📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 21:8

›
✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 10 acessos
Se ela desagradar ao seu senhor, que a tinha destinado para si, ele a deixará ser resgatada; não terá o direito de vendê-la a um povo estrangeiro, porque agiu com deslealdade para com ela.
No pátio de uma casa antiga, um homem de túnica escura vira o rosto e aponta para a saída, enquanto uma moça de manto simples, de pé junto a um pilar, segura uma pequena trouxa; à porta, um homem mais velho conta moedas de prata na palma da mão.

Estudo


Se ela desagradar ao seu senhor, que a tinha destinado para si, ele a deixará ser resgatada; não terá o direito de vendê-la a um povo estrangeiro, porque agiu com deslealdade para com ela.

1. Introdução

O comprador da menina não quer casar com ela, e a lei diz o que ele pode e o que não pode fazer. Pode deixar de tomá-la por esposa; não pode retê-la como criada qualquer, nem revendê-la a estrangeiros, porque "agiu com deslealdade". O versículo traz um dos casos mais conhecidos da Bíblia hebraica em que se escreve uma palavra e se lê outra — "não a destinou" ou "a destinou para si" —, e os rabinos construíram leis diferentes sobre cada uma das duas. Também não está dito quem é o "povo estrangeiro" nem quem foi desleal, o senhor ou o pai, e cada resposta muda o sentido da proibição.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como se calculava o resgate

"Resgatar" uma serva não era devolver o preço inteiro. O Talmude (Kiddushin 14b) e Rashi descrevem a conta, e ela é a mesma do escravo hebreu: o comprador sabia, ao pagar, que a menina sairia no máximo em seis anos; comprou, portanto, seis anos de trabalho. Se pagou cem siclos e ela já serviu dois anos, os dois anos valem um terço do preço, e ela sai pagando os dois terços restantes. Rashi diz ao senhor, em nome da lei: "você sabia que ela sairia no fim de seis anos". O resgate é sempre proporcional ao tempo que falta.

Maimônides acrescenta uma consequência dessa conta: a menina não podia ser comprada por uma quantia mínima, porque então não haveria o que abater ano a ano e ela não teria como se resgatar. O preço precisava ser grande o bastante para que a saída fosse possível.

Resgatada contra a vontade de quem?

Uma tradição citada no Talmude (Kiddushin 18a) lista três privilégios da serva hebreia que o escravo hebreu não tem: ela sai pela puberdade, não pode ser vendida segunda vez e "pode ser resgatada contra a vontade". Contra a vontade de quem? Rava pensou no senhor: ela seria resgatada mesmo que ele recusasse. Abaye objeta com uma imagem: o senhor tem uma pérola na mão, e você quer lhe dar um caco? Se ela ainda não tem o dinheiro, um papel de dívida não vale o trabalho dela.

A solução de Abaye é outra: contra a vontade do pai. O tribunal pressiona o pai a resgatar a filha "por causa da mancha da família" — é vergonhoso para uma casa ter uma filha servindo em casa alheia. E por que não se obriga a família a resgatar também o filho vendido? Porque ele poderia vender-se de novo e viver à custa dos parentes. Com a filha isso não acontece, porque ela não pode ser vendida duas vezes. Maimônides fixa a regra no seu código: "obriga-se o pai a resgatar a filha depois de vendê-la, porque é uma mancha para a família".

A venda com condição

A Mekhilta registra uma divergência que mostra até onde a venda estava presa ao casamento. Rabi Yossi diz que o pai não pode vender a filha com a condição de que o comprador case com ela. Rabi Akiva diz que pode: se o comprador quiser tomá-la por mulher, faz isso; se não quiser, a venda se desfaz.

O Talmude (Kiddushin 19b) discute o caso inverso: o pai que vende com a condição de que o comprador não a destine a si. Rabi Meir acha que a condição vale; os sábios dizem que não, porque quem põe condição contra o que está escrito na Torá tem a condição anulada — e a Torá prevê a destinação. A Mekhilta resume a ordem de preferência numa frase: "o mandamento de destiná-la tem precedência sobre o mandamento de resgatá-la". A lei queria, antes de tudo, que a menina virasse esposa; o resgate era o segundo caminho.

Por que proibir a venda a estrangeiros

Nachmânides explica a proibição com outra lei. O israelita pobre podia vender-se a um estrangeiro residente na terra (Levítico 25:47), e a lei garantia o resgate dele. Se o texto não dissesse nada, seria possível aplicar o mesmo à menina. A proibição existe para fechar essa porta, e Nachmânides imagina até o caso concreto: o pai que resgatou a filha de um senhor que não quis casar com ela, e que pensa em vendê-la por um ou dois anos a um estrangeiro, com a intenção de buscá-la depois. A lei proíbe também isso.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se ela desagradar ao seu senhor"

O hebraico diz, ao pé da letra, "se ela for má aos olhos do seu senhor". Não é um juízo sobre o caráter da menina. A Mekhilta e Rashi leem "má aos olhos" como "não encontrou graça diante dele" — ele não quer casar com ela. O critério é o gosto do senhor, e a lei não lhe pede justificativa.

Sforno tira daí uma regra de bom senso: o senhor não é obrigado a tomar por esposa uma moça com quem não se dá, "porque acabaria por odiá-la". A lei não força o casamento; força as consequências da recusa. É a mesma expressão que o Deuteronômio usa para o marido que despede a mulher porque ela "não achou graça aos olhos dele" (Deuteronômio 24:1): nos dois casos, o desagrado do homem basta para desfazer a união, e a lei se ocupa do que a mulher recebe na saída.

"que a tinha destinado para si"

Aqui o texto hebraico tem duas formas. A palavra escrita no rolo significa "não"; a que se lê em voz alta, com o mesmo som, significa "para si" (a explicação desse sistema está no item 10). O versículo pode dizer, portanto, "que não a destinou" ou "que a destinou para si", e as duas versões contam histórias diferentes.

Na versão lida em voz alta, o senhor chegou a destiná-la a si — prometeu casamento — e depois desistiu. A deslealdade do fim do versículo é a promessa quebrada. É a leitura da Septuaginta, de Ônquelos, de Ibn Ezra e da maioria das traduções.

Na versão escrita, ele nunca a destinou: comprou-a para casar e, porque ela lhe desagradou, não deu o passo. A Mekhilta lê assim e extrai uma ordem: se ele não a destina, que a resgate; e conclui que destinar vem antes de resgatar. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX) também prefere "que não a destinou".

Rashi faz as duas versões caberem numa só frase: o senhor "que devia tê-la destinado" para si. A forma lida diz o que se esperava dele; a forma escrita, o que ele não fez. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) considera as duas leituras "próprias e prováveis". Não é possível decidir qual delas o autor do texto quis; é possível ver que, juntas, descrevem com exatidão a situação de uma menina comprada para um casamento que não aconteceu.

"Destinar" exigia que ela soubesse?

O verbo "destinar" é o de marcar um encontro, fixar um prazo, designar (item 10). O Talmude encontrou nele uma exigência que o português não deixa ver. Abaye, filho de Rabi Abbahu, ensinou que "a destinou" (ye'adah) deve ser lido como "a informou" (yoda'ah): o senhor não pode fazer dela sua esposa sem que ela saiba (Kiddushin 19a). Rabi Yannai disse o mesmo de outra forma: a destinação só vale com consentimento — e por isso só um adulto pode ser destinado a ela, porque uma criança não consente.

Maimônides transformou isso em lei: "o senhor não pode destiná-la como esposa, para si ou para o filho, sem que ela saiba; embora o pai já tenha recebido o dinheiro por ela, a Torá diz 'destinar', o que implica que seja com o conhecimento dela". A menina vendida pelo pai sem ser consultada precisava ser consultada para virar esposa.

"ele a deixará ser resgatada"

O verbo está numa forma que faz do senhor não quem resgata, mas quem permite e facilita o resgate. Quem paga? As respostas variam. A Mekhilta: o pai. Rashi e John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII): ela mesma, com o desconto dos anos servidos. Keil e Delitzsch: outro israelita, que a compra para tomá-la como esposa. Ellicott: alguém que tome o lugar do senhor e cumpra o contrato. Nachmânides, no sentido simples: no momento em que o senhor diz "não quero casar com ela", o pai fica proibido de deixá-la ali e deve resgatá-la.

Todas as leituras concordam no essencial: a recusa do senhor não o autoriza a fazer da menina uma serva comum. Ou ela vira esposa, ou volta a ser livre.

"não terá o direito de vendê-la a um povo estrangeiro"

Quem é o "povo estrangeiro"? Três respostas.

Primeira: estrangeiros de fato, não israelitas. A Mekhilta diz que é uma advertência ao pai para não vender a filha a um gentio, e Ibn Ezra insiste: a palavra usada para "estrangeiro" designa quem não é israelita, e não um compatriota de outra família. Nachmânides acha que este é o sentido simples. Os comentaristas cristãos dão as razões: Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII) diz que um pagão a manteria escrava para sempre, o que um israelita não podia fazer; Poole fala do perigo "para a sua castidade e para a sua religião".

Segunda: qualquer outro homem, mesmo israelita. O Targum de Ônquelos traduz "a outro homem", e Rashi segue: nem o senhor nem o pai podem revendê-la a ninguém. Saadia Gaon (o grande sábio judeu de Bagdá, século X) já lia "povo" como "pessoa". Ibn Ezra rejeita: "povo" é palavra coletiva e não pode designar um indivíduo. Nachmânides tenta salvar a leitura rabínica com um artifício de gramática — "a um povo, a um estranho" —, como em "deste-o por alimento ao povo, aos habitantes do deserto" (Salmo 74:14).

Terceira: um israelita que se comporta como estranho. Sforno lê "estrangeiro" como o judeu que agiu contra os costumes do povo — o comprador que já tratou mal uma serva. A um homem assim, depois disso, nenhum pai pode vender a filha.

A leitura rabínica tem uma consequência importante: se "povo estrangeiro" é qualquer um, a serva hebreia não pode ser revendida em caso nenhum. Ela não é mercadoria que passa de mão em mão.

"porque agiu com deslealdade para com ela"

O verbo é o da traição — o mesmo que os profetas usam para o marido que trai a mulher da juventude (item 9). Mas quem traiu? O versículo não diz.

O pai, ao vendê-la. É a leitura de Rabi Eliezer no Talmude e de Rabi Yonatan ben Avtalmos na Mekhilta: o pai já foi desleal uma vez, rebaixando a filha à condição de serva; não pode sê-lo de novo. Daí a regra de que ela não é vendida duas vezes. Sforno lembra, a propósito, a raiva de Lia e Raquel contra o pai que "as vendeu" (Gênesis 31:15).

O senhor, ao não casar com ela. É a leitura de Rabi Ishmael na Mekhilta. Rashbam a desenvolve com a acusação de Malaquias: o senhor foi desleal como o homem que trai "a mulher da sua mocidade", com quem tinha um compromisso. Benson fala em "quebrar a promessa de casamento".

O senhor, depois de "estender a sua roupa sobre ela". Rabi Akiva ouviu na palavra, tal como é pronunciada, o som de beged, "roupa": "depois que ele estendeu sobre ela a sua roupa" — o gesto de tomar uma mulher por esposa, o que Rute pede a Boaz e o que Deus faz com Jerusalém em Ezequiel (item 9). Para Akiva, a frase diz que, uma vez prometida em casamento, a menina não pode mais ser vendida pelo pai. O Talmude (Kiddushin 18b) explica a divergência como uma discussão de método: Rabi Eliezer segue a forma escrita da palavra, Rabi Akiva segue a forma pronunciada, e Rabi Shimon aceita as duas e tira das duas uma regra.

O limite

O versículo deixa sem resposta quem resgata, quem é o estrangeiro e quem foi desleal. O que ele diz sem ambiguidade é o fim: a menina não pode ser repassada. A deslealdade, seja de quem for, já foi cometida, e a lei proíbe que ela se repita sobre a mesma pessoa.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O senhor. Comprou a menina com a perspectiva de casar com ela ou de dá-la ao filho. O versículo trata do momento em que ele desiste, e o que a lei lhe deixa é pouco: pode recusar o casamento, mas não pode ficar com a menina como criada nem passá-la adiante.

A menina. Ainda sem nome e sem fala. É ela quem "desagrada", é ela quem é resgatada, é com ela que alguém foi desleal. No Talmude, ganha uma exigência a seu favor: só vira esposa se souber e consentir.

O pai. Não é nomeado aqui, mas está no centro de duas das três leituras: é quem a Mekhilta manda resgatar e quem Rabi Eliezer acusa de deslealdade.

O "povo estrangeiro". Os gentios, para a Mekhilta e Ibn Ezra; qualquer outro comprador, para Ônquelos e Rashi.

Rabi Akiva e Rabi Eliezer. Os dois mestres do início do século II cuja disputa sobre a vogal de uma palavra (Kiddushin 18b) ficou como o exemplo clássico da pergunta: vale o que está escrito no rolo ou o que se lê em voz alta?

Os massoretas. Os escribas e eruditos judeus que, entre os séculos VI e X, fixaram as vogais e as notas do texto hebraico, entre elas a que registra aqui a diferença entre o que se escreve e o que se lê.

Eventos

Uma promessa de casamento que não se cumpre. O versículo não descreve uma cena; descreve as consequências jurídicas de um compromisso desfeito, e é por isso que a palavra "deslealdade" ocupa o fim da frase.

5. Pontos de Ensino

1. O senhor pode recusar o casamento, mas não pode transformar a recusa em lucro. A menina que desagrada sai pelo resgate; não fica como criada nem é revendida.

2. O texto escrito e o texto lido dizem coisas diferentes. "Não a destinou" e "a destinou para si" contam duas histórias, e a tradição usou as duas. Rashi as junta: ele devia tê-la destinado.

3. Para virar esposa, a menina precisava saber. O Talmude leu "destinar" como "informar" e exigiu o consentimento dela, que a venda não exigia.

4. O resgate é proporcional ao tempo que falta. A conta, descrita no Talmude e em Rashi, faz da servidão um contrato de trabalho com prazo, não uma posse.

5. "Povo estrangeiro" tem duas leituras principais. Gentios, no sentido literal (Mekhilta, Ibn Ezra), ou qualquer outra pessoa (Ônquelos, Rashi). Na segunda, a serva hebreia nunca pode ser revendida.

6. A deslealdade tem três autores possíveis. O pai que vendeu, o senhor que não casou, ou o senhor que chegou a prometer. O texto não diz qual, e a proibição vale nos três casos.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe um limite a um mercado. A menina já foi vendida uma vez; a lei não desfaz essa venda, mas proíbe a seguinte. Não pode ser repassada a estrangeiros, e, na leitura rabínica, não pode ser repassada a ninguém. A pergunta que isso levanta é antiga e muito atual: há coisas — ou pessoas — que não devem estar à venda, e o que torna uma troca inaceitável?

Os mercados nocivos

A filósofa norte-americana Debra Satz (professora de filosofia da Universidade Stanford, nos Estados Unidos) tratou essa pergunta no livro Por que algumas coisas não devem estar à venda: os limites morais dos mercados (2010). Ela recusa duas respostas fáceis. A primeira diz que tudo pode ser vendido se as partes concordam. A segunda diz que certas coisas são sagradas por natureza e não podem ter preço. Para Satz, o problema não está na coisa vendida, mas nas condições da troca e nos seus efeitos.

Ela propõe quatro sinais de que um mercado é nocivo. Primeiro, a vulnerabilidade de uma das partes: quem vende porque não tem outra saída não está negociando, está cedendo. Segundo, a agência fraca: uma das partes não entende o que está em jogo ou nem participa da decisão, como acontece quando alguém decide por outro. Terceiro, danos extremos para a pessoa, que podem destruir os interesses mais básicos dela. Quarto, danos à sociedade: certos mercados corroem a condição de iguais que os membros de uma comunidade precisam ter uns diante dos outros.

A servidão voluntária

Satz dedica um capítulo à servidão por dívida e à ideia de que alguém poderia vender a si mesmo como escravo. A objeção dela não é só que a pessoa se arrependeria. É que uma sociedade que admite esse contrato cria uma classe de pessoas sem voz, que já não podem defender os próprios interesses porque abriram mão do direito de fazê-lo. O dano não é só individual: é político.

Ela trata também do trabalho infantil, e o argumento toca o versículo de perto. Quando os pais decidem pela criança, a criança não é parte da troca — e é ela quem arca com o resultado. A agência fraca, nesse caso, é total.

O que a lei antiga já via

Postos ao lado do versículo, os quatro sinais de Satz aparecem todos. A vulnerabilidade: a tradição só admite a venda na miséria extrema. A agência fraca: a menina não decide nada, o pai decide por ela. O dano extremo: ser repassada a um estrangeiro, longe da família, sem resgate. O dano social: o Talmude fala da "mancha da família" — uma filha servindo em casa alheia desonra a casa inteira.

E a resposta da lei é a que Satz defenderia para um mercado que não se consegue suprimir: não proibir a troca de uma vez, mas cortar os pontos em que ela se torna destrutiva. O preço é sempre resgatável; a revenda é proibida; a menina não pode virar esposa sem consentimento; e a saída está garantida pela puberdade e pelo prazo. A lei não declara a menina sagrada demais para ser vendida. Declara que ela não pode circular.

O limite da comparação

Satz não escreveu sobre Êxodo 21, e o raciocínio dela vai além do que o versículo faz. Para ela, um mercado com os quatro sinais deveria ser bloqueado ou fortemente regulado, e a venda de crianças estaria entre os casos mais claros de bloqueio. O versículo fica no meio do caminho: aceita a primeira venda e proíbe a segunda. A aproximação mostra que o critério de fundo é o mesmo — o que torna a troca inaceitável é o que ela faz com quem não pode se defender —, e mostra também a distância entre regular um mercado de pessoas e recusá-lo.

7. Aplicações Práticas

"Vender a um povo estrangeiro" tem nome hoje. A forma mais comum de tráfico de meninas e mulheres no mundo é exatamente esta: a moça recrutada numa família pobre com promessa de trabalho ou de casamento, e depois repassada para outro país, onde não fala a língua, não tem parentes e não tem como voltar. A lei do Êxodo proibia justamente o repasse para fora, onde nenhum resgate a alcançaria. A relação com o versículo é direta: quem recruta, transporta ou compra uma pessoa nessas condições está fazendo o que a lei antiga já chamava de deslealdade.

A promessa desfeita tem custo. O senhor pode desistir do casamento, mas a desistência não o libera: ele tem de facilitar o resgate e perde o direito de lucrar com a menina. Quem se compromete com alguém em posição frágil — um noivado, uma contratação, uma adoção, uma promessa de sustento — e depois recua, não sai do compromisso de mãos limpas só porque mudou de ideia. O versículo exige que a saída deixe a outra parte livre, e não mais vulnerável do que antes.

O consentimento que chega tarde. A menina não foi consultada na venda, mas o Talmude exigiu que fosse consultada para o casamento. Em situações em que alguém já decidiu por outro, ainda há momentos em que a vontade dessa pessoa pode e deve ser ouvida, e são esses os momentos a não perder.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Se o texto escrito diz "não" e o lido diz "para si", qual é a Bíblia?

Para a tradição judaica, as duas. O rolo da sinagoga é copiado com a forma escrita, e o leitor pronuncia a outra; ninguém corrige o rolo. A tradição cristã, nas suas traduções, ficou quase sempre com a forma lida. Os estudiosos modernos discutem se a forma escrita é um erro antigo de cópia ou uma leitura legítima que a forma lida substituiu; não há consenso, e neste versículo as duas fazem sentido.

2. Por que a lei se preocupa tanto com a revenda e tão pouco com a primeira venda?

A primeira venda acontecia dentro da família e da aldeia, com possibilidade de resgate e de casamento. A revenda — sobretudo a estrangeiros — afastava a menina de tudo o que a protegia: o pai, o tribunal local, a língua, o jubileu. A lei mira o ponto em que a servidão deixaria de ter volta. É uma explicação plausível; o versículo não dá o motivo.

3. O senhor que não quer casar com a menina pode simplesmente devolvê-la de graça?

O versículo não fala nisso. Ele diz que o senhor deve permitir o resgate, o que supõe pagamento. Mas o versículo 11 prevê que, se ele não cumprir o que lhe cabe, ela sai "sem pagar nada". A lei, portanto, tem duas saídas: a paga, quando o senhor faz a parte dele, e a gratuita, quando não faz.

4. A regra de que o Talmude segue a forma pronunciada ou a escrita foi decidida?

Não de modo uniforme. Em Kiddushin 18b, a posição de Rabi Shimon — que aceita as duas formas — é a que gera a lei: a serva não é vendida como escrava depois de prometida em casamento, nem vendida duas vezes. Em outros lugares do Talmude, a mesma pergunta recebe respostas diferentes conforme o caso. Ficou como princípio de interpretação, não como regra fixa.

9. Conexão com Outros Textos

O desagrado do homem

Deuteronômio 24:1 — "Se um homem tomar uma mulher e casar com ela, e ela não achar graça aos olhos dele, por ter ele encontrado nela algo de indecente, ele lhe escreverá uma carta de divórcio, lha entregará na mão e a despedirá de sua casa."

A mesma lógica do "desagradar aos olhos": o juízo do homem desfaz a união, e a lei regula a saída da mulher.

Deuteronômio 21:14 — "Se ela não te agradar, tu a deixarás ir para onde ela quiser; mas de modo nenhum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a humilhaste."

A lei da prisioneira de guerra tomada por esposa: a mesma estrutura deste versículo — desagrado, saída, proibição de vender — aplicada a uma estrangeira. A Mekhilta e Ibn Ezra raciocinam a partir dela.

A deslealdade

Malaquias 2:14 — "O SENHOR foi testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, com a qual você foi desleal, embora ela fosse a sua companheira e a mulher da sua aliança."

O versículo que Rashbam cita: o verbo da deslealdade aplicado ao compromisso de casamento.

Jeremias 3:20 — "Como a mulher que é desleal ao marido, assim vocês foram desleais comigo, ó casa de Israel, diz o SENHOR."

O mesmo verbo, agora na boca de Deus, com a relação conjugal como imagem da aliança.

A roupa estendida

Rute 3:9 — "Eu sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador."

Ezequiel 16:8 — "Passei por você e a vi, e eis que o seu tempo era tempo de amores; estendi sobre você a ponta da minha capa e cobri a sua nudez; fiz um juramento e entrei em aliança com você, diz o SENHOR Deus, e você passou a ser minha."

Os dois textos que dão sentido à leitura de Rabi Akiva: estender a roupa sobre uma mulher é tomá-la por esposa. Em Rute, quem pede é uma estrangeira que se chama de serva — e o pedido vem junto com a palavra "resgatador".

O consentimento da noiva

Gênesis 24:57-58 — "Então disseram: 'Vamos chamar a jovem e perguntar a ela.' Chamaram Rebeca e lhe perguntaram: 'Você quer ir com este homem?' 'Sim, quero ir', respondeu ela."

A pergunta que o Talmude exigiu para a serva destinada ao casamento já está feita, numa narrativa, à mais conhecida das noivas do Gênesis.

O estrangeiro que compra

Levítico 25:47-48 — "Se o estrangeiro ou o residente que está contigo enriquecer, e o teu irmão empobrecer junto dele e se vender ao estrangeiro, depois de vendido haverá para ele resgate; um dos seus irmãos poderá resgatá-lo."

A venda ao estrangeiro que a lei admite para o homem, e que, segundo Nachmânides, o 21:8 fecha para a menina.

O outro caso de leitura dupla

Salmo 100:3 — "Saibam que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e somos dele; somos o seu povo e ovelhas do seu pasto."

Aqui a mesma troca: escrito "e não nós" (não fomos nós que nos fizemos), lido "e somos dele". Ibn Ezra e Saadia discutem os dois versículos juntos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se ela desagradar ao seu senhor, que a tinha destinado para si, ele a deixará ser resgatada; não terá o direito de vendê-la a um povo estrangeiro, porque agiu com deslealdade para com ela.

Texto hebraico

אִם־רָעָה בְּעֵינֵי אֲדֹנֶיהָ אֲשֶׁר־לא [לוֹ] יְעָדָהּ וְהֶפְדָּהּ לְעַם נָכְרִי לֹא־יִמְשֹׁל לְמָכְרָהּ בְּבִגְדוֹ־בָהּ׃

(Entre colchetes, a forma lida em voz alta.)

Transliteração

im-ra'ah be-einei adoneha asher-lo ye'adah ve-hefdah; le-am nokhri lo-yimshol le-mokhrah be-vigdo-vah.

Análise palavra por palavra

אִם־רָעָה בְּעֵינֵי אֲדֹנֶיהָ — im-ra'ah be-einei adoneha, "se for má aos olhos do seu senhor".

Ra'ah é o feminino do adjetivo ra, "mau", aqui com o sentido de "desagradável". "Aos olhos de" é a fórmula hebraica do juízo pessoal: o que é mau "aos olhos" de alguém é o que essa pessoa reprova. Adoneha, "o seu senhor", é o plural de adon com sufixo feminino — o plural de majestade, usado para o dono de escravos e para o marido, com o sentido de um só senhor.

אֲשֶׁר־לא [לוֹ] — asher-lo, "que não" (escrito) / "que para si" (lido).

Aqui está o caso mais conhecido do capítulo. As consoantes do rolo são lamed-alef, que formam lo, "não". A nota dos massoretas manda ler lamed-vav, que forma lo, "para ele, para si". A pronúncia é a mesma; o sentido se inverte. O sistema tem nome técnico: ketiv, "o que está escrito", e qere, "o que se lê". O texto consonantal é copiado sem alteração, e a correção fica na margem; o leitor da sinagoga pronuncia a forma da margem.

A troca entre os dois lo não é única. Keil e Delitzsch lembram que a tradição massorética conta uma série de lugares — cerca de quinze — em que o "não" escrito se lê como "para ele". O mais famoso é o Salmo 100:3, onde se escreve "ele nos fez, e não nós" e se lê "ele nos fez, e somos dele". Ibn Ezra registra a opinião de Saadia Gaon, para quem a palavra tem os dois sentidos ao mesmo tempo nos dois lugares, e a rejeita: para Ibn Ezra, só a forma lida está certa.

יְעָדָהּ — ye'adah, "a destinou".

Verbo ya'ad, no perfeito, terceira pessoa do masculino singular, com sufixo de objeto feminino ("a"). A raiz significa fixar, marcar, designar — dela vem mo'ed, "tempo marcado, encontro, festa", e o "prazo que ele lhe marcara" de 2 Samuel 20:5, que Nachmânides cita. Destinar uma mulher é marcar-lhe um compromisso: o de casamento. A leitura talmúdica yoda'ah, "a informou", troca só a vogal e aproveita a semelhança com yada, "saber".

וְהֶפְדָּהּ — ve-hefdah, "e a fará resgatar", "e a deixará ser resgatada".

Verbo padah, "resgatar", na forma causativa (Hiphil, a forma que indica "fazer acontecer"), com sufixo feminino. A forma simples seria "ele a resgatará"; a causativa diz que ele faz com que ela seja resgatada — ele não paga, ele permite e facilita. Padah é o verbo do resgate por pagamento, o mesmo do primogênito resgatado em Êxodo 13:13.

לְעַם נָכְרִי — le-am nokhri, "a um povo estrangeiro".

Am, "povo", com a preposição le, "a, para", e o adjetivo nokhri, "estrangeiro, estranho", da raiz que dá também "reconhecer" — o estrangeiro é o desconhecido. Ibn Ezra distingue nokhri, quem não é israelita, de zar, o israelita de outra família. A frase vem antes do verbo, em posição de destaque: "a povo estrangeiro, não terá o poder de vendê-la".

לֹא־יִמְשֹׁל לְמָכְרָהּ — lo-yimshol le-mokhrah, "não terá domínio para vendê-la".

Mashal, "dominar, governar, ter autoridade", no imperfeito. O verbo não é "não venderá", mas "não terá autoridade para vender": a lei nega o poder, não só o ato. É o verbo de Gênesis 3:16 ("ele a dominará") e de Gênesis 37:8 ("dominarás sobre nós?"). Le-mokhrah é o infinitivo de makhar, "vender", com sufixo feminino.

בְּבִגְדוֹ־בָהּ — be-vigdo-vah, "no seu agir desleal com ela".

A preposição be, aqui com sentido de causa ("por, visto que"), o infinitivo de bagad, "agir com deslealdade, trair", com sufixo de terceira pessoa ("dele"), e bah, "com ela". Bagad é o verbo da traição nos profetas, sobretudo da traição conjugal (Malaquias 2:14-16; Jeremias 3:20). A mesma raiz dá beged, "roupa" — e é aí que entra a leitura de Rabi Akiva. As consoantes permitem ler be-vagdo (de bagad, "trair") ou be-vigdo, que soa como "na roupa dele". O Talmude (Kiddushin 18b) diz que Rabi Eliezer segue as consoantes e lê traição; Rabi Akiva segue a vocalização tradicional, ouve "roupa" e lê "depois que estendeu a sua roupa sobre ela".

As traduções antigas

A Septuaginta segue a forma lida: hēn autō kathōmologēsato, "a quem ele se comprometeu com ela para si", com o verbo grego dos acordos formais. A deslealdade vira ēthetēsen en autē, "ele a desconsiderou, rompeu com ela". A Vulgata diz cui tradita fuerat, "a quem ela fora entregue", e termina com si spreverit eam, "se a desprezou". O Targum de Ônquelos traduz "que a destinou para si", lê "povo estrangeiro" como li-gvar ochoran, "a outro homem", e a deslealdade como "no seu domínio sobre ela" — a leitura de Rashi já estava na tradução aramaica.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo separa a recusa do casamento da posse da menina. O senhor pode não querer casar com ela, e a lei aceita isso sem pedir motivo; o que ele não pode é ficar com ela de outro modo. A recusa abre o resgate, não a servidão comum.

A segunda é que a lei protege a menina sobretudo contra a circulação. Seja "povo estrangeiro" o gentio ou qualquer outro comprador, a regra impede que ela seja repassada para onde ninguém a resgate — e, na leitura rabínica, impede que seja repassada de todo. O ponto mais perigoso de uma venda, para a lei, é a venda seguinte.

A terceira é que a palavra que fecha o versículo transforma o caso jurídico em caso moral. Quem foi desleal — o pai, o senhor que não prometeu, o senhor que prometeu e recuou — não está decidido, e a dupla forma escrita e lida mantém a pergunta aberta. Mas, em qualquer leitura, alguém faltou com a menina, e a lei registra a falta como razão da proibição.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 21:8

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%