Se lhe for imposto um resgate, ele dará pela redenção da sua vida tudo o que lhe for imposto.
1. Introdução
O dono do boi avisado, que deveria morrer, pode pagar para viver. É a única vez em que a Torá admite dinheiro no lugar da vida de quem causou a morte de uma pessoa, e o próprio texto de Números proíbe isso para o homicida comum. O versículo não diz quem fixa o valor, quanto é, nem a quem vai. Os rabinos discutiram se o resgate mede a vida da vítima ou a do dono, e se é indenização ou expiação. E um mestre da Mekhilta transformou a palavra "resgate" numa reflexão sobre a misericórdia de Deus que incomoda pelo que diz dos outros povos.
2. Contexto Histórico e Cultural
O preço do sangue no mundo antigo
Pagar pela morte de alguém, em vez de morrer por ela, era instituição comum em muitas sociedades antigas. Onde não havia Estado forte, a morte de um homem abria uma dívida entre duas famílias, e a dívida podia ser saldada de dois modos: com outra morte ou com bens.
Os poemas de Homero mostram as duas saídas em uso. Na Ilíada (canto 9, versos 632-636), Ájax repreende Aquiles, que recusa os presentes de Agamenon, lembrando-lhe o costume: um homem aceita a compensação até de quem lhe matou o irmão ou o filho, e o matador fica na sua terra depois de pagar muito, enquanto o parente refreia o coração. A palavra grega para essa compensação é poine, de onde vem, pelo latim, a palavra "pena". No canto 18 (versos 497-508), entre as cenas gravadas no escudo de Aquiles, há um processo na praça pública: dois homens discutem sobre a compensação por um homem morto; um diz que pagou tudo, o outro nega ter recebido, e os anciãos, sentados em pedras polidas, dão a sentença, com dois talentos de ouro para quem julgar melhor.
Muito depois, os povos germânicos codificaram o sistema. A Lei Sálica dos francos, posta por escrito por volta do ano 500, tem uma tabela de valores pela vida de cada pessoa, o que os historiadores chamam de wergeld ("preço do homem", em germânico antigo): duzentos soldos de ouro por um franco livre, o triplo se ele estivesse a serviço do rei, menos por um romano, menos ainda por um escravo. A vida humana tinha preço, e o preço variava com a posição da vítima.
O Alcorão conserva o mesmo desenho no século VII (Alcorão 2:178): a lei da retaliação vale em caso de homicídio, mas, se a família da vítima perdoar, o matador paga uma compensação "de modo correto". Os comentaristas da Bíblia do século XIX, como Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses e ingleses), notam que o preço do sangue ainda era corrente entre os árabes do seu tempo.
O que a Torá faz com esse costume
Em Israel o costume existia, e a Torá o restringe. Números 35:31-32 proíbe aceitar resgate pela vida do homicida e proíbe também aceitar resgate para que o homicida involuntário saia da cidade de refúgio antes da hora. Provérbios 6:35 descreve o marido traído que "não aceitará nenhum resgate", a mesma palavra deste versículo, o que mostra que oferecer dinheiro para calar uma vingança era prática conhecida. Contra esse fundo, o nosso versículo é exceção estreita: o resgate só vale para o dono do boi, que não matou com a mão.
A diferença em relação a Homero, aos francos e ao Alcorão é que lá o pagamento é a regra para o homicídio, se a família aceitar; aqui ele é proibido para o homicídio e admitido só para a negligência. Ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha do século XII) diz isso com clareza: Números trata do homicida de verdade; este homem não matou ninguém, só não amarrou o boi.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se lhe for imposto um resgate"
O verbo está no passivo, e o texto não diz quem impõe. A pergunta foi respondida de três modos.
Primeira leitura: a família da vítima. Ellicott (comentário inglês do século XIX) e Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII-XIX) entendem que o valor era fixado pelos parentes do morto, os mesmos que teriam o direito de exigir a vida do dono, com os juízes moderando exigências excessivas.
Segunda leitura: os juízes. Ibn Ezra lê "por decreto dos juízes". Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, da França do século XI) vai mais longe e diz que o "se" do versículo não é condicional: é como o "se emprestares dinheiro" de Êxodo 22:25, onde emprestar ao pobre é obrigação e não opção. Para Rashi, o tribunal sempre impõe o resgate; não depende da vontade dos herdeiros.
Terceira leitura: ninguém pode forçar. Nachmânides (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) defende o "se" condicional e dá a razão: o resgate é uma forma de expiação, como os sacrifícios, e não se pode arrastar alguém ao tribunal para expiar, nem tomar os bens dele em garantia. O dono que não quiser pagar, paga diante do Céu. O Talmude Babilônico (Bava Kamma 40a) deixa a pergunta registrada como dúvida: o resgate é tão sério para quem o deve, como um sacrifício pelo pecado, que o tribunal não precisa cobrar, ou é dinheiro a pagar a outro, que o devedor vai protelar?
"ele dará pela redenção da sua vida"
A vida de quem? A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo, do século III, tratado Nezikin ("Danos"), seção 10) registra a discussão central. Rabi Ishmael: o valor da vítima. Rabi Akiva: o valor do matador, isto é, do dono do boi. O Talmude (Bava Kamma 40a) repete a discussão com outro nome do lado de Akiva, Rabi Ishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, e mostra o que está por trás dela.
Se o resgate mede a vítima, ele é indenização: a família perdeu alguém e recebe o valor dessa pessoa. O argumento a favor vem do vocabulário: o verbo "impor" deste versículo é o mesmo do caso da grávida, "conforme o que o marido da mulher lhe impuser" (Êxodo 21:22), onde se paga pelo dano sofrido. Se o resgate mede o dono, ele é expiação: o dono deve a própria vida e a compra de volta. O argumento a favor está nas palavras "da sua vida". Rav Pappa propõe que os dois lados concordem que é expiação, e só discordem sobre a medida.
Na Mekhilta, Rabi Akiva dá o argumento para a sua leitura a partir do resto da Torá. Em todos os lugares, diz ele, quem está condenado à morte por mão humana não tem resgate: Levítico 27:29 diz que a pessoa consagrada à destruição "não será resgatada; certamente será morta". Aqui, ao contrário, o versículo dá resgate. Se dá, é porque a vida em jogo é a do dono, e é ela que o pagamento compra de volta.
O Talmude, no tratado Makkot (2b), mostra como se fazia a conta na leitura que mede a vítima: avaliava-se quanto ela valeria se fosse vendida como escravo no mercado. A vida do livre, para virar número, era medida pela tabela do escravo, a mesma lógica que o versículo 32 deixa explícita. A mesma página tira outra consequência da leitura como expiação. Testemunhas falsas, desmascaradas, costumam sofrer o que quiseram fazer o acusado sofrer (Deuteronômio 19:19). Mas, se acusaram alguém de ter um boi avisado que matou, não pagam o resgate: o resgate é expiação, e o boi delas não matou ninguém. Não têm o que expiar.
A diferença tem consequências práticas que o Talmude anota. Se é expiação, o boi que pertence a órfãos menores não gera resgate, porque órfãos não precisam expiar: não têm responsabilidade moral. Se o boi tinha vários donos, o Or HaChaim (Chaim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) calcula que, pela medida do matador, cada sócio paga o resgate inteiro, porque cada um tem uma vida a resgatar; pela medida da vítima, dividem o valor. E Maimônides (filósofo e jurista judeu do século XII), segundo o resumo de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), manda avaliar a vítima, e diz que o valor varia conforme a condição dela e vai para os herdeiros.
O texto não decide. A expressão "redenção da sua vida" puxa para Akiva; o paralelo com a grávida puxa para Ishmael. A leitura que a lei judaica adotou, a do valor da vítima, faz do resgate algo próximo do preço de uma pessoa, e é essa a parte mais incômoda do versículo.
"tudo o que lhe for imposto"
Não há tabela. Diferente do escravo do versículo 32, com os seus trinta siclos fixos, a vida do livre não tem valor escrito. O valor é negociado ou arbitrado caso a caso. A falta de número protege a vítima livre de ser reduzida a uma cifra legal, e expõe o dono pobre a não ter como pagar.
A homilia de Rabi Ishmael
A Mekhilta termina a discussão com uma página que não é direito. Rabi Ishmael diz: venham ver a misericórdia daquele que falou e o mundo existiu, pois um homem pode adquirir a si mesmo com dinheiro diante do Céu. E enfileira os versículos: o meio siclo de resgate de cada israelita no censo (Êxodo 30:12), o dinheiro do valor de cada pessoa trazido ao templo (2 Reis 12:4), "o resgate da vida de um homem são as suas riquezas" (Provérbios 13:8), o conselho de Daniel ao rei, "resgata os teus pecados com justiça" (Daniel 4:27), e o anjo de Jó que diz "achei resgate" (Jó 33:24).
Em seguida vem a parte que incomoda. Algumas coisas se resgatam e outras não, diz a Mekhilta, e as nações do mundo não se resgatam, como diz o Salmo 49:7-8: "ninguém pode resgatar o irmão, nem dar a Deus o seu resgate". E conclui: amado é Israel, por cuja vida Deus deu as nações como resgate, como está em Isaías 43:3, "dei o Egito como teu resgate".
A leitura usa a palavra deste versículo para dizer que o resgate de uns é a vida de outros. O texto de Isaías de fato diz isso, numa poesia sobre a volta do exílio; a Mekhilta o transforma em princípio. É homilia, posterior e particular: o versículo do Êxodo fala de um dono de boi, de uma família enlutada e de uma quantia em prata, e não dá base para a ideia de povos que servem de preço por outros.
O limite
O versículo não diz se a família podia recusar o resgate e exigir a morte. Não diz o que acontecia ao dono que não tinha como pagar. E não diz a quem ia o dinheiro. A Mishná diz que aos herdeiros da vítima; a Torá, não.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O dono do boi
O mesmo do versículo anterior: avisado, negligente, com a vida em jogo. Aqui ele aparece como devedor.
A família da vítima
Não nomeada no versículo, mas presente em todas as leituras: ou fixa o valor, ou o recebe, ou as duas coisas. Na lógica do Oriente antigo, era ela que tinha o direito de vingar o sangue; o estudo de Gênesis 27:45 trata do vingador do sangue.
Os juízes
Supostos por Ibn Ezra e por Rashi. O versículo não os menciona; o da grávida, logo acima, menciona.
Os mestres
Rabi Ishmael e Rabi Akiva, os dois grandes mestres da primeira metade do século II, cujas escolas formaram os comentários rabínicos antigos à Torá. Rabi Ishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, da mesma época. Rav Pappa, mestre babilônico do século IV.
5. Pontos de Ensino
1. A negligência não é tratada como homicídio. A Torá proíbe resgate para o homicida e o permite para o dono do boi. A distinção entre quem mata e quem deixa matar está no texto.
2. O resgate não é prêmio para o rico. Ele existe porque a culpa é menor, não porque o dinheiro compra tudo. Em Israel, a regra geral era a proibição do resgate.
3. Indenização e expiação se misturam. A disputa entre Ishmael e Akiva mostra que o mesmo pagamento podia ser lido como reparação à família ou como compra da própria vida diante de Deus.
4. A vida do livre não tem valor fixo. O texto não põe número, ao contrário do caso do escravo. A ausência de tabela é uma escolha.
5. Homilias tardias não são o sentido do texto. A leitura de Rabi Ishmael sobre as nações como resgate de Israel é um sermão posterior, que usa a palavra do versículo para outra coisa.
6. Aspectos Filosóficos
O preço do que não tem preço
Viviana Zelizer (socióloga norte-americana nascida na Argentina em 1946, professora em Princeton) estudou a vida inteira um paradoxo: as sociedades modernas dizem que certas coisas não têm preço, e passam o tempo todo pondo preço nelas. O livro que a tornou conhecida é Pricing the Priceless Child ("O preço da criança sem preço", 1985), sobre os Estados Unidos entre 1870 e 1930.
Ela mostra que, nesse período, a criança mudou de valor. No século XIX, o filho era também mão de obra: trabalhava no campo, na fábrica, na rua, e o seu valor incluía o que ganhava. Quando uma criança morria num acidente, os tribunais calculavam a indenização pelos salários que ela deixaria de ganhar, menos o custo de criá-la, e o resultado era às vezes quase nada. Com as leis contra o trabalho infantil, a criança deixou de render e virou, nas palavras de Zelizer, economicamente inútil e emocionalmente inestimável. E os tribunais passaram a dar indenizações muito maiores pela morte de crianças, agora pela perda do afeto e da companhia. O preço subiu exatamente quando a criança deixou de ter valor de mercado.
Dinheiro com destino
A outra ideia de Zelizer, desenvolvida em O significado social do dinheiro (1994), é que o dinheiro não é todo igual. As pessoas marcam o dinheiro conforme a origem e o uso: a mesada, a herança, a indenização por um filho morto. Ninguém usa a indenização de um filho para pagar uma viagem como usaria o salário. O dinheiro carrega o significado da relação de onde veio.
O resgate como dinheiro marcado
A disputa entre Rabi Ishmael e Rabi Akiva cabe nesse quadro. Se o resgate mede o valor da vítima, ele se parece com a indenização moderna por morte: põe um número na perda da família, e o número tende a seguir o que a vítima valia, por idade, condição e posição, como na tabela da Lei Sálica. Se mede o valor do dono, ele não é preço de nada: é dinheiro marcado como expiação, pago para que uma vida devida seja devolvida a quem a devia. O versículo, ao chamar o pagamento de "redenção da sua vida", e não de "preço do morto", parece marcar o dinheiro desse segundo modo.
Zelizer não fala do Êxodo, e a comparação tem limite: ela estuda tribunais e seguradoras modernos, num mercado em que tudo pode virar moeda. O que ela ensina para a leitura do versículo é que a pergunta "isso é pôr preço na vida?" não tem resposta só pelo fato de haver dinheiro. Depende do que o dinheiro significa para quem paga e para quem recebe. A Torá, que proíbe o resgate para o homicida e o admite aqui com outro nome, já fazia essa distinção.
7. Aplicações Práticas
Reparar não é comprar o perdão
O resgate do versículo não apaga a morte nem obriga a família a esquecer. Quem causou um dano grave por descuido e pode reparar com bens deve reparar, mas não deve tratar o pagamento como fim da questão. O dinheiro marca o reconhecimento da dívida; não substitui o luto de quem perdeu.
Não usar o dinheiro como saída para o que não tem saída
A Torá proíbe o resgate para quem matou de propósito. Há males que nenhuma compensação resolve, e a tentação de oferecer dinheiro para encerrar um caso grave, num acordo ou numa indenização apressada, merece ser vista com a mesma desconfiança.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A família podia recusar o resgate?
O versículo não diz. Se o resgate é imposto pelo tribunal, como quer Rashi, a família não teria escolha; se é fixado por ela, como entendem Ellicott e Benson, poderia pedir um valor impossível. A tradição rabínica, que lê a morte do dono como pena do Céu, tirou da família a possibilidade de executar o dono por meios humanos.
O dono pobre morria?
Pela leitura rabínica, não pelas mãos do tribunal. O Or HaChaim chega a dizer que o vingador do sangue que matasse o dono antes do pagamento seria ele mesmo homicida, porque a lei do vingador só vale contra quem matou com a própria mão.
Por que esta é a única exceção?
Porque é o único caso de morte causada por coisa de alguém, e não pelo próprio alguém, que a Torá trata com pena de morte. Nos outros casos de morte acidental, como o machado que escapa do cabo (Deuteronômio 19:5), a pena nem chega a ser a morte: há a cidade de refúgio.
O valor era alto?
O texto não dá número. Pela leitura de Rabi Ishmael, seria o valor de uma pessoa livre, o que, comparado aos trinta siclos do escravo do versículo 32, seria quantia grande. Não há registro de valores efetivamente pagos.
9. Conexão com Outros Textos
A proibição do resgate
Números 35:31-32 — "Não aceitem resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; ele certamente será morto. Também não aceitem resgate para que alguém fuja para a sua cidade de refúgio e volte a morar na sua terra antes da morte do sumo sacerdote."
As duas proibições que fazem do nosso versículo uma exceção.
O resgate recusado
Provérbios 6:34-35 — "Pois o ciúme enfurece o marido, e ele não poupará no dia da vingança. Não aceitará nenhum resgate, nem se contentará, ainda que multipliques os presentes."
A mesma palavra, na boca do sábio, para quem ofereceria dinheiro ao ofendido. O resgate existia como prática, e podia ser recusado.
2 Samuel 21:4 — "Os gibeonitas lhe responderam: 'Não é questão de prata nem de ouro entre nós e Saul e a sua casa, nem nos cabe matar ninguém em Israel.'"
A recusa do dinheiro pelo sangue derramado, numa narrativa. Os gibeonitas exigem vidas, e Davi as entrega.
O resgate da vida diante de Deus
Êxodo 30:12 — "Quando você fizer o recenseamento dos filhos de Israel, cada um dará ao SENHOR o resgate da sua vida, quando forem contados, para que não haja praga entre eles quando forem contados."
A mesma expressão do nosso versículo, aplicada a todo israelita. A primeira citação da homilia de Rabi Ishmael.
Salmo 49:7-8 — "Ninguém pode de modo algum resgatar o seu irmão, nem dar a Deus o resgate por ele; pois a redenção da vida deles é caríssima, e nunca bastará."
O limite do resgate: há uma vida que nenhuma quantia compra.
Provérbios 13:8 — "O resgate da vida de um homem são as suas riquezas, mas o pobre não ouve ameaça."
O provérbio diz em voz alta o problema social do resgate: só o rico tem com que pagar.
Isaías 43:3 — "Pois eu sou o SENHOR, o seu Deus, o Santo de Israel, o seu Salvador; dei o Egito como resgate por você, a Etiópia e Sebá em seu lugar."
O versículo que a Mekhilta usa para dizer que as nações são o resgate de Israel. No profeta, é poesia da volta do exílio.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se lhe for imposto um resgate, ele dará pela redenção da sua vida tudo o que lhe for imposto.
Texto hebraico
אִם־כֹּפֶר יוּשַׁת עָלָיו וְנָתַן פִּדְיֹן נַפְשׁוֹ כְּכֹל אֲשֶׁר־יוּשַׁת עָלָֽיו׃
Transliteração
im-kofer yushat alav ve-natan pidyon nafsho ke-khol asher-yushat alav.
Análise palavra por palavra
אִם — im, "se". A conjunção das variantes dentro de um caso. Rashi a lê, aqui, com o sentido de "quando", como em Êxodo 22:25; Nachmânides insiste no "se" condicional.
כֹּפֶר — kofer, "resgate". O substantivo da raiz k-p-r, a mesma do verbo da expiação; o campo de sentido, do "cobrir" ao "pagar resgate" e ao "expiar", está no estudo de Gênesis 32:20. Neste versículo e em Números 35:31-32, é o valor pago no lugar de uma vida devida.
יוּשַׁת עָלָיו — yushat alav, "for imposto sobre ele". Do verbo shit, "pôr, colocar, fixar", numa forma passiva antiga. É um verbo raro e concreto: Eva o usa ao dar nome a Sete, "Deus me concedeu (literalmente, 'pôs para mim') outro descendente no lugar de Abel" (Gênesis 4:25), e é ele que está no caso da grávida, "conforme o que o marido da mulher lhe impuser" (Êxodo 21:22). O Talmude usa a repetição do verbo nos dois versículos para ligar os dois casos. O passivo deixa sem sujeito quem impõe, e é desse silêncio que vêm as três leituras do item 3.
וְנָתַן — ve-natan, "e dará". Do verbo natan, "dar", no Qal.
פִּדְיֹן נַפְשׁוֹ — pidyon nafsho, "a redenção da sua vida". Pidyon vem de padah, "resgatar", o verbo do resgate do primogênito (Êxodo 13:13) e do resgate de Israel do Egito (Deuteronômio 7:8). O substantivo é raríssimo: aparece aqui, no Salmo 49:8, "a redenção da vida deles é caríssima", e numa forma vizinha em Números 3:49. Nafsho é nefesh, "vida, pessoa", com sufixo "dele". O versículo usa duas palavras de resgate, kofer e pidyon, de raízes diferentes: a primeira vem do campo do pagamento que cobre uma dívida; a segunda, do campo da compra que solta. Juntas, dizem que o dinheiro cobre a culpa e solta a pessoa.
כְּכֹל אֲשֶׁר־יוּשַׁת עָלָיו — ke-khol asher-yushat alav, "tudo o que lhe for imposto". O verbo do começo volta no fim, fechando o versículo como uma moldura. Não há limite nem tabela: "tudo".
A Septuaginta
A tradução grega usa nas duas pontas a mesma palavra, lytra, "preço de soltura": "se lhe for imposto lytra, dará lytra pela sua vida". A distinção hebraica entre kofer e pidyon desaparece. O verbo também muda: o grego põe "quanto lhe impuserem", no plural ativo, dando sujeito humano ao que o hebraico deixou no passivo.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões. A primeira: a Torá separa quem mata de quem deixa matar, e só para o segundo admite que a vida devida seja paga com bens; a exceção confirma a regra de que o homicídio não tem preço. A segunda: o pagamento é ambíguo desde a origem, entre indenizar uma família e resgatar uma vida, e o texto, ao chamá-lo de "redenção da sua vida", inclina-se para o segundo sentido, sem fechar o primeiro. A terceira: ao não fixar valor para a vida do livre, a lei evita reduzir a vítima a uma tabela, mas deixa o resgate à mercê da riqueza de quem paga, um problema que o próprio livro de Provérbios já apontava.













