Estabeleçam laços de casamento conosco: deem-nos as suas filhas e recebam as nossas.
1. Introdução
A proposta cresce.
No versículo anterior, Hamor pedia uma moça para o filho. Aqui pede outra coisa: que as duas famílias passem a casar entre si, nos dois sentidos, indefinidamente.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é a mudança de escala. Sai o singular e entra o plural. Já não se fala de Diná — fala-se de "as suas filhas" e "as nossas filhas".
O segundo é o verbo hebraico que abre a frase. É um verbo específico, que significa tornar-se parente por casamento — e quase todas as vezes em que aparece na Bíblia, aparece como advertência ou como erro cometido.
O terceiro é o que a proposta faz com a família de Jacó. Três gerações organizaram a própria vida para não casar com as filhas da terra. É exatamente isso que está sendo oferecido.
E há o dado silencioso: neste versículo, o assunto do capítulo desapareceu. Não se menciona o que aconteceu, não se menciona a moça, não se menciona nada além do arranjo futuro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Casamento como instrumento político
No mundo antigo, casar era um dos principais modos de fazer política externa, e é preciso saber disso para medir a proposta.
Casamentos entre casas governantes selavam tratados, encerravam guerras, garantiam rotas de comércio e criavam obrigações mútuas. As cartas de Amarna — correspondência diplomática do século XIV antes da era comum, encontrada no Egito — estão cheias de negociações desse tipo entre reis do Egito, de Mitani, da Babilônia e de Hatti.
A lógica era simples: parentes não atacam parentes com facilidade. Uma filha entregue era, ao mesmo tempo, um vínculo e uma garantia.
A Bíblia registra o mesmo mecanismo. Salomão se aparenta com o faraó em 1 Reis 3:1, e o texto trata isso como aliança política. Josafá se aparenta com Acabe em 2 Crônicas 18:1, e o resultado será a quase destruição da casa dele.
Ou seja: o que Hamor propõe não é gentileza. É um tratado.
O que a proposta significava para cada lado
Vale calcular, porque os dois lados não ganham a mesma coisa.
Para a cidade, absorver um grupo de pastores prósperos é vantagem clara: entram rebanhos, entram braços, entra riqueza. O versículo 23 dirá isso com todas as letras, quando Hamor falar aos concidadãos: "não passarão a ser nossos os rebanhos, os bens e todos os seus animais?".
Para a família de Jacó, o cálculo é outro. Ela é pequena e está sozinha. Casamentos recíprocos com uma cidade inteira significam, em uma ou duas gerações, deixar de existir como grupo distinto — os filhos serão da cidade, as filhas estarão na cidade, e a identidade que se tentou preservar por três gerações se dissolve.
Não é preciso atribuir má-fé a Hamor para ver isso. É aritmética.
O que as gerações anteriores fizeram
A proposta atinge o ponto exato em torno do qual a família se organizou.
Abraão fez o servo jurar que não tomaria mulher para Isaque entre as filhas dos cananeus, e mandou-o viajar de volta à Mesopotâmia para isso, em Gênesis 24:3-4.
Rebeca disse que a vida lhe era insuportável por causa das filhas de Hete, e usou isso para mandar Jacó embora, em Gênesis 27:46.
Isaque repetiu a ordem ao despedir Jacó: não tomes mulher dentre as filhas de Canaã, em Gênesis 28:1.
Jacó passou vinte anos fora por causa disso, e voltou com quatro mulheres, todas da parentela da mãe.
Agora o chefe da cidade propõe, numa frase, o contrário de tudo isso — e propõe nos dois sentidos.
A lei que virá depois
O verbo que Hamor usa aqui reaparecerá, séculos adiante, numa proibição explícita.
Deuteronômio 7:3 ordena, sobre os povos de Canaã: "não te aparentarás com eles; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos". A construção é praticamente a mesma deste versículo, invertida em proibição.
Josué 23:12 repete a advertência, e Esdras 9:14 a invoca depois do exílio.
É preciso registrar o que isso é e o que não é. Não é que Hamor esteja violando uma lei — ela não existia. É que a fórmula que ele emprega virá a ser, no vocabulário bíblico posterior, a fórmula do erro a evitar.
Quem lia Gênesis no tempo em que Deuteronômio já circulava reconhecia a frase na hora.
3. Análise Teológica do Versículo
"Estabeleçam laços de casamento conosco"
O verbo hebraico não é o de casar. É outro, mais específico, e não tem equivalente exato em português.
Significa tornar-se parente por casamento — entrar na condição de genro, de sogro, de cunhado. Descreve não o ato de casar, mas o vínculo entre as duas famílias que o casamento cria.
A diferença é decisiva para entender o que está sendo proposto. Hamor não está falando de um casamento. Está falando de uma relação permanente entre duas casas, em que os casamentos serão a consequência.
O item 10 percorre as ocorrências do verbo. O que interessa aqui é a consequência: o pedido do versículo 8 era pontual, e este é estrutural.
"deem-nos as suas filhas e recebam as nossas"
Aqui está a mudança de escala, e ela é o assunto do versículo.
Repare no plural. Não "a sua filha", mas "as suas filhas". Não "a nossa", mas "as nossas".
Diná sai da frase. O caso que trouxe todo mundo até ali vira exemplo de uma categoria, e a categoria é: moças que passam de uma casa para outra.
É a operação mais eficiente do discurso de Hamor, e vale descrevê-la com precisão. Um dano particular, cometido contra uma pessoa com nome, é convertido num arranjo geral entre grupos. Uma vez feita a conversão, discute-se o arranjo — e o dano fica para trás, como o incidente que deu origem à conversa.
Ninguém precisa mentir para isso funcionar. Basta trocar o singular pelo plural.
A reciprocidade e o que ela esconde
A frase é simétrica na forma: filhas de vocês para nós, filhas nossas para vocês. Parece equilibrada, e no papel é.
Na prática não é, e por uma razão de tamanho.
De um lado há uma cidade murada, com população, território e instituições. Do outro, uma família com treze filhos, acampada do lado de fora, sem terra além de um lote comprado.
Trocas iguais entre partes desiguais não produzem resultados iguais. Em duas gerações, o grupo menor deixa de existir como grupo — não por conquista, mas por absorção.
Vale marcar o limite: o texto não diz isso. Não afirma que Hamor pretendia absorver a família de Jacó, e não registra que alguém tenha feito esse cálculo em voz alta.
Mas o próprio capítulo fornece o material para o cálculo. No versículo 22, Hamor dirá aos concidadãos que a condição é aceitável "para nos tornarmos um só povo" — e no 23 explicará o que a cidade ganha com isso.
O que a proposta atinge
Este é o ponto que um leitor de hoje pode perder e que um leitor antigo pegaria imediatamente.
A expressão "as filhas da terra" atravessa Gênesis como problema. Abraão organizou uma viagem para evitá-las. Rebeca disse que a vida não valia a pena por causa delas. Isaque proibiu. Jacó passou vinte anos fora.
Não é possível saber exatamente por quê — o texto nunca explica a razão da recusa, e as explicações usuais, religiosas ou de linhagem, são inferências.
O que se pode afirmar é o fato: a família se define, há três gerações, por não fazer o que está sendo proposto nesta frase.
E há uma ironia que o capítulo constrói sem comentar. Foi justamente a filha desta família que saiu, no versículo 1, "para conhecer as mulheres daquela terra" — as mesmas filhas da terra de que agora se fala.
O que a frase não contém
A lista continua igual à do versículo anterior, e vale repeti-la porque é o que caracteriza o discurso inteiro.
Não há menção ao ocorrido. Não há reconhecimento. Não há devolução. Não há o nome de Diná.
Acrescente-se, agora, que ela nem sequer aparece no singular. A proposta que começou com uma pessoa terminou num sistema de trocas — e é nesse sistema que a pessoa desapareceu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Hamor
Continua falando. Este versículo e o seguinte completam a proposta iniciada no versículo 8.
Vale acompanhar a progressão do discurso dele: primeiro o sentimento do filho, depois a aliança entre as casas, depois a terra e o comércio. Cada frase amplia a anterior.
Os filhos de Jacó
Ouvem. Responderão no versículo 13, e a resposta deles retomará exatamente o vocabulário deste versículo — dar e receber filhas — para propor a condição da circuncisão, nos versículos 15 e 16.
Ou seja: eles aceitarão a forma da proposta e a usarão contra quem a fez.
As filhas dos dois lados
Do lado de Jacó, Gênesis nomeia uma só: Diná. Mas Gênesis 37:35 e 46:7 mencionam filhas no plural, o que indica que havia outras.
Do lado da cidade, são "as filhas da terra" do versículo 1 — as mesmas que Diná saiu para conhecer.
Nenhuma delas fala em Gênesis 34, e nenhuma é nomeada além de Diná.
O que virá depois
O versículo 10 completa a oferta com terra, comércio e propriedade. O 11 e o 12 trazem Siquém oferecendo pagamento.
Do 13 ao 17, a resposta dos irmãos. Do 20 ao 24, Hamor levará o acordo à cidade — e ali usará outros argumentos.
5. Pontos de Ensino
Do caso particular ao arranjo geral
É o movimento central do versículo, e o mais importante de reconhecer.
Uma frase antes falava-se de uma moça. Aqui fala-se de filhas, no plural, dos dois lados. O caso vira exemplo, e o exemplo vira sistema.
Feita a conversão, discute-se o sistema. O caso que a motivou fica como antecedente — mencionado, se tanto, para explicar por que se está conversando.
Vale reconhecer o movimento onde ele aparecer, porque ele é discreto e eficaz.
Reciprocidade formal entre partes desiguais
A frase é simétrica: nossas filhas por suas filhas. Parece justa.
Mas as partes não têm o mesmo tamanho, e a mesma regra aplicada a partes desiguais produz resultados desiguais. O grupo menor desaparece dentro do maior sem que nenhuma cláusula seja violada.
É um ponto que vale reter para muito além do texto: igualdade de regra não é igualdade de efeito.
A palavra que a Bíblia depois usará como advertência
O verbo empregado por Hamor é o que Deuteronômio 7:3 usará para proibir exatamente isto.
Quem lia Gênesis já conhecendo a lei ouvia a frase de outro jeito. É um exemplo do que acontece com todo texto antigo: o vocabulário carrega ecos que o primeiro leitor não tinha.
Ler bem é saber distinguir o que está no versículo do que a história posterior depositou nele.
A oferta generosa como forma de encerrar o assunto
Hamor oferece cada vez mais — aliança agora, terra e comércio em seguida, pagamento ilimitado no versículo 12.
E não diz uma palavra sobre o que houve.
Quando uma oferta cresce sem que o assunto seja tocado, vale desconfiar da direção. Generosidade e evasão podem ser a mesma coisa vista de ângulos diferentes.
6. Aspectos Filosóficos
A questão de fundo
O versículo levanta uma questão que não é sobre moral, mas sobre linguagem: o que acontece com um dano quando ele é reformulado em termos gerais?
Uma pessoa foi ferida. Uma frase depois, discute-se um regime de trocas entre dois grupos. Nada foi negado, nada foi mentido — e o dano saiu de cena.
Como a operação funciona
Ela tem duas etapas, e as duas parecem inocentes.
A primeira é a passagem do singular ao plural. Não se fala mais de Diná; fala-se de filhas. A pessoa vira caso, e o caso vira categoria.
A segunda é a passagem do passado ao futuro. Não se fala mais do que houve; fala-se do que se pode combinar daqui em diante. A conversa muda de tempo verbal, e com isso muda de assunto.
Feitas as duas, o dano não foi negado — ficou simplesmente fora do escopo do que se está discutindo.
Por que isso é tão difícil de resistir
Porque a proposta geral costuma ser, em si, razoável.
O que Hamor oferece é bom: paz entre vizinhos, parentesco, segurança mútua. Recusar parece pequeno, rancoroso, incapaz de olhar adiante. Quem insiste em voltar ao caso particular passa a parecer o obstáculo.
Essa é a força do movimento. Ele não vence o argumento contrário — torna-o inconveniente.
O que se perde
Perde-se a possibilidade de nomear o que aconteceu.
Um dano que nunca é dito em voz alta não fica resolvido por acordo nenhum, por melhor que seja o acordo. Ele permanece, e reaparece — em ressentimento, em desconfiança, ou, como neste capítulo, em violência.
Os irmãos aceitarão a forma da proposta no versículo 15 e a usarão como armadilha. Que haja relação entre a evasão de Hamor e o engano deles é hipótese razoável; o texto põe uma coisa depois da outra e não estabelece a ligação.
Onde parar
Gênesis não analisa o discurso de Hamor. Reproduz.
E é a reprodução integral que permite ao leitor notar, sem que nada precise ser apontado, que numa proposta de três versículos sobre o futuro de duas famílias não aparece uma única vez o nome da pessoa por causa de quem todos estão ali.
7. Aplicações Práticas
Não deixar o caso virar categoria antes da hora
Quando um problema concreto é reformulado como questão geral, ele costuma sair da pauta.
Acontece em reuniões — "vamos aproveitar e revisar o processo inteiro" — e acontece em conversas de família, quando uma queixa específica vira discussão sobre como as coisas sempre foram.
A correção prática é insistir na ordem: primeiro o caso, com nome e data; depois, se for útil, a regra geral. Nunca o contrário.
Desconfiar da simetria formal
"Vocês dão as suas, nós damos as nossas" soa equilibrado e não é, porque os dois lados não têm o mesmo tamanho.
É o padrão de muitos acordos: cláusulas iguais para partes desiguais. O contrato de adesão que dá aos dois lados o direito de rescindir; a regra que se aplica igualmente a quem tem reservas e a quem vive do salário do mês.
Antes de aceitar uma simetria, vale calcular o efeito dela sobre cada lado separadamente.
Notar quando a oferta cresce e o assunto não
De um versículo para o outro, Hamor passa de um pedido a uma aliança, e nos seguintes chegará a terra, comércio e pagamento sem limite.
O assunto que motivou tudo continua sem ser mencionado.
Quando isso acontecer numa negociação, o crescimento da oferta não é sinal de boa vontade: é sinal de que se está pagando para não falar de alguma coisa.
Preservar o que a família ou o grupo definiu como identidade
A proposta atinge exatamente o ponto em torno do qual três gerações se organizaram.
Sem entrar no mérito da recusa daquela família, o mecanismo é geral: propostas vantajosas costumam pedir, em troca, aquilo que distingue quem as recebe.
Nem sempre a resposta é recusar. Mas vale ter clareza sobre o que se está entregando, porque esse tipo de perda não aparece na conta imediata.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Hamor estava tentando absorver a família de Jacó?
O texto não diz que essa era a intenção dele neste momento.
Mas o próprio capítulo fornece indícios. No versículo 22 ele falará em "nos tornarmos um só povo", e no 23 perguntará aos concidadãos se os rebanhos e os bens dos recém-chegados não passariam a ser deles.
Se isso era o plano desde aqui, ou se é apenas o argumento que ele encontrou para convencer a cidade, não é possível decidir.
A proposta era desonesta?
Não há nada no texto que a apresente como falsa.
Ela é, pelos padrões da época, generosa: aliança, terra, comércio, propriedade — e, no versículo 12, pagamento sem teto. Hamor e Siquém cumprirão a condição que lhes for imposta, e cumprirão a um custo alto.
O problema da proposta não é a sinceridade. É o que ela deixa de fora.
Por que casar com os cananeus era problema?
Gênesis nunca explica a razão, o que é notável.
Abraão, Rebeca e Isaque proíbem, e nenhum dos três diz por quê. As explicações usuais — pureza de linhagem, risco religioso, manutenção da promessa — são inferências dos leitores, não afirmações do texto.
A justificativa explícita só aparecerá muito depois, em Deuteronômio 7:4, e é religiosa: para que não desviem os filhos de seguir o SENHOR.
Os irmãos recusaram por causa da mistura ou por causa do crime?
O texto dá as duas razões, em lugares diferentes.
No versículo 13, o motivo declarado do engano é a desonra da irmã. No versículo 14, a razão apresentada em voz alta é outra: não podem dar a irmã a um homem não circuncidado, "pois isso seria uma vergonha para nós".
Provavelmente as duas coisas operam juntas. Mas convém notar que a razão dita em público não é a razão registrada pelo texto.
Alguém do lado de Jacó considerou a proposta?
Não há registro de deliberação.
O texto passa direto do fim da fala de Siquém, no versículo 12, para a resposta enganosa dos filhos, no 13. Nem discussão, nem hesitação, nem consulta a Jacó.
É mais uma coisa que Gênesis não conta.
9. Conexão com Outros Textos
A proibição que usa o mesmo verbo
Deuteronômio 7:3 — "Não te aparentarás com eles; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos."
A mesma construção deste versículo, invertida em proibição: o verbo de aparentar-se, seguido de dar filhas e tomar filhas.
Josué 23:12 — "Se de alguma maneira vos apartardes e vos achegardes ao restante destas nações, e com elas vos aparentardes, e vós a elas e elas a vós."
Onde o mesmo verbo aparece como decisão política
1 Reis 3:1 — "Salomão aparentou-se com Faraó, rei do Egito, e tomou a filha de Faraó."
2 Crônicas 18:1 — "Tinha, pois, Josafá riquezas e glória em abundância; e aparentou-se com Acabe."
Nos dois casos, casamento como tratado — e nos dois o texto bíblico registra o resultado como problema.
A recusa das gerações anteriores
Gênesis 24:3 — "Não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais habito."
Gênesis 27:46 — "A vida me é insuportável por causa das filhas de Hete."
Gênesis 28:1 — "Não tomes mulher dentre as filhas de Canaã."
Três gerações organizadas em torno de recusar exatamente o que Hamor propõe.
Como os irmãos devolverão a proposta
Gênesis 34:16 — "Então lhes daremos as nossas filhas e receberemos as suas; habitaremos com vocês e nos tornaremos um só povo."
Sete versículos adiante, o mesmo vocabulário na boca deles — e será a parte enganosa da resposta.
O que Hamor dirá à cidade
Gênesis 34:21 — "Tomaremos as suas filhas por mulheres e lhes daremos as nossas."
A mesma frase repetida diante dos concidadãos, agora acompanhada do argumento econômico do versículo 23.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Estabeleçam laços de casamento conosco: deem-nos as suas filhas e recebam as nossas.
Texto hebraico
וְהִתְחַתְּנוּ אֹתָנוּ בְּנֹתֵיכֶם תִּתְּנוּ־לָנוּ וְאֶת־בְּנֹתֵינוּ תִּקְחוּ לָכֶם׃
Transliteração
wehitchattenu 'otanu benotêkhem tittenu-lanu we'et-benotênu tiqchu lakhem.
Análise palavra por palavra
וְהִתְחַתְּנוּ — wehitchattenu, "e aparentai-vos". Raiz chatan, na forma reflexiva chamada Hitpael.
Este é o verbo do versículo, e ele não tem equivalente exato em português.
A raiz gera uma família inteira de palavras de parentesco por casamento: chatan é o genro e também o noivo; chotên é o sogro, o pai da esposa; chatunnah é a festa de casamento, palavra que aparece em Cântico dos Cânticos 3:11.
A forma reflexiva significa, literalmente, fazer-se genro de alguém — e, por extensão, entrar numa relação de parentesco por casamento com outra família ou outro povo.
Repare no que isso não é. Não é o verbo de casar-se, que em hebraico se diz com "tomar por mulher". É o verbo de criar vínculo entre casas. O casamento é o meio; o parentesco é o resultado, e é do resultado que o verbo trata.
As ocorrências desenham um quadro consistente, e vale percorrê-lo.
Em Deuteronômio 7:3 está a proibição: "não te aparentarás com eles" — e a frase seguinte é praticamente este versículo ao contrário, com dar filhas e tomar filhas.
Em Josué 23:12 a advertência é repetida, na despedida de Josué.
Em 1 Samuel 18:21-27, Saul propõe a Davi que se torne genro dele — e o texto deixa claro que a proposta é armadilha.
Em 1 Reis 3:1, Salomão se aparenta com o faraó do Egito.
Em 2 Crônicas 18:1, Josafá se aparenta com Acabe, e o capítulo inteiro mostra o desastre que se seguiu.
Em Esdras 9:14, depois do exílio, a pergunta é: "tornaremos a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações?".
É um verbo que, na Bíblia hebraica, quase nunca aparece em contexto neutro. Está sempre ligado a aliança política e, na maioria das vezes, a advertência ou a erro.
Convém a cautela habitual: Gênesis 34 é anterior a todos esses textos na ordem do livro, e não se pode afirmar que o autor deste versículo tivesse Deuteronômio em vista. O que se pode dizer é que o leitor antigo, que conhecia os dois, ouvia o eco.
אֹתָנוּ — 'otanu, "conosco".
É a marca de objeto direto com o pronome de primeira pessoa do plural. O verbo de aparentar-se, neste caso, rege o objeto direto — aparentai-vos a nós.
בְּנֹתֵיכֶם ... בְּנֹתֵינוּ — benotêkhem... benotênu, "as vossas filhas... as nossas filhas".
O plural é o dado central do versículo.
Até aqui o capítulo falou sempre no singular: "esta moça", no versículo 4; "a filha de vocês", no versículo 8. Agora são filhas, dos dois lados.
Em hebraico, benot é o plural de bat, filha — a mesma palavra que aparece no versículo 1, na expressão "as filhas da terra". É, portanto, o retorno exato do termo com que o capítulo começou, agora dentro de uma proposta de casamento.
E Diná desaparece. Não é mencionada nesta frase, nem no singular, nem por nome, nem por qualquer designação.
תִּתְּנוּ־לָנוּ — tittenu-lanu, "dareis a nós". Raiz natan, dar.
Mesmo verbo do versículo anterior, agora no plural e sem a partícula de cortesia. A forma é a do tempo verbal que exprime ação não concluída, e serve tanto para futuro quanto para instrução: "dareis" ou "haveis de dar".
וְאֶת־בְּנֹתֵינוּ תִּקְחוּ לָכֶם — we'et-benotênu tiqchu lakhem, "e as nossas filhas tomareis para vós". Raiz laqach, tomar.
É o verbo do outro lado da transação — o mesmo do versículo 2, quando Siquém tomou Diná, e o do versículo 4, quando pediu ao pai que a tomasse.
A construção completa o par: uma família dá, a outra toma. Aqui os dois verbos aparecem na mesma frase, com os papéis invertidos entre as partes, o que é a maneira hebraica de dizer casamento recíproco.
A simetria é perfeita na gramática. O item 3 trata do que ela significa na prática.
Uma observação sobre o conjunto
O versículo tem sete palavras em hebraico e três verbos: aparentar-se, dar, tomar.
Não há nome próprio nenhum. Nem Siquém, nem Diná, nem Jacó, nem Hamor. Só pronomes de primeira e segunda pessoa do plural — nós e vocês.
É a frase mais impessoal do capítulo, e ela vem exatamente onde o assunto era uma pessoa.
11. Conclusão
A proposta muda de tamanho neste versículo, e disso decorrem algumas conclusões.
A primeira é sobre o número. Sai o singular e entra o plural: já não se pede uma moça, propõe-se um regime de trocas entre duas casas. Disso decorre a operação central do discurso de Hamor — um dano cometido contra uma pessoa é convertido num arranjo geral, e a partir daí o que se discute é o arranjo.
A segunda é sobre o verbo escolhido. Não é o de casar, é o de tornar-se parente por casamento — palavra que descreve vínculo entre casas, e que na Bíblia hebraica aparece quase sempre em contexto de aliança política, de advertência ou de erro. Disso decorre que a oferta é um tratado, e que o leitor antigo, conhecendo Deuteronômio 7:3, reconhecia a fórmula.
A terceira é sobre a simetria. Filhas por filhas parece equilibrado, e no papel é; mas as partes não têm o mesmo tamanho, e a mesma regra aplicada a uma cidade e a uma família produz absorção, não troca. Disso decorre que a proposta atinge exatamente aquilo em torno do qual três gerações se organizaram — e o próprio capítulo dirá, no versículo 22, que o objetivo é tornarem-se um só povo.
A quarta é sobre o que não está lá. Numa frase de sete palavras hebraicas não há um único nome próprio, e não há menção ao que aconteceu. Disso decorre a impessoalidade que caracteriza o discurso inteiro: quanto mais a oferta cresce, mais o assunto se afasta.
Fica de pé a ironia que o capítulo construiu e não comentou. Diná saiu, no versículo 1, para conhecer as filhas da terra. Oito versículos depois, propõe-se que as duas casas troquem filhas — e ela não aparece na frase.













