E Deus disse a Moisés: “EU SOU O QUE SOU.” E disse: “Assim você dirá aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vocês.”
1. Introdução
Este é o versículo mais comentado do Antigo Testamento, e é o que mais atrai afirmação categórica.
Moisés perguntou o que dizer ao povo. A resposta são três palavras hebraicas — ehyeh asher ehyeh —, e nenhuma delas é um nome no sentido comum. É um verbo, repetido, com um pronome relativo no meio. Não há substantivo, não há título, não há epíteto.
O estudo deste versículo tem uma regra de método, e ela vem declarada logo: não se decide aqui. As leituras existem, são antigas, têm defensores de peso, e o texto sustenta mais de uma. O que se faz é expor cada uma com o nome de quem a sustenta.
Cinco coisas organizam a leitura.
A primeira é gramatical e é a base de tudo: o verbo está no imperfeito, forma que em hebraico cobre presente e futuro. A tradução tem de escolher, e o hebraico não escolheu.
A segunda é a que mais incomoda, e é do nosso próprio trabalho: a mesma palavra que aqui traduzimos por "SOU" nós traduzimos por "estarei" no versículo 12. É a mesma forma verbal, letra por letra. "EU SOU O QUE SOU" é escolha nossa, e fica declarada.
A terceira é a leitura futura — "EU SEREI O QUE SEREI" —, que é séria, é defendida por tradutores antigos e modernos, e nunca foi a leitura majoritária no Ocidente porque a Septuaginta e a Vulgata leram no presente. O item 2 conta essa história.
A quarta é uma construção do hebraico em que a mesma palavra se repete dos dois lados de um relativo, com sentido de indeterminação deliberada — "serei o que eu for". Há outros exemplos na Bíblia hebraica, e há quem sustente que a fórmula serve para encerrar uma pergunta em vez de respondê-la.
A quinta é o que o versículo faz depois de dizer isso: encurta. A frase que Moisés deve levar ao povo não é a fórmula inteira, e sim uma palavra só.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como esta frase chegou até nós
A história da leitura deste versículo é, em boa parte, a história de decisões de tradutores. Cada versão antiga teve de escolher entre presente e futuro, e as escolhas divergiram — o que é, em si, o dado histórico mais importante para o item seguinte.
A Septuaginta (século III a II a.C.)
A tradução grega feita em Alexandria verteu a fórmula por egó eimi ho ón ("eu sou o que é", ou "eu sou aquele que é"). E fez mais: na segunda metade do versículo, onde o hebraico repete o verbo na primeira pessoa, ela pôs ho ón — um particípio, "o que é", "o Sendo".
Isso não é detalhe. Um verbo em primeira pessoa vira um título em terceira; uma ação vira uma qualidade. É por esta porta que a leitura filosófica do versículo entra na tradição ocidental, e o item 6 trata do que se construiu depois.
Áquila e Teodocião (século II d.C.)
Duas revisões gregas posteriores, feitas por tradutores judeus insatisfeitos com a liberdade da Septuaginta e empenhados em colar no hebraico, traduziram a mesma frase por ésomai hòs ésomai — "serei o que serei" —, e a segunda metade por ésomai, "serei".
Ou seja: a leitura futura não é invenção moderna. Ela está documentada no século II, feita por gente que lia hebraico e que estava justamente tentando corrigir o grego pela letra do original.
A Vulgata (séculos IV e V)
Jerônimo traduziu para o latim ego sum qui sum ("eu sou o que sou") e, na segunda parte, qui est misit me ("aquele que é me enviou"). Seguiu a Septuaginta no presente e manteve o particípio na segunda metade.
Como a Vulgata foi o texto da cristandade ocidental por mil anos, a decisão dela é a razão prática de "EU SOU" ter virado a leitura padrão em quase todas as línguas europeias — inclusive na nossa. A escolha é antiga e é escolha.
Moses Mendelssohn (século XVIII)
O filósofo judeu alemão traduziu a Torá para o alemão e verteu o nome divino por der Ewige ("o Eterno"). O raciocínio dele partia justamente da largura do imperfeito hebraico: se a forma verbal não fixa tempo, ela abarcaria passado, presente e futuro ao mesmo tempo — e disso Mendelssohn tirou a eternidade.
Buber e Rosenzweig (década de 1920)
Martin Buber e Franz Rosenzweig traduziram a Bíblia hebraica para o alemão com o propósito declarado de devolver ao leitor a aspereza do original, e verteram este versículo por Ich werde dasein, als der ich dasein werde — "estarei presente como aquele que estarei presente".
A escolha deles é uma tomada de posição em duas frentes. Contra o presente da Septuaginta, porque leem o verbo como futuro. E contra Mendelssohn, porque recusam a abstração: para Rosenzweig, o versículo não anuncia a essência de Deus, anuncia que ele estará ali. O item 3 volta a isso.
E a nossa versão
A tradução usada neste site traz "EU SOU O QUE SOU". Ela está na companhia da Septuaginta, da Vulgata e da maioria esmagadora das versões em português — e é, como todas elas, uma escolha entre leituras possíveis, feita porque o português obriga a escolher onde o hebraico não obriga.
O leitor tem o direito de saber disso, e por isso está escrito aqui: o original permite o presente e permite o futuro, e a nossa versão optou pelo presente.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Deus disse a Moisés"
A pergunta do versículo 13 foi sobre o recado. A resposta vem em duas partes, e é importante separá-las desde já, porque quase toda a discussão se concentra na primeira e ignora a segunda.
A primeira parte é dita a Moisés: a fórmula inteira, ehyeh asher ehyeh. A segunda parte é o que ele deve dizer ao povo, e não é a mesma coisa — é uma palavra só. O texto distingue os dois destinatários e distingue o que cada um recebe.
"EU SOU O QUE SOU"
Comecemos pelo que não está em disputa, porque é pouco e é firme.
São três palavras hebraicas. A primeira e a terceira são a mesma, idêntica: um verbo, na primeira pessoa do singular, no imperfeito. A do meio é o pronome relativo — "que", "o qual", "aquilo que". A análise completa está no item 10. Não há aqui substantivo, título ou epíteto: a resposta à pergunta por um nome é uma frase verbal.
E agora o primeiro ponto, que é do nosso próprio trabalho e precisa vir antes de tudo o mais.
A mesma palavra, traduzida de dois jeitos
Dois versículos atrás, no 12, Deus disse a Moisés uma palavra que a nossa versão traduz por "estarei". Aquela palavra é ehyeh. As duas palavras deste versículo são ehyeh. São a mesma forma verbal, sem diferença de uma letra: mesmo verbo, mesma pessoa, mesmo tempo.
Um leitor de hebraico ouve, em três linhas, a mesma palavra três vezes. Um leitor de português lê "estarei" e depois lê "SOU", e não tem como saber que se trata da mesma coisa.
Isso precisa ser dito com todas as letras: "EU SOU O QUE SOU" é escolha nossa. É defensável, tem duas mil anos de companhia ilustre, e é escolha. Se tivéssemos traduzido o versículo 12 por "eu serei com você" — como fazem várias versões —, o eco apareceria; se tivéssemos traduzido este por "EU SEREI O QUE SEREI", ele apareceria por outro caminho. Nenhuma tradução consegue os dois ao mesmo tempo, porque o português não tem uma palavra que sirva nas duas frases.
O que isso autoriza a concluir é limitado, e vale ser exato. Não prova que a fórmula signifique presença. Mostra que, no único emprego anterior da palavra neste capítulo, e na boca do mesmo falante, ela significou estar junto de alguém. Isso pesa — e não decide, porque lá o verbo vem acompanhado de "com você", e aqui não vem acompanhado de nada.
Primeira leitura: o presente
"Eu sou o que sou" — a leitura da Septuaginta, da Vulgata e da esmagadora maioria das traduções ocidentais. O item 2 conta como ela se firmou.
Nessa leitura, a frase afirma alguma coisa sobre o modo de existir de Deus: que ele é por si, que não depende de nada, que não se define por comparação. É a leitura que sustenta a tradição filosófica examinada no item 6.
A favor dela: o imperfeito hebraico cobre também o presente, e o contexto é de autoapresentação. Contra: o hebraico tem meios de dizer "eu sou" sem verbo nenhum — a frase nominal, que é a construção normal —, e este versículo não a usa.
Segunda leitura: o futuro
"Eu serei o que serei" — a leitura de Áquila e de Teodocião no século II, e a de Buber e Rosenzweig no século XX.
Nessa leitura, a frase não descreve essência, e sim disponibilidade: o que se promete é presença, e presença ainda por vir. Rosenzweig foi explícito ao recusar a alternativa — para ele o versículo não revela o que Deus é, anuncia que ele estará ali, onde for preciso. É a leitura que se encaixa melhor com o versículo 12, e é a que dá conta do fato de que o livro inteiro trata de um Deus que vai fazer alguma coisa e não de um Deus que se define.
A favor dela: é a leitura de tradutores judeus que trabalhavam colados ao hebraico; e é a que preserva o eco com o versículo 12. Contra: um futuro puro deixa a frase estranhamente vaga como resposta a um pedido de nome.
Terceira leitura: indeterminação deliberada
Esta é a menos conhecida e é a mais interessante, porque não depende de escolher tempo verbal.
O hebraico tem uma construção em que a mesma palavra aparece dos dois lados do pronome relativo, e o resultado é deliberadamente indefinido. Os exemplos existem e são verificáveis. Em Êxodo 33:19: "terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia" — que não informa de quem, e é o ponto. Em 1 Samuel 23:13, sobre Davi e os seus homens: "andaram por onde podiam andar" — ou seja, sem rumo determinado. Em 2 Samuel 15:20, Davi a Itai: "eu vou para onde eu for" — sem destino declarado.
Nessas três passagens a construção serve para não especificar. Aplicada aqui, ela produziria algo como "serei o que eu for" — uma recusa a delimitar.
O hebraísta inglês S. R. Driver (Samuel Rolles Driver, professor de hebraico em Oxford, século XIX) descreveu a construção como um recurso semítico usado onde falta o meio ou a vontade de ser mais explícito. É uma descrição do idioma, não uma teoria sobre este versículo — e é justamente por isso que vale.
Quarta leitura: a recusa de responder
É um desdobramento da terceira, e tem defensor identificável. Jack Lundbom, num artigo publicado na Harvard Theological Review ("Revista Teológica de Harvard") em 1978, sustentou que essa construção, na Bíblia hebraica, funciona como recurso para encerrar uma discussão: quem a usa não responde à pergunta, declara que ela não está aberta a negociação.
Lundbom trabalha com os dois casos em que Deus a emprega — este versículo e Êxodo 33:19 — e nota que os dois são respostas a pedidos: um pedido de nome e um pedido de ver a glória. Nos dois, a fórmula devolve o assunto e o fecha.
Se essa leitura estiver certa, o versículo mais comentado do Antigo Testamento é um versículo em que Deus não diz o nome. Vale registrar que ela tem uma dificuldade séria: dois versículos adiante o nome é dito, com todas as letras e com instrução de transmiti-lo. Quem sustenta a recusa precisa explicar o versículo 15, e as explicações existem e são discutidas.
Uma quinta, da tradição judaica
Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) recolhe uma leitura do Talmude que não se encaixa em nenhuma das anteriores e merece registro: ehyeh como promessa de estar presente na aflição — "estarei com eles nesta aflição, e estarei com eles nas aflições que virão".
E ela vem com uma cena. Segundo o mesmo texto, Moisés objeta: por que mencionar a eles outras aflições, se já basta a de agora? E Deus responde que ele falou bem — e por isso manda dizer apenas ehyeh, sem a repetição.
É leitura tardia, e é evidentemente uma construção sobre o texto. Mas ela tem um mérito que as outras não têm: explica o encurtamento, que é o dado observável mais estranho deste versículo e que quase ninguém comenta.
"E disse: 'Assim você dirá aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vocês.'"
Aqui está o dado que se costuma atravessar sem parar.
A fórmula tem três palavras. O que Moisés deve dizer ao povo tem uma. O texto encurta, e não explica por quê.
Observe também o que a construção faz com a palavra. Na primeira metade, ehyeh é verbo — o sujeito é quem fala. Na segunda metade, ele aparece como sujeito de outro verbo: "Ehyeh me enviou". Uma forma verbal está sendo usada no lugar de um nome próprio, e isso é anormal em hebraico. É provavelmente o argumento mais forte de que se trata mesmo de um nome, e não de uma esquiva.
Três leituras do encurtamento circulam, e nenhuma é decidível. Que a fórmula longa era para Moisés e a curta para o povo — informação diferente para destinatários diferentes. Que a fórmula longa explica a curta, e é a curta que serve como nome. E a leitura talmúdica registrada acima. O texto não diz.
O limite, e ele é o mais importante deste estudo
Três observações fecham o versículo, e as três são de contenção.
A primeira: não é possível decidir entre as leituras. Não por falta de estudo — este versículo tem mais bibliografia do que qualquer outro do Antigo Testamento —, e sim porque o hebraico admite mais de uma e não fornece o critério para escolher. Qualquer estudo que apresente uma delas como a leitura correta está escondendo do leitor o estado real da questão.
A segunda: o que se afirma aqui sobre Deus, seja qual for a leitura, é bem menos do que a tradição costuma extrair. A frase não diz que Deus é eterno, não diz que é imutável, não diz que é o ser necessário. Essas afirmações podem ser verdadeiras por outros caminhos; elas não estão nestas três palavras, e a distância entre o hebraico e o que se construiu sobre ele é o assunto do item 6.
A terceira: este nome, seja ele o que for, não é o nome que a Bíblia usa. Uma linha adiante virá outro, com a instrução de que é esse, para sempre. O que se faz com essa sucessão é assunto do versículo 15.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem fala
O texto diz "Deus", com artigo, como vem fazendo desde o versículo 11. O nome próprio não aparece neste versículo — aparece no seguinte. Registrar isso importa: o versículo famoso pelo nome de Deus é, tecnicamente, o versículo em que o nome ainda não foi dito.
Moisés
Recebe aqui duas coisas: uma fórmula dita a ele e um recado a transmitir. Não responde nada. A próxima fala dele só vem no capítulo 4, e é sobre outro assunto — o de que o povo pode não acreditar.
Vale notar o silêncio. Moisés discute a própria adequação, discute a credibilidade da mensagem, discute a própria fala — e não discute isto. O Êxodo não diz se ele entendeu.
Os filhos de Israel
São o destinatário do recado, e é para eles que a fórmula é encurtada. A distinção que o versículo faz entre o que Moisés ouve e o que o povo deve ouvir é explícita no próprio texto: "assim você dirá aos filhos de Israel".
O acontecimento
É este o ponto do capítulo em que a pergunta do versículo 13 recebe resposta. E convém situá-lo com precisão na sequência, porque o capítulo tem duas respostas seguidas e elas não são iguais.
Neste versículo Deus responde com uma fórmula verbal e manda transmitir uma palavra dela. No versículo seguinte ele fala de novo — o texto marca com "ainda", indicando que é acréscimo — e dita outro recado, agora com o nome próprio e com os nomes dos patriarcas. São duas falas, e o leitor que junta as duas numa só perde a estrutura.
Onde se dá
No monte de Deus, diante da sarça, sem mudança de cena desde o versículo 2. O lugar não recebe destaque neste versículo e não precisa: o assunto aqui é inteiramente verbal.
Os que traduziram esta frase
Como a história deste versículo é feita de decisões de tradução, vale ter os nomes à mão. Os tradutores da Septuaginta, em Alexandria, no século III ou II a.C. Áquila e Teodocião, no século II da nossa era. Jerônimo, no fim do século IV. Moses Mendelssohn, na Alemanha do século XVIII. Martin Buber e Franz Rosenzweig, na do século XX. O item 2 trata do que cada um decidiu.
5. Pontos de Ensino
A resposta não tem a forma da pergunta
Pediu-se um nome e veio uma frase verbal. Isso não é acidente de tradução: em hebraico também não é um nome no sentido comum, e a estranheza é do original.
O ensino aqui é de leitura, e é o mais útil deste versículo: quando a resposta muda de categoria, a mudança faz parte do que está sendo dito. Quem lê "EU SOU O QUE SOU" como se fosse um nome comum já perdeu o principal.
Tradução é decisão, e a decisão é visível
A mesma palavra hebraica aparece no versículo 12 e neste, e nenhuma versão em português consegue traduzi-la igual nos dois lugares. O que o leitor tem em mãos é sempre o resultado de uma escolha.
Isso não é motivo para desconfiar das traduções; é motivo para saber o que elas são. E vale um critério prático: quando um versículo sustenta duas leituras muito diferentes, é sinal de que ali houve decisão — e o leitor tem o direito de saber qual foi.
A tradição diz mais do que o texto
Boa parte do que se ensina a partir deste versículo — a imutabilidade, a autoexistência, a eternidade — chegou até nós por um caminho longo, que passa pelo grego e pelo latim e depois pela filosofia medieval.
Isso não torna essas afirmações falsas. Torna-as afirmações da tradição, e não deste versículo. Separar as duas coisas é o trabalho honesto, e é o assunto do item 6.
Existem perguntas que a Bíblia não responde do jeito esperado
É possível que este seja um caso de resposta que se recusa a delimitar — a leitura da indeterminação e a de Lundbom apontam nessa direção, e o hebraico tem outros exemplos da mesma construção usada justamente para não especificar.
Quem ensina este versículo faz bem em não esconder essa possibilidade. Ela é incômoda e é séria, e conviver com ela é mais fiel ao texto do que resolvê-la por decreto.
O encurtamento merece atenção
O que o povo deve ouvir é uma palavra, e não a fórmula. É o dado mais fácil de atravessar sem ver, e é o mais concreto do versículo.
Ele ensina alguma coisa sobre transmissão: o que se recebe e o que se repassa não são sempre a mesma coisa, e neste caso é o próprio texto que faz a redução.
6. Aspectos Filosóficos
Este versículo sustentou dois mil anos de filosofia sobre o ser, e o nome dessa tradição foi cunhado por um historiador do século XX.
Étienne Gilson (1884-1978), historiador francês da filosofia medieval, chamou-a de "metafísica do Êxodo" — métaphysique de l'Exode — em L'esprit de la philosophie médiévale ("O espírito da filosofia medieval", 1932, saído das conferências que ele deu em Aberdeen entre 1930 e 1931). A expressão pegou, e hoje é o rótulo padrão para a linhagem que leu neste versículo uma afirmação sobre o ser.
A tese que Gilson descrevia é grande: para ele, a identificação entre Deus e o ser — Deus não como o supremo entre os entes, e sim como o próprio existir — foi a contribuição original do pensamento medieval, e ela teria aqui a sua certidão de nascimento. A filosofia grega tinha o ser; o que faltava, na leitura dele, era a afirmação de que aquilo que é, é alguém, e que esse alguém falou.
E aqui é preciso parar e marcar o limite, porque é para isso que Gilson entra neste estudo.
Gilson não estava fazendo tradução do hebraico. Estava escrevendo história da recepção — a história do que se fez com este versículo, ao longo dos séculos, dentro de uma tradição determinada. E essa história tem um itinerário identificável, que o item 2 já percorreu: ela passa pela Septuaginta, que transformou um verbo em primeira pessoa num particípio, "o que é"; e passa pela Vulgata, que fixou o presente em latim para mil anos de leitores ocidentais.
Dito de outro modo: a metafísica do Êxodo é uma leitura da tradução grega antes de ser uma leitura do hebraico. Quem lê "o que é" está lendo a Septuaginta. O hebraico não tem particípio, não tem substantivo e não tem o verbo grego do ser; tem uma forma verbal de primeira pessoa, repetida, ligada por um pronome relativo — e essa forma cobre presente e futuro, e é a mesma que a nossa versão traduz por "estarei" duas linhas antes.
Três consequências, e é bom enunciá-las separadas.
A primeira é que a tradição não é ilegítima como filosofia. Pensar o ser a partir de um texto, e construir sobre ele, é operação intelectual normal e produziu coisas sérias. Ilegítimo é apresentá-la como tradução, isto é, dizer ao leitor que é isso que o versículo afirma.
A segunda é que a própria tese de Gilson foi contestada em seu tempo, e não apenas por biblistas. A ideia de uma "filosofia cristã" já era objeto de polêmica na França dos anos 1930 — Émile Bréhier estava entre os que a recusavam —, e a acusação de que Gilson dava peso excessivo à categoria do ser dentro da teologia medieval é discutida até hoje.
A terceira é a que mais importa para quem lê a Bíblia. Se a leitura futura ou a leitura da indeterminação estiverem certas, a "metafísica do Êxodo" não perde valor como filosofia — perde a âncora textual. E o versículo passa a dizer alguma coisa bem menos abstrata e bem mais desconfortável: não que Deus é, mas que ele estará, e nos termos dele.
O honesto é deixar as duas coisas lado a lado e separadas: o que este versículo permite afirmar, que é pouco; e o que se construiu sobre ele, que é enorme. Confundir as duas é o erro que este item existe para evitar.
7. Aplicações Práticas
Uma advertência antes das aplicações
Este versículo tem menos aplicação prática do que a sua fama sugere, e é melhor dizer isso do que preencher o espaço.
Ele não dá uma instrução, não descreve uma conduta e não estabelece uma promessa condicional. É uma resposta a um pedido de identificação, dada num diálogo específico. Quase tudo o que se prega a partir daqui vem, na verdade, do versículo 12 — a promessa de presença — ou do 15, que é onde o nome entra em uso.
O que se pode tirar sem forçar é isto:
Nem toda pergunta legítima recebe a resposta que pedia
Moisés pediu um nome e recebeu uma frase. Não foi recusa e não foi exatamente atendimento: foi resposta em outra categoria.
Isso descreve situações reconhecíveis — a pergunta ao médico que volta como probabilidade, a pergunta sobre o futuro de um relacionamento que volta como descrição do presente. A tentação, nesses casos, é converter a resposta recebida na resposta desejada. O versículo sugere o contrário: tomar a resposta pelo que ela é, inclusive quando ela desloca a pergunta.
Saber o estado real de uma questão vale mais do que ter uma opinião sobre ela
Este é o versículo com mais bibliografia do Antigo Testamento, e o resultado de toda essa bibliografia é que não é possível decidir. Quem sai daqui sabendo que há quatro leituras sérias, e por que cada uma se sustenta, sabe mais do que quem sai com uma frase de efeito.
A transposição é direta e serve para muita coisa fora da Bíblia: em qualquer assunto denso, conhecer o mapa das posições é um patamar mais alto do que aderir a uma delas sem conhecer as outras.
Desconfie do argumento que depende de uma tradução
Há muito ensino construído sobre o "EU SOU" deste versículo, e boa parte dele não sobreviveria se a frase fosse lida no futuro.
A aplicação prática é um hábito de leitura: quando um raciocínio inteiro se apoia na forma exata de uma palavra traduzida, vale conferir se aquela forma é o original ou a escolha de quem traduziu. Aqui, é escolha — e a nossa própria versão traduz a mesma palavra de outro jeito duas linhas antes.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, "EU SOU" ou "EU SEREI"?
As duas leituras são possíveis, porque o imperfeito hebraico cobre presente e futuro. A Septuaginta e a Vulgata leram no presente e definiram a tradição ocidental; Áquila e Teodocião, no século II, leram no futuro, e Buber e Rosenzweig, no século XX, também. Não é possível decidir pelo texto, e este estudo não decide.
Deus está se recusando a dar o nome?
É uma das leituras sérias, ligada à construção em que a mesma palavra se repete dos dois lados do relativo, e Lundbom a defendeu expressamente. A dificuldade dela está uma linha adiante: no versículo 15 o nome é dado. Quem sustenta a recusa tem de explicar aquele versículo, e as explicações são discutidas.
Este é o nome de Deus?
Não é o nome que a Bíblia usa. O nome que atravessa o Antigo Testamento inteiro aparece no versículo 15, e é outro — embora aparentado com este pela raiz verbal. O que o versículo 14 dá é uma fórmula, e o que Moisés deve levar ao povo é uma palavra dela.
Por que a segunda metade encurta a fórmula?
O texto não explica, e o dado é observável: a Moisés é dita a fórmula de três palavras, e ao povo se manda dizer uma. A tradição judaica registrada por Rashi propõe uma razão — a fórmula longa mencionaria aflições futuras que não seria bom anunciar —, e é construção tardia sobre o texto, não leitura direta dele.
O que a filosofia extraiu daqui é errado?
Não é errado como filosofia; é frágil como tradução. A tradição que Gilson batizou de "metafísica do Êxodo" leu neste versículo uma afirmação sobre o ser, e chegou a essa leitura por um caminho que passa pelo grego da Septuaginta, onde um verbo em primeira pessoa virou um particípio. O hebraico não tem esse particípio.
Moisés entendeu a resposta?
O texto não diz. Ele não comenta, não pergunta e não agradece; a próxima fala dele, no capítulo 4, é sobre outro assunto. Convém notar que a Bíblia inteira, depois disto, não volta a discutir o sentido da fórmula — a discussão é nossa, não é do Antigo Testamento.
E a ligação com o "Eu sou" do Novo Testamento?
Existe uma discussão longa sobre as expressões de João 8:58 e afins, e ela é conduzida a partir do grego da Septuaginta, que é o texto que aqueles autores liam. É assunto sério, é discutido, e depende inteiramente de qual leitura deste versículo se adote — o que o torna, para o nosso propósito, matéria daqueles textos e não deste.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma construção, na mesma boca
Êxodo 33:19 — "E disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e apregoarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer."
É o outro caso em que Deus usa a construção da palavra repetida dos dois lados do relativo, e também ali a resposta vem a um pedido — o de ver a glória. Nos dois casos a fórmula não especifica.
A mesma construção, entre homens
1 Samuel 23:13 — "Então se levantou Davi com os seus homens, uns seiscentos, e saíram de Queila, e foram-se aonde puderam ir."
2 Samuel 15:20 — "Ontem vieste, e te levaria eu hoje conosco a vaguear? Pois eu vou para onde puder ir; volta, pois, e faze voltar a teus irmãos contigo."
Duas passagens em que a repetição serve claramente para não determinar: sem rumo, sem destino declarado. São a base da leitura da indeterminação.
A palavra deste versículo, negada
Oseias 1:9 — "E ele disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami; porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus."
O profeta usa o mesmo verbo na primeira pessoa, precedido de negação, para anunciar a ruptura. Muitos leem ali um desfazimento deliberado da fórmula de Êxodo 3:14; é leitura, e é forte.
A promessa que usa a mesma palavra
Êxodo 3:12 — "E ele disse: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei."
Duas linhas antes, a mesma forma verbal, com "com você" ao lado. É a única ocorrência do capítulo em que o sentido não está em disputa.
Fórmulas de autoapresentação divina
Isaías 41:4 — "Quem operou e fez isto, chamando as gerações desde o princípio? Eu, o SENHOR, o primeiro, e com os últimos eu mesmo."
Isaías 43:10 — "Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, e o meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo."
Séculos depois, a autoapresentação divina continua sendo feita com formas do verbo de ser, e não com epítetos.
O eco no fim do cânon
Apocalipse 1:8 — "Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso."
A tripla fórmula — que é, que era, que há de vir — é lida por muitos como uma expansão do particípio grego da Septuaginta neste versículo. A ligação é defensável e é discutida.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (ABC)
E Deus disse a Moisés: “EU SOU O QUE SOU.” E disse: “Assim você dirá aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vocês.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים אֶל־מֹשֶׁה אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה וַיֹּאמֶר כֹּה תֹאמַר לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶהְיֶה שְׁלָחַנִי אֲלֵיכֶם
Transliteração
wa-yomer Elohim el-Mosheh: "ehyeh asher ehyeh". Wa-yomer: "koh tomar li-vnei Yisrael: ehyeh shelahani aleikhem".
Análise palavra por palavra
אֶהְיֶה — ehyeh. A palavra do versículo, e a análise dela é a base de tudo o que se discute.
Raiz: hayah, o verbo hebraico de ser e estar. Forma: Qal (a forma simples do verbo hebraico), imperfeito, primeira pessoa do singular, comum aos dois gêneros. Tradução literal: "eu serei", "eu estarei", "eu sou" — e a razão de haver três possibilidades está na natureza do imperfeito.
O imperfeito hebraico não é o futuro do português. Ele não marca o momento em que a ação acontece; marca que a ação não está concluída. Daí cobrir o futuro, o presente habitual, o que pode acontecer, o que se deseja — sentidos que em português exigem tempos e modos diferentes. Um verbo no imperfeito, isolado e sem marcadores de tempo em volta, simplesmente não informa quando.
E é exatamente esse o caso aqui. A frase não tem advérbio de tempo, não tem contexto narrativo que a situe, não tem nada que force presente ou futuro. O hebraico não decide, e por isso o tradutor tem de decidir.
A identidade com o versículo 12
Este é o dado que o item 3 desenvolve e que aqui fica registrado na forma técnica.
Em Êxodo 3:12, a palavra que a nossa versão traduz por "estarei" é ehyeh: Qal, imperfeito, primeira pessoa do singular. Neste versículo, as duas palavras que a nossa versão traduz por "SOU" são ehyeh: Qal, imperfeito, primeira pessoa do singular. São a mesma forma, sem nenhuma diferença — nem de consoantes, nem de vogais, nem de análise.
A única diferença está no que vem junto. No versículo 12 o verbo é seguido de immakh, "com você", que fixa o sentido em companhia. Aqui ele aparece duas vezes sem complemento nenhum — e a ausência de complemento é o que abre a discussão.
אֲשֶׁר — asher. O pronome relativo do hebraico: "que", "o qual", "aquele que", e também "onde", "quando", conforme a construção. É invariável, não tem gênero nem número, e por isso não ajuda a decidir nada.
O ponto importante é a construção em que ele entra aqui, chamada nos manuais de idem per idem ("o mesmo pelo mesmo", em latim — o nome que a gramática deu ao caso em que a mesma palavra aparece dos dois lados do relativo). Os exemplos bíblicos estão no item 9: Êxodo 33:19, 1 Samuel 23:13, 2 Samuel 15:20. Em todos eles o efeito é o mesmo — a construção deixa o assunto indeterminado de propósito.
A frase inteira: אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה
Três palavras, e nenhuma delas é substantivo. Isso precisa ser dito porque o versículo é famoso como "o nome de Deus": a resposta a um pedido de nome não tem nome dentro.
Convém registrar também o que o hebraico não fez. Para dizer "eu sou" o hebraico normalmente não usa verbo nenhum: junta o pronome ao predicado, e a cópula fica implícita — é a construção de "Eu sou o Deus do seu pai", no versículo 6 deste mesmo capítulo, que não tem verbo. Aqui o verbo está lá, duas vezes, no imperfeito. A escolha é deliberada e é observável, e é um argumento a favor de que a frase não seja uma simples afirmação de identidade.
Como as versões antigas resolveram
Septuaginta (grego, séculos III-II a.C.): egó eimi ho ón, "eu sou o que é" — e, na segunda metade, ho ón, um particípio no lugar do verbo em primeira pessoa. Áquila e Teodocião (grego, século II d.C.): ésomai hòs ésomai, "serei o que serei". Vulgata (latim, séculos IV-V): ego sum qui sum, e qui est misit me. O item 2 trata das consequências de cada escolha.
וַיֹּאמֶר כֹּה תֹאמַר לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל — wa-yomer koh tomar li-vnei Yisrael, "e disse: assim você dirá aos filhos de Israel". Um segundo verbo de dizer abre a segunda metade, o que marca a fala como acréscimo à primeira. Koh tomar, "assim você dirá", é fórmula de transmissão de recado — a mesma que reabrirá o versículo 15.
אֶהְיֶה שְׁלָחַנִי אֲלֵיכֶם — ehyeh shelahani aleikhem, "Ehyeh me enviou a vocês".
Aqui está a construção mais estranha do versículo, e ela merece atenção. Ehyeh é uma forma verbal de primeira pessoa. Nesta frase, ela está no lugar do sujeito de outro verbo — shelahani, "ele me enviou", que está na terceira pessoa. Ou seja: uma palavra que significa "eu serei" está funcionando como um nome próprio, e o verbo seguinte concorda com ela na terceira pessoa.
Isso é anormal em hebraico, e é provavelmente o indício mais forte de que o texto está mesmo tratando ehyeh como nome, e não como frase. Nenhuma língua põe um verbo de primeira pessoa como sujeito de outro verbo por acidente.
E o encurtamento
Repare no que o texto entrega a cada destinatário. A Moisés: ehyeh asher ehyeh, três palavras. Ao povo: ehyeh, uma palavra. O texto não explica a diferença, e ela é observável no hebraico com a mesma clareza com que é observável em português.
שְׁלָחַנִי — shelahani, "ele me enviou". Do verbo shalah, perfeito de terceira pessoa masculina com sufixo de primeira. É a mesma palavra do versículo 13, na fala ensaiada por Moisés, e a mesma que voltará no versículo 15. Os quatro versículos giram em torno de uma credencial de enviado, e é essa palavra que a carrega.
11. Conclusão
Do que foi examinado, saem quatro conclusões — e a primeira delas é uma recusa.
Não se decide o sentido desta frase. Não por prudência, e sim porque o hebraico admite mais de uma leitura e não fornece critério para escolher entre elas. O presente tem a companhia da Septuaginta, da Vulgata e de quase toda a tradição ocidental; o futuro tem a de tradutores judeus do século II e do século XX, que trabalhavam colados ao original; a indeterminação tem a favor três passagens em que a mesma construção serve exatamente para não especificar; e a recusa de resposta tem defesa acadêmica e uma dificuldade séria uma linha adiante. Um estudo que escolhesse uma delas e calasse as outras estaria escondendo do leitor o estado real da questão.
A segunda conclusão é sobre a nossa própria tradução, e é a mais desconfortável. "EU SOU O QUE SOU" traduz uma palavra que nós mesmos, dois versículos antes, traduzimos por "estarei". É a mesma forma verbal, sem diferença nenhuma. Isso não invalida a nossa escolha — nenhuma tradução escapa dela —, mas obriga a declará-la, e ela fica declarada: o versículo 14 aparece no presente neste site porque assim foi decidido, e não porque o hebraico assim diga.
A terceira é sobre a distância entre o que a frase permite e o que se construiu sobre ela. Dois mil anos de reflexão sobre o ser se apoiaram aqui, e essa reflexão tem valor próprio; o que ela não tem é fundamento no hebraico. O caminho que leva destas três palavras à metafísica passa por um particípio grego que o original não tem. Nomear a tradição e nomear o caminho dela é o modo de manter as duas coisas separadas sem desprezar nenhuma.
A quarta é o que sobra de firme, e é pouco e é sólido. Sobra que a resposta a um pedido de nome veio em forma de verbo. Sobra que o verbo é o mesmo que, duas linhas antes, prometeu companhia a um homem assustado. Sobra que o texto encurtou a fórmula antes de mandá-la ao povo. E sobra que o nome com que Israel efetivamente chamará esse Deus, pelo resto do Antigo Testamento, ainda não foi dito — ele vem no versículo seguinte, acompanhado dos nomes de três mortos.













