Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses: sim, naquilo mesmo em que foram arrogantes contra eles.”
1. Introdução
Jetro termina a sua fala com uma conclusão: "Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses". O livro do Êxodo vinha anunciando que os egípcios "saberiam" quem é o SENHOR, e quem diz "sei" é um sacerdote de Midiã. A frase compara o SENHOR com outros deuses em vez de negá-los, e os tradutores antigos não a deixaram assim. A segunda metade do versículo para no meio — "naquilo mesmo em que foram arrogantes contra eles" — e não diz o que aconteceu ali. Cada leitor completou a frase de um jeito, e a mais famosa das respostas é a de que o Egito foi castigado com aquilo mesmo que usou contra Israel.
2. Contexto Histórico e Cultural
No mundo do Oriente antigo, uma guerra entre povos era também uma disputa entre os deuses deles, e a vitória era lida como prova de força divina. A Bíblia registra essa maneira de pensar na boca de estrangeiros e de israelitas. Jefté diz ao rei de Amom: "Não possui você aquilo que Camos, o seu deus, lhe dá? Pois tudo o que o SENHOR, o nosso Deus, expulsou de diante de nós, isso possuiremos" (Juízes 11:24). Cada deus tem a sua terra e o seu povo, e o resultado das guerras mostra o que cada um pode.
Os impérios da Mesopotâmia levaram essa lógica até o fim. Quando os assírios e os babilônios conquistavam uma cidade, costumavam levar as estátuas dos deuses dela para a capital, como cativos. O deus vencido ia para o exílio com o seu povo. Isaías zomba disso ao imaginar o contrário: os deuses da própria Babilônia, Bel e Nebo, carregados em lombo de animal, "eles mesmos vão para o cativeiro" (Isaías 46:1-2). A frase de Jetro pertence a esse mundo: o Egito foi derrotado, e a derrota do Egito é a derrota dos deuses do Egito diante do SENHOR (Êxodo 12:12).
A forma da frase — o SENHOR "maior que todos os deuses" — virou fórmula de culto em Israel. Ela reaparece nos Salmos: "o SENHOR é Deus grande, e Rei grande acima de todos os deuses" (Salmo 95:3); "ele é mais temível que todos os deuses" (Salmo 96:4); e, quase palavra por palavra, "eu sei que o SENHOR é grande, e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses" (Salmo 135:5). Este último salmo repete o "eu sei", o "grande" e o "todos os deuses" de Êxodo 18:11. O que na narrativa é a conclusão de um estrangeiro tornou-se, no saltério, confissão de Israel.
Os estudiosos modernos usam duas palavras para descrever essa fase da religião, e é útil conhecê-las porque aparecem em quase todo comentário. "Monolatria" é cultuar um só deus sem negar que outros existam; "monoteísmo" é afirmar que só existe um. A frase de Jetro, tomada ao pé da letra, é de monolatria, ou pelo menos de comparação entre deuses. Há consenso de que a linguagem é comparativa; não há consenso sobre o que isso diz da crença de quem escreveu, porque a mesma Bíblia que diz "maior que todos os deuses" diz, em outros lugares, que os deuses dos povos "são ídolos" (Salmo 96:5).
Por fim, o versículo foi usado num debate acadêmico que já dura mais de um século: a hipótese de que o culto do SENHOR tenha chegado a Israel por meio de Midiã e dos queneus, e de que Jetro seria um sacerdote do SENHOR antes de Moisés. A hipótese, os textos em que se apoia e as objeções a ela estão no estudo de Gênesis 25:2.
3. Análise Teológica do Versículo
"Agora sei"
O livro do Êxodo é, entre outras coisas, um livro sobre conhecer o SENHOR. Faraó começou dizendo "não conheço o SENHOR" (Êxodo 5:2). Deus respondeu, praga após praga, com a mesma frase: "os egípcios saberão que eu sou o SENHOR" (Êxodo 7:5, 14:4, 14:18), "para que você saiba que não há ninguém como o SENHOR" (Êxodo 8:10). Prometeu o mesmo a Israel: "vocês saberão que eu sou o SENHOR" (Êxodo 6:7). Depois de tudo, a primeira pessoa no livro que diz, em primeira pessoa, "agora sei", não é egípcia nem israelita. É Jetro.
E ele sabe por ter ouvido. Os egípcios viram as pragas, Israel viu o mar. Jetro não viu nada; ouviu o relato do genro na tenda. O conhecimento que o livro prometia como fruto de sinais chega a ele por palavra.
O que mudou com esse "agora"? A tradição deu duas respostas opostas.
Primeira leitura: Jetro não reconhecia o SENHOR antes. É a da Mekhilta de Rabi Ishmael (a coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), no tratado Amaleque, seção 3: "até agora, ele não tinha reconhecido". O "agora" marca uma passagem: de um lado, o sacerdote de outros deuses; do outro, alguém que confessa este.
Segunda leitura: Jetro já conhecia o SENHOR, e agora conhece mais. É a de Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI), que a tira de outra versão da mesma Mekhilta: "eu o conhecia antes, e agora mais ainda". É também a de vários comentaristas cristãos, como Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII), que lembram que Jetro descendia de Abraão por meio de Midiã e conviveu quarenta anos com Moisés. O "agora" marcaria aumento, não começo.
O versículo não permite decidir. O verbo hebraico pode descrever tanto o conhecimento que nasce quanto o que se confirma.
"que o SENHOR é maior que todos os deuses"
A Mekhilta lê a frase com ironia. "Maior que todos os deuses" quer dizer que Jetro conhecia todos: "não houve idolatria no mundo a que Jetro não tivesse recorrido e servido". Quem compara é alguém que provou cada um. Rashi repete a leitura. Na figura que os mestres desenham, Jetro é um especialista em deuses, e é por isso que o veredito dele vale.
Mas a mesma Mekhilta põe o veredito de Jetro num degrau baixo. Logo em seguida ela diz: "Naamã reconheceu mais do que ele", porque Naamã, o general sírio curado por Eliseu, disse "agora sei que não há Deus em toda a terra, senão em Israel" (2 Reis 5:15). E Raabe, em Jericó, foi além: "o SENHOR, o Deus de vocês, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra" (Josué 2:11). Três estrangeiros, três confissões, em escala: Jetro diz "maior"; Naamã diz "não há outro na terra"; Raabe diz "em cima e embaixo". Para os mestres, a frase de Jetro é verdadeira e incompleta.
Os tradutores antigos sentiram a mesma incompletude e a corrigiram. A tradução aramaica de Ônquelos não diz "maior que todos os deuses". Diz: "grande é o SENHOR, e não há deus além dele". A comparação virou exclusão, o mesmo gesto que esse tradutor faz no cântico do mar, em Êxodo 15:11. O Targum que leva o nome de Jônatas fica no meio do caminho: "o SENHOR é mais forte que todos os deuses".
Os comentaristas modernos discutem o alcance da frase. Para o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX), Jetro tinha tido o Deus de Israel por um entre iguais, e agora o põe acima. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX), comentando a fala de Jetro, observa que o monoteísmo estrito ainda não existia ali. Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino e comentarista do século XIX) faz da palavra "grande" uma afirmação sobre o alcance de Deus: grande é aquele cuja atenção desce do mais alto ao mais baixo, e "maior que todos os deuses" é ser maior que todas as forças do mundo juntas, cada uma das quais domina só uma parte.
O versículo, sozinho, não decide se Jetro acreditava na existência de outros deuses. Diz que, comparado a eles, o SENHOR é maior, e a frase se sustenta tanto para quem pensa que os outros existem quanto para quem pensa que não.
A Mekhilta dá ainda uma explicação concreta para o "maior": "no princípio, nenhum escravo conseguia fugir do Egito, porque era todo fechado; e agora ele tirou de lá seiscentos mil homens". A grandeza se mede contra a potência derrotada.
"sim, naquilo mesmo em que foram arrogantes contra eles"
A frase hebraica termina aqui, e parece faltar alguma coisa. Ao pé da letra: "porque na coisa em que agiram com arrogância contra eles". Contra eles quem? Agiram com arrogância e o quê? A ABC traduz o que está escrito e não completa. Os tradutores e comentaristas completaram de pelo menos sete maneiras.
Primeira: o castigo veio pela mesma coisa. É a leitura da Mekhilta, de Ônquelos e de Rashi. A Mekhilta diz que, "no mesmo pensamento com que os egípcios pensaram destruir Israel, por essa mesma coisa o Lugar" — um dos nomes rabínicos de Deus — "os puniu". Ônquelos põe a ideia dentro da tradução: "pela coisa com que os egípcios pensaram julgar Israel, com ela foram julgados". O Targum de Jônatas explicita: quiseram punir Israel com a água, e foram punidos na água. Rashi resume: pensaram em destruí-los pela água, e foram destruídos pela água. É a leitura que deu ao versículo a fama de texto da "medida por medida", o princípio de que cada um é punido com a medida que usou. A ligação entre os meninos lançados no Nilo e o exército lançado no mar, e o limite dela, estão no estudo de Êxodo 15:4.
Segunda: o jogo da panela. Rashi registra uma leitura dos mestres, do Talmude (Sotá 11a), que ouve na palavra "foram arrogantes" a mesma raiz de "cozinhar" — a do "cozido" de Jacó em Gênesis 25:29 (item 10). A frase viraria: "na panela em que cozinharam, nela foram cozidos". É a medida por medida em forma de trocadilho, e ela só existe em hebraico.
Terceira: a arrogância como causa. É a leitura de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII): "na coisa" quer dizer "por causa da coisa". Jetro sabe que o SENHOR é maior porque castigou os egípcios por terem agido como quem faz o que quer com Israel. Ibn Ezra cita Neemias 9:10, onde a oração dos levitas diz a Deus que fez sinais contra Faraó "porque sabias que eles os trataram com soberba" — o mesmo verbo deste versículo.
Quarta: o excesso além do que fora decretado. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) parte de Gênesis 15:13-14, onde Deus anuncia a Abrão que a sua descendência seria escravizada e afligida, e que depois ele julgaria a nação opressora. Se os egípcios tivessem feito só isso, diz Nachmânides, não teriam merecido castigo tão grande, porque cumpriam o que fora anunciado. Mas foram além: quiseram eliminar Israel do mundo — "vamos agir com astúcia contra ele" (Êxodo 1:10), a ordem às parteiras (Êxodo 1:16), "todo filho que nascer, joguem no Nilo" (Êxodo 1:22). O verbo de Jetro, para Nachmânides, é o da falta deliberada, premeditada. E o castigo veio pela intenção: Deus "olha o coração".
Quinta: a arrogância como medida da fraqueza de Israel. Shadal (Samuel David Luzzatto, Itália, século XIX) lê o argumento de outro modo. Os egípcios só ousaram tanto — amargurar a vida dos hebreus, jogar os filhos no rio, tirar-lhes a palha — porque Israel estava no último grau da fraqueza; se houvesse alguma força, teriam medo de uma revolta. Logo, a saída de um povo tão fraco das mãos de um povo tão forte não podia ser natural. É a arrogância dos opressores que prova a grandeza do libertador.
Sexta: por que a medida por medida prova o "maior". Vários comentaristas ligaram as duas metades do versículo, e explicam por que um castigo simétrico demonstraria superioridade sobre "todos os deuses". Sforno (Ovadia Sforno, Itália, século XVI) e Or ha-Chaim (“A luz da vida”, comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) dizem que os poderes que protegem as nações podem defender os seus, mas não punem os inimigos com a mesma coisa com que estes pecaram. Malbim desenvolve: um deus ligado a uma só força — o fogo, a água — só pode punir com o que tem; castigar cada crime com o instrumento do próprio crime exige domínio sobre todas as forças. A segunda metade do versículo seria, então, a prova da primeira.
Sétima: sem simetria nenhuma. A Septuaginta não lê medida por medida: traduz "por isso, porque os atacaram". A Vulgata latina diz "porque agiram com soberba contra eles". As traduções inglesas clássicas acrescentaram palavras para fechar a frase — a King James (a tradução inglesa autorizada de 1611) escreveu "naquilo em que agiram com soberba, ele esteve acima deles", com "ele esteve" em itálico, marcando o acréscimo. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem que Deus se mostrou grande no próprio assunto em que eles se ensoberbeceram. O Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) supõe que se perderam palavras na cópia, algo como "ele os destruiu".
Não é possível decidir. Não existe manuscrito hebraico com a frase completa, e a hipótese de perda na cópia não tem apoio material. O que o texto dá ao leitor é uma frase que aponta para uma correspondência entre o crime e o castigo, sem desenhá-la. A tradição desenhou; o versículo deixou em aberto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jetro
O sacerdote de Midiã que encerra aqui a sua fala. Na leitura da Mekhilta, é alguém que conheceu e serviu todos os deuses do seu tempo antes de dizer qual era o maior.
"Todos os deuses"
O versículo não os nomeia. Pelo contexto, são em primeiro lugar os deuses do Egito, contra os quais o SENHOR anunciou "juízos" na noite da Páscoa (Êxodo 12:12). Mas "todos" alarga o campo: entram aí os deuses de Midiã, que Jetro servia como sacerdote, e os de qualquer outro povo.
"Eles" — os egípcios
O sujeito de "foram arrogantes" não é nomeado; pelo contexto, são os egípcios. E o "contra eles" do fim da frase é Israel. O versículo fala de dois grupos com o mesmo pronome, e o leitor os distingue pelo sentido.
Naamã e Raabe
Os dois estrangeiros com quem a Mekhilta compara Jetro. Naamã, general do rei de Arã (a Síria antiga), curado de uma doença de pele por Eliseu, confessa que não há Deus em toda a terra senão em Israel (2 Reis 5:15). Raabe, a mulher de Jericó que escondeu os espiões de Josué, confessa o SENHOR como Deus do céu e da terra (Josué 2:11). Os dois vivem séculos depois de Jetro na cronologia bíblica, e os dois falam, como ele, depois de ouvir ou viver o que o SENHOR fez.
5. Pontos de Ensino
1. O livro prometeu conhecimento, e quem o declara é um estrangeiro. "Saberão que eu sou o SENHOR" é refrão do Êxodo. O primeiro "agora sei" vem de Jetro, que não viu os sinais: ouviu falar deles.
2. Uma confissão pode ser verdadeira e incompleta. A Mekhilta põe Jetro abaixo de Naamã e de Raabe, e Ônquelos reescreve a frase dele. Nem os mestres nem o tradutor a rejeitam; acham que ela diz menos do que poderia. O texto bíblico a registra como é.
3. A linguagem comparativa não precisa ser corrigida para ser lida. "Maior que todos os deuses" é a forma como Jetro — e depois os Salmos — disseram o que tinham a dizer. Quem ensina pode explicar a diferença entre comparar e negar sem apagar a comparação do texto.
4. A frase incompleta é parte do texto. A segunda metade do versículo não fecha. Ensinar o versículo é mostrar o vazio e as sete maneiras de preenchê-lo, sem fingir que uma delas está escrita.
5. A arrogância do opressor entra no argumento. Em quase todas as leituras, o que prova a grandeza do SENHOR não é só a força do Egito, mas o abuso que o Egito fez dela. Jetro não diz apenas que o SENHOR venceu; diz que venceu "naquilo" em que eles foram arrogantes.
6. Um caso não é uma lei. O versículo descreve o que Jetro concluiu de um acontecimento. Não afirma que todo opressor recebe de volta a medida exata do que fez — a própria Bíblia conhece o ímpio que prospera (Salmo 73:3-12) e o justo que sofre sem resposta (Jó).
6. Aspectos Filosóficos
Quem pode dizer qual deus é o maior? Jetro diz, e, na leitura da Mekhilta, diz com a autoridade de quem serviu a todos. O versículo põe em cena uma comparação entre religiões feita por alguém de dentro de uma delas, e terminada com um veredito.
Jean Bodin (1530-1596), jurista francês, é conhecido sobretudo pelos Seis livros da República (1576), em que formulou a ideia moderna de soberania. Mas escreveu, já no fim da vida, por volta de 1588, uma obra que não ousou publicar: o Colóquio dos sete sobre os segredos ocultos das coisas sublimes (em latim, Colloquium heptaplomeres). O texto circulou em cópias manuscritas por dois séculos e meio e só foi impresso por inteiro em 1857.
O colóquio reúne sete homens na casa de um deles, em Veneza: um católico, um luterano, um calvinista, um judeu, um convertido ao islã, um defensor da religião natural — a crença num Deus conhecido pela razão, sem revelação — e um cético chamado Senamus. Durante seis livros eles discutem qual é a religião verdadeira, com argumentos fortes de todos os lados; o judeu, Salomão, recebe alguns dos mais fortes, o que fez de Bodin suspeito de judaizar. E o colóquio termina sem vencedor: os sete se abraçam, decidem viver em concórdia e nunca mais discutir religião, e cada um continua com a sua.
Dois traços do Colóquio ajudam a ler o versículo. O primeiro é Senamus, o cético, que frequenta os templos de todas as religiões e prefere aprovar todas a correr o risco de rejeitar a verdadeira. É quase o retrato que a Mekhilta faz de Jetro antes deste versículo: um homem que passou por todos os cultos. O segundo é o desfecho. Em Bodin, a comparação entre religiões, feita por argumento, não produz veredito; produz tolerância. Em Êxodo 18:11, a comparação produz veredito — "agora sei" —, mas não por argumento. Jetro não ganhou um debate; ouviu o relato de um acontecimento.
O contraste mostra o que o versículo não é. Não é a conclusão de uma disputa de razões, e por isso não pode ser usado como prova contra quem pensa diferente. É o testemunho de alguém que muda de posição diante de um fato — e que, depois de mudar, ainda usa a linguagem de comparação que aprendeu no mundo de muitos deuses.
Há um terceiro ponto, menos lembrado. O mesmo Bodin que imaginou a tolerância entre sete religiões escreveu, em 1580, a Demonomania dos feiticeiros, um manual para processar bruxas, porque acreditava que os poderes espirituais adversos eram reais. Para ele, a pergunta sobre "deuses" não era só sobre ideias: havia forças no mundo além de Deus, e elas agiam. Isso aproxima Bodin, mais do que muitos modernos, da frase de Jetro — que compara o SENHOR a "todos os deuses" sem se perguntar se eles existem.
O limite precisa ficar claro. Bodin não comenta Jetro no Colóquio, até onde foi possível conferir, e o sentido final da obra é discutido até hoje: alguns a leem como defesa da religião natural, outros como simpatia pelo judaísmo, outros como puro exercício de tolerância política. O versículo, por sua vez, não sabe nada de diálogo inter-religioso. A aproximação serve para mostrar duas maneiras de sair da comparação entre deuses: a do debate que termina em concórdia sem verdade comum, e a do acontecimento que termina numa confissão.
7. Aplicações Práticas
Mudar de posição diante de um fato. Jetro tinha uma posição religiosa e uma função: era sacerdote. Ouviu um relato e disse "agora sei". O versículo mostra que reconhecer o que não se reconhecia antes não diminui ninguém, e que dá para fazê-lo sem renegar a vida inteira de uma vez.
Desconfiar da própria arrogância. Em quase todas as leituras da segunda metade do versículo, o abuso do Egito é o que o derruba. Sem transformar isso em regra automática, vale a pergunta para quem tem poder sobre outros — chefes, pais, instituições: aquilo que eu uso contra os mais fracos é aquilo de que eu dependo?
Não cobrar de quem chega a confissão completa. A Mekhilta achou a frase de Jetro inferior às de Naamã e de Raabe, mas não a desprezou. Quem acolhe alguém que está se aproximando de uma fé pode receber o que a pessoa consegue dizer, sem exigir de saída a fórmula inteira.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jetro deixou de servir aos deuses de Midiã depois deste versículo?
O texto não diz. No versículo seguinte ele oferece sacrifício "a Deus", e no fim do capítulo volta para a sua terra. A tradição judaica o fez prosélito; outros leitores pensam que voltou a ser sacerdote do seu povo, agora reconhecendo o SENHOR como o maior. Não é possível decidir com o que o Êxodo informa.
Por que a frase compara, se a Bíblia em outros lugares nega os outros deuses?
Porque a Bíblia não fala com uma só voz sobre isso, e porque quem fala aqui é um sacerdote de outro povo. A comparação está também nos Salmos e no próprio cântico do mar. A tradução aramaica corrigiu a frase; o texto hebraico a manteve.
O castigo dos egípcios foi mesmo "na mesma medida"?
Em parte. O afogamento no mar corresponde ao afogamento dos meninos no Nilo, e foi isso que a tradição viu. Mas as dez pragas, o trabalho forçado, a morte dos primogênitos não têm todos uma correspondência simétrica, e o versículo não diz que tiveram. A leitura "medida por medida" é forte num ponto e foi estendida pelos comentaristas para o resto.
A frase ficou incompleta por erro de cópia?
É uma hipótese, defendida por alguns comentaristas modernos. Não há nenhum manuscrito, hebraico ou de tradução antiga, com a frase completa. As versões antigas também a acharam difícil e a resolveram cada uma a seu modo, o que sugere que já liam o mesmo texto curto que temos.
9. Conexão com Outros Textos
O rei que disse "não conheço"
Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"
O primeiro e o último estrangeiro a falar do conhecimento do SENHOR no relato da saída. O contraste entre os dois, e o que cada um faz com a resposta, está desenvolvido no estudo de Êxodo 5:2.
Êxodo 7:5 — "E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando eu estender a minha mão sobre o Egito e tirar os filhos de Israel do meio deles."
O refrão do livro. Jetro é a primeira pessoa a dizer em primeira pessoa o que o refrão anunciava.
A frase de Jetro no saltério
Salmo 135:5 — "Porque eu sei que o SENHOR é grande, e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses."
Quase palavra por palavra a frase de Êxodo 18:11, e o salmo segue lembrando os primogênitos do Egito e Faraó (Salmo 135:8-9). O que um sacerdote de Midiã disse virou confissão de Israel.
Salmo 95:3 — "Porque o SENHOR é Deus grande, e Rei grande acima de todos os deuses."
Salmo 96:4-5 — "Porque grande é o SENHOR e digno de todo louvor, mais temível que todos os deuses. Porque todos os deuses dos povos são ídolos, mas o SENHOR fez os céus."
O Salmo 96 dá o passo que Jetro não dá: depois de comparar, nega. Os dois versos estão lado a lado.
Os outros estrangeiros que "sabem"
2 Reis 5:15 — "Então voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva, e se pôs diante dele e disse: 'Agora sei que não há Deus em toda a terra, senão em Israel.'"
Josué 2:11 — "Quando ouvimos isso, o nosso coração se derreteu, e não ficou mais ânimo em ninguém, por causa de vocês; porque o SENHOR, o Deus de vocês, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra."
Os dois versos com que a Mekhilta mede a confissão de Jetro. Naamã repete até o "agora sei".
A arrogância do Egito, com o mesmo verbo
Neemias 9:10 — "E fizeste sinais e prodígios contra Faraó, contra todos os seus servos e contra todo o povo da sua terra, porque sabias que eles os trataram com soberba; e fizeste para ti um nome, como se vê neste dia."
A oração dos levitas, séculos depois, completa a frase de Jetro: a soberba dos egípcios é a razão dos sinais. É o versículo que Ibn Ezra e Nachmânides citam.
Êxodo 21:14 — "Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra."
O mesmo verbo na lei, para o homicídio premeditado. É daqui que Nachmânides e Sforno tiram o sentido de "falta deliberada".
O decreto que, segundo Nachmânides, foi ultrapassado
Gênesis 15:13-14 — "Então o SENHOR disse a Abrão: 'Saiba com certeza que a sua descendência será peregrina numa terra que não é sua; ali serão escravizados e afligidos por quatrocentos anos. Mas também a nação a quem servirão como escravos, eu a julgarei; e depois disso sairão com grande riqueza.'"
A escravidão e a aflição estavam anunciadas; o projeto de extermínio, não. Para Nachmânides, é na diferença entre os dois que está "a coisa em que foram arrogantes".
Êxodo 1:22 — "Então Faraó ordenou a todo o seu povo: 'Todo filho que nascer, joguem no Nilo; mas toda filha, deixem viver.'"
O decreto que a leitura "medida por medida" põe do outro lado do mar.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses: sim, naquilo mesmo em que foram arrogantes contra eles.”
Texto hebraico
עַתָּ֣ה יָדַ֔עְתִּי כִּֽי־גָד֥וֹל יְהוָ֖ה מִכָּל־הָאֱלֹהִ֑ים כִּ֣י בַדָּבָ֔ר אֲשֶׁ֥ר זָד֖וּ עֲלֵיהֶֽם׃
Transliteração
attah yada'ti ki-gadol YHWH mi-kol-ha-elohim; ki va-davar asher zadu aleihem.
Análise palavra por palavra
עַתָּה — attah, "agora".
Advérbio de tempo que marca um antes e um depois. Abre a frase e a põe em relação com o que acabou de ser ouvido. O mesmo advérbio abre o "agora sei" de Naamã (2 Reis 5:15).
יָדַעְתִּי — yada'ti, "sei".
Perfeito da primeira pessoa do singular do verbo yada, "conhecer, saber". O perfeito hebraico, que costuma indicar ação concluída, é usado com verbos de saber e de sentir para descrever um estado presente: "cheguei a saber", logo, "sei". É o verbo de "não conheço o SENHOR" em Êxodo 5:2 e de "saberão que eu sou o SENHOR" em Êxodo 7:5.
כִּי־גָדוֹל יְהוָה — ki-gadol YHWH, "que o SENHOR é grande".
Ki, aqui, é "que", introduzindo o conteúdo do saber. Gadol é o adjetivo "grande". A frase não tem verbo: "que grande o SENHOR". O português põe o "é".
מִכָּל־הָאֱלֹהִים — mi-kol-ha-elohim, "que todos os deuses".
O hebraico não tem forma própria de comparativo. Para dizer "maior que", usa o adjetivo simples com a preposição min, "de", aqui reduzida a mi-: "grande a partir de todos" equivale a "maior que todos". Ha-elohim é "os deuses", com artigo. A mesma palavra, elohim, é a que a Bíblia usa para o Deus de Israel; o artigo e o contexto ("todos") mostram que aqui é plural de sentido. Ônquelos troca a frase por "e não há deus além dele"; a Septuaginta mantém "grande acima de todos os deuses", e a Vulgata, "grande sobre todos os deuses".
כִּי — ki, "sim".
A mesma partícula que abriu o conteúdo do saber volta agora com outra função. Pode ser causal, "porque" — e é assim que Ibn Ezra a lê —, ou de reforço, "sim, de fato" — a leitura de Shadal, que a chama de partícula "de confirmação". A ABC escolhe o reforço, "sim", que não obriga a frase a ser explicação do que vem antes.
בַדָּבָר — va-davar, "naquilo mesmo".
Be-, "em", com o artigo e davar, "palavra, coisa, assunto". Literalmente, "na coisa". Ibn Ezra entende o be- como "por causa de"; Shadal dá a davar o sentido de "modo e medida", como em Josué 5:4, "e este é o motivo pelo qual Josué os circuncidou". A ABC traduz "naquilo mesmo" para manter a ideia de identidade — a mesma coisa — sem decidir entre as leituras. A palavra davar e os seus muitos sentidos neste capítulo estão estudados em Êxodo 18:16.
אֲשֶׁר — asher, "em que".
O relativo, que liga "a coisa" ao verbo seguinte.
זָדוּ — zadu, "foram arrogantes".
Perfeito da terceira pessoa do plural da raiz z-y-d (ou z-w-d), "agir com soberba, com presunção". A mesma raiz tem, em hebraico, o sentido de "ferver, cozinhar" — é o verbo do cozido de Jacó em Gênesis 25:29. Foi dessa coincidência que o Talmude (Sotá 11a) tirou a leitura da panela: "na panela em que cozinharam, foram cozidos".
No sentido de soberba, a raiz aparece na lei para o crime deliberado: "se alguém agir com premeditação contra o seu próximo" (Êxodo 21:14), e para o profeta que fala "com presunção" o que Deus não mandou (Deuteronômio 18:20, 18:22). E aparece na oração de Neemias 9:10, aplicada exatamente aos egípcios: "eles os trataram com soberba". Daí a leitura de Nachmânides, para quem a palavra indica falta premeditada, e não só excesso.
עֲלֵיהֶם — aleihem, "contra eles".
A preposição al, "sobre", com o sufixo da terceira pessoa do plural masculino. Com verbos de hostilidade, al significa "contra". Mas o sentido básico, "sobre, acima de", permitiu à King James ler "ele esteve acima deles", e a Septuaginta usa um verbo de ataque, epethento autois, "lançaram-se sobre eles". O versículo hebraico termina nesta palavra, e é ela que deixa a frase em suspenso.
11. Conclusão
Com base no que o versículo diz, conclui-se primeiro que o Êxodo põe na boca de um estrangeiro o conhecimento que o livro inteiro prometia: o "saberão" anunciado aos egípcios vira "sei" na boca de um midianita, e vira por ter ouvido, não por ter visto.
Conclui-se também que a confissão de Jetro é verdadeira na forma em que foi dita, e que a forma é comparativa. Os mestres a acharam incompleta, os tradutores a corrigiram, os Salmos a adotaram. O texto hebraico a manteve, e quem o lê tem o direito de ler a comparação como comparação.
E conclui-se, por fim, que a ligação entre o crime e o castigo é sugerida e não desenhada. O versículo diz que a grandeza do SENHOR se mostrou "naquilo mesmo" em que o Egito foi arrogante, e para. A simetria da água, a panela, o decreto ultrapassado, a fraqueza de Israel — tudo isso é leitura. O que o texto afirma é menos e é suficiente: a arrogância dos fortes faz parte da prova, e não apenas a força de quem os venceu.













