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Êxodo 21:12

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 17 acessos
Quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto.
Num pátio de terra batida junto à porta de uma cidade antiga, anciãos de túnica sentados num banco de pedra escutam duas testemunhas de pé, enquanto um homem de mãos vazias aguarda o julgamento, sob a luz dura do meio-dia.

Estudo


Quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto.

1. Introdução

Cinco palavras no hebraico abrem a lista dos crimes de morte do Código da Aliança: quem fere um homem e ele morre será morto. O versículo não fala de intenção, de arma, de testemunha nem de tribunal — e toda essa parte da lei teve de ser construída em volta dele. A Mekhilta pergunta por que ele existe, se o Decálogo já tinha dito "Não matarás", e a resposta muda o que se entende por "um homem". A Vulgata acrescentou a intenção que o hebraico cala, e o Targum mudou o sujeito do verbo. E a pergunta filosófica que ele deixa é antiga e atual: punir alguém é tratá-lo como pessoa?

2. Contexto Histórico e Cultural

A lei depois dos escravos

O Êxodo 21 começa pelo escravo hebreu e pela filha vendida, e só depois chega ao homicídio. Por que nessa ordem? Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) dá uma razão prática: a lei precisava chegar ao caso de quem fere o próprio escravo ou a própria escrava (Êxodo 21:20), e para isso tinha de dizer antes o que acontece com quem fere um homem livre. Na leitura dele, o versículo 12 prepara o terreno para o 20. E ele acrescenta uma restrição que não está no texto: "este homem é de Israel". A pergunta sobre quem a lei protege volta no versículo 14, onde a Mekhilta a enfrenta.

Há outra ordem possível, e ela é do próprio capítulo. Os versículos 12 a 17 formam um bloco de cinco frases curtas, quatro delas terminadas pela mesma sanção. Depois delas, a lei volta aos casos longos, com "se" e "mas se". O bloco interrompe o ritmo do capítulo como uma lista de limites que não se negociam: matar, ferir os pais, raptar, amaldiçoar os pais.

Três leis para o mesmo crime

A Torá fala do homicídio em mais de um lugar, e os rabinos leram as passagens como peças que se completam. Levítico 24:17 diz: "quem ferir mortalmente qualquer pessoa humana certamente será morto". Números 35:16-21 enumera os instrumentos — ferro, pedra, madeira, a mão — e chama o culpado de "assassino". O versículo 12 diz apenas "quem ferir um homem, e ele morrer".

A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado por volta do século III), no tratado Nezikin ("Danos"), seção 4, explica para que serve cada uma. Se existisse só o Levítico, alguém poderia pensar que um tapa já dá pena de morte, porque lá se fala de "ferir"; o Êxodo esclarece: "e ele morrer". Se existisse só o Êxodo, a lei protegeria apenas "um homem", e ficaria a dúvida sobre quem mata uma mulher ou uma criança; o Levítico esclarece: "qualquer pessoa humana". E Números garante que também a mulher que mata é julgada. Cada versículo fecha uma porta que o outro deixou aberta.

A criança de oito meses

A mesma passagem da Mekhilta tira de "um homem" uma exclusão estranha ao leitor de hoje. "Qualquer pessoa humana" poderia incluir o recém-nascido de oito meses; "um homem" mostra que a pena exige que a vítima seja alguém "destinado a viver". A frase pressupõe uma crença médica muito difundida na Antiguidade: o bebê de sete meses podia sobreviver, o de oito não. O corpo de escritos médicos gregos atribuído a Hipócrates tem um tratado inteiro sobre o parto de oito meses, e o Talmude trabalha com a mesma convicção. A crença está errada, mas a regra mostra como a lei pensava: matar quem não teria vida não era homicídio punível pelo tribunal. A preocupação era com uma vida que o assassino tirou, e não com a forma do golpe.

O que o versículo não diz e o tribunal exigia

A Mekhilta lê a fórmula da pena, "certamente será morto", como uma frase que pressupõe três coisas ditas em outros lugares. Primeiro, testemunhas que tenham advertido o homicida antes do ato — a advertência formal, que a lei rabínica tornou condição de toda pena capital. Segundo, um tribunal: "o homicida não morrerá antes de comparecer em juízo diante da comunidade" (Números 35:12). Terceiro, a espada.

O caminho até a espada é um bom exemplo de como os mestres raciocinavam. A mesma fórmula aparece para o adúltero, que a tradição mandava estrangular, e para o blasfemo, que era apedrejado. Com qual dos dois comparar o homicida? Com nenhum, responde a Mekhilta: Gênesis 9:6 diz que o sangue de quem derramou sangue será derramado, e nem o estrangulamento nem o apedrejamento derramam sangue. E por que a cabeça, e não outro membro? Porque Deuteronômio 21:1-9 manda quebrar a nuca da novilha no vale, quando se acha um morto no campo e não se sabe quem o matou, e diz que assim "se tira do meio de vocês o sangue inocente". Todo derramamento de sangue foi comparado àquela novilha.

A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Sanhedrin (7:3), descreve a execução: corta-se a cabeça com a espada, "como faz o governo". Rabi Yehuda achou isso degradante e propôs pôr a cabeça sobre um cepo e cortá-la com um cutelo. Os sábios responderam que não existe morte mais degradante do que essa. A discussão é sobre a dignidade do condenado — numa lei que, ao mesmo tempo, mandava matá-lo.

Tudo isso é leitura posterior, de séculos depois do texto. O que ela mostra é que as cinco palavras do Êxodo nunca foram tratadas como suficientes. Ninguém em Israel lia o versículo como autorização para matar quem matou; liam-no como o ponto de partida de um processo.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quem ferir"

A lei começa pelo ato, e não pelo agente. Não diz "se um homem matar outro", mas "quem ferir" — o que fere, aquele que dá o golpe. É o mesmo verbo com que o Êxodo descreveu o que o egípcio fazia ao hebreu e o que Moisés fez ao egípcio (Êxodo 2:11-12).

O verbo é largo: cobre o tapa, a pedrada, o golpe de espada, a morte por doença enviada por Deus. Por isso a frase precisa da continuação. Ferir, sozinho, não basta para a pena — é o que a Mekhilta tira da comparação com Levítico 24:17. A lei mede o resultado, e não a violência do gesto.

"um homem"

A palavra hebraica é a do homem adulto, o varão. A pergunta é antiga e foi feita com seriedade: a lei protege só o homem adulto? Os rabinos responderam que não, e responderam com outros versículos (item 2). A tradução ABC manteve "um homem" porque é o que o texto diz, e porque é exatamente dessa palavra que nasce a discussão.

Há uma segunda pergunta, mais incômoda. "Um homem" inclui o estrangeiro? O escravo? Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) dizem que sim, e Gill fala de "qualquer pessoa humana, homem, mulher ou criança, de qualquer nação". Ibn Ezra diz que é o israelita. O versículo, sozinho, não decide. O escravo morto pelo senhor tem lei própria, com outra sanção (Êxodo 21:20); o estrangeiro entra na discussão do versículo 14, sobre "o seu próximo".

"e ele morrer"

Esta é a parte que transforma a agressão em homicídio, e ela é curta demais para o que tem de resolver. O texto diz "e ele morrer" e não diz quando, nem como. Se a vítima morre na hora, não há dúvida. Se morre uma semana depois, de uma infecção, o golpe a matou?

A Mishná do tratado Sanhedrin (9:1) dá a medida do problema com casos. Quem segura alguém dentro da água ou do fogo até que ele morra é homicida. Quem empurra alguém para a água ou para o fogo, e a vítima podia sair e não saiu, está isento do tribunal. Quem atiça um cão ou uma serpente contra alguém também está isento, porque quem matou foi o animal; se encostou os dentes da serpente na vítima, Rabi Yehuda o condena e os sábios o absolvem. O critério é a mão: a lei capital alcança quem mata, não quem faz morrer. O que fica fora do tribunal humano, dizem os mesmos textos, não fica fora do julgamento de Deus.

O próprio Êxodo, poucos versículos adiante, conhece o problema do tempo. Na briga em que a vítima cai de cama e depois se levanta (Êxodo 21:18-19), e no escravo que sobrevive "um ou dois dias" (Êxodo 21:21), a demora entre o golpe e a morte muda a sentença. O versículo 12 não entra nisso: ele estabelece o caso simples e deixa os difíceis para depois.

O que o versículo não diz: a intenção

Em cinco palavras não há nenhuma sobre o que o agressor queria. Lido sozinho, o versículo condena à morte quem matou sem querer. O texto não o lê sozinho: o versículo 13 começa com "mas" e separa quem não armou emboscada, e o 14 fala de quem age com arrogância e traição. A frase geral vem primeiro e as exceções depois, como em muitos códigos.

Jerônimo não quis deixar a frase solta. Na Vulgata (a tradução latina da Bíblia feita por ele por volta do ano 400), o versículo 12 diz: qui percusserit hominem volens occidere, morte moriatur — "quem ferir um homem querendo matá-lo morra de morte". As palavras "querendo matá-lo" não existem no hebraico nem na Septuaginta. O tradutor trouxe para a primeira frase a intenção que o texto só introduz nas seguintes, e com isso o versículo deixou de ser uma regra geral com exceções e passou a ser a definição do homicídio doloso. É uma solução razoável e é uma interpretação: quem lê a Bíblia em latim, e as traduções que dependeram dela, recebeu a resposta pronta.

"certamente será morto"

A fórmula é a mais pesada da lei hebraica, e o estudo de Êxodo 19:12 mostra que a forma passiva supõe execução por mãos humanas. Aqui importa o que ela exclui. Não há multa nem acordo com a família, e o capítulo, que em outros casos fala em resgate (Êxodo 21:30), aqui não fala. A lei de Números 35:31 diria expressamente que não se aceita resgate pela vida do homicida.

O versículo também não diz quem executa. Em Números 35:19, é o "vingador do sangue", o parente da vítima; em Números 35:12 e 24, é a comunidade que julga antes. As duas figuras convivem no texto bíblico sem que se diga como se dividiam. A leitura rabínica pôs o tribunal na frente; a leitura histórica moderna vê, provavelmente, uma lei que tentava regular uma vingança de família que já existia.

O limite

O versículo afirma uma coisa com clareza: tirar a vida de um homem custa a vida de quem a tirou. Todo o resto — quem conta como "homem", o que conta como "morrer em consequência", que estado de espírito torna o ato punível, quem executa — veio de fora das cinco palavras: de outros versículos, do tribunal, dos tradutores. É possível discordar de cada uma dessas respostas sem discordar do texto, porque o texto não as dá.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois anônimos

O versículo tem dois personagens, e nenhum tem nome: o que fere e o que morre. Não há indicação de idade, de tribo, de posição social. É a primeira lei do capítulo em que o sujeito não é definido por uma relação — senhor, escravo, pai, filha. Antes, o código falava de "se comprares um escravo"; agora fala de "quem".

Quem estava por trás da frase: o vingador e o tribunal

Duas figuras que o versículo não nomeia sustentam a sua aplicação. A primeira é o vingador do sangue, o parente próximo encarregado de cobrar a morte, instituição mais antiga do que a lei e que ela tenta limitar; o estudo de Gênesis 27:45 descreve como ela funcionava. A segunda é "a comunidade" que julga (Números 35:24), que nos textos posteriores vira o tribunal de vinte e três juízes para os casos de morte.

Moisés, o primeiro leitor

O homem que recebe esta lei para pô-la diante do povo matou um egípcio com o mesmo verbo e fugiu para Midiã (Êxodo 2:12 e 2:15). Ninguém na narrativa o julgou: quem o procurou foi Faraó, para matá-lo. O Êxodo não comenta a coincidência, e a tradição a leu de modos opostos — Saadia Gaon (sábio judeu do século X) chegou a ler a morte do egípcio como não intencional, o que poria Moisés no versículo 13, e não no 12.

Caim, o caso antes da lei

O primeiro homicídio da Bíblia não termina em execução. Caim mata Abel, Deus pergunta "o que você fez?", e a sentença é o exílio, com um sinal para que ninguém o mate (Gênesis 4:15). Só depois do dilúvio aparece a regra de que quem derrama sangue terá o seu sangue derramado (Gênesis 9:6). O versículo 12 é a versão jurídica dessa regra, agora dita a um povo com tribunal.

5. Pontos de Ensino

1. A lei capital mais curta é também a que mais precisou de interpretação. As cinco palavras não dizem quem é a vítima, o que é causar a morte, qual era a intenção nem quem executa. Todas essas respostas vieram de outros textos, e é assim que a Torá funciona: uma frase é lida junto com as outras.

2. O versículo protege a vida, não a honra. Não há pena de morte por ferir, só por matar. O critério é o resultado sobre a vítima. O ferimento sem morte terá outras leis, com outras sanções (Êxodo 21:18-19).

3. A primeira frase não é a lei inteira. O "mas" do versículo 13 e o "se, porém" do 14 refazem a regra. Ler o 12 sem eles é ler uma lei que mata o homicida involuntário, e o próprio texto não admite isso.

4. As traduções decidem coisas. A Vulgata pôs a intenção no versículo 12; o Targum de Ônquelos fez do agressor o sujeito da morte (item 10). Quem lê uma tradução recebe uma interpretação, às vezes boa, mas nunca neutra.

5. Mesmo dentro de uma lei que manda matar, os mestres discutiram a dignidade do condenado. A disputa da Mishná sobre a espada e o cutelo mostra que a pena de morte, para eles, não autorizava qualquer coisa.

6. Aspectos Filosóficos

Punir é tratar alguém como pessoa?

O versículo trata o homicida como autor. Não pergunta pela infância dele, pela doença, pelas circunstâncias sociais; diz que ele feriu e que a vítima morreu, e que por isso ele responde. Hoje essa forma de pensar é atacada dos dois lados — por quem a acha cruel e por quem a acha ingênua. Em 1968, o filósofo do direito norte-americano Herbert Morris, professor de direito e de filosofia na Universidade da Califórnia em Los Angeles, publicou um ensaio que a defendeu de um modo inesperado: "Persons and Punishment" ("Pessoas e punição").

O direito de ser punido

A tese de Morris parece paradoxal: temos o direito de ser punidos. Ele a constrói comparando dois sistemas. No primeiro, o da punição, o crime é tratado como escolha, e a pessoa responde pelo que escolheu. No segundo, o da terapia, o crime é tratado como sintoma, e a pessoa recebe tratamento até "ficar boa". O segundo parece mais humano. Morris mostra o preço: no sistema da terapia, ninguém age; tudo acontece com as pessoas. O tratamento não tem prazo nem medida fixa, porque dura até a cura. E quem é tratado deixa de ser alguém com quem se discute para ser alguém sobre quem se decide.

O direito de ser punido, diz ele, deriva de um direito mais fundamental: o de ser tratado como pessoa, isto é, como alguém capaz de escolher e cujas escolhas importam. Punir é levar a sério o que a pessoa fez.

A balança das vantagens

O ensaio traz também uma justificativa da punição que ficou conhecida como teoria do "jogo limpo". Viver numa comunidade com regras significa aceitar um fardo — controlar-se — em troca de um benefício — não ser atacado. Quem viola a regra fica com o benefício sem carregar o fardo, e ganha uma vantagem injusta sobre todos os que se controlaram. A punição tira essa vantagem e restabelece o equilíbrio.

Onde o versículo encontra Morris, e onde não encontra

O versículo 12 é a forma mais pura do primeiro sistema: o ato e a consequência, sem diagnóstico. E a leitura rabínica confirma a intuição de Morris por outro lado. A Mekhilta, ao comentar o versículo 14, isenta da pena o menor e quem não tem juízo, porque não "agem com astúcia". Só responde quem pode escolher. A punição, ali, é reservada a quem é tratado como agente.

Mas a teoria do jogo limpo funciona mal justamente para o homicídio. Ela explica bem o furto: quem furta toma um bem, e a pena devolve o equilíbrio. No homicídio, a vantagem que o assassino teria obtido não se mede, e o dano à vítima não se desfaz. A lei hebraica parece pensar de outra forma: Gênesis 9:6 justifica a pena pela imagem de Deus no homem, e não pela balança entre cidadãos. Anos depois, em 1981, o próprio Morris propôs outra justificativa, que chamou de "paternalista", em que a punição seria uma forma de educação moral do culpado — uma justificativa difícil de conciliar com a pena de morte, que não deixa ninguém para ser educado.

A aproximação, portanto, vale para uma coisa só: o versículo trata quem matou como alguém que fez, e não como alguém a quem algo aconteceu. Quanto à razão de punir, o texto não argumenta, e a razão que Gênesis dá não é a de Morris.

7. Aplicações Práticas

Separar o que aconteceu do que se quis

O versículo 12, lido junto com o 13 e o 14, ensina a fazer duas perguntas antes de julgar alguém: o que aconteceu e o que a pessoa quis. Na vida comum, a tendência é responder só à primeira — o estrago feito — ou só à segunda — a boa intenção alegada. A lei exige as duas, e por isso tem três versículos e não um.

Desconfiar da frase curta

Regras curtas parecem claras e quase nunca são. Num regulamento de empresa, de condomínio ou de igreja, a frase de uma linha costuma esconder perguntas que só aparecem no primeiro caso concreto. A história deste versículo mostra o trabalho honesto: aplicar a regra perguntando o que ela não disse, em vez de fingir que disse tudo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A Bíblia registra alguma execução por homicídio feita conforme esta lei?

Poucas, e nenhuma descrita como processo. O caso mais claro é o de Joabe, morto por ordem de Salomão pelas mortes de Abner e Amasa (1 Reis 2:28-34). Em 2 Samuel 14, a mulher de Tecoa pede ao rei que impeça o vingador de matar o filho que matou o irmão, e Davi a atende — isto é, a pena foi suspensa por decisão real. A narrativa bíblica conhece a regra e conhece as exceções feitas a ela.

2. Quem se mata comete o crime deste versículo?

Não no sentido jurídico: o versículo supõe dois, o que fere e o que morre, e não haveria quem punir. A tradição rabínica tratou o suicídio a partir de outro versículo, Gênesis 9:5 ("do sangue de vocês, das suas vidas, pedirei contas"), e o proibiu sem pena humana. A discussão cristã sobre o tema partiu do "Não matarás" e está no estudo de Êxodo 20:13.

3. E se a vítima morresse de uma doença que o golpe só agravou?

O versículo não responde. A Mishná (Sanhedrin 9:1) trata de um caso vizinho: alguém foi ferido, os médicos previram que morreria, ele melhorou, os médicos mudaram o prognóstico, e depois ele piorou e morreu. Para a opinião anônima, o agressor é condenado como homicida. Rabi Nechemia o isenta, porque a melhora indica que outra causa entrou no meio. A disputa é rabínica e posterior; mostra que a pergunta foi feita, e que a resposta exigiu um critério que o Êxodo não fornece.

4. A lei se aplica a quem mata um escravo estrangeiro?

O versículo não distingue, e a resposta depende de como se lê "um homem". Para o escravo morto pelo próprio senhor, o capítulo tem lei específica (Êxodo 21:20), com o verbo "vingar" em vez de "certamente será morto".

9. Conexão com Outros Textos

A regra antes da lei

Gênesis 9:6 — "Quem derramar o sangue do homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque à imagem de Deus o homem foi feito."

A justificativa que o versículo 12 não dá. É também a base da leitura da Mekhilta sobre a espada.

Gênesis 4:10 — "E o SENHOR disse: 'O que você fez? A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra.'"

O primeiro homicídio, punido com exílio e não com morte.

As outras leis do homicídio

Levítico 24:17 — "Quem ferir mortalmente qualquer pessoa humana certamente será morto."

A forma ampla, sem "um homem", que a Mekhilta usa para estender a proteção à mulher e à criança.

Números 35:16 — "Mas, se o ferir com instrumento de ferro, e ele morrer, é assassino; o assassino certamente será morto."

O capítulo de Números enumera ferro, pedra, madeira e mão, e chama o culpado pelo nome. É a lista de casos que o Êxodo resume.

Números 35:30 — "Todo aquele que matar alguém será morto pelo depoimento de testemunhas; mas uma só testemunha não basta para condenar alguém à morte."

A exigência de prova que o versículo 12 não menciona.

Deuteronômio 19:11-12 — "Mas, se alguém odiar o seu próximo, e lhe armar emboscada, e se levantar contra ele, e o ferir mortalmente, e ele morrer, e fugir para uma dessas cidades, os anciãos da sua cidade mandarão buscá-lo e o entregarão nas mãos do vingador do sangue, para que morra."

O Deuteronômio junta numa frase o que o Êxodo distribui por três versículos: o ódio, a emboscada, a fuga e a entrega.

O caso de quem entregou a lei

Êxodo 2:12 — "Olhou para um lado e para o outro e, vendo que não havia ninguém, golpeou o egípcio e escondeu-o na areia."

O mesmo verbo de ferir, aplicado a Moisés.

A proibição e a pena

Êxodo 20:13 — "Não matarás."

A Mekhilta fecha a sua leitura do versículo 12 com esta frase: a lei ouviu a punição aqui e a proibição lá.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto.

Texto hebraico

מַכֵּה אִישׁ וָמֵת מוֹת יוּמָת׃

Transliteração

makkeh ish va-met mot yumat.

Análise palavra por palavra

מַכֵּה — makkeh, "quem ferir".

Particípio do verbo nakhah, "golpear, ferir", na forma Hifil (a forma causativa do verbo hebraico, que aqui é a usual para "dar um golpe"). O particípio funciona como substantivo: "o que fere", "aquele que golpeia". Leis assim, que começam por um particípio e terminam numa sanção, formam o pequeno bloco dos versículos 12, 15, 16 e 17. O mesmo particípio volta no versículo 15, com outro objeto. O verbo é o das pragas ("ferirei o Egito", Êxodo 3:20) e o de Êxodo 2:12; vai da palmada à morte, e por isso a lei precisa dizer o que aconteceu depois.

אִישׁ — ish, "um homem".

O homem adulto, e também, em muitos contextos, "alguém, qualquer um". A ambiguidade é a fonte da discussão rabínica do item 2: o sentido estreito ("varão") pedia outro versículo para incluir mulheres e crianças; o sentido largo ("alguém") as incluiria por si. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) resolveu pelo sentido largo: tina, "alguém".

וָמֵת — va-met, "e ele morrer".

O verbo mut, "morrer", no perfeito precedido de "e", na construção que, depois de um particípio, indica o que se segue a ele: fere, e em consequência morre. O sujeito é a vítima. O hebraico não diz "e o matar"; diz que o outro morreu. A distância entre o golpe e a morte fica implícita, e é nessa distância que entram as perguntas sobre causa do item 3.

מוֹת יוּמָת — mot yumat, "certamente será morto".

O infinitivo de mut seguido da forma passiva causativa: "morrendo será feito morrer". A análise completa da fórmula está no estudo de Êxodo 19:12. Neste versículo, o que se nota é a simetria: o mesmo verbo mut aparece para a vítima e para o culpado. Em cinco palavras, "morrer" está três vezes.

As traduções antigas

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá, lida na sinagoga) escreve: de-yimchei le-enash ve-yiqtelineh, itqetala yitqetel — "quem ferir um homem e o matar será morto". A mudança é pequena e decisiva: no hebraico, a vítima morre; no aramaico, o agressor a mata. O Targum tirou a distância entre o golpe e a morte e fez do homicida o sujeito do verbo. A Septuaginta transformou o particípio numa condição: ean de pataxē tis tina kai apothanē, "se alguém ferir alguém e ele morrer", e reproduziu a fórmula dupla com thanatō thanatousthō, "de morte seja morto". A Vulgata, como se viu no item 3, acrescentou volens occidere, "querendo matar".

A divisão do texto

No texto hebraico tradicional, os versículos 12 e 13 formam um único parágrafo; a partir do 14, cada lei capital é seguida de um espaço que a separa da seguinte. O homicídio e o acidente foram copiados como uma unidade: a regra e a sua primeira exceção.

11. Conclusão

Do que foi dito, conclui-se primeiro que o versículo é uma regra e não um código: ele fixa que a vida tirada custa a vida de quem a tirou, e deixa a outros textos todas as condições sem as quais essa regra seria injusta. Conclui-se também que a tradição judaica e a cristã leram essas cinco palavras como começo de um processo, e não como autorização. O tribunal, as testemunhas, a advertência, a intenção que a Vulgata trouxe para dentro da frase — tudo foi construído para impedir que a lei do homicídio produzisse outro homicídio. E conclui-se, por fim, que o versículo pressupõe quem mata como alguém que responde pelo que fez, sem explicar por que deve responder com a vida. Essa explicação, a Bíblia a dá em Gênesis 9:6, e ela não é a da balança entre culpa e pena: é a do valor da pessoa morta.

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