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Êxodo 21:13

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 17 acessos
Mas, se não houve emboscada, e Deus o deixou cair na sua mão, eu te designarei um lugar para onde ele poderá fugir.
No fim da tarde, um homem de túnica empoeirada corre por uma trilha de pedras em direção a um acampamento de tendas no deserto, olhando para trás; ao longe, no caminho, um machado caído junto a um tronco recém-cortado.

Estudo


Mas, se não houve emboscada, e Deus o deixou cair na sua mão, eu te designarei um lugar para onde ele poderá fugir.

1. Introdução

Logo depois da regra que manda matar quem matou, o texto abre a primeira exceção: o homem que não armou emboscada, e cuja vítima "Deus deixou cair na sua mão". A frase atribui a Deus o que hoje se chama acidente, e os comentaristas judeus discutiram durante séculos o que isso queria dizer. No mesmo versículo, Deus promete em primeira pessoa um lugar para onde o homicida possa fugir — a primeira menção do refúgio na Bíblia, antes de qualquer cidade ter nome. O tradutor grego trocou a emboscada pela vontade, e com isso trouxe para o texto a linguagem do direito ateniense. A pergunta que fica é a de quem causou uma morte sem culpa: o que ele ainda deve?

2. Contexto Histórico e Cultural

Atenas também mandava fugir

Israel não foi o único povo antigo a separar a morte querida da não querida e a mandar para longe quem matou sem querer. Em Atenas, a lei do homicídio atribuída a Drácon (legislador ateniense do fim do século VII antes de Cristo) foi copiada de novo em pedra no ano 409 antes de Cristo, por decreto da assembleia, e um pedaço da inscrição sobreviveu. O trecho conservado começa assim: "e mesmo se alguém matar alguém sem premeditação, irá para o exílio".

O "mesmo" é o dado mais interessante. A lei grega começa pelo caso involuntário e o trata como coisa séria: quem matou sem querer também sai da cidade. Os reis-magistrados declaravam a responsabilidade, e um colegiado de juízes, os éfetas, decidia o caso. A volta dependia do perdão da família do morto — o pai, os irmãos, os filhos —, e o perdão tinha de ser unânime: se um só se opusesse, prevalecia a recusa.

A comparação mostra duas coisas. A primeira é que a distinção entre matar com e sem premeditação não é invenção moderna nem privilégio de Israel; o Comentário de Cambridge (a "Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que ela não aparece em Homero, mas estava clara para os hebreus desde cedo — e estava clara também em Atenas. A segunda é a diferença: em Atenas, o exilado saía do território e dependia da família da vítima para voltar; no Êxodo, quem designa o lugar é Deus, e o lugar fica dentro do povo.

Os tradutores de Alexandria e a vontade

Quando os judeus do Egito traduziram a Torá para o grego, a partir do século III antes de Cristo, viviam numa cidade de direito grego, e isso aparece neste versículo. O hebraico diz "se não houve emboscada"; a Septuaginta (a tradução grega) diz ho de ouch hekōn, "e o que não agiu voluntariamente". Hekōn e o seu contrário, akōn, eram os termos técnicos do direito grego do homicídio — exatamente o par que separava, nos tribunais atenienses, o homicídio voluntário do involuntário.

A troca não é inocente. A emboscada é um fato que testemunhas podem ver: alguém se escondeu, esperou, preparou. A vontade é um estado interior, que se deduz. O texto hebraico pede um critério externo; o grego, um critério mental. Os dois quase sempre coincidem, mas não sempre, e a tradução deslocou a pergunta do tribunal.

Um refúgio no deserto

A promessa é feita a um povo que ainda não tem cidades. Onde ficaria, então, o lugar? A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 4, responde por analogia: o refúgio definitivo serão as cidades dos levitas; logo, o refúgio provisório, no deserto, é o acampamento dos levitas. Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, comentarista francês do século XI) repete: "mesmo no deserto". Sforno (Obadias Sforno, rabino italiano do século XVI) acrescenta, ao comentar o versículo seguinte, que todo o acampamento dos levitas protegia. Gill propõe outra possibilidade, a do próprio altar, que ganha força com o versículo 14.

A mesma passagem da Mekhilta guarda uma opinião de Issi ben Akiva, que liga o "lugar" deste versículo ao "lugar" do sábado e chega à medida de dois mil côvados — o caminho rabínico até o limite do sábado, exposto no estudo de Êxodo 16:29.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas, se não houve emboscada"

A exceção não é formulada pelo que o homicida sentia, e sim pelo que ele fez antes. O verbo hebraico significa espreitar, ficar à espera de alguém. Davi o usa diante de Saul, na caverna de En-Gedi: "tu andas à espreita da minha vida, para tirá-la" (1 Samuel 24:11, na numeração portuguesa). Quem espreita se esconde, escolhe o lugar e a hora. O critério da lei é algo que deixa rastro: a preparação.

Os textos posteriores juntaram ao fato um segundo critério, o da relação anterior. Deuteronômio 19:4 fala de quem matou "sem intenção, e sem tê-lo odiado antes"; Números 35:20-23 enumera os sinais do ódio — empurrar, atirar algo "de emboscada", ferir com a mão "por inimizade". O Êxodo fica com um único sinal, o mais objetivo de todos.

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá, lida na sinagoga) traduz: "e quem não se escondeu para ele". Rashi aceita a tradução e discute a palavra (item 10). A ideia é a mesma: o homicida culpado é o que se pôs à espera.

"e Deus o deixou cair na sua mão"

A frase é estranha em qualquer leitura. O texto não diz "e foi um acidente"; diz que Deus fez a vítima chegar até a mão de quem a matou. A lei atribui a morte acidental a Deus — e, no mesmo fôlego, manda o homicida fugir. Por que um homem precisaria de refúgio por algo que Deus fez? Os comentaristas deram pelo menos cinco respostas.

Primeira leitura: Deus faz justiça por meio do acidente. É a de Reish Lakish no Talmude (Makkot 10b), também presente na Mekhilta. Ele parte de 1 Samuel 24:13 — "dos ímpios procede a impiedade", que Davi chama de "provérbio dos antigos" — e conta um caso. Dois homens mataram, um de propósito, outro sem querer, e não havia testemunhas para nenhum dos dois: o primeiro não foi executado, o segundo não foi para o exílio. Deus os reúne numa mesma estalagem. O que matou de propósito senta-se ao pé de uma escada; o que matou sem querer desce a escada, cai sobre ele e o mata. Desta vez há testemunhas. O culpado morre, e o involuntário vai para o exílio. Cada um recebe o que devia. Para essa leitura, nenhum acidente é inocente dos dois lados.

Segunda leitura: a vítima já estava condenada. Rashbam (Rabi Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) diz numa linha que o morto "era culpado de morte pelas mãos do Céu". A explicação se volta para a vítima: Deus executou uma sentença que o tribunal humano não podia dar, e o homicida foi só o instrumento.

Terceira leitura: o homicida estava sendo punido por outra coisa. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista nascido na Espanha, século XII) lê o verbo como "arranjar ocasiões" e escreve que Deus dispôs as circunstâncias para que um morresse pela mão do outro, sem que este o pensasse, "por causa de outra falta que cometeu, para que fosse exilado do seu lugar". Aqui o castigo é o exílio, e quem o recebe é quem matou.

Quarta leitura: o homicida não teve culpa nenhuma. Sforno diz que ele "não foi negligente em fazer nada que causasse isso", e cita Provérbios 16:4: o Senhor fez tudo para o seu fim, "até o ímpio para o dia do mal". Mesmo assim, o exílio serve para "expiar a sua falta". A leitura mantém juntas a inocência e a necessidade de expiação.

Quinta leitura: é o nome antigo do acaso. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) escrevem que a frase descreve, "segundo uma disposição de Deus", o que "geralmente se chama acidente". A expressão seria a maneira bíblica de dizer que ninguém planejou. A tradução judaica inglesa mais usada hoje faz o mesmo e escreve "um ato de Deus" — que, por coincidência, é o termo com que o direito inglês designa o evento que ninguém podia prever.

O Targum de Ônquelos, por sua vez, evitou fazer de Deus o sujeito ativo: "e diante do SENHOR foi entregue à sua mão". A passiva mantém Deus na cena sem pôr na sua conta o golpe.

As cinco leituras respondem a perguntas diferentes. As três primeiras procuram uma culpa escondida — do homicida, da vítima ou dos dois — para que o acidente não fique sem sentido. As duas últimas aceitam que não há culpa a achar. O texto não decide entre elas. O que ele afirma é mais modesto e mais forte: a morte acidental não está fora do domínio de Deus, e isso não torna inocente nem culpado quem a causou.

"eu te designarei um lugar"

A lei estava em terceira pessoa ("quem ferir", "certamente será morto") e passa de repente à primeira: "eu te designarei". É Deus quem fala, e fala a Moisés, ou a Israel, no singular. A proteção do homicida involuntário não fica entregue à boa vontade da família da vítima, como em Atenas: é promessa divina.

O lugar não tem nome. A palavra é a mais comum do hebraico para "lugar", e é também a que o Deuteronômio usará para o santuário — "o lugar que o SENHOR escolher" (Deuteronômio 12:5). Vários estudiosos modernos leram o versículo 13 junto com o 14 ("até do meu altar o tirarás") e propuseram que o primeiro refúgio tenha sido o altar, e que as cidades viessem depois, quando a lei quis afastar o homicida do santuário. É hipótese plausível, que explica a sequência dos dois versículos; não é demonstrável. Ibn Ezra já lia os dois versículos como avesso um do outro: o lugar protege o involuntário, e nem o altar protege o culpado.

"para onde ele poderá fugir"

O versículo não absolve: protege. O homicida involuntário não volta para casa; corre. A fuga é a forma da proteção e também o seu preço. Números 35:25-28 dirá quanto ela dura — até a morte do sumo sacerdote — e que, se ele sair antes, o vingador pode matá-lo sem culpa. O Êxodo não dá prazo nem condição: dá só a promessa de que haverá para onde ir.

O limite do que se pode afirmar está aqui. O texto separa dois homicídios pelo que aconteceu antes do golpe, atribui o segundo a Deus e exige do seu autor que fuja. Não diz se ele é culpado, nem se o exílio é castigo ou abrigo. Os comentaristas que dizem uma coisa ou outra estão completando o versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O homicida que não quis

A figura do versículo é anônima, mas o Deuteronômio lhe dá um rosto: o homem que vai cortar lenha com o vizinho, "e o ferro salta do cabo e atinge o seu próximo, e ele morre" (Deuteronômio 19:5). A Mekhilta acrescenta outros: quem faz descer um rolo de pedra, uma escada ou um balde, e o objeto cai e mata. São mortes de trabalho, de vida comum, sem inimizade.

A vítima e a sua família

O morto, no versículo, é só "ele". Mas a promessa de um lugar de fuga supõe alguém de quem fugir: o parente encarregado de cobrar o sangue. O versículo não o nomeia; Números 35:19 o chama de "vingador do sangue", e o estudo de Gênesis 27:45 mostra o que essa figura representava numa família.

Os levitas

Na leitura da Mekhilta, os primeiros a receber o fugitivo são os levitas, no acampamento do deserto. A escolha não é arbitrária: quando Israel tiver terra, as seis cidades de refúgio estarão entre as quarenta e oito cidades levíticas (Números 35:6). A tribo sem território próprio seria a guardiã dos que perderam o seu.

Os lugares que o versículo não nomeia

Moisés separa três cidades a leste do Jordão — Bezer, Ramote em Gileade e Golã (Deuteronômio 4:41-43) — e Josué separa três a oeste — Quedes, na Galileia, Siquém e Quiriate-Arba, que é Hebrom (Josué 20:7-8). O versículo 13 é a semente desses seis nomes.

5. Pontos de Ensino

1. A lei distingue os homicídios pelo que aconteceu antes. O critério do Êxodo é a emboscada, um fato que testemunhas podem confirmar. O ódio, a intenção e a vontade entraram depois, pelo Deuteronômio, por Números e pela tradução grega.

2. O acidente não está fora de Deus. O texto não usa a ideia de acaso. Isso não obriga a procurar culpa em cada desgraça — duas das leituras clássicas recusam isso —, mas impede de dizer que a morte acidental é um vazio sem sentido.

3. Inocente não é o mesmo que livre. Quem matou sem querer não é executado, mas também não fica onde estava. A lei separa a culpa da responsabilidade.

4. A proteção é promessa de Deus, não favor da família. A primeira pessoa ("eu te designarei") tira o homicida involuntário das mãos de quem tinha razões para querer a sua morte.

5. Traduzir é escolher um direito. A Septuaginta pôs no texto o vocabulário ateniense da vontade. A escolha ajudou leitores gregos e, ao mesmo tempo, mudou a pergunta do juiz.

6. Aspectos Filosóficos

O que deve quem não tem culpa?

O versículo põe um problema que a filosofia moral só formulou no século XX. O homicida involuntário não fez nada de errado no sentido que importa para o tribunal: não espreitou, não planejou. E, no entanto, a lei não o trata como um passante. Ele tem de fugir, de deixar a casa e a terra. A diferença entre causar uma morte e assistir a ela pesa sobre ele.

O problema recebeu o nome de "sorte moral" nos anos 1970, e o estudo de Gênesis 31:32 expõe o exemplo que o tornou famoso — o motorista que atropela sem culpa uma criança e, mesmo assim, sente algo que nenhum espectador sente.

Susan Wolf e a virtude sem nome

A filósofa norte-americana Susan Wolf, professora na Universidade da Carolina do Norte, voltou ao problema num ensaio de 2001, "The Moral of Moral Luck" ("A moral da sorte moral"). O passo dela foi deslocar a pergunta. Em vez de perguntar se o motorista azarado é mais culpado do que o motorista que fez a mesma coisa e não atropelou ninguém — e ela responde que não é —, Wolf pergunta como ele deve se portar diante do que causou.

A resposta dela é que existe uma virtude, sem nome na nossa língua moral, que consiste em assumir a responsabilidade pelas consequências dos próprios atos para além do que a culpa exigiria. O motorista que diz "não tive culpa, isto não me diz respeito" pode estar logicamente certo e, ainda assim, nos parece faltar-lhe algo. O que falta não é culpa; é a disposição de tomar para si o que aconteceu por meio dele. A comparação que ajuda a entender é com a generosidade: ninguém é obrigado a dar mais do que deve, mas quem nunca dá nada além do devido tem um defeito de caráter.

Como outras virtudes, essa também tem o seu excesso. Quem se culpa por tudo o que acontece à sua volta, como se fosse autor de todo infortúnio, perdeu a medida no sentido contrário. A virtude sem nome fica no meio: aceita um peso maior do que a culpa, sem confundi-lo com culpa.

Onde a lei e a filosofia se tocam

A estrutura do versículo é muito parecida com a de Wolf. A lei declara o homicida involuntário isento da pena de morte — não é culpado no sentido do versículo 12. Mas exige dele uma resposta que um espectador nunca daria: a fuga e o exílio. Sforno chama esse exílio de expiação, e diz ao mesmo tempo que o homem "não foi negligente". As duas afirmações só convivem se houver algo que se deve sem ter culpa — exatamente o espaço que Wolf descreve.

Há diferenças sérias, e elas precisam ser ditas. Wolf fala de uma disposição interior, que só o próprio agente pode ter; a lei impõe de fora um comportamento, sem perguntar o que ele sente. Wolf escreve num mundo em que o acaso é acaso; o versículo diz que foi Deus quem fez a vítima chegar à mão do homicida, e três das leituras clássicas procuram uma culpa escondida que tornaria tudo justo. E o exílio da lei é também proteção: o homicida não foge só da sua consciência, foge de um parente armado. A aproximação vale para uma coisa — a ideia de que a responsabilidade pode ser maior do que a culpa já está na estrutura desta lei.

7. Aplicações Práticas

Quem causou um dano sem querer

O motorista que se envolveu num acidente fatal sem culpa, o médico cujo paciente morreu apesar de tudo feito corretamente, o pai que deixou a porta aberta no dia em que a criança saiu — todos vivem o caso deste versículo. A lei não lhes diz que são culpados. Também não lhes diz que nada aconteceu. A resposta madura fica entre as duas coisas: assumir o que passou pelas próprias mãos sem transformar isso em culpa.

Quem está do outro lado

O versículo também protege o homicida da família enlutada. Para quem perdeu alguém num acidente, a lei pede o mais difícil: não tratar como assassino quem não o é. A dor da família é real e não é desqualificada; o que se impede é que ela vire outra morte.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Todo acidente dava direito ao refúgio?

Não, segundo a leitura rabínica, que criou uma escala. A Mekhilta distingue quem fazia descer algo — o rolo, a escada, o balde — de quem o puxava para cima. Se o objeto caiu enquanto ele descia ou o fazia descer, há exílio; se caiu enquanto subia ou era puxado, ou se a corda arrebentou, não há exílio. A distinção parece arbitrária. Uma explicação possível é que, ao descer ou fazer descer, a pessoa conduz o peso e responde pelo que lhe escapou; no outro caso, o acidente seria tão completo que nem o exílio caberia. Entre o homicídio e o puro azar, a lei rabínica pôs o descuido, e é a ele que o refúgio se destina.

2. Por que Deus fala em primeira pessoa só aqui?

As leis vizinhas estão em terceira pessoa, mas o código inteiro é fala de Deus a Moisés (Êxodo 20:22; 21:1). A primeira pessoa aparece onde Deus assume uma tarefa: "designarei um lugar", e no versículo seguinte, "do meu altar". É nos dois pontos em que a lei toca o espaço — um lugar de fuga e um lugar de culto — que Deus fala de si.

3. A família da vítima podia se consolar com a frase "Deus o deixou cair"?

O texto não é escrito para ela, e a frase pode soar dura a quem perdeu alguém. As leituras de Rashbam e de Reish Lakish, que procuram uma culpa na vítima, dificilmente consolam. A leitura de Keil e Delitzsch, que vê na frase apenas a negação do plano humano, permite à família dizer que ninguém quis aquela morte — o que, às vezes, é a única coisa que ela precisa ouvir.

4. O refúgio valia para estrangeiros?

O Êxodo não diz. Números 35:15 diz expressamente que as cidades serviriam "para os filhos de Israel, para o estrangeiro e para o que mora entre eles". A proteção do homicida involuntário não dependia da nacionalidade.

9. Conexão com Outros Textos

O caso descrito por inteiro

Deuteronômio 19:4-5 — "Este é o caso do homicida que fugir para lá e viver: aquele que ferir o seu próximo sem intenção, sem tê-lo odiado antes; como quem vai com o seu próximo ao bosque cortar lenha, e, ao dar o golpe com o machado para cortar a árvore, o ferro salta do cabo e atinge o seu próximo, e ele morre."

O exemplo que o Êxodo não dá.

Números 35:11 — "Escolherão para vocês cidades que lhes sirvam de refúgio, para onde fuja o homicida que tiver matado alguém sem intenção."

Números 35:25 — "A comunidade livrará o homicida da mão do vingador do sangue e o fará voltar à cidade de refúgio para onde tinha fugido; e ali ficará até a morte do sumo sacerdote."

O "lugar" do Êxodo transformado em instituição, com prazo.

Josué 20:3 — "para que fuja para lá o homicida que matar alguém por engano, sem intenção; e elas lhes servirão de refúgio contra o vingador do sangue."

O verbo de espreitar

1 Samuel 24:11 — "Veja, meu pai, veja a ponta do seu manto na minha mão. Eu cortei a ponta do manto e não o matei; reconheça que não há em mim mal nem rebeldia, e que não pequei contra você; mas você anda à espreita da minha vida, para tirá-la."

O mesmo verbo que define a emboscada, na boca de Davi.

1 Samuel 24:13 — "Como diz o provérbio dos antigos: 'Dos ímpios procede a impiedade'; mas a minha mão não será contra você."

O versículo com que Reish Lakish explica a frase "Deus o deixou cair na sua mão".

O "lugar" lido de outra forma

Êxodo 16:29 — "Vejam: o SENHOR lhes deu o sábado; por isso, no sexto dia ele lhes dá pão para dois dias. Fique cada um onde está; ninguém saia do seu lugar no sétimo dia."

O "lugar" do sábado, que a tradição ligou ao lugar de refúgio.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas, se não houve emboscada, e Deus o deixou cair na sua mão, eu te designarei um lugar para onde ele poderá fugir.

Texto hebraico

וַאֲשֶׁר לֹא צָדָה וְהָאֱלֹהִים אִנָּה לְיָדוֹ וְשַׂמְתִּי לְךָ מָקוֹם אֲשֶׁר יָנוּס שָׁמָּה׃

Transliteração

va-asher lo tsadah ve-ha-Elohim innah le-yado ve-samti lekha maqom asher yanus shammah.

Análise palavra por palavra

וַאֲשֶׁר — va-asher, "mas, se".

Literalmente "e aquele que". O pronome relativo retoma o sujeito do versículo 12 — "quem ferir" — e introduz o caso diferente. A ABC traduz pelo sentido condicional, que é o que a frase faz.

לֹא צָדָה — lo tsadah, "não houve emboscada".

O verbo tsadah, "espreitar, ficar à espera", é raríssimo: aparece aqui e em 1 Samuel 24:12 (numeração hebraica), e o substantivo da mesma raiz, tsediyah, "emboscada", está em Números 35:20 e 35:22. Rashi dedica ao verbo uma das suas notas gramaticais: ele recusa ligá-lo a tsud, "caçar", da qual vem tsayid, "caça", porque a forma não bate, e discorda do gramático Menachem ben Saruq (lexicógrafo judeu da Espanha, século X), que punha as duas palavras juntas. A aproximação com a caça, mesmo recusada, é sugestiva: espreitar é o que faz o caçador. Rashi termina dizendo que, seja qual for a raiz, o sentido é "o que embosca".

וְהָאֱלֹהִים — ve-ha-Elohim, "e Deus".

Com artigo, "o Deus". O nome genérico, e não o nome próprio de Deus, como é comum nas leis do Código da Aliança.

אִנָּה — innah, "deixou cair, fez chegar".

Forma intensiva (Piel) de uma raiz que significa "acontecer, sobrevir". A mesma raiz está no Salmo 91:10, na forma passiva: "nenhum mal te sucederá"; em Provérbios 12:21: "nenhum mal sucederá ao justo"; e em 2 Reis 5:7, onde o rei de Israel, ao ler a carta sobre Naamã, diz que o rei da Síria "procura um pretexto" contra ele — na forma reflexiva, "fazer-se ocasião". Juízes 14:4 usa um substantivo da raiz para a "ocasião" que Deus buscava contra os filisteus por meio de Sansão. O verbo não é o de causar com violência; é o de fazer coincidir, de arranjar o encontro. Ibn Ezra o explica por 2 Reis 5:7: "procurar causas e ocasiões".

לְיָדוֹ — le-yado, "na sua mão".

Literalmente "à sua mão", no singular. A mão é a do homicida; quem foi levado até ela é a vítima.

וְשַׂמְתִּי לְךָ — ve-samti lekha, "eu te designarei".

O verbo sim, "pôr, estabelecer", na primeira pessoa, com o "e" que dá valor de futuro. O destinatário, lekha, "para ti", está no singular masculino. A ABC mantém o "te" porque é a fala da lei.

מָקוֹם — maqom, "um lugar".

Sem artigo: "um lugar", qualquer um que Deus designar. A palavra designa o lugar comum e, em muitos textos, o lugar santo; a indefinição é a fonte das leituras do item 3.

אֲשֶׁר יָנוּס שָׁמָּה — asher yanus shammah, "para onde ele poderá fugir".

O verbo nus, "fugir", o termo técnico de quem corre para o refúgio em Números 35 e em Josué 20. Shammah é "lá", com a terminação que indica direção: "para lá".

As traduções antigas

O Targum de Ônquelos escreve: u-dela khman leh u-min qodam Adonai itmesar lideh — "e quem não se escondeu para ele, e diante do SENHOR foi entregue à sua mão". A passiva tira de Deus a ação direta. A Septuaginta escreve ho de ouch hekōn, alla ho theos paredōken eis tas cheiras autou, dōsō soi topon hou pheuxetai ekei ho phoneusas — "o que não agiu voluntariamente, mas Deus o entregou nas suas mãos, darei a você um lugar para onde fugirá o que matou". Duas mudanças: a vontade no lugar da emboscada (item 2) e o acréscimo, no fim, de "o que matou", que nomeia o fugitivo como homicida. A Vulgata fica com o hebraico: qui autem non est insidiatus, "o que não armou insídias".

11. Conclusão

Com base no que se viu, o versículo leva a três conclusões. A primeira é que a lei bíblica separou cedo dois homicídios, e o fez por um critério observável — a emboscada —, antes que a tradução grega e os textos posteriores o trocassem pela vontade e pelo ódio. A segunda é que a morte acidental foi posta, sem explicação, dentro da ação de Deus; as tentativas de explicá-la, procurando culpas escondidas, são da tradição, e o texto não as endossa nem as proíbe. A terceira é que a inocência do homicida involuntário não o devolve à vida anterior: ele é protegido e deslocado ao mesmo tempo. Entre o culpado que deve morrer e o espectador que não deve nada, o versículo cria um terceiro lugar — literalmente um lugar — para quem causou o que não quis.

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