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Êxodo 21:15

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 12 acessos
Quem ferir o seu pai ou a sua mãe certamente será morto.
No pátio de uma casa de pedra, um homem idoso de barba branca ergue o braço para proteger o rosto diante de um filho adulto de punho fechado, enquanto uma mulher idosa observa da porta, com as mãos na boca.

Estudo


Quem ferir o seu pai ou a sua mãe certamente será morto.

1. Introdução

O versículo usa o mesmo verbo do 12, "ferir", e tira dele a condição que lá era decisiva: aqui não é preciso que alguém morra. Basta ferir o pai ou a mãe para que a pena seja a mesma do homicídio. Os rabinos limitaram a lei ao golpe que tira sangue, e por isso discutiram se um filho podia sangrar o pai doente ou tirar-lhe um espinho. A comédia grega e as Leis de Platão mostram que Atenas também via no filho que bate no pai um crime à parte, mas punia de outro modo. O que torna um golpe pior do que o seu dano é a pergunta que o versículo deixa.

2. Contexto Histórico e Cultural

O filho que bate no pai, em Atenas

Em 423 antes de Cristo, Aristófanes (o grande autor de comédias de Atenas) levou ao teatro As Nuvens. O velho Estrepsíades manda o filho Fidípides estudar com os sofistas, para aprender a ganhar qualquer causa e escapar das dívidas. O filho aprende bem demais. No fim da peça, entra em cena batendo no pai — e defende o ato com argumentos: se o pai batia nele quando criança "para o seu bem", por que o filho não poderia bater no pai velho, que, como diz o provérbio, é criança duas vezes? E se oferece para provar também que é justo bater na mãe. É aí que o pai desiste e põe fogo na escola.

A cena só funciona porque o público considerava bater no pai o crime doméstico mais vergonhoso. "Espancador do pai" era insulto pesado na língua da cidade. Aristófanes não precisou explicar por que aquilo era escandaloso; usou o escândalo para atacar os sofistas, que ensinariam a justificar qualquer coisa.

A pena de Platão

No livro IX das Leis (881b-e), escrito no século IV antes de Cristo, Platão legisla sobre o caso para a sua cidade ideal. Quem presenciar alguém batendo no pai ou na mãe tem o dever de socorrer; o morador que socorre recebe honra nos jogos, o que se omite é banido. O escravo que ajuda ganha a liberdade; o que se omite leva cem chicotadas. O culpado, se condenado, é expulso da cidade para sempre e proibido de entrar nos templos; se voltar, é morto. E quem comer, beber ou mesmo cumprimentar o expulso fica impuro e não pode entrar nos lugares sagrados antes de se purificar.

A comparação com o Êxodo mostra duas soluções para o mesmo juízo. As duas leis tratam o golpe no pai como crime de natureza diferente, sem medir o ferimento. Platão o pune com uma morte civil: o culpado continua vivo, mas fora da cidade, dos templos e da convivência. O Êxodo o pune com a morte. E em Platão o pai é protegido pela vigilância de todos — até do escravo —, enquanto o versículo não diz nada sobre quem presencia.

O golpe que tira sangue

O versículo não diz que tipo de golpe. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 5, decide pelo golpe que deixa ferida: se a indenização por lesões, que é a lei mais pesada, exige ferida, a pena de morte, que exige mais prova, não pode exigir menos. O Talmude (Sanhedrin 84b) chega ao mesmo resultado por outro caminho. Levítico 24:18 e 24:21 põem lado a lado quem fere um animal e quem fere uma pessoa; o primeiro fala de ferir a "vida" do animal, e a vida, diz Deuteronômio 12:23, é o sangue. Logo, só responde quem tira sangue.

A regra criou um problema que os mestres levaram a sério: e o filho médico? Naquele tempo, sangrar o doente era tratamento comum. Pode o filho sangrar o pai? Rav Matana responde com Levítico 19:18, "amarás o teu próximo como a ti mesmo": assim como cada um quer ser tratado quando precisa, deve tratar os outros, e o filho pode curar o pai mesmo ferindo-o. Mas o Talmude registra também o escrúpulo dos mestres. Rav não deixava o filho tirar-lhe um espinho; Mar, filho de Ravina, não deixava o filho furar-lhe uma bolha — com medo de que o filho, sem querer, lhe tirasse sangue.

Pouco adiante (Sanhedrin 85a-b), o Talmude discute se um filho pode ser nomeado pelo tribunal para aplicar ao pai a pena de açoites. A conclusão, atribuída à escola de Rabi Ishmael, é que o filho nunca é nomeado executor contra o pai, nem para feri-lo nem para amaldiçoá-lo — com uma única exceção, o pai que incita a adorar outros deuses (Deuteronômio 13:6-9). Até a justiça devia passar ao lado do filho.

A morte sem marca

Como o versículo não diz de que morte se trata, os rabinos aplicaram a regra de que a morte sem especificação é o estrangulamento, e a Mekhilta registra a justificativa de Rabi Judá, o Príncipe: há a morte pelas mãos do Céu e a morte pelas mãos dos homens; como a primeira não deixa sinal no corpo, a segunda também não deve deixar. A Mishná (Sanhedrin 7:3) descreve o procedimento: o condenado era posto em esterco até os joelhos, para não se mover; enrolava-se no seu pescoço um pano áspero dentro de um pano macio, e duas pessoas puxavam cada uma para um lado. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) repete a descrição no comentário a este versículo. O pano macio por fora do áspero é o mesmo escrúpulo da discussão sobre a espada: até na execução, o corpo do condenado não devia ser maltratado além do necessário.

O poder de vida e morte, ao contrário

Em Roma, a lei antiga dava ao pai o poder de vida e de morte sobre os filhos. O Comentário do Púlpito (obra coletiva inglesa do século XIX) lembra esse dado para mostrar que a severidade da relação familiar no mundo antigo corria quase sempre de cima para baixo. O Êxodo protege o pai do filho, e não tem nenhuma lei que dê ao pai o direito de matar o filho: o filho rebelde de Deuteronômio 21:18-21 é levado pelos pais aos anciãos, e não executado em casa.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quem ferir"

O verbo e a forma são os do versículo 12, e a diferença está no que falta. Lá, "quem ferir um homem, e ele morrer". Aqui, "quem ferir o seu pai ou a sua mãe" — e ponto. A ausência de "e ele morrer" é o que o versículo tem a dizer.

A Mekhilta explica por que a lei precisou do versículo. Para quem fere alguém sem matar, existe a regra do "olho por olho" e das indenizações (Êxodo 21:24; Levítico 24:20). Ferir o pai ou a mãe seria só um caso dessa regra. A Escritura tirou o caso da sua categoria para agravá-lo, e para isso precisou dizê-lo à parte. Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, comentarista francês do século XI) resume: quem fere o companheiro paga; quem fere o pai, morre.

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista nascido na Espanha, século XII) lê a sequência dos versículos: depois de falar de quem fere e mata, a lei precisava dizer que há quem fere sem matar e mesmo assim é morto. A ordem é a do caso mais grave contra o homem comum para o caso grave sem morte contra os pais.

E se o filho matasse o pai?

A Torá não tem lei para o parricídio. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) dizem que matar os pais era "dificilmente concebível". O Talmude (Sanhedrin 84b) enfrenta o silêncio de outro modo e chega a um resultado inesperado. A pena sem especificação, como a deste versículo, é o estrangulamento; a do homicida, como se viu no estudo do versículo 12, é a espada. Quem fere o pai seria estrangulado, e quem o mata, decapitado como qualquer homicida. Isso faria sentido? A resposta depende de qual das duas mortes os mestres consideravam mais grave — e eles não estavam de acordo. A discussão mostra que o versículo foi lido como protegendo a autoridade dos pais, e não a sua vida, que já estava protegida pelo versículo 12.

"o seu pai ou a sua mãe"

O hebraico diz "o seu pai e a sua mãe". A ABC traduz "ou", e está de acordo com a leitura que prevaleceu, mas a conjunção foi discutida linha por linha. A Mekhilta registra três posições. Rabi Yoshiya diz que o "e", sozinho, exigiria que o filho batesse nos dois, e por isso busca em outro versículo a prova de que basta um. Rabi Yonatan diz que o "e" da Torá significa ao mesmo tempo "os dois juntos" e "cada um por si", a não ser que o texto diga "juntos". Rabi Yitzchak dá o argumento de bom senso: a mãe foi acrescentada para agravar a lei, e não para abrandá-la; ler "o pai e a mãe" como condição cumulativa faria da mãe um motivo de leniência.

O dado que importa é a presença da mãe. Ela está na frase, na mesma posição do pai, com a mesma pena. O Comentário de Cambridge (a "Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que a mãe é posta "em igualdade com o pai", e que isso não era o comum no direito vizinho, onde a proteção era dada ao pai.

"certamente será morto"

A fórmula é a mesma do homicídio. O que ela diz, posta aqui, é que um golpe nos pais pesa como uma morte. Não porque o pai valha mais que a vida de outro homem, mas porque o golpe atinge algo que a lei trata como fundamento: a ordem da casa, sobre a qual o Decálogo já tinha posto "honra o teu pai e a tua mãe" (Êxodo 20:12). A leitura rabínica fixou a forma da morte no estrangulamento, a mais branda das quatro que conhecia.

O limite

O versículo afirma uma equivalência dura: ferir os pais é crime capital, mesmo sem dano grave. Não diz se a pena era aplicada, nem a quem — ao filho adulto, à criança, à filha. A leitura rabínica a cercou de condições (o sangue, as testemunhas, a advertência) que a tornaram quase inaplicável; não há na Bíblia hebraica um único caso narrado de execução por este crime. O que se pode afirmar é o que a lei quis dizer ao pôr esse golpe ao lado do homicídio, e não o que acontecia nas casas de Israel.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O filho e a filha

O sujeito do versículo é "quem", e a leitura rabínica o entendeu como o filho ou a filha adultos, capazes de responder. O menor que bate no pai não é alcançado pela lei capital. A imagem implícita é a de um filho já crescido, mais forte que o pai envelhecido — a mesma de Fidípides na comédia de Aristófanes.

O pai e a mãe

São as duas pessoas que o Decálogo manda honrar, nomeadas na mesma ordem. Levítico 19:3 inverte a ordem e manda temer "a sua mãe e o seu pai", e os rabinos viram na inversão a prova de que os dois são iguais diante da lei.

Absalão, que guerreou contra o pai sem tocá-lo

A Bíblia não narra nenhum filho que bata no pai. O caso mais próximo é o de Absalão, que se proclamou rei em Hebrom e fez guerra contra Davi (2 Samuel 15-18). O conselho de Aitofel foi atacar Davi quando estivesse cansado e "ferir só o rei" (2 Samuel 17:2) — o mesmo verbo deste versículo. O conselho não foi seguido, e Absalão morreu antes de pôr a mão no pai. Davi, ao saber da morte do filho, chorou: "Absalão, meu filho, meu filho!" (2 Samuel 18:33).

Atenas

Fora da Bíblia, os personagens deste versículo têm rosto em Estrepsíades e Fidípides, pai e filho de As Nuvens, e na cidade imaginada por Platão, onde o vizinho, o estrangeiro e até o escravo são convocados a defender o pai agredido (item 2).

5. Pontos de Ensino

1. O peso do golpe não está no ferimento. Um golpe que não mata recebe a pena do homicídio. A lei mede o ato pelo que ele significa, e não só pelo dano.

2. A mãe está na mesma linha do pai. O versículo não protege só a autoridade paterna; protege os dois, com a mesma pena.

3. A lei protege os pais dos filhos, e não dá aos pais poder sobre a vida dos filhos. O caminho é de mão única: o filho rebelde de Deuteronômio 21 é levado aos anciãos, não executado em casa.

4. A interpretação rabínica estreitou a lei sem desfazê-la. A exigência do sangue impediu que um empurrão virasse crime capital, e a discussão sobre o filho médico mostra que a regra foi pensada até nos gestos de cuidado.

5. Os povos vizinhos tinham o mesmo juízo e penas diferentes. Atenas, na comédia e na filosofia, via no filho que bate no pai um monstro; a pena de Platão era a exclusão, a do Êxodo, a morte.

6. Aspectos Filosóficos

Por que um golpe pesa mais do que o seu dano?

O versículo põe ao lado do homicídio um ato que pode não deixar mais que um corte. Pela lógica da indenização, isso é desproporcional: o dano é pequeno, a pena é máxima. Para entender a lei, é preciso uma ideia de punição que não meça só o estrago. A filósofa norte-americana Jean Hampton (1954-1996) formulou uma.

Jean Hampton e a mensagem do crime

Hampton, que ensinou em universidades como a da Califórnia e a do Arizona e morreu cedo, apresentou a sua teoria no capítulo "The Retributive Idea" ("A ideia retributiva"), do livro Forgiveness and Mercy ("Perdão e misericórdia", 1988), escrito a quatro mãos com outro filósofo, e a desenvolveu em ensaios posteriores. A tese central é que o crime não é só dano: é uma afirmação. Quem agride outra pessoa diz, com o ato, que ela vale menos, que pode ser usada, que está abaixo dele. A ofensa contém uma mensagem falsa sobre o valor relativo das pessoas.

A punição, para Hampton, é a resposta a essa mensagem. Ela não serve para fazer o culpado sofrer o equivalente ao que fez sofrer, nem só para impedir novos crimes. Serve para desmentir, em público, a afirmação que o crime fez: para mostrar, sujeitando o agressor, que a vítima não estava abaixo dele. Por isso a medida da pena não é o tamanho da ferida, e sim a gravidade da afirmação. Um tapa humilhante pode dizer mais do que um ferimento acidental.

O golpe no pai

A teoria explica bem a estrutura do versículo. Para a lei, o golpe do filho no pai faz uma afirmação particularmente grave: diz que aquele a quem se deve dar peso — o verbo "honrar", no hebraico, é o de dar peso — pode ser tratado como coisa. O dano físico é secundário; o que a lei responde é a mensagem. A exigência rabínica do sangue não desmente isso: ela fixa um limiar mínimo para que a afirmação seja inequívoca e possa ser provada.

Onde Hampton não acompanha o versículo

A teoria de Hampton é igualitária. O valor que a punição restaura é o valor igual de todas as pessoas: a mensagem falsa do crime é a de que a vítima vale menos do que qualquer outro, e a punição a desmente afirmando que ela vale o mesmo. O versículo protege outra coisa: uma posição. Ferir o pai é mais grave do que ferir "um homem" porque o pai está acima. A lei não defende só a igualdade da vítima; defende uma hierarquia.

A tensão é real e não se resolve facilmente. Pode-se dizer que a lei protege o pai e a mãe por serem, na velhice, os mais vulneráveis da casa, e então Hampton ajuda. Ou que os protege por serem autoridade, e então a teoria dela serve só pela metade: explica por que a pena mede o sentido do ato, mas não aceitaria que esse sentido dependesse do lugar da vítima na hierarquia. O texto não escolhe entre as duas razões. Põe o golpe nos pais ao lado da morte e deixa ao leitor a pergunta sobre por quê.

7. Aplicações Práticas

A violência contra pais idosos

O caso deste versículo não é coisa do passado. A violência de filhos adultos contra pais idosos — física, financeira, de abandono — é uma das formas mais escondidas de abuso, justamente porque acontece dentro de casa e a vítima tem vergonha de denunciar o próprio filho. O versículo tira o assunto da esfera privada: o golpe no pai não é "briga de família", é crime contra toda a comunidade.

O cuidado que fere

A discussão do Talmude sobre o filho que tira um espinho do pai toca um problema de quem cuida de pais doentes: o tratamento às vezes dói, e o filho que o aplica pode se sentir agressor. A resposta de Rav Matana — tratar o outro como se quer ser tratado — continua sendo um bom critério. A excessiva delicadeza de Rav, que preferia ficar com o espinho, mostra o outro extremo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A lei valia depois da morte dos pais?

Para o golpe, não. O Talmude (Sanhedrin 85b) registra que quem fere o pai ou a mãe depois da morte deles está isento, porque não há ferida no sentido da lei. Para a maldição, sim: quem amaldiçoa os pais mortos é culpado. É uma das diferenças que os mestres apontaram entre este versículo e o 17, e mostra que eles entendiam a ofensa verbal como mais duradoura do que a física.

2. O pai que batia no filho estava fazendo algo errado?

A Bíblia hebraica não vê nisso crime. Provérbios recomenda a vara na educação dos filhos (Provérbios 13:24; 23:13-14), e a Mekhilta exclui da pena de homicídio o pai que mata o filho ao corrigi-lo, porque não agiu "com astúcia". A lei protege o pai do filho e não protege o filho do pai com a mesma força.

3. Por que a pena do filho que bate é a mais branda das mortes, se o crime é tão grave?

Porque, na leitura rabínica, a forma da morte não foi decidida pela gravidade do crime, e sim pela regra de interpretação: toda morte que a Torá menciona sem especificar é estrangulamento. Rabi Yoshiya, na Mekhilta, acrescenta um princípio: quando a lei não especifica a pena, o intérprete não pode escolher a mais severa, só a mais branda.

4. Uma lei assim ainda tem algo a dizer a quem não aceita a pena de morte?

Tem, se for separada da sua sanção. O que o versículo afirma além da pena é que o golpe nos pais não é uma lesão comum, e que a comunidade não pode tratá-lo como assunto privado. Essa afirmação sobrevive sem a pena capital, e é a que passou para a ética judaica e cristã.

9. Conexão com Outros Textos

O mandamento que esta lei protege

Êxodo 20:12 — "Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, o teu Deus, te dá."

O versículo positivo, sem pena. Êxodo 21:15 é o seu extremo negativo, com pena máxima.

Levítico 19:3 — "Cada um de vocês tema a sua mãe e o seu pai, e guardem os meus sábados. Eu sou o SENHOR, o seu Deus."

A mãe primeiro: a igualdade dos dois afirmada pela inversão.

O filho que agride na sabedoria e nos profetas

Provérbios 19:26 — "O que maltrata o pai e expulsa a mãe é filho que traz vergonha e desonra."

O mesmo crime, sem tribunal: a sabedoria o trata como vergonha.

Miqueias 7:6 — "Porque o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa."

O profeta descreve a ruína de uma sociedade pela ruína da casa.

Ezequiel 22:7 — "No meio de ti desprezaram pai e mãe, trataram com violência o estrangeiro, oprimiram o órfão e a viúva."

Na lista de crimes de Jerusalém, o desprezo aos pais vem em primeiro lugar.

O limite do poder dos pais

Deuteronômio 21:18-19 — "Se alguém tiver um filho obstinado e rebelde, que não obedece à voz do pai nem à voz da mãe […], o pai e a mãe o pegarão e o levarão aos anciãos da sua cidade, à porta do lugar."

Os pais acusam; quem julga são os anciãos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quem ferir o seu pai ou a sua mãe certamente será morto.

Texto hebraico

וּמַכֵּה אָבִיו וְאִמּוֹ מוֹת יוּמָת׃

Transliteração

u-makkeh aviv ve-immo mot yumat.

Análise palavra por palavra

וּמַכֵּה — u-makkeh, "e quem ferir".

O particípio Hifil (forma causativa) de nakhah, "golpear", o mesmo de Êxodo 21:12, agora precedido de "e". O "e" liga este versículo ao bloco dos crimes capitais, como se fosse um item de lista. A forma é idêntica à do 12; o que muda é o que vem depois. Lá vinha o objeto genérico, ish, e a consequência, "e ele morrer". Aqui vem um objeto preciso e nenhuma consequência.

אָבִיו — aviv, "o seu pai".

Av, "pai", com o sufixo de terceira pessoa masculina, "dele".

וְאִמּוֹ — ve-immo, "ou a sua mãe".

Em, "mãe", com o mesmo sufixo, precedida de ve, a conjunção que normalmente se traduz por "e". O hebraico bíblico usa a mesma partícula para "e" e para "ou" em listas de alternativas, e o contexto decide. A disputa entre Rabi Yoshiya e Rabi Yonatan (item 3) é sobre isso. A Septuaginta e a Vulgata decidiram pelo "ou": ē no grego, aut no latim. O Targum de Ônquelos manteve o "e" do original.

מוֹת יוּמָת — mot yumat, "certamente será morto".

A fórmula das leis capitais, que se repete do 12 ao 17, com exceção do 13 e do 14. Neste bloco de quatro leis curtas, é a frase final de cada uma, como um refrão.

As traduções antigas

A Septuaginta (a tradução grega, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) escreve hos typtei patera autou ē mētera autou, thanatō thanatousthō — "quem bater no seu pai ou na sua mãe seja morto de morte". O detalhe está no verbo. No versículo 12, o tradutor usou pataxē, do verbo de golpear com força, o do golpe mortal. Aqui usou typtei, o verbo comum de bater, de espancar. O hebraico tem o mesmo verbo nos dois versículos; o grego os separou, e com isso deixou claro que o versículo 15 não fala de matar, mas de bater. O Targum de Ônquelos traduz com o mesmo verbo aramaico do versículo 12, u-de-yimchei avuhi ve-immeh, "e quem ferir o seu pai e a sua mãe". A Vulgata: qui percusserit patrem suum aut matrem, morte moriatur.

A divisão do texto

No texto hebraico tradicional, o versículo é seguido de um espaço em branco que o separa do próximo. Cada um dos crimes capitais dos versículos 14 a 17 foi copiado como um parágrafo próprio, por menor que seja.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, o versículo leva a concluir que a lei bíblica mediu a agressão aos pais pelo que ela significa, e não pelo dano que causa: um golpe que deixa um corte recebe a pena da morte de um homem. Daí decorrem duas coisas. A primeira é que pai e mãe são protegidos juntos e no mesmo grau, numa lei em que a mãe poderia ter ficado de fora. A segunda é que a proteção corre num sentido só: a Torá defende os pais dos filhos e não dá aos pais poder de vida e morte sobre eles. A interpretação rabínica conservou o juízo e estreitou o alcance, exigindo sangue e discutindo até o espinho que o filho tira do pai — o que mostra que o problema nunca foi a força do golpe, e sim a mão que o dá.

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