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Gênesis 25:2

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✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 55 acessos
Ela lhe deu à luz Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Suá.
Caravana de camelos carregados de fardos atravessando uma planície árida sob luz de fim de tarde, com seis homens de manto caminhando ao lado dos animais.

Estudo


Ela lhe deu à luz Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Suá.

1. Introdução

Seis nomes numa respiração só. Cinco deles desaparecem do resto da Bíblia. O quarto se torna o povo que abriga Moisés fugitivo, que lhe dá esposa e sogro, e que depois será alvo de uma guerra de extermínio ordenada em nome do SENHOR.

Midiã está aqui, no meio de uma lista, sem nenhuma marca que o distinga dos irmãos. O texto não sublinha, não antecipa, não avisa: escreve o nome na quarta posição e segue.

É assim que as genealogias do Gênesis funcionam, e é por isso que elas costumam ser puladas. Elas não contam história: plantam nomes que outros livros vão colher.

Este estudo trata dos seis nomes, do que se sabe e do que não se sabe sobre cada um, e sobretudo do que a Bíblia faz com Midiã depois. Trata também de um detalhe que passa despercebido em português e que está no centro de uma discussão antiga: a de quem, afinal, vendeu José ao Egito.

E há uma pergunta de fundo que atravessa tudo: o que significa, para a leitura que Israel faz de si mesmo, que os inimigos mais duros do deserto tenham começado como irmãos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde ficava esse mundo

Os nomes deste versículo pertencem ao deserto a leste e ao sul de Canaã — a faixa que vai da Transjordânia ao noroeste da Arábia, passando pelo golfo de Ácaba.

Midiã, quando a Bíblia lhe dá localização, aparece nessa região. Êxodo 2:15 põe Moisés fugindo do Egito e sentando-se junto a um poço "na terra de Midiã", e Êxodo 3:1 o mostra pastoreando o rebanho do sogro até chegar a Horebe. Números 22:4 e Números 31:8 situam midianitas junto a Moabe, mais ao norte. As duas coisas não se excluem: povos de vida pastoril e caravaneira ocupavam territórios extensos e móveis, sem fronteira fixa.

A economia das caravanas

A ligação entre esses povos e o comércio de longa distância não é dedução moderna. Os textos bíblicos os apresentam assim de forma consistente: Gênesis 37:25 descreve uma caravana vinda de Gileade carregando especiaria, bálsamo e mirra rumo ao Egito; Juízes 8:24-26 descreve o butim tomado dos midianitas em brincos de ouro, ornamentos e vestes de púrpura; Isaías 60:6 põe camelos de Midiã e de Efá trazendo ouro e incenso.

O camelo é peça central desse quadro. Juízes 6:5 descreve os midianitas chegando com camelos "como areia do mar em multidão", e é essa mobilidade que torna a invasão devastadora — eles atacam na colheita e somem. A datação do uso em larga escala do camelo doméstico no Levante é objeto de debate arqueológico antigo, que toca as menções de camelos nas narrativas dos patriarcas; não é possível decidir a questão aqui.

O que a arqueologia acrescenta

Escavações no noroeste da Arábia identificaram uma cerâmica pintada característica, associada ao sítio de Qurayyah e datada da Idade do Bronze Final, que apareceu também em Timna, no sul do vale do Arabá, junto a instalações de mineração de cobre. A associação desse material com os midianitas bíblicos é sustentada por parte dos pesquisadores e contestada por outros — dar a uma cerâmica o nome de um povo bíblico é procedimento que muitos consideram circular.

O que se pode afirmar com segurança é mais modesto: havia, na região que os textos chamam de Midiã, população organizada, com produção própria e ligação com a extração de cobre e com rotas de longa distância. É um pano de fundo plausível para o que a Bíblia narra, e não é confirmação dela.

O lugar deste versículo no bloco

O versículo 1 apresentou a mãe; este apresenta os filhos; o versículo 3 seguirá com os netos por Jocsã e o versículo 4 com os netos por Midiã, recolhendo tudo, no fecho, sob o nome de Quetura. É o formato que o Gênesis usa para descrever de onde vêm os povos vizinhos: um tronco, as ramificações e o encerramento. Fez isso no capítulo 10 com as nações, em Gênesis 22:20-24 com a casa de Naor, e fará em Gênesis 25:13-16 com Ismael e no capítulo 36 com Edom.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ela lhe deu à luz"

Ao pé da letra, "e ela deu à luz para ele": a mãe é o sujeito, e os filhos entram na conta do pai. É a mesma construção usada quando o livro diz que Agar não dava filhos a Abrão (Gênesis 16:1) ou que Raquel não dava filhos a Jacó (Gênesis 30:1).

A lista não mantém esse formato: no versículo seguinte quem gera é o pai, e no versículo 4 os filhos de Midiã vêm numa frase sem verbo nenhum. Três formatos em três versículos — variação comum em listas hebraicas, e sinal de que a genealogia foi montada com materiais de origens distintas.

"Zinrã, Jocsã"

Dos dois primeiros nomes quase nada se sabe. Zinrã não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia além do paralelo em 1 Crônicas 1:32. Alguns comentaristas o aproximam de uma localidade a oeste da Arábia mencionada por geógrafos gregos; a aproximação repousa em semelhança sonora sem apoio documental firme, e é hipótese.

Jocsã só reaparece no versículo seguinte, como pai de dois nomes. Sobre ele circula a proposta de que seja o mesmo que Joctã, o descendente de Sem de Gênesis 10:25-29 — que também tem um filho chamado Sebá, como Jocsã terá. O apoio é essa coincidência; a objeção é que os dois nomes diferem na terceira consoante, troca que o hebraico não produz com naturalidade. Não é demonstrável. O que sobra de sólido é o dado bruto, e o versículo 3 tratará dele: o nome Sebá pertence a mais de uma linhagem no Gênesis.

"Medã, Midiã"

Estes dois nomes precisam ser lidos juntos. Em hebraico diferem por uma única letra, em escrita antiga são quase indistinguíveis, e os dois aparecem na mesma história — de onde saiu uma das discussões mais antigas sobre o texto do Gênesis.

A história é a venda de José. Gênesis 37:25 descreve uma companhia de ismaelitas vindo de Gileade com camelos carregados de aromáticos. Gênesis 37:28 diz que passaram uns midianitas, mercadores, que tiraram José da cova e o venderam aos ismaelitas por vinte moedas de prata. Gênesis 37:36 diz que os medanitas o venderam no Egito a Potifar. E Gênesis 39:1 volta a dizer que Potifar o comprou dos ismaelitas.

Quatro versículos, três nomes de povo, uma transação. A dificuldade é real e não é invenção de crítico moderno: os comentaristas judeus medievais já se ocupavam dela.

Três explicações circulam, e nenhuma reúne consenso. A primeira, dominante nos meios acadêmicos, é a da crítica das fontes: a narrativa de José combinaria duas versões do episódio, e quem organizou o texto teria mantido as duas. A segunda é a da sobreposição de termos: "ismaelita" funcionaria como designação genérica dos caravaneiros do deserto, e os outros dois como nomes de grupos dentro dessa categoria — leitura que tem um apoio textual notável e pouco citado, pois Juízes 8:24 informa que os inimigos derrotados por Gideão usavam brincos de ouro "porque eram ismaelitas", e esses inimigos o capítulo inteiro chama de midianitas. A terceira, mais simples, é que a caravana fosse mista, situação comum no comércio de longa distância.

Quem vendeu José

O que interessa aqui independe de qual explicação se prefira. Ismaelitas descendem de Abraão por Agar; midianitas e medanitas, por Quetura — os dois nomes estão neste versículo, lado a lado. Sob qualquer das leituras, os homens que puxaram José da cova, receberam vinte peças de prata e o levaram para o Egito eram descendentes do mesmo bisavô que ele. A caravana que abre o exílio de Israel no Egito é composta de parentes. Gênesis 37 não faz essa observação: nomeia os grupos e segue. A conexão fica disponível a quem leu o capítulo 25, e é leitura do texto, não afirmação dele.

"Midiã": o que a Bíblia faz com este nome

A etimologia é incerta, e a proposta corrente está no item 10. O que não é incerto é o peso do nome no resto do cânon: Midiã aparece em cerca de sessenta versículos da Bíblia hebraica, e as aparições se dividem em dois blocos que não conversam entre si.

O primeiro é de acolhimento e aprendizado. Moisés foge do Egito e para em Midiã; casa-se com Zípora, filha do sacerdote de Midiã; é pastoreando o rebanho desse sogro que chega a Horebe e vê a sarça — o chamado de Moisés acontece durante o expediente de um midianita. Depois do êxodo, o sogro vem ao acampamento, oferece holocausto, e Arão e os anciãos comem pão com ele diante de Deus. Então ele observa Moisés julgando o povo sozinho, diz que aquilo não é bom, e propõe a estrutura de chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez (Êxodo 18:17-23). Moisés atende.

Convém dizer isso na forma mais direta possível, porque a pregação costuma dourá-la: a organização judiciária de Israel é sugestão de um sacerdote midianita, adotada sem que Moisés consulte Deus.

O segundo bloco é de hostilidade total. Números 25 narra o episódio de Baal-Peor e termina com a execução de uma mulher midianita; Números 31 registra a ordem de guerra contra Midiã, a morte de cinco reis e uma matança de prisioneiros que o capítulo descreve sem rodeios; Juízes 6 a 8 narra sete anos de invasões e a campanha de Gideão. E é este bloco que a memória posterior guarda: Isaías 9:4 fala em quebrar o jugo do opressor "como no dia de Midiã".

O que o texto não reconcilia

Os dois blocos ficam lado a lado no Pentateuco sem uma linha de explicação. O mesmo povo que hospeda o libertador e desenha o tribunal de Israel é submetido, poucos livros adiante, a uma guerra de extermínio ordenada em nome do SENHOR. E a família do sogro não é excluída dessa conta por nenhuma cláusula — o texto simplesmente não volta ao assunto.

Sobra um fio pequeno. Juízes 1:16 menciona os filhos do queneu, sogro de Moisés, subindo com Judá, e Juízes 4:11 apresenta Héber, o queneu — é a mulher dele que mata Sísera. O grupo do sogro sobrevive sob outro nome e do lado de Israel. Se isso resolve a tensão ou apenas a desloca é discutível.

Vale nomear a tensão em vez de escondê-la. Um texto que quisesse Midiã como inimigo essencial não teria construído Êxodo 18; um texto que o quisesse aliado não teria escrito Números 31. A explicação mais econômica é que tradições de épocas e relações diferentes foram preservadas juntas.

Uma linha de pesquisa propõe algo mais forte: que a veneração de YHWH tenha chegado a Israel pelo sul, por intermédio de grupos midianitas ou queneus, com apoio em Êxodo 18:10-12 e nas passagens que fazem YHWH vir do sul — Juízes 5:4-5, Deuteronômio 33:2 e Habacuque 3:3. A hipótese é discutida há mais de um século e não é consenso: o próprio texto atribui o culto de YHWH aos patriarcas, muito antes de Midiã entrar em cena, e a fala do sogro em Êxodo 18:11 soa a quem se convence, não a quem ensina.

"Jisbaque e Suá"

Os dois últimos nomes não reaparecem na Bíblia fora do paralelo em 1 Crônicas 1:32 — com uma exceção indireta, que o item 4 examina: o nome Suá sobrevive no adjetivo que designa Bildade, um dos amigos de Jó. De Jisbaque há uma proposta geográfica: documentos assírios do século nono antes da era comum mencionam uma região do norte da Síria cujo nome se aproxima deste. É plausível para parte dos estudiosos, e a distância em relação ao mundo arábico dos demais nomes da lista é a objeção mais séria contra ela. Não é possível decidir.

Dos seis, cinco não têm nenhuma outra menção narrativa na Bíblia — o que é a forma normal das genealogias que se dividem em ramos, e não juízo sobre eles. O texto não os condena nem os elogia. Eles simplesmente não voltam.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Midiã, o povo

Confederação de grupos pastoris e caravaneiros do noroeste da Arábia e da Transjordânia, presente na Bíblia do Êxodo aos profetas. Vivia de rebanhos e do transporte de mercadorias de longa distância.

Não era um Estado com capital e rei único. Números 31:8 fala em cinco reis mortos numa só campanha, e Juízes 8:5 e Juízes 8:12 nomeiam dois pares de chefes, o que aponta para uma organização de várias unidades sob lideranças paralelas.

Jetro, sacerdote de Midiã

Sogro de Moisés. Aparece com mais de um nome no Pentateuco — Reuel em Êxodo 2:18, Jetro em Êxodo 3:1 e Êxodo 18:1 —, o que gerou discussão antiga sobre se são a mesma pessoa, se um é o pai do outro, ou se um dos termos é título. Não há consenso.

É a única figura religiosa não israelita do Pentateuco que aparece conduzindo culto ao Deus de Israel; a comparação natural é com Melquisedeque, em Gênesis 14:18-20.

Zípora

Filha do sacerdote de Midiã e esposa de Moisés (Êxodo 2:21). É ela quem, no episódio obscuro de Êxodo 4:24-26, circuncida o filho com uma pedra afiada e desvia de Moisés um perigo que o texto não explica. A mulher do libertador de Israel é descendente de um dos nomes desta lista.

Medã

Sem narrativa própria. O nome do povo correspondente, "medanitas", aparece em Gênesis 37:36 e é a única outra ocorrência.

Suá e os suítas

O nome sobrevive no modo como o livro de Jó designa Bildade, "o suíta", em Jó 2:11 e Jó 8:1. É a terceira ligação entre as linhas colaterais de Abraão e o elenco daquele livro: Uz, a terra onde Jó vive segundo Jó 1:1, e Buz, de onde vem Eliú segundo Jó 32:2, estão ambos em Gênesis 22:21, na casa de Naor.

A conclusão a tirar disso precisa de cuidado. O livro de Jó ambienta a história num mundo semita oriental deliberadamente não israelita, e as genealogias colaterais do Gênesis descrevem exatamente aquela região: que os dois textos compartilhem nomes é o esperado. Que um dependa do outro é hipótese sem demonstração possível.

5. Pontos de Ensino

1. Uma genealogia registra o parentesco inteiro; a narrativa usa uma parte dele. Cinco dos seis nomes não voltam, e a ausência deles não é juízo nem castigo — é o comportamento normal de uma lista que se divide em ramos.

2. Semelhança de nome gera confusão de leitura, e é preciso conviver com isso. Medã e Midiã diferem por uma letra, e a venda de José usa três nomes de povo para uma só caravana. A dificuldade é antiga, tem três explicações defensáveis e nenhuma se impõe.

3. Quem levou José ao Egito era parente dele. Ismaelitas descendem de Abraão por Agar; midianitas e medanitas, por Quetura. A caravana que abre o exílio no Egito é de descendentes do mesmo homem, e o texto nunca faz a observação.

4. Vínculo de sangue registrado não produz obrigação por si. Com Edom, o Pentateuco manda invocar o parentesco; com Midiã, ele fica escrito aqui e nunca mais é mencionado, nem na hospitalidade nem na guerra.

5. Ajuda decisiva pode vir de fora. A estrutura judiciária de Israel foi proposta por um sacerdote estrangeiro, e Moisés a adotou sem oráculo que a confirmasse.

6. Memórias opostas sobre o mesmo povo chegaram inteiras ao mesmo rolo. Acolhimento e extermínio ficam lado a lado sem uma linha de conciliação. Preservar as duas é uma decisão sobre o que é um texto, e ela informa como se deve lê-lo.

6. Aspectos Filosóficos

Um aviso antes de começar: o que segue é tentativa de ler ideias num texto que não as expõe. Gênesis alinha seis nomes e não argumenta nada. A moldura conceitual é do comentarista, e é posterior ao versículo em cerca de dois mil anos.

O que o versículo faz, sem comentar, é criar um parentesco.

Midiã, quarto da lista, é filho de Abraão. Isso significa que os midianitas de Êxodo 2, de Êxodo 18, de Números 25, de Números 31 e de Juízes 6 são primos de Israel. O texto estabelece o vínculo aqui e nunca mais o menciona. Em nenhum desses episódios alguém diz "são filhos de Abraão".

Até onde vai o que se deve a quem está longe

A pergunta que essa lacuna levanta tem formulação clássica em Marco Túlio Cícero (106-43 a.C., advogado, cônsul e filósofo romano), no De officiis ("Sobre os deveres", escrito em 44 a.C. na forma de uma longa carta ao filho, e um dos livros mais lidos do mundo antigo ao século XIX).

No primeiro livro dessa obra, Cícero desenha a sociedade humana como uma sequência de círculos. No centro está o casal e os filhos; depois vêm os parentes de sangue; depois os amigos; depois a cidade; e por fim, envolvendo tudo, o gênero humano inteiro, unido pela razão e pela fala. A tese é de origem estoica, e Cícero a torna prática: o dever se gradua conforme o círculo — obriga mais quem está perto —, mas ele não se anula no círculo de fora. Deve-se algo a quem não se conhece, e deve-se mais a quem tem sangue comum.

Com esse mapa na mão, o versículo fica estranho. Ele coloca Midiã no segundo círculo, o do sangue, e a Bíblia depois o trata como se estivesse no último — ou fora dele.

O caso de controle está no próprio cânon

O que impede tratar isso como desatenção é que existe um caso paralelo em que o parentesco é lembrado e produz obrigação. Deuteronômio 23:7 ordena: "não abominarás o edomita, pois é teu irmão". Números 20:14 registra Moisés mandando dizer ao rei de Edom "assim diz teu irmão Israel". Ali o vínculo genealógico entra no direito e limita o que se pode fazer.

Com Midiã, nada disso. O parentesco existe no papel e nunca é acionado — nem para proteger, nem para agravar. Isso não é acaso de leitura: é a diferença entre dois tratamentos dentro do mesmo conjunto de livros.

Uma explicação provável é de grau: Edom vem de Esaú, irmão de Jacó, dentro da linha da promessa, enquanto Midiã vem de uma segunda esposa e de uma descendência que Gênesis 25:6 manda embora. O círculo de Cícero admite exatamente esse tipo de graduação. Mas convém não converter a explicação em justificativa, porque ela explica a diferença sem tocar no incômodo.

Onde Cícero não serve

Cícero está escrevendo sobre deveres de um cidadão romano numa república com leis, tribunais e uma noção de humanidade partilhada por seres racionais. Uma genealogia tribal não é um tratado moral. É provável que ela seja apenas cartografia: um modo de dizer quem vive onde e quem se relaciona com quem, sem qualquer pretensão de gerar obrigação.

Sob essa leitura, cobrar dever do versículo é fazer a ele uma pergunta que não é dele. É plausível, e talvez seja a leitura correta.

O que permanece

Fica em aberto a questão mais interessante, que sobrevive a qualquer das duas leituras: um vínculo registrado e nunca invocado ainda é um vínculo. O texto poderia ter omitido Midiã desta lista, e não omitiu. Quem lê o Pentateuco inteiro carrega a informação para dentro de Números 31 sem que ninguém a mencione lá.

Se isso é falha de composição, sobra de fonte antiga ou efeito procurado, não é possível decidir. O que se pode dizer é que a informação está disponível, e que ela torna cada guerra posterior um assunto de família — mesmo quando nenhum personagem parece saber disso.

7. Aplicações Práticas

Nem toda ajuda decisiva vem de dentro

Comunidades religiosas costumam desenvolver uma desconfiança automática do que vem de fora, e ela tem razões compreensíveis — proteger identidade, evitar diluição. O efeito colateral é que a crítica competente é rejeitada por causa da origem, e não do conteúdo.

Vale reter o detalhe que torna a cena de Êxodo 18 mais dura: o problema que o sogro apontou era óbvio. Um homem julgando um povo inteiro sozinho, do amanhecer ao anoitecer. Todo mundo via. Foi preciso vir alguém de fora para dizer em voz alta. Isso costuma acontecer porque quem está dentro se acostuma com o custo e passa a chamá-lo de dedicação.

Sobre chamar de inimigo quem já foi casa

Relações que azedam raramente registram o ponto de virada. As pessoas envolvidas costumam contar a história a partir do fim — e, contada assim, a fase boa some. É por isso que ex-sócios, irmãos brigados e igrejas divididas descrevem o passado comum de forma irreconhecível para quem estava lá.

O trabalho honesto, quando uma relação se rompe, é conseguir dizer as duas coisas: o que houve de ruim e o que houve de bom, sem que o segundo seja apagado pelo primeiro. O Pentateuco faz isso, ainda que sem querer, ao guardar Êxodo 18 e Números 31 no mesmo rolo. Poucas famílias conseguem.

O dano costuma vir de perto

Ninguém, na cena da caravana, sabe do parentesco; ninguém depois lembra. E esse é o formato mais comum do dano real — não vem de um inimigo declarado que veio de longe, vem de alguém a poucos graus de distância, sócio, primo, colega, irmão na fé, que no momento não está pensando em parentesco e sim no preço.

Não é uma constatação para gerar suspeita generalizada, que seria inútil e amarga. Serve para ajustar onde se põe atenção: o cuidado com acordos, com registros e com clareza de combinados vale mais entre próximos do que entre estranhos, precisamente porque entre próximos ninguém acha que vai precisar.

Cinco nomes que não deram em nada

Zinrã, Jocsã, Medã, Jisbaque e Suá estão na Bíblia e não fizeram nada nela. Não há episódio, não há falha, não há virtude. São nomes que constam. Há um desconforto legítimo nisso, maior em ambientes onde se aprende que toda vida tem um propósito grandioso a ser descoberto; sob essa régua, existir sem deixar rastro é fracasso.

O texto usa outra medida. Esses cinco existiram, tiveram descendência, ocuparam território, e o registro deles é o de que existiram — sem pedido de desculpas e sem compensação em significado. Vale considerar que a maior parte das vidas humanas se parece muito mais com estes cinco nomes do que com Abraão, e que o texto os inclui do mesmo jeito, na mesma frase, com as mesmas letras.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Estes seis filhos nasceram depois da morte de Sara?

O texto não data o casamento nem os nascimentos. A lista vem depois da morte de Sara e do casamento de Isaque na ordem do livro, e daí muitos concluem que é também essa a ordem dos fatos. A conclusão é razoável e não está escrita: o versículo 1 marca repetição de um ato, não posterioridade a um acontecimento determinado. Quem quiser sustentar qualquer das duas ordens estará argumentando, não citando.

Os cinco nomes que somem tiveram descendência?

O bloco só registra netos por dois deles: Jocsã, no versículo 3, e Midiã, no versículo 4. De Zinrã, Medã, Jisbaque e Suá nada se diz além do nome. Isso não significa que não tenham tido filhos; significa que a lista, que existe para explicar a origem de certos povos, não tinha o que registrar sobre eles.

Jetro era adorador do Deus de Israel antes de conhecer Moisés?

Isso o texto não informa. A declaração que ele faz depois de ouvir o relato do êxodo tem forma de descoberta, não de doutrina transmitida — quem diz "agora sei" está registrando uma conclusão recém-chegada. Confirmado mesmo está apenas o cargo, o sacrifício que ele conduz e a refeição de Arão e dos anciãos na presença dele.

Se Midiã é parente de Israel, por que ninguém na Bíblia invoca isso?

Não há resposta no texto, e vale resistir à tentação de inventar uma. O que se pode fazer é medir o silêncio contra o caso vizinho: com Edom, o mesmo Pentateuco manda expressamente não abominar o edomita "porque é teu irmão" (Deuteronômio 23:7), e Números 20:14 põe Israel dirigindo-se a Edom com a fórmula "teu irmão". Com Midiã, o parentesco fica registrado nesta lista e nunca mais aparece — nem para pedir passagem, nem para poupar, nem para acusar de traição familiar.

9. Conexão com Outros Textos

A lista repetida

1 Crônicas 1:32 — "Ela deu à luz Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Suá." Os seis nomes na mesma ordem, séculos depois.

A venda de José e os três nomes de povo

Gênesis 37:25 — "Eis que uma companhia de ismaelitas vinha de Gileade, com os seus camelos carregados de especiaria, bálsamo e mirra."

Gênesis 37:28 — "E passando os mercadores midianitas, tiraram e alçaram a José da cova e venderam José por vinte moedas de prata aos ismaelitas."

Gênesis 37:36 — "E os medanitas venderam-no no Egito a Potifar."

Juízes 8:24 — "Porque tinham brincos de ouro, porquanto eram ismaelitas." Dito dos inimigos que o capítulo inteiro chama de midianitas.

Midiã como abrigo

Êxodo 2:15 — "E Moisés fugiu de diante da face de Faraó e habitou na terra de Midiã."

Êxodo 3:1 — "E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã." A sarça acontece durante esse trabalho.

Êxodo 18:12 — "Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus; e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés diante de Deus."

Êxodo 18:21-22 — "E você procurará dentre todo o povo homens capazes… e os porá sobre eles como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez."

Midiã como inimigo

Números 31:7-8 — "E pelejaram contra os midianitas... e mataram os reis deles."

Juízes 6:5 — "Vinham como gafanhotos em multidão; tanto eles como os seus camelos eram inumeráveis."

Isaías 9:4 — "Porque tu quebraste o jugo da sua carga... como no dia dos midianitas."

Midiã no fim, trazendo oferta

Isaías 60:6 — "A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efá; todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso."

O nome Suá e o livro de Jó

Jó 2:11 — "Bildade, o suíta." Formado sobre o sexto nome desta lista.

O parentesco que Edom recebe e Midiã não

Deuteronômio 23:7 — "Não abominarás o edomita, pois é teu irmão."

Números 20:14 — "Assim diz teu irmão Israel." A fórmula usada com Edom e nunca com Midiã.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ela lhe deu à luz Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Suá.

Texto hebraico

וַתֵּלֶד לוֹ אֶת־זִמְרָן וְאֶת־יָקְשָׁן וְאֶת־מְדָן וְאֶת־מִדְיָן וְאֶת־יִשְׁבָּק וְאֶת־שׁוּחַ

Transliteração

wa-teled lo et-Zimran we-et-Yoqshan we-et-Medan we-et-Midyan we-et-Yishbaq we-et-Shuach

Análise palavra por palavra

וַתֵּלֶד — wa-teled, "e ela deu à luz". Verbo yalad, qal, imperfeito consecutivo, terceira pessoa feminina singular. A raiz cobre tanto o parto quanto a geração paterna: no qal com sujeito feminino significa "dar à luz"; com sujeito masculino, como no versículo 3, significa "gerar". A mesma raiz produz yeled, "criança", e toledot, o termo que dá título às seções genealógicas do Gênesis.

לוֹ — lo, "para ele". Preposição le com sufixo pronominal masculino de terceira pessoa. Marca o beneficiário: os filhos nascem dela e para ele. É a construção padrão nas notícias de nascimento do livro, e a mesma que aparece em Gênesis 16:1 e em Gênesis 30:1 na forma negativa, sobre mulheres que não davam filhos ao marido.

אֶת־ — et, partícula de objeto direto definido, repetida antes de cada um dos seis nomes. Não se traduz. A repetição é característica de listas: cada nome vem marcado individualmente, e nenhum é agrupado com o anterior.

זִמְרָן — Zimran. Raiz provável z-m-r, que abrange dois campos distintos: "cantar, tocar" — de onde vem mizmor, "salmo" — e "podar, cortar a videira". Há ainda o substantivo zemer, animal da lista dos limpos em Deuteronômio 14:5. Qual desses campos gerou o nome não é possível determinar. A terminação -an é sufixo formador de nomes próprios, comum no hebraico e nas línguas vizinhas.

יָקְשָׁן — Yoqshan. Raiz aparente y-q-sh, "armar laço, apanhar em armadilha", de onde yaqush, "passarinheiro", no Salmo 91:3 e em Oseias 9:8. A mesma terminação -an do nome anterior. A aproximação com Yoqtan, o Joctã de Gênesis 10:25, é frequentemente proposta e esbarra na diferença da terceira consoante — shin contra tet —, alternância que o hebraico não produz com naturalidade.

מְדָן — Medan. Consoantes m-d-n. Pode ligar-se à raiz d-y-n ou d-w-n, "julgar, contender", com prefixo mem. O nome de povo correspondente aparece em Gênesis 37:36.

מִדְיָן — Midyan. As mesmas consoantes do nome anterior com um yod a mais. Em texto consonantal antigo, sem vogais, a diferença entre os dois é de uma única letra, o que explica boa parte da discussão sobre Gênesis 37. A etimologia mais proposta é a mesma raiz de "julgar, contender", com o prefixo mem que forma substantivos de lugar ou instrumento: daria algo como "lugar de julgamento" ou "contenda". É gramaticalmente possível e não é verificável — nomes de povo costumam ser nomes de lugar antigos cuja origem se perdeu.

יִשְׁבָּק — Yishbaq. Raiz sh-b-q, "deixar, abandonar", comum em aramaico e rara em hebraico bíblico. A forma é de imperfeito, terceira pessoa — "ele deixa" —, padrão frequente nos nomes semíticos, em geral com sujeito divino subentendido.

שׁוּחַ — Shuach. Raiz sh-w-ch, "afundar, abaixar-se", de onde shuchah, "cova", em Provérbios 22:14 e Jeremias 18:20. O nome significaria "depressão" ou "cova", provavelmente em sentido geográfico. O adjetivo derivado, "suíta", é o de Bildade no livro de Jó.

A cadência da lista

A frase tem uma estrutura muito regular: verbo, dativo, e seis blocos idênticos formados por we-et mais o nome — exceto o primeiro, que vem sem a conjunção. O efeito sonoro no hebraico é de enumeração batida, quase contada.

Vale notar o que a lista não traz: nem idade, nem intervalo de tempo, nem observação sobre nenhum dos filhos. Compare-se com as notícias de nascimento de Ismael, em Gênesis 16:15-16, e de Isaque, em Gênesis 21:2-5, onde há data, nome, circuncisão e idade do pai.

Uma última observação, sobre o número. Seis não parece ter valor esquemático: as genealogias do Gênesis que trabalham com números redondos usam doze — os doze filhos de Naor em Gênesis 22:20-24, os doze de Ismael em Gênesis 25:13-16, os doze de Jacó — ou setenta, como o total das nações do capítulo 10 na contagem tradicional. Seis aqui, e dezesseis no total do bloco somando netos e bisnetos, não correspondem a nenhum padrão conhecido. Essa ausência de esquema pode indicar que a lista transmite material recebido em vez de compor um desenho; é leitura possível, e não se pode afirmá-la com segurança.

11. Conclusão

Seis nomes, sem nenhum destaque entre eles, e um deles vai atravessar quatro livros da Bíblia.

Cinco não voltam. Isso não é juízo sobre eles: é o que uma genealogia dividida em ramos faz, registrar o mapa inteiro de um parentesco para que a narrativa use depois a fração de que precisa.

Midiã é o nome que conta, e ele chega ao leitor em duas versões que não se falam. Numa, é onde Moisés se esconde, casa-se e trabalha, e é de onde vem a proposta que organiza a justiça de Israel. Noutra, é o inimigo de Números 25 e 31 e de Juízes 6 a 8, cuja derrota Isaías e os Salmos celebram como paradigma. Conclui-se daí que o Pentateuco não tinha por objetivo entregar um retrato coerente dos vizinhos, e que preservar material áspero lhe importava mais do que alisá-lo.

Da proximidade entre Medã e Midiã ficou uma dificuldade sem solução firme sobre quem levou José ao Egito. Seja qual for a explicação preferida, o resultado é o mesmo e é o dado que este versículo torna disponível: os mercadores da caravana descendiam do mesmo bisavô que o rapaz vendido.

Fica, no fim, o mais silencioso de tudo. Em nenhum episódio alguém lembra que aqueles são parentes. Com Edom, o mesmo Pentateuco manda invocar o vínculo; com Midiã, o vínculo é registrado aqui e nunca mais mencionado. Uma genealogia pode estabelecer um parentesco e não produzir nenhuma consequência — e é isto que este versículo demonstra.

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Gênesis 25:2

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