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Êxodo 21:14

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 17 acessos
Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra.
Dentro de uma tenda de culto iluminada por lamparinas, um guerreiro grisalho de armadura agarra com as duas mãos as pontas de um altar de bronze, enquanto um soldado de espada na cintura para à entrada, à contraluz.

Estudo


Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra.

1. Introdução

O versículo fecha a porta que o anterior abriu: quem matou de propósito, com astúcia, não tem lugar de fuga, nem mesmo o altar de Deus. A lei descreve o homicida pelo orgulho de quem se põe acima do outro e pela traição com que o atinge, e manda tirá-lo do lugar mais santo que Israel tinha. Gregos e romanos respeitavam o suplicante agarrado ao altar e inventavam meios de não o matar ali; o Êxodo recusa esse respeito ao assassino. A história de Joabe, morto junto ao altar por ordem de Salomão, mostra a lei aplicada, e o Talmude discute até se ele se agarrou ao lugar certo. A pergunta que o versículo levanta é sobre a punição: ela fala ao culpado ou apenas o remove?

2. Contexto Histórico e Cultural

O suplicante no altar grego

No mundo grego, quem se sentava junto a um altar ou tocava a imagem de um deus ficava sob a proteção dele. Matar um suplicante ali era sacrilégio, e trazia uma mancha que não se lavava facilmente. Tucídides (historiador ateniense do século V antes de Cristo) conta dois episódios que mostram até onde ia esse escrúpulo e como se contornava.

O primeiro é o de Cílon, que tentou tomar o poder em Atenas no século VII antes de Cristo e foi cercado na Acrópole (História da Guerra do Peloponeso I.126). Os seus partidários se sentaram como suplicantes junto ao altar de Atena. Os magistrados os convenceram a sair, prometendo não lhes fazer mal, e os mataram fora; alguns que se refugiaram nos altares das deusas veneráveis, no caminho, foram mortos ali mesmo. Os responsáveis foram declarados malditos, e a mancha passou à família deles, os Alcmeônidas. Cerca de dois séculos depois, Esparta ainda exigia que Atenas "expulsasse a maldição" — e o alvo era Péricles, descendente da família.

O segundo é o do general espartano Pausânias, acusado de traição (I.134). Ele se refugiou numa pequena construção do templo de Atena da Casa de Bronze, em Esparta. Os magistrados não o tiraram de lá: fecharam as portas, retiraram o teto e o deixaram morrer de fome. Quando estava a ponto de morrer, tiraram-no para fora, e ele morreu logo depois. O cuidado não era com Pausânias; era com o templo, que não podia ser manchado por um cadáver.

Os templos cheios de Roma

No ano 22 depois de Cristo, segundo Tácito (historiador romano, séculos I-II), nos Anais (III.60-63), o imperador Tibério mandou o Senado examinar o direito de asilo que as cidades gregas da Ásia reivindicavam para os seus templos. O problema era prático: os templos estavam cheios dos piores escravos, de devedores fugidos dos credores e de suspeitos de crimes capitais, e a população defendia os criminosos como se defendesse o culto. Cada cidade apresentou a sua história sagrada para provar o direito; o Senado confirmou alguns asilos e os limitou.

O que o Êxodo faz diferente

Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista inglês do século XIX) observa que a lei mosaica se recusou a sancionar esse escrúpulo. O contraste é preciso. Os gregos admitiam matar o suplicante, mas não no altar: tiravam-no com promessa, emparedavam-no, esperavam que saísse por conta própria. O Êxodo inverte a ordem dos valores: o altar não suspende a lei, e quem o usa para escapar dela deve ser tirado de lá. A santidade do lugar não é posta acima da vida do morto.

A lei não abole o asilo. Ela o reserva. O versículo anterior prometeu um lugar para o homicida involuntário; este nega o altar ao voluntário. A diferença entre os dois homicídios é que decide se o lugar santo protege.

O sacerdote no meio do serviço

Os rabinos leram "do meu altar" como um caso concreto: o homicida que é sacerdote. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 4, conclui que o assassinato se sobrepõe ao serviço do altar: o sacerdote que matou é impedido de oficiar e levado para ser executado. E faz um raciocínio em cadeia: o serviço do Templo se sobrepõe ao sábado, mas a execução não se faz no sábado; logo, a ordem de valores entre culto, sábado e justiça não é simples.

O Talmude (Yoma 85a-b) acrescenta um detalhe decisivo. O texto diz "do meu altar", e não "de cima do meu altar": o sacerdote que já começou o sacrifício termina o serviço antes de ser levado. Mas, se ele pode depor a favor de alguém condenado à morte, é tirado até de cima do altar, no meio do sacrifício. Foi com esse argumento que Rabi Akiva provou que salvar uma vida se sobrepõe ao sábado: se o testemunho que talvez salve um homem interrompe o culto, e o culto se sobrepõe ao sábado, então salvar uma vida se sobrepõe ao sábado com mais razão.

A mesma passagem da Mekhilta tira do versículo uma última consequência: se o homicida é tirado "do altar", o tribunal ficava perto do altar. Na Jerusalém do Segundo Templo, o grande tribunal se reunia, segundo a tradição, numa sala do próprio pátio do Templo, a Sala da Pedra Lavrada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se, porém, alguém agir com arrogância"

O versículo 13 descrevia o homicídio involuntário pelo que faltou: não houve emboscada. Este descreve o voluntário pelo que sobra: arrogância. O verbo é o da soberba, o de quem age com presunção, e o Êxodo já o usou para os egípcios (Êxodo 18:11). A escolha diz alguma coisa sobre o crime. O homicida premeditado não é descrito só como alguém que quis matar, mas como alguém que se pôs acima do outro, que decidiu sobre a vida alheia como se tivesse direito a isso.

As traduções antigas escolheram cada uma um lado desse verbo. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve "se agir com maldade". A Septuaginta, "se alguém atacar o próximo". A Vulgata, per industriam, "de caso pensado". Maldade, ataque, premeditação: três traduções corretas, nenhuma com o orgulho do hebraico.

"contra o seu próximo"

A palavra hebraica é a do companheiro, do vizinho, do outro com quem se convive. A Mekhilta a leu como restrição: "o seu próximo" incluiria o menor de idade como vítima, mas excluiria "os outros", isto é, os não israelitas. A leitura é dura, e a própria Mekhilta registra o protesto. Issi ben Akiva diz: antes da Torá, já éramos advertidos contra derramar sangue; depois da Torá, em vez de mais rigor, haveria menos? E conclui que quem mata um não israelita está isento do tribunal humano, mas o seu julgamento é entregue ao Céu. A solução é um meio-termo: o crime não deixa de ser crime, só sai da competência do tribunal.

A discussão mostra o risco de ler uma palavra comum como termo técnico. "O seu próximo", na prosa bíblica, quase sempre significa "o outro"; a restrição é da leitura jurídica posterior, e foi contestada dentro dela.

"para matá-lo à traição"

A palavra traduzida por "à traição" é a da astúcia, a mesma família da serpente "astuta" de Gênesis 3:1. O homicida do versículo não apenas quer matar: arma o modo. Aproxima-se como amigo, escolhe a hora, esconde a intenção.

A Mekhilta extrai daí uma lista de excluídos que diz muito sobre como os rabinos entendiam a culpa. Ficam fora o surdo-mudo, o incapaz e o menor, porque "não são astutos". E ficam fora quatro figuras que agem de propósito, mas sem astúcia: o médico que mata no exercício da medicina, o encarregado do tribunal que mata ao aplicar a pena de açoites, o pai que corrige o filho e o mestre que corrige o aluno. Todos sabiam o que faziam; nenhum preparava a morte. A lei separa, aqui, a intenção de agir da intenção de matar.

O exemplo bíblico perfeito da palavra é Joabe, que levou Abner "para o meio da porta, para lhe falar em segredo", e o feriu no ventre (2 Samuel 3:27), e que segurou Amasa pela barba "para beijá-lo" enquanto a outra mão segurava a espada (2 Samuel 20:9-10). É a traição em estado puro, e foi ela que a lei acabou alcançando (item 4).

"até do meu altar o tirarás"

A frase supõe uma cena que ela não descreve: o homicida corre para o altar e se agarra a ele. A Septuaginta torna a cena explícita e acrescenta "e fugir para refúgio" — "se alguém atacar o próximo para matá-lo com astúcia e fugir para refúgio, do meu altar o tirarás". O hebraico deixa o leitor completar.

O pronome importa: "o meu altar". Deus fala do que é seu e manda que não o usem contra a sua lei. Sforno (Obadias Sforno, rabino italiano do século XVI) aproxima a frase de Jeremias 7:11, em que Deus pergunta se a sua casa virou "um covil de ladrões": o santuário não é esconderijo. A ordem é dirigida ao "tu" da lei, e não ao sacerdote; quem tira o assassino do altar é a comunidade que executa a justiça.

O versículo também supõe, sem dizer, que o altar protegia alguém. Se o assassino tem de ser tirado dali, é porque outros não eram tirados. É a leitura de Ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha, século XII), para quem este versículo é o avesso do anterior: o lugar protege o involuntário; o voluntário, nem o altar protege.

"para que morra"

O versículo termina no mesmo ponto do 12, por outro caminho. Não repete a fórmula da pena; diz a finalidade da ação: tirá-lo para que morra. O altar, lugar onde se oferecia a vida de animais, não pode guardar a vida de quem tirou a de um homem.

O limite está aqui. O texto não diz quem decide que houve arrogância e astúcia, nem com quais provas. Ele supõe um julgamento que não descreve, e por isso os rabinos puseram o tribunal "perto do altar". Lido sem esse julgamento, o versículo autorizaria qualquer um a arrancar do santuário quem acusasse de assassinato — o que nenhuma leitura antiga admitiu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Adonias, que ficou vivo

Quando Salomão foi ungido rei, Adonias, o irmão que tinha tentado se proclamar rei antes dele, teve medo e "foi e agarrou-se às pontas do altar" (1 Reis 1:50). Mandou dizer que só sairia se Salomão jurasse não matá-lo. Salomão não jurou, mas respondeu: se ele se portar como homem digno, não cairá um fio do seu cabelo; se for achado nele algum mal, morrerá. Adonias desceu do altar, prostrou-se e foi mandado para casa (1 Reis 1:51-53). Ele não tinha matado ninguém. O altar o protegeu, e o versículo 14 não se aplicava. Meses depois, Adonias pediu Abisague, a jovem que servira Davi, e Salomão leu o pedido como nova pretensão ao trono e o mandou matar (1 Reis 2:25) — não no altar.

Joabe, que foi morto ali

Joabe, sobrinho de Davi e chefe do exército por quarenta anos, tinha matado dois homens fora da guerra: Abner, que matara o seu irmão Asael numa batalha (2 Samuel 2:23; 3:27), e Amasa, que Davi nomeara chefe do exército no lugar dele (2 Samuel 20:10). Davi, ao morrer, lembra a Salomão que Joabe "derramou em tempo de paz o sangue de guerra" (1 Reis 2:5). Quando Adonias caiu, Joabe, que o apoiara, fugiu para a tenda do SENHOR e se agarrou às pontas do altar (1 Reis 2:28).

Benaia, o executor de Salomão, foi até lá e mandou-o sair em nome do rei. Joabe respondeu: "Não; aqui morrerei." Benaia voltou para consultar, e Salomão mandou fazer como ele dissera: matá-lo ali e sepultá-lo, "para que tires de mim e da casa de meu pai o sangue que Joabe derramou sem causa" (1 Reis 2:31). Benaia subiu e o matou, e Joabe foi sepultado na sua casa, no deserto (1 Reis 2:34).

O episódio é a aplicação mais clara deste versículo em toda a Bíblia, e ao mesmo tempo vai além dele. A lei manda tirar o homicida do altar; Salomão o mata junto ao altar. O texto de Reis não comenta a diferença. A morte de Abner tinha a aparência de vingança de sangue pelo irmão; a de Amasa, nem isso. O que Salomão invoca é o sangue "sem causa", e é a traição dos dois golpes que o versículo descreve.

O altar de chifres

O altar do santuário tinha uma ponta em cada um dos quatro cantos, chamadas "chifres" (Êxodo 27:2). Era nelas que se punha o sangue de certos sacrifícios (Levítico 4:7) e era nelas que o fugitivo se segurava. O altar que o Êxodo acaba de descrever, de terra ou de pedra não lavrada (Êxodo 20:24-25), é mais simples; as pontas pertencem ao altar do santuário.

5. Pontos de Ensino

1. O lugar santo não suspende a lei. A santidade do altar é real, mas não serve de escudo para quem matou de propósito. O versículo põe a vida da vítima acima da inviolabilidade do santuário.

2. O asilo não foi abolido, foi reservado. O versículo 13 promete um lugar ao homicida involuntário; o 14 o nega ao voluntário. A proteção depende do que se fez, e não de onde se está.

3. O homicídio premeditado é descrito como soberba. O verbo escolhido não é o da intenção, mas o da arrogância — de quem se põe acima do outro.

4. A astúcia separa quem age de quem trama. A leitura rabínica isentou o médico, o pai e o mestre que causam uma morte sem a preparar. A lei pune a morte armada, não qualquer morte querida.

5. Até a regra mais rígida tem a sua exceção pela vida. O sacerdote é tirado do altar para morrer, mas também para salvar alguém com o seu testemunho — e foi daí que Rabi Akiva tirou que salvar uma vida se sobrepõe ao sábado.

6. Aspectos Filosóficos

A punição fala ao culpado?

O homicida que corre para o altar faz um gesto que diz alguma coisa. Ele não se esconde num poço nem foge para o deserto: vai ao lugar onde Deus recebe sacrifícios e perdoa faltas. É como se dissesse que a sua questão é com Deus, e não com a comunidade. O versículo recusa essa saída. Antes de qualquer reconciliação, ele precisa responder diante dos outros pelo que fez. A pergunta que a cena levanta é sobre o sentido dessa resposta.

Antony Duff e a punição como comunicação

O filósofo britânico Antony Duff, professor nas universidades escocesas de Stirling e depois de Minnesota, construiu desde os anos 1980 uma teoria da punição que tenta escapar dos dois modelos clássicos — o que pune para retribuir e o que pune para prevenir. No livro Punishment, Communication, and Community ("Punição, comunicação e comunidade", 2001), ele defende que a punição é uma forma de comunicação. Ela diz ao culpado, em nome da comunidade, a censura que ele merece, e diz isso a ele como a alguém que pode entender e responder.

Para Duff, o processo começa antes da pena. O julgamento é um "chamar a prestar contas": a comunidade convoca o acusado a responder pelo que fez, e o trata, ao convocá-lo, como membro dela, alguém a quem as suas normas se dirigem. A pena, depois, funciona como uma espécie de penitência secular: um peso que dá ao culpado ocasião de se arrepender, de se reformar e de se reconciliar com aqueles a quem ofendeu.

O altar recusado

Lido com Duff, o versículo diz algo preciso. O altar é o lugar da reconciliação com Deus; o homicida quer chegar a ela sem passar pela comunidade que ofendeu. A lei o tira de lá e o põe diante do tribunal — o que, nas palavras de Duff, é chamá-lo a prestar contas. A leitura rabínica que põe o tribunal "perto do altar" encaixa bem: a justiça humana e o culto ficam lado a lado, e o primeiro não é pulado em nome do segundo.

Onde a teoria e o versículo se separam

Mas o versículo não termina no tribunal: termina "para que morra". E a teoria de Duff tem dificuldade justamente aí. Se a punição é comunicação dirigida a alguém capaz de responder, se o seu fim é o arrependimento e a reconciliação, a pena de morte encerra a conversa no momento em que a censura é dita. O próprio Duff conclui que a sua teoria não justifica a pena capital, porque ela trata o condenado como alguém já fora da comunidade, com quem não há mais nada a comunicar.

A tensão é instrutiva. O versículo tem a estrutura da comunicação — o homicida é procurado, tirado do esconderijo, levado a responder — e tem um desfecho que a teoria da comunicação não sustenta. Quem quiser ler a pena bíblica só como retribuição ignora o primeiro dado; quem quiser lê-la como penitência ignora o segundo. O texto não argumenta a favor de nenhuma das duas leituras: ele manda tirar e manda matar.

7. Aplicações Práticas

Nenhuma instituição religiosa é esconderijo

O caso mais atual deste versículo não é o do assassino agarrado ao altar, e sim o de instituições religiosas que protegeram os seus membros de responder à justiça comum por crimes graves, com o argumento de que a questão seria tratada "internamente", diante de Deus. O versículo recusa exatamente isso: a relação com Deus não substitui a prestação de contas aos homens.

E o refúgio continua devido a quem não é culpado

A lei não diz que o santuário nunca protege. Ela distingue. Comunidades que abrigam quem é perseguido sem culpa fazem o que o versículo 13 promete; o que não podem fazer é estender o mesmo abrigo a quem matou de propósito.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Joabe se agarrou ao lugar certo?

O Talmude (Makkot 12a) diz que não, e atribui a Rav uma observação curiosa: Joabe errou duas vezes naquele momento. Primeiro, porque só o alto do altar protege, e ele se agarrou às pontas. Segundo, porque só o altar do Templo definitivo protege, e ele se agarrou ao de um santuário provisório. Abaye acrescenta um terceiro erro: o altar só protegia o sacerdote que estivesse com o serviço nas mãos, e Joabe não era sacerdote. A leitura transforma o versículo numa regra de alcance mínimo — o altar quase nunca protegeria ninguém — e mostra o esforço rabínico de impedir que o santuário virasse rota de fuga.

2. Por que Salomão matou Joabe junto ao altar, se a lei mandava tirá-lo de lá?

O texto de Reis não explica. Joabe disse "aqui morrerei", e Salomão mandou "fazer como ele disse". Pode-se ler como cumprimento literal do pedido do condenado, ou como pressa política. O que o texto registra é que Salomão justificou a morte pelo sangue inocente, e não pelo apoio de Joabe a Adonias — embora o apoio tenha sido o que o fez fugir.

3. A lei alcançava quem matava por ordem de outro?

A pergunta não é teórica: Joabe matou Abner por conta própria, mas, segundo 2 Samuel 11, também mandou Urias à morte por ordem de Davi. Este último crime nunca lhe foi cobrado. O versículo fala da astúcia de quem mata; não diz nada sobre quem manda matar, e a Bíblia mostra que o poder costuma escapar das leis que aplica aos outros.

4. O refúgio no altar sobreviveu em outras religiões?

Sobreviveu nas igrejas cristãs, que receberam do direito romano tardio o reconhecimento do asilo nos templos. As regras variaram muito de época para época e de lugar para lugar, e houve tempos em que nem o homicida era tirado da igreja. A distinção do Êxodo entre o refugiado que merece proteção e o assassino que não merece foi, em muitos períodos, mais rigorosa do que a prática cristã.

9. Conexão com Outros Textos

A lei aplicada

1 Reis 2:28 — "A notícia chegou a Joabe — pois Joabe tinha apoiado Adonias, embora não tivesse apoiado Absalão —, e Joabe fugiu para a tenda do SENHOR e agarrou-se às pontas do altar."

1 Reis 2:31 — "O rei lhe disse: 'Faça como ele disse: mate-o e sepulte-o, para que você tire de mim e da casa de meu pai o sangue que Joabe derramou sem causa.'"

O único caso bíblico em que um homem é morto junto ao altar ao qual se agarrara.

1 Reis 1:50 — "Adonias, porém, teve medo de Salomão; levantou-se, foi e agarrou-se às pontas do altar."

O contraexemplo: quem não tinha sangue nas mãos ficou protegido.

A traição que a lei descreve

2 Samuel 3:27 — "Quando Abner voltou a Hebrom, Joabe o levou à parte, para o meio da porta, como se quisesse falar com ele em particular, e ali o feriu no ventre; e ele morreu, por causa do sangue de Asael, irmão de Joabe."

2 Samuel 20:9-10 — "Joabe disse a Amasa: 'Você está bem, meu irmão?' E, com a mão direita, pegou Amasa pela barba para beijá-lo. Amasa não prestou atenção à espada que estava na mão de Joabe, e ele o feriu com ela no ventre."

O santuário que não pode ser esconderijo

Jeremias 7:9-11 — "Vocês furtam, matam, cometem adultério, juram falso […] e depois vêm e se apresentam diante de mim nesta casa, que se chama pelo meu nome, e dizem: 'Estamos salvos!' […] Será esta casa, que se chama pelo meu nome, um covil de ladrões aos olhos de vocês?"

A mesma recusa, dirigida a um povo inteiro.

A mesma lei no Deuteronômio

Deuteronômio 19:13 — "Não terás piedade dele; e tirarás de Israel a culpa do sangue inocente, para que te vá bem."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se, porém, alguém agir com arrogância contra o seu próximo, para matá-lo à traição, até do meu altar o tirarás, para que morra.

Texto hebraico

וְכִי־יָזִד אִישׁ עַל־רֵעֵהוּ לְהׇרְגוֹ בְעׇרְמָה מֵעִם מִזְבְּחִי תִּקָּחֶנּוּ לָמוּת׃

Transliteração

ve-khi yazid ish al re'ehu le-horgo ve-ormah me-im mizbechi tiqqachennu lamut.

Análise palavra por palavra

וְכִי — ve-khi, "se, porém".

A conjunção ki, "se, quando", que abre os casos da lei, com o "e" que aqui marca contraste com o versículo anterior.

יָזִד — yazid, "agir com arrogância".

Forma causativa (Hifil) da raiz z-y-d, "ferver" e, por extensão, "agir com soberba, com presunção". As ocorrências da raiz e a leitura de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) — falta premeditada, e não só excesso — estão no estudo de Êxodo 18:11. Aqui ela aparece pela primeira vez numa lei, e voltará em Deuteronômio 18:20 e 18:22 para o profeta que fala "com presunção" o que Deus não mandou, e em Deuteronômio 17:12, para quem desobedece "com soberba" ao tribunal.

אִישׁ — ish, "alguém".

O mesmo "homem" do versículo 12, agora como sujeito. A Mekhilta o lê como "homem adulto", para excluir o menor; no uso comum, é só "alguém".

עַל־רֵעֵהוּ — al re'ehu, "contra o seu próximo".

A preposição al, "sobre", com sentido hostil, "contra"; re'a, "companheiro, vizinho, o outro", com o sufixo "dele". É a palavra de "amarás o teu próximo" (Levítico 19:18) e do mandamento contra o falso testemunho (Êxodo 20:16).

לְהׇרְגוֹ — le-horgo, "para matá-lo".

Infinitivo do verbo harag, o verbo comum de matar, com o sufixo "o". Não é ratsach, o do mandamento, nem nakhah, o "ferir" do versículo 12. O versículo descreve o propósito: ele queria a morte.

בְעׇרְמָה — ve-ormah, "à traição".

O substantivo ormah, "astúcia, esperteza", da raiz de arum, "astuto", o adjetivo da serpente em Gênesis 3:1. Em Provérbios 1:4 e 8:5 a mesma palavra é elogio — a "prudência" que a sabedoria dá aos simples. A raiz é neutra; o que a torna crime é o objeto. Em Josué 9:4, os gibeonitas agem "com astúcia" para enganar Israel; aqui, alguém usa a mesma inteligência para matar. Ibn Ezra observa que a palavra se liga ao verbo: "matá-lo com astúcia" é o sentido, e não "agir com arrogância com astúcia".

מֵעִם מִזְבְּחִי — me-im mizbechi, "até do meu altar".

A preposição composta me-im, "de junto de", e mizbe'ach, "altar" — literalmente "lugar de sacrificar" —, com o sufixo "meu". "De junto do meu altar": o Talmude se apoiou exatamente nessa preposição para distinguir "junto do altar" de "de cima do altar" (item 2). O "até" da ABC traduz a ênfase da frase, que põe o altar antes do verbo.

תִּקָּחֶנּוּ — tiqqachennu, "o tirarás".

O verbo laqach, "tomar, pegar", na segunda pessoa do singular, com o sufixo "o" na forma enfática. É o "tu" da lei: a ordem se dirige a Israel.

לָמוּת — lamut, "para que morra".

Infinitivo de mut, "morrer", com a preposição de finalidade.

As traduções antigas

O Targum de Ônquelos traduz ve-arei yarsha gevar al chavreh le-miqtleh bi-nkhilu — "se um homem agir com maldade contra o seu companheiro para matá-lo com astúcia". A Septuaginta: ean de tis epithētai tō plēsion apokteinai auton dolō kai katafygē, apo tou thysiastēriou mou lēmpsē auton thanatōsai — "se alguém atacar o próximo para matá-lo com astúcia e fugir para refúgio, do meu altar o tomarás para matá-lo". O "e fugir para refúgio" não está no hebraico. A Vulgata: si quis per industriam occiderit proximum suum et per insidias, ab altari meo evelles eum ut moriatur — "se alguém matar o próximo de caso pensado e por insídias, do meu altar o arrancarás para que morra". O verbo latino evellere, "arrancar", é mais forte que o hebraico: Jerônimo imaginou o homicida agarrado.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo conduz a uma conclusão principal e a duas consequências. A principal: o lugar mais santo de Israel não protege quem matou de propósito, e nisso a lei do Êxodo se separa conscientemente do costume dos povos vizinhos, que respeitavam o suplicante no altar e só o matavam fora dele. A primeira consequência é que o santuário continua sendo refúgio — o versículo supõe isso —, mas para quem não tem sangue preparado nas mãos; a distinção entre o 13 e o 14 é a distinção entre quem o altar acolhe e quem ele devolve. A segunda é que o crime é descrito pela soberba e pela traição, e não só pela vontade: o que a lei recusa abrigar é o homem que se pôs acima do outro e armou a morte dele. Que a pena seja a morte é dado do texto; que ela feche a possibilidade de responder e se reconciliar é o preço que o versículo não discute.

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