Como ele não tinha como pagar, o senhor mandou vender ele, a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para que a dívida fosse paga.
1. Introdução
O devedor não tem como pagar, e o senhor manda vender tudo: ele, a mulher, os filhos e o que ele possui.
A ordem era prática conhecida no mundo antigo, mas a lei judaica a limitava, e a mulher não podia ser vendida por dívida do marido. A venda também não cobria nem uma fração da dívida. O que ela fazia era encerrar a conta à força.
2. Contexto Histórico e Cultural
Vender o devedor e a família
Em todo o mundo antigo, quem não pagava respondia com o corpo. A Bíblia registra o credor que vem levar os filhos de uma viúva como escravos (2 Reis 4:1) e as famílias de Jerusalém que tinham entregado filhos e filhas por dívida (Neemias 5:5). Como isso funcionava no Oriente antigo, e o limite de três anos que o código de Hamurabi punha à servidão da família, está no estudo de Gênesis 42:37, item 2.
O que a lei de Israel permitia
A Lei de Moisés conhecia a venda de um israelita, mas cercava-a de limites. O hebreu vendido servia seis anos e saía livre no sétimo (Êxodo 21:2). O israelita empobrecido que se vendesse não devia ser tratado como escravo, e sim como trabalhador contratado, até o jubileu (Levítico 25:39-40).
A Mishná (a primeira coleção escrita da lei oral judaica, de por volta do ano 200) registra outro limite, e ele toca diretamente este versículo. No tratado Sotá (3:8), entre as diferenças legais entre homem e mulher, está esta: "o homem é vendido pelo seu furto, e a mulher não é vendida pelo seu furto". O mesmo parágrafo lembra que o pai podia vender a filha menor, com base em Êxodo 21:7.
Ou seja: na lei judaica, ao menos na forma que a Mishná registrou, um homem podia ser vendido para pagar o que tinha roubado, e uma filha menor podia ser vendida pelo pai. A esposa, não. E a Lei previa que o hebreu casado, ao ser libertado, saísse com a mulher (Êxodo 21:3): ela o acompanhava, não era vendida com ele.
Um rei que manda vender o homem, a mulher e os filhos está, portanto, agindo como um rei estrangeiro. A cena pressupõe o direito dos reinos pagãos, e não o de Israel. Muitos estudiosos leem assim os detalhes mais duros da parábola, e isso ajuda a lembrar que o rei não é modelo de conduta.
Os gregos e Sólon
A Grécia viveu o mesmo problema e tomou uma decisão que ficou famosa.
No começo do século VI a.C., Atenas tinha muitos cidadãos pobres escravizados por dívida, e alguns vendidos para fora da cidade. Sólon (legislador ateniense, por volta de 594 a.C.) cancelou as dívidas e proibiu, dali em diante, emprestar dinheiro tendo a pessoa do devedor como garantia. A medida recebeu o nome de seisachtheia ("o sacudir dos fardos").
O relato está na Constituição de Atenas, atribuída a Aristóteles (capítulo 6), e na Vida de Sólon, de Plutarco (escritor grego do século I e II). A Constituição de Atenas cita um poema do próprio Sólon, em que ele se orgulha de ter trazido de volta atenienses "vendidos, um justamente, outro injustamente", e libertado os que viviam "em escravidão vergonhosa" dentro da cidade.
A proibição valia para Atenas e para os seus cidadãos. No resto do mundo grego e no Oriente helenístico, a escravidão por dívida continuou a existir por séculos.
Os romanos
Em Roma, a Lei das Doze Tábuas (o primeiro código escrito romano, do século V a.C.) permitia ao credor, depois de um prazo de sessenta dias, vender o devedor como escravo "além do Tibre", isto é, fora do território romano. A servidão por dívida entre cidadãos foi abolida em 326 a.C., segundo o historiador romano Tito Lívio, mas a execução pessoal do devedor sobreviveu de outras formas, e nas províncias a prática local seguia.
Quanto a venda rendia
Mesmo onde era legal, a venda não resolvia uma dívida como esta. O preço de um escravo, no mundo romano, variava muito, mas ficava na casa das centenas ou de poucos milhares de denários. Uma família inteira, com os bens, não passaria de uma fração mínima de sessenta milhões de denários.
3. Análise Teológica do Versículo
"Como ele não tinha como pagar"
A frase constata o óbvio. Depois do número do versículo 24, ninguém esperava outra coisa.
O texto não diz o que o devedor tinha. Diz que não tinha "como pagar". A falta não é de bens: ele tem mulher, filhos e "tudo o que possuía", e o senhor vai mandar vender tudo. A falta é de proporção.
"o senhor mandou vender ele, a mulher, os filhos e tudo o que possuía"
O rei do versículo 23 passa a ser chamado de "o senhor". É o título de quem é dono de escravos, e é nessa condição que ele dá a ordem.
A ordem atinge quem não deve nada. A mulher e os filhos não fizeram a dívida, e o texto não diz que soubessem dela. Eles entram na conta porque, no direito que a cena pressupõe, pertenciam ao devedor. O versículo registra isso sem comentário, e é esse silêncio que obriga o leitor a perceber o peso da ordem.
A enumeração também desce em escala: o homem, a mulher, os filhos, as coisas. Todos na mesma lista, todos à venda do mesmo jeito.
"para que a dívida fosse paga"
A justificativa não se sustenta pelas contas. A venda de uma família não cobria nem uma fração ínfima de dez mil talentos (ver o item 2). O senhor sabe disso tão bem quanto qualquer ouvinte.
Então por que mandar vender? Há duas leituras.
Primeira leitura: é a execução normal de uma dívida. O credor recupera o que pode, por pouco que seja, e encerra o caso. É o procedimento, não uma solução.
Segunda leitura: é um castigo, e não uma cobrança. Já que a conta não se paga, a venda serve para punir e para mostrar aos outros escravos o que acontece com quem deve.
O texto não permite decidir, e as duas leituras são compatíveis. O que se pode afirmar é que a ordem não resolve a dívida; ela só põe fim à relação entre o senhor e aquele escravo.
O rei não é Deus em cada gesto
Este é o gesto que mais resiste a uma leitura alegórica da parábola. Um Deus que manda vender mulher e filhos por causa da dívida do marido não é o Deus de Ezequiel 18:20, que diz que "o filho não será punido pela maldade do pai". O rei age como agiam os reis do mundo antigo, e a história precisa disso: sem a ameaça real, o perdão do versículo 27 não teria peso. Tirar daqui uma doutrina sobre Deus é ir além do que o texto diz.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O senhor
O mesmo rei do versículo 23, agora chamado de "senhor", o título de quem manda nos escravos.
O devedor
O escravo que deve dez mil talentos. Sem nome.
A mulher e os filhos
Personagens que só aparecem nesta ordem. Não falam, não agem, e não voltam à história. A parábola não diz se a ordem de venda chegou a ser executada contra eles antes do versículo 27.
5. Pontos de Ensino
A dívida atinge quem não a fez
A mulher e os filhos entram na venda sem ter parte na conta.
A ordem não paga a dívida
A venda de tudo não cobre uma fração dela. O que se executa é o fim da relação, não o acerto.
O rei age como um rei estrangeiro
A lei judaica não permitia vender a mulher por dívida. A parábola usa o mundo como ele era, sem aprová-lo.
6. Aspectos Filosóficos
A ordem de venda levanta a questão da responsabilidade coletiva: é justo que a família pague pela dívida de um só? O direito antigo respondia que sim, porque a família pertencia ao chefe da casa. A lei de Israel já recuava dessa ideia em pontos concretos, e o versículo não a defende nem a condena. Ele só mostra o tamanho do dano que uma dívida pode causar a quem não a contraiu.
7. Aplicações Práticas
Quem paga a conta de outro
Dívidas, hoje, ainda atingem quem não as fez: a família que perde a casa, os filhos que crescem no aperto. A lei moderna não vende ninguém, mas o dano ao redor do devedor continua real. O versículo não dá conselho financeiro; ele mostra quem estava na lista, e a lista não era só do devedor.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A venda chegou a acontecer?
O texto não diz. Entre a ordem do versículo 25 e o perdão do versículo 27 não há indicação de tempo. A leitura mais simples é que a súplica veio logo em seguida e interrompeu a execução.
Por que o senhor mandaria vender, se a venda não pagava?
A pergunta fica em aberto. Pode ter sido o procedimento de praxe, pode ter sido castigo. O versículo diz só "para que a dívida fosse paga".
9. Conexão com Outros Textos
Filhos levados por dívida
2 Reis 4:1 — "Uma mulher, das mulheres dos filhos dos profetas, clamou a Eliseu, dizendo: Teu servo, meu marido, é morto; e tu sabes que teu servo era temeroso ao SENHOR; e veio o credor para tomar-se dois filhos meus por servos."
Neemias 5:5 — "Agora, pois, nossa carne é como a carne de nossos irmãos, e nossos filhos como seus filhos; porém eis que nós sujeitamos nossos filhos e nossas filhas por servos, e até algumas de nossas filhas estão subjugadas, que não estão em poder de nossas mãos, e outros têm para si nossas terras e nossas vinhas."
Os limites da lei de Israel
Êxodo 21:2 — "Se comprares servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre de graça."
Levítico 25:39 — "E quando teu irmão empobrecer, estando contigo, e se vender a ti, não lhe farás servir como servo:"
O filho não paga pelo pai
Ezequiel 18:20 — "A alma que pecar, essa morrerá; o filho não será punido pela maldade do pai, nem o pai será punido pela maldade do filho; a justiça do justo será sobre ele, e a perversidade do perverso será sobre ele."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Como ele não tinha como pagar, o senhor mandou vender ele, a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para que a dívida fosse paga.
Texto grego (Textus Receptus)
μὴ ἔχοντος δὲ αὐτοῦ ἀποδοῦναι ἐκέλευσεν αὐτὸν ὁ κύριος αὐτοῦ πραθῆναι, καὶ τὴν γυναῖκα αὐτοῦ καὶ τὰ τέκνα, καὶ πάντα ὅσα εἶχε, καὶ ἀποδοθῆναι.
Transliteração
mē echontos de autou apodounai ekeleusen auton ho kyrios autou prathēnai, kai tēn gynaika autou kai ta tekna, kai panta hosa eiche, kai apodothēnai.
Diferenças entre manuscritos
O Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) traz "o senhor dele" e "a mulher dele", e o verbo "possuía" no passado (eiche). Os manuscritos mais antigos não têm os dois "dele" e trazem o verbo no presente (echei, "possui"). O sentido é o mesmo.
Análise palavra por palavra
μὴ ἔχοντος δὲ αὐτοῦ ἀποδοῦναι — mē echontos de autou apodounai, "não tendo ele com que pagar". Echō, "ter", com um infinitivo, é o jeito grego de dizer "ter como", "ter meios de". Apodidōmi é "devolver", "pagar de volta": a dívida é tratada como algo que saiu das mãos do rei e deveria voltar.
ἐκέλευσεν — ekeleusen, "mandou". Aoristo de keleuō, o verbo da ordem de quem tem autoridade. Mateus o usa para as ordens de Herodes e de Pilatos (Mateus 14:9; 27:58).
ὁ κύριος αὐτοῦ — ho kyrios autou, "o senhor dele". Primeira vez que o rei é chamado de kyrios, "senhor", "dono". Daqui até o fim da parábola, será sempre assim.
πραθῆναι — prathēnai, "ser vendido". Aoristo passivo de pipraskō, "vender". Em Mateus, o verbo aparece para quem vende tudo para comprar a pérola (Mateus 13:46) e para o perfume que podia ter sido vendido (Mateus 26:9). Aqui, o que se vende são pessoas.
καὶ τὴν γυναῖκα αὐτοῦ καὶ τὰ τέκνα — kai tēn gynaika autou kai ta tekna, "e a mulher dele e os filhos". Teknon é "filho" em sentido amplo, de qualquer idade e sexo.
καὶ πάντα ὅσα εἶχε — kai panta hosa eiche, "e tudo quanto tinha". O pronome "tudo" (panta) vai voltar na boca do devedor no versículo 26: "eu lhe pagarei tudo".
καὶ ἀποδοθῆναι — kai apodothēnai, "e ser pago". Aoristo passivo do mesmo verbo do começo, apodidōmi. O grego não diz "para que a dívida fosse paga", e sim, mais secamente, "e que se pagasse". Não há sujeito expresso nem finalidade marcada: é a segunda metade da ordem. A tradução explicita o que se paga.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A ordem de venda executa a dívida sem resolvê-la. Tudo o que o devedor tem, somado à própria família, não chega perto do que ele deve. A venda encerra a relação; não fecha a conta.
A dívida de um arrasta quem não a fez. Mulher e filhos entram na lista junto com os bens. O versículo não comenta, e o peso da cena está nesse silêncio.
O rei age segundo o direito dos reinos pagãos, não o de Israel. A lei judaica não vendia a esposa por dívida. Isso impede de ler Deus neste gesto e prepara o contraste com o que o mesmo senhor fará dois versículos depois.













