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Gênesis 34:8

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 41 acessos
Hamor lhes falou assim: “Meu filho Siquém está de coração apegado à filha de vocês. Eu lhes peço que a deem a ele por mulher.
Homem mais velho falando diante de um grupo de homens em pé junto a tendas, ao ar livre, num fim de tarde.

Estudo


Hamor lhes falou assim: “Meu filho Siquém está de coração apegado à filha de vocês. Eu lhes peço que a deem a ele por mulher.

1. Introdução

Hamor abre a boca, e a primeira coisa que diz é sobre o filho.

Não sobre o que aconteceu, não sobre Diná, não sobre reparação. Sobre o sentimento de Siquém — e a partir dele vem o pedido.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é com quem ele fala. Saiu para falar com Jacó, no versículo 6, e fala com todos: o hebraico traz o plural. Os filhos chegaram do campo enquanto ele vinha, e a conversa é outra.

O segundo é por onde ele começa. Pelo desejo do filho. É o argumento inteiro da primeira frase, e não há nenhum outro.

O terceiro é o que ele não diz. Não menciona o versículo 2. Não pede desculpas. Não devolve Diná, que continua na casa dele. E não a chama pelo nome — diz "a filha de vocês".

Vale notar o tom: ele pede por favor. A partícula de cortesia está no hebraico, e é a primeira delicadeza de linguagem do capítulo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como se abria uma negociação de casamento

O discurso de Hamor segue um roteiro reconhecível, e vale saber qual.

Nos acordos matrimoniais do antigo Oriente Próximo, quem propunha começava estabelecendo o interesse e a boa disposição, seguia oferecendo vantagens e terminava com o pedido concreto. Era conversa entre chefes de casa, com fórmulas de cortesia e menção explícita ao benefício mútuo.

É exatamente o que acontece do versículo 8 ao 10: o interesse do filho, o pedido, a proposta de casamentos recíprocos, e a oferta de terra e comércio.

Gênesis 24 mostra o mesmo formato do outro lado. O servo de Abraão chega, é recebido, expõe quem representa, descreve a riqueza da casa e só então formula o pedido, em Gênesis 24:34-49.

A diferença entre os dois casos não está no procedimento. Está em que um deles começa do zero e o outro começa depois de um crime.

O sentimento como argumento

Convém entender por que Hamor abre por aí, porque não é escolha óbvia.

Num arranjo em que o casamento era contrato entre famílias, o sentimento do noivo não era argumento jurídico. Não estava nos contratos, não pesava nas cláusulas, não compensava um pagamento menor. O que se negociava era posição, parentesco e valor.

Ao começar pelo desejo do filho, Hamor faz duas coisas ao mesmo tempo. Apresenta um motivo humano, que suaviza o quadro. E desloca o assunto: passa a tratar de um casamento a arranjar, não de um dano a reparar.

O texto não comenta a manobra. Registra o discurso e passa adiante.

Dar e tomar

O vocabulário da negociação matrimonial hebraica gira em torno de dois verbos, e vale separá-los.

A família da noiva dá; a família do noivo toma. É a linguagem corrente: Labão diz "melhor é que eu ta dê a ti", em Gênesis 29:19; Rebeca é dada em Gênesis 24:51.

É vocabulário duro para o ouvido de hoje, e é preciso registrá-lo sem endossá-lo. Ele descreve um sistema em que a mulher passa de uma casa a outra por acordo entre as duas, e em que a vontade dela não é peça do procedimento.

Neste versículo o verbo é "dai". No versículo 4, quando Siquém falou com o pai, era "toma". Os dois lados da mesma transação, ditos por quem ocupa cada posição.

Onde Diná está enquanto isto acontece

É preciso ter isso na cabeça para ler o discurso.

Pelo versículo 26 sabe-se que Diná estava na casa de Siquém, e que continuará lá até os irmãos a tirarem de lá depois do massacre.

Portanto: Hamor está pedindo que lhe deem uma moça que já está com o filho dele. A negociação inteira, do versículo 8 ao 24, acontece com ela ausente e retida.

Gênesis não comenta esse fato. Também não registra que alguém, em nenhum dos dois lados, o tenha levantado.

3. Análise Teológica do Versículo

"Hamor lhes falou assim"

O plural é a primeira informação, e ele muda a cena.

No versículo 6 Hamor saiu para falar com Jacó, no singular. Aqui fala com eles. Entre um versículo e outro, os filhos voltaram do campo — e Hamor encontra não um pai calado, mas uma casa inteira que acabou de saber.

Não é possível dizer se ele percebeu a diferença. O texto não registra hesitação, e o discurso segue como se estivesse preparado de antemão.

Repare em quem não responde: Jacó. A partir deste versículo e até o 24, quem fala pelo lado da família são os filhos. O pai, que era o destinatário original, permanece calado — assunto do versículo 5.

"Meu filho Siquém"

Começa por nomear o filho e por chamá-lo de filho. Duas marcas de vínculo na mesma frase.

É o oposto do que ele faz com Diná, três palavras adiante. Do lado dele há nome próprio e parentesco declarado; do outro lado há apenas "a filha de vocês".

A assimetria não é grosseria — é o padrão do capítulo, e vale notar que Siquém fará exatamente o mesmo no versículo 12, quando pedir "a moça". Ninguém, em Gênesis 34, pronuncia o nome de Diná dentro de uma fala.

"está de coração apegado à filha de vocês"

O verbo que Hamor usa não é o mesmo do versículo 3.

Lá o texto disse que o ser de Siquém se apegou a Diná, com a palavra que Gênesis 2:24 usa para a união do casamento. Aqui Hamor diz que o ser dele se afeiçoou, com outro verbo, cujo campo é o do desejo e da vinculação intensa. O detalhe fica para o item 10.

A troca é pequena e vale registrar sem inflar. Pode ser variação de estilo; pode ser que Hamor esteja dizendo o que sabe, com as palavras dele, e não o que o texto sabe. Não é possível decidir.

O que se pode observar é a estrutura do argumento. Hamor apresenta o sentimento do filho como o fato que justifica o pedido — e é o único fato que ele apresenta na primeira frase.

E há a designação: "a filha de vocês". Não Diná, não "a moça", não "sua irmã". A filha de vocês — dirigida a um grupo em que estão o pai e onze irmãos.

Do ponto de vista da negociação, é a fórmula correta: identifica a moça pela casa que vai entregá-la. Do ponto de vista do leitor que vem acompanhando o capítulo, é mais uma camada de distância.

"Eu lhes peço que a deem a ele por mulher"

O pedido, enfim, e ele é curto.

Duas coisas na formulação merecem atenção.

A primeira é a cortesia. O hebraico traz aqui a partícula que corresponde ao nosso "por favor" — e é a primeira vez que ela aparece no capítulo. Hamor pede; não exige, não invoca a posição que ocupa, não lembra que é o chefe da cidade.

Isso é coerente com o versículo 6, em que ele saiu dos muros para ir até o acampamento. Quem precisa é ele, e a linguagem registra.

A segunda é o verbo. "Deem" — o verbo de quem recebe uma mulher da família dela, e o oposto exato do verbo que Siquém usou com o pai no versículo 4, que era "toma".

É a mesma transação vista dos dois lados, e é a linguagem normal do casamento na época.

Mas há algo que a normalidade da fórmula não resolve, e o capítulo inteiro gira em torno disso: não se pode pedir que deem o que já foi tomado. Diná está na casa de Siquém enquanto Hamor fala.

O que falta neste discurso

Vale listar, porque a lista é longa para uma fala tão curta.

Não há menção ao que aconteceu. Nem uma palavra sobre o versículo 2 — nem para admitir, nem para negar, nem para explicar.

Não há pedido de desculpas. Não há reconhecimento de que algo tenha sido feito de errado.

Não há devolução. Ele não diz "trouxemos a moça de volta" nem "ela está à disposição de vocês".

Não há o nome dela.

Comentaristas notaram exatamente isso. A série de Jamieson, Fausset e Brown (obra conjunta escocesa do século XIX) observa que pai e filho mostram toda a disposição de estabelecer boa relação, mas não expressam pesar nem devolvem Diná — e aponta aí a causa verdadeira do desfecho ruim das negociações.

É leitura, e é uma leitura defensável. O texto apenas registra o que foi dito, e o que foi dito é isto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Hamor

Fala aqui pela primeira vez no capítulo. É o mais longo discurso dele até agora — três versículos, do 8 ao 10 —, e o segundo virá nos versículos 20 a 23, diante dos homens da cidade.

Vale comparar os dois desde já. Neste, o argumento é o sentimento do filho e a vantagem da aliança. No outro, diante dos concidadãos, o argumento será o ganho material — e Diná não será mencionada nenhuma vez.

Siquém

Não fala neste versículo, mas é o assunto dele. Está presente, ou chegará em seguida: falará nos versículos 11 e 12.

É a segunda vez que o capítulo descreve o estado interior dele. A primeira foi no versículo 3, pela voz do texto; esta é pela voz do pai.

Os filhos de Jacó

São agora os interlocutores. Chegaram do campo no versículo 7, souberam de tudo, e é a eles que Hamor se dirige — junto com o pai.

Responderão no versículo 13, e a resposta será um engano.

Jacó

Está presente e não fala. Era o destinatário original da visita, conforme o versículo 6, e a conversa acontece à volta dele.

O texto não registrará uma palavra de Jacó até o versículo 30.

Diná

Ausente. Está na casa de Siquém — dedução do versículo 26 —, e é sobre ela que se negocia.

Neste versículo é chamada de "a filha de vocês". No 11 e no 12, Siquém a chamará de "a moça". No 17, os irmãos dirão "a nossa irmã". Cada um a nomeia pela relação que tem com ela.

5. Pontos de Ensino

Começar pelo sentimento de quem causou o dano

Hamor abre a conversa falando do que o filho sente.

É um movimento eficaz e reconhecível. Ao pôr o sentimento no centro, a conversa passa a girar em torno de um desejo legítimo a ser atendido, e não em torno de um ato a ser respondido.

Ninguém precisa mentir para que isso funcione. Basta escolher por onde começar.

Pedir com cortesia o que já se tomou

A fala é educada — traz a partícula hebraica de cortesia, a primeira do capítulo — e pede que lhe deem uma moça que já está na casa dele.

A forma correta convive, aqui, com a situação inteiramente irregular. Uma não corrige a outra.

Vale como advertência de leitura e de vida: boas maneiras num pedido não dizem nada sobre a legitimidade do pedido.

A ausência que atravessa a fala

Numa frase curta, quatro coisas faltam: a menção ao ocorrido, o reconhecimento do erro, a devolução da moça e o nome dela.

É útil praticar esse tipo de leitura por subtração. Diante de qualquer proposta, listar o que ela não menciona costuma revelar mais do que analisar o que ela oferece.

Quem fala e quem se cala

Hamor veio falar com Jacó e acaba falando com os filhos. Jacó, presente, não diz nada.

Acontece com frequência em conversas difíceis: quem tinha a posição para responder não responde, e o espaço é ocupado por outros — normalmente por quem está mais indignado.

O resultado não costuma ser melhor.

6. Aspectos Filosóficos

A questão de fundo

A fala de Hamor levanta uma pergunta discreta: por onde deve começar uma conversa sobre um dano?

Ele começa pelo desejo do filho. É um começo possível, é educado, e é o que organiza tudo o que ele dirá em seguida.

O que o ponto de partida faz

Toda conversa tem um primeiro assunto, e o primeiro assunto define o que virá a ser discutido.

Se a conversa começa pelo desejo de alguém, o que se discutirá é como atendê-lo — em que condições, a que preço, com que garantias. O ato que a tornou necessária vira antecedente, não tema.

Se começasse pelo ato, o que se discutiria seria o ato: o que foi feito, por quem, com que efeito. O desejo do filho entraria depois, ou não entraria.

Não é manipulação necessariamente. É que a ordem dos assuntos organiza a conversa, e quem fala primeiro escolhe a ordem.

Por que o sentimento é um ponto de partida tão forte

Porque ele não pode ser contestado.

Fatos se discutem: pode-se dizer que não foi assim, que houve exagero, que faltou contexto. Sentimentos, não. Ninguém pode responder a "meu filho a ama" com "não ama".

O resultado é que a conversa começa por um ponto de onde não se pode recuar. E, uma vez aceito o ponto, a discussão passa a ser sobre as condições.

O que se perde

Perde-se a pessoa que sofreu.

Na fala de Hamor, Diná aparece como aquilo que o filho deseja e que a outra família pode conceder. Não aparece como alguém que tenha sofrido algo, nem como alguém que possa querer coisa alguma.

É a mesma estrutura que o capítulo repete desde o versículo 4, e que se repetirá até o fim: fala-se dela, nunca com ela.

Onde isto para

Gênesis não critica Hamor e não sugere que ele deveria ter começado de outro modo. Registra a fala e segue.

O que o texto faz é deixar o leitor ver a fala inteira — inclusive o que ela não contém. É recurso mais discreto do que o comentário, e funciona melhor.

Que a ausência de reconhecimento tenha determinado o desfecho é hipótese razoável, sustentada por comentaristas, e não é afirmação do texto.

7. Aplicações Práticas

Prestar atenção ao primeiro assunto

Quem abre uma conversa difícil escolhe, com a primeira frase, sobre o que se vai falar.

Vale observar isso em reuniões, em conversas de família, em atendimento de reclamação. Se o primeiro assunto é a boa intenção de quem causou o problema, o problema já saiu do centro.

A correção é simples de enunciar e exige firmeza: recolocar o assunto antes de discutir soluções. "Vamos falar do que aconteceu primeiro."

Não confundir cortesia com legitimidade

A fala de Hamor é impecável na forma. Traz cortesia, traz vínculo familiar, traz um pedido claro.

E pede que lhe entreguem alguém que já está retida na casa dele.

Fora do texto, o mesmo padrão aparece em propostas bem redigidas que pedem a regularização de algo já feito sem autorização. A boa forma cria a impressão de que o processo está correndo bem, quando o que se está pedindo é a validação de um fato consumado.

Ler pelo que falta

Uma fala se avalia tanto pelo que traz quanto pelo que omite.

O exercício é fácil de fazer e quase nunca é feito: depois de ouvir uma proposta, listar em silêncio o que ela não mencionou. Costumam aparecer ali as questões que quem propõe não quer discutir.

Verificar quem está na conversa e quem não está

Estão presentes Hamor, Jacó e onze filhos. Não está a pessoa de quem se fala.

Antes de qualquer decisão que afete alguém diretamente, vale conferir se essa pessoa está na sala — e, se não estiver, se há razão real para isso ou apenas hábito.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Hamor não menciona o que o filho fez?

O texto não explica, e as hipóteses são três.

Pode não saber os detalhes — o versículo 4 registra só o pedido do filho, não uma confissão. Pode saber e ter escolhido não mencionar, por entender que reconhecer enfraqueceria a posição dele. Pode não considerar aquilo o ponto central, se o caminho do casamento posterior era, no mundo dele, uma solução prevista.

Não é possível decidir. O que se pode registrar é que, nas duas falas dele — esta e a dos versículos 20 a 23 —, o assunto nunca aparece.

Hamor está mentindo sobre o sentimento do filho?

Não há razão para pensar que sim.

O versículo 3 já havia afirmado, pela voz do próprio texto, que Siquém se apegou a Diná e a amou. Hamor está repetindo algo que o relato apresenta como verdadeiro.

O verbo que ele usa não é exatamente o mesmo, e o item 10 trata da diferença. Mas não há indício de falsidade.

Por que ele fala com todos, se veio falar com Jacó?

Porque os filhos chegaram do campo no intervalo, conforme o versículo 7.

O hebraico marca a mudança com clareza: o versículo 6 usa o singular, este usa o plural. Hamor encontrou mais gente do que esperava.

A proposta dele era razoável pelos padrões da época?

Era, e é importante dizê-lo para entender a recusa.

As leis da região previam justamente casamento e pagamento como desfecho desse tipo de caso. Hamor oferecerá, além disso, aliança entre os povos, terra e comércio — nos versículos 9 e 10.

A proposta é, em termos materiais, mais do que qualquer lei exigiria. E é recusada — o que mostra que o que estava em jogo, para os irmãos, não era compensação.

Alguém perguntou a Diná?

Não, em nenhum momento do capítulo.

E, neste ponto, ela nem sequer está presente: continua na casa de Siquém, conforme se deduz do versículo 26. Toda a negociação acontece com ela ausente.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo que Hamor usa

Deuteronômio 7:7 — "O SENHOR não se afeiçoou a vós, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que todos os povos."

Mesmo verbo hebraico, aplicado a Deus em relação a Israel. É palavra de vinculação intensa, não de mero gosto.

Deuteronômio 21:11 — "Se vires entre os cativos uma mulher formosa e te afeiçoares a ela, e a quiseres tomar por mulher."

O mesmo verbo, na lei sobre a mulher capturada em guerra, e seguido da mesma expressão — tomar por mulher. É o paralelo mais próximo do uso deste versículo.

O verbo que o texto tinha usado

Gênesis 34:3 — "Mas o seu coração se apegou a Diná, filha de Jacó."

Ali o verbo é outro: o do apego que gruda, o mesmo de Gênesis 2:24. Hamor relata o sentimento do filho com uma palavra diferente da que o texto usou.

A linguagem de dar e tomar no casamento

Gênesis 29:19 — "Disse Labão: Melhor é que eu ta dê, do que eu a dê a outro homem; fica comigo."

Gênesis 24:51 — "Eis que Rebeca está diante de ti; toma-a e vai-te; seja a mulher do filho do teu senhor."

A família da noiva dá, a família do noivo toma. É a linguagem corrente, e é a deste versículo.

O pedido feito com cortesia

Gênesis 34:11 — "Se eu achar favor aos olhos de vocês, darei o que me pedirem."

Siquém repetirá o registro cortês três versículos adiante, e acrescentará a oferta sem limite do versículo 12.

O outro discurso de Hamor

Gênesis 34:23 — "Não passarão a ser nossos os rebanhos, os bens e todos os seus animais? Vamos apenas concordar com eles."

Diante dos homens da cidade, o argumento muda inteiramente: sai o sentimento do filho, entra o ganho material. E Diná não é mencionada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Hamor lhes falou assim: “Meu filho Siquém está de coração apegado à filha de vocês. Eu lhes peço que a deem a ele por mulher.

Texto hebraico

וַיְדַבֵּר חֲמוֹר אִתָּם לֵאמֹר שְׁכֶם בְּנִי חָשְׁקָה נַפְשׁוֹ בְּבִתְּכֶם תְּנוּ נָא אֹתָהּ לוֹ לְאִשָּׁה׃

Transliteração

way'dabbêr Chamor 'ittam lêmor Shekhem beni chasheqah nafshô bevittekhem tenu na 'otah lô le-'ishah.

Análise palavra por palavra

וַיְדַבֵּר ... אִתָּם — way'dabbêr... 'ittam, "e falou... com eles".

O verbo é o mesmo do versículo 6, e a preposição também: falar com, e não falar ao coração de, que foi a construção usada com Diná no versículo 3.

A diferença que importa aqui é de número. No versículo 6 o texto disse que Hamor saiu para falar com ele, no singular, referindo-se a Jacó. Aqui o sufixo é plural: com eles.

Em hebraico a distinção é de uma sílaba, e ela registra a mudança da cena: os filhos chegaram do campo no intervalo.

שְׁכֶם בְּנִי — Shekhem beni, "Siquém, meu filho".

Ben é filho, e o sufixo indica posse: meu filho. A ordem hebraica põe o nome antes do parentesco, o que dá ênfase ao nome.

Vale contrastar com a designação que virá quatro palavras adiante, e que não traz nome nenhum.

חָשְׁקָה נַפְשׁוֹ — chasheqah nafshô, "a sua alma se afeiçoou".

Aqui está a palavra mais interessante do versículo.

A raiz chashaq tem um sentido concreto que ajuda a entendê-la: designa amarrar, prender, unir. No relato da construção do tabernáculo, em Êxodo 27:10-11 e 38:17, a mesma raiz nomeia as peças que ligavam umas às outras as colunas do pátio — literalmente, as junções.

Daí o sentido figurado: estar preso a alguém, ter o desejo ligado a alguma coisa, afeiçoar-se de modo que não se solta.

As ocorrências mostram o peso da palavra. Em Deuteronômio 7:7 e 10:15 ela descreve a escolha de Deus por Israel — "o SENHOR se afeiçoou a vossos pais". Em Salmo 91:14, Deus diz do fiel: "porquanto se afeiçoou a mim, eu o livrarei". Em Isaías 38:17, Ezequias diz que Deus se afeiçoou à alma dele para livrá-la da cova.

E há a ocorrência que mais se aproxima desta. Deuteronômio 21:11 usa o mesmo verbo para o soldado que vê entre os cativos uma mulher formosa, "e te afeiçoares a ela, e a quiseres tomar por mulher" — o mesmo verbo, seguido da mesma expressão que fecha este versículo.

Nefesh, o sujeito da frase, é a palavra tratada no versículo 3 deste capítulo: o ser inteiro, o que há de mais vital na pessoa.

Repare que o texto e Hamor usam verbos diferentes com o mesmo sujeito. No versículo 3, a nefesh de Siquém se apegou; aqui, se afeiçoou.

A diferença entre os dois verbos é de campo. O primeiro é o da adesão permanente — a palavra do casamento, em Gênesis 2:24. O segundo é o do desejo que prende. Não são opostos, e não convém forçar a distinção: pode ser variação de estilo, pode ser que Hamor descreva com as palavras dele. Não é possível decidir.

בְּבִתְּכֶם — bevittekhem, "à filha de vocês".

Bat é filha, com o sufixo de posse na segunda pessoa do plural: a filha de vós.

É a designação escolhida, e ela contrasta ponto por ponto com a anterior. De um lado, nome e "meu filho"; do outro, "a filha de vocês". Um é individualizado; a outra é identificada pelo grupo a que pertence.

A preposição que a antecede é exigida pelo verbo: em hebraico, afeiçoa-se a alguém com essa partícula, e não com o objeto direto.

תְּנוּ נָא — tenu na, "dai, por favor". Imperativo plural da raiz natan, dar, com a partícula de cortesia.

Natan é o verbo do lado que entrega, na linguagem do casamento. O correspondente do outro lado é laqach, tomar — o verbo do versículo 4, na boca de Siquém, e o do versículo 2, no ato.

A partícula seguinte é a de súplica ou cortesia. É difícil de traduzir: acrescenta um tom de rogo ao imperativo, algo entre "por favor" e "peço-lhes". Aparece em pedidos respeitosos ao longo de toda a Bíblia hebraica.

É a primeira vez que ela aparece em Gênesis 34, e vale registrar: em toda a fala de Siquém no versículo 2 não houve palavra nenhuma; no versículo 4 houve um imperativo seco ao pai; aqui há cortesia.

לוֹ לְאִשָּׁה — lô le-'ishah, "a ele por mulher".

A construção repete a fórmula do versículo 4: alguém é dado ou tomado por mulher. É a expressão completa do casamento, e reaparecerá nos versículos 12, 16 e 21.

Contando com o versículo 4, esta é a segunda das cinco vezes em que a fórmula aparece no capítulo. Nenhuma delas se realiza.

11. Conclusão

A fala de Hamor é curta, e dela decorrem algumas conclusões.

A primeira é sobre o auditório. Ele saiu para falar com Jacó e fala com todos, porque os filhos voltaram do campo no intervalo — e o hebraico marca a mudança no plural do pronome. Disso decorre que a negociação preparada para um pai calado acontece diante de onze homens que acabaram de saber, e que a resposta virá deles, não dele.

A segunda é sobre o ponto de partida. Hamor começa pelo sentimento do filho, e é o único argumento da primeira frase. Disso decorre que a conversa se organiza, desde a abertura, em torno de um desejo a atender, e não de um ato a responder — o que muda tudo o que virá depois, sem que ninguém precise dizer uma palavra falsa.

A terceira é sobre a forma. O pedido é cortês, e traz a primeira partícula de delicadeza do capítulo. Disso decorre uma dissonância que o texto não comenta: pede-se com boas maneiras que entreguem uma moça que já está retida na casa de quem pede.

A quarta é sobre as ausências. Numa fala de duas frases não há menção ao ocorrido, não há reconhecimento de erro, não há devolução e não há o nome de Diná. Disso decorre a leitura, defendida por comentaristas e não afirmada pelo texto, de que foi essa falta — e não a insuficiência da oferta — que tornou o acordo impossível.

Fica de pé o contraste que a frase constrói em oito palavras: de um lado, "Siquém, meu filho"; do outro, "a filha de vocês".

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