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Êxodo 2:13

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 31 acessos
No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: “Por que você golpeia o seu companheiro?”
Dois trabalhadores hebreus agarrados numa briga à beira de um canteiro no Egito, e um terceiro homem aproximando-se com a mão erguida, falando com um deles.

Estudo


No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: “Por que você golpeia o seu companheiro?”

1. Introdução

No segundo dia a cena se repete com uma diferença que muda tudo: agora os dois homens brigando são hebreus.

Moisés sai de novo, com o mesmo verbo do versículo 11, e o texto não diz por que ele voltou ao mesmo lugar um dia depois de ter matado um homem ali.

E aqui ele fala. São as primeiras palavras de Moisés em toda a Bíblia, e são uma pergunta — não uma ordem, não uma ameaça, não um golpe. No dia anterior ele agira sem dizer nada; hoje diz e não age.

Duas escolhas de palavra armam o versículo seguinte, e o item 3 as trata em detalhe.

A primeira é o modo como o texto identifica o interlocutor. A nossa versão traz “o que estava errado”; o hebraico usa a palavra com que um tribunal designa a parte culpada. Antes de abrir a boca, Moisés já separou os dois e decidiu de quem era a culpa.

A segunda é a palavra com que ele chama o agredido: “companheiro”. É o termo do próximo, o mesmo que a lei de Israel vai empregar no mandamento de amar e no dever de repreender. Moisés não pergunta por que ele bate num homem — pergunta por que ele bate no seu.

E o verbo de bater volta pela terceira vez em três versículos, agora na boca de Moisés e dirigido a um hebreu.

2. Contexto Histórico e Cultural

A briga entre dois homens era uma categoria jurídica

O que o versículo mostra parece um caso qualquer de rua. No Antigo Oriente não era: a briga entre dois homens tinha nome, tinha regras e tinha tarifa.

Os códigos mesopotâmicos tratam do assunto com detalhe: fixam o que se paga quando um homem fere outro numa altercação, distinguem a lesão que passa da que deixa sequela, e mandam o agressor arcar com o tratamento e com os dias de trabalho perdidos. O ponto é que a rixa era matéria de direito, não de moral privada.

A lei de Israel vai fazer o mesmo. Êxodo 21:18-19 legisla a cena, com outro verbo, o da disputa: dois homens que se travam de razões, um fere o outro, o ferido cai de cama e não morre — e o agressor paga o tempo perdido e a cura. O verbo deste versículo, o de homens que se engalfinham, é o que abre Êxodo 21:22 e Deuteronômio 25:11.

Quem resolvia isso, e o problema que este versículo tem

No mundo daquele tempo, uma disputa entre membros de um mesmo grupo era resolvida internamente: os anciãos do lugar se reuniam à porta da povoação, ouviam as partes e decidiam. Não era preciso recorrer ao poder do rei para uma rixa entre vizinhos.

O problema é que este versículo se passa entre pessoas que não têm nada disso — e o estudo de Êxodo 2:14 é o dono desse assunto, porque é lá que a falta de instância é posta em palavras. Aqui basta reter que não havia, na cena, ninguém a quem os dois homens pudessem levar a questão.

A diferença entre o primeiro dia e o segundo

Do ponto de vista jurídico antigo, as duas cenas são de naturezas diferentes. Uma agressão vinda de fora do grupo não tinha foro nenhum a que recorrer; uma briga interna, em circunstâncias normais, tinha — e essas circunstâncias normais é que faltavam.

É por isso que o gesto de Moisés — chegar, apontar o culpado e perguntar — ocupa um lugar vazio, e não um lugar que já tivesse dono. O Êxodo não faz esse comentário; ele decorre do que se sabe do direito da época.

3. Análise Teológica do Versículo

“No dia seguinte saiu de novo”

Duas informações discretas e nenhuma explicação.

A primeira é o tempo. “No dia seguinte” é o marcador mais preciso de todo o capítulo — em torno dele há “três meses”, “naqueles dias” e “muito tempo depois”, todos vagos.

A segunda é o verbo: o mesmo “saiu” de Êxodo 2:11, repetido dois versículos adiante. O texto trata a saída como coisa que se repete.

E não diz por quê. Note-se o que a frase implica sem afirmar: no dia anterior, naquele mesmo lugar, Moisés matou um homem e escondeu o corpo. Vinte e quatro horas depois ele está de volta. O Êxodo não comenta o risco e não diz o que ele foi fazer lá. Diz que saiu.

“e havia dois hebreus brigando”

O hebraico abre com a partícula que corresponde a “eis que”: o leitor vê a cena no instante em que Moisés a vê. Não há transição, não há aproximação descrita; a briga simplesmente está ali.

A mudança em relação à véspera é o assunto do versículo. Ontem, um egípcio batia num hebreu; hoje, dois hebreus brigam entre si. A moldura é a mesma — alguém batendo, alguém apanhando, Moisés olhando —, e as pessoas trocaram de posição.

O texto não sublinha isso. Não escreve “e desta vez eram os seus próprios irmãos”, não faz Moisés se surpreender, não emite juízo sobre a briga. Põe a segunda cena ao lado da primeira e deixa que a comparação se faça sozinha. Também não informa o que motivou a briga, se era grave, se alguém ficou ferido, se havia mais gente por perto.

“Ele disse ao que estava errado”

Aqui está o achado do versículo, e ele está numa palavra só.

A expressão hebraica que a nossa versão traduz por “o que estava errado” é ha-rasha (“o culpado”, “o ímpio” — o contrário exato de “justo”). Não é palavra descritiva de briga: é palavra de tribunal, a mesma que Deuteronômio 25:1 emprega quando os juízes justificam o inocente e condenam o culpado.

Duas consequências, e as duas importam.

A primeira é sobre Moisés. Antes de dizer qualquer coisa, ele olhou uma briga entre dois desconhecidos, decidiu qual dos dois estava errado e dirigiu-se só a ele. Isso é o que um juiz faz — e o texto não conta como ele chegou à conclusão: não menciona pergunta, testemunha nem ouvida das partes.

A segunda é sobre o próprio Êxodo, e é mais surpreendente. Quem chama o homem de culpado é o texto, e não Moisés — a frase diz que ele falou ao culpado. O Êxodo, que não qualificou o egípcio de Êxodo 2:11, não qualificou o ato de Moisés em Êxodo 2:12 e não vai qualificar ninguém no versículo seguinte, aplica aqui a única palavra moral do bloco inteiro, e a aplica a um hebreu.

Não se deve tirar disso mais do que há: o texto simplesmente adota a mesma designação, sem dizer que Moisés acertou. Mas a assimetria é real e está no vocabulário.

“Por que você golpeia o seu companheiro?”

As primeiras palavras de Moisés na Bíblia, e são uma pergunta.

Repare no contraste com a véspera, porque ele é do texto. No dia anterior, Moisés viu, virou-se, golpeou e escondeu: quatro ações e nenhuma palavra. Hoje, ele fala e não faz nada — e o Êxodo registra as duas intervenções sem preferir nenhuma.

O verbo é o mesmo das duas cenas anteriores, o de desferir golpe, aqui na segunda pessoa: por que você bate. É a terceira ocorrência em três versículos, e a única em que aparece como acusação. O item 10 de Êxodo 2:11 traça o percurso completo.

E há a última palavra da frase, que é a mais carregada: “companheiro”. O hebraico usa o termo do próximo, do vizinho, daquele com quem se convive — a mesma palavra de “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, em Levítico 19:18, e do dever de repreensão de Levítico 19:17.

É a palavra que define a acusação. Moisés não pergunta por que ele bate num homem; pergunta por que ele bate no seu. O que está sendo violado, na formulação dele, não é a integridade de uma pessoa qualquer — é uma relação.

O que o versículo deixa em aberto

Não diz por que Moisés voltou, nem como soube quem estava errado, nem do que era a briga, nem o que ele esperava conseguir com a pergunta.

E não diz nada sobre a autoridade dele para estar ali fazendo aquilo. Essa é a pergunta que falta — e é exatamente ela que a outra parte vai fazer, na primeira palavra do versículo seguinte.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Fala pela primeira vez na Bíblia. Até aqui ele era um personagem descrito de fora — cresceu, saiu, viu, golpeou, escondeu, saiu de novo —, e agora tem voz.

O que ele diz cabe numa linha e é uma pergunta. Não há ordem nem ameaça: ele não diz quem é, não invoca posição nenhuma, não explica por que está falando.

Os dois hebreus

Anônimos, como todo mundo neste capítulo fora Moisés. O texto informa apenas que eram dois, que eram hebreus e que brigavam.

A tradição judaica os identificou com Datã e Abirão, os dois homens que se rebelam contra Moisés muito depois, em Números 16, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) registra essa identificação no seu comentário. Ela é engenhosa e não tem base nenhuma no texto: o Êxodo não dá nome a nenhum dos dois, aqui nem depois.

Um deles é chamado, pelo próprio texto, de culpado. O outro é chamado, pela boca de Moisés, de companheiro do primeiro. São todas as informações que existem sobre eles.

O lugar e o tempo

O lugar continua sem nome. Sabe-se que Moisés “saiu” para chegar até lá, e que é o mesmo do dia anterior ou muito perto dele — o texto não o afirma, mas a sequência dos dois dias e a repetição do verbo tornam a hipótese quase inevitável.

“No dia seguinte” é a única marcação precisa do capítulo. Tudo o que acontece entre Êxodo 2:11 e Êxodo 2:15 — o olhar, a morte, o corpo escondido, a briga, a pergunta, a resposta, o medo e a fuga — cabe, pelo que o texto diz, em dois dias.

5. Pontos de Ensino

A repreensão foi dirigida a um só

Moisés não chega dizendo “parem os dois”: identifica de quem é a culpa e fala com esse. É o que distingue repreender de apaziguar — quem manda os dois pararem trata a briga como problema de barulho; quem fala com um a trata como problema de conduta. O texto mostra Moisés fazendo a segunda coisa e não diz se ele acertou o alvo.

A palavra que ele escolheu para o agredido

“Companheiro” faz um trabalho que “homem” não faria. Ao nomear a relação entre os dois, a pergunta deixa de ser sobre um golpe e passa a ser sobre uma quebra — o mesmo movimento que a lei de Israel fará depois, ao ordenar que se repreenda o próximo em vez de guardar ódio no coração.

Uma única palavra de julgamento em todo o bloco, e ela cai dentro de casa

Quatro versículos sem qualificar ninguém — nem o egípcio que batia, nem o próprio Moisés — e a única qualificação que aparece é aplicada a um hebreu.

Não é um ponto de moral, e não convém transformá-lo num. É um ponto sobre como o texto trabalha: ele reserva o vocabulário do certo e do errado, e quando o usa, usa para dentro.

Voltar ao mesmo lugar

O detalhe mais discreto do versículo é que Moisés voltou. Um dia depois de matar um homem naquele lugar, ele está lá de novo — e o Êxodo não diz se foi coragem, hábito, descuido ou necessidade, nem trata a volta como imprudência.

6. Aspectos Filosóficos

A repreensão vale pelo que diz ou por quem a diz?

A pergunta de Moisés é boa. “Por que você golpeia o seu companheiro?” é exata: identifica o agressor, nomeia a relação violada e não acrescenta nada.

Só que quem a faz matou um homem no dia anterior, e por um golpe da mesma natureza. O versículo não menciona isso — mas o leitor acabou de ler, e o versículo seguinte vai mostrar que o interlocutor também sabe.

Estão aí, misturadas, duas coisas que se separam mal na prática e bem no raciocínio. Uma é o conteúdo do que se diz: bater no companheiro é errado, e isso não depende de quem esteja falando. A outra é a posição de quem fala: um homem sem cargo, sem mandato e com um cadáver escondido na areia dificilmente será ouvido.

A confusão entre as duas é o mecanismo mais comum de toda discussão. Quem responde a uma crítica atacando a conduta de quem criticou está mudando de assunto — o argumento continua de pé.

E, no entanto, a posição também conta

Seria fácil parar aí e sair com uma regra limpa — julgue o argumento, ignore quem fala. A cena não permite tanto.

Repreender não é só afirmar uma verdade: é ocupar um lugar diante de outra pessoa, e esse lugar precisa vir da função, da confiança ou da relação. Uma frase verdadeira dita por quem não o tem continua verdadeira e não faz efeito nenhum, ou faz o efeito contrário.

Moisés tem razão e não tem posição. As duas coisas ao mesmo tempo, e é a segunda que o versículo seguinte vai atacar — ninguém, em todo o episódio, chega a dizer que bater no companheiro seja aceitável.

O Êxodo não levanta nada disso: escreve os dois dias na ordem em que aconteceram, e a tensão aparece porque um leitor não esquece o que leu quinze palavras antes. Não é possível afirmar que a sequência foi montada para produzir esse efeito; o que se pode dizer é que ela o produz.

7. Aplicações Práticas

Falar com um, não com os dois

Quem chega numa desavença e manda os dois lados pararem está optando por acabar com o barulho. É legítimo e às vezes é tudo o que dá para fazer — mas não é o que Moisés faz.

Ele identifica quem está errado e fala com esse. A aplicação é direta para quem tem de intervir em conflitos alheios, em casa ou no trabalho: tratar as duas partes como equivalentes, quando elas não são, é injustiça disfarçada de equilíbrio.

A ressalva também é do texto: o Êxodo não conta como Moisés chegou àquela conclusão. Distinguir exige saber, e saber exige ouvir — coisa que o versículo não mostra ele fazendo.

Perguntar em vez de golpear

A mudança de método entre um dia e outro é o dado mais aproveitável do versículo, e não precisa de moral acrescentada. No primeiro dia a intervenção foi irreversível e produziu um cadáver e uma fuga; no segundo foi uma pergunta, que abriu uma conversa — a qual terminou mal, mas terminou em palavras.

Sobre ser respondido com o próprio passado

Quem corrige alguém deve contar com isto: a resposta virá em cima de quem falou, e não do que foi falado. É a reação mais comum que existe, e o que se pode fazer são duas coisas ao mesmo tempo — reconhecer que o próprio histórico limita o alcance da correção, e não desistir do conteúdo por causa disso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem eram os dois homens?

O Êxodo não diz. São dois hebreus, sem nome, sem idade e sem história.

A tradição judaica os identificou com Datã e Abirão, que aparecem muito depois, em Números 16, encabeçando uma revolta contra Moisés. A identificação é antiga e engenhosa — explicaria por que aqueles dois teriam, mais tarde, tanta raiva de Moisés —, e não tem apoio nenhum no texto.

Por que Moisés voltou ao mesmo lugar?

O texto não explica, e a pergunta é boa justamente porque ele não explica. Um dia antes, ali, ele matou um homem e enterrou o corpo.

Todas as respostas possíveis — que ele se sentia seguro, que precisava saber se alguém descobrira, que ia continuar o que começara — são conjeturas. O Êxodo escreve “saiu de novo” e segue.

Como ele sabia qual dos dois estava errado?

Não se sabe. O texto não menciona nenhuma investigação: nem pergunta, nem testemunha, nem versão das partes. Mostra só o resultado — Moisés falou com um deles, e o próprio texto chama esse de culpado. Se a avaliação veio da cena que ele viu, se havia contexto que o relato não conta, ou se ele simplesmente supôs, não é possível decidir.

Ele tinha o direito de se meter?

Essa é a pergunta do versículo seguinte, e é bom que fique aqui sem resposta. Vale só antecipar o que o item 2 mostrou: uma população em trabalho forçado num país estrangeiro não tinha instância própria para resolver esse tipo de briga. O lugar que Moisés ocupa ao intervir estava vazio — o que não significa que fosse dele.

O Êxodo aprova o que Moisés diz aqui?

Não diz que aprova, e há um indício que aponta nessa direção sem afirmar nada: o próprio texto usa, para designar o interlocutor, a mesma palavra de culpa que a avaliação de Moisés pressupõe. É indício, não declaração — o Êxodo continua sem emitir parecer sobre Moisés, nem aqui, nem no versículo anterior, nem no seguinte.

9. Conexão com Outros Textos

A palavra de tribunal, no seu uso próprio

Deuteronômio 25:1 — “Se houver contenda entre alguns, e vierem a juízo, e os juízes os julgarem, justificarão o inocente e condenarão o culpado.”

“Culpado”, aqui, é a mesma palavra hebraica com que Êxodo 2:13 designa o interlocutor de Moisés — e a passagem mostra o lugar natural do termo: a sentença de um tribunal, depois de as partes serem ouvidas.

A lei que vai regular exatamente esta cena

Êxodo 21:18-19 — “Se homens brigarem, e um ferir o outro com uma pedra ou com o punho, e este não morrer, mas cair de cama, se ele se levantar e andar fora, apoiado no seu bordão, o que o feriu será absolvido; somente lhe pagará o tempo perdido e cuidará de que ele fique curado.”

Dois homens brigando, um ferindo o outro: é o caso deste versículo, com o verbo de golpear e a expressão de briga que o hebraico usa aqui. Dezenove capítulos adiante, o homem que fez a pergunta entrega a norma.

O dever de repreender, e a palavra “companheiro”

Levítico 19:17-18 — “Não aborrecerás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo e não levarás sobre ti pecado por causa dele. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

A palavra traduzida por “próximo” nestes dois versículos é a mesma que Moisés emprega em “o seu companheiro”. A lei ordenará repreender o próximo, e é o que Moisés está fazendo — sem que a lei exista ainda, e sem que ninguém lhe tenha dado a incumbência.

A versão de Estêvão, com uma frase a mais

Atos 7:26 — “E no dia seguinte, pelejando eles, foi por eles visto, e quis levá-los à paz, dizendo: Varões, sois irmãos; por que vos agravais um ao outro?”

O resumo é fiel no essencial e acrescenta duas coisas que o Êxodo não tem: a intenção — “quis levá-los à paz” — e a frase “sois irmãos”, que muda o sentido da repreensão. Há ainda uma diferença de alvo: em Atos ele se dirige aos dois; no Êxodo, apenas ao culpado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: “Por que você golpeia o seu companheiro?”

Texto hebraico

וַיֵּצֵא֙ בַּיּ֣וֹם הַשֵּׁנִ֔י וְהִנֵּ֛ה שְׁנֵֽי־אֲנָשִׁ֥ים עִבְרִ֖ים נִצִּ֑ים וַיֹּ֙אמֶר֙ לָֽרָשָׁ֔ע לָ֥מָּה תַכֶּ֖ה רֵעֶֽךָ׃

Transliteração

vayyetsé bayyóm hashení ve-hinnéh shenéi-anashím ivrím nitsím vayyómer la-rashá lámmah takkéh re'écha

Análise palavra por palavra

וַיֵּצֵא בַּיּוֹם הַשֵּׁנִי · vayyetsé bayyóm hashení — “e saiu no dia segundo”

O mesmo verbo yatsa de Êxodo 2:11, na mesma forma; o estudo daquele versículo trata do peso dessa raiz no livro. Bayyóm hashení é “no dia o segundo”, com artigo nos dois termos, como o hebraico exige: significa o dia seguinte àquele, e não “o segundo dia” de uma contagem qualquer.

וְהִנֵּה · ve-hinnéh — “e eis que”

Partícula de apresentação. Ela não acrescenta informação: acrescenta ponto de vista — põe o leitor dentro dos olhos do personagem no instante em que ele vê. Não há aproximação narrada, não há caminho descrito: a cena aparece.

שְׁנֵי־אֲנָשִׁים עִבְרִים · shenéi-anashím ivrím — “dois homens hebreus”

Anashím é o plural de ish, homem — a mesma palavra que aparece duas vezes em Êxodo 2:11 e uma vez, na negativa, em Êxodo 2:12. Ivrím é o plural do adjetivo de povo, tratado nos estudos de Gênesis 14:13 e Êxodo 1:15.

A construção é idêntica à do versículo 11: homem mais adjetivo de povo. O texto muda a nacionalidade e conserva a fórmula.

נִצִּים · nitsím — “brigando”

Particípio plural da raiz natsah no Niphal — a conjugação em que o verbo hebraico costuma exprimir ação recíproca; aqui, brigar um com o outro.

É palavra pouco frequente, e o interessante é onde ela aparece: em Êxodo 21:22 e Deuteronômio 25:11, nas leis sobre rixas; em Levítico 24:10, na contenda dentro do acampamento entre um homem de Israel e o filho de pai egípcio; e em 2 Samuel 14:6, na história inventada pela mulher de Tecoa. Esta raiz nomeia a briga entre dois homens do mesmo grupo, e é o termo com que a legislação de Israel abre o caso. O particípio indica ação em curso: eles estavam brigando quando Moisés chegou.

לָרָשָׁע · la-rashá — “ao culpado”

A preposição le, “a”, com artigo, mais o substantivo rasha.

Esta é a palavra decisiva do versículo. Rasha é o oposto exato de tsadiq, o justo: designa o ímpio, o culpado. É abundante nos Salmos e em Provérbios como categoria moral — e é também, e isso é o que interessa aqui, termo processual: Deuteronômio 25:1 o usa no lugar próprio, quando os juízes “justificarão o inocente e condenarão o rasha”, e o verbo formado sobre a mesma raiz significa declarar culpado.

Duas observações sobre a frase. O hebraico não diz “disse ao homem que estava errado”; diz “disse ao culpado”, com artigo — é designação, não descrição. E, o que costuma passar despercebido, quem usa a palavra é o texto, não Moisés: a fala dele começa depois, em “por que”. É a única qualificação moral em todo o trecho que vai de Êxodo 2:11 a Êxodo 2:14.

A tradução ABC pôs “o que estava errado” em vez de “o culpado” ou “o ímpio”, e a escolha é nossa: “ímpio” carrega em português um peso religioso que a cena não tem, e “culpado” soaria como se houvesse processo. “Errado” fica mais perto do uso, ao custo de perder o eco jurídico — que fica registrado aqui.

לָמָּה תַכֶּה רֵעֶךָ · lámmah takkéh re'échá — “por que bates no teu companheiro?”

Lámmah é o interrogativo “por quê”.

Takkéh é a raiz nakah outra vez, no Hiphil, segunda pessoa masculina do singular. É a terceira ocorrência em três versículos, e o percurso completo está no estudo de Êxodo 2:11.

O que é próprio daqui é a pessoa do verbo: nas duas primeiras vezes o texto descrevia alguém batendo; agora a palavra é dirigida a quem bate. Deixou de ser relato e virou acusação.

Re'échá: o substantivo rea — companheiro, vizinho, próximo, aquele com quem se convive — com sufixo de segunda pessoa masculina do singular.

É palavra de grande alcance no Antigo Testamento: está nos mandamentos que proíbem o falso testemunho e a cobiça contra o próximo, e está em Levítico 19:17-18, no dever de repreendê-lo e no mandamento de amá-lo como a si mesmo.

A escolha muda a frase. Moisés não pergunta por que ele bate num homem: pergunta por que ele bate no seu — e o possessivo é do hebraico, não da tradução.

11. Conclusão

Do que foi examinado neste versículo decorrem quatro conclusões.

A primeira: a mesma cena, com os papéis trocados. Um dia depois de ver um de fora batendo num de dentro, Moisés vê dois de dentro batendo um no outro. O Êxodo põe as duas cenas lado a lado e não comenta a passagem de uma para a outra — mas é a segunda que produz a rejeição, e não a primeira.

A segunda: Moisés julga antes de falar. Ele separa os dois, decide de quem é a culpa e se dirige só a esse. É procedimento de juiz, feito sem investigação narrada e sem cargo nenhum — e é precisamente isso que o interlocutor vai apontar no versículo seguinte.

A terceira: a única palavra de julgamento do bloco cai sobre um hebreu, e quem a usa é o texto. Nem o egípcio agressor, nem Moisés matando, nem Moisés escondendo o corpo receberam qualificação alguma. O homem que briga com o companheiro recebe.

A quarta: a intervenção mudou de natureza e o vocabulário não mudou. Ontem Moisés golpeou; hoje pergunta. Mas o verbo do golpe é o mesmo nas duas cenas, e agora está na boca dele: a pergunta “por que você bate?” é feita com a palavra exata que descreve o que ele próprio fez na véspera. O texto não aponta a coincidência — o homem do versículo seguinte aponta.

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