Mas Faraó respondeu: “Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.”
1. Introdução
Esta é a primeira frase que o rei do Egito dirige a Moisés em todo o livro, e ela é uma pergunta. O Êxodo tinha aberto com esse mesmo rei falando ao seu próprio povo, em Êxodo 1:9; aqui ele fala pela primeira vez com o outro lado.
A resposta é curta e desmonta o recado na ordem em que foi dito. Moisés abrira com um nome e terminara com uma exigência. Faraó pega o nome — "quem é o SENHOR?" —, passa pela exigência — "para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir?" — e fecha repetindo as duas coisas ao contrário: não conheço o nome, não solto o povo.
A frase do meio é a que atravessa o livro inteiro: "não conheço o SENHOR". É o mesmo verbo que o Êxodo usou logo no começo, quando disse que se levantou um rei "que não conhecia José", e é a pergunta que os capítulos seguintes vão responder com a fórmula que se repete de praga em praga: para que saibam que eu sou o SENHOR.
Há um detalhe que quase todas as leituras perdem, e o item 3 o desenvolve: a segunda metade da resposta não depende da primeira. O rei não diz "como não o conheço, não solto". Ele diz duas coisas separadas — não conheço, e além disso não solto. A recusa está de pé mesmo que o desconhecimento caia.
Vale ainda notar o que ele não faz. Não ameaça, não ri, não manda prender ninguém, não chama os sacerdotes para discutir teologia. Recusa o remetente, e com isso a conversa acaba — até o versículo seguinte, quando os dois voltam a falar com outro tom.
2. Contexto Histórico e Cultural
O Egito conhecia deuses estrangeiros — e cultuava vários
A leitura corrente da frase do rei é a de um egípcio fechado, que despreza tudo o que vem de fora. O fundo histórico não sustenta isso, e é importante dizê-lo antes de qualquer outra coisa.
No período em que o Êxodo situa a cena, o Delta oriental e a região de Mênfis tinham templos, sacerdotes e festas para divindades vindas do Levante. Não eram cultos tolerados a contragosto nos arredores: eram cultos oficiais, com dotação do Estado.
Baal, o deus da tempestade cananeu, foi identificado pelos egípcios com Seth e recebeu culto no Delta; o nome de lugar "Baal-Zefom" aparece na própria rota do Êxodo, em Êxodo 14:2. Astarte teve templo em Mênfis e era invocada como senhora dos cavalos e da guerra. Anat e Resef aparecem em estelas de particulares e em textos mágicos. Hauron, divindade de origem semítica, foi identificado com a esfinge de Gizé, e egípcios lhe dedicaram estelas ali mesmo.
A prova mais eloquente vem da própria família real. Ramessés II deu a uma filha o nome de Bint-Anath — "filha de Anat", com o nome da deusa cananeia dentro. Não é gesto de tolerância: é sinal de que aquela divindade tinha estatuto na corte.
O que isso muda na leitura do versículo
Muda o alvo da frase. Um rei egípcio daquele período não diria "não conheço" sobre um deus estrangeiro por ser estrangeiro — ele tinha estrangeiros no seu próprio calendário de festas.
O que ele não conhece é este nome. E aí a frase deixa de ser preconceito e passa a ser, no sentido próprio, uma informação administrativa.
Como um deus entrava no sistema egípcio
A identificação de um deus pelo lugar, pelo templo e pela imagem está tratada no estudo de Êxodo 4:5, e não se refaz aqui. O que interessa neste versículo é o lado burocrático da coisa, e ele é concreto.
Um deus reconhecido pelo Estado egípcio tinha, obrigatoriamente, quatro coisas. Tinha casa — um templo, com endereço numa cidade. Tinha renda — terras, gado e trabalhadores atribuídos por decreto, cujo produto sustentava as oferendas diárias. Tinha gente — um corpo de sacerdotes com títulos hierárquicos. E tinha data — um lugar no calendário de festas, com as procissões anotadas e os dias de folga correspondentes.
Fora disso, um deus podia ser adorado por particulares em casa, mas não existia para a administração. Não havia a quem escrever, não havia de onde tirar a oferenda, não havia no que consultar.
E o Deus deste versículo não tinha nenhuma das quatro. Nem templo no Egito, nem imagem, nem dotação, nem sacerdócio reconhecido, nem festa marcada no calendário do país. Os adoradores dele eram uma população de trabalho. Do ponto de vista do aparelho egípcio, esse nome não estava em lugar nenhum — e é exatamente isso que o rei responde.
Reconhecer um deus era um ato com consequência
Há ainda um ponto que explica a dureza da resposta. Reconhecer a divindade de outro povo, naquele mundo, não era um gesto de simpatia: era um ato jurídico.
Nos tratados entre reis, os deuses das duas partes eram listados nome por nome como testemunhas do acordo — e listar um deus era admitir que ele tinha poder para punir quem quebrasse a palavra. Admitir o deus significava, na prática, admitir a parte que ele representava como parte.
Aplicado à cena: dizer "conheço o SENHOR" seria conceder que aquela população tinha, atrás de si, uma autoridade capaz de tratar de igual para igual com o Egito. A recusa do nome é, ao mesmo tempo, a recusa do estatuto. E o versículo seguinte mostra que os dois entenderam assim, porque a segunda tentativa deles muda de registro.
O limite do que se pode afirmar
Duas ressalvas, e elas são necessárias.
A primeira: não há documento egípcio que registre este diálogo, este rei ou este pedido. O que está descrito acima é o funcionamento do sistema religioso egípcio, e ele serve para entender a lógica da resposta — não para confirmar que a cena aconteceu.
A segunda: não se sabe se o nome do Deus de Israel circulava no Egito antes desta cena. Há uma discussão longa e sem consenso a respeito de ocorrências antigas de um nome parecido em listas geográficas egípcias, e ela está ligada à questão da origem do culto no sul, tratada no estudo de Gênesis 25:2. Seja qual for a resposta, ela não decide o que este versículo diz — porque o rei não fala do que existe no mundo, e sim do que ele reconhece.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas Faraó respondeu"
Vale contar as falas do rei até aqui, porque isso mede o peso do momento. Em Êxodo 1:9 ele falou ao seu próprio povo; em Êxodo 1:16 e 1:18, às parteiras; em Êxodo 1:22, de novo a todo o seu povo. É a quarta vez que abre a boca no livro — e a primeira em que se dirige a alguém que veio falar com ele.
Repare também na economia. Moisés usou uma fórmula, um título, uma ordem e uma finalidade. O rei responde com uma pergunta e duas negativas, e não acrescenta nada.
"Quem é o SENHOR"
A pergunta não é o que parece. Em português, "quem é fulano?" costuma pedir informação. Em hebraico, essa construção tem um uso próprio, e ele é de recusa.
Dois exemplos tornam isso visível. Em 1 Samuel 25:10, Nabal responde aos enviados de Davi: "Quem é Davi? Quem é o filho de Jessé?" — e ele sabia perfeitamente quem era Davi, porque continua a frase falando de servos que fogem dos seus senhores. Em Juízes 9:28, Gaal pergunta: "Quem é Abimeleque, e quem é Siquém, para que o sirvamos?" — e na mesma respiração mostra que conhece a genealogia inteira do homem.
Nos dois casos a pergunta é seguida por uma cláusula de finalidade — "para que o sirvamos", "para que eu ouça a sua voz" —, e é essa cláusula que revela o sentido. A pergunta não é sobre identidade: é sobre a razão de obedecer. Traduzida pelo efeito, ela diz: que título tem esse aí sobre mim?
Isso reposiciona a cena. O rei não está pedindo apresentações nem confessando ignorância religiosa. Está exigindo que se demonstre a autoridade de quem manda — e é precisamente o que um mensageiro, por definição, não pode fazer por conta própria.
"para que eu ouça a sua voz"
A expressão é técnica em hebraico, e a tradução literal engana. "Ouvir a voz de alguém", com a preposição que o original usa, não significa escutar: significa obedecer. É a diferença entre ouvir o que alguém diz e fazer o que alguém manda.
Por isso a resposta do rei é mais precisa do que costuma parecer. Ele entendeu exatamente o que a fórmula do mensageiro implicava: não um pedido a ser avaliado, e sim uma ordem a ser cumprida. E devolve a pergunta certa — por que eu obedeceria?
Há aqui um eco que só aparece a quem leu os dois capítulos anteriores. A mesma expressão apareceu em Êxodo 3:18, na promessa de que os anciãos ouviriam a voz de Moisés, e em Êxodo 4:1, na dúvida dele de que ouvissem. O povo ouviu, em Êxodo 4:31. O rei pergunta por que deveria. A mesma frase mede as duas obediências — e o livro põe as duas cenas a poucos versículos de distância, sem apontar a repetição.
"e deixe Israel ir"
Ele repete a exigência com o mesmo verbo que Moisés usou, e a repetição é exata. Não distorce, não caricatura, não finge não ter entendido.
Mas troca uma palavra. Moisés disse "o meu povo"; o rei diz "Israel". O possessivo desaparece. É a segunda recusa embutida na resposta, e ela é silenciosa: o rei devolve o nome sem o dono.
"Não conheço o SENHOR"
Esta é a frase pela qual o versículo é lembrado, e é preciso ser exato sobre o que ela acrescenta.
O campo do verbo hebraico de conhecer — que vai de saber informação a reconhecer alguém como quem é, dar-lhe estatuto e tratá-lo como seu — está desenvolvido no estudo de Êxodo 1:8, onde o mesmo verbo aparece negado a respeito de José. A ligação entre os dois desconhecimentos também está lá, e não se reabre. O uso do verbo com Deus por sujeito, em Êxodo 2:25, tem tratamento próprio naquele estudo.
O que é deste versículo é o objeto. Em Êxodo 1:8, o que o rei não conhece é uma pessoa: José. Aqui, o que ele não conhece é um nome — e o hebraico o marca como objeto direto, do mesmo modo que marcou o nome de José.
Daí sai a ironia que o texto não sublinha e que está diante dos olhos: ele pronuncia o nome duas vezes na mesma frase em que diz não conhecê-lo. Na pergunta e na negativa, o nome está lá, dito pela boca dele. Não é possível decidir se o Êxodo montou isso de propósito. É verificável que está no texto.
E há a ambiguidade de sempre, que aqui fica mais aguda. "Não conheço" pode ser a informação honesta de quem nunca ouviu falar — e o item 2 mostra que, do ponto de vista da administração egípcia, essa resposta seria verdadeira. Pode ser a recusa de quem sabe e não admite. O texto não permite decidir, e convém não escolher.
"e tampouco deixarei Israel ir"
Aqui está o detalhe que quase todo comentário atropela, e ele é decisivo para entender o capítulo.
A frase não diz "e por isso não deixarei". Diz "e também não deixarei". A partícula hebraica é aditiva: soma uma coisa à outra, não deriva uma da outra.
A diferença é enorme. Se a recusa decorresse da ignorância, ela seria reversível: bastaria apresentar o remetente, e o problema se resolveria. Ao separar as duas frases, o rei fecha essa porta antes que ela se abra. Ele está dizendo que, mesmo reconhecido o nome, a resposta continuaria sendo não.
E o livro confirma que era assim. Nos capítulos seguintes, o nome será demonstrado de todas as maneiras possíveis — água em sangue, pragas, contagem de dias, anúncios cumpridos — e a autorização continuará não vindo, ou vindo e sendo retirada. A segunda metade deste versículo é a que descreve o que realmente vai acontecer.
A pergunta que o livro leva nove capítulos para responder
Convém fechar com isto, porque é o que faz deste versículo uma dobradiça.
"Quem é o SENHOR?" é uma pergunta, e o Êxodo a trata como tal. A partir daqui, uma fórmula passa a aparecer repetidamente, sempre ligada ao que está prestes a acontecer: para que você saiba, para que os egípcios saibam, para que saibam que eu sou o SENHOR. Ela aparece em Êxodo 7:5 e 7:17, antes da primeira praga; em Êxodo 8:10; em Êxodo 14:4 e 14:18, no mar; e volta dirigida a Israel em Êxodo 6:7.
Duas observações e um limite.
A primeira observação: a fórmula usa o mesmo verbo desta frase. O que o rei nega é exatamente o que os capítulos seguintes se propõem a produzir.
A segunda: o destinatário muda. Começa sendo o Egito e termina sendo Israel — em Êxodo 6:7 quem precisa saber é o próprio povo, e ali a frase vem acompanhada da menção às cargas, isto é, ao que este capítulo vai piorar.
O limite é este: o Êxodo não diz que as pragas existem para responder à pergunta deste versículo. Ele repete a fórmula e deixa que o leitor faça a ligação. Afirmar mais do que isso é construir uma tese em cima de uma repetição — o que é plausível, e não é o que o texto declara.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
Este versículo é a primeira vez que ele age como personagem, e não como fundo. Até agora era um cargo que dava ordens; aqui é um homem que responde a uma proposta.
Vale ter em mente a posição que ele ocupava no sistema religioso do próprio país, porque ela pesa na frase. O rei do Egito era, na teoria oficial, o único sacerdote: todas as cenas de oferenda nas paredes dos templos o mostram fazendo o gesto, e os sacerdotes reais agiam como delegados dele. A teologia que o fazia filho de um deus está tratada nos estudos de Gênesis 41:38 e 41:40.
A consequência prática é que ele não é um leigo dizendo que não entende de religião. É a autoridade máxima do culto do país declarando que aquele nome não consta. É por isso que a frase pesa.
Moisés e Arão
Estão presentes e não falam neste versículo. O texto não registra reação, gesto ou pausa. A resposta deles virá no versículo 3, e será diferente em tudo.
Israel
Aqui o nome aparece duas vezes, sempre sem possessivo, sempre como objeto de um verbo de soltar. É assim que o rei o trata: não como povo com dono, e sim como coisa retida.
O nome do SENHOR
O nome próprio de Deus, revelado a Moisés em Êxodo 3:14-15, chega neste versículo à corte do Egito. É a primeira vez que ele é pronunciado fora do círculo de quem já o adora — e a primeira reação registrada a ele, em toda a Bíblia, é esta.
A discussão sobre o nome, a fórmula de Êxodo 3:14 e o que "memorial" significa ali estão nos estudos daqueles versículos.
O que acontece nesta sala e o que acontece depois
Um dado de estrutura que ajuda a ler o capítulo: esta é a única conversa do livro em que Faraó fala com Moisés e Arão sem que nada tenha acontecido antes. Nas visitas seguintes sempre haverá um sinal, uma praga ou uma consequência em curso.
Aqui não há nada. Duas pessoas, um nome e uma exigência — e a recusa se dá no terreno mais desfavorável possível para quem pede.
5. Pontos de Ensino
A pergunta do rei é a pergunta do livro
Quem ensina este versículo costuma apresentá-lo como arrogância. É mais útil apresentá-lo como pergunta, porque é assim que o Êxodo o trata. "Quem é o SENHOR?" recebe resposta ao longo de nove capítulos, com uma fórmula que volta sempre: para que saibam. O rei fez a pergunta certa, pelo motivo errado.
Reconhecer uma autoridade é diferente de ter informação sobre ela
O verbo desta frase não separa saber de admitir. É possível ter toda a informação e continuar dizendo "não conheço", porque o que está sendo recusado não é o dado — é o estatuto. A cena mostra isso sem explicar.
Daí decorre um ponto de ensino desconfortável: acumular argumentos não resolve uma recusa que não é de argumento. As pragas seguintes vão demonstrar tudo o que havia para demonstrar, e a autorização continuará não vindo.
A recusa que não depende do motivo declarado
O rei diz duas coisas e as mantém separadas: não conheço, e além disso não solto. Quem lê com atenção aprende a distinguir, em qualquer conversa, o motivo apresentado da decisão já tomada. Quando os dois estão colados, o motivo pode ser respondido. Quando estão soltos, como aqui, responder ao motivo não muda nada.
O mensageiro não pode provar o remetente
Esta é a posição em que Moisés se encontra, e ela é estrutural, não pessoal. Quem fala em nome de outro depende de que o outro seja reconhecido; se não for, não sobra recurso. É a razão de o capítulo terminar como termina, com Moisés reclamando exatamente disso.
O texto não repreende a pergunta
Vale registrar, porque é raro. O Êxodo não comenta a frase do rei, não a chama de blasfêmia, não anota a reação de Moisés. Registra e segue. Quem ensina este versículo faz bem em não acrescentar a indignação que o texto não traz.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe um problema que ele não desenvolve: o de saber se conhecer alguém é um estado da cabeça ou uma decisão da vontade.
Tratamos "conhecer" como coisa que acontece com a gente. Ou se sabe, ou não se sabe; ninguém escolhe saber. Por isso a frase do rei soa, ao ouvido moderno, como uma declaração de fato — ele não teria mesmo como conhecer aquele nome, e está apenas informando.
Só que o hebraico do versículo não permite esse conforto. O verbo que ele usa cobre também o reconhecer: admitir alguém como quem alguém diz ser, dar-lhe lugar, tratá-lo como parte. E reconhecer, esse sim, é ato. Tem hora, tem autor e pode ser recusado.
A consequência é que a frase fica com dois fundos possíveis ao mesmo tempo, e o segundo é bem mais duro que o primeiro. Se "não conheço" é estado, o rei é apenas um homem mal informado, e a informação resolveria. Se é ato, a informação não resolve nada — porque o que falta não é dado, é consentimento.
E aqui está o ponto: a segunda metade do versículo aponta para o ato. Ao dizer que além disso não soltará Israel, o rei desliga a recusa do desconhecimento. O que ele decidiu não depende do que ele veio a saber. E o resto do livro vai confirmar, praga após praga, que o saber cresce sem que a decisão mude.
Convém marcar o limite, porque a observação é minha e não do texto. O Êxodo não discute a natureza do conhecimento, não define nada e não julga a frase. Ele apenas escreveu uma resposta em que as duas metades ficaram soltas uma da outra — e é essa folga, não uma tese, que o leitor tem diante de si.
7. Aplicações Práticas
Saber distinguir a objeção da decisão
Esta é a aplicação que o versículo realmente comporta, e ela é prática. Quando alguém recusa um pedido, costuma dar um motivo. Vale prestar atenção em como o motivo e a recusa vêm ligados na frase.
Se a pessoa diz "não posso porque não tenho verba", a objeção é respondível: consegue-se a verba e a conversa continua. Se ela diz "não tenho verba, e além disso não vou fazer", o segundo membro anulou o primeiro. Responder ao motivo, aí, é gastar esforço num ponto que já não decide.
É exatamente a estrutura da fala do rei, e é por isso que o Êxodo pôde escrever nove capítulos de demonstração sem que a decisão mudasse.
Perguntar quem é alguém, quando a pergunta é sincera
Há uma aplicação pelo avesso, e ela é honesta. A mesma pergunta que aqui é recusa pode ser um pedido verdadeiro — e a Bíblia tem um exemplo disso a poucos capítulos daqui, quando Jetro, um sacerdote estrangeiro, diz em Êxodo 18:11: "agora eu sei que o SENHOR é maior que todos os deuses".
A diferença entre os dois não está na frase: está no que a pessoa faz com a resposta. O rei recebe resposta atrás de resposta e não muda; Jetro ouve o relato uma vez e reconhece. Nenhum dos dois estava obrigado pelo argumento.
Falar em nome de alguém, sem poder provar
Quem representa outra pessoa — uma instituição, uma família, uma equipe — vive a situação deste versículo mais vezes do que gostaria. A autoridade da fala não é sua, e não há nada que se possa fazer se o interlocutor não reconhecer a fonte.
O que o texto sugere, sem dizer, é que a saída não está do lado do mensageiro. Moisés não melhora a argumentação; ele volta, no versículo 3, com uma fala mais branda, e não adianta. O que muda a situação, no livro, vem de fora dele.
Uma advertência sobre o uso devocional
Este versículo é usado com frequência como retrato do coração endurecido, e daí se tira a lição de que a dureza é castigada. Convém ir devagar: neste capítulo ninguém é castigado, e quem sofre a consequência da conversa não é o rei — são os trabalhadores, a partir do versículo 6. Qualquer aplicação que salte por cima disso está pulando o que o texto tem de mais duro.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Faraó estava mentindo ao dizer que não conhecia o SENHOR?
Não é possível decidir, e as duas respostas têm apoio.
A favor da sinceridade: aquele nome não tinha, no Egito, nenhuma das marcas que faziam um deus existir para a administração — templo, renda, sacerdócio, data no calendário. O item 2 mostra quais eram. Nesse sentido, a frase é literalmente verdadeira.
A favor da recusa deliberada: a construção da pergunta que abre o versículo é, em hebraico, uma fórmula de quem nega estatuto a alguém que conhece muito bem, como mostram os casos de 1 Samuel 25:10 e Juízes 9:28.
O texto não escolhe, e o mais provável é que não precise escolher: nos dois casos o efeito é o mesmo.
Por que Moisés não respondeu à pergunta?
O texto não informa. O que se observa é o que ele faz em seguida, no versículo 3: em vez de apresentar o remetente, muda de assunto e de tom — passa a falar em nome próprio, usa outro título e acrescenta um motivo prático.
Se isso é recuo, prudência ou simplesmente a continuação da conversa, o Êxodo não diz.
Por que o rei repete o nome se diz não conhecê-lo?
Porque a frase não é sobre vocabulário. Ele tem o nome — acabou de ouvi-lo — e o usa duas vezes. O que ele nega é que aquele nome signifique alguma coisa para ele em termos de obrigação.
É a mesma coisa que acontece quando alguém diz "não conheço essa pessoa" a respeito de quem foi apresentado cinco minutos antes: não está negando ter ouvido o nome.
Este versículo prova que os egípcios não sabiam nada do Deus de Israel?
Não prova, e é preciso ser claro. A frase é a fala de um personagem, e não uma informação do texto sobre o estado de conhecimento do Egito. Fora dela, o Êxodo não diz o que os egípcios sabiam ou deixavam de saber.
A recusa do rei é o que o Êxodo chama de coração endurecido?
Aqui o cuidado é grande, porque a expressão ainda não apareceu. O endurecimento do coração é anunciado em Êxodo 4:21, com um verbo específico, e entra em cena de fato a partir do capítulo 7.
Neste versículo o texto não usa a expressão, não atribui a recusa a nenhuma causa e não comenta o estado interior do rei. Ler a cena pela chave do endurecimento é antecipar um assunto que pertence a outros capítulos.
Onde está a resposta da pergunta?
Não neste capítulo, e essa é a informação que o leitor precisa ter. O capítulo 5 termina sem resposta nenhuma — termina com Moisés acusando Deus. A fórmula que responde à pergunta do rei só começa a aparecer a partir do capítulo 6, e o item 3 lista onde.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo, no mesmo trono, no começo do livro
Êxodo 1:8 — "Então se levantou um novo rei sobre o Egito, que não conhecia José."
O rei que não conhecia um homem e o rei que não conhece um nome usam a mesma palavra. O estudo daquele versículo desenvolve o verbo e a série que ele abre.
A pergunta como fórmula de recusa
1 Samuel 25:10 — "Nabal respondeu aos servos de Davi: Quem é Davi? Quem é o filho de Jessé? Muitos são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor."
Juízes 9:28 — "Quem é Abimeleque, e quem é Siquém, para que o sirvamos? Não é ele filho de Jerubaal, e Zebul o seu delegado?"
Nos dois casos quem pergunta conhece a resposta e continua a frase demonstrando que conhece. A pergunta não pede informação: nega obrigação.
A mesma expressão, do outro lado
Êxodo 3:18 — "Eles ouvirão a sua voz."
"Ouvir a voz" é a expressão que o hebraico usa para obedecer, e ela foi prometida a respeito dos anciãos três capítulos antes. O povo ouviu, em Êxodo 4:31; o rei pergunta por que deveria. As duas cenas estão a poucos versículos uma da outra, e usam a mesma expressão.
A fórmula que responde à pergunta
Êxodo 7:17 — "Assim diz o SENHOR: nisto você conhecerá que eu sou o SENHOR: com a vara que tenho na mão ferirei as águas do rio, e elas se tornarão em sangue."
Êxodo 14:4 — "…e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR."
É o mesmo verbo deste versículo, agora no futuro e com o Egito por sujeito. O que o rei nega aqui é o que a fórmula se propõe a produzir.
E a mesma fórmula virada para dentro
Êxodo 6:7 — "Eu os tomarei por meu povo e serei o seu Deus; e vocês saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus, que os tira de debaixo das cargas dos egípcios."
Logo depois deste capítulo, quem precisa saber já não é o Egito: é Israel. E a frase menciona justamente as cargas que o capítulo 5 vai aumentar.
Um estrangeiro que chega à conclusão contrária
Êxodo 18:11 — "Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses."
É Jetro, sacerdote de Midiã, depois de ouvir o relato da saída. Mesmo verbo, mesma posição de estrangeiro diante de um nome novo, resultado oposto.
A frase de Moisés que ficará sem resposta
Êxodo 5:23 — "Pois desde que fui a Faraó para falar em teu nome, ele tem feito mal a este povo; e tu de modo algum livraste o teu povo."
O fim do capítulo mede o efeito deste versículo. A recusa do nome não foi respondida por nada, e quem cobra a resposta é o próprio mensageiro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas Faraó respondeu: “Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה מִי יְהוָה אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקֹלוֹ לְשַׁלַּח אֶת־יִשְׂרָאֵל לֹא יָדַעְתִּי אֶת־יְהוָה וְגַם אֶת־יִשְׂרָאֵל לֹא אֲשַׁלֵּחַ׃
Transliteração
vayyómer Par'ó: mi YHWH, ashér eshmá be-qoló le-shallách et-Yisra'él? Lo yadá'ti et-YHWH, ve-gám et-Yisra'él lo ashalléach.
Análise palavra por palavra
מִי — mi, "quem". Pronome interrogativo de pessoa. O hebraico tem outro pronome para coisas; ao usar este, o rei trata o nome como nome de alguém, e não de algo.
A construção que vem a seguir é o que define o sentido: mi seguido de uma oração que começa por asher — "quem é X, que eu…". É a forma da pergunta que nega estatuto, e o item 3 apresenta os dois casos que a esclarecem.
יְהוָה — YHWH, o nome próprio de Deus, escrito com as quatro consoantes. A história do nome, a sua ligação com a fórmula de Êxodo 3:14 e a decisão de traduzi-lo por "o SENHOR" estão nos estudos de Êxodo 3:14 e 3:15.
O que cabe registrar aqui é a contagem: o nome aparece duas vezes na fala do rei — na pergunta e na negativa. É a primeira vez em que ele é pronunciado por alguém de fora de Israel.
אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקֹלוֹ — ashér eshmá be-qoló, "para que eu ouça a sua voz". O verbo é shama, no Qal, imperfeito, primeira pessoa do singular.
Aqui está a construção que muda a leitura. Shama sozinho, com objeto direto, é ouvir: perceber um som, escutar uma palavra. Shama com a preposição be mais qol ("voz") é outra coisa: significa obedecer, dar cumprimento ao que foi dito. A diferença é fixa e atravessa a Bíblia hebraica.
Exemplos ajudam a fixar. Em Gênesis 3:17, Adão "ouviu a voz" da mulher — e o que se censura não é ter escutado, é ter feito. Em Gênesis 22:18, a promessa é dada a Abraão "porquanto você ouviu a minha voz", depois do episódio do monte. Em Êxodo 15:26 a expressão reaparece como condição de aliança.
Portanto, o que o rei pergunta não é "por que eu escutaria esse deus?". É "por que eu obedeceria a ele?" — e é a pergunta correta a se fazer diante de uma fórmula de mensageiro, que não traz um pedido, e sim uma ordem.
לְשַׁלַּח אֶת־יִשְׂרָאֵל — le-shallách et-Yisra'él, "e deixe Israel ir". Mesmo verbo do versículo 1, shalach, no Piel — a forma em que ele significa soltar, deixar partir —, agora no infinitivo com a preposição de finalidade.
O rei repete o verbo exato que ouviu. Não o substitui por "libertar", por "dispensar" nem por nenhum termo mais brando. Ele devolve a palavra da exigência.
O que ele não devolve é o possessivo. Moisés disse et-ammí, "o meu povo"; o rei diz et-Yisra'él, "Israel". Sai o dono, fica o nome.
לֹא יָדַעְתִּי — lo yadá'ti, "não conheço". Verbo yada, no Qal, perfeito, primeira pessoa do singular, com a negação.
O campo semântico desta raiz — de saber informação a reconhecer, dar estatuto e assumir compromisso, incluindo o uso jurídico — está desenvolvido por inteiro no estudo de Êxodo 1:8, e não se repete aqui.
O que é próprio deste versículo é a forma verbal, e ela é ambígua de um jeito que a tradução não consegue guardar. O perfeito hebraico descreve ação concluída. Aplicado a um verbo de estado como este, ele pode ser lido de dois modos, e os dois são correntes:
"Nunca vim a conhecer" — leitura do processo: em momento nenhum da minha vida esse nome entrou no meu conhecimento. É a leitura que casa com o fundo egípcio do item 2.
"Não o reconheço" — leitura do estado presente: seja lá o que eu tenha ouvido, ele não tem lugar comigo. É a leitura que casa com a fórmula da pergunta.
Não é possível decidir entre as duas pela gramática, e provavelmente não é preciso: as duas desembocam na mesma recusa.
אֶת־יְהוָה — et-YHWH. A partícula et marca o nome como objeto direto do verbo de conhecer.
É o mesmo procedimento de Êxodo 1:8, onde o objeto marcado era José. Lá, o que não se conhecia era uma pessoa; aqui, um nome. A construção é idêntica, e o Êxodo não comenta a repetição.
וְגַם — ve-gám, "e também", "e tampouco". Conjunção mais a partícula aditiva gam.
Esta é a palavra decisiva do versículo, e ela ocupa duas letras. Gam acrescenta: soma um item a outro. Não é a partícula de consequência, que o hebraico também tem — para dizer "por isso" ou "portanto" existem outras construções, e nenhuma delas foi usada aqui.
Ou seja: a segunda negativa não é conclusão da primeira. São duas recusas empilhadas, e a segunda continuaria de pé se a primeira fosse desfeita. O item 3 desenvolve o que isso significa para o livro inteiro.
לֹא אֲשַׁלֵּחַ — lo ashalléach, "não deixarei ir". Shalach outra vez no Piel, agora no imperfeito, primeira pessoa do singular, com negação.
Vale ver o versículo inteiro como desenho. O verbo de soltar aparece duas vezes: na pergunta, como finalidade — soltar Israel —, e no fim, negado em primeira pessoa. O nome de Israel aparece duas vezes, sempre como objeto desse verbo. O nome divino aparece duas vezes. A resposta é construída em pares, e cada par termina numa negação.
O tempo verbal também diz algo. O imperfeito hebraico cobre o que ainda não se completou, e serve tanto para o futuro quanto para a disposição de quem fala. Aqui cabem as duas: "não soltarei" e "não estou disposto a soltar". A tradução tem de escolher uma; o original não escolhe.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões se sustentam.
A primeira: a recusa é de estatuto, não de informação. A pergunta que abre a fala tem, em hebraico, uma função conhecida — negar a alguém o direito de mandar —, e a segunda metade do versículo confirma isso ao desligar a recusa do desconhecimento. O rei não está pedindo que lhe apresentem um deus. Está dizendo que nenhuma apresentação o obrigaria.
A segunda: a frase é, ao mesmo tempo, verdadeira e insuficiente. Do ponto de vista do aparelho religioso egípcio, aquele nome de fato não constava: não tinha templo, renda, sacerdócio nem data. O rei responde com exatidão administrativa a uma exigência que não era administrativa. É esse desencontro, e não a má-fé, que faz a conversa morrer em duas frases.
A terceira: o versículo transforma o livro numa resposta. A pergunta fica no ar, e a partir do capítulo seguinte o Êxodo passa a repetir, em momentos decisivos, a mesma construção verbal — para que saibam que eu sou o SENHOR. O leitor que chegou até aqui carrega a pergunta do rei enquanto lê as pragas.
E convém fechar com o que não se pode concluir. Este versículo não diz que Faraó é mau, não explica a recusa por nenhuma causa interior e não usa a linguagem do coração endurecido, que entrará depois. Também não resolve nada: o capítulo continua, a situação piora, e a pergunta segue sem resposta até bem longe daqui. Quem quiser um desfecho terá de esperar — e o próprio Moisés, no fim deste capítulo, vai mostrar que esperar era difícil.













