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Êxodo 21:23

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 14 acessos
Mas, se houver dano, darás vida por vida,
Anciãos sentados à porta de uma cidade antiga julgando um homem diante da família de uma mulher morta numa briga

Estudo


Mas, se houver dano, darás vida por vida,

1. Introdução

O caso da grávida atingida numa briga continua: se houver "dano", a multa dá lugar a "vida por vida". O versículo deixa três perguntas sem resposta explícita. Dano a quem — à mãe, à criança ou às duas? "Vida por vida" quer dizer a morte de quem golpeou ou o pagamento do valor de uma vida? E como punir com a morte um homem que não queria atingir a mulher, mas o adversário? A tradição judaica respondeu a essas perguntas com uma das discussões mais finas do Talmude sobre a intenção que erra o alvo.

2. Contexto Histórico e Cultural

A intenção que erra o alvo

O homem que atinge a grávida queria ferir outro. Se ela morre, ele é um assassino? A pergunta parece de manual de direito moderno, e é uma das mais antigas do direito judaico.

A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta de 200 d.C.), no tratado Sanhedrin (9:2), monta uma escada de casos. Quem quis matar um animal e matou um homem não é condenado à morte. Quem quis matar um recém-nascido que não sobreviveria e matou uma criança viável também não. Quem quis bater nos quadris de alguém com um golpe que não mataria ali, e o golpe acertou o peito e matou, também não: a intenção e a força do golpe não bastavam para matar. Mas quem quis bater nos quadris com um golpe capaz de matar ali, e acertou o peito, é condenado. A regra é que a intenção de matar e a capacidade do golpe precisam estar presentes, mesmo que o golpe caia em outro lugar.

E então vem a divergência que decide o nosso versículo. Os sábios dizem que quem quis matar um e matou outro é culpado de homicídio. Rabi Shimon discorda: "mesmo quem quis matar este e matou aquele está isento", porque a pena de morte exige que o ato corresponda inteiramente à intenção. Ele tira isso de Deuteronômio 19:11, onde o assassino "o espreita, se levanta contra ele e o fere": três vezes "ele", a mesma pessoa do começo ao fim.

Como cada lado lê o Êxodo

O Talmude (Sanhedrin 79a-b) traz o versículo da grávida para a disputa. Os sábios o usam como prova. Rabi Elazar explica que a briga do versículo 22 é uma luta em que cada homem queria matar o outro; por isso, se a mulher morre, "darás vida por vida" é pena de morte de verdade, aplicada a quem quis matar um e matou outra. A prova está também no versículo anterior: se não há dano, o culpado paga; se há, não paga — porque quem morre pela pena não paga indenização.

Rabi Shimon não pode aceitar isso, e o Talmude lhe dá uma saída: para ele, "vida por vida" não é execução, é dinheiro. Ele se apoia em Rabi Judá, o Príncipe (o compilador da Mishná, chamado simplesmente "Rebbi"), que leu assim: no versículo 22 se diz "e pagará", literalmente "e dará", e aqui se diz "darás vida por vida"; como lá o "dar" é dinheiro, aqui também é. O culpado paga aos herdeiros o valor da mulher.

Há ainda uma terceira posição, atribuída à escola de Ezequias: quem quis matar um e matou outro não morre nem paga. O raciocínio é que a lei não distingue, para o homicídio, entre intenção e falta dela quando se trata de isentar de pagamento; quem está sujeito a uma pena capital, mesmo que não seja executado, fica livre da indenização. O resultado é que a família da mulher morta não recebe nada. É a posição mais dura para a vítima, e foi por isso mesmo que os comentaristas medievais preferiram as outras duas.

O mesmo problema em outra tradição

O direito inglês chegou a uma regra parecida com a dos sábios, com o nome de "malícia transferida". O caso clássico é de 1886. Num bar, um homem chamado Latimer brigou com outro e tentou acertá-lo com um cinto. O cinto resvalou e cortou o rosto de uma mulher que estava ao lado. Ele alegou que nunca quis feri-la. O tribunal decidiu que a intenção dirigida contra o primeiro se transferia para a segunda, e o condenou. A cena é quase a de Êxodo 21:22-23: dois que brigam, uma mulher perto, um golpe que muda de alvo. A coincidência não indica dependência; mostra que a pergunta nasce sozinha sempre que se julga uma briga.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas, se houver dano"

O versículo inteiro depende desta condição, e ela não diz de quem é o dano. A pergunta não é de detalhe: dela depende o que o versículo 22 descreveu.

Primeira leitura: o dano é da mãe. A Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo sobre as leis do Êxodo) lê assim e argumenta pelo absurdo. Se "sem dano" significasse "sem morte de ninguém", não haveria o que multar: os filhos teriam nascido vivos, e o único custo seria o da parteira, que é do pai. Logo, "sem dano" é "sem morte da mulher", e a multa do versículo 22 é pelos filhos perdidos. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) e o Targum chamado de Jônatas traduzem "dano" por "morte" e dizem "na mulher". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido, França, século XI), Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu da Espanha do século XII) e a Vulgata de Jerônimo ("se a morte dela se seguir") vão no mesmo sentido.

Segunda leitura: o dano é da mãe ou da criança. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) dão o argumento mais forte: a pena que vem a seguir não é só "vida por vida", mas "olho por olho, dente por dente", e uma mulher não perde um dente num aborto. A lista supõe lesões de todo tipo, e não apenas a morte. E o hebraico não escreve "dano a ela", como seria de esperar se só a mãe estivesse em vista. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) e as notas da Bíblia de Genebra (a Bíblia inglesa dos reformadores, de 1560) já liam assim.

Terceira leitura: o dano é a perda do feto já formado. É a da Septuaginta (a tradução grega antiga), que escreve aqui "se estiver formada", e não "se houver dano". Agostinho, que lia essa versão, entende que a lei manda matar quem matou uma criança já formada: "que outra coisa se entende, senão que ele mesmo morrerá?"

O argumento de Keil e Delitzsch tem uma resposta rabínica pronta: a lista de olho, dente, mão e pé não descreve o que acontece à grávida; ela é uma fórmula geral, puxada para cá pelo "vida por vida". Ibn Ezra diz isso com todas as letras: o trecho foi escrito por causa da frase "olho por olho", e não o contrário. Os estudiosos modernos chegaram à mesma conclusão por outro caminho: a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que a lista menciona lesões que nunca aconteceriam numa grávida e conclui que os versículos 24 e 25 são um resumo da lei do talião inserido aqui. Se é assim, o argumento da lista não decide a pergunta. Não há consenso, e o texto, como está, sustenta as duas primeiras leituras.

"darás"

Até aqui, a lei falava na terceira pessoa: "o culpado será multado", "pagará". De repente, fala com "você": "darás". Quem é esse "tu"?

Não é a vítima, nem a família dela. Matthew Poole insiste nisso: quem executa "vida por vida" não é o particular, o que encheria o país de vinganças, mas o magistrado. A lei é dirigida a Moisés e, por meio dele, aos juízes de Israel. O Targum chamado de Jônatas explicita o mesmo: "julgarão a vida do assassino pela vida da mulher".

As traduções antigas preferiram tirar o "tu" do caminho. A Septuaginta e a Vulgata escrevem "dará vida por vida", na terceira pessoa: quem dá é o culpado. A mudança parece pequena e não é. No hebraico, "darás" põe a comunidade na posição de quem entrega a vida do culpado; no grego e no latim, é o culpado quem a entrega. A primeira forma lembra que a pena é um ato da comunidade, pelo qual ela responde.

"vida por vida"

Aqui começa a série do talião, e começa pelo mais grave. A pergunta é se a vida se paga com vida ou com o valor de uma vida.

A Mekhilta registra as duas respostas lado a lado. A primeira: "é vida que ele paga; não paga dinheiro por uma vida". E uma variante que fecha a outra porta: "não paga vida e dinheiro por uma vida" — se morre, a família não recebe também indenização. A segunda, de Rebbi: "vida por vida" é dinheiro. Aqui ele compara o "impuser" do versículo 22 com o "for imposto" do caso do boi (Êxodo 21:30), onde a lei fala expressamente de resgate em dinheiro.

Ibn Ezra expõe as duas opiniões com os argumentos de cada uma, sem ocultar a força do outro lado. Quem lê pena de morte pergunta: se "vida por vida" fosse multa, em que a morte da mulher seria pior que a dos filhos, já multada no versículo anterior? Quem lê dinheiro responde: a lei mudou de linguagem porque o valor de uma pessoa é muito maior que o de um feto, e o "olho por olho" que vem logo depois também não se cumpre ao pé da letra. Ibn Ezra não decide em voz alta.

Rashi, seguindo o Talmude, dá à opinião do dinheiro um desfecho concreto: o culpado paga aos herdeiros o valor da mulher, avaliado "como se ela fosse vendida no mercado" como escrava. A morte da vítima entra na mesma tabela que, no versículo anterior, avaliava os filhos.

Os comentaristas cristãos do século XIX sentiram o mesmo desconforto por outro lado. A Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) achou "vida por vida" uma pena excessiva para um ferimento em grande parte acidental, e supôs que a regra fosse um costume tribal anterior a Moisés, apenas tolerado por ele. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) foi mais longe e a chamou de "claramente excessiva". A suposição de uma lei antiga apenas tolerada é dos comentaristas; o texto não diz isso.

O que o texto diz é pouco e firme: a morte da mulher não é tratada como a perda dos filhos. A diferença entre multa e "vida por vida" marca, pelo menos, uma diferença de peso entre as duas perdas. Até onde vai essa diferença, e o que ela diz sobre o estatuto do feto, permanece em aberto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O homem que golpeou. Um dos dois que brigavam, sem nome e sem identificação. O texto diz que "eles" feriram a mulher, e a pena de "vida por vida" supõe que se saiba quem desferiu o golpe. Se ninguém sabe, a própria lei rabínica recua (item 8).

A mulher. Vítima do golpe e, em pelo menos uma das leituras, a única pessoa de cuja morte o versículo trata. A lei não diz o nome dela nem lhe dá voz, mas é por ela que a pena sobe de multa para "vida por vida".

A criança. Na leitura de Keil e Delitzsch e da Septuaginta, também ela pode ser a vítima do "dano". Na leitura rabínica, a perda dela já foi paga no versículo anterior.

O "tu" da lei. A comunidade de Israel e os seus juízes, a quem a lei é dirigida. São eles que "dão" a vida do culpado, e não a família da vítima.

Os herdeiros da mulher. Na leitura de Rebbi, são eles que recebem o valor da vida dela. A Mishná diz, para o caso dos filhos, que o pagamento vai ao marido; para a morte da mulher, a tradição aponta os herdeiros dela.

Rabi Shimon e os sábios. Os dois lados da discussão do Talmude sobre a intenção transferida. Rabi Shimon bar Yochai, mestre da terra de Israel no século II, foi aluno de Rabi Akiva e um dos nomes mais citados da Mishná.

5. Pontos de Ensino

1. A lei distingue a perda da vida da mãe e a perda da gestação. Uma se paga com multa, a outra com "vida por vida". Qualquer que seja a leitura adotada, as duas não estão no mesmo plano.

2. Quem age para matar responde pelo que mata, mesmo fora do alvo. É a posição dos sábios no Talmude e a de vários sistemas de direito modernos. A intenção de matar não perde a culpa por ter errado a pessoa.

3. A intenção também limita a culpa. Rabi Shimon lembra o outro lado: a pena máxima exige que o ato corresponda à intenção. A justiça precisa das duas perguntas — o que se quis e o que se fez.

4. A pena é ato da comunidade, não da família. O "darás" dirige a lei a quem julga, e não a quem sofreu. A vingança privada não está autorizada pelo versículo.

5. A mesma frase pode ser pena de morte ou indenização, conforme quem a lê. A tradição judaica manteve as duas leituras lado a lado por séculos, sem apagar nenhuma. É um modelo de como conviver com um texto que admite mais de um sentido.

6. Aspectos Filosóficos

"Vida por vida" como medida da pena

De todas as fórmulas do talião, "vida por vida" é a que parece mais exata. Um olho nunca é igual a outro olho, e uma queimadura nunca se reproduz do mesmo tamanho; mas uma vida tirada parece ter um equivalente perfeito, que é outra vida. É por isso que o debate moderno sobre a pena de morte volta sempre a esta frase.

Hugo Adam Bedau (filósofo norte-americano da Universidade Tufts, morto em 2012) passou a vida estudando esse debate. Organizou a coletânea de referência sobre o tema nos Estados Unidos, A pena de morte na América, publicada pela primeira vez em 1964 e reeditada várias vezes, e tornou-se o principal teórico da abolição naquele país.

O argumento central de Bedau contra a leitura de "vida por vida" como regra de justiça é que ninguém a aplica de forma coerente. Nenhum sistema penal responde ao estupro com estupro, à fraude com fraude, ao incêndio com incêndio. Quem defende a pena de morte invocando o talião usa o talião só para o homicídio. O que a justiça retributiva realmente exige, diz Bedau, não é a igualdade entre crime e pena, mas a proporção: os crimes mais graves recebem as penas mais graves de que a sociedade dispõe. E a proporção, por si, não obriga a que a pena mais grave seja a morte.

O segundo argumento é o do erro. Em 1987, Bedau e o sociólogo Michael Radelet publicaram um levantamento de cerca de 350 casos de pessoas condenadas nos Estados Unidos, no século XX, por crimes que podiam levar à morte, e que eram inocentes. A pena de morte, concluíam, é a única que não permite corrigir o erro descoberto depois.

O outro lado

Bedau teve adversários à altura. Ernest van den Haag (sociólogo e jurista norte-americano, o defensor mais conhecido da pena de morte nos anos 1970 e 1980) respondeu que nenhuma atividade humana necessária está livre de matar inocentes por engano, e que o erro, por mais grave, não invalida a justiça da pena para os culpados. E muitos retributivistas insistem que há crimes para os quais a única resposta proporcional é a morte.

O que o Êxodo e os rabinos trazem a esse debate

A tradição judaica, sem conhecer as palavras de Bedau, trabalhou com as duas preocupações dele. Rebbi lê "vida por vida" como pagamento — mostrando que a frase admite, desde a Antiguidade, uma leitura que não é a execução. Rabi Shimon exige que o ato corresponda inteiramente à intenção para que haja pena de morte — uma exigência de exatidão que, aplicada com rigor, torna a execução rara. E a Mishná isenta todos de pena quando não se sabe qual dos suspeitos matou (item 8): o medo de executar o homem errado já estava na lei.

O limite precisa ser dito: o Êxodo não discute a pena de morte como instituição, e Bedau não comentou o Êxodo. A aproximação é deste estudo, e não decide o debate moderno. Mostra apenas que as duas perguntas centrais de Bedau — se "vida por vida" é medida justa e o que fazer diante do risco do erro — já estavam postas entre os leitores mais antigos deste versículo.

7. Aplicações Práticas

Errar o alvo não apaga a responsabilidade. Quem entra numa briga para machucar alguém não pode alegar, depois, que não queria atingir quem atingiu. A lei olha para a violência que você escolheu, e não só para a pessoa que você tinha em mente. Isso vale para o golpe, para o carro dirigido com raiva, para a arma levada "só para assustar".

A dor da vítima não autoriza a vingança. O "darás" do versículo é dirigido a quem julga. Mesmo diante da perda mais grave, a resposta pertence a uma instância que não é a família ferida. Quem sofreu tem direito à justiça; não tem direito de fazê-la com as próprias mãos.

Quando se julga, é preciso perguntar duas coisas. O que a pessoa quis fazer, e o que ela fez. Julgar só pelo resultado é injusto com quem errou sem querer; julgar só pela intenção é injusto com quem sofreu o dano. A discussão entre os sábios e Rabi Shimon é um bom exercício para qualquer pessoa que precise julgar, em casa, na escola ou no trabalho.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Se os dois homens golpeavam e não se sabe qual atingiu a mulher, quem responde?

O versículo não resolve. A Mishná trata de um caso parecido logo depois da discussão da intenção: quando um homicida se mistura a outros e não se consegue identificá-lo, todos ficam isentos da pena de morte (Mishná Sanhedrin 9:3). Rabi Judá propôs prendê-los a todos, e a proposta não prevaleceu como regra. A dúvida sobre o autor, nos casos de pena capital, beneficia os suspeitos.

2. A morte da mulher era tratada como homicídio intencional ou como acidente?

Depende da leitura. Para os sábios do Talmude, quem queria matar o adversário e matou a mulher é homicida, como se tivesse matado quem queria. Para Rabi Shimon, não é homicídio punível com a morte, porque a intenção não estava dirigida a ela. Nenhum dos dois trata o caso como o acidente puro de Êxodo 21:13, o de quem matou sem querer ferir ninguém; esse ia para o lugar de refúgio. Aqui havia violência deliberada, só que contra outro.

3. "Vida por vida" pode ser lido como pagamento, se Números 35:31 proíbe resgate pela vida do homicida?

Os rabinos que leram dinheiro dizem que sim, porque Números fala do "homicida culpado de morte", isto é, de quem matou com intenção dirigida à vítima. O caso do Êxodo, para eles, fica fora dessa categoria. Quem lê pena de morte responde que essa distinção é dos intérpretes e não do texto. A discussão permanece em aberto.

4. E se a mulher não morre, mas fica gravemente ferida?

É aí que o versículo seguinte entra: "olho por olho, dente por dente". Na leitura rabínica, ela recebe a indenização correspondente a cada lesão. O versículo 23 só trata do caso extremo.

5. Por que a perda dos filhos se paga com multa e a morte da mãe com "vida por vida"?

As respostas variam. A tradição rabínica diz que a vida da mãe já existe plenamente e a do feto ainda não, e que a lei mede as duas perdas de acordo com isso. Quem lê o parto prematuro diz que a pergunta está mal feita: a criança que morre também se paga com "vida por vida", e a multa é só pelo parto antecipado. Não é possível decidir pelo texto.

9. Conexão com Outros Textos

A fórmula antes da lei

Gênesis 9:6 — "Quem derramar o sangue do homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque à imagem de Deus o homem foi feito."

A vida paga com vida já está na aliança com Noé, antes de qualquer código. O Êxodo a transforma em regra de tribunal.

A mesma frase para pagar um animal

Levítico 24:17-18 — "Quem ferir mortalmente qualquer pessoa humana certamente será morto. Quem ferir mortalmente um animal o pagará: vida por vida."

No Levítico, "vida por vida" aparece para a indenização de um animal morto, e ali só pode significar pagamento. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) usou este versículo para mostrar que a preposição do talião serve também para a compensação em dinheiro. É o apoio bíblico mais forte da leitura de Rebbi.

A morte sem intenção

Deuteronômio 19:4-5 — "Este é o caso do homicida que poderá fugir para lá e viver: quem matar o seu próximo sem querer, sem o ter odiado antes; como quem vai com o seu próximo ao bosque cortar lenha, e, ao dar o golpe com o machado para cortar a árvore, o ferro se solta do cabo, atinge o seu próximo e ele morre."

O acidente puro, sem violência dirigida a ninguém, tem outra solução: o refúgio. O caso da grávida fica entre os dois extremos, porque havia violência, mas contra outro.

Números 35:22-23 — "Mas, se o empurrou de repente, sem inimizade, ou lançou contra ele qualquer objeto sem intenção, ou, sem o ver, deixou cair sobre ele uma pedra que podia matar, e ele morreu, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal…"

A lista de Números mede a intenção pela relação entre os dois: inimizade anterior, intenção, visão. Nenhuma dessas condições resolve diretamente o caso de quem odiava o adversário e matou uma terceira pessoa.

Dois que brigam, e a família que exige a vida

2 Samuel 14:6-7 — "A sua serva tinha dois filhos, e os dois brigaram no campo, e não havia quem os separasse; um feriu o outro e o matou. E eis que toda a família se levantou contra a sua serva, dizendo: 'Entregue o que matou o irmão, para que o matemos pela vida do irmão que ele matou.'"

O mesmo verbo de "lutar" de Êxodo 21:22, a mesma briga de dois homens, e a família reclamando "vida pela vida". A história da mulher de Tecoa mostra a pressão da vingança familiar que o "darás", dirigido ao juiz, quer conter.

Vida pela vida, fora do tribunal

1 Reis 20:39 — "Guarde este homem; se por acaso ele escapar, a sua vida responderá pela vida dele, ou você pagará um talento de prata."

Na parábola do profeta, a mesma alternativa que divide os leitores do Êxodo aparece lado a lado: a vida ou a prata.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas, se houver dano, darás vida por vida,

Texto hebraico

וְאִם־אָסוֹן יִהְיֶה וְנָתַתָּה נֶפֶשׁ תַּחַת נָפֶשׁ׃

Transliteração

ve-im ason yihyeh, ve-natattah nefesh tachat nafesh.

Análise palavra por palavra

וְאִם — ve-im, "mas, se".

A partícula dos casos secundários. O código abre um caso principal com ki (versículo 22) e as variações dele com im. O versículo 23 é, portanto, uma variação do caso da grávida, e não uma lei nova sobre homicídio. Esse dado pesa contra quem lê os versículos 23 a 25 como um bloco solto que nada teria a ver com a mulher.

אָסוֹן יִהְיֶה — ason yihyeh, "houver dano".

As mesmas duas palavras do versículo 22, em ordem invertida. Lá, "e não houver dano" (ve-lo yihyeh ason); aqui, "dano houver" (ason yihyeh). Pôr a palavra na frente é o modo hebraico de pôr o peso nela: o caso muda por causa do dano. O Targum de Ônquelos traduz ason por mota, "morte"; o Targum chamado de Jônatas acrescenta "nela", na mulher.

וְנָתַתָּה — ve-natattah, "darás".

Verbo natan, "dar", na segunda pessoa do masculino singular, com o "e" que dá ao passado valor de futuro ou de ordem. A grafia traz um he final que a forma comum não tem: é uma escrita mais longa, sem mudança de sentido, que aparece algumas vezes na Bíblia hebraica. A segunda pessoa rompe o padrão do código, que vinha na terceira. A Septuaginta (dōsei, "dará") e a Vulgata (reddet, "devolverá") passaram o verbo para a terceira pessoa, fazendo do culpado o sujeito.

O verbo é o mesmo de "e pagará" no versículo 22, onde o texto diz literalmente "e dará". Foi essa repetição que Rebbi usou para ler "vida por vida" como dinheiro.

נֶפֶשׁ — nefesh, "vida".

A palavra do fôlego, da garganta, da vida e da pessoa. Aqui o sentido é "a vida" de alguém, contada como uma unidade que se perde e se paga.

תַּחַת — tachat, "por".

A preposição que significa "debaixo de" e daí "no lugar de", "em troca de". O campo dela e o seu uso na substituição estão desenvolvidos nos estudos de Gênesis 22:13 e Gênesis 44:33. Aqui ela abre a série que continua nos versículos 24 e 25, onde volta mais sete vezes. O Targum de Ônquelos a traduz por chalaf, a preposição aramaica de "em troca de"; a Septuaginta, por anti; a Vulgata, por pro.

נָפֶשׁ — nafesh, "vida".

A mesma palavra do começo, com outra vogal. É a forma de pausa: quando uma palavra cai no fim de um versículo ou de uma frase importante, o hebraico costuma alongar a vogal. O par nefesh/nafesh soa assim quase como uma rima, e a simetria do som reforça a da pena.

As traduções antigas

A Septuaginta escreve ean de exeikonismenon ēn, dōsei psychēn anti psychēs: "se estiver formada, dará vida por vida". O "dano" desaparece, substituído pela forma da criança. O Targum de Ônquelos traduz ao pé da letra, "vida em troca de vida", mas, como se viu, define o dano como morte. O Targum chamado de Jônatas faz a leitura inteira dentro da tradução: "julgarão a vida do assassino em troca da vida da mulher".

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, o versículo leva a quatro conclusões.

Primeira: a lei separa o dano grave da perda tratada no versículo anterior, e a separação se faz com a pena mais pesada que ela conhece. Seja a vítima a mãe, seja a mãe ou a criança, a vida perdida aqui não é paga como a do versículo 22.

Segunda: a intenção de ferir outro não livra quem golpeou. Os rabinos discordaram sobre o tamanho da culpa, mas nenhum deles tratou o golpe que erra o alvo como simples acidente.

Terceira: "vida por vida" admite, desde a Antiguidade, duas leituras — a execução e o pagamento —, e a tradição judaica as conservou juntas. Quem a lê hoje como prova inquestionável de uma só delas está ignorando essa história.

Quarta: o "tu" da lei põe a pena nas mãos da comunidade que julga, e não da família ferida. O versículo mais duro do trecho é também aquele em que a vingança privada fica mais claramente fora do lugar.

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