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Êxodo 21:3

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 10 acessos
Se entrou sozinho, sairá sozinho; se era casado, a sua mulher sairá com ele.
À porta de uma casa de pedra numa aldeia antiga, um homem de túnica simples e uma mulher de véu escuro saem juntos de mãos dadas, com duas crianças pequenas ao lado, enquanto o dono da casa os observa da soleira ao amanhecer.

Estudo


Se entrou sozinho, sairá sozinho; se era casado, a sua mulher sairá com ele.

1. Introdução

O versículo trata do primeiro detalhe do caso: com quem o escravo hebreu entrou e com quem ele sai. Se entrou sozinho, sai sozinho; se era casado, a mulher sai com ele. A frase parece óbvia, e foi por isso mesmo que os rabinos perguntaram o que ela ensina: quem tinha posto a mulher em servidão para que ela precisasse sair? A resposta deles cria uma obrigação para o senhor — sustentar a mulher e os filhos do escravo durante os seis anos. E a expressão "sozinho", que no hebraico diz algo como "com o seu corpo", teve pelo menos quatro traduções diferentes.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que acontecia com a família de quem era vendido

No mundo antigo, a unidade econômica não era o indivíduo, era a casa. Quando o chefe de uma família pobre era vendido para pagar um roubo ou uma dívida, a casa perdia o braço que a sustentava. A mulher e os filhos ficavam sem renda, e o caminho seguinte, na falta de parentes que os acolhessem, era a mendicância ou a venda dos próprios filhos — o caso da viúva de 2 Reis 4:1, cujo credor vem buscar os meninos.

Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) descreve esse quadro ao comentar o versículo: a mulher e os filhos do vendido ficam "com a vida suspensa", esperando do marido um ganho que agora pertence a outro. A Torá, diz ele, teve compaixão deles, e teve compaixão também do próprio escravo, "para que não morra de angústia sabendo que, enquanto trabalha numa casa estranha, a mulher e os filhos estão abandonados".

O sustento da família na lei rabínica

A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, por volta do século III) e o Talmude, no tratado Kiddushin (22a), tiram deste versículo a regra: quem compra um escravo hebreu é obrigado a alimentar a mulher e os filhos dele. A Mekhilta deriva os filhos de Levítico 25:41 ("sairá de junto de ti, ele e os seus filhos com ele"), pelo mesmo raciocínio aplicado à mulher.

O Talmude explica por que a lei precisava falar dos dois, e a explicação mostra os costumes da época. Se dissesse só "os filhos", alguém concluiria que eles são sustentados porque não podem trabalhar, e a mulher, que pode, teria de se manter com o próprio serviço. Se dissesse só "a mulher", alguém concluiria que ela é sustentada porque "não é do costume dela andar pedindo esmola", e os filhos, para quem pedir não era vergonha, poderiam mendigar. A lei corta as duas conclusões. O raciocínio revela o que se pressupunha: crianças pobres pediam esmola nas ruas, e mulheres casadas não.

Há um dado que torna a regra ainda mais forte. Segundo o próprio Talmude, no tratado Ketubot (49a-b), a obrigação do pai de sustentar os filhos pequenos não vinha diretamente da Torá; foi fixada por uma decisão dos sábios reunidos em Usha, na Galileia, no século II. Nachmânides tira a consequência: a lei manda o senhor fazer pelos filhos do escravo o que a Torá nem sequer impunha ao pai. Ela pede ao comprador que aja "como um pai misericordioso".

Os limites da obrigação

A Mekhilta, lendo palavra por palavra, também traça as fronteiras. "A sua mulher" exclui a cunhada viúva que esperava o casamento do levirato (o costume de o irmão do morto casar com a viúva, Deuteronômio 25:5-10), porque ela ainda não é mulher dele. "Com ele" exclui a noiva prometida, porque ela ainda não mora com ele. A outra Mekhilta, a de Rabi Shimon bar Yochai, citada por Nachmânides, acrescenta que o senhor só sustenta a mulher com quem o escravo se casou com o conhecimento dele, que o ganho dos filhos não pertence ao senhor, e que "com ele" significa também "não o separe da mulher, não o separe dos filhos". O estudo de Mateus 18:25 mostra a outra face da mesma lei: a mulher não era vendida junto com o marido.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se entrou sozinho"

A palavra que a ABC traduz por "sozinho" é rara: só aparece aqui e no versículo seguinte. Literalmente, ela diz "com o seu corpo", ou algo próximo disso, e os intérpretes não concordaram sobre o que a imagem quer dizer.

Primeira leitura: "sozinho", sem mulher. É a do Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá), que diz "por si só", e a da Septuaginta (a tradução grega), que diz "sozinho". O contexto apoia: a frase seguinte opõe esse caso ao do homem casado.

Segunda leitura: "só com a roupa do corpo". Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) liga a palavra a "asa, aba", e entende que o escravo entrou "envolto apenas na aba da sua roupa". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo) segue nessa direção e traduz: "com a roupa com que entrou, com essa saia". A leitura transforma a frase numa regra sobre os bens: o escravo sai como entrou, sem levar nada do senhor e sem deixar nada.

Terceira leitura: "com as costas", isto é, sem carregar outro corpo. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) recusa a "aba da roupa" como fora de contexto e propõe que a palavra seja parente de "costas" (as duas letras finais trocam de som com facilidade em hebraico). O sentido seria: entrou sem levar ninguém nas costas. Chega ao mesmo resultado da primeira leitura por outro caminho.

Quarta leitura: "com o corpo inteiro". Rabi Akiva, na Mekhilta, lê "com o seu corpo" ao pé da letra: se entrou com todos os membros, sai com todos os membros. O senhor que lhe causar uma lesão permanente deve indenizá-lo. Rabi Ishmael responde que o versículo não é necessário para isso, e a discussão sobre as lesões do escravo pertence aos estudos de Êxodo 21:26-27. A leitura de Akiva mostra até onde a tradição levou uma palavra só.

Há também uma pergunta de gramática que Saadia Gaon (o grande sábio judeu do Egito e da Babilônia, do século X), citado por Ibn Ezra, levantou: o versículo 2 já disse que o escravo sai livre; por que repetir "sairá"? A resposta dele é que a Escritura repete o já dito quando vai acrescentar uma lei nova. O assunto aqui não é a saída; é quem sai junto.

"sairá sozinho"

A primeira metade do versículo parece não ensinar nada: quem entrou só, sai só. Rashi tira dela uma proteção. Se o escravo entrou solteiro, o senhor não pode lhe dar uma escrava estrangeira para gerar filhos escravos. A licença do versículo 4 vale só para quem já era casado. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, do século XII) prefere o sentido simples: a frase enuncia a regra geral, e os versículos 3b e 4 trazem os detalhes. Para ele, quem entrou solteiro e recebeu uma mulher do senhor continua a "sair sozinho", porque a mulher fica.

A diferença não é pequena. Na leitura de Rashi, a frase protege o solteiro de ser usado como reprodutor; na de Rashbam, ela já prepara a separação do versículo seguinte.

"se era casado"

O hebraico diz "se ele é marido de uma mulher", e a palavra para "marido" é a mesma que significa "dono, senhor". A Cambridge Bible (série de comentários da universidade inglesa, aqui no volume de S. R. Driver) traduz ao pé da letra, "o possuidor de uma mulher", e conclui que a mulher, sendo posse do marido, "naturalmente partilhava a sorte dele". A Mekhilta entende que se trata de uma mulher israelita, porque a do versículo 4, dada pelo senhor, é estrangeira.

"a sua mulher sairá com ele"

A frase contém um problema. Para sair, é preciso ter entrado. A mulher do escravo foi vendida junto com ele?

Primeira resposta: sim, ela entrou em servidão com o marido e sai com ele. É a leitura da Septuaginta, que reescreve a condição — "se a mulher entrou junto com ele, sairá também a mulher com ele" — e a de vários comentaristas cristãos: Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX) falam da mulher que "partilhou voluntariamente a servidão" do marido. Nessa leitura, a lei garante que ela não fique para trás quando ele sai.

Segunda resposta: não, ela nunca foi vendida. Rabi Yitzchak, na Mekhilta, pergunta: "Quem a fez entrar, para que a Escritura a faça sair?" A tradição rabínica sustentava que a mulher não era vendida pelo furto do marido, nem pelo seu próprio. Logo, "sair" não pode ser sair da escravidão. A frase significa que, durante os seis anos, a mulher esteve "com ele" sob a responsabilidade do senhor, que a sustentava, e que essa responsabilidade termina quando ele sai. A obrigação de sustento (item 2) nasce dessa leitura.

Nachmânides vai um passo além e pergunta o que o senhor recebia em troca. A resposta dele é que o senhor ocupava o lugar do marido: sustentava a mulher e os filhos e, por isso, tinha direito ao trabalho deles, como o marido teria. Mas com uma diferença decisiva — a mulher podia recusar: "não queremos o seu sustento e não trabalharemos para você". O escravo estava preso; a mulher dele, não.

As duas respostas leem a mesma frase de modos opostos. A primeira supõe que a família inteira caía junto com o chefe; a segunda supõe que só o chefe caía, e que a lei protegia os outros da queda. O hebraico permite as duas, e não há consenso. O que ele não permite é que o senhor fique com a mulher quando o marido sai: neste ponto, as leituras concordam.

O que o versículo não diz

A lei fala do escravo e da mulher, mas não dos filhos que eles já tinham. A tradição os incluiu pela comparação com Levítico 25:41, e a inclusão é razoável. Mas a frase, ao pé da letra, só garante a saída da mulher. E fala sempre a partir do homem: é ele quem "entrou", ele quem "é marido", ele com quem ela sai. A condição dela é descrita como efeito da condição dele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O escravo hebreu — o mesmo do versículo anterior, agora visto no seu estado civil: solteiro ou casado no dia da venda.

A mulher do escravo — uma israelita, segundo a Mekhilta, casada com ele antes da venda. Não tem nome nem fala. A lei decide o destino dela em uma frase: sai com ele.

O senhor — o comprador do versículo 2, que, na leitura rabínica, passa a responder pelo sustento da mulher e dos filhos do escravo.

Rabi Yitzchak e Rabi Akiva — mestres da Mekhilta. O primeiro faz a pergunta que funda a obrigação de sustento ("quem a fez entrar?"); o segundo lê "com o seu corpo" como garantia de integridade física.

Saadia Gaon — sábio judeu do século X, nascido no Egito e chefe da academia de Sura, na Babilônia; tradutor da Torá para o árabe. Ibn Ezra cita a explicação dele para a repetição de "sairá".

Lugares

Usha — cidade da Galileia onde os sábios se reuniram no século II, depois da revolta de Bar Kochba, e fixaram, entre outras regras, o dever do pai de sustentar os filhos pequenos.

Eventos

A entrada e a saída — o versículo trata a servidão como uma travessia: entrar na casa do senhor e sair dela, com o mesmo estado com que se entrou.

5. Pontos de Ensino

1. A lei olha para quem fica em casa. Quando um homem é vendido, a mulher e os filhos dele também perdem alguma coisa. A leitura rabínica fez do versículo uma garantia para eles: quem compra o trabalho do marido assume o sustento da família.

2. Ninguém sai pior do que entrou. Com qualquer das leituras de "sozinho", o princípio é o mesmo: o estado civil do escravo é respeitado. O senhor não ganha a mulher que não comprou, nem impõe uma família a quem entrou só.

3. A servidão de um não passa automaticamente aos outros. Na leitura rabínica, a mulher nunca foi vendida. A dívida ou o crime do marido não a fazem escrava. Ela está "com ele", mas não "como ele".

4. A família não é separada à força. A frase "com ele" foi lida como proibição de separar o escravo da mulher e dos filhos que tinha ao entrar. O versículo seguinte vai tratar do caso em que a separação acontece, e o contraste é parte do ensino.

6. Aspectos Filosóficos

Susan Moller Okin: a justiça também mora dentro de casa

O versículo decide o destino de uma mulher sem falar com ela. Ela "sairá com ele": a liberdade dela é descrita como consequência da liberdade do marido, e a lei se dirige ao homem que comprou e ao homem que foi comprado. A pergunta filosófica que isso levanta é a da justiça dentro da família: as regras que distribuem direitos e deveres entre as pessoas alcançam o que acontece entre marido e mulher, ou param na porta da casa?

Susan Moller Okin (1946-2004, filósofa política nascida na Nova Zelândia e professora em Stanford) dedicou a isso o livro Justice, Gender, and the Family ("Justiça, gênero e família", 1989). A crítica dela começa pelas grandes teorias da justiça do século XX. John Rawls, por exemplo, imaginava as pessoas que escolhem os princípios de uma sociedade justa como "chefes de família". Okin observou que, com isso, a família ficava fora do alcance da justiça: o chefe representava a casa, e o que acontecia lá dentro — quem trabalhava, quem dependia, quem decidia — não entrava na conta.

O centro do livro é o que ela chamou de "vulnerabilidade pelo casamento". Em sociedades em que a mulher assume o cuidado da casa e dos filhos, ela fica economicamente dependente do marido, e essa dependência a expõe: se o casamento acaba, ou se o marido cai, ela cai junto, sem ter tido voz na queda. Okin insistia que a família é também a primeira escola de justiça. É lá que a criança aprende, ou não aprende, o que é ser tratado com equidade.

O versículo e a sua interpretação ilustram as duas metades da tese. A primeira metade está no próprio texto: a mulher aparece como acessório do caso do marido. É ele quem é "marido de uma mulher" — literalmente, "dono" —, e ela sai porque ele sai. A segunda metade está na leitura rabínica, que fez o contrário do que Okin denunciava nos teóricos modernos: olhou para dentro da casa do escravo e perguntou o que acontecia com a mulher e os filhos quando o chefe era vendido. A resposta foi criar uma obrigação para um terceiro — o senhor — exatamente porque a dependência deles em relação ao marido os deixava expostos. E Nachmânides acrescentou que a mulher podia recusar o sustento e o trabalho: ela não era propriedade do senhor, nem por meio do marido.

Okin talvez reconhecesse aí uma proteção real e, ao mesmo tempo, o limite dela. A lei protege a mulher do escravo por causa da sua dependência, mas não a tira da dependência: ela continua definida pelo casamento, e o sustento que recebe vem do homem que comprou o marido. O direito dela a não ser abandonada existe; o direito de decidir a própria sorte, o versículo não o considera.

Dois cuidados. Okin escreve sobre famílias modernas, num mundo em que a igualdade entre homem e mulher é princípio declarado; aplicar o critério dela a uma lei do Oriente antigo é medir o texto com uma régua que ele não conhecia, e o resultado não deve ser lido como condenação fácil. E a obrigação de sustento é leitura dos rabinos, não letra do versículo, que diz apenas "sairá com ele". O que Okin ajuda a ver é por que a pergunta de Rabi Yitzchak — "quem a fez entrar?" — foi uma pergunta de justiça: alguém, pela primeira vez no texto, perguntou pela mulher.

7. Aplicações Práticas

Quem paga a conta de uma queda

Quando alguém perde o emprego, é preso ou adoece, a família inteira sente. A leitura rabínica deste versículo pôs essa realidade na lei: quem se beneficia do trabalho de um homem assume a família dele. Para quem emprega, contrata ou decide sobre a vida de outros — numa empresa, numa igreja, num serviço público —, a pergunta é concreta: quando eu tomo uma decisão sobre esta pessoa, quem mais é atingido, e alguém está pensando neles?

Não transferir a culpa

Na tradição rabínica, a mulher não era vendida pelo furto do marido. A dívida e o crime eram dele. Em conflitos familiares e em cobranças, é comum que a conta de um caia sobre quem não fez nada — o cônjuge, os filhos, os pais. O versículo, lido assim, separa as duas coisas.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A mulher do escravo trabalhava para o senhor?

O texto não diz. Nachmânides admite que não tinha certeza ("não está claro para mim") e propõe uma solução: se ela aceitasse ser sustentada pelo senhor, o trabalho dela pertencia a ele, como pertenceria ao marido; se recusasse o sustento, podia recusar o trabalho. A Mekhilta de Rabi Shimon parece dizer o contrário — que o ganho dos filhos não é do senhor —, e Nachmânides harmoniza as duas. Não é possível decidir a partir do versículo.

E se o escravo se casasse durante os seis anos?

A mesma Mekhilta de Rabi Shimon trata do caso. Se o casamento foi feito com o conhecimento do senhor, ele também sustenta essa mulher; se foi feito sem o conhecimento dele, não. O texto bíblico não prevê o caso, e a regra é construção rabínica a partir das duas menções de "mulher" no versículo.

A regra vale para quem se vendeu por pobreza?

Na leitura rabínica, o versículo trata do vendido pelo tribunal, mas Levítico 25:41 ("ele e os seus filhos com ele") estende o raciocínio também ao israelita que se vendeu. A extensão é coerente: quem se vende por pobreza deixa a família tão desamparada quanto o ladrão vendido. Mas é dedução, não texto.

Os filhos que nasceram durante os seis anos, de uma mulher israelita, também saíam?

Saíam. Filhos de pais livres são livres; a servidão do pai não passava a eles. A tradição é unânime nesse ponto, e é ele que torna duro o contraste com o versículo seguinte, em que os filhos de uma mulher dada pelo senhor ficam com o senhor.

9. Conexão com Outros Textos

Sair com a família inteira

Êxodo 10:9 — "Moisés respondeu: 'Iremos com os nossos jovens e com os nossos velhos, com os nossos filhos e com as nossas filhas; iremos com os nossos rebanhos e com o nosso gado, porque temos uma festa do SENHOR.'"

Êxodo 10:11 — "Não será assim! Vão, vocês, os homens, e sirvam ao SENHOR, pois é isso que vocês pedem."

A negociação com Faraó girou em torno da mesma pergunta deste versículo: quem sai com o homem? Faraó queria soltar só os homens; Moisés exigiu as mulheres e as crianças. A lei do escravo hebreu não permite ao senhor israelita o que Faraó tentou.

O texto que completa este

Levítico 25:41 — "Então sairá de junto de ti, ele e os seus filhos com ele, e voltará à sua família, e retornará à propriedade de seus pais."

Foi deste versículo que a Mekhilta e o Talmude tiraram a inclusão dos filhos na obrigação de sustento.

A família que entrou junta

Gênesis 46:7 — "seus filhos e os filhos de seus filhos, suas filhas e as filhas de seus filhos; toda a sua descendência ele trouxe consigo ao Egito."

Israel entrou no Egito como família, e o livro do Êxodo insiste que saiu como família. O versículo do escravo aplica a mesma regra a uma casa só.

Sustentar conforme o número dos filhos

Gênesis 47:12 — "E José sustentava com pão o seu pai, os seus irmãos e toda a casa de seu pai, conforme o número dos filhos."

O sustento calculado pela casa, e não pelo indivíduo. É a lógica que a leitura rabínica aplica ao senhor do escravo.

A família ameaçada pela dívida

2 Reis 4:1 — "O meu marido, teu servo, morreu, e tu sabes que o teu servo temia ao SENHOR. Agora veio o credor para levar os meus dois filhos como escravos."

O que acontecia com a mulher e os filhos quando o homem da casa faltava, e ninguém respondia por eles.

"Casada"

Gênesis 20:3 — "Mas Deus veio a Abimeleque num sonho, de noite, e lhe disse: 'Você está para morrer por causa da mulher que tomou, pois ela é casada.'"

A mesma raiz de "dono" que aparece em "se era casado": lá aplicada à mulher, "possuída por um senhor"; aqui, ao homem, "senhor de uma mulher".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se entrou sozinho, sairá sozinho; se era casado, a sua mulher sairá com ele.

Texto hebraico

אִם־בְּגַפּוֹ יָבֹא בְּגַפּוֹ יֵצֵא אִם־בַּעַל אִשָּׁה הוּא וְיָצְאָה אִשְׁתּוֹ עִמּוֹ׃

Transliteração

im-be-gappo yavo be-gappo yetse im-ba'al ishshah hu ve-yats'ah ishto immo.

Análise palavra por palavra

אִם — im, "se".

A conjunção dos casos secundários do código. O versículo 2 abriu com ki; este e os dois seguintes, com im, são desdobramentos dele. A conjunção aparece duas vezes neste versículo, separando os dois subcasos: o solteiro e o casado.

בְּגַפּוֹ — be-gappo, "sozinho".

A preposição be-, "com, em", o substantivo gaf e o sufixo -o, "seu". A palavra só ocorre aqui e no versículo 4 com este sentido. O substantivo gaf aparece em Provérbios 9:3 ("nos pontos mais altos da cidade") e em aramaico designa a asa ou a aba de uma roupa. As explicações antigas seguem três pistas: "corpo" (ligando a guf, "corpo", palavra frequente no hebraico posterior, e a gufah, "cadáver", de 1 Crônicas 10:12, que Ibn Ezra cita); "asa, aba da roupa" (Rashi, a partir do aramaico); e "costas" (Ibn Ezra, que vê aqui uma variante de gav, "dorso", como no Salmo 129:3, "os lavradores araram sobre as minhas costas"). As versões antigas resolvem pelo sentido: a Septuaginta tem monos, "sozinho"; Ônquelos, bilchodohi, "por si só"; a Vulgata, "com a roupa com que entrou".

יָבֹא — yavo, "entrou" (literalmente "entrar").

Verbo bo, "vir, entrar", no Qal (a forma simples), imperfeito. O imperfeito, aqui, descreve uma condição no passado do caso: "se ele entrar (entrou) sozinho". A ABC traduz pelo pretérito, que é o sentido em português. Bo e yatsa, "entrar" e "sair", formam o par que estrutura os versículos 3 e 4.

בְּגַפּוֹ יֵצֵא — be-gappo yetse, "sairá sozinho".

A mesma palavra, agora com yetse, "sairá" (o verbo do versículo 2). O paralelismo é exato: be-gappo yavo, be-gappo yetse. A simetria da frase é a regra: o estado de saída repete o de entrada.

אִם־בַּעַל אִשָּׁה הוּא — im-ba'al ishshah hu, "se era casado".

Literalmente, "se ele é senhor (marido) de uma mulher". Ba'al é "dono, senhor", e em construção com ishshah, "mulher", forma a expressão comum para "marido". A mesma expressão aparece em Êxodo 21:22 ("o marido da mulher") e em Deuteronômio 24:4. O pronome hu, "ele", no fim, é o modo hebraico de fazer a frase nominal: "senhor de uma mulher, ele". O estudo de Gênesis 20:3 trata da raiz ba'al e do seu uso para o casamento.

וְיָצְאָה — ve-yats'ah, "sairá".

O mesmo verbo yatsa, agora no perfeito com a conjunção ve, que na sequência de uma condição tem valor de futuro: "então sairá". A forma é feminina: o sujeito é a mulher. É a primeira vez no código que o verbo da saída tem sujeito feminino.

אִשְׁתּוֹ — ishto, "a sua mulher".

Ishshah, "mulher, esposa", com o sufixo -o, "dele". O hebraico usa a mesma palavra para "mulher" e para "esposa"; o sufixo é que a torna esposa de alguém. A palavra aparece duas vezes no versículo (ishshah, ishto), e a Mekhilta de Rabi Shimon tirou daí duas mulheres: a que ele tinha antes da venda e a que tomou depois.

עִמּוֹ — immo, "com ele".

Preposição im, "com", e sufixo -o. É a palavra de que a Mekhilta de Rabi Ishmael tirou a exclusão da noiva (que ainda não está "com ele") e a Mekhilta de Rabi Shimon a proibição de separar o escravo da família. A preposição im, "com", e a conjunção im, "se", soam iguais em transliteração, mas se escrevem de modo diferente em hebraico (עִם e אִם).

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a servidão do escravo hebreu, na lei, tem uma fronteira pessoal. Ela atinge o homem vendido e não transforma em escravos os que viviam com ele. Seja qual for a tradução de "sozinho", o estado com que ele entrou é o estado com que sai, e o senhor não ganha sobre a família direitos que não comprou.

A segunda é que a frase mais curta do versículo — "a sua mulher sairá com ele" — foi a que mais produziu direito. Ao perguntar quem tinha feito a mulher entrar, os rabinos chegaram a uma obrigação que o texto não enuncia: o senhor sustenta a família do escravo. Essa obrigação é leitura, não letra, mas é leitura que parte de um problema real do texto, e não de um desejo de suavizá-lo.

A terceira é que o versículo continua a falar só do homem. A mulher sai porque o marido sai, e a lei não lhe pergunta nada. A proteção existe e é significativa; a voz dela não existe. As duas coisas estão no mesmo versículo, e o leitor de hoje não precisa escolher entre reconhecer uma e notar a falta da outra.

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