Se homens brigarem, e um ferir o outro com uma pedra ou com o punho, e este não morrer, mas cair de cama,
1. Introdução
Dois homens discutem, a discussão vira briga, e um deles acerta o outro com uma pedra ou com o punho. O ferido não morre, mas vai para a cama. O versículo inteiro é só a montagem do caso: a sentença vem no versículo seguinte, e entre os dois fica um tempo de espera em que ninguém sabe se houve homicídio ou só lesão. Os rabinos leram nessas poucas palavras uma lista de perguntas de tribunal — com que arma, em que parte do corpo, quem avalia se o ferido vai viver e o que fazer com o agressor enquanto isso. E a pergunta mais simples, quem começou a briga, o texto não faz.
2. Contexto Histórico e Cultural
A arma como prova
Num tempo sem perícia, sem exame de corpo de delito e sem confissão obtida por método, o que restava ao tribunal para saber se alguém quis matar? Restava o objeto. A lei de Israel tem uma tabela de instrumentos, e ela está em Números 35:16-18: quem fere com objeto de ferro e mata é homicida; quem fere com "pedra de mão", aquela que cabe na mão e com a qual se pode matar, é homicida; quem fere com "instrumento de pau de mão", com o qual se pode matar, é homicida. A fórmula se repete três vezes: "com a qual se pode morrer". O que decide não é o resultado, é a capacidade do objeto.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin ("Danos"), seção 6, aplica essa tabela à briga deste versículo. A pedra e o punho do Êxodo não são uma licença para quem bate com outra coisa, nem uma restrição a quem bate com eles: o agressor só responde pela morte se golpeou "com algo que tem o potencial de matar e num lugar do corpo que é crítico para a vida". Arma e alvo entram juntos na conta. Uma pedra pequena atirada contra as costas não é a mesma coisa que a mesma pedra contra a têmpora.
Rabi Natan, na mesma seção, faz uma leitura cruzada: a pedra é comparada ao punho, e o punho à pedra. Assim como a pedra pode matar, também o punho de que se fala é um punho capaz de matar. E assim como o punho é uma coisa determinada, que se pode examinar, também a pedra tem de ser determinada: se ela caiu no meio de outras pedras e já não se sabe qual foi, o agressor fica livre. Nachmânides (Ramban, comentarista judeu catalão do século XIII) explica a regra: na dúvida, os juízes avaliam a mais leve das pedras possíveis, e se ela não seria capaz de matar, o réu é solto. A prova perdida beneficia o acusado.
A avaliação do ferido
O segundo procedimento é o da estimativa. O Talmude Babilônico, no tratado Sanhedrin (78b), lê os dois versículos, este e o seguinte, como duas avaliações médicas sucessivas. Na primeira, logo depois do golpe, os juízes (ouvindo quem entendia de ferimentos) estimam se o ferido vai morrer ou viver. Se a estimativa é de que vai viver e ele morre mesmo assim, o agressor não é executado: saiu do tribunal absolvido, e o tribunal não volta atrás. Se a estimativa é de que vai morrer, o agressor fica preso, e espera-se.
O caso difícil é o do meio: estimou-se que morreria, ele melhorou, e depois piorou e morreu. Rabi Neemias manda seguir a avaliação intermediária, a da melhora, e o agressor escapa da pena de morte. Os sábios dizem o contrário: "não há avaliação depois de avaliação", e a morte final prova que a melhora foi engano. Maimônides (filósofo e jurista judeu do século XII), no seu código de leis (Mishné Torá, "Repetição da Lei", Leis do Homicida 4), adota a posição dos sábios: quando o ferido piora e morre depois de uma melhora, presume-se que morreu do golpe original.
O procedimento mostra o que o versículo deixa em aberto. O Êxodo diz "e este não morrer, mas cair de cama". Não diz quanto tempo é preciso esperar, nem quem decide que o perigo passou. Os tribunais rabínicos preencheram a lacuna com uma prática de prova que dependia de opinião médica, e a divergência entre Rabi Neemias e os sábios é, no fundo, uma divergência sobre quanto peso dar a um prognóstico.
A briga entre dois homens como matéria de direito, e a cobrança do tratamento e dos dias de trabalho nas coleções de leis do Oriente antigo, já foram expostas no estudo de Êxodo 2:13.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se homens brigarem"
A briga começa com palavras. O verbo escolhido é o da disputa, da discussão que se acirra, e não o da luta corporal. O Êxodo usa outro verbo, quatro versículos adiante, para os homens que "lutarem" e atingem a mulher grávida (Êxodo 21:22). No mesmo capítulo, portanto, há duas brigas com dois nomes: aqui, uma discussão que degenera em golpe; ali, uma luta já física, em que um terceiro é atingido.
A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) acentuou a origem verbal: "se dois homens se insultarem". Ela também acrescentou o número, "dois homens", que o hebraico não diz. O acréscimo fixa o caso no duelo: dois, e não uma rixa de grupo.
E o plural "homens" exclui as mulheres? A Mekhilta responde que não. Rabi Ishmael argumenta pela forma da lei inteira: as leis de lesão da Torá falam em geral, sem dizer homem ou mulher, e uma delas, a do boi que mata "um homem ou uma mulher" (Êxodo 21:29), nomeia os dois. Essa menção serve de chave para todas as outras: o que vale para o homem vale para a mulher em todos os danos. A regra parece óbvia hoje; para um leitor antigo, que lia "homens" e podia entender só homens, ela precisou ser argumentada.
"e um ferir o outro"
O hebraico diz "e um homem ferir o seu próximo". A palavra é a mesma de "amarás o teu próximo" (Levítico 19:18) e do mandamento contra o falso testemunho. Mesmo no meio da briga, o outro continua sendo "o próximo". A ABC traduz "o outro" porque em português "ferir o seu próximo" soaria a sermão, e o versículo é um caso de tribunal. A nuance, porém, existe: a lei não fala de inimigos, fala de dois vizinhos que se desentenderam.
Outro ponto pesa mais. A briga é recíproca — os dois brigam —, mas a lei passa a tratar um só como "o que o feriu" (Êxodo 21:19). Não pergunta quem provocou, quem insultou primeiro, quem levantou a voz. O texto não diz que a provocação é irrelevante; apenas não a põe entre os elementos do caso. O que importa é quem acertou o golpe e o que o golpe produziu. Os comentaristas clássicos consultados não se detêm nisso, e o silêncio pesa: numa briga em que os dois estavam dispostos a bater, a conta cai inteira sobre quem bateu com mais efeito.
"com uma pedra ou com o punho"
Por que justamente esses dois? Há três leituras.
Primeira leitura: são exemplos de uma escala. Nachmânides propõe que a lei nomeou um golpe duro, o da pedra, e um golpe leve, o do punho, que na maioria das vezes não mata. Entre os dois cabe todo o resto. O sentido é: qualquer que seja a força do golpe, o procedimento é o mesmo — avaliação, prisão do agressor, espera.
Segunda leitura: os dois são armas de improviso. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e a Bíblia de Genebra (a tradução inglesa anotada de 1560) observam que pedra e punho são o que está à mão numa discussão que esquentou, sem preparação. A escolha dos exemplos descreveria uma briga sem premeditação, o que separa este caso do homicídio com "emboscada" (Êxodo 21:13).
Terceira leitura: "punho" não é punho. A palavra hebraica é rara, e uma linha antiga de intérpretes a entende como um torrão, um pedaço de terra dura ou de tijolo, que se pega com a mão fechada. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) traduz por um termo que designa uma pedra ou um caco; Rashbam (comentarista judeu francês do século XII) defende essa leitura com um argumento jurídico: ninguém seria executado por um soco, e a lei está falando de algo capaz de matar. A discussão da palavra fica para o item 10; o que importa aqui é o efeito. Se é punho, a lei admite que um golpe de mão nua pode ser homicídio; se é torrão, a lei fala só de objetos.
A leitura cruzada de Rabi Natan (item 2) torna a disputa menos decisiva: tanto faz o nome do objeto, o que vale é a capacidade dele.
Falta a espada. O versículo não fala de faca, ferro ou lança. Nachmânides, apoiado no Talmude (Sanhedrin 76b), dá a razão: com ferro não é preciso avaliar nada, porque até uma agulha pode matar. A pedra e o punho são os casos em que a dúvida existe, e é a dúvida que o versículo regula.
"e este não morrer"
O caso se define por uma negação. A lei do homicídio já foi dada: "quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto" (Êxodo 21:12). Este versículo pega o mesmo golpe e retira dele a morte. Ferir e matar ficam separados por um único dado, que não depende da vontade do agressor: o corpo do outro resistiu ou não.
O "não morrer" também não é um estado definitivo. O ferido pode morrer amanhã. Por isso o Talmude lê aqui uma primeira avaliação: "não morreu" ainda, e talvez não morra.
"mas cair de cama"
A expressão hebraica é literal: "cair para a cama". O Targum de Ônquelos traduz por "cair na inatividade", e Rashi (o comentarista judeu francês do século XI, o mais lido de todos) explica: uma doença que o impede de trabalhar. A cama aqui não é sintoma, é medida. O que a lei vai cobrar no versículo seguinte é exatamente o tempo de cama, o tempo em que o homem não ganhou o seu sustento.
E o versículo para aí. Ele é todo condição — "se brigarem… e ferir… e não morrer… mas cair de cama" — e não tem sentença. Quem lê o Êxodo 21:18 sozinho fica com um homem na cama e outro à espera. O texto reproduz a situação real das duas famílias: o desfecho depende de um corpo que ainda não decidiu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois homens. O texto não lhes dá nome, idade, condição ou origem. São "homens", israelitas livres, e "próximos" um do outro. Nenhum dos dois é escravo — o caso do escravo ferido pelo próprio senhor vem logo depois (Êxodo 21:20) e tem outra regra. A lei pressupõe uma comunidade pequena, em que quem brigou ontem se encontra amanhã no caminho do poço.
O ferido. É o único dos dois cuja condição o versículo acompanha: não morreu, caiu de cama. No versículo seguinte ele se levanta e anda. O caso inteiro gira em torno do corpo dele.
O agressor. Ainda sem nome jurídico neste versículo; no seguinte, será "o que o feriu". A tradição rabínica o põe na prisão até que se saiba se o ferido vive (Rashi, Talmude Ketubot 33b e Sanhedrin 78b).
Os juízes. Não aparecem no versículo, mas o caso não se resolve sem eles. Alguém tem de verificar a arma, ouvir as testemunhas da briga e decidir quando o ferido está fora de perigo. O mesmo bloco de leis menciona juízes explicitamente no caso da grávida (Êxodo 21:22).
O lugar. Nenhum. A lei é dada no Sinai para uma vida que ainda não começou, a de aldeias e campos em Canaã. A cama, a rua e a pedra do caminho são os cenários implícitos.
5. Pontos de Ensino
A lei separa o golpe do resultado. O mesmo soco, a mesma pedra, pode levar a duas sentenças opostas: a morte do agressor (Êxodo 21:12) ou uma indenização (Êxodo 21:19). O que decide é o que aconteceu ao corpo do ferido. O versículo ensina que a lei olha para o dano real, e não só para a raiva de quem bateu.
A lei exige que se espere. Entre a briga e a sentença há um tempo de cama. Ninguém é condenado por homicídio enquanto o ferido vive, e ninguém é solto enquanto ele corre perigo. A pressa, para um lado ou para o outro, é o que a lei quer evitar.
A arma conta como prova. A tradição de leitura, a partir de Números 35:16-18, fez do objeto usado o principal indício da intenção. A pedra pequena e a pedra grande não são a mesma coisa, e a dúvida sobre a pedra favorece o réu.
A briga não é desculpa. O versículo começa com dois homens que brigam e termina com um que fere. O fato de a discussão ser recíproca não divide a responsabilidade pelo golpe. Quem transformou a discussão em lesão responde por ela.
6. Aspectos Filosóficos
O mesmo golpe pode terminar numa execução ou numa conta a pagar. Se o ferido morre, o caso é de Êxodo 21:12: o agressor responde com a vida, diante da comunidade inteira. Se o ferido sobrevive, o caso é de Êxodo 21:19: o agressor deve ao ferido, e só a ele, o tempo perdido e o tratamento. A pergunta filosófica está nessa passagem de um regime ao outro. O que é a obrigação de reparar, e em que ela difere da punição?
O norte-americano Jules Coleman (nascido em 1947, professor de filosofia do direito em Yale) dedicou a essa pergunta o livro Riscos e danos injustos (1992, publicado em inglês). O ponto de partida dele é que o direito da reparação civil e o direito penal respondem a coisas diferentes. A punição responde a um erro: alguém agiu mal, e a comunidade reage a isso. A reparação responde a uma perda: alguém sofreu um prejuízo que não devia ter sofrido, e esse prejuízo precisa ser desfeito.
Duas versões da reparação
Num primeiro momento, Coleman defendeu o que chamou de tese da anulação. Uma perda injusta deve ser anulada, mas não importa muito quem paga: podia ser o agressor, podia ser um fundo público, podia ser um seguro coletivo. O essencial é que o ferido seja recomposto. A Nova Zelândia, que nos anos 1970 substituiu boa parte das ações por lesão corporal por um fundo estatal de compensação, era o exemplo prático dessa ideia.
Em Riscos e danos injustos, ele mudou de posição. A reparação não é só desfazer uma perda; é um dever que liga duas pessoas determinadas. Quem é responsável por uma perda injusta tem o dever de repará-la, e esse dever é devido à vítima, não à sociedade. Coleman chamou essa versão de concepção mista: ela exige ao mesmo tempo uma perda, um erro de conduta que a produziu e um vínculo de responsabilidade entre quem errou e quem perdeu. A reparação, assim entendida, é uma relação de dois.
Ele ainda admite que uma sociedade possa organizar a compensação de outro modo, por fundos coletivos, sem cometer injustiça. Mas, onde a prática da comunidade é cobrar do responsável, a cobrança tem esse fundamento moral próprio, que não é o da pena.
O que o versículo mostra
A lei do Êxodo tem, em germe, a separação que Coleman descreve. Quando o ferido morre, o caso vai para a esfera da pena, e a comunidade responde ao crime. Quando o ferido vive, o caso vai para a esfera da reparação, e ela é bilateral: o versículo seguinte fala de "o que o feriu" e "lhe pagará", com dois pronomes que ligam um homem ao outro. Nenhum valor vai para um tesouro público; nada é multa ao rei.
E o que Coleman chama de responsabilidade é exatamente o que a Mekhilta e o Talmude tentaram medir quando examinaram a pedra, o alvo e o prognóstico. Não basta haver uma perda: é preciso que ela venha do golpe daquele homem. O vínculo entre o ato e o dano é o centro da questão, nos dois casos.
O limite
A aproximação não deve ir além disso. Coleman escreve sobre sistemas jurídicos modernos, com seguro, Estado e tribunais permanentes, e a sua teoria quer explicar o direito civil de hoje, não a lei de um povo do Bronze ou do Ferro. O Êxodo, por sua vez, não distingue "civil" e "penal" com essas palavras; ele apenas encaminha o mesmo golpe para destinos diferentes conforme o desfecho. O que se pode dizer é que a distinção que a filosofia do direito levou séculos para formular já está operando, sem nome, na passagem de Êxodo 21:18 para Êxodo 21:19.
7. Aplicações Práticas
O versículo trata de uma briga de rua, e a aplicação mais direta é sobre o que vem depois do golpe. A lei não deixa o agressor ir embora para casa como se a discussão tivesse acabado no momento em que ela parou de gritar. Enquanto o outro está de cama, o assunto continua aberto. Quem feriu alguém, de palavra ou de mão, não decide sozinho quando o caso está encerrado; quem decide é o estado de quem foi ferido.
O versículo também desmonta uma desculpa comum: "ele também quis brigar". Pode ser verdade, e o texto não nega que a discussão fosse de dois. Mas a responsabilidade pelo golpe não se divide pela metade porque a provocação foi mútua.
E há uma lição de prudência para quem julga, em qualquer escala — numa família, numa empresa, numa comunidade. Diante de um dano cujo tamanho ainda não se conhece, a decisão precipitada erra para um lado ou para o outro. A lei manda esperar o desfecho antes de dar o veredito.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. E se quem morre é o agressor, atingido pelo revide do ferido?
O versículo não prevê o revide. Ele descreve um golpe e um ferido. Se o ferido, levantando-se, mata o outro, o caso passa a ser de homicídio, e a legítima defesa só cabe enquanto há perigo atual; vingar-se depois é outra coisa. A lei bíblica não trata o revide de briga em nenhum lugar específico, e a tradição rabínica o resolveu caso a caso.
2. Por que a lei fala de pedra e de punho, e não de palavras?
Porque a lei de lesão começa no corpo. A briga começou com palavras — o verbo é o da disputa —, mas a ofensa verbal entre iguais não tem pena neste código. A única palavra punida no capítulo é a maldição contra pai e mãe (Êxodo 21:17).
3. A lei protege também o estrangeiro ferido numa briga?
O versículo diz "homens" e "o seu próximo", palavras que, sozinhas, apontam para o israelita. Mas o mesmo código manda que haja "uma só lei" para o natural e para o estrangeiro em casos de lesão (Levítico 24:22). A extensão é discutida na tradição judaica, que distinguiu entre o estrangeiro residente e o gentio de passagem. O texto de Êxodo 21:18, por si, não resolve.
9. Conexão com Outros Textos
A tabela das armas
Números 35:17 — "Se o ferir com uma pedra na mão, com a qual se possa morrer, e ele morrer, é homicida; o homicida certamente será morto."
Números 35:18 — "Ou, se o ferir com um instrumento de pau na mão, com o qual se possa morrer, e ele morrer, é homicida; o homicida certamente será morto."
A "pedra de mão" é o mesmo tipo de objeto do Êxodo. Aqui está o critério que os rabinos levaram para a briga de Êxodo 21:18: a pedra conta pelo que é capaz de fazer.
A outra briga do capítulo
Êxodo 21:22 — "Se homens lutarem e ferirem uma mulher grávida, e os filhos dela saírem, sem que haja dano, o culpado será multado conforme o que o marido da mulher lhe impuser, e pagará diante dos juízes."
Outro verbo de briga, e outra vítima: aqui um terceiro inocente.
Deuteronômio 25:11 — "Se dois homens estiverem brigando, um com o outro, e a mulher de um deles se aproximar para livrar o marido da mão de quem o está ferindo…"
A briga entre dois homens é um cenário recorrente da lei. Cada caso acrescenta uma variável: a gravidez, a intervenção da esposa, o resultado do golpe.
O punho do profeta
Isaías 58:4 — "Vocês jejuam para brigar e discutir, e para ferir com punho perverso."
É a única outra vez em que a palavra "punho" aparece na Bíblia hebraica. E, de novo, junto com a disputa: o profeta acusa um jejum que acaba em briga e soco.
A lei geral da lesão
Levítico 24:19-20 — "Se alguém causar defeito no seu próximo, como ele fez, assim se lhe fará: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente."
O Levítico enuncia a regra do talião para a lesão. O Êxodo, aqui, mostra o caso em que ela não se aplica ao pé da letra: o ferido se recupera, e o que se paga é tempo e tratamento.
A briga que Moisés presenciou
Êxodo 2:13 — "No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: 'Por que você golpeia o seu companheiro?'"
A cena de rua que a lei regulará décadas depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se homens brigarem, e um ferir o outro com uma pedra ou com o punho, e este não morrer, mas cair de cama,
Texto hebraico
וְכִֽי־יְרִיבֻ֣ן אֲנָשִׁ֔ים וְהִכָּה־אִישׁ֙ אֶת־רֵעֵ֔הוּ בְּאֶ֖בֶן א֣וֹ בְאֶגְרֹ֑ף וְלֹ֥א יָמ֖וּת וְנָפַ֥ל לְמִשְׁכָּֽב׃
Transliteração
ve-khi-yerivun anashim ve-hikkah-ish et-re'ehu be-even o ve-egrof ve-lo yamut ve-nafal le-mishkav.
Análise palavra por palavra
וְכִי — ve-khi, "e se".
Abre um caso novo. A variação dentro dele, no versículo seguinte, virá com o outro "se" do hebraico, im.
יְרִיבֻן — yerivun, "brigarem".
Do verbo riv, no imperfeito, terceira pessoa do plural, com um nun final acrescentado, terminação antiga que dá peso à forma. O campo de riv — da discussão de pastores ao processo diante do juiz — já foi traçado no estudo de Gênesis 31:36. Neste versículo ele se opõe a outro verbo de briga, o de Êxodo 21:22, que é recíproco e físico. Riv começa na boca.
אֲנָשִׁים — anashim, "homens".
Plural de ish. A Mekhilta estende a lei às mulheres (item 3).
וְהִכָּה — ve-hikkah, "e ferir".
Do verbo nakhah, no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico), "golpear". É o verbo de todo o bloco de lesões e mortes do capítulo (Êxodo 21:12, 15, 19, 20, 26). O mesmo verbo serve para o golpe que mata e para o que só fere; o resultado é dito por outras palavras.
אִישׁ אֶת־רֵעֵהוּ — ish et-re'ehu, "um homem o seu próximo".
A construção distributiva "um… o seu próximo" é o modo hebraico de dizer "um ao outro". Re'a é o vizinho, o companheiro, o outro com quem se convive.
בְּאֶבֶן — be-even, "com uma pedra".
אוֹ בְאֶגְרֹף — o ve-egrof, "ou com o punho".
Egrof aparece só duas vezes na Bíblia hebraica: aqui e em Isaías 58:4 ("ferir com punho perverso"). Por isso o sentido foi disputado desde cedo. Há duas explicações.
A primeira liga a palavra ao hebraico rabínico, onde egrof é a mão fechada para bater, e onde os homens violentos são chamados "donos de punhos". É a leitura de Nachmânides, que cita esses usos, e de Saadia Gaon (o grande sábio judeu do Egito e da Babilônia, século X), para quem a palavra indica algo duro e forte.
A segunda trata o alef inicial como letra que não pertence à raiz, como em outras palavras hebraicas, e liga egrof ao verbo garaf, "arrastar, varrer" (Juízes 5:21), e a megrafot, "torrões" (Joel 1:17). Egrof seria então um torrão de terra ou um pedaço de pedra arrastado com a mão. Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) registra essa derivação em nome de um gramático anterior e diz que o árabe tem o mesmo sentido; o Targum de Ônquelos traduz por khurmeiza, um caco ou pedaço de pedra; Rashbam e Chizkuni (comentaristas judeus franceses dos séculos XII e XIII) seguem o Targum.
A Septuaginta escolhe "punho" (pygmē), e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400), também (pugnus). A maioria das traduções modernas acompanha as duas.
וְלֹא יָמוּת — ve-lo yamut, "e não morrer".
O mesmo verbo mut da fórmula de pena de morte de Êxodo 21:12, agora negado e aplicado à vítima.
וְנָפַל לְמִשְׁכָּב — ve-nafal le-mishkav, "e cair de cama".
Nafal é "cair"; le-mishkav, "para a cama", da raiz shakhav, "deitar-se". A expressão "cair para a cama" descreve o ferido que é obrigado a deitar-se e não se levanta por si. O Targum traduz "cair na inatividade" (le-vutlan), e a escolha prepara o pagamento do versículo seguinte: o que se perde na cama é trabalho.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o Êxodo 21:18 regula uma incerteza, e não um crime. O golpe já foi dado, mas ainda não tem nome: pode vir a ser homicídio, pode ficar em lesão. A lei responde com um procedimento — examinar a arma, avaliar o ferido, segurar o agressor — antes de responder com uma sentença.
A segunda é que a responsabilidade se mede pelo ato e pelo dano, não pela provocação. A briga era de dois; o golpe é de um. O texto não reparte a culpa entre os dois brigões.
A terceira é que a lei, já aqui, distingue duas respostas ao mesmo gesto: a pena, quando há morte, e a reparação, quando há sobrevivência. O que separa as duas não é a intenção de quem bateu, e sim o corpo de quem apanhou — e é por isso que a tradição gastou tanto esforço em avaliar o ferido e o objeto, para que a sorte do desfecho não fosse o único juiz.













