Se um homem vender a sua filha como serva, ela não sairá como saem os escravos.
1. Introdução
Um pai vende a filha, e a lei não proíbe a venda: regula. A primeira coisa que ela diz é o que a menina não terá — não sairá "como saem os escravos" —, e a pergunta que acompanha a frase há dois mil anos é de quais escravos se fala e de que saída. A tradição rabínica leu aqui a menor de idade vendida pelo pai na miséria e cercou a venda de tantas condições que ela quase deixou de ser possível. Os comentaristas medievais se dividiram sobre o sentido simples: ela não sai no sétimo ano porque foi comprada para casar, ou não sai pela perda do olho e do dente, como os escravos estrangeiros. Começa aqui a primeira lei do código feita em torno de uma mulher.
2. Contexto Histórico e Cultural
A filha como o último bem da casa
Ninguém, no mundo do texto, vendia a filha por gosto. A venda era o fim de uma descida, e o Talmude descreve essa descida passo a passo. Numa tradição atribuída a Rabi Yossi bar Chanina, registrada duas vezes (Kiddushin 20a e Arakhin 30b — tratados do Talmude Babilônico sobre o casamento e sobre as avaliações de pessoas e bens), quem começa a negociar com o produto do ano sabático acaba vendendo os móveis; se não muda, vende o campo; depois a casa; e, no fim da linha, vende a filha, "como está escrito: se um homem vender a sua filha como serva".
O Talmude acrescenta uma observação de economista. Por que a filha vem antes do empréstimo a juros, que é o degrau seguinte? Porque a dívida da filha diminui e a dos juros cresce. A menina vendida trabalha, e cada ano de trabalho é descontado do preço; o empréstimo a juros só aumenta com o tempo. Para os mestres, portanto, a venda da filha era entendida como uma espécie de empréstimo garantido pelo trabalho dela, com prazo e com abatimento — o que não a torna menos dura, mas mostra como a lei a enxergava.
Quem podia vender e quem podia ser vendida
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo, compilado entre os séculos III e IV), no tratado Nezikin ("Danos"), seção 3, lê cada palavra da frase como um limite. "Um homem" vende: a mãe não pode vender a filha. "A sua filha": o pai não pode vender o filho. "Ele" a vende: ela não pode vender a si mesma, embora o homem pobre pudesse vender-se. E a filha vendida é menor de idade, porque o pai só pode fazer com ela o que pode fazer com os votos dela — e os votos ele só anula enquanto ela é menina (Números 30:4-6).
Maimônides (filósofo e jurista judeu nascido em Córdoba, século XII), no código em que organizou toda a lei judaica, o Mishné Torá ("Repetição da Lei"), fixou a regra que resume o espírito rabínico: o pai não pode vender a filha a menos que tenha empobrecido a ponto de não possuir nada — nem terra, nem bens móveis, "nem a roupa que veste" (Leis dos Escravos 4:2). A venda se fazia com dinheiro ou com um documento escrito pelo próprio pai, numa fórmula simples: "minha filha está vendida a você".
Nada disso está no versículo. É a forma que a tradição deu a ele, e mostra uma tendência constante: ler a lei como exceção para a miséria extrema, nunca como direito comum do pai.
O que Roma fez com o mesmo problema
O direito romano tardio enfrentou a mesma prática e oscilou. Em 294, um rescrito dos imperadores Diocleciano e Maximiano declarou "de direito manifesto" que os pais não podiam transferir os filhos a outro, nem por venda, nem por doação, nem como garantia (Código de Justiniano 4.43.1 — a coletânea de leis imperiais organizada no século VI). Em 329, Constantino abriu uma exceção: quem, "por excessiva pobreza e falta de sustento", vendesse um filho ou uma filha recém-nascidos, fazia uma venda válida — mas o vendedor, o próprio vendido ou qualquer outra pessoa podiam recuperar a liberdade dele oferecendo o preço ou um escravo em substituição (Código de Justiniano 4.43.2).
O desenho é parecido com o da lei hebraica: a venda tolerada por fome, a liberdade recuperável pelo preço. A diferença está no que vem depois. O versículo e os seguintes ligam a menina vendida a um casamento possível com o comprador ou com o filho dele; a lei romana não prevê nada disso.
A prática não desapareceu com as leis. Agostinho (bispo de Hipona, no norte da África, morto em 430), em cartas descobertas só no século XX e publicadas por Johannes Divjak em 1981, descreve traficantes que compravam crianças de pais pobres para revendê-las além-mar, e consulta um jurista, Eustóquio, sobre o que os pais podiam ou não vender dos filhos (Cartas 10* e 24*). O problema que Êxodo 21:7 regula atravessou o mundo antigo inteiro.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se um homem vender a sua filha"
O caso anterior começava pelo comprador: "se comprares um escravo hebreu" (Êxodo 21:2). Este começa pelo vendedor. A lei olha primeiro para o pai, e o que ela regula é o ato dele — o que ele pode fazer com a filha e até onde.
Por que a filha, e não o filho? O versículo não explica, e as respostas são deduções. A Mekhilta raciocina por exclusão: se o pai pudesse vender a filha, que adulta não é vendida pelo próprio furto, poderia com mais razão vender o filho, que adulto é vendido pelo furto (Êxodo 22:3); e, no entanto, o texto escreve "a sua filha" — logo, só a filha. É a regra tirada da letra, não a razão dela.
A razão mais provável está no resto do trecho. O comprador da menina "a tinha destinado para si" (Êxodo 21:8) ou a destina ao filho (Êxodo 21:9): a venda da filha está ligada a um casamento possível, e a do filho seria apenas servidão. Sforno (Obadias Sforno, médico e rabino italiano do século XVI) diz isso com todas as letras: não é próprio de um homem decente comprar uma menina israelita como serva contra a vontade dela; a venda só é aceitável se ela se tornar, ao chegar à idade, mulher do comprador ou do filho dele. Para Sforno, a lei não autoriza vender uma criada; autoriza entregar uma futura esposa com o pagamento adiantado.
"a sua filha"
De que idade? O versículo não diz. A tradição inteira responde "menor de idade", e chega lá por dois caminhos. O primeiro é o paralelo dos votos: o pai anula os votos da filha só enquanto ela está na casa dele, na mocidade (Números 30:4-6), e Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, poeta e comentarista nascido na Espanha, século XII) aplica o mesmo limite à venda. O segundo vem do versículo 11: se a menina vendida sai livre ao dar sinais de puberdade, como os rabinos leram ali, com mais razão a que já os deu não pode ser vendida. Rashi (Salomão ben Isaque, comentarista francês do século XI) resume: o texto fala de uma menor de doze anos.
É inferência sólida, mas inferência. O versículo diz "filha" e mais nada.
"como serva"
A palavra escolhida para a condição dela é a que o hebraico usa para a mulher escravizada que pode ser tomada como esposa ou ter filhos reconhecidos. Os comentaristas cristãos do século XIX tiraram daí a leitura que domina até hoje. Albert Barnes (comentarista norte-americano) diz que ela era vendida "com vistas a tornar-se esposa inferior, ou concubina"; Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães) falam em "governanta e concubina"; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) define a palavra como a escrava comprada "não só para o trabalho da casa, mas também para ser concubina do senhor".
A leitura rabínica é outra, e mais protetora: ela não é concubina, é noiva em potencial. Se o senhor a destina a si, ela se torna esposa com todos os direitos; se não, sai. As duas leituras descrevem a mesma situação de lugares diferentes. Uma vê o que a menina era no momento da venda; a outra, o que a lei obrigava que ela viesse a ser.
"ela não sairá como saem os escravos"
A frase parece clara e é a mais discutida do caso. De quais escravos se fala, e de que saída? Há três respostas.
Primeira leitura: ela não sai como os escravos estrangeiros, que ganham a liberdade quando o senhor lhes destrói um olho ou um dente. É a leitura da Mekhilta, seguida por Rashi e por Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII). A Mekhilta chega a ela por eliminação: ela não pode estar dizendo que a menina não sai no sétimo ano, porque Deuteronômio 15:12 manda libertar "o teu irmão hebreu ou a tua irmã hebreia". Sobra o olho e o dente de Êxodo 21:26-27.
Nachmânides pergunta por que o texto precisaria dizer isso, e cita uma resposta que transforma a frase em proteção. O autor das Halakhot Gedolot ("Grandes Leis", obra legal do período dos gaonim, por volta do século VIII) a contou entre as proibições da Torá: o senhor que, num acesso de raiva, quebra o dente da menina não pode simplesmente mandá-la embora. Tem de pagar a indenização e mantê-la em casa até o fim do prazo, "porque seria uma grande injustiça se, depois de lhe fazer perder um dente na sua ira, ele a mandasse sair de casa, quando ela esperava tornar-se sua mulher". A liberdade, que para o escravo estrangeiro é um ganho, para ela seria um despejo. Maimônides discordou e viu na frase só uma negação, sem força de proibição; Nachmânides defendeu as Halakhot Gedolot. A fraqueza da leitura é de ordem: o olho e o dente só aparecem dezenove versículos adiante, e quem lê o 21:7 ainda não sabe que escravos são esses.
Segunda leitura: ela não sai como os escravos hebreus do começo do capítulo, que saem no sétimo ano. É o sentido mais imediato, e Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) o adota em uma linha: ela não sai depois de seis anos, porque o patrão deve casar com ela. Nachmânides, no que chama de "sentido simples", desenvolve: se a menina agrada ao senhor e encontra graça diante dele, ele não pode mandá-la embora; deve tomá-la por mulher. A força da leitura é o contexto: os seis versículos anteriores repetem "sairá" e "sairá livre", e o 21:7 responde a eles. A dificuldade é Deuteronômio 15:17, que, depois de regular o escravo hebreu, diz "assim também farás à tua serva" — no Deuteronômio a mulher sai no sétimo ano como o homem. Para quem lê as duas leis como camadas diferentes da legislação, o Êxodo descreve a venda com vistas ao casamento e o Deuteronômio, uma servidão de trabalho igual para os dois sexos. A comparação entre as três leis do escravo está no estudo de Êxodo 21:2.
Terceira leitura: ela não sai só como eles — sai também de outro modo. O Talmude (Kiddushin 18a) e a Mishná (Kiddushin 1:2, a primeira coleção escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) dizem que a serva hebreia tem "um modo de saída a mais" que o escravo: os sinais de puberdade. Maimônides lista seis saídas para ela — os seis anos, o jubileu, o resgate com desconto, a carta de alforria, a morte do senhor e a puberdade — e o Targum de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica antiga, com acréscimos explicativos) já trazia uma lista parecida dentro da própria tradução do versículo. Nessa leitura, "não sairá como os escravos" quer dizer que a saída dela segue regras próprias.
As traduções grega e latina tomaram outro rumo: comparam a menina às escravas, e não aos escravos (item 10). A frase passa a dizer que ela não é uma escrava doméstica comum.
O limite
O versículo não diz a idade da menina, não diz se ela foi ouvida, não diz que a venda visa o casamento — isso aparece no versículo seguinte — e não diz de quais escravos se fala. A segunda leitura tem a seu favor o contexto imediato; a primeira, a harmonia com o Deuteronômio e a tradição rabínica inteira. Não é possível decidir pelo texto. O que se pode afirmar é que a frase separa a menina vendida de toda outra categoria de escravo, e que todas as leituras antigas usaram essa separação para protegê-la.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O pai. O sujeito do caso. A lei o trata como alguém que tem poder sobre a filha menor — o mesmo poder que lhe permite dá-la em casamento e anular os votos dela —, mas não poder ilimitado: a tradição só o deixa vender na miséria e o obriga a resgatar quando pode.
A filha. Não tem nome, não tem fala e, no versículo, não tem idade. É menina pela leitura de todos os comentaristas, e é o primeiro sujeito protegido do código que é mulher.
O comprador. Ainda sem rosto neste versículo; no seguinte ele vira "o seu senhor", e a lei passa a falar com ele.
Os escravos. O termo de comparação. Podem ser os hebreus de Êxodo 21:2-6, que saem no sétimo ano, ou os estrangeiros de Êxodo 21:26-27, que saem pela perda do olho ou do dente (item 3).
Lia e Raquel. As únicas filhas da Bíblia que dizem, com a própria voz, que o pai as vendeu (Gênesis 31:15). Falam de um casamento, não de uma servidão, e usam o verbo deste versículo como acusação.
As famílias de Jerusalém no tempo de Neemias. O único lugar em que a Bíblia narra a prática acontecendo: no século V a.C., judeus pobres dizem que já entregaram filhas à servidão para pagar dívidas e que não têm como resgatá-las (Neemias 5:5).
Lugares e eventos
A casa do comprador, para onde a menina vai, e a casa do pai, para onde ela pode voltar. Entre as duas, o ato que a tradição descreve com precisão: um pagamento em dinheiro, ou um documento escrito pelo pai, entregue diante de testemunhas.
5. Pontos de Ensino
1. A lei regula o que não proíbe. O texto não aprova nem condena a venda da filha; supõe que ela acontece e decide o que acontece depois. É o modo de todo o código.
2. O sujeito do caso é o pai. A lei começa pelo vendedor, e não pelo comprador, e limita o que ele pode fazer com a filha.
3. A venda estava ligada a um casamento possível. É o que separa a filha do filho e o que explica as regras dos versículos seguintes. Sforno chega a dizer que só nessa condição a venda é aceitável.
4. "Não sairá como os escravos" tem três leituras. Não sai pela perda do olho e do dente (Mekhilta, Rashi); não sai no sétimo ano, porque deve casar (Rashbam, o sentido simples de Nachmânides); ou sai de modos próprios, como a puberdade (a Mishná e Maimônides). O texto não permite decidir.
5. A tradição rabínica estreitou a lei até quase anulá-la. Só a menor, só o pai, só na miséria extrema, e com o preço sempre resgatável. A leitura protetora é tão antiga quanto a lei escrita que a conservou.
6. O problema não era só de Israel. Roma proibiu e depois tolerou a venda de filhos por fome, com direito de resgate; Agostinho ainda via crianças sendo vendidas por pais pobres no século V.
6. Aspectos Filosóficos
A lei de Êxodo 21:7 protege a menina vendida, e a protege de um jeito preciso: garante-lhe o lugar de esposa ou a volta para casa. Toda a proteção passa por um homem — o pai que vende, o senhor que a destina, o filho que a recebe. Ela é amparada como dependente, nunca como alguém que decide. Essa é exatamente a forma de proteção que Mary Wollstonecraft (escritora inglesa, 1759-1797) examinou e recusou.
Proteção não é direito
Em Reivindicação dos direitos da mulher (1792), Wollstonecraft escreve contra uma sociedade que educava as meninas para um único destino: casar bem. O argumento central é que essa educação, apresentada como cuidado, produz dependência. A mulher criada para agradar e para ser escolhida não aprende a sustentar-se nem a julgar por si, e por isso precisa de proteção a vida inteira — o que, por sua vez, justifica que continue sendo educada para agradar. O círculo se fecha sobre ela.
Numa frase que ficou famosa, ela diz que as mulheres, para subir no mundo, precisam "casar vantajosamente", e que a esse objetivo se sacrifica o tempo delas, e as suas pessoas são, muitas vezes, "legalmente prostituídas". A expressão é dura de propósito. Wollstonecraft não acusa as mulheres; acusa um arranjo em que o corpo de uma moça é a moeda com que a família melhora de posição, e em que a lei chama isso de casamento.
E ela diz o que queria no lugar: "não desejo que elas tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas". O que falta à mulher, para Wollstonecraft, não é um protetor melhor. É a capacidade reconhecida de decidir.
O marido que vende
No romance que deixou inacabado, Maria, ou os males da mulher (publicado em 1798, depois da sua morte), Wollstonecraft leva o argumento à ficção. A protagonista descobre que o marido tentou entregá-la a um conhecido em troca de dinheiro, e, quando foge, descobre também que a lei inglesa não lhe dá saída: os bens, a filha e a própria pessoa dela pertencem ao marido. "O casamento me aprisionou para a vida", diz Maria. O romance é a sua tese posta em cena: a mulher que só tem proteção, e não direitos, fica à mercê do protetor quando ele deixa de proteger.
O que essa leitura mostra no versículo
Lida com os olhos de Wollstonecraft, a lei do Êxodo tem as duas faces que ela descreveu. De um lado, é proteção real: a menina vendida não pode ser tratada como criada qualquer, não pode ser revendida, não pode ser despedida sem destino. De outro, nenhuma dessas garantias depende dela. O pai decide a venda, o senhor decide a destinação, a lei decide a saída. A menina aparece no versículo como objeto do verbo "vender".
A tradição rabínica, curiosamente, deu um passo na direção que Wollstonecraft pediria. O Talmude lê o verbo do versículo seguinte, "destinar", como "informar": o senhor não pode tomá-la por esposa sem que ela saiba e consinta (Kiddushin 19a). E a própria lei faz da puberdade uma saída — o momento em que a menina deixa de ser menina é o momento em que deixa de poder ser mantida. É pouco diante do que Wollstonecraft queria; mas mostra que, dentro da tradição, a pergunta "e ela?" já era feita.
Wollstonecraft não escreveu sobre este versículo, e a aproximação é uma leitura. Ela ajuda a ver o que a lei faz e o que ela não faz: protege a filha vendida, mas a protege como quem guarda um bem de família, e não como quem reconhece alguém capaz de escolher.
7. Aplicações Práticas
A miséria que entrega as filhas primeiro. A cadeia descrita no Talmude — os móveis, o campo, a casa e, no fim, a filha — não é peça de museu. Em muitos lugares, quando a família não tem mais o que vender, é a menina que sai de casa: casada cedo para aliviar a despesa, ou mandada trabalhar numa casa alheia. No Brasil, a figura da "filha de criação", a menina do interior levada para a cidade para "ajudar" numa família em troca de casa e comida, repetiu por gerações o mesmo arranjo, sem pagamento ao pai, mas com a mesma lógica: a filha como o recurso que ainda resta. A lei do Êxodo parte de que isso acontece; a pergunta prática que ela deixa é que limites e que saídas uma sociedade garante a essa menina.
A dívida que diminui e a que cresce. O argumento do Talmude para explicar por que a venda da filha vinha antes do empréstimo a juros é uma lição de finanças domésticas: uma dívida paga com trabalho, que diminui a cada ano, é menos ruinosa que uma dívida com juros, que só aumenta. Quem já viu uma família afundar em crédito caro reconhece o raciocínio — e reconhece também que, para os mestres, o juro era a última e a pior das saídas.
A proteção que não pergunta. A lei cuida da menina sem perguntar o que ela quer. Quem decide por alguém mais fraco — pais por filhos, tutores por tutelados, instituições por quem depende delas — pode tirar daqui uma pergunta simples: a proteção que eu ofereço deixa a pessoa mais capaz de decidir, ou só a mantém dependente de mim?
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que a lei não proíbe simplesmente a venda da filha?
O código inteiro trabalha assim: parte das práticas existentes e as limita. Não proíbe a escravidão por dívida, regula o prazo; não proíbe a vingança do sangue, cria o lugar de refúgio. Uma lei que proibisse a venda numa sociedade em que famílias passavam fome talvez fosse simplesmente ignorada, e deixaria a menina sem nenhuma garantia. É uma explicação plausível, mas é dedução; o texto não dá a razão da escolha.
2. Os israelitas de fato vendiam as filhas?
A Bíblia narra a prática uma vez, no tempo de Neemias, quando famílias pobres de Jerusalém dizem que algumas das suas filhas já estão sujeitas à servidão (Neemias 5:5). Neemias reage com indignação e obriga os credores a devolver o que tinham tomado. Fora disso, há a lei e a memória rabínica dela. Não é possível saber com que frequência a venda acontecia.
3. A menina era consultada?
Não no momento da venda: era menor, e a lei a trata como sujeita ao pai. A tradição rabínica exigiu o consentimento dela num momento posterior — quando o senhor a tomasse por esposa —, e fez da puberdade uma saída automática. O versículo, sozinho, não fala da vontade dela.
4. Essa lei ainda tem valor no judaísmo?
Não como lei aplicada. O Talmude ensina que a servidão do hebreu só vigora enquanto vigora o jubileu (Arakhin 29a), e o jubileu deixou de ser observado ainda na Antiguidade. Para a lei rabínica, a instituição está suspensa há mais de dois milênios; o que restou dela foi o estudo — e, como se verá no versículo 10, a base de direitos que passaram a valer para toda esposa.
5. E se o pai morresse, fugisse ou nunca tivesse como resgatá-la?
O versículo não prevê o caso. Maimônides responde com a regra rabínica: se o pai fugiu, morreu ou não tem recursos, a menina trabalha até que chegue uma das saídas previstas — o fim do prazo, o jubileu, a puberdade, a morte do senhor. A obrigação de resgatá-la era do pai; na falta dele, o que a protegia era o relógio da própria lei.
9. Conexão com Outros Textos
A lei dos escravos que vem antes
Êxodo 21:2 — "Se comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; e no sétimo sairá livre, sem pagar nada."
O caso de que a filha vendida se distingue, se a frase "como saem os escravos" se refere aos hebreus.
Êxodo 21:26-27 — "Se alguém ferir o olho do seu escravo ou o olho da sua escrava e o destruir, o deixará ir livre em troca do olho. E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava, o deixará ir livre em troca do dente."
A outra saída possível — a que a Mekhilta e Rashi leem aqui.
A outra versão da lei
Deuteronômio 15:12 — "Se o teu irmão hebreu ou a tua irmã hebreia te for vendido, ele te servirá seis anos, e no sétimo ano o deixarás ir livre."
Deuteronômio 15:17 — "Então tomarás uma sovela e lhe furarás a orelha junto à porta, e ele será teu escravo para sempre; e assim também farás à tua serva."
Aqui a mulher sai no sétimo ano e pode ficar para sempre, exatamente como o homem. É o texto que obrigou os rabinos a ler o 21:7 de outro modo.
O poder do pai sobre a filha
Números 30:4-6 — "Quando uma mulher fizer um voto ao SENHOR e se obrigar a alguma abstinência, estando na casa de seu pai, na sua mocidade, e o pai ouvir o voto e não lhe disser nada, todos os votos dela serão válidos. Mas, se o pai a desaprovar no dia em que o ouvir, nenhum dos votos dela será válido."
O paralelo de que a Mekhilta e Ibn Ezra tiram a idade da menina: o pai pode vender quem ele pode desobrigar.
Gênesis 31:15 — "Não fomos tratadas por ele como estrangeiras? Pois ele nos vendeu e ainda consumiu o nosso dinheiro."
O mesmo verbo, na boca de duas filhas que se sentiram vendidas num casamento.
A prática narrada
Neemias 5:5 — "A nossa carne é como a carne dos nossos irmãos, e os nossos filhos como os filhos deles; e, no entanto, sujeitamos os nossos filhos e as nossas filhas à servidão, e algumas das nossas filhas já estão sujeitas, e não temos como resgatá-las, porque os nossos campos e as nossas vinhas pertencem a outros."
A cadeia do Talmude em forma de queixa: os campos já se foram, e as filhas foram depois.
Joel 3:3 — "Lançaram sortes sobre o meu povo; deram um menino em troca de uma prostituta e venderam uma menina por vinho, e beberam."
A venda de crianças como sinal extremo de desprezo — aqui feita por inimigos, e denunciada pelo profeta.
Amós 2:6 — "Por três transgressões de Israel, e por quatro, não revogarei o castigo, porque vendem o justo por prata e o necessitado por um par de sandálias."
A venda de pessoas pobres como o primeiro crime que o profeta aponta em Israel.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se um homem vender a sua filha como serva, ela não sairá como saem os escravos.
Texto hebraico
וְכִי־יִמְכֹּר אִישׁ אֶת־בִּתּוֹ לְאָמָה לֹא תֵצֵא כְּצֵאת הָעֲבָדִים׃
Transliteração
ve-khi-yimkor ish et-bitto le-amah, lo tetse ke-tset ha-avadim.
Análise palavra por palavra
וְכִי — ve-khi, "e se", "e quando".
A mesma partícula que abriu o caso do escravo em Êxodo 21:2 (ki tiqneh, "se comprares"). No Código da Aliança, ki introduz o caso principal, e im, "se", as variantes dele — é o que acontece nos versículos 8 a 11, todos abertos com im. O "e" inicial liga a filha ao escravo: é a segunda lei de uma mesma série.
יִמְכֹּר אִישׁ — yimkor ish, "vender um homem", "um homem vender".
O verbo makhar, "vender", no imperfeito, terceira pessoa do masculino singular — o verbo comercial comum, usado para terra, animais e pessoas. O sujeito é ish, "homem", que a Mekhilta lê no sentido estrito: "homem", e não "mulher". Em 21:2 o verbo era qanah, "adquirir", visto do lado do comprador; aqui é makhar, visto do lado de quem vende.
אֶת־בִּתּוֹ — et-bitto, "a sua filha".
Bat, "filha", com o sufixo de terceira pessoa ("dele"). O et marca o objeto direto definido. O hebraico não acrescenta nenhum qualificativo — nem "pequena", nem "jovem". A idade vem da interpretação.
לְאָמָה — le-amah, "como serva", "para ser serva".
A preposição le indica a finalidade ou a condição resultante: vendida "para" a condição de amah. A palavra é uma das duas que o hebraico tem para a mulher escravizada, e a que aparece quando há perspectiva de casamento ou de filhos reconhecidos; a discussão sobre a diferença entre as duas está no estudo de Gênesis 30:4.
לֹא תֵצֵא — lo tetse, "não sairá".
Yatsa, "sair", no imperfeito, terceira pessoa do feminino singular, com a negação das regras permanentes. É o verbo da libertação em todo o trecho: o escravo "sairá livre" (21:2), "sairá sozinho" (21:3), "não sairei livre" (21:5). E é o verbo do Êxodo inteiro, o da saída do Egito. A primeira frase sobre a menina usa a palavra-chave do livro na negativa.
כְּצֵאת הָעֲבָדִים — ke-tset ha-avadim, "como o sair dos escravos", "como saem os escravos".
Ke-, "como", com o infinitivo construto de yatsa (tset), e ha-avadim, "os escravos", plural de eved com artigo. O artigo aponta para escravos conhecidos — o que alimenta a discussão sobre quais. Nachmânides acrescenta um argumento de uso: na Torá, o escravo hebreu é sempre chamado "escravo hebreu", e eved sem qualificação indicaria o estrangeiro; daí ele concluir que a frase se refere aos escravos não israelitas.
As traduções antigas
A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) chama a menina de oiketis, "doméstica", "da casa", e diz que ela não sairá hōsper apotrechousin hai doulai, "como partem as escravas" — no feminino. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) faz o mesmo: non egredietur sicut ancillae exire consueverunt, "não sairá como as servas costumam sair". As duas trocaram o termo de comparação: a menina não é comparada aos homens escravizados, mas às mulheres escravizadas comuns, de quem ela se distingue. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) mantém o masculino, ke-mafqanut avdaya, "como a saída dos escravos".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo trata a venda da filha como fato, e não como direito: ele não a autoriza nem a proíbe, mas a tira do regime comum da escravidão logo na primeira frase. Seja qual for a leitura de "não sairá como saem os escravos", a menina vendida fica numa categoria própria, com regras próprias.
A segunda é que a lei existe por causa da miséria e foi lida como lei da miséria. Os mestres a confinaram à menor de idade, ao pai sem mais nada, ao preço sempre resgatável — e, no Talmude, a venda da filha aparece como o penúltimo degrau de uma família que afunda. O texto não diz isso, mas é a leitura que lhe dá sentido.
A terceira é que a proteção oferecida é real e tem limite. A menina é amparada contra o despejo, contra a revenda, contra o tratamento de criada comum; não é amparada contra a decisão do pai. O versículo a protege como filha de alguém, e é a partir dessa forma de proteção que se mede, ao mesmo tempo, o que a lei fez e o que ela não chegou a fazer.













