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Êxodo 21:2

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 17 acessos
Se comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; e no sétimo sairá livre, sem pagar nada.
Na soleira de uma casa de pedra de uma aldeia antiga, um homem de meia-idade, de túnica gasta e uma pequena trouxa ao ombro, dá o primeiro passo para fora, ao amanhecer, enquanto o dono da casa, de manto mais fino, observa de braços cruzados junto ao batente.

Estudo


Se comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; e no sétimo sairá livre, sem pagar nada.

1. Introdução

A primeira norma do código trata de comprar um escravo hebreu: ele serve seis anos e sai livre no sétimo, sem pagar nada. O versículo não proíbe a escravidão de um israelita; põe-lhe um prazo, e o prazo vem escrito na lei, não na vontade do senhor. Quem é esse escravo — um israelita vendido por roubo, um pobre que se vendeu, ou o escravo de um hebreu? A mesma lei aparece de outro jeito em Deuteronômio 15 e em Levítico 25, e as diferenças entre as três versões são o ponto de partida para ler esta. E o profeta Jeremias contaria, séculos depois, o dia em que Jerusalém libertou os seus escravos e voltou atrás.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como um israelita virava escravo

A Bíblia registra três caminhos. O primeiro é o roubo: o ladrão que não tinha com que restituir "será vendido pelo seu furto" (Êxodo 22:2, na numeração hebraica). O segundo é a pobreza: o israelita que empobrecia vendia a si mesmo (Levítico 25:39). O terceiro é a dívida cobrada sobre a família: o credor que vem levar os dois filhos de uma viúva (2 Reis 4:1), os pobres vendidos "por um par de sandálias" (Amós 2:6). Em todos os casos, o escravo hebreu é alguém que perdeu tudo menos o corpo, e entregou o trabalho do corpo para pagar.

Os rabinos leram este versículo como o caso do ladrão vendido pelo tribunal. A Mekhilta raciocina assim: o caso de quem se vende por pobreza já está em Levítico 25:39; logo, o "se comprares" do Êxodo tem de ser outro — o de quem foi vendido. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista do século XII que se propunha a buscar o sentido simples do texto) concorda com a leitura, embora em outros pontos se afaste dos rabinos.

Três leis para o mesmo escravo

A Torá regula o escravo hebreu três vezes, e as três não dizem a mesma coisa.

Êxodo 21:2-6 fala só do homem ("um escravo hebreu"), fixa seis anos, solta no sétimo "sem pagar nada" e prevê que ele possa ficar para sempre com a orelha furada. Não dá motivo nenhum para a lei.

Deuteronômio 15:12-18 inclui a mulher ("teu irmão hebreu, ou a hebreia"), mantém os seis anos e a orelha furada, mas acrescenta três coisas: o senhor não pode despedir o liberto de mãos vazias, e deve dar-lhe do rebanho, da eira e do lagar; deve lembrar-se de que "foste escravo na terra do Egito"; e não deve achar pesado soltá-lo, porque ele serviu seis anos "pelo dobro do salário de um assalariado". O Deuteronômio fala ao coração do senhor; o Êxodo, ao tribunal.

Levítico 25:39-46 vai mais longe e recusa a palavra. O israelita empobrecido que se vende "não o farás servir como escravo"; ficará como assalariado ou morador, e sairá não no sétimo ano, mas no jubileu, o quinquagésimo, com os filhos, de volta à terra dos pais. O motivo: "são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vende um escravo". Escravos, de verdade e para sempre, só os comprados das nações vizinhas.

Como conciliar as três? Há duas grandes respostas.

A resposta rabínica distribui as leis por casos. O Êxodo e o Deuteronômio tratam do vendido pelo tribunal; o Levítico, de quem se vendeu por pobreza. O Talmude (Kiddushin 14b) registra a discussão: para uns, quem se vende a si mesmo pode ser vendido por mais de seis anos, não tem a orelha furada, não recebe presentes e não recebe mulher do senhor; para Rabi Elazar, não há diferença nenhuma entre os dois.

A resposta da crítica moderna distribui as leis no tempo. A Cambridge Bible (o volume de S. R. Driver, hebraísta inglês, 1911) diz que as três "nascem de etapas diferentes da sociedade": o Êxodo seria a mais antiga, o Deuteronômio a ampliaria em sentido humanitário, e o Levítico tentaria limitar a escravidão aos estrangeiros. Nesta leitura, as leis não se encaixam umas nas outras; corrigem-se.

Nenhuma das duas respostas é demonstrável a partir dos textos sozinhos. O que se pode afirmar é o sentido do movimento: de uma versão a outra, a lei pesa cada vez mais a favor do escravo hebreu, e cada vez mais separa o destino dele do destino do escravo estrangeiro.

"Uma lei sem paralelo"?

Comentaristas do século XIX gostavam de dizer que a libertação no sétimo ano "não tinha correspondente na legislação de nenhum outro país" (Pulpit Commentary). A afirmação não resiste à comparação. Uma coleção mesopotâmica de leis, mais antiga que o Êxodo, já limitava a três anos a servidão da mulher ou dos filhos entregues por dívida, como mostra o estudo de Gênesis 42:37. O que a lei de Israel tem de próprio não é o limite em si, mas a ligação com o sétimo (o mesmo número do sábado) e, nas versões posteriores, o motivo dado: o escravo hebreu é irmão, e o povo inteiro já foi escravo.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se comprares"

A lei começa falando com o comprador. Não diz "se alguém for vendido", nem "o escravo hebreu servirá"; diz "se tu comprares". O sujeito do caso é quem tem dinheiro para adquirir uma pessoa, e é a ele que se impõe o limite. A forma tem consequência: a norma não descreve uma desgraça que acontece a alguém, regula uma escolha feita por outro.

O verbo é o de adquirir qualquer bem — terra, gado, um campo para sepultura. Aqui o objeto é um homem. A lei não disfarça isso. E o "se" mostra que a compra não é mandada nem recomendada; é prevista.

"um escravo hebreu"

A ABC traduz "escravo", e não "servo", como faziam as versões antigas. A escolha é deliberada: o hebraico usa a mesma palavra para o escravo da casa e para o escravo de guerra, e suavizar a tradução seria decidir antes da hora o que a lei permitia. O que o versículo descreve é alguém comprado, que trabalha sem salário para outro e não pode ir embora antes do prazo. Que esse alguém seja um israelita, com prazo de saída e com direitos que o escravo estrangeiro não tinha, é o que a lei acrescenta — e não muda o nome da condição.

A Mekhilta faz ao texto uma pergunta de gramática: "escravo hebreu" quer dizer um escravo que é hebreu, ou um escravo que pertence a um hebreu? A segunda leitura não é absurda: faria desta a lei do escravo estrangeiro comprado de um israelita, que sairia no sétimo ano, enquanto o comprado de um estrangeiro ficaria para sempre (Levítico 25:46). A Mekhilta decide pela primeira com Deuteronômio 15:12, que diz "teu irmão, o hebreu": lá, "hebreu" é sem dúvida o próprio escravo; aqui também. Rabi Ishmael acrescenta que a lei inclui o prosélito, o estrangeiro convertido.

Ibn Ezra registra uma terceira leitura, de adversários que ele não nomeia. Para eles, o "hebreu" não é o israelita, mas qualquer descendente de Abraão — ismaelitas, edomitas. Os argumentos deles eram dois. Os filhos do escravo ficam com o senhor (Êxodo 21:4), e eles não aceitavam que filhos de um israelita fossem escravos; e o escravo de orelha furada serve "para sempre" (Êxodo 21:6), e eles achavam impossível que um israelita servisse a vida inteira. Ibn Ezra refuta com o uso: em toda a Bíblia, "hebreu" designa só os filhos de Jacó — os hebreus no Egito, Jonas diante dos marinheiros ("sou hebreu"), e Jeremias 34:9, que chama o escravo hebreu de "judeu, seu irmão". E fecha com um argumento de bom senso: como pensar que um edomita serviria seis anos e um israelita até o jubileu?

A pesquisa moderna levantou outra hipótese: a de que "hebreu", aqui, não fosse nome de povo, mas de condição social, ligada aos habiru (grupos de gente sem terra que aparecem em textos de todo o Oriente antigo do segundo milênio). A relação entre "hebreu" e habiru está discutida no estudo de Gênesis 14:13, e não há consenso; Deuteronômio 15:12, ao chamar o escravo de "teu irmão", mostra pelo menos como a lei foi lida em Israel.

"ele servirá seis anos"

Seis anos contados de quando? A Mekhilta responde: do dia da venda, e não do calendário. Se fosse o ano sabático, um homem comprado no quinto ano do ciclo sairia em dois. Ibn Ezra, Rashbam e o comentarista puritano Matthew Poole (inglês do século XVII) dizem o mesmo. Jeremias 34:14, ao citar a lei, diz "ao fim de sete anos", e Ibn Ezra resolve a aparente contradição com uma observação sobre o tempo: tudo tem duas pontas, e o começo do sétimo ano é também o fim do sexto período.

E servirá como? O versículo não diz. A Mekhilta, lendo junto Levítico 25:39-40 ("não o farás servir como escravo… como assalariado"), tirou daí uma lista de limites. O senhor não pode mandá-lo lavar-lhe os pés, calçar-lhe as sandálias, levar-lhe as roupas ao banho, carregá-lo em liteira — os serviços que marcam um homem como escravo diante dos outros. Não pode tirá-lo do seu ofício e pô-lo em trabalho exposto ao público, como alfaiate, barbeiro, banheiro ou açougueiro. E, como o assalariado, trabalha de dia e não de noite. São leituras rabínicas, construídas com outros versículos. O versículo sozinho diz apenas "servirá".

"e no sétimo sairá livre"

O verbo é "sair", o mesmo que dá nome ao livro e que descreve Israel deixando o Egito. Nachmânides lê na libertação do sétimo ano uma lembrança da saída do Egito, e o verbo favorece a leitura: o que aconteceu ao povo uma vez acontece ao escravo hebreu, em cada casa, a cada seis anos de serviço.

A palavra "livre" (item 10) é rara e foi discutida. O que se pode afirmar é que a saída não depende de nada: a Mekhilta conclui que não é preciso documento de alforria, porque o versículo diz "sairá livre", e que o escravo não tem de indenizar o senhor, porque diz "sem pagar nada". A liberdade vem da data, não de um ato do senhor. É isso que distingue este escravo de quase todos os outros do mundo antigo, que dependiam da vontade de alguém para sair.

"sem pagar nada"

A palavra hebraica tem o sentido de "de graça, sem custo". O escravo não compra a liberdade. Rabi Eliezer, na Mekhilta, nota o risco que a frase previne: como o ladrão é vendido "pelo seu furto" (Êxodo 22:2), alguém poderia pensar que ele serviria até pagar tudo, por quanto tempo fosse. O versículo corta essa conta. Seis anos encerram a dívida, seja qual for o valor.

Há um limite que a frase deixa claro sem dizer. "Sem pagar nada" significa que ele não paga; não significa que ele recebe. O Êxodo não manda dar nada ao liberto. Quem manda é o Deuteronômio (15:13-14), e a diferença entre as duas leis está no item 2.

O dia em que Jerusalém voltou atrás

A única vez que a Bíblia narra a aplicação desta lei é para contar o seu fracasso. Em Jeremias 34:8-22, durante o cerco babilônico, o rei Zedequias faz um pacto com o povo de Jerusalém para libertar todos os escravos hebreus, homens e mulheres. Todos cumprem. Depois, quando o exército babilônico se retira por um tempo (Jeremias 34:21), os senhores voltam atrás e tomam de novo os que tinham soltado. O profeta responde com a palavra da própria lei: "vocês não proclamaram libertação cada um ao seu irmão; eis que eu proclamo a vocês libertação — para a espada, para a peste e para a fome". Nachmânides tira do episódio a gravidade da lei: por causa dela, diz ele, veio o exílio.

O caso de Jeremias mostra duas coisas que o versículo não diz. A primeira é que a lei foi pouco cumprida: o profeta afirma que "os pais de vocês não me ouviram" (Jeremias 34:14). A segunda é que, mesmo quando cumprida, dependia de quem tinha o poder de desfazê-la.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O comprador — o "tu" do versículo: um israelita com recursos para adquirir o trabalho de outro por seis anos. É a ele que a lei se dirige e é a ele que impõe o limite.

O escravo hebreu — um israelita (na leitura rabínica, um ladrão vendido pelo tribunal para pagar o que roubou; na leitura de outros, também o pobre que se vendeu). O texto não lhe dá nome nem voz neste versículo; ele só falará no versículo 5.

Zedequias — o último rei de Judá (597-586 a.C.), que, durante o cerco de Jerusalém pelos babilônios, fez o povo jurar a libertação dos escravos hebreus, revogada logo depois (Jeremias 34:8-11).

Jeremias — o profeta que denunciou a revogação e a castigou com um jogo de palavras sobre a "libertação".

Lugares

Jerusalém sitiada — o cenário de Jeremias 34, entre 588 e 587 a.C., quando o exército babilônico se afastou por um tempo diante da aproximação de tropas egípcias (Jeremias 37:5) e os senhores aproveitaram a trégua para retomar os escravos.

Eventos

A venda pelo tribunal — o caso que os rabinos leem aqui: o ladrão que não pode restituir é vendido, e o preço vai para a vítima (Êxodo 22:2).

A libertação revogada — o único episódio bíblico narrado em que a lei do sétimo ano é posta em prática, e desfeita.

5. Pontos de Ensino

1. A lei limita quem tem poder. O versículo fala ao comprador, não ao vendido. A regra pesa sobre quem pode comprar, e é dele que tira alguma coisa: o direito de reter o outro indefinidamente.

2. O prazo está na lei, não na boa vontade. A saída no sétimo ano não depende de documento, de pagamento ou de gesto do senhor. O que a lei garante não precisa ser pedido.

3. Uma dívida tem fim. Seis anos encerram a obrigação, qualquer que seja o valor. A lei põe um limite à quantidade de vida que uma dívida pode consumir.

4. A lei admite e limita ao mesmo tempo. O versículo não abole a escravidão; regula-a. Lê-lo como abolição é falsificá-lo; lê-lo só como permissão é esquecer o prazo. As duas coisas estão no mesmo verso.

5. Lei não cumprida não protege. O episódio de Jeremias 34 mostra que a norma mais clara depende de quem a aplica — e de quem pode revogar o que foi aplicado.

6. Aspectos Filosóficos

Philip Pettit: ser livre é não depender da vontade de ninguém

O versículo põe um escravo debaixo de um senhor e, ao mesmo tempo, tira do senhor o poder de decidir quando o escravo sai. A questão filosófica que isso levanta é antiga: o que torna alguém livre — não sofrer interferência, ou não estar à mercê de outro?

Philip Pettit (filósofo irlandês, nascido em 1945, professor em Princeton e na Universidade Nacional Australiana) construiu a sua obra sobre a segunda resposta. No livro Republicanism: A Theory of Freedom and Government ("Republicanismo: uma teoria da liberdade e do governo", 1997), ele distingue duas ideias de liberdade. A liberal, dominante desde o século XIX, diz que você é livre quando ninguém interfere no que você faz. A republicana, que Pettit recupera da Roma antiga e dos pensadores políticos dos séculos XVII e XVIII, diz que você é livre quando ninguém tem o poder de interferir arbitrariamente na sua vida — mesmo que não o use. O contrário da liberdade, para ele, não é a interferência; é a dominação.

Mais tarde, Pettit propôs um teste prático, que chamou de "teste do olhar": é livre quem pode olhar os outros nos olhos sem medo e sem ter de se curvar, sabendo que nenhum deles tem poder arbitrário sobre a sua vida.

Visto por essa lente, o versículo faz uma coisa precisa. Durante seis anos, o escravo hebreu está dominado: trabalha para outro, não pode partir, e a lei não diz como deve ser tratado. Mas o fim da dominação não é arbitrário. O senhor não escolhe a data, não cobra a saída, não precisa assinar nada. A lei tira da vontade dele exatamente o ponto em que a vontade dele mais pesaria. Para Pettit, é isso que as leis fazem quando promovem a liberdade: não eliminam todo o poder de uns sobre outros, mas o tornam controlado, previsível, sujeito a regras que o dominado também pode invocar.

A aproximação mostra também onde a lei para. Pelo critério de Pettit, seis anos de dependência continuam sendo seis anos de dominação, e o escravo com prazo ainda não passa no teste do olhar. Levítico 25:43 ("não o dominarás com rigor") e as restrições rabínicas sobre os serviços humilhantes (item 3) são tentativas de reduzir a arbitrariedade dentro do prazo. Mas são proteções que dependem do senhor obedecer, e o caso de Jeremias 34 mostra o que acontece quando ele não obedece.

Dois limites precisam ser ditos. Pettit escreve sobre cidadãos de uma república moderna, iguais diante de um Estado; o Êxodo fala de um povo sem Estado, numa sociedade em que a desigualdade entre senhor e servo era aceita como parte da ordem. E a ideia de liberdade como não dominação é uma construção teórica, não uma categoria do texto. O versículo não fala de dominação; fala de seis anos e de uma saída. O que Pettit ajuda a ver é por que o detalhe "sem pagar nada" pesa tanto: é ele que transforma a saída de favor em direito.

7. Aplicações Práticas

Dívida com prazo

O versículo não fala de cartão de crédito nem de renegociação, mas a pergunta que ele faz atravessa o tempo: quanto da vida de uma pessoa uma dívida pode tomar? A lei responde com um número. Para quem empresta, cobra ou contrata, a pergunta continua útil: o que estou exigindo tem fim, ou só termina quando o outro não aguentar mais? A Bíblia não dá a tabela para hoje; dá o princípio de que a obrigação deve ter limite conhecido.

Direito que não depende de favor

A saída no sétimo ano não precisa ser pedida. Em qualquer relação de trabalho ou de dependência — um empregado, um estagiário, um parente que mora de favor —, vale perguntar o que a outra parte recebe por direito e o que recebe só porque você quer. Quanto maior a segunda lista, mais ela depende do seu humor.

Promessa feita em crise

Os senhores de Jerusalém libertaram os escravos durante o cerco e os tomaram de volta assim que o perigo passou. A tentação de prometer muito no aperto e esquecer depois é comum. O episódio de Jeremias 34 não deixa a promessa ser tratada como gesto: ela foi feita "diante de mim", diz o profeta, e voltar atrás é profanar o nome de Deus.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A lei do sétimo ano foi cumprida em Israel?

Há pouca prova de que sim. Jeremias 34:14 acusa: "os pais de vocês não me ouviram". Neemias 5 mostra, depois do exílio, judeus com filhos e filhas em servidão por dívida, e Neemias resolve o caso com uma assembleia, não citando o prazo de seis anos. Os textos bíblicos não registram nenhuma libertação regular de escravos no sétimo ano. Isso não prova que a lei nunca foi aplicada — a aplicação cotidiana raramente deixa rastro —, mas impede de afirmar que fosse prática comum.

E a escrava hebreia?

O Êxodo fala só do homem, e trata a mulher vendida pelo pai num caso à parte (Êxodo 21:7), com regras próprias. O Deuteronômio inclui "a hebreia" na mesma lei dos seis anos (Deuteronômio 15:12). A Mekhilta conclui que a serva também sai depois de seis anos, e no jubileu, e que tem ainda uma saída a mais. Como se harmonizam as duas regras é assunto do estudo de Êxodo 21:7.

O ladrão vendido saía no jubileu, se o jubileu viesse antes?

Sim, segundo a Mishná (Kiddushin 1:2): o escravo hebreu adquire a liberdade pelos anos, pelo jubileu ou pagando o que falta. E o Talmude (Kiddushin 15a) discute um caso extremo, o de quem foi vendido pelo tribunal dois ou três anos antes do jubileu: também sai. O jubileu, nessa leitura, encurta o prazo, nunca o alonga.

A lei vale para o escravo estrangeiro?

Não. Levítico 25:44-46 permite adquirir escravos das nações vizinhas e mantê-los para sempre, como herança dos filhos. O limite de seis anos é privilégio do hebreu. É um ponto que leituras apologéticas costumam omitir: a mesma Torá que limita a escravidão do irmão admite a perpétua do estrangeiro.

9. Conexão com Outros Textos

A segunda versão da lei

Deuteronômio 15:12 — "Se teu irmão, o hebreu, ou a hebreia, te for vendido, te servirá seis anos, e no sétimo ano o despedirás livre de junto de ti."

A mulher entra na lei, e o escravo ganha o nome de "irmão". Foi este versículo que a Mekhilta usou para decidir que "hebreu", no Êxodo, é o próprio escravo.

Deuteronômio 15:18 — "Não te pareça duro despedi-lo livre de junto de ti, pois te serviu seis anos pelo dobro do salário de um assalariado; e o SENHOR, o teu Deus, te abençoará em tudo o que fizeres."

O Deuteronômio responde ao senhor que hesita. O Êxodo nem considera a hesitação.

A terceira versão

Levítico 25:39-40 — "Se teu irmão empobrecer junto de ti e se vender a ti, não o farás servir como escravo. Como assalariado, como morador estará contigo; até o ano do jubileu te servirá."

Levítico 25:42 — "Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vende um escravo."

O Levítico recusa ao israelita o nome que o Êxodo lhe dá, e funda a recusa na posse de Deus sobre o povo.

A lei citada pelo profeta

Jeremias 34:14 — "Ao fim de sete anos, cada um de vocês deixará ir o seu irmão hebreu que lhe tiver sido vendido; ele te servirá seis anos, e o despedirás livre de junto de ti. Mas os pais de vocês não me ouviram nem inclinaram os seus ouvidos."

Jeremias cita a lei com palavras do Deuteronômio e com o "sétimo" do Êxodo. E acusa: nunca foi cumprida.

Jeremias 34:17 — "Vocês não me ouviram para proclamar libertação, cada um ao seu irmão e cada um ao seu próximo. Eis que eu proclamo a vocês libertação, diz o SENHOR: para a espada, para a peste e para a fome."

A palavra da lei virada contra quem a revogou.

Os vendidos por necessidade

2 Reis 4:1 — "O meu marido, teu servo, morreu, e tu sabes que o teu servo temia ao SENHOR. Agora veio o credor para levar os meus dois filhos como escravos."

A forma como alguém chegava, na prática, à condição de que o versículo trata.

O povo que já foi escravo

Êxodo 20:2 — "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão."

A frase que abre o Decálogo, um capítulo antes. É a ela que Nachmânides liga a primeira norma do código.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; e no sétimo sairá livre, sem pagar nada.

Texto hebraico

כִּי תִקְנֶה עֶבֶד עִבְרִי שֵׁשׁ שָׁנִים יַעֲבֹד וּבַשְּׁבִעִת יֵצֵא לַחָפְשִׁי חִנָּם׃

Transliteração

ki tiqneh eved ivri shesh shanim ya'avod u-va-shevi'it yetse la-chofshi chinnam.

Análise palavra por palavra

כִּי — ki, "se, quando".

Conjunção que, no código, abre o caso principal (Êxodo 21:2, 7, 18, 20, 22); os casos secundários começam com im, "se" (Êxodo 21:3, 4, 5), como observa a Cambridge Bible. Os três versículos seguintes são subcasos deste.

תִקְנֶה — tiqneh, "comprares".

Verbo qanah, "adquirir", no Qal (a forma simples), imperfeito, segunda pessoa masculina do singular. É o verbo de comprar terra, gado e pessoas; o estudo de Gênesis 47:20 mostra as duas aplicações juntas. Aqui ele vem na segunda pessoa: a lei fala ao comprador.

עֶבֶד — eved, "escravo".

Substantivo da raiz avad, "trabalhar, servir". Com o verbo "comprar" ao lado, o sentido é o jurídico.

עִבְרִי — ivri, "hebreu".

Adjetivo de nome de povo, com o sufixo -i que forma esses adjetivos (como mitsri, "egípcio"). Na narrativa, é quase sempre o nome que os de fora dão aos israelitas. Na lei, aparece aqui e em Deuteronômio 15:12, e Jeremias 34:9 e 34:14 o retomam, sempre no caso do escravo. A ausência do artigo ("um escravo hebreu") faz do adjetivo uma qualificação do escravo, e foi isso que a Mekhilta usou para ler "um escravo que é hebreu".

שֵׁשׁ שָׁנִים — shesh shanim, "seis anos".

O numeral shesh, "seis", com o plural de shanah, "ano".

יַעֲבֹד — ya'avod, "servirá".

O verbo da mesma raiz de eved, no Qal, imperfeito, terceira pessoa. O escravo e o seu serviço são a mesma palavra em hebraico.

וּבַשְּׁבִעִת — u-va-shevi'it, "e no sétimo".

A conjunção u-, "e", a preposição ba-, "em, no", e o ordinal feminino shevi'it, "sétima". O feminino concorda com "ano" (shanah é feminino), que fica subentendido. A mesma forma designa, em Levítico 25:4, o ano sabático da terra, e foi por isso que a Mekhilta precisou explicar que este sétimo é contado da venda.

יֵצֵא — yetse, "sairá".

Verbo yatsa, "sair", Qal, imperfeito. É o verbo da saída do Egito, e reaparece nos versículos 3, 4, 5, 7 e 11 deste capítulo: o código do escravo é construído sobre ele.

לַחָפְשִׁי — la-chofshi, "livre".

A palavra é rara: o adjetivo chofshi aparece cerca de dezessete vezes na Bíblia, quase sempre para o escravo libertado (Deuteronômio 15:12-18, Jeremias 34). A preposição la-, "para", diante de um adjetivo, intrigou os gramáticos medievais. Ibn Ezra registra três explicações: o yod final seria sobra, e a palavra seria o substantivo chofesh, "liberdade" ("sairá para a liberdade"); ou o lamed do começo seria sobra, como em 1 Crônicas 3:2; ou, como ele prefere, os dois sinais são preposições, e o hebraico usou duas onde bastava uma. Rashbam acrescenta um argumento de vocalização.

O sentido social da palavra é discutido. Em textos acádios do segundo milênio, do norte da Síria e da Assíria, aparece a palavra ḫupšu, que designa uma camada de camponeses dependentes, pobres e sem terra própria. Alguns estudiosos ligam as duas palavras e concluem que o liberto hebreu saía para uma condição social baixa, e não para a liberdade plena do proprietário. Outros recusam a ligação. Dois usos bíblicos mostram a amplitude da palavra: em 1 Samuel 17:25, Saul promete tornar "livre" a casa do pai de quem matar Golias, no sentido de isenta de tributos; e em Jó 3:19 o morto descansa no lugar onde "o escravo está livre do seu senhor". O Salmo 88:5 vai mais longe e chama o moribundo de "livre entre os mortos".

חִנָּם — chinnam, "sem pagar nada".

Advérbio formado da raiz chanan, "fazer graça, favorecer", com uma terminação -am que Ibn Ezra declara não saber explicar. O sentido é "de graça, sem custo". A Septuaginta traduz por dōrean, "como presente, gratuitamente", e a Vulgata por gratis. A Septuaginta acrescenta ainda "te" ao verbo: "te servirá seis anos", deixando explícito a quem o escravo serve.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a lei do Êxodo trata o israelita vendido como escravo de fato, e não como empregado com outro nome. Ele é comprado, serve sem salário e não pode partir antes do tempo. Quem quiser ler aqui uma relação de trabalho suave terá de importar isso do Levítico, que é outra lei e outra voz.

A segunda é que o centro do versículo é a data. Tudo o que a norma tira do senhor está concentrado no sétimo ano: ele não escolhe quando, não cobra, não precisa consentir. A liberdade do escravo hebreu não é um favor que se concede; é um prazo que se cumpre. Essa é a diferença que a lei faz, e ela é real, mesmo que não seja abolição.

A terceira é que a própria Bíblia não trata a norma como resolvida. O Deuteronômio a amplia, o Levítico a corrige, e Jeremias mostra que ela foi descumprida e, quando cumprida, revogada. O versículo é o primeiro passo de uma discussão que o texto bíblico continua consigo mesmo, e não a última palavra sobre o assunto.

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