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Êxodo 21:16

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 17 acessos
Quem raptar um homem, quer o tenha vendido, quer ainda esteja em seu poder, certamente será morto.
À beira de um caminho de caravanas ao entardecer, um jovem de túnica rasgada, de mãos amarradas, é conduzido por dois homens armados em direção a mercadores com camelos carregados, enquanto ao fundo se vê, pequena, a aldeia de onde foi levado.

Estudo


Quem raptar um homem, quer o tenha vendido, quer ainda esteja em seu poder, certamente será morto.

1. Introdução

Entre as duas leis sobre os pais, o texto põe uma terceira: quem rapta uma pessoa morre, tenha ou não chegado a vendê-la. O hebraico diz literalmente "e o vendeu e for achado na sua mão", e a leitura dessas duas condições — se uma basta ou se é preciso as duas — dividiu Rashi e Nachmânides. As traduções antigas acrescentaram "dos filhos de Israel" ao versículo, restringindo a proteção a quem era do povo. No século XIX, a frase virou arma dos dois lados no debate sobre a escravidão nos Estados Unidos, e a Igreja Presbiteriana tirou do seu catecismo uma nota que a citava. A pergunta que fica é quem conta como "um homem" quando a lei proíbe roubá-lo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O sequestro no mundo antigo

Raptar gente para vender era um dos modos correntes de abastecer os mercados de escravos da Antiguidade, ao lado da guerra e da dívida. As cidades que viviam do comércio de escravos não tinham como saber de onde vinha cada pessoa posta à venda. Por isso o rapto era punido com dureza onde quer que houvesse lei.

Em Atenas, o sequestrador que escravizava pessoas livres estava entre os criminosos que podiam ser presos em flagrante e levados aos magistrados encarregados das execuções. Xenofonte (historiador ateniense, discípulo de Sócrates, séculos V-IV antes de Cristo), nas Memoráveis (I.2.62), lista os crimes punidos com a morte pela lei da cidade: o furto apanhado em flagrante, o roubo de roupas, o corte de bolsas, o arrombamento de casas, o rapto de pessoas para escravizá-las e o saque de templos.

Em Roma, uma lei do fim da República, a Lex Fabia, punia o plagium, o crime de reter ou vender como escravo um homem livre ou o escravo alheio. O criminoso era o plagiarius. No século I depois de Cristo, o poeta Marcial usou a palavra, num dos seus epigramas (I.52), para o homem que lhe roubava os versos e os apresentava como seus — e é daí que vem o "plágio" do português. A palavra que hoje designa o furto de um texto designava o furto de uma pessoa.

A frase no debate sobre a escravidão

Nos Estados Unidos do século XIX, este versículo esteve no centro da disputa bíblica sobre a escravidão. A razão é simples: era o único texto da Torá que punia com a morte um ato ligado ao comércio de pessoas, e o tráfico atlântico tinha começado, em cada caso, com alguém capturado na África.

Em 1794, a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos acrescentou ao seu catecismo uma nota explicativa à palavra "sequestradores", na lista de pecados contra o mandamento "Não furtarás". A nota dizia: "Este crime, entre os judeus, expunha os seus autores à pena capital, Êxodo 21:16 […]. A palavra, no seu sentido original, compreende todos os que estão envolvidos em trazer qualquer ser humano à escravidão, ou em retê-lo nela." A segunda frase atingia diretamente os senhores de escravos. Em 1816, a mesma Assembleia decidiu retirar a nota das edições futuras, declarando que o fazia "por motivos muito diferentes de qualquer desejo de favorecer a escravidão". A história está documentada no livro do pastor John Robinson sobre o testemunho presbiteriano a respeito da escravidão americana (Cincinnati, 1852).

Em 1837, o abolicionista Theodore Weld publicou The Bible Against Slavery ("A Bíblia contra a escravidão"), em que este versículo é a peça central. Para ele, a lei acendia "no limiar" do código mosaico um farol contra os senhores de escravos — "os querubins de Deus e a espada flamejante guardando a entrada do sistema mosaico". O argumento de Weld é de leitura: o texto não diz "quem furtar o escravo de alguém", diz "quem furtar um homem". O crime não é tirar uma propriedade do seu dono; é transformar uma pessoa em propriedade. "O pecado de furtar um homem", escreve, "não é a transferência de algo que já é propriedade, e sim a conversão da personalidade em propriedade."

A resposta escravista veio, entre outros, do pastor presbiteriano Frederick A. Ross, em Slavery Ordained of God ("A escravidão ordenada por Deus", 1857). Ross aceita a lei e restringe o seu alcance: o crime não era vender um homem, e sim vender um homem roubado; não era ter um homem como escravo, e sim ter um homem roubado. O traficante que captura o africano peca; o senhor que herdou ou comprou o escravo, não. A distinção salvava a instituição e condenava apenas a sua origem — o que, para quem vivia de escravos nascidos em cativeiro, resolvia o problema.

Os dois lados citavam o mesmo versículo. A diferença estava no que cada um aceitava ver dentro da palavra "homem".

3. Análise Teológica do Versículo

"Quem raptar um homem"

O verbo é o de furtar, e não um verbo próprio para sequestro. A lei trata o rapto como um furto cujo objeto é uma pessoa — e é essa escolha de vocabulário que faz o crime chocar. O furto de um boi se paga em bois (Êxodo 22:1); o furto de um homem se paga com a vida. O estudo de Êxodo 20:15 mostra como os rabinos leram o próprio mandamento como proibição deste crime.

O objeto é "um homem", e a Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 5, faz com ele o mesmo trabalho que fez no versículo 12. "Um homem" sozinho deixaria de fora a mulher e a criança; Deuteronômio 24:7, que fala de "uma pessoa", as inclui. E a mesma passagem acrescenta uma restrição curiosa a partir de "e o vendeu": o crime exige a venda da pessoa inteira, e não de "metade dela". A frase é seca e não explica o caso que tem em vista; ela supõe um mundo em que direitos sobre uma pessoa podiam ser divididos.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) chamam o rapto de pecado "contra a dignidade do homem" e "violação da imagem de Deus". É uma leitura cristã do século XIX, com Gênesis 1:27 ao fundo. O versículo não dá razão nenhuma; põe o crime ao lado do homicídio e da agressão aos pais, e deixa que a vizinhança fale.

"quer o tenha vendido, quer ainda esteja em seu poder"

Esta é a parte disputada. O hebraico diz, palavra por palavra: "e o vendeu, e for achado na sua mão". São duas condições ligadas por "e". A tradução ABC as lê como alternativas — tenha ou não vendido —, e outras leituras as somam. A pergunta é concreta: o sequestrador que guarda a vítima para si, sem vendê-la, é executado?

Primeira leitura: basta uma das duas. É a da ABC, da tradução judaica inglesa mais usada hoje e de comentaristas cristãos como Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII), que escreve que o ladrão merece a morte mesmo que "o guarde nas suas mãos para uso próprio". Lido assim, o crime está no rapto, e a venda é só um dos desfechos possíveis. Foi a leitura que os abolicionistas usaram: quem é "achado" com uma pessoa roubada responde, ainda que não a tenha vendido.

Segunda leitura: é preciso as duas, e "achado" quer dizer "provado". É a da Mekhilta e de Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, comentarista francês do século XI). "Achado", na língua jurídica, é o que testemunhas viram; "na sua mão" é "no seu domínio". Rashi resume: testemunhas o viram raptar e vender, e a vítima esteve antes no poder dele. Nessa leitura, o sequestro sem venda não leva à morte.

Terceira leitura: as condições estão fora de ordem. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) discorda de Rashi: "não entendi isto", escreve. Que testemunhas precisem ver o rapto e a venda é óbvio, e ser achado com a vítima não é prova completa. Para ele, "achado na sua mão" ensina que o raptor precisa ter trazido a vítima para o seu domínio, como o ladrão comum só responde quando tira a coisa do domínio do dono. E propõe ler a frase numa ordem diferente da escrita: "quem raptar um homem, e ele for achado na sua mão, e o vender, certamente será morto".

Quarta leitura: achado antes da venda. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista nascido na Espanha, século XII) dá uma versão de mercado: se for achado com a vítima "na praça, antes de vendê-la", morre. O flagrante substitui a venda consumada.

As quatro leituras protegem coisas diferentes. A primeira protege a vítima desde o primeiro momento. A segunda e a terceira protegem o acusado, exigindo que o crime esteja completo e provado. A quarta é um meio-termo. O hebraico admite todas, e a escolha da ABC é defensável e é uma escolha.

"certamente será morto"

A pena é a mesma do homicídio. A Mekhilta e o Talmude a fixaram no estrangulamento, como a do versículo 15. Nachmânides vê nisso a razão da ordem dos versículos: as duas leis com a mesma morte ficam juntas, e a maldição dos pais, punida com apedrejamento, vem depois.

Quem é "um homem"?

O Êxodo não restringe. O Deuteronômio sim: "se for achado alguém que tenha raptado uma pessoa dentre os seus irmãos, dos filhos de Israel" (Deuteronômio 24:7). As traduções antigas levaram a restrição para dentro do Êxodo. A Septuaginta (a tradução grega, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) escreve "quem furtar alguém dos filhos de Israel"; o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreve "quem furtar uma pessoa dos filhos de Israel". Nenhuma das duas tem apoio no hebraico do Êxodo. As duas harmonizaram o versículo com o Deuteronômio — e, com isso, transformaram uma lei que fala de "um homem" numa lei que fala de "um israelita".

O limite está aqui. O texto hebraico do Êxodo protege "um homem" sem dizer de onde. A restrição está em outro livro e nas traduções. Quem lê o versículo como proteção universal lê o que está escrito nele; quem o lê como proteção do israelita lê o que a Torá, tomada como um todo, e a tradição antiga disseram. Os dois têm base, e é por isso que a frase pôde ser usada, séculos depois, pelos dois lados.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

José, o raptado

O caso bíblico que este versículo descreve é o de José, vendido pelos irmãos aos ismaelitas por vinte peças de prata. No Egito, ele dirá ao copeiro: "fui roubado da terra dos hebreus" (Gênesis 40:15) — com o mesmo verbo da lei. O estudo de Gênesis 37:26 mostra como esta lei, aplicada ao que os irmãos fizeram, transformaria a venda, que parecia a saída branda, num crime de morte.

A menina levada por saqueadores

Em 2 Reis 5:2, os arameus, numa incursão, levam de Israel "uma menina", que vai servir a mulher de Naamã. É o rapto de guerra, que a lei israelita não alcançava, e o texto não o condena: é dela que vem o conselho que leva Naamã ao profeta Eliseu.

Gaza e Tiro, os traficantes

O profeta Amós condena Gaza "porque levou cativo um povo inteiro, para entregá-lo a Edom", e Tiro porque "entregou um povo inteiro a Edom, sem se lembrar da aliança de irmãos" (Amós 1:6, 9). Joel acusa Tiro, Sidom e os filisteus de terem vendido "os filhos de Judá e de Jerusalém aos filhos dos gregos" (Joel 3:6). São as únicas denúncias proféticas do comércio de pessoas em grande escala — e, nos dois casos, dirigidas a outros povos.

Os leitores do século XIX

Theodore Weld (1803-1895), abolicionista do norte dos Estados Unidos, e Frederick A. Ross (1796-1883), pastor presbiteriano do Alabama, são os dois polos da leitura moderna do versículo (item 2). Entre eles ficou a Assembleia Geral presbiteriana, que em 1794 citou o versículo contra a escravidão e em 1816 retirou a citação.

5. Pontos de Ensino

1. Furtar uma pessoa é outro crime, e não um furto maior. A lei usa o verbo do furto, mas troca a restituição pela morte. Uma coisa se devolve em dobro; uma pessoa vendida para longe não volta.

2. A gramática decide vidas. Somar ou alternar as duas condições do versículo muda quem é executado. A tradução não é neutra: escolhe entre proteger a vítima desde o rapto ou exigir o crime completo.

3. A palavra universal foi restringida pelas traduções. O Êxodo diz "um homem"; a Septuaginta e o Targum disseram "um dos filhos de Israel". Toda leitura de uma lei protetora precisa perguntar quem ela deixa de fora.

4. O mesmo versículo serviu à abolição e à escravidão. Weld leu nele a condenação de transformar pessoa em propriedade; Ross, só a condenação do rapto. A diferença não estava no texto, e sim no que cada um aceitava ver.

5. Instituições religiosas também recuam. A nota presbiteriana de 1794 e a sua retirada em 1816 mostram uma igreja que leu bem o versículo e depois preferiu não lê-lo em voz alta.

6. Aspectos Filosóficos

Quem conta como "um homem"?

A lei protege "um homem" do rapto, e a história da sua leitura é a história de quem foi posto dentro ou fora dessa palavra. As traduções antigas puseram só o israelita. Os escravistas americanos puseram todos os homens, menos os que já nasciam escravos. O filósofo que deu nome a esse mecanismo, no mundo moderno, foi Charles W. Mills.

Charles W. Mills e o contrato racial

Mills (1951-2021), filósofo jamaicano que ensinou em universidades de Chicago e de Nova York, publicou em 1997 The Racial Contract ("O contrato racial"). O livro parte da tradição do contrato social — a ideia de que a sociedade política nasce de um acordo entre iguais — e afirma que ela descreve mal o mundo moderno. O acordo real, diz Mills, foi outro: um contrato entre brancos, nunca escrito por inteiro, para classificar os não brancos como "subpessoas", de estatuto moral inferior. Os princípios universais da filosofia política — liberdade, igualdade, direitos — foram formulados de boa-fé e aplicados só aos que estavam dentro do contrato.

Mills não diz que os filósofos do contrato mentiam. Diz que a palavra "pessoa" tinha, na prática, um alcance menor do que no papel, e que esse alcance menor era a condição de funcionamento do sistema. A escravidão atlântica e a colonização não eram exceções aos princípios universais; eram possíveis porque os princípios não alcançavam os escravizados e os colonizados.

O livro acrescenta uma tese que ele chama de "epistemologia da ignorância": o contrato racial exige dos seus beneficiários uma forma de não ver. Quem está dentro dele é treinado a não perceber o que o sustenta, e por isso pode afirmar com sinceridade princípios que a sua própria vida desmente.

O versículo lido com Mills

O debate americano sobre este versículo encaixa quase sem esforço na análise de Mills. Weld e Ross liam a mesma palavra, "homem", e a diferença era se o africano escravizado cabia nela com todos os direitos. Ross não negava que o africano fosse homem; negava que o seu cativeiro herdado fosse "furto de um homem". A palavra universal ficava intacta, e o alcance encolhia. A justificativa da Assembleia de 1816 — retirar a nota "por motivos muito diferentes" de favorecer a escravidão — é quase uma ilustração da epistemologia da ignorância: a instituição não via o que estava fazendo.

Onde a aproximação para

Há dois limites sérios. O primeiro é que Mills fala de uma ordem moderna, nascida da expansão europeia depois de 1500, e organizada pela cor. A restrição antiga — "dos filhos de Israel" — não é racial: é de povo e de aliança, e um estrangeiro podia entrar no povo. Ler a Septuaginta ou o Targum como um "contrato racial" seria anacronismo.

O segundo limite é que a Bíblia hebraica, que proíbe o rapto, regula a compra de escravos estrangeiros (Levítico 25:44-46). A distinção de Ross entre furtar e comprar tem apoio no próprio texto, e é isso que tornou o debate difícil. O que Mills ajuda a ver não é que o versículo seja racista ou antirracista, e sim que toda lei de proteção traz uma pergunta escondida: quem está dentro da palavra que ela protege. O texto hebraico do Êxodo, ao contrário das suas traduções, deixou a pergunta aberta.

7. Aplicações Práticas

O rapto continua

O tráfico de pessoas não acabou com a abolição. O aliciamento de trabalhadores com promessa falsa de emprego, a retenção de documentos, a dívida que nunca se paga, o transporte de mulheres e crianças para exploração sexual — tudo isso é o crime deste versículo com outros meios. No Brasil, o Código Penal chama de "redução a condição análoga à de escravo" o caso do trabalhador mantido à força ou por dívida, e as operações de resgate continuam encontrando pessoas nessa situação.

Comprar também é participar

A discussão entre Weld e Ross ganhou uma forma atual. Quem compra o produto de trabalho escravo não raptou ninguém, como o senhor de Ross não tinha raptado ninguém. O versículo não resolve a questão da cumplicidade, mas o debate em torno dele mostra que a pergunta "eu não roubei ninguém, então não tenho nada com isso?" já foi feita — e que a resposta não foi tão simples quanto parecia.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Por que o rapto está entre as duas leis sobre os pais?

A ordem é estranha: ferir os pais (versículo 15), raptar (16), amaldiçoar os pais (17). Saadia Gaon (sábio judeu do século X, o primeiro grande comentarista em língua árabe), citado por Ibn Ezra e Nachmânides, dá uma explicação humana: quase sempre os raptados eram crianças, que cresciam em terra estranha sem conhecer os pais, e podiam um dia feri-los ou amaldiçoá-los sem saber quem eram; a culpa disso cairia sobre o raptor. Nachmânides prefere uma explicação técnica: o rapto e o golpe nos pais têm a mesma pena, o estrangulamento, e por isso ficam juntos. A Septuaginta resolveu o problema mudando a ordem: na tradução grega, a maldição dos pais vem logo depois do golpe, e o rapto fica por último.

2. A lei proibia ter escravos?

Não. A mesma Torá regula a compra de escravos estrangeiros (Levítico 25:44-46) e a servidão do hebreu por dívida (Êxodo 21:2). O que este versículo proíbe é a origem violenta: fazer de um homem livre um escravo por captura. A questão de saber se essa proibição contamina toda escravidão nascida de captura — que era o caso da escravidão atlântica — é a do debate americano.

3. O sequestro para pedir resgate, sem venda, entraria na lei?

Depende da leitura do item 3. Para quem lê as duas condições como alternativas, como a ABC, sim: basta ter a pessoa "em seu poder". Para quem as soma, como Rashi, não haveria pena de morte sem venda, e o caso ficaria para outras sanções.

4. A vítima podia ser escrava de outro?

O versículo não diz. A leitura de Weld insistia em que o texto fala de "um homem", e não de "o escravo de alguém", justamente para mostrar que o crime é contra a pessoa, e não contra o dono.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma lei, restringida

Deuteronômio 24:7 — "Se for achado alguém que tenha raptado uma pessoa dentre os seus irmãos, dos filhos de Israel, e a tenha tratado como escravo ou a tenha vendido, esse ladrão morrerá; e assim tirarás o mal do meio de ti."

O Deuteronômio acrescenta "dos seus irmãos" e "tratado como escravo". O Êxodo não tem nenhuma das duas coisas.

O caso narrado

Gênesis 37:28 — "Quando os mercadores midianitas passaram, os irmãos puxaram José para fora da cisterna e o venderam aos ismaelitas por vinte peças de prata; e estes levaram José ao Egito."

Gênesis 40:15 — "Pois fui roubado da terra dos hebreus, e aqui também nada fiz para que me pusessem nesta masmorra."

O verbo de José é o verbo da lei.

O tráfico denunciado pelos profetas

Amós 1:6 — "Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Gaza, e por quatro, não revogarei o castigo; porque levaram cativo um povo inteiro, para entregá-lo a Edom."

Joel 3:6 — "E venderam os filhos de Judá e os filhos de Jerusalém aos filhos dos gregos, para afastá-los da sua terra."

O comércio de pessoas entre povos, condenado como crime contra Deus.

O versículo no Novo Testamento

1 Timóteo 1:9-10 — "A lei não é feita para o justo, mas para os transgressores e rebeldes […], para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os imorais […], para os raptores de homens, para os mentirosos, para os perjuros."

Segundo muitos estudiosos, a lista acompanha a segunda tábua do Decálogo, e no lugar do "Não furtarás" põe os andrapodistai, palavra grega que designa quem captura pessoas para vendê-las como escravas. A escolha mostra que, para o autor da carta, o furto por excelência era o de pessoas. Foi esta a passagem que a nota presbiteriana de 1794 comentava, citando o Êxodo 21:16.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quem raptar um homem, quer o tenha vendido, quer ainda esteja em seu poder, certamente será morto.

Texto hebraico

וְגֹנֵב אִישׁ וּמְכָרוֹ וְנִמְצָא בְיָדוֹ מוֹת יוּמָת׃

Transliteração

ve-gonev ish u-mekharo ve-nimtsa ve-yado mot yumat.

Análise palavra por palavra

וְגֹנֵב — ve-gonev, "e quem raptar".

Particípio do verbo ganav, "furtar", na forma simples (Qal). O verbo e as suas outras ocorrências — no mandamento, em Levítico 19:11, em Deuteronômio 24:7 — estão analisados no estudo de Êxodo 20:15. Aqui o que importa é a forma: o particípio, como no versículo 12 e no 15, faz do crime a definição do criminoso — "o que furta um homem".

אִישׁ — ish, "um homem".

A mesma palavra do versículo 12. Deuteronômio 24:7 usa nefesh, "pessoa, vida", e a Mekhilta junta as duas para incluir a mulher e a criança.

וּמְכָרוֹ — u-mekharo, "quer o tenha vendido".

O verbo makhar, "vender", no perfeito com "e" e com o sufixo "o": literalmente "e o vendeu". Depois de um particípio, essa forma descreve o que se segue ao ato: furta e vende. É o verbo da venda de José: "venham, vamos vendê-lo" (Gênesis 37:27), "vocês me venderam para cá" (Gênesis 45:4-5).

וְנִמְצָא — ve-nimtsa, "quer ainda esteja".

O verbo matsa, "achar", na forma passiva (Nifal): "e for achado". Na linguagem das leis, "ser achado" é ser apanhado, ter o crime provado: "se o ladrão for achado arrombando" (Êxodo 22:2), "se o furto for achado vivo na sua mão" (Êxodo 22:4). Por isso a Mekhilta entende "achado" como "visto por testemunhas". A ABC traduziu pelo resultado — "esteja em seu poder" — e não pelo procedimento.

בְיָדוֹ — ve-yado, "em seu poder".

Literalmente "na sua mão". A Mekhilta prova que "na mão" significa "no domínio" com dois versículos: Números 21:26, em que Seom tomou a terra "da mão" do rei de Moabe, e Gênesis 24:10, em que o servo de Abraão leva "na sua mão" todos os bens do seu senhor — que evidentemente não cabiam numa mão. A tradução da ABC, "em seu poder", segue essa leitura.

מוֹת יוּמָת — mot yumat, "certamente será morto".

A fórmula das leis capitais deste bloco.

As traduções antigas

A Septuaginta, que põe este versículo depois do da maldição, traduz hos ean klepsē tis tina tōn huiōn Israēl kai katadynasteusas auton apodōtai kai heurethē en autō, thanatō teleutatō — "quem furtar alguém dos filhos de Israel e, dominando-o, o vender, e for achado com ele, morra de morte". Três novidades: "dos filhos de Israel"; o particípio katadynasteusas, "tendo-o subjugado", que descreve o uso da força; e a fórmula final diferente, "termine pela morte". O Targum de Ônquelos: ve-di yignuv nafsha min benei Yisrael vi-zabbenineh ve-yishtekhach bideh — "quem furtar uma pessoa dos filhos de Israel e a vender, e for achada na sua mão". A Vulgata: qui furatus fuerit hominem et vendiderit eum, convictus noxae, morte moriatur — "quem furtar um homem e o vender, convencido do crime, morra de morte". Jerônimo transformou "e for achado na sua mão" em "convencido do crime", isto é, provado — a leitura processual da Mekhilta, traduzida para o latim jurídico.

11. Conclusão

Do que foi exposto, o versículo conduz a três conclusões. A primeira é que a lei separou o furto de uma pessoa de qualquer outro furto: a coisa se restitui, a pessoa não, e por isso a pena saiu do terreno da indenização e entrou no da morte. A segunda é que o alcance da lei depende de duas decisões que o hebraico deixa abertas — se basta raptar ou se é preciso vender, e quem conta como "um homem" —, e que cada tradução e cada leitura antiga tomou essas decisões num sentido. A terceira é que essa abertura não foi um detalhe técnico: foi ela que permitiu ao mesmo versículo condenar o tráfico atlântico na boca de uns e salvar a escravidão herdada na boca de outros. O texto hebraico do Êxodo, sem a restrição que as traduções lhe deram, ficou do lado da leitura mais larga.

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