12 deste capítulo, ele tinha uma prova.

Essa prova não está aqui. Nem em resumo, nem por alusão. A frase sobre o povo simplesmente sumiu da segunda versão da objeção.

Duas leituras se oferecem, e convém apresentar as duas.

A primeira é de forma. Repetições encurtam. Foi o que aconteceu entre os versículos 26 e 27, onde "da terra do Egito" virou "do Egito" na segunda passagem; é o comportamento normal de um texto que retoma o que já disse. Nessa leitura, o argumento do povo não sumiu por nenhuma razão de conteúdo: sumiu porque a segunda vez é mais curta, e o leitor deve completá-la com o que leu antes.

A segunda é de conteúdo. Tirado o argumento circunstancial, o que sobra é a alegação que Moisés vem fazendo desde Êxodo 4:10 — e que ele nunca abandonou, mesmo depois de ter recebido Arão para falar por ele. Nessa leitura, a objeção volta ao osso: no fim, o que ele alega não é o povo, não é o rei, não é a dificuldade da missão. É ele mesmo.

Não é possível decidir entre as duas, e elas não se excluem — uma explica o mecanismo, a outra o efeito. O que se pode afirmar com segurança é o fato: a objeção que fecha o capítulo é mais curta e mais fraca do que a que o abriu, e o que ela perdeu foi justamente a parte que se podia verificar.

"como Faraó me ouvirá?"

A pergunta é a mesma, e vale reparar em três coisas.

A primeira: é uma pergunta, e não uma recusa. Moisés não diz que não irá — como havia dito, com todas as letras, em Êxodo 4:13. Ele pergunta como é que aquilo vai funcionar.

A segunda: o verbo é ouvir, e é o verbo que costura o capítulo inteiro. O povo não ouviu, no versículo 9. Faraó não ouvirá, aqui. E no versículo 7 estava a promessa de que "vocês saberão que eu sou o SENHOR". O capítulo é feito da distância entre o que é dito e o que é ouvido.

A terceira: a pergunta é sobre Faraó, e não sobre Deus. Moisés não está pondo em dúvida quem o manda; está pondo em dúvida o efeito de uma fala sobre um homem que já recusou uma vez.

E acaba assim

Falta dizer o que o capítulo faz com a objeção, e a resposta é: nada.

Não há réplica. Não há repreensão — o texto não diz que Moisés errou em perguntar. Não há concessão — ninguém lhe oferece nada de novo. Não há sequer um comentário do tipo que o Êxodo sabe fazer quando quer. A frase termina, e o capítulo termina com ela.

Vale registrar o que isso significa e o que não significa. Não significa que a objeção fique sem resposta para sempre — o texto continua, e a continuação é assunto do capítulo seguinte. Significa que, neste ponto, o Êxodo escolheu parar no meio de uma dificuldade não resolvida, com a última palavra do capítulo na boca de quem objeta.

É um fecho incomum, e vale não amaciá-lo. O capítulo que começou com "agora você verá o que farei a Faraó" termina com "como Faraó me ouvirá?".

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

O único personagem em cena, e o dono da última palavra do capítulo.

Esta é a quarta objeção dele desde o chamado: em Êxodo 4:1 duvidou de que acreditassem nele; em Êxodo 4:10 alegou a própria boca; em Êxodo 4:13 pediu que outro fosse; em Êxodo 6:12 alegou o fracasso com o povo. A deste versículo é a repetição da anterior, com uma parte a menos.

A esta altura ele já recebeu três sinais, já tem Arão encarregado de falar por ele e já ouviu cinco promessas em primeira pessoa. Nenhuma dessas coisas aparece na objeção.

O SENHOR

Presente como interlocutor, e ausente como respondente. A fala dele imediatamente anterior — a ordem do versículo 29 — é a última coisa que ele diz neste capítulo.

Faraó

Mencionado, e nomeado só pelo título. É o obstáculo previsto e o sujeito do verbo "ouvir" na pergunta final.

O que o leitor sabe dele até aqui: recusou conhecer o SENHOR em Êxodo 5:2, mandou os dois de volta ao trabalho e agravou as condições do povo. A pergunta de Moisés não é abstrata — apoia-se numa audiência que já aconteceu e que já deu errado.

O povo, por ausência

Os filhos de Israel não são mencionados neste versículo, e a ausência deles é o dado. No versículo 12, eram eles o primeiro argumento da objeção. Aqui, sumiram da frase.

O que aconteceu com eles está no versículo 9: ouviram e não ouviram, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão.

O ponto em que o capítulo para

Vale fixar a posição, porque ela é incomum. O capítulo 6 abriu com um anúncio — "agora você verá o que farei a Faraó" — e fechou com uma pergunta sobre se Faraó vai ouvir. Entre as duas pontas houve um nome, cinco promessas, um fracasso, uma genealogia e duas identificações. Nenhuma dessas coisas é retomada na última frase.

5. Pontos de Ensino

Uma objeção repetida nem sempre é a mesma objeção

As palavras são quase iguais às do versículo 12, e o conteúdo não é: sumiu o argumento de fato e sobrou a alegação pessoal.

Ensina a comparar de perto quando um texto se repete. A diferença entre duas frases quase idênticas costuma ser o lugar onde está a informação — e, neste caso, a diferença é o que foi tirado.

Perguntar não é recusar

Moisés não diz que não vai. Ele pergunta como aquilo vai funcionar. É outra coisa, e o texto não o repreende por isso.

Vale reter contra a leitura devocional apressada, que costuma tratar toda pergunta como falta de fé. Aqui o Êxodo registra a pergunta sem avaliar quem a fez.

O que sobra quando se tira a prova

Tirado o argumento verificável, o que resta da objeção é uma alegação sobre si mesmo — e ela é justamente a que Moisés vem fazendo desde o capítulo 4, apesar de tudo o que recebeu no meio do caminho.

É um ponto duro e honesto: sinais, promessas e um porta-voz não desfizeram a avaliação que ele faz de si. O texto registra isso sem comentar.

Um capítulo pode terminar sem solução

Não há réplica, não há repreensão, não há concessão. A dificuldade fica de pé e o capítulo acaba.

Vale como correção de expectativa: a Bíblia nem sempre fecha o que abre no espaço em que abriu. Quem exige desfecho em cada trecho acaba inventando o que não está lá.

Ouvir é o verbo do capítulo

O povo não ouviu. Faraó ouvirá? E no meio há a promessa de que saberão quem é o SENHOR. O capítulo inteiro se organiza em torno da distância entre o que se diz e o que chega.

É um bom fio para reler o trecho de uma vez só, e é o tipo de padrão que só aparece quando se lê o capítulo inteiro em vez de versículo a versículo.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão pequena e incômoda: o que sobra de uma objeção quando se retira a prova dela?

No versículo 12, Moisés tinha duas coisas bem diferentes na mão. Tinha um fato — o povo não o ouviu — que qualquer pessoa poderia conferir, e que valia independentemente de quem o alegasse. E tinha uma alegação sobre si mesmo, que ninguém pode conferir, porque só ele tem acesso a ela.

Aqui, a primeira sumiu. E o que resta é a que não se pode examinar.

A diferença entre os dois tipos de razão merece ser vista com calma, porque ela reaparece em toda discussão humana. Uma razão de fato pode ser respondida: quem discorda a verifica, a contesta, mostra que mudou. Uma razão de si não tem esse caminho. Quem diz "não sou capaz" não oferece nada que o outro possa examinar — e, por isso mesmo, não oferece nada que o outro possa desmontar.

Daí um efeito curioso, e é ele que o versículo põe à mostra. A objeção encolheu e ficou mais fraca como argumento, porque perdeu o que tinha de verificável. E ficou, ao mesmo tempo, mais difícil de responder — porque o que sobrou é justamente aquilo de que ninguém consegue tirar alguém pelo raciocínio.

O capítulo não faz esse comentário, e é bom não atribuí-lo a ele. O que o Êxodo faz é registrar a objeção na forma reduzida e encerrar o capítulo sem lhe dar resposta.

7. Aplicações Práticas

Distinguir a dificuldade real da avaliação de si

Moisés junta duas coisas numa frase só: um obstáculo externo — o rei não vai ouvir — e um juízo sobre si mesmo. Na segunda versão da objeção, o obstáculo externo desaparece e sobra o juízo.

Vale como exercício prático diante de qualquer recusa própria: separar, no papel, o que é impedimento verificável e o que é avaliação pessoal. As duas coisas costumam vir grudadas, pedem resposta diferente e só a primeira pode ser conferida.

Perguntar antes de sair

Ele não diz que não vai. Pergunta como. É uma forma legítima de tratar uma incumbência difícil, e o texto não a censura.

Há uma diferença prática entre levantar a dificuldade e recusar a tarefa, e quem trabalha com outras pessoas ganha muito em fazer a primeira em voz alta, cedo, em vez de deixá-la apodrecer calada.

Conviver com o que não foi respondido

O capítulo acaba sem que a dificuldade seja tratada. Ninguém a resolve, ninguém a desmente, ninguém a repreende.

É uma descrição fiel de como muita coisa acontece: a pergunta fica de pé e o dia seguinte chega assim mesmo. Não é conforto, e não pretende ser — é apenas o reconhecimento de que seguir sem resposta é uma situação comum, e não um sinal de que algo deu errado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a objeção é repetida, se já tinha sido feita no versículo 12?

Porque o texto está retomando o fio depois da genealogia, e a retomada repete o ponto em que parou — inclusive a objeção. O procedimento está descrito no estudo de Êxodo 6:28.

Por que sumiu a parte sobre o povo não ter ouvido?

Há duas explicações e elas não se excluem. Repetições encurtam, e a segunda versão de qualquer coisa costuma ser mais rápida; e, tirado o argumento circunstancial, sobra a alegação que Moisés vem fazendo desde Êxodo 4:10. Não é possível decidir qual pesa mais.

Moisés está se recusando a ir?

Não é o que ele diz. Ele faz uma pergunta sobre como a coisa vai funcionar. A recusa explícita aconteceu antes, em Êxodo 4:13, e a formulação aqui é outra.

O texto repreende Moisés por objetar?

Não. Não há adjetivo, não há avaliação e não há comentário. O Êxodo registra a objeção e encerra o capítulo. Qualquer juízo sobre ela é do leitor, não do texto.

Por que "diante do SENHOR" e não "ao SENHOR"?

É o que o hebraico traz, nas duas versões da objeção. A construção é a de quem se apresenta na presença de uma autoridade, e não a de uma conversa comum. A nossa versão a conserva.

O capítulo termina mesmo sem resposta?

Termina. Nada no que foi dito até aqui responde à pergunta. Vale acrescentar que a fronteira do capítulo é uma marca de edição medieval, e que na tradição de leitura judaica este versículo abre uma unidade que continua adiante — assunto do item 2.

De que adiantaram os sinais e o porta-voz, se a objeção volta igual?

É a pergunta que o versículo deixa e que ele não responde. O que se registra é o fato: a alegação de Moisés sobre si mesmo atravessa três capítulos sem se alterar, apesar de tudo o que ele recebeu no caminho.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira versão desta mesma objeção

Êxodo 6:12 — "Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: 'Se os filhos de Israel não me ouviram, como Faraó me ouvirá, sendo eu incircunciso de lábios?'"

Compare as duas com atenção: aqui há três elementos, e ali sobram dois. O que falta na segunda versão é a parte sobre o povo.

O fato em que a primeira versão se apoiava

Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."

É o versículo que dava ao argumento do versículo 12 a sua força de prova — e que já não é invocado neste.

A alegação original, dois capítulos antes

Êxodo 4:10 — "Então Moisés disse ao SENHOR: 'Ai, meu Senhor! Eu não sou homem de palavras, nem ontem, nem anteontem, nem desde que falaste ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua.'"

A mesma queixa, com outras palavras e antes de tudo o que veio depois — dos sinais, de Arão, das promessas. Ela atravessa o livro sem se alterar.

A recusa que esta objeção não repete

Êxodo 4:13 — "Mas ele disse: 'Ai, meu Senhor! Envia por meio de quem quiseres enviar.'"

Ali houve recusa direta. Aqui há pergunta. A diferença entre as duas formas é a diferença entre pedir dispensa e levantar dificuldade.

Um lábio inadequado, em outro profeta

Isaías 6:5 — "Então eu disse: Ai de mim, porque estou perdido! Sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos."

O paralelo mais próximo em toda a Bíblia: o enviado alegando a própria boca no momento do chamado. A imagem é diferente — ali é impureza, aqui é a do rito da aliança —, e o movimento é o mesmo.

A mesma estrutura em outros chamados

Jeremias 1:6 — "Então eu disse: Ah, Senhor DEUS! Eis que não sei falar, porque sou uma criança."

Juízes 6:15 — "E ele lhe disse: Ai, Senhor, com que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais fraca em Manassés, e eu sou o menor na casa de meu pai."

Nos três casos, o enviado responde ao encargo com uma alegação sobre a própria insuficiência — e nos três a alegação abre com a mesma partícula, "eis que".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה לִפְנֵי יְהוָה הֵן אֲנִי עֲרַל שְׂפָתַיִם וְאֵיךְ יִשְׁמַע אֵלַי פַּרְעֹה׃

Transliteração

wa-yomer Mosheh lifnei YHWH: hen ani aral sefatayim, we-ekh yishma elai Par'oh.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר — wa-yomer, "e disse". Verbo amar, o mais comum dos verbos de fala em hebraico, na forma que encadeia a narrativa.

Vale a comparação com o versículo 12, que usa outro verbo: ali é wa-yedabber, "e falou", do mesmo verbo que dá a ordem do versículo 29 e que Moisés alega não conseguir exercer. A nossa versão traduz os dois por "respondeu", porque em português a distinção não se sustenta sem tornar a frase artificial. O texto não comenta a troca, e ela pode não significar nada.

לִפְנֵי יְהוָה — lifnei YHWH, "diante do SENHOR". Literalmente "às faces do SENHOR": a preposição é formada sobre a palavra panim, "rosto".

A escolha não é banal. O hebraico tem uma construção simples para "falar a alguém" — a preposição el, usada no capítulo inteiro. Aqui e no versículo 12 a construção é outra, e ela pertence ao registro da apresentação: é a expressão que a Bíblia emprega para o que se faz na presença de uma autoridade, e também para o que se faz no santuário.

Traduzir por "ao SENHOR" apagaria essa diferença. Por isso a nossa versão conserva "diante do SENHOR".

הֵן — hen, "eis que". Partícula que aponta e apresenta: põe diante do interlocutor aquilo que vem em seguida.

É a mesma partícula com que a objeção do versículo 12 começa, e é a mesma com que os enviados da Bíblia costumam abrir as suas alegações de insuficiência — está em Jeremias 1:6 e, numa variante muito próxima, em Juízes 6:15.

O que ela faz aqui é decisivo para a comparação entre as duas versões: a partícula marca o que vem logo depois dela como o ponto principal da alegação. No versículo 12, o que vinha depois do "eis que" era o povo. Aqui, é a boca de Moisés.

אֲנִי עֲרַל שְׂפָתַיִם — ani aral sefatayim, "eu [sou] incircunciso de lábios". Frase sem verbo, que é a construção normal do hebraico para "eu sou".

Aral é o adjetivo em forma construta, ligado ao substantivo seguinte. A imagem — a palavra do rito da aliança aplicada a um órgão que não é o do rito — está desenvolvida no estudo de Êxodo 6:12, e não se reabre aqui.

Sefatayim é "lábios" no dual, a forma que o hebraico reserva para o que vem naturalmente aos pares: olhos, mãos, orelhas, lábios. Não é plural de quantidade; é o par.

Repare na diferença de ordem entre os dois versículos, que é o achado deste. No versículo 12, esta frase vem no fim, introduzida por uma conjunção — "e eu incircunciso de lábios" —, pendurada depois da pergunta. Aqui ela vem logo depois da partícula de apresentação, e a pergunta é que vem depois dela. Os mesmos elementos, em ordem trocada.

וְאֵיךְ יִשְׁמַע אֵלַי פַּרְעֹה — we-ekh yishma elai Par'oh, "e como me ouvirá Faraó?". Ekh é o advérbio interrogativo "como", e introduz aqui uma pergunta retórica: quem a faz não espera instrução, espera que se reconheça a impossibilidade.

Yishma é o verbo shama, "ouvir", no imperfeito — a forma que em hebraico cobre o que ainda não aconteceu. É o verbo que atravessa o capítulo: é ele que aparece no versículo 9, onde o povo não ouviu, e no versículo 12, onde Faraó é o sujeito da mesma pergunta.

E o verbo, em hebraico, não é só perceber o som. Shama cobre também atender, obedecer, dar ouvidos — e é esse o sentido em jogo. A pergunta não é se o rei vai escutar as palavras; é se vai acatá-las.

Há ainda uma pequena diferença de construção entre as duas versões que vale registrar. No versículo 12, o hebraico prende o pronome ao próprio verbo — algo como "como me-ouvirá Faraó". Aqui, separa: o verbo vem sozinho e o "a mim" vem depois, com preposição. É variação de estilo, sem mudança de sentido, e é mais um sinal de que a segunda versão não é cópia literal da primeira.

O que o hebraico deixa ver e o português não

Quem lê as duas objeções no original percebe imediatamente que a segunda é mais curta, que os elementos trocaram de posição e que um deles não voltou. Em português, com a mesma imagem e a mesma pergunta nos dois versículos, a impressão é a de repetição pura — e a informação mais importante do versículo, que é o que foi tirado, passa despercebida.

Por isso a nossa versão conserva a ordem do hebraico em cada uma das duas, em vez de uniformizar as duas frases. As diferenças entre elas são o conteúdo.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo, e a terceira é sobre o capítulo inteiro.

A objeção voltou reduzida. As palavras são quase as mesmas do versículo 12, e o que falta é a parte que se podia conferir: o fato de o povo não ter ouvido. Sem ela, a alegação que sustentava a objeção passa a ser só uma — a que Moisés faz sobre a própria boca, e que vem fazendo desde Êxodo 4:10, sem que nada do que recebeu no meio do caminho a tenha alterado. A inversão da ordem confirma o movimento: o que antes era acréscimo virou o centro.

O texto não avalia isso. Não há repreensão, não há elogio, não há nota. Moisés pergunta, e a pergunta fica. Quem quiser tratar a cena como falta de fé estará acrescentando um juízo que o Êxodo não emitiu — e quem quiser tratá-la como coragem estará fazendo o mesmo, na direção oposta.

E o capítulo acaba aqui, numa pergunta. O mesmo capítulo que se abriu com "agora você verá o que farei a Faraó" fecha com "como Faraó me ouvirá?". Entre as duas pontas houve a identificação pelo nome, cinco promessas em primeira pessoa, um povo que não conseguiu ouvir, uma genealogia inteira e dois versículos apontando para os dois homens escolhidos. Nada disso é retomado na última frase, e nada disso responde a ela. O que o texto faz, neste ponto exato, é parar — deixando a última palavra do capítulo com quem objeta.

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