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Êxodo 21:24

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 8 acessos
olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,
Juízes sentados à porta de uma cidade antiga diante de um homem com o olho ferido e do agressor, enquanto se pesa prata numa balança

Estudo


olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,

1. Introdução

"Olho por olho, dente por dente" é a frase mais citada do Código da Aliança e, provavelmente, a mais mal citada. A pergunta que ela levantou desde a Antiguidade é simples: quem cegou o olho de alguém perde o próprio olho ou paga o valor do olho que destruiu? O Talmude reúne mais de dez argumentos a favor do dinheiro e registra a voz de Rabi Eliezer, que dizia "olho, literalmente" — e mesmo essa voz acabou lida de outro modo. Ao lado dessa disputa corre outra, sobre o que a fórmula faz: se ela é um teto que impede a vingança de ir além do dano, ou uma régua que fixa quanto vale cada parte do corpo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Três vezes na Torá, três contextos

A fórmula aparece três vezes na Torá, e cada vez num lugar diferente da lei.

No Êxodo, ela vem como continuação do caso da grávida atingida numa briga, numa lista longa: olho, dente, mão, pé, queimadura, ferida, golpe.

No Levítico (24:17-22), ela aparece numa narrativa: um homem filho de mãe israelita e de pai egípcio blasfema durante uma briga no acampamento, e a lei sobre a blasfêmia vem acompanhada de uma série sobre homicídio e lesões. Ali a fórmula ganha uma frase que o Êxodo não tem — "como ele fez, assim se fará a ele" — e termina com a regra de que o estrangeiro e o natural estão sob a mesma lei.

No Deuteronômio (19:16-21), ela fecha a lei da testemunha falsa: quem acusa alguém falsamente sofre o que queria fazer ao acusado. "O teu olho não terá piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé." Aqui o talião não pune quem feriu, mas quem tentou ferir pela mentira.

Nos três lugares, a fórmula é a mesma, e nos três ela é dirigida ao tribunal. Em nenhum ela aparece como direito da vítima de se vingar por conta própria.

O talião na narrativa bíblica

Fora das leis, a Bíblia hebraica mostra o talião corporal duas vezes, e nas duas fora de qualquer tribunal. Adoni-Bezeque, rei cananeu capturado pelos israelitas, tem os polegares das mãos e dos pés cortados e reconhece a justiça do castigo: ele tinha feito o mesmo a setenta reis (Juízes 1:6-7). Sansão, depois de incendiar as plantações dos filisteus, responde aos que vêm prendê-lo: "como eles me fizeram, assim eu lhes fiz" (Juízes 15:11). São cenas de guerra e de vingança, não de julgamento. Em nenhuma narrativa da Bíblia um tribunal israelita manda arrancar o olho de alguém.

A única mutilação ordenada como pena em todo o código de Moisés não é um talião: é a mão cortada da mulher que agarra as partes íntimas do homem que briga com o marido (Deuteronômio 25:11-12). E ali a pena não espelha o dano.

Quem leu ao pé da letra

A tradição rabínica conservou a memória de um grupo que lia a fórmula literalmente. A Meguilat Taanit ("Rolo dos Jejuns", uma lista antiga de datas em que era proibido jejuar) registra, no dia 14 do mês de Tamuz, a revogação de um "livro de decretos". O comentário que se juntou a essa lista séculos depois (provavelmente entre os séculos VII e VIII) explica que o livro era dos saduceus (o partido sacerdotal da época do Segundo Templo), e que nele "olho por olho" queria dizer arrancar o olho de quem arrancou um olho. A informação vem de fontes tardias e hostis aos saduceus, e não é possível confirmá-la. Mas mostra que, para os rabinos, a leitura literal era a marca de quem rejeitava a tradição oral.

A disputa voltou na Idade Média com os caraítas, a corrente judaica que rejeitava a lei oral dos rabinos e lia a Torá diretamente. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu da Espanha do século XII) conservou um debate entre Saadia Gaon (o grande sábio judeu da Babilônia, morto em 942) e o caraíta Ben Zuta, travado lance a lance.

Saadia abre: se um homem bateu no olho de outro e lhe tirou um terço da visão, como bater no agressor de modo a tirar exatamente um terço, nem mais nem menos? Ele pode perder o olho inteiro. E uma queimadura ou uma ferida em lugar perigoso pode matar. "A razão não aceita isso."

Ben Zuta responde com o Levítico: "como ele causou um defeito a um homem, assim se fará a ele" (Levítico 24:20). Saadia diz que a preposição pode ser lida de outro modo, "assim lhe será imposto" — uma multa. Ben Zuta cita o versículo anterior: "como ele fez, assim se fará a ele". Saadia responde com Sansão: "como eles me fizeram, assim eu lhes fiz" — e Sansão não entregou as mulheres dos filisteus a outros homens, como os filisteus fizeram com a dele. "Como ele fez" não exige o mesmo ato.

Ben Zuta tenta o último golpe: e se o agressor for pobre e não puder pagar? Saadia devolve: e se um cego cegar alguém que enxerga? O pobre pode enriquecer um dia e pagar; o cego nunca terá olho para dar. Ibn Ezra conclui que nenhum mandamento se entende plenamente sem a tradição dos sábios, mas acrescenta uma frase que guarda algo da leitura literal: o agressor "merece" perder o olho; a Escritura é que trocou essa pena por pagamento.

3. Análise Teológica do Versículo

"olho por olho"

A frase não tem verbo. Ela continua o "darás" do versículo anterior: darás olho por olho. O que se dá, e a quem, é a pergunta que ocupou os leitores por dois mil anos.

O Talmude dedica a ela uma das suas páginas mais conhecidas (Bava Kamma 83b-84a). O que torna a página notável não é a conclusão — o pagamento em dinheiro, que já estava assentada —, mas o fato de que os próprios rabinos derrubam quase todos os argumentos apresentados a favor dela. Eles não fingem que o texto diz "dinheiro" com clareza.

Rabi Dostai ben Yehuda argumenta: e se o olho do agressor for grande e o da vítima pequeno? Como aplicar "olho por olho" ao pé da letra? E não se pode dizer que, nesse caso, se paga, e nos outros se arranca, porque a Torá exige "uma mesma lei para todos" (Levítico 24:22). A resposta dos colegas é seca: o que se tirou foi a visão; tira-se a visão, seja qual for o tamanho do olho. Do contrário, nem o assassino de um homem grande poderia ser executado se fosse pequeno.

Rabi Shimon bar Yochai pergunta: e se um cego cegar alguém? Ou um homem sem mão cortar a mão de outro? Os colegas respondem que, quando a pena da Torá não pode ser aplicada, o culpado fica isento — como acontece com o assassino que já está para morrer de uma doença.

A escola de Ezequias lembra que a Torá diz "olho por olho" e "vida por vida", e não "olho e vida por olho": se o agressor for fraco e morrer quando lhe arrancarem o olho, a pena terá ido além do dano. Os colegas respondem que o tribunal avalia antes se ele aguenta, como faz com as chicotadas.

Dois argumentos, de Rav Papa e de Rav Zevid, usam o próprio capítulo. Se "olho por olho" fosse literal, por que o agressor teria de pagar a cura da vítima (Êxodo 21:19)? Ele também vai precisar de cura depois de perder o olho. E por que pagar a dor, se ele também sentirá dor? Os colegas respondem que uma pessoa cicatriza mais depressa que outra, e que uma sente mais dor que outra; o pagamento cobriria a diferença. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) volta a esse argumento e o acha decisivo pelo sentido simples do texto: o versículo 19 manda pagar a cura inteira, e não uma diferença.

Rav Ashi tenta pela palavra: "olho por olho" aqui, "boi por boi" no versículo 36. Como o dono do boi não entrega um boi vivo, mas o valor, aqui também é dinheiro. Os colegas objetam que não se aprende a lei do homem pela do animal, e Rav Ashi troca o argumento por outro.

A Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo sobre as leis do Êxodo) acrescenta o argumento mais forte de todos, de Rabi Eliezer: se, para o homicídio causado pelo boi conhecido, a Torá aceita resgate em dinheiro (Êxodo 21:30), quanto mais para um olho, que não é caso de morte. E Rabi Elazar lembra que o Levítico põe lado a lado "quem ferir um animal pagará" e "quem ferir um homem": como as lesões do animal se pagam, as do homem também.

No fim da página vem a surpresa, e com um nome já visto na Mekhilta. "Rabi Eliezer diz: olho por olho — literalmente." O Talmude reage: será possível que ele pensasse em arrancar um olho? E reinterpreta a frase: Rabi Eliezer queria dizer que não se avalia a vítima como um escravo no mercado, mas o agressor — quanto ele mesmo perderia de valor se ficasse sem aquele olho. O "literalmente" vira um critério de cálculo: o olho do agressor entra na conta, mas como medida, e não como pena.

Os comentaristas medievais deixaram ver que o sentido simples os incomodava. Ibn Ezra diz que o agressor "merece" dar o próprio olho se não pagar o resgate. Sforno (Obadias Sforno, médico e rabino italiano do século XVI) escreve que "olho por olho" é o que deveria ser a sentença se a pena se ajustasse ao crime com todo o rigor, mas que a tradição só cobra dinheiro, porque não há como medir. E Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e rabino de Córdova e do Cairo, século XII) faz, no Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 41), uma separação franca: "quem mutilou um membro do próximo perderá um membro". Ao leitor que objetasse que os tribunais judaicos cobram multa, ele responde que está explicando a razão do texto da Torá, e não a da prática do Talmude, e que a explicação desta ele daria "de viva voz". Não há registro de que a tenha posto por escrito.

"dente por dente, mão por mão, pé por pé"

Por que estes quatro membros, e nesta ordem? Saadia Gaon via uma escala de gravidade para o pagamento: o dente pode valer pouco, se for de criança e nascer de novo; a mão vale mais, porque é com ela que se trabalha; o pé vale ainda mais, porque sem um pé não se anda. Ibn Ezra prefere uma explicação de quem já viu uma briga: são as partes que se ferem quando dois homens lutam. O olho, que fica de frente para o outro; a boca, onde o soco quebra os dentes; a mão, com que se luta e se protege o rosto; o pé, quando se foge. A lista não seria uma tabela, e sim o retrato de uma briga.

As duas explicações combinam com o lugar do versículo, logo depois da briga de homens que atinge a grávida. Elas não combinam bem com a leitura de Keil e Delitzsch, para quem a lista descreve o que pode acontecer à mulher ou à criança.

Teto ou régua?

A leitura moderna mais repetida diz que o talião foi um freio: num mundo em que a vingança não tinha medida, ele proíbe tirar mais de um olho por um olho. A leitura é plausível e tem apoio em textos como Gênesis 4:23-24, onde Lameque se gaba de vingar setenta e sete vezes. Mas ela diz só a metade.

A fórmula também proíbe tirar menos. O Deuteronômio a introduz com "o teu olho não terá piedade", e o Levítico acrescenta "uma mesma lei para o estrangeiro e para o natural". O talião não protege só o agressor contra o excesso; protege a vítima fraca contra a pena branda dada ao agressor forte. Um olho é um olho, seja de quem for. É esse o ponto que o Talmude usa, através de Rabi Dostai, contra a leitura literal, e é o mesmo ponto que dá à fórmula a sua força moral.

Agostinho (bispo de Hipona, no norte da África, morto em 430), comentando este trecho, acrescenta uma terceira função: a lei mostra o que a vingança deveria ser, para que se saiba o que o perdão está perdoando. Sem saber quanto se deve, ninguém sabe o que se dispensa. A leitura é teológica e posterior ao texto; mostra, porém, que até para quem pregava o perdão a fórmula conservava sentido como medida da dívida.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O agressor e a vítima. O versículo não os nomeia. Continua o caso da briga, mas a lista é geral: vale para quem cegou, quebrou dentes, mutilou a mão ou o pé de outra pessoa livre. O caso do escravo ferido pelo próprio senhor tem outra solução, logo adiante no capítulo.

O tribunal. O "tu" a quem a lei é dirigida desde o versículo anterior. Em todas as três passagens do talião na Torá, quem aplica a fórmula é o juiz, e não a vítima.

Os rabinos do Talmude. Rabi Dostai ben Yehuda, Rabi Shimon bar Yochai, a escola de Ezequias, Rav Zevid, Rav Papa e Rav Ashi propõem, cada um, um argumento para ler "olho por olho" como pagamento. Rabi Eliezer é a voz que diz "literalmente". Viveram entre os séculos II e V, na terra de Israel e na Babilônia.

Saadia Gaon e Ben Zuta. Saadia (882-942), nascido no Egito e chefe da academia de Sura, na Babilônia, foi o maior defensor da lei oral contra os caraítas. Ben Zuta é conhecido quase só pelas citações de Ibn Ezra, que o apresenta sempre como adversário.

Os saduceus. O partido ligado à aristocracia sacerdotal de Jerusalém, que, segundo as fontes rabínicas, rejeitava as tradições dos fariseus. A tradição posterior lhes atribui a leitura literal do talião.

Maimônides. O rabino e filósofo que, no seu código de leis, segue a tradição do pagamento, e no Guia dos Perplexos explica a razão do texto literal.

5. Pontos de Ensino

1. O talião é regra de tribunal, não licença de vingança. Nas três vezes em que aparece na Torá, a fórmula é dirigida a quem julga. Citá-la para justificar o revide pessoal é tirá-la do lugar.

2. A fórmula limita nos dois sentidos. Não se tira mais de um olho por um olho, e não se tira menos só porque a vítima é fraca ou o agressor é poderoso. A igualdade da pena é parte da justiça que ela quer garantir.

3. Ler bem uma lei exige olhar o resto da lei. Os rabinos chegaram ao pagamento comparando o versículo com a cura do versículo 19, com o resgate do versículo 30 e com o boi do versículo 36. A lei se interpreta pela lei.

4. A honestidade com o texto inclui admitir o desconforto. O Talmude derruba os próprios argumentos; Ibn Ezra e Sforno dizem que o agressor "merece" o olho; Maimônides separa a razão do texto da prática. Nenhum deles finge que a frase é fácil.

5. Toda reparação em dinheiro esbarra numa pergunta. E o pobre que não pode pagar? E o rico para quem o pagamento é nada? A objeção de Ben Zuta continua atual em qualquer sistema que converta dano em dinheiro.

6. Aspectos Filosóficos

Quanto vale um olho?

A pergunta parece cruel e é a mais comum do direito. Toda sentença de indenização por lesão, toda tabela de seguro de acidente de trabalho, toda conta de reparação por erro médico responde a ela. O que a fórmula "olho por olho" tem de chocante é dizer a resposta sem disfarce.

William Ian Miller (professor de direito da Universidade de Michigan, estudioso das vinganças de família nas sagas islandesas medievais) escreveu um livro inteiro sobre isso, publicado em 2006 com o título Olho por olho. A tese dele vai contra a leitura habitual. Para Miller, o talião não é primitivo nem selvagem, e não é sobretudo um freio à vingança. É um sistema de medida. Ele diz quanto vale uma parte do corpo, e diz isso na única moeda que todos reconhecem como equivalente: outra parte do mesmo tipo.

O argumento mais interessante de Miller está na prática. Nas sociedades que ele estuda, o talião quase nunca era executado. O olho do agressor funcionava como garantia. A vítima tinha direito a ele, e o agressor, para não perdê-lo, comprava esse direito de volta. O preço não era fixado por um tribunal abstrato, mas pelo valor que o agressor dava ao próprio olho. O talião, assim, faz o agressor sentir o dano que causou do único ponto de vista que ele não pode ignorar: o dele mesmo.

É curioso como isso se aproxima de duas vozes deste versículo. Ibn Ezra diz que o agressor "merece" o olho se não pagar o resgate: a pena literal fica em reserva, como ameaça, e o pagamento a substitui. E a reinterpretação talmúdica de Rabi Eliezer manda avaliar não a vítima, mas o agressor — quanto ele perderia se ficasse sem o olho. O olho do culpado entra na conta como medida. Miller não precisa conhecer o Talmude para chegar ao mesmo lugar, e o Talmude não precisou de Miller.

A crítica moderna e o que ela esquece

Miller provoca o leitor contemporâneo. Achamos o talião bárbaro, diz ele, mas trocamos o olho por dinheiro com a maior naturalidade, e não perguntamos se o dinheiro é de fato equivalente ao olho. A nossa justiça, mais civilizada na aparência, também mede corpos em preço; só que esconde a operação. O talião, ao menos, obrigava a encarar a equivalência.

As objeções

A leitura de Miller tem limites que os críticos apontaram. Ela supõe agressores que tenham com que pagar, e numa sociedade desigual a compra do próprio olho é privilégio de quem tem recursos — o mesmo problema que Ben Zuta lançou contra Saadia quase mil anos antes. E ela trata o corpo como um bem que se troca, o que parte da tradição filosófica recusa por princípio: há coisas, dizem esses críticos, que não têm preço, e o olho de uma pessoa estaria entre elas.

O limite também vale para esta aproximação: Miller escreve sobre sociedades de honra e de vingança, sobretudo medievais, e não sobre o Israel antigo. O que ele oferece é uma pergunta útil para ler o versículo — se a fórmula é castigo ou preço —, e não uma resposta sobre o que os primeiros ouvintes entendiam.

7. Aplicações Práticas

A resposta a uma ofensa tem medida. "Olho por olho" é citado no dia a dia como desculpa para revidar. A fórmula diz o contrário: a resposta não passa do tamanho do dano, e não é você quem a aplica. Diante de quem o feriu, a pergunta honesta não é "como devolvo", mas "qual é a medida justa, e quem deve decidi-la".

A pessoa ferida não vale menos por ser mais fraca. A fórmula iguala os olhos. Na família, no trabalho, na escola, a mesma ofensa pesa igual, seja a vítima o chefe ou o funcionário, o filho mais velho ou o mais novo. Uma justiça que muda de tamanho conforme quem sofre já deixou de ser justiça.

Reparar é diferente de se vingar. A tradição judaica transformou o olho por olho em reparação paga à vítima. Quem causou um dano pode perguntar o que repara de verdade o que fez, e não só o que o livra do castigo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Depois de pagar, o agressor está quite?

Com o tribunal, sim. Com a vítima, não. A Mishná diz que, mesmo depois de pagar tudo o que deve, o agressor não é perdoado enquanto não pedir perdão ao ferido (Mishná Bava Kamma 8:7). E acrescenta que a vítima que se recusa a perdoar quem pede perdão de verdade é cruel. A conversão do talião em dinheiro não encerrou a dimensão pessoal da ofensa; separou o que se paga do que se pede.

2. A vítima pode abrir mão da reparação?

Nada no texto obriga a vítima a cobrar; a lei diz o que ela pode exigir. A exceção é o homicídio. Maimônides, no mesmo capítulo do Guia em que dá a razão literal do talião, escreve que só com o assassino não se pode ser indulgente: mesmo que a vítima, ainda viva por algumas horas, dissesse "perdoo quem me matou", não se lhe obedeceria. A vida, para ele, não está à disposição nem de quem a perdeu.

3. O "olho por olho" também está no Alcorão?

Está, e apresentado como lei da Torá. A surata 5, versículo 45, diz que Deus prescreveu aos israelitas, na Torá, "vida por vida, olho por olho, nariz por nariz, orelha por orelha, dente por dente, e para as feridas, o talião". E acrescenta logo: "mas quem renunciar a isso por caridade, isso lhe servirá de expiação". A lista do Alcorão não é a do Êxodo (tem nariz e orelha, não tem mão e pé), e a renúncia da vítima entra na própria fórmula.

4. De onde vem a frase "olho por olho, e o mundo acabará cego"?

Ela é atribuída com frequência a Gandhi, mas não se encontrou a frase nos escritos dele, e a atribuição é discutida. Seja de quem for, ela lê o talião como cadeia de vinganças, o que é o contrário do que a fórmula pretende: o talião foi pensado para encerrar a troca de golpes num ponto fixo, e não para alimentá-la.

5. Se o olho se paga em dinheiro, como se calcula o valor?

A Mishná manda avaliar a vítima como se fosse vendida como escrava no mercado, antes e depois da lesão, e pagar a diferença. É a parcela chamada "dano", a primeira de cinco reparações que o estudo de Êxodo 21:19 apresenta. A reinterpretação de Rabi Eliezer no Talmude sugere outro critério: avaliar quanto o próprio agressor perderia se sofresse a mesma lesão.

9. Conexão com Outros Textos

As outras duas formulações na Torá

Levítico 24:19-20 — "Se alguém causar um defeito ao seu próximo, como ele fez, assim se fará a ele: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele causou um defeito a um homem, assim se lhe fará."

A versão que Ben Zuta usava contra Saadia: o "como ele fez, assim se fará" parece exigir o mesmo ato. A "fratura" entra na lista, que não tem mão nem pé.

Deuteronômio 19:19-21 — "Façam a ele o que ele pensava fazer ao irmão dele… O teu olho não terá piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé."

O talião aplicado à testemunha falsa, que não feriu ninguém com a mão, mas quis ferir com a palavra. A escola de Rabi Chiyya leu ali "mão por mão" como "o que passa de mão em mão": dinheiro.

O mesmo "por" com outro pagamento

Êxodo 21:36 — "Mas, se era sabido que o boi costumava chifrar desde antes, e o seu dono não o guardou, certamente pagará boi por boi, e o morto será dele."

A analogia de Rav Ashi: "boi por boi" nunca foi entregar um boi vivo.

O talião fora do tribunal

Juízes 1:7 — "Setenta reis, com os polegares das mãos e dos pés cortados, recolhiam migalhas debaixo da minha mesa; assim como eu fiz, assim Deus me pagou."

A fórmula na boca de quem a sofre, e lida como justiça divina. Não há tribunal: há guerra.

Juízes 15:11 — "Ele lhes respondeu: 'Como eles me fizeram, assim eu lhes fiz.'"

O versículo com que Saadia mostrou que "como fez" não exige o mesmo ato.

A sabedoria contra o revide pessoal

Provérbios 24:29 — "Não diga: 'Farei a ele o que ele me fez; pagarei a cada um conforme o que fez.'"

A mesma lógica do talião, recusada quando sai da boca de um particular. O que o tribunal mede, o indivíduo não executa.

Levítico 19:18 — "Não te vingarás nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR."

No mesmo livro que repete o talião, a proibição da vingança pessoal.

A releitura de Jesus

Mateus 5:38-39 — "Vocês ouviram o que foi dito: 'Olho por olho, e dente por dente'. Eu, porém, digo a vocês: não resistam ao mau. Antes, a quem bater em você na face direita, ofereça-lhe também a outra."

Jesus cita a fórmula sem negar que ela tenha sido dita, e a desloca do tribunal para a conduta de quem foi ofendido. O tapa na face é ofensa à honra, mais do que lesão — o tipo de agressão que a Mishná tarifa entre as vergonhas. O que o Sermão recusa é a exigência pessoal da reparação, e não necessariamente a existência de tribunais. Como isso se concilia com a lei do Êxodo é discutido desde os primeiros séculos: para uns, Jesus corrige uma leitura vingativa do talião; para outros, propõe ao discípulo uma justiça que vai além da que o tribunal pode exigir.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,

Texto hebraico

עַיִן תַּחַת עַיִן שֵׁן תַּחַת שֵׁן יָד תַּחַת יָד רֶגֶל תַּחַת רָגֶל׃

Transliteração

ayin tachat ayin, shen tachat shen, yad tachat yad, regel tachat ragel.

Análise palavra por palavra

O versículo inteiro tem doze palavras e nenhum verbo. São quatro pares iguais, ligados pela mesma preposição. O verbo que governa a série é o "darás" do versículo anterior. A forma é a de uma tabela, mais do que a de uma frase.

עַיִן — ayin, "olho".

A palavra designa o olho e, por extensão, a fonte de água, o "olho" da terra (Gênesis 16:7). Também é o nome da letra hebraica que, na escrita antiga, tinha a forma de um olho. Em muitas expressões, "olho" é o lugar do juízo e da piedade: "o teu olho não terá piedade" (Deuteronômio 19:21), dita na mesma lei do talião.

תַּחַת — tachat, "por".

A preposição de "debaixo de" que passa a significar "no lugar de". O seu campo está desenvolvido nos estudos de Gênesis 22:13 e Gênesis 44:33. Neste versículo ela aparece quatro vezes, e é sobre ela que gira a discussão do Talmude: Rav Ashi a compara com o "boi por boi" de Êxodo 21:36, onde a mesma palavra significa pagamento.

שֵׁן — shen, "dente".

A palavra serve também para o marfim, o "dente" do elefante (1 Reis 10:18), e para a ponta de rocha, o "dente" do penhasco (1 Samuel 14:4). É da mesma raiz do verbo "afiar". O dente aparece de novo dois versículos adiante, no caso do escravo.

יָד — yad, "mão".

A palavra mais carregada da lista. Além da mão, significa poder, posse, responsabilidade: algo está "na mão" de alguém quando está sob o seu controle. A escola de Rabi Chiyya explorou o duplo sentido para ler "mão por mão" como o que se passa de mão em mão.

רֶגֶל — regel, "pé".

O pé, a perna e, por extensão, o passo e a vez ("três vezes", em Êxodo 23:14, são literalmente "três pés"). No fim do versículo, a palavra aparece como ragel, a forma de pausa que o hebraico usa na última palavra de uma frase, com a vogal alongada.

As traduções antigas

A Septuaginta traduz ophthalmon anti ophthalmou, com a preposição grega de troca, anti, que Mateus 5:38 também usa. A Vulgata diz oculum pro oculo. O Targum de Ônquelos traduz palavra por palavra, com a preposição aramaica chalaf. Só o Targum chamado de Jônatas (uma paráfrase aramaica mais livre) faz a tradição oral entrar na própria tradução: demei eina chalaf eina, "o valor de um olho por um olho". O pagamento, que o Talmude precisa demonstrar, essa tradução simplesmente escreve.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, o versículo leva a três conclusões.

Primeira: "olho por olho" é uma regra dada ao tribunal, e não à vítima. Em nenhuma das três passagens da Torá ela autoriza alguém a fazer justiça por conta própria, e em nenhuma narrativa bíblica um tribunal israelita a executa ao pé da letra.

Segunda: a fórmula iguala os corpos. Ela impede tanto a pena maior que o dano quanto a pena menor por causa de quem foi a vítima. Esse duplo limite é o que sobrevive em qualquer das leituras, literal ou pecuniária.

Terceira: a leitura em dinheiro não nasceu de um desconforto moderno. Ela é antiga, e os próprios rabinos que a sustentaram admitiram que o sentido simples os pressionava. O versículo permanece como uma pergunta posta a qualquer sistema de justiça: quanto vale um dano no corpo, e quem tem o direito de dizer.

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