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Gênesis 30:4

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 45 acessos
E lhe deu por mulher a sua serva Bila, e Jacó se deitou com ela.
Acampamento de pastores ao anoitecer, com tendas de tecido escuro dispostas em semicírculo e uma pequena fogueira acesa entre elas.

Estudo


E lhe deu por mulher a sua serva Bila, e Jacó se deitou com ela.

1. Introdução

O plano sai do papel em uma linha.

Não há discussão, não há resposta de Jacó, não há intervalo. O versículo anterior trouxe a proposta; este traz a execução, com dois verbos e nada mais.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é quem age. O sujeito do verbo é Raquel: ela deu. Jacó aparece como quem recebe, e Bila como o que é entregue.

O segundo é a expressão "por mulher". Bila não é dada apenas para gerar: é dada como esposa, com a mesma fórmula usada nos casamentos do livro. E o Gênesis, mais adiante, a chamará de outra coisa.

O terceiro é o silêncio de Jacó. Dois versículos antes ele explodiu numa questão de teologia. Aqui, diante de uma proposta que muda a composição da casa, não diz uma palavra.

O versículo é curto e quase todo feito de coisas que não estão nele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Esposa, esposa secundária, concubina

O que significa "dar por mulher" naquele mundo não é o que a palavra "casamento" evoca hoje, e a diferença tem consequências jurídicas.

Numa casa patriarcal do antigo Oriente Médio havia degraus. No alto, a esposa principal, entregue pela família mediante acordo entre as duas casas e, em geral, com pagamento do noivo ao pai da noiva. Abaixo dela, esposas secundárias, tomadas sem o mesmo aparato. E abaixo ainda, a concubina — mulher que vivia com o homem e tinha filhos dele, sem a posição nem a proteção da esposa.

Os degraus não eram estanques e variavam de lugar para lugar. O que os documentos mostram com clareza é que a posição da mulher determinava a posição dos filhos dela na herança, e que a esposa principal tinha instrumentos legais para defender esse arranjo.

Bila entra por um caminho lateral. Não houve acordo entre famílias, não houve pagamento, não houve festa — o contraste com Gênesis 29:22, onde Labão reúne todos os homens do lugar para o casamento de Lia, é gritante.

A palavra que o texto usa aqui, e a que usará depois

Este é o dado mais interessante do versículo, e ele só aparece quando se lê o Gênesis inteiro.

Aqui, Bila é dada "por mulher" — a fórmula normal de casamento, a mesma de Gênesis 16:3, quando Sarai entrega Agar a Abrão. Gênesis 37:2 confirma, ao chamar Bila e Zilpa de "mulheres" de Jacó.

Mas Gênesis 35:22 a chama de concubina de Jacó, usando o termo específico para essa posição. E Gênesis 33:2, quando a família se apresenta diante de Esaú, mostra a ordem prática da casa: as duas servas e seus filhos na frente, Lia e os dela em seguida, Raquel e José por último — o mais protegido é o mais valioso.

Como conciliar? Há três leituras, e não é possível decidir entre elas.

A primeira é que os termos eram elásticos, e que uma mesma mulher podia ser chamada de esposa num contexto e de concubina em outro, conforme o que se quisesse acentuar.

A segunda é que a posição de Bila mudou com o tempo — dada como esposa no arranjo com Raquel, tratada como concubina depois da morte de Raquel, quando o episódio de Gênesis 35:22 acontece.

A terceira é que os relatos vêm de mãos diferentes e usam vocabulários diferentes, hipótese corrente entre estudiosos e que não se pode confirmar pelo texto.

O que se pode afirmar é o efeito prático: os filhos de Bila entram na lista das doze tribos em pé de igualdade com os demais, e a posição jurídica ambígua da mãe não os prejudica.

Uma esposa que entrega outra

Convém registrar a estranheza da cena para não naturalizá-la.

Quem promove este casamento é a primeira mulher. Ela escolhe a segunda, apresenta ao marido e efetua a entrega. Não há intermediário, não há família da noiva, não há consentimento a ser obtido.

Isso era possível porque a serva era propriedade da senhora, e o costume tratado no versículo anterior previa exatamente esse uso. Do ponto de vista jurídico, Raquel está dispondo do que é dela.

Do ponto de vista humano, o versículo põe uma pessoa na posição de objeto de uma transação entre duas outras — e o faz sem comentário, com um verbo só.

3. Análise Teológica do Versículo

"E lhe deu por mulher a sua serva Bila"

O verbo é o de dar, e o sujeito é Raquel.

Vale ler a frase com atenção à ordem das peças. Quem dá é Raquel. Quem recebe é Jacó. O que se dá é Bila. Numa frase de nove palavras, uma pessoa ocupa a posição gramatical de objeto.

Não se trata de exagero de leitura moderna: é a estrutura da frase hebraica, e ela é a mesma de Gênesis 16:3, onde Sarai "tomou" Agar e "deu" ao marido. O Gênesis descreve essas transações com os verbos das transações.

Há uma troca de palavra que merece nota. No versículo anterior, Raquel chamou Bila de amah ("serva", em hebraico); aqui o texto usa shifchah ("escrava", o termo mais comum para a criada da casa). É o texto que muda o termo, não a personagem — e o que isso significa, se é que significa algo, fica para o item 10.

"por mulher"

Esta é a expressão que impede uma leitura fácil da cena.

Bila não é entregue como instrumento temporário. É dada como esposa, com a fórmula que o livro usa para casamentos — a mesma de Gênesis 16:3 e a mesma que aparecerá no versículo 9, quando Lia fizer o mesmo com Zilpa.

Isso corta pelos dois lados, e é honesto dizer os dois.

De um lado, é uma proteção. Uma esposa tem posição na casa; uma escrava usada não tem nada. A fórmula dá a Bila um lugar que ela não teria sem ela, e é possivelmente por isso que está ali.

De outro, o casamento não muda o que a cena é. Ninguém perguntou nada a ela, e a mulher que a entrega é a mesma de quem ela é propriedade. Um casamento em que uma das partes não pode dizer não é casamento no nome.

O Gênesis não resolve essa tensão. Registra a fórmula e segue — e depois, em Gênesis 35:22, usará outra palavra para descrever a mesma pessoa.

"e Jacó se deitou com ela"

A segunda metade do versículo é a expressão velada do hebraico para a relação sexual, a mesma que Raquel usou no imperativo, no versículo anterior.

Duas coisas chamam a atenção.

A primeira é a obediência. Raquel ordenou "deite-se com ela", e o texto responde com o mesmo verbo, no passado. A ordem foi cumprida ao pé da letra, sem alteração.

Isso é notável porque contradiz o versículo 2. O homem que se irou quando lhe pediram o impossível não abre a boca quando lhe pedem o possível. Uma leitura defensável é que o próprio Jacó reconhecia a legitimidade do costume, e não havia o que discutir. Outra, também defensável, é que a proposta lhe convinha. O texto não diz.

A segunda é a ausência de qualquer palavra dele. Em todo o episódio de Bila, do versículo 3 ao 8, Jacó não fala uma vez. Fala no versículo 2, com raiva, e depois cala até o fim da cena.

Vale notar o que essa distribuição produz. Quem decide é Raquel, quem nomeia os filhos é Raquel, quem interpreta o que aconteceu é Raquel. Jacó executa. Bila gera. O capítulo, deste ponto até o versículo 24, é conduzido pelas mulheres da casa.

O que o versículo não registra

É preciso dizer o que falta, porque a falta é a matéria da cena.

Não há reação de Bila. Não há descrição do ambiente, nem do tempo decorrido, nem de conversa nenhuma. Não há juízo do livro sobre o que acabou de acontecer.

Também não há sinal de que Lia tenha sabido — embora ela vá reagir, cinco versículos adiante, fazendo exatamente o mesmo.

Essa economia é característica do Gênesis, e não é neutra. Ao narrar uma cena assim em uma linha, o texto a apresenta como corriqueira. Se isso é aceitação do costume ou apenas o modo de contar do livro é matéria em disputa, e não se decide por este versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Bila

Passa aqui, em uma frase, da condição de escrava de Raquel à de esposa de Jacó — sem que o texto registre deslocamento, cerimônia ou palavra dela.

A partir deste ponto ela terá dois filhos, nos versículos 5 a 8, e depois desaparecerá do capítulo. Nas listas posteriores continuará identificada como "serva de Raquel", em Gênesis 35:25 e Gênesis 46:25 — a nova posição não apaga a antiga.

Raquel

Age sozinha. Ninguém a autoriza, ninguém a impede, e o marido não opina.

É o ponto do capítulo em que ela tem mais poder, e é bom notar de onde esse poder vem: não do amor de Jacó, que não lhe serviu de nada nos dois versículos anteriores, mas da propriedade sobre outra pessoa.

Jacó

Aqui ele é sujeito de um verbo e de nenhuma fala. É a terceira mulher da casa, e o texto não registra nem hesitação nem entusiasmo.

Vale lembrar o ponto de partida: Jacó trabalhou catorze anos por uma mulher. Termina com quatro.

Sarai e Agar

O precedente, tratado no versículo anterior. A frase de Gênesis 16:3 é praticamente idêntica a esta: Sarai tomou a serva e a deu ao marido por mulher.

A diferença de detalhe vale o registro. Ali o texto informa quanto tempo Abrão estava em Canaã — dez anos — antes de a solução ser adotada. Aqui não há indicação de tempo nenhuma.

Zilpa

Ainda não apareceu, e aparecerá no versículo 9 pela mesma porta. Serva de Lia, dada por Labão à filha em Gênesis 29:24, será entregue a Jacó com a mesma fórmula deste versículo.

As duas mulheres seguirão juntas no restante do relato, sempre nomeadas em par e sempre sem fala.

5. Pontos de Ensino

A execução costuma ser mais curta que a decisão

Foram três versículos de sofrimento, briga e negociação para chegar aqui. A execução ocupa uma linha.

É assim que funciona: o difícil é decidir; depois de decidido, a coisa acontece rápido e sem cerimônia. Isso vale como advertência prática — o momento de pensar é antes, porque depois não haverá momento.

Quem cala numa decisão participa dela

Jacó não propõe, não discute, não se opõe. Só faz.

A tentação é ler o silêncio dele como neutralidade. Não é: o versículo registra que ele agiu. Quem discutiu teologia dois versículos antes escolheu não discutir este assunto, e essa escolha é dele.

Vale para qualquer arranjo do qual alguém participa sem ter proposto. Não propor não é o mesmo que não fazer parte.

Poder é relativo, e quem tem pouco costuma usá-lo para baixo

Raquel é a parte fraca diante do marido, e a parte forte diante de Bila. O versículo mostra as duas coisas na mesma frase.

Esse é um mecanismo reconhecível: a pressão sofrida de cima costuma descer. Quem não consegue resolver o que sofre com quem o sofrimento vem, resolve com quem está abaixo.

Notar isso não exige condenar Raquel. Exige perceber a estrutura, que é a mesma em qualquer época.

Uma formalidade pode proteger — e pode encobrir

Chamar o arranjo de casamento dá a Bila uma posição jurídica que ela não teria de outro modo. É proteção real.

E a mesma formalidade faz a cena parecer regular. Um casamento em que uma das partes não pode recusar tem a forma do casamento e não tem a substância.

Isso ensina a desconfiar de nomes bem escolhidos. Nem sempre o nome mente; às vezes ele protege. Mas nunca é ele que decide o que a coisa é.

6. Aspectos Filosóficos

A questão de fundo: o que significa uma linha assim

Este versículo não levanta um problema filosófico próprio. Levanta uma questão de leitura, e ela é anterior a qualquer filosofia: o que significa que uma coisa dessas seja contada em uma frase?

Vale enfrentá-la, porque é a pergunta que qualquer leitor honesto faz ao chegar aqui.

Narrar não é aprovar

A primeira coisa a separar é o registro do endosso.

O Gênesis conta muita coisa que não recomenda. Conta que Abraão apresentou a mulher como irmã, duas vezes, pondo-a em risco. Conta que Ló ofereceu as filhas à multidão. Conta que Jacó enganou o pai cego. Em nenhum desses casos o livro interrompe a narrativa para dizer que aquilo estava errado.

O modo do Gênesis é outro: ele mostra as consequências. O engano de Jacó lhe custou vinte anos de exílio e um sogro que o enganou de volta. A solução de Sarai produziu conflito e expulsão. A deste versículo produzirá a disputa que ocupa o resto do capítulo.

Quem procura no Gênesis um veredito explícito quase nunca encontra. Quem procura o resultado, encontra sempre.

O silêncio como informação

A segunda coisa é reconhecer que o texto omite deliberadamente.

O Gênesis sabe descrever sentimentos quando quer. Diz que Jacó amou Raquel, que os anos lhe pareceram poucos dias, que Esaú chorou em alta voz, que José se retirou para chorar. A economia deste versículo não é incapacidade: é escolha.

O que se conclui disso é limitado e vale. Não se pode dizer que o livro seja indiferente a Bila — ele não diz nada sobre ela. Também não se pode dizer que ele a defenda. O que se pode dizer é que a cena está registrada com todas as suas peças à vista, e que essa é a condição para que alguém, depois, a examine.

Ler sem anacronismo e sem cumplicidade

Aqui está a dificuldade prática, e ela não tem solução limpa.

Julgar Raquel pelos critérios de hoje é anacronismo: ela agiu dentro do único mecanismo que o direito da época lhe oferecia, e ninguém à volta dela veria problema nisso.

Mas suspender qualquer juízo, alegando que "era o costume", é a outra armadilha. O costume não era natural — era um arranjo criado por gente, que beneficiava uns e custava caro a outros, e que o próprio código de Hamurabi teve de regular porque produzia conflito.

O caminho possível é ficar com as duas coisas. A cena é compreensível dentro do mundo dela, e o custo humano do arranjo é visível para quem lê com atenção. As duas afirmações são verdadeiras e não se anulam.

É plausível, aliás, que o próprio Gênesis conte assim de propósito. Ele repete a mesma cena três vezes — Agar, Bila, Zilpa — e as três terminam em conflito. Se isso é comentário calado ou apenas o registro do que acontecia, não é possível decidir.

7. Aplicações Práticas

Notar quem não foi ouvido

A aplicação mais direta é de leitura, e serve fora do texto.

Em qualquer decisão — de família, de trabalho, de igreja — vale a pergunta: quem está sendo afetado e não foi consultado? Nem sempre é possível consultar todos, e nem toda decisão precisa de assembleia. Mas saber quem ficou de fora muda a qualidade da decisão.

No versículo, essa pessoa é a única que não fala. Costuma ser assim.

Cuidado com a decisão que só depende de você

Raquel podia fazer isto sozinha. Não precisava de autorização, não precisava de acordo, não precisava explicar.

Facilidade não é sinal de acerto. Ao contrário: as decisões que ninguém pode barrar são exatamente as que exigem mais cuidado próprio, porque não haverá freio externo.

Vale o hábito de criar o freio por conta: contar a alguém antes, esperar um dia, escrever o que se pretende fazer e reler no dia seguinte.

Fazer não é concordar, mas responde igual

Jacó não propôs nada e fez tudo.

Isso aparece em ambiente de trabalho com frequência: alguém executa uma decisão que não tomou, com a sensação de que a responsabilidade é de quem decidiu. Em parte é. Mas quem executou executou.

O aprendizado prático é registrar a discordância quando ela existe — e reconhecer, quando não existe, que o silêncio foi concordância.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jacó não disse nada?

O texto não explica, e o contraste com a explosão do versículo 2 é o que torna a pergunta inevitável.

As explicações possíveis são todas plausíveis e nenhuma é demonstrável: o costume era corrente e não havia o que objetar; a raiva já tinha passado; o arranjo lhe convinha; ou o Gênesis simplesmente não se interessou pela reação dele.

Bila passou a ser esposa de verdade?

A fórmula usada aqui é a do casamento, e Gênesis 37:2 a inclui entre as mulheres de Jacó.

Por outro lado, Gênesis 35:22 a chama de concubina, e as listas de descendentes continuam a identificá-la como serva de Raquel. A posição dela é ambígua no próprio livro, e é discutido se a ambiguidade é do vocabulário, da situação ou da história do texto.

Os filhos dela sofreram alguma desvantagem?

Não na lista das tribos. Dã e Naftali entram entre os doze sem marca nenhuma, recebem território e são abençoados por Jacó em Gênesis 49 como os demais.

Na prática da casa, porém, Gênesis 33:2 mostra a hierarquia: diante do perigo, as servas e seus filhos vão à frente. E Gênesis 37:2 registra que José, ainda jovem, levava más notícias a respeito dos filhos delas ao pai.

São indícios, não um quadro completo. O texto não diz o que essa posição significava no dia a dia.

Onde estava Lia enquanto isso?

O texto não a menciona, e não informa se ela soube.

O que se pode observar é a reação: no versículo 9, ao ver que havia parado de dar à luz, ela faz exatamente o mesmo com a própria serva. A resposta pressupõe que ela viu o que aconteceu — mas o Gênesis não narra o momento em que ela ficou sabendo.

9. Conexão com Outros Textos

A frase quase idêntica

Gênesis 16:3 — "Assim tomou Sarai, mulher de Abrão, a Agar, egípcia, sua serva, e deu-a por mulher a Abrão, seu marido."

O mesmo verbo, a mesma fórmula, a mesma estrutura. A diferença é que ali o texto informa o tempo decorrido, e aqui não.

A mesma cena, do outro lado da casa

Cinco versículos adiante, com as mesmas palavras. O costume será usado pelas duas irmãs.

A origem das duas servas

Gênesis 29:24 — "E Labão deu sua serva Zilpa por serva a Lia, sua filha."

Gênesis 29:29 — "E Labão deu a Raquel, sua filha, a Bila, sua serva, por serva."

Os dois versículos são simétricos e usam a linguagem da transferência de propriedade.

A posição de Bila nas listas

Gênesis 35:22 — "E aconteceu que, habitando Israel naquela terra, foi Rúben e deitou-se com Bila, concubina de seu pai; e Israel o soube."

Aqui ela é chamada de concubina, e não de mulher. É a passagem que torna a posição dela ambígua no próprio livro.

Gênesis 37:2 — "sendo ainda jovem, apascentava as ovelhas com seus irmãos, os filhos de Bila e os filhos de Zilpa, mulheres de seu pai."

E aqui, o oposto: as duas são chamadas de mulheres de Jacó.

Gênesis 46:25 — "Estes são os filhos de Bila, a qual Labão deu à sua filha Raquel; e ela deu à luz estes a Jacó."

A lista final do livro identifica Bila pela origem e pela dona, e registra que foi ela quem deu à luz.

A hierarquia da casa em ação

Gênesis 33:2 — "E pôs as servas e seus filhos na frente, e a Lia e seus filhos atrás, e a Raquel e a José os derradeiros."

Diante da possibilidade de violência, a ordem da fila diz o que cada um valia na casa.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E lhe deu por mulher a sua serva Bila, e Jacó se deitou com ela.

Texto hebraico

וַתִּתֶּן־לוֹ אֶת־בִּלְהָה שִׁפְחָתָהּ לְאִשָּׁה וַיָּבֹא אֵלֶיהָ יַעֲקֹב

Transliteração

vattitten-lo et-Bilhah shifchatah le-ishah, vayyavo eleha Ya'aqov.

Análise palavra por palavra

וַתִּתֶּן־לוֹ — vattitten-lo, "e ela deu a ele".

O verbo é natan, dar, entregar, conceder — um dos mais frequentes do hebraico. O sujeito está no feminino singular e não é nomeado: é Raquel, retomada do versículo anterior.

Vale notar que o mesmo verbo aparece três vezes em poucos versículos, sempre com pessoas por objeto. Labão "deu" Bila a Raquel, em Gênesis 29:29. Raquel "dá" Bila a Jacó, aqui. Lia "dará" Zilpa a Jacó, no versículo 9. É o vocabulário da transferência de propriedade, e o texto não o disfarça.

אֶת־בִּלְהָה — et-Bilhah, "a Bila".

A partícula et não se traduz: ela apenas marca que a palavra seguinte é o objeto direto do verbo. É um detalhe gramatical banal, e neste versículo ele tem um efeito que vale registrar: a marca gramatical do objeto está diante do nome de uma pessoa.

שִׁפְחָתָהּ — shifchatah, "sua escrava". De shifchah, com sufixo possessivo feminino.

Aqui está a troca de palavra em relação ao versículo anterior, onde Raquel disse amah.

As duas palavras designam a mulher escravizada da casa e aparecem, muitas vezes, em contextos intercambiáveis. Há, porém, uma tendência observável, e ela é discutida há muito tempo sem conclusão firme.

Shifchah é o termo mais comum e mais neutro: a criada, a que serve. Aparece em Gênesis 16:1 para Agar, e é a palavra que Ana usa ao falar de si diante de Eli, em 1 Samuel 1:18.

Amah tende a aparecer onde há alguma perspectiva de posição — casamento, filhos reconhecidos, direitos. Êxodo 21:7-11 legisla sobre a filha vendida como amah e lhe garante alimento, vestuário e convívio conjugal. Rute usa esse termo, e não o outro, ao pedir a Boaz que a tome sob a sua proteção, em Rute 3:9.

Aplicado ao versículo, o dado é curioso: Raquel usa a palavra mais alta, amah, quando propõe; o texto usa a mais baixa, shifchah, quando narra a entrega.

É possível que a diferença seja apenas estilística, e vários estudiosos assim entendem. É possível também que a escolha marque o contraste entre o modo como Raquel apresenta o arranjo e o que ele de fato é. Não é possível decidir, e convém não construir demais sobre uma variação de vocabulário.

לְאִשָּׁה — le-ishah, "por mulher", "como esposa".

Ishah é a palavra hebraica para mulher e para esposa: a língua não distingue as duas coisas, e o contexto decide. Com a preposição le, a expressão significa "na condição de esposa" e é a fórmula corrente do casamento.

Ela aparece em Gênesis 12:19, quando Faraó devolve Sara a Abrão; em Gênesis 16:3, no caso de Agar; em Gênesis 24:67, quando Isaque toma Rebeca; e em Gênesis 34:8, na proposta feita por Siquém a respeito de Diná.

É importante notar o que a fórmula não diz. Ela não descreve rito, não menciona pagamento e não pressupõe consentimento da mulher. Descreve a posição jurídica que ela passa a ocupar.

O hebraico tem outro termo, pilegesh, para a concubina — a mulher que vive com o homem sem a posição de esposa. Esse termo não aparece aqui, mas será aplicado a Bila em Gênesis 35:22.

וַיָּבֹא אֵלֶיהָ יַעֲקֹב — vayyavo eleha Ya'aqov, "e entrou a ela Jacó".

É a expressão velada do hebraico para a relação sexual, com o verbo bo, ir, entrar. Raquel a usara no imperativo, no versículo anterior; aqui ela retorna no passado, com Jacó por sujeito.

A repetição exata da fórmula tem um efeito de leitura: a ordem e o cumprimento usam as mesmas palavras, e nada foi acrescentado entre uma coisa e outra.

Note-se ainda a ordem das palavras. O hebraico põe o verbo primeiro e o nome de Jacó por último, depois do complemento. É a ordem normal da língua, e produz aqui um efeito discreto: a ação vem antes de quem a pratica.

11. Conclusão

Do versículo decorrem três conclusões.

A primeira é sobre a distribuição dos papéis. Numa frase de nove palavras, Raquel é sujeito, Jacó é destinatário e Bila é objeto — e essa não é uma leitura imposta ao texto, é a estrutura da frase. Disso decorre que o Gênesis descreve a cena com o vocabulário das transações, e que quem lê com atenção não precisa de nenhuma teoria externa para perceber o que está acontecendo.

A segunda é sobre a fórmula do casamento. Chamar Bila de esposa lhe dá uma posição que ela não teria de outro modo, e o livro depois hesitará entre esse termo e o de concubina. A ambiguidade é do próprio Gênesis, e ela mostra que a formalidade jurídica não resolveu inteiramente o que a cena era: um casamento em que uma das partes não podia recusar.

A terceira é sobre o silêncio de Jacó. Dois versículos antes ele se irou por lhe pedirem o que não podia dar; aqui faz, sem uma palavra, o que lhe é pedido e que ele pode. Disso decorre que a distinção entre discutir e participar não vale como defesa — o versículo registra que ele agiu, e o agir é dele.

Fica em aberto quase tudo o mais. Não se sabe o que Bila pensou, o que Jacó sentiu, quanto tempo passou, nem se Lia soube. O que o Gênesis oferece é a linha do acontecimento, seca, e a consequência que ele começará a narrar no versículo seguinte.

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