Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra.
1. Introdução
O versículo fecha a porta que o anterior abriu: quem matou de propósito, com astúcia, não tem lugar de fuga, nem mesmo o altar de Deus. A lei descreve o homicida pelo orgulho de quem se põe acima do outro e pela traição com que o atinge, e manda tirá-lo do lugar mais santo que Israel tinha. Gregos e romanos respeitavam o suplicante agarrado ao altar e inventavam meios de não o matar ali; o Êxodo recusa esse respeito ao assassino. A história de Joabe, morto junto ao altar por ordem de Salomão, mostra a lei aplicada, e o Talmude discute até se ele se agarrou ao lugar certo. A pergunta que o versículo levanta é sobre a punição: ela fala ao culpado ou apenas o remove?
2. Contexto Histórico e Cultural
O suplicante no altar grego
No mundo grego, quem se sentava junto a um altar ou tocava a imagem de um deus ficava sob a proteção dele. Matar um suplicante ali era sacrilégio, e trazia uma mancha que não se lavava facilmente. Tucídides (historiador ateniense do século V antes de Cristo) conta dois episódios que mostram até onde ia esse escrúpulo e como se contornava.
O primeiro é o de Cílon, que tentou tomar o poder em Atenas no século VII antes de Cristo e foi cercado na Acrópole (História da Guerra do Peloponeso I.126). Os seus partidários se sentaram como suplicantes junto ao altar de Atena. Os magistrados os convenceram a sair, prometendo não lhes fazer mal, e os mataram fora; alguns que se refugiaram nos altares das deusas veneráveis, no caminho, foram mortos ali mesmo. Os responsáveis foram declarados malditos, e a mancha passou à família deles, os Alcmeônidas. Cerca de dois séculos depois, Esparta ainda exigia que Atenas "expulsasse a maldição" — e o alvo era Péricles, descendente da família.
O segundo é o do general espartano Pausânias, acusado de traição (I.134). Ele se refugiou numa pequena construção do templo de Atena da Casa de Bronze, em Esparta. Os magistrados não o tiraram de lá: fecharam as portas, retiraram o teto e o deixaram morrer de fome. Quando estava a ponto de morrer, tiraram-no para fora, e ele morreu logo depois. O cuidado não era com Pausânias; era com o templo, que não podia ser manchado por um cadáver.
Os templos cheios de Roma
No ano 22 depois de Cristo, segundo Tácito (historiador romano, séculos I-II), nos Anais (III.60-63), o imperador Tibério mandou o Senado examinar o direito de asilo que as cidades gregas da Ásia reivindicavam para os seus templos. O problema era prático: os templos estavam cheios dos piores escravos, de devedores fugidos dos credores e de suspeitos de crimes capitais, e a população defendia os criminosos como se defendesse o culto. Cada cidade apresentou a sua história sagrada para provar o direito; o Senado confirmou alguns asilos e os limitou.
O que o Êxodo faz diferente
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista inglês do século XIX) observa que a lei mosaica se recusou a sancionar esse escrúpulo. O contraste é preciso. Os gregos admitiam matar o suplicante, mas não no altar: tiravam-no com promessa, emparedavam-no, esperavam que saísse por conta própria. O Êxodo inverte a ordem dos valores: o altar não suspende a lei, e quem o usa para escapar dela deve ser tirado de lá. A santidade do lugar não é posta acima da vida do morto.
A lei não abole o asilo. Ela o reserva. O versículo anterior prometeu um lugar para o homicida involuntário; este nega o altar ao voluntário. A diferença entre os dois homicídios é que decide se o lugar santo protege.
O sacerdote no meio do serviço
Os rabinos leram "do meu altar" como um caso concreto: o homicida que é sacerdote. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 4, conclui que o assassinato se sobrepõe ao serviço do altar: o sacerdote que matou é impedido de oficiar e levado para ser executado. E faz um raciocínio em cadeia: o serviço do Templo se sobrepõe ao sábado, mas a execução não se faz no sábado; logo, a ordem de valores entre culto, sábado e justiça não é simples.
O Talmude (Yoma 85a-b) acrescenta um detalhe decisivo. O texto diz "do meu altar", e não "de cima do meu altar": o sacerdote que já começou o sacrifício termina o serviço antes de ser levado. Mas, se ele pode depor a favor de alguém condenado à morte, é tirado até de cima do altar, no meio do sacrifício. Foi com esse argumento que Rabi Akiva provou que salvar uma vida se sobrepõe ao sábado: se o testemunho que talvez salve um homem interrompe o culto, e o culto se sobrepõe ao sábado, então salvar uma vida se sobrepõe ao sábado com mais razão.
A mesma passagem da Mekhilta tira do versículo uma última consequência: se o homicida é tirado "do altar", o tribunal ficava perto do altar. Na Jerusalém do Segundo Templo, o grande tribunal se reunia, segundo a tradição, numa sala do próprio pátio do Templo, a Sala da Pedra Lavrada.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se, porém, alguém agir com arrogância"
O versículo 13 descrevia o homicídio involuntário pelo que faltou: não houve emboscada. Este descreve o voluntário pelo que sobra: arrogância. O verbo é o da soberba, o de quem age com presunção, e o Êxodo já o usou para os egípcios (Êxodo 18:11). A escolha diz alguma coisa sobre o crime. O homicida premeditado não é descrito só como alguém que quis matar, mas como alguém que se pôs acima do outro, que decidiu sobre a vida alheia como se tivesse direito a isso.
As traduções antigas escolheram cada uma um lado desse verbo. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve "se agir com maldade". A Septuaginta, "se alguém atacar o próximo". A Vulgata, per industriam, "de caso pensado". Maldade, ataque, premeditação: três traduções corretas, nenhuma com o orgulho do hebraico.
"contra o seu próximo"
A palavra hebraica é a do companheiro, do vizinho, do outro com quem se convive. A Mekhilta a leu como restrição: "o seu próximo" incluiria o menor de idade como vítima, mas excluiria "os outros", isto é, os não israelitas. A leitura é dura, e a própria Mekhilta registra o protesto. Issi ben Akiva diz: antes da Torá, já éramos advertidos contra derramar sangue; depois da Torá, em vez de mais rigor, haveria menos? E conclui que quem mata um não israelita está isento do tribunal humano, mas o seu julgamento é entregue ao Céu. A solução é um meio-termo: o crime não deixa de ser crime, só sai da competência do tribunal.
A discussão mostra o risco de ler uma palavra comum como termo técnico. "O seu próximo", na prosa bíblica, quase sempre significa "o outro"; a restrição é da leitura jurídica posterior, e foi contestada dentro dela.
"para matá-lo à traição"
A palavra traduzida por "à traição" é a da astúcia, a mesma família da serpente "astuta" de Gênesis 3:1. O homicida do versículo não apenas quer matar: arma o modo. Aproxima-se como amigo, escolhe a hora, esconde a intenção.
A Mekhilta extrai daí uma lista de excluídos que diz muito sobre como os rabinos entendiam a culpa. Ficam fora o surdo-mudo, o incapaz e o menor, porque "não são astutos". E ficam fora quatro figuras que agem de propósito, mas sem astúcia: o médico que mata no exercício da medicina, o encarregado do tribunal que mata ao aplicar a pena de açoites, o pai que corrige o filho e o mestre que corrige o aluno. Todos sabiam o que faziam; nenhum preparava a morte. A lei separa, aqui, a intenção de agir da intenção de matar.
O exemplo bíblico perfeito da palavra é Joabe, que levou Abner "para o meio da porta, para lhe falar em segredo", e o feriu no ventre (2 Samuel 3:27), e que segurou Amasa pela barba "para beijá-lo" enquanto a outra mão segurava a espada (2 Samuel 20:9-10). É a traição em estado puro, e foi ela que a lei acabou alcançando (item 4).
"até do meu altar o tirarás"
A frase supõe uma cena que ela não descreve: o homicida corre para o altar e se agarra a ele. A Septuaginta torna a cena explícita e acrescenta "e fugir para refúgio" — "se alguém atacar o próximo para matá-lo com astúcia e fugir para refúgio, do meu altar o tirarás". O hebraico deixa o leitor completar.
O pronome importa: "o meu altar". Deus fala do que é seu e manda que não o usem contra a sua lei. Sforno (Obadias Sforno, rabino italiano do século XVI) aproxima a frase de Jeremias 7:11, em que Deus pergunta se a sua casa virou "um covil de ladrões": o santuário não é esconderijo. A ordem é dirigida ao "tu" da lei, e não ao sacerdote; quem tira o assassino do altar é a comunidade que executa a justiça.
O versículo também supõe, sem dizer, que o altar protegia alguém. Se o assassino tem de ser tirado dali, é porque outros não eram tirados. É a leitura de Ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha, século XII), para quem este versículo é o avesso do anterior: o lugar protege o involuntário; o voluntário, nem o altar protege.
"para que morra"
O versículo termina no mesmo ponto do 12, por outro caminho. Não repete a fórmula da pena; diz a finalidade da ação: tirá-lo para que morra. O altar, lugar onde se oferecia a vida de animais, não pode guardar a vida de quem tirou a de um homem.
O limite está aqui. O texto não diz quem decide que houve arrogância e astúcia, nem com quais provas. Ele supõe um julgamento que não descreve, e por isso os rabinos puseram o tribunal "perto do altar". Lido sem esse julgamento, o versículo autorizaria qualquer um a arrancar do santuário quem acusasse de assassinato — o que nenhuma leitura antiga admitiu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Adonias, que ficou vivo
Quando Salomão foi ungido rei, Adonias, o irmão que tinha tentado se proclamar rei antes dele, teve medo e "foi e agarrou-se às pontas do altar" (1 Reis 1:50). Mandou dizer que só sairia se Salomão jurasse não matá-lo. Salomão não jurou, mas respondeu: se ele se portar como homem digno, não cairá um fio do seu cabelo; se for achado nele algum mal, morrerá. Adonias desceu do altar, prostrou-se e foi mandado para casa (1 Reis 1:51-53). Ele não tinha matado ninguém. O altar o protegeu, e o versículo 14 não se aplicava. Meses depois, Adonias pediu Abisague, a jovem que servira Davi, e Salomão leu o pedido como nova pretensão ao trono e o mandou matar (1 Reis 2:25) — não no altar.
Joabe, que foi morto ali
Joabe, sobrinho de Davi e chefe do exército por quarenta anos, tinha matado dois homens fora da guerra: Abner, que matara o seu irmão Asael numa batalha (2 Samuel 2:23; 3:27), e Amasa, que Davi nomeara chefe do exército no lugar dele (2 Samuel 20:10). Davi, ao morrer, lembra a Salomão que Joabe "derramou em tempo de paz o sangue de guerra" (1 Reis 2:5). Quando Adonias caiu, Joabe, que o apoiara, fugiu para a tenda do SENHOR e se agarrou às pontas do altar (1 Reis 2:28).
Benaia, o executor de Salomão, foi até lá e mandou-o sair em nome do rei. Joabe respondeu: "Não; aqui morrerei." Benaia voltou para consultar, e Salomão mandou fazer como ele dissera: matá-lo ali e sepultá-lo, "para que tires de mim e da casa de meu pai o sangue que Joabe derramou sem causa" (1 Reis 2:31). Benaia subiu e o matou, e Joabe foi sepultado na sua casa, no deserto (1 Reis 2:34).
O episódio é a aplicação mais clara deste versículo em toda a Bíblia, e ao mesmo tempo vai além dele. A lei manda tirar o homicida do altar; Salomão o mata junto ao altar. O texto de Reis não comenta a diferença. A morte de Abner tinha a aparência de vingança de sangue pelo irmão; a de Amasa, nem isso. O que Salomão invoca é o sangue "sem causa", e é a traição dos dois golpes que o versículo descreve.
O altar de chifres
O altar do santuário tinha uma ponta em cada um dos quatro cantos, chamadas "chifres" (Êxodo 27:2). Era nelas que se punha o sangue de certos sacrifícios (Levítico 4:7) e era nelas que o fugitivo se segurava. O altar que o Êxodo acaba de descrever, de terra ou de pedra não lavrada (Êxodo 20:24-25), é mais simples; as pontas pertencem ao altar do santuário.
5. Pontos de Ensino
1. O lugar santo não suspende a lei. A santidade do altar é real, mas não serve de escudo para quem matou de propósito. O versículo põe a vida da vítima acima da inviolabilidade do santuário.
2. O asilo não foi abolido, foi reservado. O versículo 13 promete um lugar ao homicida involuntário; o 14 o nega ao voluntário. A proteção depende do que se fez, e não de onde se está.
3. O homicídio premeditado é descrito como soberba. O verbo escolhido não é o da intenção, mas o da arrogância — de quem se põe acima do outro.
4. A astúcia separa quem age de quem trama. A leitura rabínica isentou o médico, o pai e o mestre que causam uma morte sem a preparar. A lei pune a morte armada, não qualquer morte querida.
5. Até a regra mais rígida tem a sua exceção pela vida. O sacerdote é tirado do altar para morrer, mas também para salvar alguém com o seu testemunho — e foi daí que Rabi Akiva tirou que salvar uma vida se sobrepõe ao sábado.
6. Aspectos Filosóficos
A punição fala ao culpado?
O homicida que corre para o altar faz um gesto que diz alguma coisa. Ele não se esconde num poço nem foge para o deserto: vai ao lugar onde Deus recebe sacrifícios e perdoa faltas. É como se dissesse que a sua questão é com Deus, e não com a comunidade. O versículo recusa essa saída. Antes de qualquer reconciliação, ele precisa responder diante dos outros pelo que fez. A pergunta que a cena levanta é sobre o sentido dessa resposta.
Antony Duff e a punição como comunicação
O filósofo britânico Antony Duff, professor nas universidades escocesas de Stirling e depois de Minnesota, construiu desde os anos 1980 uma teoria da punição que tenta escapar dos dois modelos clássicos — o que pune para retribuir e o que pune para prevenir. No livro Punishment, Communication, and Community ("Punição, comunicação e comunidade", 2001), ele defende que a punição é uma forma de comunicação. Ela diz ao culpado, em nome da comunidade, a censura que ele merece, e diz isso a ele como a alguém que pode entender e responder.
Para Duff, o processo começa antes da pena. O julgamento é um "chamar a prestar contas": a comunidade convoca o acusado a responder pelo que fez, e o trata, ao convocá-lo, como membro dela, alguém a quem as suas normas se dirigem. A pena, depois, funciona como uma espécie de penitência secular: um peso que dá ao culpado ocasião de se arrepender, de se reformar e de se reconciliar com aqueles a quem ofendeu.
O altar recusado
Lido com Duff, o versículo diz algo preciso. O altar é o lugar da reconciliação com Deus; o homicida quer chegar a ela sem passar pela comunidade que ofendeu. A lei o tira de lá e o põe diante do tribunal — o que, nas palavras de Duff, é chamá-lo a prestar contas. A leitura rabínica que põe o tribunal "perto do altar" encaixa bem: a justiça humana e o culto ficam lado a lado, e o primeiro não é pulado em nome do segundo.
Onde a teoria e o versículo se separam
Mas o versículo não termina no tribunal: termina "para que morra". E a teoria de Duff tem dificuldade justamente aí. Se a punição é comunicação dirigida a alguém capaz de responder, se o seu fim é o arrependimento e a reconciliação, a pena de morte encerra a conversa no momento em que a censura é dita. O próprio Duff conclui que a sua teoria não justifica a pena capital, porque ela trata o condenado como alguém já fora da comunidade, com quem não há mais nada a comunicar.
A tensão é instrutiva. O versículo tem a estrutura da comunicação — o homicida é procurado, tirado do esconderijo, levado a responder — e tem um desfecho que a teoria da comunicação não sustenta. Quem quiser ler a pena bíblica só como retribuição ignora o primeiro dado; quem quiser lê-la como penitência ignora o segundo. O texto não argumenta a favor de nenhuma das duas leituras: ele manda tirar e manda matar.
7. Aplicações Práticas
Nenhuma instituição religiosa é esconderijo
O caso mais atual deste versículo não é o do assassino agarrado ao altar, e sim o de instituições religiosas que protegeram os seus membros de responder à justiça comum por crimes graves, com o argumento de que a questão seria tratada "internamente", diante de Deus. O versículo recusa exatamente isso: a relação com Deus não substitui a prestação de contas aos homens.
E o refúgio continua devido a quem não é culpado
A lei não diz que o santuário nunca protege. Ela distingue. Comunidades que abrigam quem é perseguido sem culpa fazem o que o versículo 13 promete; o que não podem fazer é estender o mesmo abrigo a quem matou de propósito.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Joabe se agarrou ao lugar certo?
O Talmude (Makkot 12a) diz que não, e atribui a Rav uma observação curiosa: Joabe errou duas vezes naquele momento. Primeiro, porque só o alto do altar protege, e ele se agarrou às pontas. Segundo, porque só o altar do Templo definitivo protege, e ele se agarrou ao de um santuário provisório. Abaye acrescenta um terceiro erro: o altar só protegia o sacerdote que estivesse com o serviço nas mãos, e Joabe não era sacerdote. A leitura transforma o versículo numa regra de alcance mínimo — o altar quase nunca protegeria ninguém — e mostra o esforço rabínico de impedir que o santuário virasse rota de fuga.
2. Por que Salomão matou Joabe junto ao altar, se a lei mandava tirá-lo de lá?
O texto de Reis não explica. Joabe disse "aqui morrerei", e Salomão mandou "fazer como ele disse". Pode-se ler como cumprimento literal do pedido do condenado, ou como pressa política. O que o texto registra é que Salomão justificou a morte pelo sangue inocente, e não pelo apoio de Joabe a Adonias — embora o apoio tenha sido o que o fez fugir.
3. A lei alcançava quem matava por ordem de outro?
A pergunta não é teórica: Joabe matou Abner por conta própria, mas, segundo 2 Samuel 11, também mandou Urias à morte por ordem de Davi. Este último crime nunca lhe foi cobrado. O versículo fala da astúcia de quem mata; não diz nada sobre quem manda matar, e a Bíblia mostra que o poder costuma escapar das leis que aplica aos outros.
4. O refúgio no altar sobreviveu em outras religiões?
Sobreviveu nas igrejas cristãs, que receberam do direito romano tardio o reconhecimento do asilo nos templos. As regras variaram muito de época para época e de lugar para lugar, e houve tempos em que nem o homicida era tirado da igreja. A distinção do Êxodo entre o refugiado que merece proteção e o assassino que não merece foi, em muitos períodos, mais rigorosa do que a prática cristã.
9. Conexão com Outros Textos
A lei aplicada
1 Reis 2:28 — "A notícia chegou a Joabe — pois Joabe tinha apoiado Adonias, embora não tivesse apoiado Absalão —, e Joabe fugiu para a tenda do SENHOR e agarrou-se às pontas do altar."
1 Reis 2:31 — "O rei lhe disse: 'Faça como ele disse: mate-o e sepulte-o, para que você tire de mim e da casa de meu pai o sangue que Joabe derramou sem causa.'"
O único caso bíblico em que um homem é morto junto ao altar ao qual se agarrara.
1 Reis 1:50 — "Adonias, porém, teve medo de Salomão; levantou-se, foi e agarrou-se às pontas do altar."
O contraexemplo: quem não tinha sangue nas mãos ficou protegido.
A traição que a lei descreve
2 Samuel 3:27 — "Quando Abner voltou a Hebrom, Joabe o levou à parte, para o meio da porta, como se quisesse falar com ele em particular, e ali o feriu no ventre; e ele morreu, por causa do sangue de Asael, irmão de Joabe."
2 Samuel 20:9-10 — "Joabe disse a Amasa: 'Você está bem, meu irmão?' E, com a mão direita, pegou Amasa pela barba para beijá-lo. Amasa não prestou atenção à espada que estava na mão de Joabe, e ele o feriu com ela no ventre."
O santuário que não pode ser esconderijo
Jeremias 7:9-11 — "Vocês furtam, matam, cometem adultério, juram falso […] e depois vêm e se apresentam diante de mim nesta casa, que se chama pelo meu nome, e dizem: 'Estamos salvos!' […] Será esta casa, que se chama pelo meu nome, um covil de ladrões aos olhos de vocês?"
A mesma recusa, dirigida a um povo inteiro.
A mesma lei no Deuteronômio
Deuteronômio 19:13 — "Não terás piedade dele; e tirarás de Israel a culpa do sangue inocente, para que te vá bem."
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra.
Texto hebraico
וְכִי־יָזִד אִישׁ עַל־רֵעֵהוּ לְהׇרְגוֹ בְעׇרְמָה מֵעִם מִזְבְּחִי תִּקָּחֶנּוּ לָמוּת׃
Transliteração
ve-khi yazid ish al re'ehu le-horgo ve-ormah me-im mizbechi tiqqachennu lamut.
Análise palavra por palavra
וְכִי — ve-khi, "se, porém".
A conjunção ki, "se, quando", que abre os casos da lei, com o "e" que aqui marca contraste com o versículo anterior.
יָזִד — yazid, "agir com arrogância".
Forma causativa (Hifil) da raiz z-y-d, "ferver" e, por extensão, "agir com soberba, com presunção". As ocorrências da raiz e a leitura de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) — falta premeditada, e não só excesso — estão no estudo de Êxodo 18:11. Aqui ela aparece pela primeira vez numa lei, e voltará em Deuteronômio 18:20 e 18:22 para o profeta que fala "com presunção" o que Deus não mandou, e em Deuteronômio 17:12, para quem desobedece "com soberba" ao tribunal.
אִישׁ — ish, "alguém".
O mesmo "homem" do versículo 12, agora como sujeito. A Mekhilta o lê como "homem adulto", para excluir o menor; no uso comum, é só "alguém".
עַל־רֵעֵהוּ — al re'ehu, "contra o seu próximo".
A preposição al, "sobre", com sentido hostil, "contra"; re'a, "companheiro, vizinho, o outro", com o sufixo "dele". É a palavra de "amarás o teu próximo" (Levítico 19:18) e do mandamento contra o falso testemunho (Êxodo 20:16).
לְהׇרְגוֹ — le-horgo, "para matá-lo".
Infinitivo do verbo harag, o verbo comum de matar, com o sufixo "o". Não é ratsach, o do mandamento, nem nakhah, o "ferir" do versículo 12. O versículo descreve o propósito: ele queria a morte.
בְעׇרְמָה — ve-ormah, "à traição".
O substantivo ormah, "astúcia, esperteza", da raiz de arum, "astuto", o adjetivo da serpente em Gênesis 3:1. Em Provérbios 1:4 e 8:5 a mesma palavra é elogio — a "prudência" que a sabedoria dá aos simples. A raiz é neutra; o que a torna crime é o objeto. Em Josué 9:4, os gibeonitas agem "com astúcia" para enganar Israel; aqui, alguém usa a mesma inteligência para matar. Ibn Ezra observa que a palavra se liga ao verbo: "matá-lo com astúcia" é o sentido, e não "agir com arrogância com astúcia".
מֵעִם מִזְבְּחִי — me-im mizbechi, "até do meu altar".
A preposição composta me-im, "de junto de", e mizbe'ach, "altar" — literalmente "lugar de sacrificar" —, com o sufixo "meu". "De junto do meu altar": o Talmude se apoiou exatamente nessa preposição para distinguir "junto do altar" de "de cima do altar" (item 2). O "até" da ABC traduz a ênfase da frase, que põe o altar antes do verbo.
תִּקָּחֶנּוּ — tiqqachennu, "o tirarás".
O verbo laqach, "tomar, pegar", na segunda pessoa do singular, com o sufixo "o" na forma enfática. É o "tu" da lei: a ordem se dirige a Israel.
לָמוּת — lamut, "para que morra".
Infinitivo de mut, "morrer", com a preposição de finalidade.
As traduções antigas
O Targum de Ônquelos traduz ve-arei yarsha gevar al chavreh le-miqtleh bi-nkhilu — "se um homem agir com maldade contra o seu companheiro para matá-lo com astúcia". A Septuaginta: ean de tis epithētai tō plēsion apokteinai auton dolō kai katafygē, apo tou thysiastēriou mou lēmpsē auton thanatōsai — "se alguém atacar o próximo para matá-lo com astúcia e fugir para refúgio, do meu altar o tomarás para matá-lo". O "e fugir para refúgio" não está no hebraico. A Vulgata: si quis per industriam occiderit proximum suum et per insidias, ab altari meo evelles eum ut moriatur — "se alguém matar o próximo de caso pensado e por insídias, do meu altar o arrancarás para que morra". O verbo latino evellere, "arrancar", é mais forte que o hebraico: Jerônimo imaginou o homicida agarrado.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo conduz a uma conclusão principal e a duas consequências. A principal: o lugar mais santo de Israel não protege quem matou de propósito, e nisso a lei do Êxodo se separa conscientemente do costume dos povos vizinhos, que respeitavam o suplicante no altar e só o matavam fora dele. A primeira consequência é que o santuário continua sendo refúgio — o versículo supõe isso —, mas para quem não tem sangue preparado nas mãos; a distinção entre o 13 e o 14 é a distinção entre quem o altar acolhe e quem ele devolve. A segunda é que o crime é descrito pela soberba e pela traição, e não só pela vontade: o que a lei recusa abrigar é o homem que se pôs acima do outro e armou a morte dele. Que a pena seja a morte é dado do texto; que ela feche a possibilidade de responder e se reconciliar é o preço que o versículo não discute.













