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Êxodo 6:12

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 28 acessos
Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Se os filhos de Israel não me ouviram, como Faraó me ouvirá, sendo eu incircunciso de lábios?”
Homem de meia-idade de pé num pátio de barro ao fim da tarde, mão erguida junto à boca num gesto de quem hesita, olhando para longe, com sombras compridas no chão e ninguém mais por perto.

Estudo


Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Se os filhos de Israel não me ouviram, como Faraó me ouvirá, sendo eu incircunciso de lábios?”

1. Introdução

Moisés já tinha objetado quatro vezes, no capítulo 4. Esta é a quinta, e ela é diferente das outras por um motivo: agora ele tem um fato.

Nas objeções anteriores, o que ele alegava era hipótese — e se não acreditarem, e se não ouvirem — ou uma característica dele mesmo. Aqui ele começa pelo que acabou de acontecer três versículos antes: os filhos de Israel não o ouviram. Isso é dado, não suposição, e o próprio texto acabou de registrá-lo.

Do fato ele tira uma conclusão sobre o rei do Egito, e é esse salto que merece exame. Se os próprios interessados não deram ouvidos, como daria ouvidos aquele que tem tudo a perder? A forma do raciocínio — do caso menor para o maior — é antiga e reconhecida, e tem tratamento no estudo de Gênesis 44:8.

E há uma terceira peça, que é a imagem do versículo: "incircunciso de lábios". Moisés não repete a queixa de Êxodo 4:10, onde dissera ser pesado de boca. Troca a imagem, e troca por uma que vem do vocabulário da aliança, não do vocabulário da competência. Dizer-se incircunciso é dizer-se fora — sem a marca, não em condição.

Vale reparar, por fim, no que ele deixa de lado. O versículo 9 deu duas razões pelas quais o povo não ouviu: falta de fôlego e escravidão dura. Moisés cita o resultado e omite as causas. É uma omissão pequena e ela muda tudo, como o item 3 mostra.

O versículo termina em pergunta e não recebe resposta. O que vem a seguir, no versículo 13, é uma ordem — e a mesma objeção reaparecerá, quase palavra por palavra, no fim do capítulo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O corpo como credencial

Moisés alega um defeito do corpo para dizer que não serve para a tarefa. Para o leitor de hoje isso soa como desculpa frágil: o que a boca de alguém tem a ver com a autorização para falar em nome de outro? No mundo do texto, tinha tudo.

Havia, em várias culturas da região, uma regra explícita: quem se aproximava de um deus em nome de outras pessoas precisava ter o corpo inteiro e sem falha. Não era questão de capacidade — era questão de estar apto.

A Mesopotâmia escreveu a regra

O documento mais claro é um texto acádio que os estudiosos conhecem pelo nome do rei que ele põe em cena: Enmeduranki, soberano lendário da cidade de Sipar. O texto conta como os deuses do sol e da tempestade entregaram a ele as artes da adivinhação, e — o que interessa aqui — estabelece quem pode recebê-las.

Conforme a leitura corrente do texto, exige-se do adivinho descendência pura e um corpo perfeito nos membros e nas feições. Quem não cumprir os dois requisitos não pode aproximar-se da presença daqueles deuses. A exigência aparece formulada em termos de acesso: o defeito não torna o homem incompetente, torna-o inadmissível.

Vale marcar a distância: as cópias que sobreviveram desse texto são bem posteriores ao período em que a cena do Êxodo se situa, e ele descreve um ofício específico. Não é possível provar que a regra tivesse essa forma no Egito do século em questão. O que ele documenta é o modo de pensar, e esse é antigo e difundido.

A mesma ideia dentro da Bíblia

Israel tem a sua versão, e ela é conhecida: Levítico 21:16-23 barra do altar o sacerdote com defeito físico, sem deixar de reconhecê-lo como sacerdote. O texto, as leituras mais duras que circularam depois e os limites do que ali se diz estão tratados no estudo de Mateus 15:30, e não se refazem aqui.

O que importa neste versículo é a consequência: a imagem de que Moisés se serve pertence a essa família de ideias. Ele não diz que fala mal — diz que os lábios dele estão na condição errada.

E o Egito, que pensava diferente

Aqui está o dado que torna a objeção interessante, e ele é um contraste.

O Egito não excluía do serviço público quem tivesse o corpo fora do padrão. O caso mais conhecido é o de Seneb, funcionário do Império Antigo, anão, casado com uma mulher de família ligada à corte e titular de cargos de responsabilidade, entre eles o de encarregado dos anões do palácio e funções sacerdotais; o conjunto escultórico que o representa com a esposa e os filhos está no museu do Cairo e é uma das peças mais reproduzidas da arte egípcia. Não é exceção isolada: a documentação egípcia mostra pessoas com deficiências ocupando cargos e recebendo sepultamento honroso.

Some-se a isso o que já ficou estabelecido no estudo de Êxodo 4:10: diante de um rei, o requisito prático do enviado era falar bem em voz alta, porque a embaixada era um ato oral.

O que o contraste revela sobre a objeção

Junte as duas metades e aparece uma assimetria que o Êxodo não comenta e que está no texto.

Moisés alega uma inaptidão ritual — lábios sem a marca, lábios fora de condição — diante de uma corte onde essa categoria não existia e não pesaria nada. A imagem só funciona dentro do universo em que ele está falando: ela é dita a Deus, com a palavra do rito da aliança, e não seria dita assim a um egípcio.

Isso não decide o valor da alegação, e é honesto dizer que o Êxodo não a avalia. O que se pode afirmar é que ela é formulada no vocabulário de quem a ouve — e que, traduzida para os termos da corte egípcia, ela diria outra coisa, ou não diria nada.

Quanto ao rito de que a imagem se serve, o seu lugar, o seu sentido e a aliança a que pertence estão nos estudos de Gênesis 17, e o item 10 recolhe o uso figurado da palavra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas Moisés respondeu diante do SENHOR"

A preposição é "diante de", não "a". Moisés não fala ao SENHOR: fala na presença dele.

A diferença existe no hebraico e é pequena, mas o Êxodo a mantém nos dois lugares em que esta objeção aparece — aqui e no versículo 30 —, e não a usa nas objeções do capítulo 4, onde Moisés fala diretamente ao seu interlocutor. É expressão de quem se pronuncia em audiência, diante de quem tem autoridade, e não de quem conversa.

Duas leituras cabem, e nenhuma se impõe. Numa, a mudança de preposição registra formalidade: Moisés objeta como quem apresenta uma alegação, não como quem discute. Noutra, é apenas variação de estilo, sem peso. Não é possível decidir — o que se observa é que a forma se repete exatamente nos dois versículos em que ele diz a mesma coisa.

"Se os filhos de Israel não me ouviram"

Aqui está a novidade desta objeção, e é grande: ela começa por um fato.

Compare com a primeira objeção do capítulo 4. Em Êxodo 4:1, Moisés disse: "e se eles não acreditarem em mim e não ouvirem a minha voz". Era hipótese, e a resposta que recebeu foram três sinais destinados a cobri-la. Agora não há hipótese nenhuma. O versículo 9 registrou o acontecido, e é a esse registro que ele se refere.

Do ponto de vista da argumentação, isso muda o terreno. A objeção anterior podia ser respondida com garantias sobre o futuro; esta não, porque o que ela alega já aconteceu.

E agora o detalhe que este estudo considera o mais importante do versículo. Moisés cita o resultado e omite as causas.

O texto tinha dito por que o povo não ouviu: falta de fôlego e dura escravidão. São duas razões que atenuam — explicam a recusa pelo estado de quem ouvia. Moisés não menciona nenhuma das duas. Na boca dele, sobra o fato nu: não me ouviram.

A consequência é lógica e é séria. Se o povo não ouviu porque estava sem forças, então esse episódio não diz absolutamente nada sobre o que o rei do Egito fará — o rei não está sem forças, não está sob carga, não tem nada em comum com aquela gente. A premissa, completa, não sustenta a conclusão. Só sustenta depois de podada.

É preciso dizer com cuidado o que isso significa e o que não significa. O Êxodo não acusa Moisés de manipular o argumento: não há comentário, não há reparo, não há avaliação. O que o livro faz é dar ao leitor as duas versões — a sua, no versículo 9, e a de Moisés, aqui — e deixá-las lado a lado. Notar a diferença é leitura; afirmar intenção é acrescentar.

"como Faraó me ouvirá"

O raciocínio vai do caso menor para o maior: se nem os interessados, quanto menos o adversário. A forma é antiga, é reconhecível e está descrita no estudo de Gênesis 44:8.

O que interessa aqui é uma diferença que a forma esconde: os dois "ouvir" não são a mesma coisa.

Quando o povo ouve, o que se espera é adesão — que aceitem a notícia, que creiam. Quando o rei ouve, o que se pede é rendição: que abra mão de uma população de trabalho e reconheça uma autoridade que ele declarou não conhecer, em Êxodo 5:2. São atos de natureza diversa, com custos incomparáveis, e o hebraico usa o mesmo verbo para os dois.

Moisés trata-os como comparáveis, e é isso que faz o argumento parecer forte. A objeção é retoricamente boa e logicamente frouxa — e vale registrar que o texto não a corrige, o que é parte do padrão do capítulo.

"sendo eu incircunciso de lábios"

A frase muda de assunto na última linha. As duas primeiras partes falavam dos outros; esta fala dele.

Comece pela troca de imagem. Em Êxodo 4:10, Moisés se disse pesado de boca e de língua — a alegação de um defeito, com as leituras possíveis expostas no estudo daquele versículo. Aqui a palavra é outra: incircunciso. Não é sinônimo, e a diferença é de categoria.

"Pesado" descreve funcionamento: a boca não trabalha bem. "Incircunciso" descreve condição: falta a marca, falta o que torna apto. A primeira é queixa de competência; a segunda é declaração de inaptidão, e vem do vocabulário da aliança — a palavra do rito que Gênesis 17 institui.

O uso figurado não é invenção deste versículo. A Bíblia aplica o mesmo adjetivo ao coração e ao ouvido, sempre com o sentido de órgão obstruído, fechado, que não cumpre a função — e o item 10 recolhe as ocorrências. Aplicado aos lábios, ele aparece aqui e no versículo 30, e em nenhum outro lugar.

Duas observações fecham o trecho.

A primeira: é uma alegação de incapacidade, não de indignidade moral. Moisés não diz que é pecador, indigno ou infiel. Diz que o instrumento não está em condição.

A segunda: ele não pede para ser dispensado. Em Êxodo 4:13 ele tinha pedido — "envia por meio de quem quiseres enviar". Aqui, não. Ele faz uma pergunta e para. É a diferença entre recusar e dizer que não vê como.

O que o versículo deixa pendente

A pergunta não é respondida. O versículo 13 não explica como Faraó ouvirá, não trata dos lábios de Moisés e não avalia o argumento. E, no fim do capítulo, a mesma objeção reaparece quase idêntica no versículo 30 — sinal de que o Êxodo a considera não resolvida.

Cabe notar, por fim, o que muda em relação ao capítulo 4. Lá, a insistência de Moisés provocou reação: o texto diz, em Êxodo 4:14, que a ira do SENHOR se acendeu. Aqui não há uma palavra sobre isso. A mesma conduta, tratada de dois modos diferentes, e o livro não comenta a diferença.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, e a série de objeções a que este versículo pertence

Vale enfileirar as objeções, porque só assim se vê onde esta se encaixa.

No Horebe, em Êxodo 3:11, ele perguntou quem era ele para ir a Faraó. Em Êxodo 3:13, perguntou que nome dar. Em Êxodo 4:1, levantou a possibilidade de não acreditarem nele. Em Êxodo 4:10, alegou ser pesado de boca e de língua. Em Êxodo 4:13, pediu que outro fosse enviado.

Esta é a sexta pergunta e a quinta objeção, e é a primeira que se apoia em algo já ocorrido. Também é a primeira feita depois de o encargo ter sido efetivamente executado uma vez — Moisés já foi ao rei, já falou ao povo, e as duas coisas deram no que deram.

Ele está sozinho, como no versículo 11. Arão entra apenas no versículo seguinte.

"Os filhos de Israel", agora como argumento

É a terceira posição que eles ocupam neste bloco, e vale notar a mudança.

No versículo 9 foram sujeito: não ouviram. No versículo 11 foram objeto: que o rei os deixe sair. Aqui são prova — o comportamento deles é citado por Moisés como evidência a respeito de outra pessoa.

O Êxodo não comenta esse uso, e é honesto registrar que aquela gente não está presente na cena e não é ouvida sobre o assunto.

Faraó, citado sem estar presente

O rei aparece aqui como hipótese, não como personagem: Moisés fala do que ele fará. É a única menção a Faraó no versículo, e é a que sustenta a pergunta.

Um dado do capítulo anterior explica por que a previsão de Moisés parece razoável: em Êxodo 5:2 o rei já declarou que não conhecia o SENHOR e que não deixaria Israel ir. Moisés não cita essa frase — mas ela está no livro, e o leitor a tem.

O lugar, e a falta dele

Não há indicação de onde a conversa acontece. O verbo "responder diante do SENHOR" sugere a cena de uma audiência, mas o Êxodo não descreve lugar, não menciona altar, tenda, monte ou sinal visível. A ausência é a mesma dos versículos 10 e 11.

O acontecimento: uma pergunta que ficará sem resposta

O que se passa neste versículo é uma fala, e o efeito dela é nenhum — no sentido estrito de que a pergunta não recebe resposta em lugar algum do capítulo.

O versículo 13 responde com um mandado. O versículo 30 repete a objeção quase palavra por palavra. E o capítulo termina ali. O leitor que quiser saber como Faraó ouvirá terá de virar a página, e o que vem depois é outro capítulo.

5. Pontos de Ensino

Um fato verdadeiro pode sustentar uma conclusão falsa

É o ensino mais aproveitável do versículo, e ele se demonstra dentro do próprio capítulo. Moisés diz a verdade: o povo não o ouviu. E tira daí uma previsão sobre o rei do Egito que o fato, sozinho, não autoriza — porque a razão da recusa do povo, dada no versículo 9, não se aplica ao rei.

Quem ensina este trecho tem aqui um exemplo limpo de como se examina um argumento: não basta conferir se a premissa é verdadeira; é preciso conferir se ela explica o que se quer concluir.

O que se omite muda o peso do que se diz

A omissão das duas causas não é mentira — Moisés não afirma nada de falso. E ainda assim, sem elas, o mesmo fato produz outra impressão. É um mecanismo comum e vale nomeá-lo, porque ele opera em qualquer relato: selecionar o que contar já é interpretar.

Nem toda recusa é igual

O versículo usa o mesmo verbo para duas coisas muito diferentes: o povo aceitar uma notícia e o rei abrir mão de uma população de trabalho. Tratar as duas como comparáveis é o que torna a objeção convincente. Aprender a separá-las é útil bem além deste capítulo.

Alegar incapacidade não é o mesmo que recusar

Moisés não diz "não vou". Pergunta como. A diferença é real e o texto a marca: em Êxodo 4:13 ele tinha pedido que outro fosse enviado; aqui não pede. Quem ensina obediência com base neste versículo precisa registrar que o que está escrito é uma pergunta, não uma negativa.

A palavra escolhida diz de onde vem a pessoa

Moisés descreve a própria boca com a palavra do rito da aliança de seu povo. É um detalhe pequeno com consequência grande: a alegação dele é dita na língua de quem a ouve, e não faria sentido nenhum na corte a que ele deve ir. Vale para muitas conversas — o vocabulário de uma objeção mostra em que mundo ela foi pensada.

O silêncio da resposta também ensina

A pergunta não é respondida, e o capítulo termina com ela repetida. Quem estuda este trecho não deve fabricar a resposta que o texto não deu. O que o versículo 13 oferece é uma ordem — e a diferença entre receber uma explicação e receber uma incumbência é justamente o que este bloco encena.

6. Aspectos Filosóficos

Um caso passado prova alguma coisa sobre o caso seguinte?

A objeção de Moisés é uma previsão apoiada numa única experiência, e o problema que ela levanta é clássico: com que direito se passa do que aconteceu para o que acontecerá?

Uma generalização desse tipo só se sustenta se o caso passado e o caso futuro tiverem em comum aquilo que produziu o resultado. Se o povo não ouviu por exaustão, o que o episódio estabelece é uma relação entre exaustão e surdez — e o rei do Egito não está exausto. A inferência precisa, para funcionar, que a causa seja outra: alguma coisa presente nos dois casos, como a implausibilidade da mensagem ou a incompetência do mensageiro.

É exatamente isso que a frase de Moisés faz. Ao omitir a causa e acrescentar "sendo eu incircunciso de lábios", ele substitui a explicação do texto por outra — troca uma causa que não se transfere por uma que se transfere, porque a boca dele vai junto aos dois encontros.

A autodesqualificação como argumento

Há um segundo movimento aqui, e ele merece nome. Declarar-se inapto é um modo de transferir o problema: se o instrumento não serve, a falha não é de quem o usa mal, e a exigência perde o endereço.

É um raciocínio de duas faces. Pode ser honestidade — quem reconhece o próprio limite evita um dano. E pode ser uma saída — quem se declara incapaz fica dispensado sem precisar recusar.

O Êxodo não decide entre as duas, e não dá sinal nenhum de qual é o caso. Vale notar apenas que a resposta do versículo 13 não discute a alegação: não a confirma, não a desmente e não a corrige. Trata-a como se não alterasse o encargo.

7. Aplicações Práticas

Conferir a causa antes de generalizar o fracasso

A aplicação mais útil deste versículo é um hábito de raciocínio, e ele cabe em uma pergunta: o que exatamente fez isso dar errado da outra vez?

A tendência natural é guardar o resultado e esquecer a razão. A proposta foi recusada; a conversa não funcionou; o pedido foi negado. Fica o "não deu certo", e ele se transforma em previsão para a próxima tentativa, que muitas vezes nada tem a ver com a anterior.

Moisés faz exatamente isso, e o texto deixa ver, porque tinha dado a causa três versículos antes. Aplicado ao dia a dia: antes de concluir que também não vai dar certo com outra pessoa, em outro momento, vale identificar o que causou a falha e verificar se essa causa está presente de novo. É um exame rápido e evita desistências mal fundamentadas.

Quando a explicação é sobre si mesmo

A segunda metade da objeção é uma frase que muita gente diz de si: não tenho o necessário, não sou a pessoa para isso.

O versículo não permite nem descartar essa alegação como covardia nem tratá-la como verdade estabelecida. Moisés diz, e o texto não confirma e não desmente. O que se observa é que a resposta que ele recebe não é sobre a alegação — é uma incumbência.

Daí uma aplicação sóbria: reconhecer a própria limitação é legítimo, e às vezes é o passo honesto; mas a limitação declarada nem sempre encerra a questão, e o texto mostra um caso em que ela não encerrou. As duas coisas ficam de pé, e o Êxodo não resolve a tensão.

A objeção que se repete

Há um dado prático no desenho do capítulo. Esta mesma objeção reaparece no versículo 30, nas mesmas palavras, depois de tudo o que acontece no meio. Ela não foi respondida e não foi abandonada.

Para quem convive com uma dúvida que volta sempre — sobre a própria capacidade, sobre a própria vocação, sobre a validade do que faz —, a observação é modesta e serve: o Êxodo não trata a objeção repetida como escândalo. Não há repreensão, não há vergonha e não há expulsão. Há a mesma incumbência, de novo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés está mentindo ao dizer que o povo não o ouviu?

Não. O fato é exato e foi registrado pelo próprio texto no versículo 9. O que ele faz é diferente de mentir: cita o resultado sem as duas causas que o texto tinha dado. Nada do que diz é falso, e o argumento fica mais forte do que os fatos permitem. O Êxodo não comenta isso.

"Incircunciso de lábios" é a mesma queixa de Êxodo 4:10?

É a mesma pessoa alegando um problema de boca, e a imagem é outra. Lá a palavra era "pesado", que descreve mau funcionamento; aqui é "incircunciso", que descreve falta de condição, com o vocabulário do rito da aliança. O estudo de Êxodo 4:10 trata da primeira; o item 10 deste versículo trata da segunda. Por que a imagem mudou, o texto não diz.

Ele está dizendo que tem um defeito físico ou é linguagem figurada?

É linguagem figurada, e isso é seguro: a Bíblia aplica o mesmo adjetivo ao coração e ao ouvido, onde a leitura literal é impossível. O que fica em aberto é se a imagem aponta para um problema real de fala — que seria a alegação de Êxodo 4:10 repetida em outra roupa — ou para uma inaptidão de outra ordem. Não é possível decidir.

Por que Deus não respondeu à pergunta?

O texto não explica. Registra que a resposta, no versículo 13, é um mandado, e que a mesma objeção volta no versículo 30 sem ter sido respondida. Quem afirma que houve resposta em outro lugar do livro está fazendo uma ligação que o capítulo não faz.

Por que aqui não há repreensão, se em Êxodo 4:14 houve?

É uma das perguntas mais legítimas do capítulo, e o Êxodo não a responde. O dado é que a mesma conduta — objetar depois de receber a ordem — foi seguida de ira registrada num capítulo e de silêncio neste. As explicações propostas (a objeção agora ter base em fato, o cansaço do enviado, a mudança de interlocutor) são todas hipótese.

A objeção de Moisés estava certa? Faraó ouviria?

O capítulo não diz, e é de propósito que ele não diz: a audiência com o rei não acontece dentro dele. Vale lembrar que o próprio livro já dera, em Êxodo 3:19, um aviso de que o rei não deixaria ir — o que torna a previsão de Moisés menos original do que parece, e não a torna resposta à pergunta que ele faz.

9. Conexão com Outros Textos

O fato que Moisés cita

Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."

Ponha os dois versículos lado a lado e a diferença salta: o texto dá o fato e duas causas; a citação guarda o fato e larga as causas.

A mesma objeção, quando ainda era hipótese

Êxodo 4:1 — "Moisés respondeu: 'E se eles não acreditarem em mim e não ouvirem a minha voz, mas disserem: O SENHOR não apareceu a você?'"

É a primeira versão desta objeção, no futuro. Entre uma e outra está tudo o que aconteceu: os sinais, a ida ao rei, a palha cortada e a recusa do povo.

A queixa anterior sobre a própria boca

Êxodo 4:10 — "Então Moisés disse ao SENHOR: 'Ai, meu Senhor! Eu não sou homem de palavras, nem ontem, nem anteontem, nem desde que falaste ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua.'"

Êxodo 4:13 — "Mas ele disse: 'Ai, meu Senhor! Envia por meio de quem quiseres enviar.'"

Duas diferenças com o versículo em estudo, e as duas contam: lá a imagem é o peso, aqui é a marca que falta; e lá ele pede para ser substituído, aqui não pede nada.

A objeção repetida no fim do capítulo

Êxodo 6:30 — "Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: 'Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?'"

São as mesmas palavras, na ordem invertida: aqui a pergunta vem antes da alegação, ali depois. Entre os dois versículos está a genealogia inteira.

O adjetivo aplicado a outros órgãos

A Bíblia usa a mesma palavra fora do rito, sempre com o sentido de órgão fechado. Em Levítico 26:41 fala-se do coração incircunciso que se humilha. Jeremias 6:10 diz, da geração a quem o profeta fala, que o ouvido deles é incircunciso e por isso não podem escutar. E Jeremias 9:26 chega a pôr o Egito numa lista de povos circuncidados que são, ainda assim, incircuncisos de coração.

Nenhuma dessas passagens tem tradução própria nesta obra, e as frases acima são vertidas em linguagem corrente a partir do hebraico. O conjunto mostra que a imagem era usual e que os lábios são o caso mais raro dela.

O eco mais próximo, num profeta

Isaías 6:5, na cena do chamado, traz um homem que se declara de lábios impuros e habitante de um povo de lábios impuros — e, diferentemente do que acontece aqui, o problema é tratado na cena seguinte, com a brasa tocando a boca dele.

A comparação é útil pelo contraste: ali a alegação sobre os lábios recebe resposta; aqui não recebe. O Êxodo não cita Isaías nem o contrário; o paralelo é de tema.

O que o rei já tinha respondido

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

Moisés não cita esta frase, e ela é o melhor apoio que a objeção dele teria. O leitor a tem; o argumento do versículo, não.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: “Se os filhos de Israel não me ouviram, como Faraó me ouvirá, sendo eu incircunciso de lábios?”

Texto hebraico

וַיְדַבֵּר מֹשֶׁה לִפְנֵי יְהוָה לֵאמֹר הֵן בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל לֹא־שָׁמְעוּ אֵלַי וְאֵיךְ יִשְׁמָעֵנִי פַרְעֹה וַאֲנִי עֲרַל שְׂפָתָיִם

Transliteração

wa-yedabber Mosheh lifne YHWH lemor: hen benei-Yisrael lo-shame'u elai, we-ekh yishma'eni Par'oh, wa-ani aral sefatayim.

Análise palavra por palavra

לִפְנֵי — lifne, "diante de". A palavra é formada sobre o substantivo que significa rosto: ao pé da letra, "à face de".

Ela não é a preposição comum da fala dirigida a alguém. Para isso o hebraico tem outra, usada em todas as objeções do capítulo 4, e que significa simplesmente "a". Esta aqui situa quem fala na presença de quem ouve, e é a expressão corrente para comparecer diante de um rei, diante de um tribunal ou diante de Deus.

O Êxodo usa esta construção exatamente duas vezes: aqui e no versículo 30, nas duas ocorrências desta mesma objeção.

הֵן — hen. É a partícula que se traduz em geral por "eis que", e que aqui faz outro serviço: introduz uma condição. A frase não diz "eis que os filhos de Israel não me ouviram"; diz "se os filhos de Israel não me ouviram, então…".

O uso não é excepcional. Jeremias 3:1 abre com a mesma partícula no sentido de "se um homem despedir a sua mulher…", e outros casos do mesmo tipo aparecem nos profetas. A nossa versão traduziu por "se", que é o que a frase pede: sem isso, a segunda metade do versículo fica sem apoio.

לֹא־שָׁמְעוּ אֵלַי — lo-shame'u elai, "não me ouviram". É exatamente a construção do versículo 9 — o verbo shama com a preposição que indica direção —, e ela significa dar ouvidos, atender, acatar.

וְאֵיךְ — we-ekh, "e como". O advérbio interrogativo de modo, usado quase sempre em perguntas que não esperam resposta. Quem pergunta assim, em hebraico, está afirmando que a coisa não vai acontecer.

יִשְׁמָעֵנִי — yishma'eni, "me ouvirá". Mesmo verbo, e outra construção: aqui o pronome "me" vem colado ao verbo, como sufixo, e não solto numa preposição.

Guarde o detalhe, porque ele está numa frase só: o povo "não ouviu a mim"; Faraó "me ouvirá". Duas maneiras diferentes de ligar o mesmo verbo à mesma pessoa, a três palavras de distância.

O que isso significa é discutido. Há quem leia uma diferença de sentido — a primeira construção sendo a de dar atenção, a segunda a de obedecer —, e há quem veja apenas variação de estilo, coisa comum no hebraico. Não é possível decidir pelo versículo. O que se pode afirmar é que a diferença existe e desaparece por completo em qualquer tradução.

וַאֲנִי — wa-ani, "e eu". O pronome abre a última parte da frase e não era necessário — o hebraico dispensa o pronome quando há verbo. Aqui não há verbo nenhum, e é o pronome que sustenta a oração: "e eu, incircunciso de lábios".

עֲרַל שְׂפָתָיִם — aral sefatayim, "incircunciso de lábios". É o centro do versículo.

Aral vem da raiz a-r-l, que dá também o substantivo do prepúcio. O adjetivo designa, no sentido próprio, quem não passou pelo rito da aliança — e é usado como termo de exclusão: os filisteus são chamados assim ao longo dos livros de Samuel.

Sefatayim é o plural de dois de safah, "lábio", na forma que o hebraico reserva para o que vem em par, como olhos, mãos e ouvidos.

E aqui há uma segunda camada, que repete o problema de Êxodo 4:10. Safah significa lábio, significa borda — a beira do mar, a orla de um tecido — e significa também idioma: é a palavra de Gênesis 11:1, quando toda a terra tinha uma só língua. A alegação, portanto, admite ser ouvida como defeito do órgão e como defeito da fala, do mesmo modo que a queixa anterior de Moisés admitia. O estudo de Êxodo 4:10 desenvolve as leituras; aqui basta registrar que a ambiguidade se repete com outra palavra.

O uso figurado no resto da Bíblia

A construção — o adjetivo do rito seguido do nome de um órgão — é fixa, e aparece com três órgãos.

Com o coração, é a mais frequente: Levítico 26:41, Jeremias 9:26 e Ezequiel 44:7 e 44:9. Com o ouvido, em Jeremias 6:10, onde o profeta diz que o ouvido daquela gente é incircunciso e por isso ela não consegue prestar atenção. Com os lábios, só aqui e no versículo 30.

O sentido comum às três é o de órgão coberto, obstruído, que não cumpre a sua função — e, junto com isso, o de órgão que não passou pelo que o poria em condição. Não se trata de sujeira nem de pecado: trata-se de estar fechado.

O que as versões antigas fizeram com a imagem

Elas a desfizeram, e o dado é instrutivo.

A Septuaginta, a tradução grega feita por judeus a partir do século III antes de Cristo, não verteu "incircunciso" aqui. Pôs uma palavra que significa "sem fala, sem palavra", e no versículo 30 preferiu outra, que significa "de voz fraca" — a mesma que já tinha usado em Êxodo 4:10. Ou seja: o grego leu tudo como problema de fala e apagou a aliança da frase.

A Vulgata latina de Jerônimo fez o contrário e conservou a imagem, traduzindo literalmente por "incircunciso de lábios".

Isso mostra que a decisão não é moderna: desde a Antiguidade os tradutores se dividem entre guardar a metáfora e entregar o sentido que julgam estar por trás dela.

O que o hebraico faz e o português não faz

A nossa versão manteve "incircunciso de lábios" por uma razão que vale explicitar: a palavra é a do rito da aliança, e é justamente isso que a torna estranha aplicada à boca.

Quem lê "não sei falar" recebe uma queixa de habilidade. Quem lê "incircunciso de lábios" recebe outra coisa: o homem que deve falar em nome da aliança se descreve com a palavra de quem está fora dela. A estranheza é do original, e apagá-la — como fez o grego — resolve o desconforto do leitor às custas do que o texto escreveu.

11. Conclusão

Quatro conclusões se tiram do que foi exposto.

A primeira: a objeção mudou de natureza, e o capítulo depende disso. Até aqui Moisés alegava suposições sobre o futuro ou características suas; agora alega um acontecimento que o próprio texto registrou. É a diferença entre dizer "e se não me ouvirem" e dizer "não me ouviram", e ela torna esta a mais difícil das objeções de responder.

A segunda: o argumento é mais forte do que os fatos permitem. O versículo 9 deu duas causas para a recusa do povo, e nenhuma delas se aplica ao rei do Egito. Moisés cita o resultado sem as causas — o que ele diz é verdadeiro, e a conclusão que tira não decorre do que ficou dito. O Êxodo não faz esse reparo; ele apenas deixa as duas versões no mesmo capítulo, a três versículos de distância.

A terceira: a imagem escolhida muda o tipo de alegação. Em Êxodo 4:10 a queixa era de funcionamento; aqui é de condição. Dizer-se incircunciso de lábios é dizer-se sem a marca que habilita, com a palavra que a aliança reserva para quem está de fora. É uma frase dura, e é dita diante daquele que instituiu a aliança.

A quarta: nada disso recebe resposta. O versículo 13 dá uma ordem e não discute a alegação — não a confirma, não a desmente, não a corrige. E a mesma objeção volta inteira no versículo 30, o que basta para mostrar que o capítulo não a considera resolvida.

Fica, por fim, uma comparação que o livro deixa disponível e não comenta. No capítulo 4, insistir custou a Moisés uma reação registrada com todas as letras. Aqui, insistir não custa nada — e o texto não diz por quê.

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Êxodo 6:12

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