Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava com uma vara, e ele morrer debaixo da sua mão, certamente será vingado.
1. Introdução
Um senhor bate no seu escravo ou na sua escrava com a vara, e o escravo morre ali mesmo, debaixo da mão dele. A lei diz que a morte "certamente será vingada". O versículo pressupõe que o senhor bate — não proíbe o castigo —, e ao mesmo tempo põe a vida do escravo sob a proteção da lei, contra o próprio dono. A palavra "vingado", e não a fórmula comum de pena de morte, abriu uma disputa que dura até hoje: a pena é a morte do senhor, como leram a Mekhilta e o Talmude, ou uma punição a critério dos juízes, como defenderam leitores medievais e modernos? E uma pergunta de fundo: houve, no mundo antigo, outra lei que punisse o senhor pela morte do próprio escravo?
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma lei sem par?
Comentaristas do século XIX gostavam de dizer que este versículo é a primeira lei conhecida a proteger a vida do escravo contra o seu senhor. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) escreve que foi "a primeira vez, até onde sabemos", e Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) fala do "traço mais antigo" de tal proteção. A afirmação tem fundamento, mas precisa de três ressalvas.
A primeira: as coleções de leis da Mesopotâmia que se conhecem tratam com frequência do escravo ferido ou morto, mas quase sempre como prejuízo do dono — quem mata o escravo alheio paga ao proprietário. O caso do senhor que mata o próprio escravo não aparece nelas como caso. O mais próximo é o do devedor entregue como penhor que morre de maus-tratos na casa do credor, e ali o credor é punido; mas o morto não era escravo do credor, era uma garantia de dívida, e a punição protege a família que o entregou. O silêncio das coleções não prova que o senhor fosse livre para matar: elas não são códigos completos, e o que não registram pode ter sido resolvido de outro modo. O que se pode dizer é que nenhuma delas formula o caso.
A segunda ressalva vem de Roma, e é a mais clara. O jurista Gaio (século II depois de Cristo), no manual de introdução ao direito que ficou conhecido como Institutas, livro I, parágrafo 52, escreve sem rodeios: "entre todos os povos, igualmente, podemos ver que os senhores têm sobre os escravos o poder de vida e de morte". Para Gaio, isso era direito comum da humanidade, e não uma peculiaridade romana. A mudança que ele registra em seguida (I.53) é recente: só "no tempo presente", por uma constituição do imperador Antonino Pio (que reinou de 138 a 161 depois de Cristo), "quem matar o próprio escravo sem causa" passou a responder "não menos do que quem matou o escravo alheio". Pelas datas que os estudiosos propõem para o código do Êxodo, a distância até essa reforma é de muitos séculos, provavelmente perto de um milênio.
A terceira ressalva é sobre o alcance. A lei do Êxodo protege a vida, não o corpo: ela pressupõe a vara e só intervém quando o escravo morre "debaixo da mão" do senhor. O versículo seguinte limita ainda mais a proteção (Êxodo 21:21). A comparação mostra uma lei que foi além do seu mundo num ponto, e não uma lei que aboliu a violência do senhor.
O versículo que ensinou a executar todos os homicidas
O Talmude Babilônico, no tratado Sanhedrin (52b), discute como se executa o homicida. A Mishná diz que ele é decapitado, à espada. De onde vem isso? A resposta é surpreendente: vem deste versículo. "Certamente será vingado" — e a "vingança", por comparação com Levítico 26:25 ("a espada que vinga a vingança da aliança"), é a morte pela espada. A Gemara então pergunta: aprendemos que quem mata um escravo cananeu morre pela espada; e quem mata um homem livre? E responde com um argumento do menor para o maior: se quem mata um escravo é executado pela espada, quem mata um livre seria executado de modo mais brando?
O caminho do raciocínio importa. A forma de execução de todos os homicidas de Israel foi deduzida, no Talmude, do caso do escravo morto pelo senhor. O versículo que trata da pessoa de menor posição na casa serviu de base para a regra de todos.
Maimônides (filósofo e jurista judeu do século XII), no seu código (Mishné Torá, "Repetição da Lei", Leis do Homicida 2), fixa a regra: quem mata um israelita ou um escravo cananeu, seu ou alheio, é executado. E dá uma razão que não é jurídica: o escravo "aceitou o jugo dos mandamentos" e foi acrescentado "à herança do SENHOR". Para Maimônides, o escravo da casa israelita já não era um estrangeiro qualquer; era alguém incorporado ao povo, e a sua morte era a morte de alguém de dentro. Ele também restringe o castigo admitido: a Torá deu ao senhor permissão de bater "só com vara, cajado, correia ou coisa semelhante"; se ele bateu com faca, espada, pedra ou punho, e o escravo morreu, a tolerância do versículo seguinte não se aplica, mesmo que a morte venha um ano depois.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava"
De que escravo se fala? A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 7, responde: do escravo estrangeiro, o "cananeu" da linguagem rabínica, comprado das nações vizinhas como Levítico 25:44-46 permite. Rabi Eliezer chega a isso pela comparação de palavras ("escravo ou escrava" aqui e lá); Rabi Ishmael, pelo fim do versículo seguinte, "porque é dinheiro dele": o dinheiro é de alguém para sempre, e só o escravo estrangeiro é do senhor para sempre. Nachmânides (Ramban, comentarista judeu catalão do século XIII) acrescenta um argumento de linguagem: a Torá não chama o israelita vendido por dívida de "escravo" sem mais; chama-o "escravo hebreu", "teu irmão". Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) vai pelo direito: para o israelita vendido valem as mesmas leis do homem livre, e a ressalva de "um ou dois dias" não poderia valer para ele.
Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) rejeitam a restrição: o texto diz "o seu escravo", sem distinguir, e a lei valeria para os dois tipos. A distinção entre as duas escravidões da lei bíblica está exposta no estudo de Êxodo 12:44.
Há uma pergunta anterior. Se o escravo é um ser humano, e o capítulo já disse "quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto" (Êxodo 21:12), para que outra lei? A Mekhilta dá uma resposta desconcertante: o caso do escravo foi destacado da regra geral não para endurecê-la, mas para abrir uma exceção a favor do senhor — a de "um ou dois dias". A lei especial existe para a tolerância. A leitura não é a única possível; quem lê o versículo sozinho vê nele a afirmação de que o escravo também conta como vítima de homicídio. As duas coisas estão no texto, uma neste versículo e a outra no seguinte.
E "o seu escravo ou a sua escrava": a escrava é nomeada. A lei não deixa a mulher implícita.
"com uma vara"
O hebraico tem o artigo: "com a vara". Ibn Ezra, Nachmânides e Chizkuni (comentarista judeu francês do século XIII) leem o artigo do mesmo jeito: é a vara de sempre, a que o senhor costumava ter na mão para castigar. A lei não está imaginando uma arma; está imaginando a rotina da casa. Nachmânides comenta que é costume do governante ou do senhor andar com a vara, e por isso Deus o advertiu a ter cuidado com ela, "mesmo que seja vara de correção".
O texto, portanto, pressupõe que o senhor bate. Não aprova nem proíbe; parte disso. Rashbam e Sforno (comentaristas judeus dos séculos XII e XVI) dizem com todas as letras que o castigo físico do escravo era permitido, e Sforno cita o provérbio: "não é com palavras que o escravo se corrige" (Provérbios 29:19). O que o versículo regula é o limite.
A vara também funciona como prova, e os leitores perceberam isso de lados opostos. Rashbam e Chizkuni: se o senhor tivesse usado espada, a intenção de matar seria evidente, e a tolerância do versículo seguinte não valeria; a vara indica castigo, não homicídio. O abolicionista norte-americano Theodore Weld, em A Bíblia contra a escravidão (1837), inverteu o raciocínio: a vara não é instrumento de matar, e por isso, se o escravo morre debaixo dela, é porque recebeu muitos golpes e com muita força, até o último suspiro — e é isso que prova a intenção de matar.
"e ele morrer debaixo da sua mão"
"Debaixo da sua mão" quer dizer: durante o castigo, ali mesmo. Nachmânides entende que o senhor continuou batendo até a morte. Chizkuni registra duas leituras: a morte que resulta da surra, ou a morte "enquanto ainda apanhava", e diz que nesta segunda já não se trata de correção, mas de matar com as próprias mãos.
A Mekhilta lê um detalhe de posse: o golpe e a morte têm de acontecer enquanto o escravo está sob o domínio daquele senhor. Se ele bateu e depois vendeu o escravo a outro, e o escravo morreu na casa do comprador, a regra especial já não se aplica.
A expressão também carrega um sentido que vai além do físico. "Debaixo da mão" de alguém é estar sob o seu poder (Gênesis 16:9 usa a imagem para Agar, devolvida à mão da senhora). O escravo morreu onde já estava: sob a mão do senhor.
"certamente será vingado"
A fórmula que o leitor espera, depois de Êxodo 21:12, 15, 16 e 17, é "certamente será morto". Ela não vem. Em seu lugar, um verbo que em toda a Bíblia significa vingar. Por quê? Há três respostas.
Primeira resposta: "vingado" quer dizer morte, e morte pela espada. É a leitura da Mekhilta, do Talmude (Sanhedrin 52b) e de Rashi (o comentarista judeu francês do século XI), que comparam a palavra com Levítico 26:25. O Targum de Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica da Torá, cheia de acréscimos explicativos) põe isso no próprio texto: o senhor "será julgado com o julgamento de morte pela espada". Ibn Ezra admite que aqui a lógica sozinha não basta e que todos, até os que discordam dos sábios, dependem da tradição para saber que vingança é essa. Mas reúne o uso bíblico: os midianitas "vingados" foram mortos (Números 31:2); Sansão "se vingou" ferindo os filisteus (Juízes 15:7-8); Deus "vinga o sangue dos seus servos" (Deuteronômio 32:43). Vingança, na Bíblia, cobra sangue.
Segunda resposta: "vingado" quer dizer punição graduada. Ibn Ezra atribui essa leitura a opositores dos rabinos — muito provavelmente os caraítas, judeus que rejeitavam a lei oral. Para eles, "certamente será vingado" indicaria uma vingança grande, como açoites, e a fórmula do versículo seguinte uma escala: se o escravo vive um dia, vingança menor; se vive dois, nenhuma. O argumento deles era que o verbo de vingança nunca designa, em outro lugar, uma execução por tribunal. E Ibn Ezra acrescenta, com franqueza, o que acha que está por trás: "a verdadeira dificuldade deles é aceitar a ideia de que o senhor seja executado por causa de um escravo".
Terceira resposta: a pena fica a critério dos juízes. Keil e Delitzsch argumentam que, se a Torá quisesse a morte, teria usado a fórmula de morte; a escolha de outra palavra indica que as autoridades decidiriam a pena conforme o caso. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) já ia nessa direção: "será réu de crime". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) diz apenas que a morte "certamente será julgada", sem nomear a pena.
Por que o verbo da vingança? Ibn Ezra dá a resposta mais humana. O senhor procura pretextos para cair sobre o escravo porque ele está em seu poder e não tem quem o vingue; um israelita livre ele não ousaria ferir assim, porque teme a família do outro. O escravo estrangeiro não tem parente, não tem clã, não tem o "vingador do sangue" que, em Israel, perseguia o assassino. O versículo diz que esse vingador existe mesmo assim. Nessa leitura, a lei se põe no lugar da família que o escravo não tem.
Theodore Weld acrescentou, em 1837, uma crítica à tradução inglesa: a versão do rei Jaime trazia "ele certamente será punido", e o mesmo verbo, em todas as outras ocorrências, era traduzido "vingar". Para Weld, o sujeito não é o senhor, mas a morte — "ela certamente será vingada" —, e vingar a morte só podia significar a morte do culpado. A ABC traduz "certamente será vingado", o literal. Não é possível decidir pelo texto qual era a pena; o que o texto não permite é ler aí uma advertência leve.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O senhor. "Alguém", diz a ABC; o hebraico diz "um homem". É o dono da casa, israelita, que comprou o escravo e tem sobre ele o direito de castigar. É a primeira vez no capítulo que um senhor aparece como réu de um crime contra o próprio escravo.
O escravo e a escrava. Na leitura rabínica e na maioria dos comentaristas judeus, são estrangeiros comprados das nações vizinhas, que pertencem ao senhor de forma permanente. Na leitura de Keil e Delitzsch, qualquer escravo, também o hebreu.
O vingador ausente. Não aparece no texto, mas a palavra "vingado" o evoca. Em Israel, o parente próximo tinha o dever de perseguir quem matasse alguém da família. O escravo estrangeiro não tinha esse parente. A instituição do vingador do sangue está descrita no estudo de Gênesis 27:45.
Os juízes. Implícitos. Alguém precisa verificar que o escravo morreu "debaixo da mão" do senhor, e não depois; e decidir a pena, se a leitura for a da punição a critério.
A vara. Não é pessoa, mas é personagem: o instrumento comum da casa, o mesmo que a sabedoria de Israel recomendava para corrigir o filho e o tolo (Provérbios 10:13; 13:24; 26:3).
5. Pontos de Ensino
A vida do escravo está sob a lei. O senhor que mata o escravo não está exercendo um direito de propriedade; está cometendo um crime que precisa de resposta. O versículo põe um limite que o poder do dono não atravessa.
A lei não esconde o que admite. O versículo parte de uma casa em que o senhor bate no escravo com a vara. Não diz que isso é bom, nem que é mau; regula a partir daí. Ler o versículo com honestidade é ver as duas coisas juntas: a proteção da vida e a aceitação do castigo.
Quem não tem vingador tem a lei. Na leitura de Ibn Ezra, a palavra "vingado" responde à situação do escravo sem família. O dever de vingar a morte, que normalmente cabia a um parente, passa para quem aplica a lei.
A escrava conta tanto quanto o escravo. O versículo nomeia os dois. A proteção não depende do sexo da vítima.
A forma importa. A troca da fórmula de pena de morte por "será vingado" gerou leituras opostas, da execução à punição a critério. A disputa mostra quanto uma palavra de lei pode pesar, e quanto o leitor traz para ela o que espera encontrar.
6. Aspectos Filosóficos
A lei poderia ter dito "certamente será morto", como diz quatro vezes nos versículos anteriores. Disse "certamente será vingado". A palavra vem do vocabulário das paixões — a vingança é o que o ofendido deseja —, e entrou no texto da lei para falar da morte de alguém que não tinha quem a desejasse por ele. Isso levanta uma pergunta antiga e incômoda: há lugar para o desejo de vingança na justiça, ou ela só começa quando esse desejo é silenciado?
O filósofo norte-americano Jeffrie Murphy (nascido em 1940, professor de direito e de filosofia na Universidade do Estado do Arizona) passou boa parte da carreira defendendo uma resposta impopular: a de que os sentimentos de ressentimento, e até um certo grau de vingança, não são vícios a extirpar, mas parte da vida moral.
O ressentimento como defesa de si
No ensaio "Perdão e ressentimento" (1982), Murphy parte de uma observação: quem não sente ressentimento nenhum diante de uma ofensa grave contra si mesmo provavelmente não tem respeito por si. O ressentimento é uma espécie de testemunho emocional de que a pessoa se importa consigo e com os próprios direitos. Ele protesta contra uma mensagem que a ofensa carrega — a de que a vítima não vale grande coisa, de que se pode usá-la como se usa um objeto. Ressentir é recusar essa mensagem.
Daí Murphy tira uma consequência para o perdão. Perdoar não é deixar de ressentir de qualquer jeito; é deixar de ressentir por boas razões, sem abrir mão do próprio valor. O perdão apressado, que finge que nada houve, pode ser uma forma de servilismo.
"Dois vivas à vingança"
Num artigo de 2000 com esse título, e depois no livro Acertar as contas: o perdão e os seus limites (2003), ele foi além. Defendeu que o desejo de ver o ofensor sofrer, dentro de certos limites, não é irracional nem necessariamente mau, e que o direito penal, em parte, existe para canalizar esse desejo — para tirá-lo das mãos das vítimas e das famílias, onde ele se torna cego e interminável, e dar-lhe uma forma medida. "Dois vivas", e não três: Murphy também insistiu nos perigos da paixão vingativa, no prazer cruel que ela pode esconder e na facilidade com que o vingador se engana sobre a culpa do outro.
O escravo sem ressentimento
O caso do Êxodo põe a teoria de Murphy diante de uma situação extrema. O escravo morto não pode ressentir: está morto. A família que poderia ressentir por ele não existe, ou está em outra terra. O senhor, que é a única pessoa com poder sobre o caso, é o ofensor. Ninguém, na casa, tem razão ou meio para declarar que aquela morte foi um mal.
Se o ressentimento é o protesto contra a mensagem de que a vítima não vale nada, a palavra "vingado" faz esse protesto em nome de quem não pode fazê-lo. Ela diz que a morte do escravo é uma ofensa que pede resposta, como a de qualquer outro morto. A lei assume a paixão que ninguém na casa teria e a transforma em dever público. É a leitura de Ibn Ezra, posta em termos de Murphy: o vingador do sangue que o escravo não tem passa a ser a própria lei.
O limite
A aproximação tem duas fronteiras. A primeira é que Murphy escreve sobre sujeitos que se reconhecem iguais em direitos, numa sociedade liberal; o Êxodo regula uma casa em que um homem é dono de outro, e o versículo seguinte vai restringir drasticamente a "vingança". A segunda é que a palavra hebraica não é sentimental: no uso jurídico, "vingar" é cobrar a pena devida, e não se sabe se quem a escreveu pensava em ressentimento. O que a filosofia de Murphy ajuda a ver é o efeito da escolha da palavra: ela trata a morte do escravo como algo que alguém tem o direito de não aceitar.
7. Aplicações Práticas
O versículo trata de uma instituição que não existe mais em lei, e a aplicação não pode fingir o contrário: não se tira dele uma regra para patrões e empregados. O que tem relação real com ele é a situação de poder que descreve. Há relações em que uma das partes tem nas mãos a "vara" — o cargo, o salário, a guarda, a dependência do outro — e em que a outra parte não tem família, sindicato, testemunha ou voz para se defender. É nessas relações que o abuso cresce, e a lei, na leitura de Ibn Ezra, existe exatamente para quem não tem quem o vingue.
O versículo também desmonta a desculpa do "era só correção". A vara era permitida; a morte, não. Quando o castigo passa do limite, a intenção declarada de corrigir não absolve ninguém.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que a Torá, que proíbe matar, permite bater no escravo?
Porque regula uma instituição que já existia, e a regula de dentro. A Torá não aboliu a escravidão; limitou-a em vários pontos (o sétimo ano para o hebreu, o sábado para todos, a liberdade em troca do olho ou do dente, a morte vingada) e deixou outros intactos, como o castigo físico. A pergunta sobre por que não foi além é teológica e não tem resposta no texto. O que o texto mostra é o que ele admite e o que ele recusa.
2. Se o senhor matasse o escravo com uma espada, a regra seria a mesma?
Não, na leitura rabínica e medieval. Rashbam, Chizkuni e Maimônides concordam que a tolerância de "um ou dois dias" só vale para o instrumento de castigo. Com espada ou faca, o senhor é tratado como qualquer homicida, mesmo que o escravo morra dias depois. O versículo não diz isso explicitamente; os intérpretes o tiraram da palavra "vara".
3. Alguém foi de fato executado por matar um escravo, no antigo Israel?
Não há registro na Bíblia. Os livros históricos não narram nenhum processo desse tipo, e não há como saber com que frequência a lei foi aplicada. Isso vale para quase todas as leis do Código da Aliança: conhecemos a norma, não os processos.
4. E se fosse um estranho, e não o senhor, que matasse o escravo?
Na leitura rabínica, o estranho seria executado como qualquer homicida, sem a tolerância de "um ou dois dias", que vale só para o dono (Rashi). O versículo fala só do senhor; o caso do estranho decorre da regra geral de Êxodo 21:12.
9. Conexão com Outros Textos
A espada que vinga
Levítico 26:25 — "Trarei sobre vocês a espada que executará a vingança da aliança; e, quando se recolherem às suas cidades, enviarei a peste no meio de vocês."
O texto que a Mekhilta e o Talmude usaram para ler "vingado" como morte pela espada.
Deuteronômio 32:43 — "Alegrem-se, nações, com o seu povo, porque ele vingará o sangue dos seus servos."
Vingar o sangue dos "servos": a mesma palavra que designa o escravo, aplicada aos que pertencem a Deus. Ibn Ezra cita o versículo para mostrar que vingar sangue é cobrar sangue.
A vara de corrigir
Provérbios 29:19 — "O escravo não se corrige com palavras; ainda que entenda, não responde."
O provérbio que Sforno cita para dizer que o castigo do escravo era permitido. A sabedoria de Israel conhecia a vara e a recomendava.
Provérbios 26:3 — "O chicote é para o cavalo, o freio para o jumento, e a vara para as costas dos tolos."
A vara como instrumento comum de correção, na mesma lista dos arreios dos animais.
O limite do poder do senhor
Levítico 25:43 — "Não o domine com dureza, mas tema o seu Deus."
Dito do israelita vendido por dívida. O versículo do Êxodo estende um limite, o da vida, a qualquer escravo.
Jó 31:13-15 — "Se desprezei o direito do meu escravo ou da minha escrava, quando eles tinham queixa contra mim, que farei quando Deus se levantar? Quando ele me pedir contas, que lhe responderei? Aquele que me fez no ventre não o fez também a ele? Não foi o mesmo que nos formou no seio materno?"
A defesa de Jó vai além da lei: o escravo tem direito e tem queixa, e o argumento é a criação comum. O Êxodo protege a vida; Jó afirma a igualdade de origem.
Os outros "vingados"
Gênesis 4:15 — "O SENHOR, porém, lhe respondeu: 'Por isso, quem matar Caim sofrerá sete vezes a vingança.' Então o SENHOR pôs um sinal em Caim, para que não o ferisse quem o encontrasse."
A vingança garantida por Deus a quem não tinha ninguém por si — um homicida errante. Aqui, ao escravo.
Juízes 15:7 — "Sansão lhes disse: 'Já que vocês agiram assim, não descansarei enquanto não me vingar de vocês.'"
Um dos exemplos de Ibn Ezra: a vingança que termina em morte.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava com uma vara, e ele morrer debaixo da sua mão, certamente será vingado.
Texto hebraico
וְכִֽי־יַכֶּה֩ אִ֨ישׁ אֶת־עַבְדּ֜וֹ א֤וֹ אֶת־אֲמָתוֹ֙ בַּשֵּׁ֔בֶט וּמֵ֖ת תַּ֣חַת יָד֑וֹ נָקֹ֖ם יִנָּקֵֽם׃
Transliteração
ve-khi-yakkeh ish et-avdo o et-amato ba-shevet u-met tachat yado naqom yinnaqem.
Análise palavra por palavra
וְכִי־יַכֶּה אִישׁ — ve-khi-yakkeh ish, "e se um homem ferir".
Novo caso, aberto pelo mesmo "se" principal de Êxodo 21:18. Yakkeh é o imperfeito Hifil (a forma causativa do verbo hebraico) de nakhah, "golpear", o verbo comum das leis de lesão do capítulo.
אֶת־עַבְדּוֹ אוֹ אֶת־אֲמָתוֹ — et-avdo o et-amato, "o seu escravo ou a sua escrava".
Eved é a palavra hebraica que cobre do escravo ao ministro do rei ("servo do rei"); o sufixo -o, "dele", define a relação: é o escravo daquele homem. Amah é a escrava, a serva da casa, nomeada ao lado do escravo. A Septuaginta traduz por pais e paidiskē, "menino" e "menina", o modo grego corrente de chamar os escravos domésticos, como se fossem eternos menores de idade.
בַּשֵּׁבֶט — ba-shevet, "com a vara".
A preposição be, "com", recebe a vogal do artigo: não "com uma vara", mas "com a vara". Ibn Ezra, Nachmânides e Chizkuni leram nesse detalhe de vocalização a vara habitual do senhor (item 3). Shevet é a palavra do cetro, do bastão de comando e também da tribo; esse duplo sentido foi analisado em Gênesis 49:10. Aqui é a vara de bater.
וּמֵת תַּחַת יָדוֹ — u-met tachat yado, "e ele morrer debaixo da sua mão".
Met, "morrer", aqui com sujeito implícito: o escravo. Tachat yado, "debaixo da sua mão", com a preposição tachat no sentido espacial e de domínio. A Septuaginta põe no plural, "debaixo das mãos dele", e a Vulgata diz "nas mãos dele".
נָקֹם יִנָּקֵם — naqom yinnaqem, "certamente será vingado".
A construção do infinitivo absoluto seguido do verbo conjugado, o mesmo recurso de reforço das fórmulas de pena de morte do capítulo (mot yumat, "certamente será morto"). Mas há uma diferença de forma: o infinitivo está na forma simples do verbo, e o verbo conjugado no Nifal (a forma passiva): "vingar, será vingado". O hebraico combina duas conjugações diferentes da mesma raiz, coisa possível mas menos comum do que a repetição na mesma forma.
A raiz é naqam, "vingar", com cerca de trinta e cinco ocorrências como verbo. O Nifal yinnaqem aparece só aqui com esta grafia. O verbo serve tanto para a vingança humana (Sansão, Juízes 15:7) quanto para a de Deus (Deuteronômio 32:43) e para a vingança de guerra (Números 31:2).
As versões antigas mostram o leque de leituras. A Septuaginta traduz dikē ekdikēthēsetai, "será punido com sentença", pondo a palavra "justiça" no lugar do infinitivo. A Vulgata diz criminis reus erit, "será réu de crime". O Targum de Ônquelos diz "certamente será julgado". O Targum de Pseudo-Jônatas explicita: "será julgado com o julgamento de morte pela espada". Nenhuma delas manteve a palavra "vingança".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o Êxodo 21:20 leva a três conclusões.
A primeira é que a lei põe um limite ao poder do senhor num ponto em que o mundo antigo, até onde se sabe, não o punha. Gaio ainda descrevia, no século II depois de Cristo, o poder de vida e morte sobre o escravo como direito de todos os povos. O versículo diz que a morte do escravo pede resposta.
A segunda é que essa proteção convive com a aceitação do castigo. A vara é o ponto de partida da lei, não o seu alvo. Quem lê o versículo como abolição da violência do senhor lê o que não está escrito; quem o lê como simples confirmação do poder do senhor também.
A terceira é que a palavra "vingado" não se deixa reduzir. Os rabinos a leram como morte pela espada e fizeram dela a base da execução de todos os homicidas; os caraítas, como castigo graduado; Keil e Delitzsch, como pena a critério dos juízes. O texto não permite decidir qual era a pena. Permite afirmar que, para a lei, a morte do escravo não era um assunto privado do dono.













