E Deus viu os filhos de Israel; e Deus soube.
1. Introdução
Seis palavras em hebraico. É o versículo mais curto do capítulo, e é o que exige mais atenção.
Ele traz dois verbos, os dois com Deus por sujeito: viu e soube. O primeiro tem objeto — "os filhos de Israel" —, e o objeto vem devidamente marcado no original. O segundo não tem objeto nenhum. Deus soube, e a frase acaba ali.
Não é omissão de tradução. No hebraico não há complemento: o verbo fica solto, o versículo termina e o capítulo termina junto.
Quase todas as traduções fecham o buraco. Umas põem "e os reconheceu", outras "atentou para eles", outras "preocupou-se com eles". As versões antigas já faziam isso: a grega e a latina completaram, cada uma à sua maneira, e há motivo técnico para desconfiar de que uma delas leu um hebraico ligeiramente diferente.
A nossa versão não completa. Ela traz o que o hebraico traz: "e Deus soube." O item 2 mostra o que cada tradução fez e por quê; o item 3 e o item 10 mostram o que está em jogo. Aqui basta registrar que a decisão é nossa, que ela é discutível, e que "os reconheceu" é tradução legítima — só não é o que o original diz.
Por que isso importa tanto
Porque este versículo é a dobradiça do livro.
Deus tinha praticamente desaparecido do relato desde Êxodo 1:21. Dois capítulos inteiros — o decreto contra os meninos, o nascimento, a arca no rio, a princesa, o assassinato, a fuga, o poço, o casamento, o filho — passam sem ele. E então, em três versículos, ele é sujeito de quatro verbos seguidos: ouviu, lembrou-se, viu, soube.
A sequência aperta o foco a cada passo, e o item 3 a percorre um verbo por vez.
E há o que não acontece. Ninguém no Egito é avisado. Deus não fala com ninguém, não aparece a ninguém, não manda recado. O povo continua carregando tijolo. Moisés continua em Midiã, apascentando o rebanho do sogro, sem saber de nada. Entre o que o leitor acabou de descobrir e o que os personagens sabem há uma distância inteira, e o capítulo fecha sem reduzi-la em nada.
É deliberado, e este estudo não vai emendar no capítulo seguinte para consolar ninguém. O capítulo dois do Êxodo termina com Deus sabendo — e o povo ainda no Egito, sem uma palavra dita a eles.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que as traduções antigas fizeram com o final
Este versículo tem uma história de tradução, e ela começa cedo. Todas as versões antigas encontraram a mesma dificuldade, e nenhuma a deixou de pé.
A tradução grega, feita por judeus de Alexandria alguns séculos antes da era comum, traz algo como "e Deus olhou para os filhos de Israel e se fez conhecer a eles". Duas mudanças de uma vez: o verbo passa para a forma passiva — em vez de Deus saber, Deus é conhecido — e aparece um "a eles" que não existe no hebraico.
Há uma explicação técnica bastante aceita para isso, e ela é elegante. As duas palavras hebraicas "Deus" e "a eles" se escrevem de modo muito parecido, com quatro letras cada uma e três delas iguais. É provável que o tradutor grego tenha lido a segunda onde estava a primeira, e daí saiu "se fez conhecer a eles" em lugar de "soube Deus". Não é possível provar, mas a hipótese explica bem o resultado.
A tradução latina, feita por Jerônimo no fim do século IV, resolve por outro caminho: "e olhou o Senhor para os filhos de Israel e os conheceu". Aqui o verbo continua ativo, e o que se acrescenta é o objeto — "os".
O Targum Onquelos, a tradução aramaica que se lia na sinagoga junto com o texto hebraico, faz uma terceira coisa. Ele introduz o Memra (a "Palavra" de Deus, recurso que os targuns usam sistematicamente para evitar falar da divindade em termos humanos) e, com isso, desvia da imagem de um Deus que olha e passa a saber. O problema, ali, não era o buraco no fim da frase — era o antropomorfismo dos dois verbos.
O que as traduções modernas fazem
A maioria segue o caminho de Jerônimo e completa a frase. Em português, as versões mais lidas trazem "e os conheceu", "e os reconheceu", "e atentou para eles". Em inglês, encontram-se "teve consideração por eles", "tomou conhecimento deles", "preocupou-se com eles".
Mas não é unanimidade, e isso importa. Ao menos duas versões inglesas de grande circulação — a English Standard Version ("Versão Padrão Inglesa") e a Christian Standard Bible ("Bíblia Padrão Cristã") — traduzem sem completar, com uma frase que corresponde a "Deus viu o povo de Israel — e Deus soube". A primeira marca a interrupção com um travessão.
Portanto, deixar a frase aberta não é excentricidade nossa: é uma decisão editorial que tradutores sérios já tomaram, e por razões declaradas.
Por que os tradutores completam
Três razões, e todas são boas.
A primeira é gramatical. O verbo hebraico de "saber" costuma vir com objeto, e um leitor moderno que encontra "e Deus soube" tende a achar que falta alguma coisa — ou pior, que houve erro de impressão.
A segunda é de sentido. Nessa língua, "conhecer" alguém pode significar reconhecê-lo, assumi-lo, comprometer-se com ele; e o tradutor que sabe disso quer que o leitor perceba, porque "soube" em português não carrega nada disso.
A terceira é de tradição: as versões antigas completaram, e há muito peso nisso.
Por que a nossa versão não completa
Porque o efeito de suspensão é o ponto do versículo, e completar a frase o destrói.
O leitor que encontra "e Deus soube" e para, incomodado, à espera do resto, está tendo exatamente a experiência que o hebraico produz. O leitor que encontra "e os reconheceu" recebe uma frase fechada, redonda, tranquilizadora — e não fica sabendo que o original não é assim.
É escolha nossa, e este estudo declara que é. Quem preferir "e os reconheceu" tem argumento sólido do lado dele.
Onde termina o capítulo — uma nota necessária
Falta um dado que muda o tamanho da afirmação, e omiti-lo seria desonesto.
A divisão da Bíblia em capítulos não é antiga. Ela foi feita na Europa no começo do século XIII, e o texto hebraico circulou por mais de mil anos sem ela. A divisão em versículos, do lado judaico, é mais antiga e vem dos massoretas, os copistas que fixaram a leitura do texto hebraico entre os séculos VI e X; foi impressa nas Bíblias hebraicas do século XVI.
Isso significa duas coisas.
A primeira: a frase truncada é do hebraico. Isso não depende de divisão nenhuma — o versículo acaba ali por marcação massorética, e o verbo está sem objeto no texto consonantal, que é muito anterior.
A segunda: dizer que "o capítulo termina truncado" é usar uma unidade medieval. O corte entre Êxodo 2 e Êxodo 3 foi decidido por leitores cristãos do século XIII, e não pelos que escreveram o livro. O que se pode afirmar com segurança é que a frase está incompleta e que a cena seguinte muda de lugar, de personagem e de assunto. Que isso configure um "fim de capítulo" é leitura posterior — que, neste caso, calhou de acompanhar bem o que o texto faz.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Deus viu os filhos de Israel"
O terceiro dos quatro verbos, e o primeiro em que Deus e o povo estão no mesmo campo de visão.
Repare no objeto. Não é a aflição deles, não é o trabalho, não é o sofrimento. É os filhos de Israel — as pessoas. O hebraico marca esse objeto com a partícula própria, o que não deixa dúvida sobre o que está sendo visto.
A diferença fica clara ao comparar com Êxodo 3:7, um capítulo adiante, onde Deus dirá: "tenho visto a aflição do meu povo". Ali o objeto do ver é a condição; aqui é a gente. É uma diferença pequena de palavras e grande de foco: neste versículo, o que entra no campo de visão são pessoas, e não um problema.
Vale também notar a progressão dos três versículos. Em Êxodo 2:23, Deus recebeu um som. Em Êxodo 2:24, ouviu e acionou um compromisso antigo. Aqui, olha. O texto vai encurtando a distância a cada frase, sem dizer que a está encurtando.
"e Deus soube"
Aqui está o versículo, o capítulo e boa parte do livro.
São duas palavras em hebraico: o verbo e o sujeito. Nada mais. Não há objeto, não há complemento, não há preposição — e a frase termina.
Três camadas precisam ser separadas.
A primeira: o que o hebraico faz. O verbo usado aqui é o de conhecer, e ele normalmente vem acompanhado do que se conhece. Deixá-lo sozinho é possível na língua, mas é raro, e produz no leitor a sensação exata de uma frase que foi cortada. O versículo anterior tinha dois objetos, cada um devidamente marcado; este tem um só, e a segunda metade fica vazia. A assimetria é visível a olho nu no original.
A segunda: o que esse verbo significa. Em hebraico, "conhecer" quase nunca é informação. É reconhecimento, envolvimento, compromisso assumido com alguém — o campo inteiro da palavra está desenvolvido no estudo de Êxodo 1:8, e não se reabre aqui.
Mas há uma consequência que é deste versículo e de mais nenhum, e ela vale a pena.
O livro do Êxodo abriu com esse mesmo verbo. Em Êxodo 1:8, "levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecia José" — verbo de conhecer, negado, com objeto marcado: uma pessoa. Foi dessa recusa de reconhecimento que saiu tudo: o medo, o trabalho forçado, o decreto contra os meninos.
Dois capítulos depois, o mesmo verbo fecha a primeira parte da história — desta vez afirmado, e sem objeto nenhum. Um rei que não conhece um homem, no começo; um Deus que conhece, sem que se diga o quê, no fim. As duas pontas usam a mesma palavra, com os sinais trocados.
Não é possível afirmar que a construção seja intencional; ninguém pode entrar na cabeça de quem escreveu. Mas o paralelo é de texto, não de imaginação: mesma raiz, mesmas posições estratégicas, efeitos opostos.
A terceira: o que fazer com o vazio. Aqui é preciso ir devagar, porque a tentação de preencher é enorme e chega disfarçada de fidelidade.
Preencher com "e os reconheceu" transforma o versículo numa declaração tranquilizadora: Deus tomou Israel por seu. É provavelmente o sentido, e é o que quase toda tradução faz. Mas é acréscimo, e o acréscimo custa o efeito.
Preencher com "e soube o que ia fazer" é pior, porque inventa conteúdo que não está em lugar nenhum.
Preencher com "e soube da aflição deles" repete o versículo anterior e apaga a diferença entre os dois.
O que o texto oferece é menos e é mais forte: um verbo de comprometimento, afirmado, sem dizer com o quê. Fica em aberto o que exatamente Deus soube naquele momento, e o versículo não permite decidir.
Os quatro verbos, e onde eles param
Vale montar a sequência inteira, porque ela é o argumento do fim do capítulo.
Ouviu. Lembrou-se. Viu. Soube.
Quatro verbos em três versículos, depois de dois capítulos em que Deus foi mencionado uma única vez, em Êxodo 1:21. É a maior concentração de ação divina do livro até este ponto, e ela vem toda junta, sem aviso, no fim de um capítulo que tratava de outra coisa.
E os quatro se aproximam. Ouvir se faz à distância. Lembrar-se é acionar um compromisso, que também não exige presença. Ver já supõe estar diante. Saber é o mais íntimo dos quatro.
O texto chega até ali e para.
O que não acontece
Este é o ponto que a leitura devocional apressada costuma apagar, e ele é decisivo.
Ninguém no Egito é informado. Deus não fala. Não aparece. Não manda profeta, não manda anjo, não manda sinal. Não há uma linha dizendo que os israelitas sentiram alguma coisa, perceberam alguma coisa ou tiveram algum alívio.
No versículo seguinte à contagem dos quatro verbos, o povo continua exatamente onde estava: no Egito, sob a mesma escravidão, gemendo pelo mesmo motivo. E Moisés, que será o instrumento de tudo isso, está a centenas de quilômetros dali, cuidando de ovelhas que não são dele, sem saber que o rei morreu e sem saber que alguma coisa foi decidida.
A diferença entre o que o leitor sabe e o que os personagens sabem, neste ponto, é total. O leitor recebeu quatro verbos; eles não receberam nenhum.
Uma advertência de leitura
É muito comum ler este versículo já com o capítulo seguinte na cabeça — a sarça, o chamado, o nome revelado. E é compreensível, porque a resposta está mesmo logo ali.
Mas o versículo não sabe disso, e ler assim é trocar o que está escrito por um resumo. O Êxodo escolheu terminar aqui, com um verbo sem complemento e um povo sem notícia. Quem emenda no capítulo três para acalmar o leitor está fazendo com o texto o mesmo que as traduções fazem com a frase: fechando um buraco que foi deixado aberto de propósito.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Deus
Sujeito dos dois verbos, com o nome repetido nas duas frases, como no versículo anterior. É o termo geral, e não o nome próprio — que só será revelado a Moisés em Êxodo 3:14-15, no capítulo seguinte.
Neste versículo ele não fala, não se manifesta e não é visto por ninguém: as duas ações são internas a ele e comunicadas só ao leitor. A primeira fala dele no livro virá em Êxodo 3:4.
Os filhos de Israel
O povo escravizado no Egito. É o objeto do primeiro verbo — o que Deus vê são eles, e não a situação em que estão.
Não há indivíduos aqui. Ninguém tem nome, ninguém fala, ninguém aparece. Desde Êxodo 2:23 eles são um coletivo que geme, e assim permanecem.
O que eles fazem neste versículo: nada. São vistos e são o assunto. Não agem, não sabem e não são informados.
Quem está ausente
Moisés. É o único versículo do fim do capítulo em que ele não é mencionado nem sugerido — e a ausência é significativa, porque o leitor acabou de deixá-lo em Midiã, casado, com um filho, e sem nenhuma ligação com o que está acontecendo no Egito.
Faraó. O rei que morreu não é substituído por nenhum nome, e o sucessor só aparecerá em Êxodo 5.
Onde
No Egito, do lado do povo. A narrativa está parada ali desde Êxodo 2:23 e continuará em Midiã a partir de Êxodo 3:1 — o que significa que o versículo seguinte muda de país, de personagem e de assunto de uma só vez.
O evento
Não há acontecimento externo. Ninguém entra em cena, ninguém fala, nada muda no mundo dos personagens. O que o versículo relata acontece do lado de Deus, e é a última informação que o capítulo dá antes de terminar.
5. Pontos de Ensino
1. O que Deus vê são pessoas, não um problema
O objeto do primeiro verbo é "os filhos de Israel". Não é a aflição, não é o trabalho forçado, não é a situação. Um capítulo adiante o texto dirá "vi a aflição"; aqui, não. É uma diferença de uma palavra e de tudo.
2. Ser conhecido não é ser informado
O versículo termina com Deus sabendo e o povo sem saber de nada. As duas coisas coexistem na mesma frase, e o texto não considera isso uma contradição. Quem espera que o reconhecimento venha sempre acompanhado de aviso está esperando o que este versículo mostra não acontecer.
3. A frase incompleta é parte do que se está lendo
Um estudo honesto tem de mostrar isto: a Bíblia hebraica, aqui, deixa um verbo sem objeto e termina. Traduções que fecham a frase fazem escolha legítima e cobram um preço — o leitor não fica sabendo que o original o deixa em suspenso.
4. A concentração súbita depois do silêncio longo
O contraste é parte da mensagem, e só quem lê o capítulo inteiro seguido o sente. Quem cai direto no fim recebe a ação divina como se ela fosse o normal do livro — e ela não é, até aqui.
5. O verbo que abre o livro e o verbo que fecha o capítulo são o mesmo
Em Êxodo 1:8 um rei "não conhecia" José, e daí veio a escravidão. Em Êxodo 2:25 Deus "soube", e daí virá a saída. A mesma palavra, negada num lugar e afirmada no outro. Não se pode provar que seja construção deliberada; o paralelo, porém, está no texto.
6. Um limite que vale marcar
Este versículo não promete nada. Não diz o que Deus vai fazer, não diz quando, não diz a quem. Ele registra dois verbos e para. Tudo o que se acrescenta a isso vem de outros textos — legítimos, e outros.
6. Aspectos Filosóficos
Ser conhecido sem saber que se é
O versículo produz uma situação que a filosofia raramente examina de frente: alguém é reconhecido, e não fica sabendo.
Normalmente pensamos o reconhecimento como coisa de duas vias. Alguém me reconhece, eu percebo que fui reconhecido, e é dessa troca que sai o efeito — a segurança, o alívio, a mudança de posição. Reconhecimento que ninguém comunica parece, à primeira vista, reconhecimento que não aconteceu.
O fim deste capítulo diz o contrário, sem argumentar. Deus vê e sabe; o povo continua gemendo, sem sinal e sem notícia. E o texto trata as duas coisas como igualmente verdadeiras no mesmo momento.
Daí sai uma pergunta desconfortável e útil: o que muda, para quem sofre, um reconhecimento que ele não sente? No plano da experiência, nada — e o versículo não finge o contrário. No plano dos fatos, tudo — porque é a partir dali que a história se move.
Quem estiver em situação parecida encontra aqui menos consolo do que costuma prometer a leitura devocional, e uma companhia mais honesta: o texto não diz que a pessoa vai sentir. Diz que a coisa pode estar acontecendo sem que ela sinta.
Saber, e não dizer o quê
O segundo problema é o do verbo sem objeto, e ele é mais fino.
Saber é, por natureza, saber alguma coisa. Um saber sem conteúdo declarado parece um saber vazio. E, no entanto, todo mundo reconhece esse estado quando o encontra na vida: a pessoa que entende a situação inteira e não consegue formular o que entendeu; o médico que sabe antes do exame; quem entra numa casa e sabe que aconteceu alguma coisa ali.
Nesses casos o saber é anterior à formulação, e a formulação, quando chega, sempre perde alguma coisa. O hebraico deste versículo faz exatamente isso: afirma o verbo e não completa.
É leitura possível, não doutrina. Também é possível que a frase simplesmente esteja incompleta por acidente de transmissão do texto, e há quem defenda isso. O que não é possível é ler o versículo como se ele fosse redondo, porque ele não é — e o incômodo que ele causa é a coisa mais fiel que se pode sentir diante dele.
7. Aplicações Práticas
Não confundir "não senti nada" com "nada aconteceu"
É a aplicação central e vem direto da estrutura do versículo. O texto informa ao leitor que Deus viu e soube, e informa também que ninguém no Egito percebeu coisa alguma. As duas informações estão na mesma página.
Quem está atravessando uma situação longa e sem sinal costuma tirar da ausência de sinal uma conclusão: que nada está acontecendo. Este versículo mostra um caso em que essa conclusão estaria errada — e mostra também que a pessoa não tinha como saber. O texto não repreende o povo por não ter percebido. Ele registra que não havia o que perceber.
Ver a pessoa, e não o caso
O primeiro verbo tem um objeto que vale imitar: são os filhos de Israel, e não a aflição deles.
Quem lida com gente em dificuldade — em atendimento, em serviço social, em igreja, dentro de casa — conhece a diferença. Ver o problema é ver uma pauta; ver a pessoa é outra coisa, e produz outra relação. O versículo não faz disso lição, mas a escolha do objeto está lá.
A honestidade de não completar a frase
Há uma aplicação para quem fala em nome de um texto — pregador, professor, quem explica a Bíblia para outra pessoa.
A tentação diante de um texto incômodo é fechá-lo. Preencher o vazio, adiantar o desfecho, tranquilizar quem está ouvindo. É o que quase toda tradução fez com esta frase, com boas intenções.
O custo é que o ouvinte nunca fica sabendo que havia um vazio. E é justamente quem está no meio de um vazio parecido que mais precisaria saber que a Bíblia tem um.
O limite
Não se deve extrair deste versículo uma garantia pessoal de que toda espera está sendo acompanhada e vai terminar bem. O texto não diz isso e não é sobre isso: ele conta o que aconteceu com um povo específico, numa situação específica, e o desfecho dessa história é sabido pelo leitor porque o livro continua.
O que atravessa sem forçar é mais estreito: a distância entre o que se sente e o que está em curso pode ser grande, e o silêncio não é, por si, informação sobre nada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A frase está mesmo incompleta, ou é problema da tradução?
Está incompleta no hebraico. O verbo de conhecer aparece sem objeto e sem complemento, e o versículo termina. Não é escolha da nossa versão: é o que o texto consonantal traz, e é por isso que as traduções antigas já precisaram resolver o problema, cada uma à sua maneira.
Então por que quase todas as Bíblias completam?
Por três razões, todas legítimas: porque "e Deus soube" soa truncado em qualquer língua moderna; porque o verbo hebraico carrega ideia de reconhecimento e compromisso, que "soube" em português não transmite; e porque a tradução grega e a latina já completaram, e o peso da tradição é grande. Duas versões inglesas de grande circulação, no entanto, mantêm a frase aberta.
Pode ser que o texto tenha se perdido?
É uma hipótese, e há quem a defenda: uma palavra que teria caído na cópia. O argumento contrário é técnico e forte — a explicação da versão grega funciona melhor supondo que o tradutor leu mal o hebraico que temos, e não que o hebraico fosse outro. Não é possível decidir com certeza. O que se pode dizer é que o texto hebraico transmitido é este, e que ele é o mais difícil dos dois — o que, pela regra corrente da crítica textual, joga a favor dele.
O que exatamente Deus soube?
O versículo não diz, e é essa a questão. Preencher com "soube da aflição" repete o versículo anterior; preencher com "soube o que faria" inventa; preencher com "os reconheceu" é provavelmente o sentido e ainda assim é acréscimo. Permanece em aberto.
Por que Deus não avisou o povo?
O texto não explica. Registra que ele viu e soube, e registra que nada foi comunicado. Só em Êxodo 4:31, depois de Moisés voltar, o povo saberá de alguma coisa — e ali o texto dirá que eles creram e se prostraram.
Este versículo não é apenas a introdução do capítulo 3?
Funciona como transição, sim, mas é preciso lembrar que a divisão em capítulos foi feita no século XIII, mais de mil anos depois do texto. O que existe no original é uma frase interrompida seguida de uma cena que muda de país e de personagem. Tratar o versículo como simples abertura do que vem depois é ler o fim a partir do que ainda não aconteceu.
Por que "Deus" e não o nome próprio?
Porque o nome só será revelado no capítulo seguinte, em Êxodo 3:14-15. Até lá, o livro usa o termo geral, e este versículo o repete duas vezes.
Há relação entre este verbo e o "não conhecia José" do começo do livro?
A raiz é a mesma, e as posições no livro são notáveis — a recusa de reconhecimento em Êxodo 1:8 abre a opressão; o reconhecimento afirmado aqui fecha a primeira parte da história. Não se pode provar que a construção seja deliberada, mas o paralelo é de texto, não de imaginação.
9. Conexão com Outros Textos
O verbo que abre o livro
Êxodo 1:8 — "Então subiu ao trono do Egito um novo rei, que não conhecia José."
A mesma raiz hebraica deste versículo, negada, com um homem por objeto. Foi de uma recusa de reconhecimento que saiu toda a opressão do livro; é um reconhecimento afirmado que fecha esta primeira parte.
O mesmo material, com as palavras que faltam aqui
Êxodo 3:7 — "Tenho visto claramente a aflição do meu povo no Egito e tenho ouvido o clamor deles por causa dos seus feitores; conheço as suas dores."
Um capítulo adiante, os mesmos verbos reaparecem — ver, ouvir, conhecer — e desta vez todos com objeto: a aflição, o clamor, as dores. É a versão completa da frase que aqui ficou aberta, e é dita a Moisés, não ao povo.
Quando o povo finalmente fica sabendo
Êxodo 4:31 — "E o povo creu; e, quando ouviram que o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e que tinha visto a sua aflição, inclinaram-se e adoraram."
Dois capítulos depois do versículo em que Deus viu e soube, a notícia chega a quem estava sofrendo. A distância entre um ponto e outro é o que o fim de Êxodo 2 deixa em aberto.
Conhecer como escolher e assumir
Amós 3:2 — "De todas as famílias da terra, só a vocês conheci; portanto, castigarei em vocês todas as suas iniquidades."
A prova de que "conhecer", nessa língua, não é informação: se fosse, a frase seria absurda. Ali o verbo significa escolher, assumir, tomar como seu — com as consequências.
Salmos 1:6 — "Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá."
Ver e ser visto
Gênesis 16:13 — "E ela chamou o nome do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; pois disse: Também eu vi aqui aquele que me vê?"
Agar, escrava egípcia fugida no deserto, é a primeira pessoa da Bíblia a dar um nome a Deus, e o nome que ela dá é o do que vê. O paralelo com este versículo é de vocabulário e de situação: alguém sem poder nenhum, e um Deus que olha.
A frase que o Novo Testamento faz com esse verbo
1 Coríntios 8:3 — "Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele."
Gálatas 4:9 — "Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus..."
Nas duas passagens Paulo inverte o que se esperaria e põe o peso do lado de ser conhecido, não de conhecer. É o mesmo campo semântico do verbo hebraico deste versículo, passado para o grego.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Deus viu os filhos de Israel; e Deus soube.
Texto hebraico
וַיַּ֥רְא אֱלֹהִ֖ים אֶת־בְּנֵ֣י יִשְׂרָאֵ֑ל וַיֵּ֖דַע אֱלֹהִֽים׃
Transliteração
vayyár Elohím et-benéi Yisra'él; vayyéda Elohím.
Análise palavra por palavra
וַיַּרְא — vayyár, "e viu". Verbo ra'ah, no Qal, a forma simples e ativa do verbo hebraico, na conjugação que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina singular.
É o verbo comum de ver, com o campo largo que se espera: perceber pelos olhos, olhar, observar, e daí também considerar, examinar, escolher. Aparece cerca de mil e duzentas vezes na Bíblia hebraica.
Vale registrar o eco com o começo do capítulo. Em Êxodo 2:2, a mãe de Moisés "viu" que o menino era bom; em Êxodo 2:5, a filha de Faraó "viu" a arca entre os juncos; em Êxodo 2:11, Moisés "viu" as cargas e "viu" um egípcio espancando um hebreu; em Êxodo 2:12, "viu" que não havia ninguém. O verbo atravessa o capítulo inteiro na boca de personagens humanos — e, no último versículo, o sujeito passa a ser Deus.
אֱלֹהִים — Elohím, "Deus". Como no versículo anterior, o nome aparece duas vezes, uma para cada verbo, e sem artigo.
A repetição é enfática e é dispensável do ponto de vista gramatical: a segunda oração poderia ficar sem sujeito. O hebraico prefere martelar. E, num versículo de seis palavras, duas são o nome de Deus — um terço do total.
O nome próprio não aparece. Ele só será dado em Êxodo 3:14-15.
אֶת־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — et-benéi Yisra'él, "os filhos de Israel". A partícula et marca o objeto direto; benei é o plural de ben, "filho", em estado ligado ao nome seguinte.
Aqui está o detalhe que sustenta todo este item: o objeto do primeiro verbo está marcado. O hebraico usa a partícula própria, que existe exatamente para deixar claro o que sofre a ação. Não há ambiguidade nenhuma: o que Deus vê são os filhos de Israel.
E vale reparar no que não está no lugar do objeto. Não é "a aflição dos filhos de Israel", não é "o trabalho", não é "o clamor". Em Êxodo 3:7 o texto porá a aflição como objeto do mesmo verbo; aqui põe as pessoas.
וַיֵּדַע — vayyéda, "e soube". Verbo yada, no Qal, na mesma conjugação narrativa, terceira pessoa masculina singular.
O campo semântico completo desta raiz — as camadas de saber informação, conhecer pessoalmente, reconhecer, dar estatuto, cuidar, e o uso jurídico de "conhecer" como reconhecer alguém como parte de um acordo — está desenvolvido no estudo de Êxodo 1:8, onde a mesma palavra aparece negada. Não se repete aqui.
O que é próprio deste versículo é o que vem depois do verbo.
O objeto que não existe
Depois de vayyéda Elohím não há nada. Nenhuma partícula de objeto, nenhum substantivo, nenhuma preposição, nenhum sufixo. O acento massorético que marca o fim de versículo vem logo em seguida, e o versículo acaba.
Compare-se com a primeira metade da mesma frase, e a assimetria fica evidente:
viu · Deus · [marca de objeto] · os filhos de Israel
soube · Deus · —
Duas orações com a mesma forma, e a segunda vem sem o terceiro elemento. Não é impossível em hebraico usar este verbo de modo absoluto — há casos —, mas é raro, e num paralelismo tão fechado quanto este produz efeito de corte.
Vale ser exato sobre o estatuto do dado. Isso não é interpretação: é o que está escrito no texto hebraico transmitido, e qualquer interlinear mostra a lacuna. A interpretação começa depois, quando se pergunta o que fazer com ela.
O que as versões antigas fizeram
Todas completaram, e vale mostrar como, porque as soluções são diferentes entre si.
A grega traz o verbo na forma passiva e acrescenta um "a eles": "e foi conhecido deles". Há uma explicação provável para essa alteração, e ela é de leitura: as palavras hebraicas "Deus" e "a eles" se escrevem de maneira muito parecida — quatro letras cada, três em comum —, e é plausível que o tradutor tenha lido uma pela outra. A alteração no sentido é grande: em vez de Deus saber, Deus é dado a conhecer.
A latina mantém o verbo ativo e acrescenta o objeto: "e os conheceu".
O Targum Onquelos, a versão aramaica lida na sinagoga, tem outro problema em mãos — o de falar de Deus em termos humanos — e recorre ao Memra, a "Palavra" divina que os targuns usam para essa finalidade.
Nas versões modernas, a maioria segue a solução latina. Há exceções: duas Bíblias inglesas de grande circulação, a English Standard Version ("Versão Padrão Inglesa") e a Christian Standard Bible ("Bíblia Padrão Cristã"), deixam a frase aberta — "Deus viu o povo de Israel — e Deus soube" —, a primeira marcando a interrupção com um travessão.
Uma nota de crítica textual
Já se propôs que uma palavra tenha caído na transmissão do hebraico. A hipótese é possível e não se pode descartar.
Há, porém, um argumento razoável do outro lado, e ele vale ser conhecido. Se a versão grega deriva de uma leitura equivocada do hebraico que temos — o que explica bem o resultado dela —, então não é preciso supor um texto hebraico diferente. E vale aqui a regra corrente da crítica textual, segundo a qual a leitura mais difícil costuma ser a original, justamente porque copistas e tradutores tendem a facilitar, e não a complicar. Entre uma frase que fecha bem e uma que fica em aberto, a segunda é a que ninguém teria inventado.
Não é possível decidir com certeza. O que se pode dizer é que o texto hebraico transmitido traz o verbo sem objeto, e que essa é a leitura mais difícil das que existem.
A nossa escolha
A versão ABC traduz "e Deus soube", sem completar.
É decisão nossa e ela tem custo: a frase soa truncada em português, e o leitor pode achar que falta alguma coisa. É exatamente esse o efeito pretendido, porque é o efeito que o hebraico produz. As traduções que trazem "e os reconheceu" estão provavelmente acertando o sentido e apagando a forma; preferimos manter a forma e explicar o sentido aqui.
O versículo inteiro, em resumo
Seis palavras. Dois verbos, os dois com Deus por sujeito e com o nome repetido. Um objeto marcado na primeira metade e nenhum na segunda. E o fim do capítulo.
11. Conclusão
Do que foi visto, quatro conclusões.
A primeira: o texto hebraico deixa o último verbo sem objeto, e isso é dado, não interpretação. "Viu" tem o seu complemento devidamente marcado; "soube" não tem nenhum. As duas orações têm a mesma forma e a segunda vem sem a terceira peça. Toda tradução que fecha a frase — "e os reconheceu", "atentou para eles" — acerta provavelmente o sentido e apaga a forma. A nossa versão preferiu manter a forma; a escolha é discutível e está declarada.
A segunda: o que Deus vê são pessoas. O objeto do primeiro verbo não é a aflição nem o trabalho forçado — é "os filhos de Israel". Um capítulo adiante o texto porá a aflição no lugar do objeto, e ali será outra frase. Aqui, o que entra no campo de visão é gente.
A terceira: quatro verbos em três versículos, depois de dois capítulos de ausência. Ouviu, lembrou-se, viu, soube — e a sequência vai se aproximando a cada passo, do som que chega de longe até o mais íntimo dos quatro. É a maior concentração de ação divina do livro até este ponto, e ela vem sem aviso, no fim de um capítulo que tratava de outra coisa. O verbo com que ela termina é o mesmo com que o livro começou, em Êxodo 1:8, quando um rei "não conhecia" José — negado lá, afirmado aqui.
A quarta: nada disso chega a quem está sofrendo. Não há palavra, não há sinal, não há anúncio. O povo continua no Egito, sob a mesma escravidão, gemendo pelo mesmo motivo, sem saber que alguma coisa foi decidida. Moisés está em Midiã, cuidando de ovelhas alheias, e também não sabe. Quem recebeu a informação foi o leitor, e mais ninguém.
O capítulo poderia ter fechado o círculo, e não fecha. Poderia ter dito o que Deus soube, e não diz. Poderia ter emendado na cena seguinte para dar sossego a quem lê, e não emenda: quem quiser saber o que vem depois terá de virar a página, e o Êxodo não faz nenhum esforço para adiantar.
Ele termina assim, com seis palavras e uma frase que não fecha:
“E Deus viu os filhos de Israel; e Deus soube.”
E não diz o quê.













