Então os seus irmãos lhe disseram: "Por acaso você vai reinar sobre nós? Vai mesmo nos dominar?" E o odiaram ainda mais por causa dos seus sonhos e das suas palavras.
1. Introdução
Os irmãos falam pela primeira vez, e o que sai é uma pergunta que não espera resposta.
O versículo tem duas metades. Na primeira, eles respondem ao sonho com escárnio. Na segunda, o texto registra que o ódio aumentou outra vez — e, agora, diz exatamente por quê.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é o fato de eles falarem. O versículo 4 havia dito que não conseguiam dirigir a palavra a José em paz. Continuam sem conseguir: a única fala que sai é hostil.
O segundo é a palavra que eles introduzem. O sonho falava de feixes que se curvam. Eles traduzem isso por "reinar" e "dominar" — dois verbos de poder político que o sonho não usou. A leitura é deles.
O terceiro é a dupla causa. O texto diz que o ódio cresceu por causa dos sonhos e das palavras. É a resposta à ambiguidade que o versículo 5 tinha deixado em aberto: foram as duas coisas.
E há uma ironia que só se percebe muito depois: o verbo que eles usam para escarnecer é exatamente o verbo que José usará, em Gênesis 45:8, para descrever a própria posição no Egito.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um povo sem rei
A palavra que os irmãos usam é forte, e o contexto histórico faz diferença.
Naquele momento, os descendentes de Abraão não tinham rei, não tinham território próprio e não tinham nem o nome de povo. Eram um clã de pastores em terra alheia. A monarquia em Israel só apareceria séculos depois, com Saul e Davi.
O Gênesis tem consciência disso e faz questão de registrar. Gênesis 36:31 apresenta a lista dos reis de Edom com a observação de que reinaram "antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel". O irmão de Jacó já tinha monarquia; a linha de Jacó, não.
Quando os irmãos perguntam se José vai reinar, portanto, não estão falando de algo que exista na experiência deles. Estão usando a palavra de fora — o que os reis dos outros povos são.
O que era um rei naquele mundo
No antigo Oriente Próximo, o rei concentrava funções que hoje estão separadas: chefe militar, juiz supremo, administrador dos celeiros e responsável pelo culto. Controlava também o excedente agrícola — recolhia parte da colheita, armazenava e redistribuía em tempo de escassez, que é exatamente o que José fará no Egito.
Nada disso passava pela cabeça dos irmãos ao usarem a palavra. Para eles era escárnio, não previsão.
Mandar dentro da família
Havia, porém, uma hierarquia real dentro do clã, e é dela que a pergunta trata de verdade.
O primogênito recebia porção dobrada na herança e assumia a chefia da casa depois da morte do pai. Os irmãos mais novos ficavam sob a autoridade dele. Não era reinado, mas era comando, e valia para a vida inteira.
A bênção que Isaque deu a Jacó, em Gênesis 27:29, formula isso com todas as letras: "sê senhor de teus irmãos, e os filhos da tua mãe se inclinem a ti". A fórmula existia e era conhecida.
Ou seja: a ideia de um irmão mandar nos outros não era estranha àquela cultura. O escândalo era o candidato — o décimo primeiro filho, de dezessete anos, sem nenhum título a isso.
A pergunta que não pergunta
A forma da fala importa tanto quanto o conteúdo.
Eles não afirmam nada. Não dizem "você não vai reinar sobre nós", nem "esse sonho é mentira", nem "cale a boca". Fazem uma pergunta em duas partes, com uma construção hebraica que reforça o verbo e produz efeito de espanto.
Esse tipo de pergunta era, e continua sendo, uma arma. Ela obriga o outro a defender uma posição que ele talvez nem tenha assumido: a pergunta pressupõe que José pretendia reinar, e ele não disse isso.
Quem responde "não, eu não pretendo" já perdeu, porque aceitou o enquadramento. Quem não responde parece confirmar. José não responde.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então os seus irmãos lhe disseram"
Vale parar nesta frase antes do conteúdo, porque ela contradiz aparentemente o versículo 4.
Lá o texto afirmou que os irmãos não conseguiam falar com José em paz. Aqui eles falam.
Não há contradição: a afirmação do versículo 4 é precisa. Eles não conseguiam falar em paz. Falar com hostilidade, conseguiam.
Isso confirma a leitura que o item 10 do versículo 4 propôs. O que estava rompido não era a capacidade de emitir som na direção dele; era a cortesia, o cumprimento, a fala que reconhece o outro como alguém com quem se está em relação.
E há uma consequência amarga. Esta é a primeira e praticamente a única vez em todo o capítulo em que os irmãos dirigem a palavra a José. Depois disto, falarão sobre ele — no versículo 19, "lá vem o sonhador"; no versículo 20, "vamos matá-lo" — mas não com ele.
Nem no momento de despi-lo e lançá-lo na cisterna o texto registra que alguém lhe tenha dito alguma coisa.
"Por acaso você vai reinar sobre nós?"
Aqui está o ponto mais importante do versículo, e ele é fácil de perder.
O sonho não falou em rei. Falou em feixes que se levantam e feixes que se curvam. A palavra "reinar" não estava ali — foi acrescentada pelos irmãos.
Eles fizeram, em uma frase, três operações. Traduziram feixes por pessoas. Traduziram curvar-se por submissão política. E deram à submissão o nome mais forte disponível na língua.
Duas coisas decorrem disso.
A primeira é que a interpretação do sonho, no texto, é obra deles. José não disse o que o sonho significava; eles disseram. E o significado que atribuíram é o mais ameaçador possível.
Isso não quer dizer que estivessem errados. O livro acabará dando razão à substância da leitura. Mas convém registrar que a formulação — a palavra "reinar" — nasce da boca de quem tem medo, e não do sonho.
A segunda decorrência é sobre o que revela um exagero. Quem escolhe a palavra mais forte para descrever uma ameaça costuma estar dizendo o tamanho do próprio medo, não o tamanho do fato. Feixes curvando-se poderiam significar muitas coisas: respeito, dependência temporária, favor recebido. Eles foram direto ao trono.
Vale ainda uma observação sobre a ironia. A palavra que eles usam por escárnio descreverá, um dia, a posição real de José — não sobre eles, mas sobre o Egito inteiro. E o segundo verbo da pergunta será exatamente o verbo que ele usará, em Gênesis 45:8, ao explicar aos irmãos o que se tornou. O item 10 mostra o detalhe.
O Gênesis não comenta a coincidência. Ela está no vocabulário, e quem lê os dois trechos a percebe.
"Vai mesmo nos dominar?"
A segunda pergunta repete a primeira com outro verbo, e a repetição tem função.
O primeiro verbo é o do reinado, com toda a carga política que a palavra carrega. O segundo é mais amplo: cobre governar, mandar, ter poder sobre — e serve tanto para reis quanto para chefes de casa, capatazes e senhores de escravos.
Ao usar os dois em sequência, eles fecham as saídas. Não é só a coroa que está fora de questão: qualquer forma de autoridade de José sobre eles é rejeitada.
A construção hebraica reforça isso de um modo que o português não reproduz bem. Cada verbo vem duplicado — algo como "reinando reinarás?", "dominando dominarás?" —, e a duplicação serve para intensificar, com efeito de espanto e deboche.
É preciso ouvir o tom. Não é uma dúvida sincera. É a pergunta de quem já decidiu que a resposta é absurda.
"E o odiaram ainda mais por causa dos seus sonhos e das suas palavras"
O terceiro degrau da escada, e desta vez o texto especifica a causa.
São duas, e a distinção é a mesma que o versículo 5 tinha deixado em suspenso. Ali o texto dissera apenas "por isso", sem separar o sonho do relato. Aqui separa: os sonhos e as palavras.
Isso é mais preciso do que parece. O ódio tem dois objetos: o conteúdo que José recebeu sem escolher, e o ato de comunicá-lo, que foi escolha dele.
Vale notar um detalhe gramatical com peso. O texto diz "sonhos", no plural, e até aqui só um sonho foi contado.
Três explicações circulam. Pode ser que o plural aponte para a frente, antecipando o segundo sonho do versículo 9. Pode ser que a família de José já o considerasse um sonhador habitual, e que este relato fosse mais um. Pode ser simplesmente uso genérico do plural, como quando se diz "por causa das ideias dele". Não é possível decidir.
A expressão "as suas palavras" também merece atenção. Pode designar o relato do sonho — as palavras com que ele o contou. Pode designar um hábito mais amplo de falar, que remeteria às notícias que ele levava ao pai no versículo 2. As duas leituras são defensáveis.
Por fim, o verbo. É o mesmo do versículo 5: eles acrescentaram ódio ao ódio. O texto não diz "passaram a odiar", porque isso já havia acontecido. Diz que somaram mais.
Três somas em cinco versículos, e ainda faltam dez versículos para a cisterna.
O que o versículo não conta
Duas ausências merecem registro.
A primeira é a resposta de José. Ele não replica, não se defende, não explica. O texto passa direto da pergunta dos irmãos ao aumento do ódio, e a próxima coisa que José faz é ter outro sonho.
Não é possível saber se ele calou por prudência, por não ter o que dizer, ou porque nem percebeu a gravidade do que ouvira.
A segunda é o pai. Jacó não está nesta cena e não fica sabendo dela. Só entrará no assunto no versículo 10, depois do segundo sonho — e o que ele fizer ali será tarde.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os irmãos, com voz
É a primeira fala deles no capítulo, e é coletiva. O texto não distingue quem disse o quê.
Essa escolha se manterá quase até o fim: eles falam em bloco no versículo 19, no versículo 20 e no versículo 32. Só Rúben e Judá terão fala própria, e nos dois casos para propor alguma alternativa ao assassinato.
O anonimato dentro do grupo é significativo. Ninguém precisa assumir individualmente o que o grupo diz.
José, calado
Ele havia falado no versículo 6 e no 7. Aqui não responde, e não voltará a falar até o versículo 13, quando disser ao pai "aqui estou".
Entre uma coisa e outra, ele terá outro sonho e o contará. É a única resposta que dá — e é a pior possível.
A ideia de rei no Gênesis
Vale mapear, porque a palavra é rara na boca dessa família.
O Gênesis fala de reis o tempo todo, mas sempre de outros povos: os reis da planície em Gênesis 14, Abimeleque de Gerar, o faraó, os oito reis de Edom em Gênesis 36. Nenhum deles é da linha de Abraão.
Há duas exceções que apontam para a frente. Em Gênesis 17:6 e 17:16, Deus diz a Abraão que reis sairão dele e de Sara. E em Gênesis 49:10, na bênção final de Jacó, o cetro é atribuído a Judá — não a José.
Esse detalhe é interessante. A pergunta irônica dos irmãos aponta para José, e a linha real de Israel virá de Judá, que é justamente quem, no versículo 26 deste capítulo, proporá vendê-lo.
Mandar sobre irmãos: os precedentes
A situação não é nova na família.
Em Gênesis 25:23, antes de os gêmeos nascerem, o oráculo diz a Rebeca que o mais velho servirá ao mais novo. Em Gênesis 27:29, Isaque abençoa Jacó com senhorio sobre os irmãos. Em Gênesis 27:40, Esaú recebe a palavra de que servirá ao irmão.
Ou seja: os homens que fazem esta pergunta são filhos de alguém que recebeu exatamente essa bênção. Se conheciam a história do pai — e é difícil supor que não —, a pergunta deles tem um fundo que o texto não explora.
5. Pontos de Ensino
Quem interpreta escolhe as palavras
O sonho falava de feixes. Os irmãos falaram de reino.
Entre uma coisa e outra houve um salto, e o salto foi deles. Isso não significa que tenham errado no fundo da questão — mas significa que a formulação mais ameaçadora do sonho nasceu na boca de quem o ouviu.
É um fenômeno reconhecível: diante de algo ambíguo, cada um preenche o vazio com o que teme. E depois reage ao próprio preenchimento.
A pergunta retórica é uma forma de recusa
Eles não afirmam nada, não argumentam, não pedem explicação. Perguntam de um jeito que já contém a resposta.
Esse recurso serve para descartar sem discutir. Quem o usa não precisa sustentar posição nenhuma, e ainda coloca o outro em posição de acusado.
Vale reconhecê-lo quando aparece — na própria boca, sobretudo.
O escárnio às vezes acerta o futuro
Eles usaram, para debochar, a palavra exata que descreveria a posição de José décadas depois.
O Gênesis não comenta. Mas a coincidência de vocabulário é um lembrete útil: a certeza de que algo é absurdo não é informação sobre o mundo, e sim sobre o que se consegue imaginar.
O texto separa o que se recebe do que se faz
O ódio cresceu por causa dos sonhos e das palavras. São duas coisas, e o texto se dá ao trabalho de nomear as duas. José não escolheu sonhar; escolheu contar. Uma família mais saudável saberia distinguir, e esta não distinguiu.
6. Aspectos Filosóficos
A questão de fundo: a pergunta que já traz a resposta
Os irmãos não afirmam coisa nenhuma. Perguntam duas vezes, e as duas perguntas são construídas de modo a tornar absurda qualquer resposta afirmativa.
Vale examinar o mecanismo, porque ele é usado o tempo todo e raramente é percebido por quem está do lado de dentro.
O que a forma de pergunta faz
Uma afirmação pode ser contestada. Se eles tivessem dito "você não vai reinar sobre nós", José poderia perguntar como sabiam, ou dizer que não havia falado em reinar.
A pergunta retira essa possibilidade. Ela não sustenta nada, e por isso não pode ser refutada. Ao mesmo tempo, ela instala uma acusação: pressupõe que José pretendia reinar, o que ele nunca disse.
Quem é alvo de uma pergunta assim fica sem boa saída. Negar é aceitar que a acusação era plausível. Confirmar é entregar-se. Calar é confirmar por omissão.
José calou.
Onde isso deixa a discussão
A rigor, não houve discussão nenhuma. Houve um relato, um escárnio e um aumento de ódio — e nenhuma troca de razões.
Esse é o ponto mais desconfortável da cena. Havia matéria para conversar: o que o sonho significava, de onde vinha, se José pensava alguma coisa a respeito. Nada disso foi tentado por nenhum dos lados.
O texto, aliás, é econômico ao extremo: uma fala dos irmãos, nenhuma resposta, e o registro do ódio. O Gênesis mostra uma família em que ninguém pergunta de verdade.
O limite
Nada disso é dito pelo texto, que não analisa formas de fala nem descreve intenções. É observação de quem lê, a partir da construção da frase.
E convém não transformar a observação em regra geral. Perguntas retóricas nem sempre são hostis, e este mesmo capítulo trará outra na boca de Rúben, no versículo 30 — "e eu, para onde vou agora?" —, onde não há adversário nenhum, só desespero.
7. Aplicações Práticas
Perceber quando se está usando pergunta como arma
"Você acha mesmo que vai conseguir isso?" e "quem você pensa que é?" não são perguntas. São recusas com ponto de interrogação.
O sinal é simples: se não existe resposta que eu aceitaria, não estou perguntando.
Vale o exame antes de falar. E vale, também, do outro lado — reconhecer que se está sendo alvo de uma pergunta assim ajuda a não gastar tempo respondendo a ela.
Não preencher o silêncio do outro com a pior versão
José contou um sonho e não disse o que achava dele. Os irmãos completaram sozinhos, com "reinar".
Diante de uma informação incompleta sobre alguém, a cabeça preenche as lacunas — e quase sempre preenche com o que teme. Uma mensagem sem resposta vira desprezo; um convite não recebido vira exclusão deliberada; um silêncio vira confirmação.
A correção é chata e funciona: perguntar. "O que você quis dizer com isso?" resolve mais do que semanas de interpretação silenciosa.
Responder ou não responder
José não respondeu, e o silêncio dele não ajudou. Nem todo silêncio é sabedoria: há situações em que uma frase simples — "não foi isso que eu quis dizer", "eu não sei o que aquilo significa" — desarmaria a acusação embutida na pergunta.
Reparar em quem nunca fala diretamente
Depois deste versículo, os irmãos nunca mais dirigem a palavra a José no capítulo. Falam entre si, sobre ele, e agem.
Esse padrão é um alerta prático em qualquer grupo. Quando as pessoas param de falar com alguém e passam a falar apenas sobre alguém, o passo seguinte costuma ser agir contra essa pessoa sem aviso.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os irmãos exageraram na interpretação?
Na formulação, sim. O sonho não falou em rei; a palavra é deles.
Na substância, não. Feixes que se curvam diante de um feixe significam submissão, e o Gênesis confirmará a leitura em Gênesis 42:6.
O que se pode dizer é que eles acertaram o sentido e escolheram a versão mais ameaçadora dele.
Por que o texto diz "sonhos", no plural, se só houve um?
É discutido.
Pode ser antecipação do segundo sonho, que vem no versículo seguinte. Pode indicar que José já era conhecido por sonhar. Pode ser apenas plural genérico.
Vale notar que os irmãos usarão o plural outra vez no versículo 20 — "veremos no que darão os seus sonhos" —, e ali já haverá dois.
José devia ter respondido?
O texto não julga o silêncio dele, e não há como saber o que teria acontecido.
O que se pode observar é que ele não usou a única saída disponível: dizer que não havia falado em reinar, e que não sabia o que o sonho significava. As duas coisas eram verdadeiras.
Em vez disso, teve outro sonho e o contou também. Se isso é ingenuidade ou desafio, o Gênesis não informa.
Havia base para eles temerem uma inversão de hierarquia?
Havia, e mais do que se costuma notar.
Aquela família tinha histórico de mais novos passando à frente de mais velhos: Isaque à frente de Ismael, Jacó à frente de Esaú, Efraim à frente de Manassés mais tarde, em Gênesis 48. E Rúben, o primogênito, havia acabado de comprometer a própria posição em Gênesis 35:22.
Ou seja: numa casa em que a ordem de nascimento já tinha sido subvertida duas vezes, um sonho de inversão não soava impossível. Talvez seja por isso que reagiram com tanta força.
9. Conexão com Outros Textos
Mandar sobre os irmãos
Gênesis 27:29 — "Sirvam-te povos, e nações se inclinem a ti; sê senhor de teus irmãos."
A bênção que o pai desses homens recebeu do avô deles. A ideia que agora os escandaliza é a mesma que colocou Jacó onde ele está.
Gênesis 25:23 — "Dois povos há no teu ventre (...) e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor."
Dito a Rebeca antes do nascimento dos gêmeos. A inversão da ordem de nascimento é um dos padrões mais constantes do Gênesis.
O cumprimento, com as mesmas palavras
Gênesis 45:8 — "Assim não foram vocês que me enviaram para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito."
A palavra final — "governador" — é formada sobre o mesmo verbo que os irmãos usaram neste versículo para escarnecer. O item 10 detalha.
Gênesis 42:6 — "E José era o governador daquela terra; ele vendia a todo o povo da terra; e os irmãos de José vieram, e inclinaram-se a ele."
A ausência de rei em Israel
Gênesis 36:31 — "E estes são os reis que reinaram na terra de Edom, antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel."
A observação está a um capítulo de distância deste versículo, e ajuda a medir o peso da palavra na boca dos irmãos.
Gênesis 49:10 — "O cetro não se apartará de Judá, nem o legislador dentre seus pés."
A realeza acabará ficando com Judá, e não com José. Quem propõe a venda no versículo 26 deste capítulo é justamente ele.
Odiar quem foi escolhido
1 Samuel 18:8-9 — "Deram a Davi dez milhares, e a mim apenas milhares; e que lhe falta, senão só o reino? E, desde aquele dia em diante, Saul tinha Davi em suspeita."
O mesmo mecanismo, com um rei: uma frase ouvida, uma conclusão sobre o futuro, e a hostilidade que se instala a partir dela.
A recusa de quem é enviado
Êxodo 2:14 — "Quem te pôs a ti por príncipe e juiz sobre nós? Pensas matar-me, como mataste o egípcio?"
Um hebreu a Moisés, com a mesma forma de pergunta e a mesma recusa de autoridade não reconhecida.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então os seus irmãos lhe disseram: "Por acaso você vai reinar sobre nós? Vai mesmo nos dominar?" E o odiaram ainda mais por causa dos seus sonhos e das suas palavras.
Texto hebraico
וַיֹּאמְרוּ לוֹ אֶחָיו הֲמָלֹךְ תִּמְלֹךְ עָלֵינוּ אִם־מָשׁוֹל תִּמְשֹׁל בָּנוּ וַיּוֹסִפוּ עוֹד שְׂנֹא אֹתוֹ עַל־חֲלֹמֹתָיו וְעַל־דְּבָרָיו׃
Transliteração
vayyomeru lo echav: ha-malokh timlokh aleinu, im-mashol timshol banu? vayyosifu od seno oto al-chalomotav ve-al-devarav.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמְרוּ לוֹ — vayyomeru lo, "e disseram a ele".
A preposição indica que a fala é dirigida a José. Não é comentário entre eles: é fala na cara.
Vale o contraste com o versículo 19, onde o texto dirá "e disseram uns aos outros". Ali eles falarão entre si; aqui, com ele.
הֲמָלֹךְ תִּמְלֹךְ — ha-malokh timlokh, "reinando reinarás?".
Esta construção é o coração do versículo, e não tem equivalente confortável em português.
O hebraico coloca duas formas do mesmo verbo em sequência: primeiro uma forma neutra, que apenas nomeia a ação, depois o verbo conjugado. O efeito é de reforço — o equivalente aproximado seria "vai mesmo reinar?", "reinar é o que você vai fazer?".
A construção é comum em hebraico e serve tanto para afirmar com ênfase quanto, como aqui, para exprimir espanto e deboche. Em Gênesis 2:17 ela aparece na advertência sobre a árvore — "morrendo morrerás", isto é, certamente morrerás.
A partícula inicial marca a frase como pergunta.
Quanto ao verbo, a raiz malakh significa reinar, ser rei. Dela vem o substantivo melekh, rei, e o abstrato malkhut, reino.
A palavra é politicamente carregada. Não descreve autoridade doméstica nem chefia de clã: descreve a função de um soberano. E é uma palavra que, aplicada à família de Abraão, ainda não tinha realidade nenhuma — o Gênesis registra em 36:31 que Edom teve reis antes de Israel.
Sublinhe-se o essencial: esta palavra não está no sonho. O versículo 7 falou de feixes, de levantar-se e de curvar-se. "Reinar" é acréscimo dos ouvintes.
עָלֵינוּ — aleinu, "sobre nós".
A preposição significa literalmente "sobre", "por cima de". Com o verbo de reinar, é a construção normal para expressar autoridade — reinar sobre alguém.
Vale notar a coerência com a imagem do sonho, que era toda de altura: um feixe em pé, os outros embaixo. A preposição continua a mesma metáfora espacial.
אִם־מָשׁוֹל תִּמְשֹׁל — im-mashol timshol, "ou dominando dominarás?".
A mesma construção duplicada, com outro verbo, e a partícula que aqui funciona como "ou".
A raiz mashal significa governar, mandar, ter domínio. É mais ampla do que a anterior: cobre desde o poder de um rei até a autoridade de um homem sobre a casa dele, de um capataz sobre trabalhadores, ou de um senhor sobre escravos.
A palavra tem uma história interessante dentro do Gênesis. Em Gênesis 1:16 os luzeiros são feitos para "governar" o dia e a noite — e os astros voltarão, no versículo 9 deste capítulo, no segundo sonho. Em Gênesis 3:16 a palavra descreve o domínio do homem sobre a mulher, como consequência da queda. E em Gênesis 4:7 é o que se pede a Caim em relação ao pecado que está à porta: que ele o domine.
E aqui está a ironia que atravessa a história inteira.
Em Gênesis 45:8, ao revelar-se aos irmãos, José dirá que Deus o pôs como moshel em toda a terra do Egito — a palavra é formada sobre esta mesma raiz. O verbo que eles usaram para debochar é o substantivo com que ele descreverá a própria posição, mais de vinte anos depois.
O Gênesis não sublinha a coincidência. Ela está no vocabulário, e quem lê os dois trechos em hebraico não tem como não ouvir.
בָּנוּ — banu, "em nós", "sobre nós".
Preposição diferente da anterior. Com o verbo de dominar, o hebraico usa esta construção para indicar aquilo sobre o que se exerce poder.
A troca de preposição acompanha a troca de verbo, e mostra que o texto está usando as duas expressões corretamente, e não repetindo por descuido.
וַיּוֹסִפוּ עוֹד שְׂנֹא אֹתוֹ — vayyosifu od seno oto. A fórmula exata do versículo 5, repetida sem alteração: somaram ainda ódio contra ele.
O verbo é da raiz que significa acrescentar, somar, continuar — a mesma raiz sobre a qual se forma o nome de José, conforme a explicação dada em Gênesis 30:24. O advérbio reforça o acúmulo.
O que muda em relação ao versículo 5 é o que vem depois: ali a frase terminava sem explicação; aqui vem a causa, em duas partes.
עַל־חֲלֹמֹתָיו וְעַל־דְּבָרָיו — al-chalomotav ve-al-devarav, "por causa dos sonhos dele e por causa das palavras dele".
A preposição, repetida diante de cada substantivo, indica causa ou motivo. A repetição não é obrigatória, e serve para separar bem as duas razões: uma coisa é o sonho, outra é o que ele disse.
O primeiro substantivo está no plural — "sonhos" —, embora só um tenha sido relatado até aqui. O ponto é discutido, e o item 3 apresenta as explicações propostas.
O segundo substantivo é devarim, uma das palavras mais versáteis do hebraico. Significa palavra, fala, discurso — e também assunto, coisa, acontecimento. É a mesma palavra que aparecerá no versículo 11, quando o pai "guardar o assunto".
Aqui o sentido é provavelmente "as palavras dele", o que ele disse. Mas o campo mais amplo permite ler também "as coisas dele", isto é, o comportamento em geral. É discutido, e a diferença não é grande.
A frase inteira
Literalmente: "e disseram a ele os irmãos dele: reinando reinarás sobre nós? ou dominando dominarás em nós? e acrescentaram ainda odiá-lo por causa dos sonhos dele e por causa das palavras dele".
Dois verbos de poder, duplicados cada um, e nenhuma resposta registrada. A cena é toda deles.
11. Conclusão
Do versículo decorrem três conclusões.
A primeira é sobre quem interpretou o sonho. Não foi José: foi quem o ouviu. O relato falava de feixes; a palavra "reinar" nasce na boca dos irmãos. Disso decorre que a versão mais ameaçadora do sonho é obra do medo deles, ainda que a substância da leitura venha a se confirmar. Quando alguém escolhe a palavra mais forte para nomear uma ameaça, está medindo o próprio susto, não o fato.
A segunda é sobre o estado da relação. O versículo 4 dissera que eles não conseguiam falar com José em paz, e este versículo mostra que conseguiam falar — desde que fosse com hostilidade. Disso decorre a precisão do que estava rompido: não a fala, e sim a fala que reconhece o outro. E esta é a última vez, em todo o capítulo, que alguém dirige a palavra a José. Daqui em diante falam sobre ele, e depois agem.
A terceira é sobre as duas causas nomeadas. O texto diz que o ódio cresceu por causa dos sonhos e das palavras — o que ele recebeu e o que ele fez. A ambiguidade que o versículo 5 deixara aberta se resolve aqui, e se resolve nas duas direções ao mesmo tempo. Disso decorre a dureza da posição de José: ele responde por uma escolha, contar, e também por uma condição que não escolheu.
Fica de pé a ironia que o capítulo não comenta e que o resto do livro cobra. O verbo com que esses homens debocharam é o verbo com que José descreverá o cargo que teve no Egito. Eles perguntaram se ele iria dominar. A resposta demorou vinte anos e veio com a mesma palavra.













