se ele se levantar e andar fora, apoiado no seu bordão, o que o feriu será absolvido; somente lhe pagará o tempo perdido e cuidará de que ele fique curado.
1. Introdução
O ferido do versículo anterior se levanta e sai à rua, apoiado num bordão, e com isso o agressor escapa da acusação de homicídio. Escapa, mas não sai de mãos vazias: paga os dias em que o outro não trabalhou e paga o tratamento até a cura. São duas linhas, e delas a tradição rabínica tirou um sistema inteiro de indenização por lesão corporal, com cinco parcelas e tabelas para cada uma. O versículo também foi lido como licença para a medicina, e discutiu-se até o sentido de "bordão": um cajado de verdade ou a força das próprias pernas.
2. Contexto Histórico e Cultural
As cinco reparações
O versículo nomeia duas coisas a pagar: o tempo perdido e a cura. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Bava Kamma ("A primeira porta", sobre danos), capítulo 8, abre com uma lista maior: quem fere outro paga cinco coisas. O dano, a dor, o tratamento, o tempo perdido e a vergonha. O texto está na folha 83b do Talmude Babilônico, que comenta essa Mishná, e a mesma lista aparece no Targum de Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica da Torá, cheia de acréscimos explicativos), que a escreve dentro do próprio versículo: o agressor pagará "a interrupção do trabalho, a dor, o dano e a vergonha, e o salário do médico, até que ele se cure".
A Mishná explica como se calcula cada parcela, e os critérios são concretos.
O dano. Se alguém cegou um olho, cortou uma mão ou quebrou uma perna, o tribunal avalia o ferido "como se fosse um escravo vendido no mercado": quanto ele valeria antes do ferimento e quanto vale depois. A diferença é o que se paga. A conta da lesão do homem livre é feita pela tabela de preço do escravo — o mercado de gente que os versículos seguintes do capítulo pressupõem servia de régua para medir o corpo de todos.
A dor. Se alguém queimou outro com um espeto ou um prego quente, mesmo na unha, onde não fica marca que diminua o valor, avalia-se quanto uma pessoa com a mesma sensibilidade aceitaria receber para sofrer aquela dor.
O tratamento. O agressor paga o médico. Se surgirem feridas por causa do golpe, ele paga também; se forem de outra causa, não.
O tempo perdido. O ferido é avaliado "como se fosse um vigia de pepinos" — o guarda de plantação, trabalho que qualquer um faz, mesmo sem uma mão. Paga-se o salário desse vigia pelos dias de cama, e não o salário da profissão do ferido.
A vergonha. Depende de quem humilha e de quem é humilhado. O desenvolvimento dessa parcela fica com o estudo de Êxodo 21:25.
Por que o vigia de pepinos
O critério do tempo perdido parece injusto, e o próprio Talmude levanta a objeção (Bava Kamma 85b). Um carregador de água ou um mensageiro ganharia mais do que um vigia de plantação; pagar pelo menor salário não lesa o ferido? A resposta é que não: o que ele perdeu de capacidade profissional já foi pago na parcela do dano, quando se calculou o valor da mão ou da perna. Pagar de novo o salário pleno seria cobrar duas vezes a mesma perda. Rava acrescenta uma graduação: quem perdeu a perna é avaliado como vigia de portão, que nem andar pela plantação precisa; quem perdeu a vista, como quem mói no moinho, trabalho que um cego consegue fazer.
A mesma folha mostra que as cinco parcelas são independentes. Há casos em que só uma delas existe. Só a dor: a queimadura na unha. Só o tratamento: alguém aplicou num doente um remédio forte que lhe embranqueceu a pele, e tem de pagar outro remédio para devolver a cor. Só o tempo perdido: alguém trancou outro num quarto e o impediu de trabalhar, sem tocá-lo. Só a vergonha: alguém cuspiu no rosto de outro.
De onde vêm as três parcelas que o versículo não nomeia
Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) diz com franqueza que o dano, a dor e a vergonha não estão no versículo: os rabinos as receberam por tradição, como receberam os onze ingredientes do incenso quando a Torá lista só alguns. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 6, tenta ancorá-las no texto: o agressor fica "absolvido" da morte, mas "somente" — e a palavra restringe — paga o tempo e a cura "além do que paga pelo dano" aos membros. As duas posições convivem na tradição: a lista é maior do que o versículo, e os mestres sabiam disso.
3. Análise Teológica do Versículo
"se ele se levantar e andar fora"
Levantar-se não basta; é preciso sair. A Mekhilta lê as duas exigências separadamente: "andar" sozinho poderia ser dentro de casa, e o versículo diz "fora"; "fora" sozinho poderia incluir quem sai à rua mas continua definhando, e o versículo diz "se levantar". Nachmânides (Ramban, comentarista judeu catalão do século XIII) traduz o critério em termos de vida comum: o ferido que sai à rua e volta para casa sem ter de deitar-se de novo está fora de perigo. Quem só anda pelo quarto, apoiado, e morre depois, não livra o agressor.
O critério é público. A prova de que o perigo passou não é um laudo, é o próprio ferido visto andando na rua pela vizinhança.
"apoiado no seu bordão"
O que é esse bordão? Duas leituras disputam a palavra.
Primeira leitura: o bordão é figura, e significa "a sua própria força". A Mekhilta registra que esta é uma das três passagens da Torá que Rabi Ishmael explicava como imagem, e não ao pé da letra. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) traduz "sobre a sua saúde", e Rashi (comentarista judeu francês do século XI) segue: "no seu vigor de antes". Ibn Ezra dá uma versão intermediária: o ferido se apoia em si mesmo, e não nos outros, como fazem os doentes que precisam ser amparados. Nessa leitura, um homem que anda de bengala ainda não está curado.
Segunda leitura: o bordão é bordão. Nachmânides defende o sentido literal com os outros usos da palavra — os velhos de Jerusalém, "cada um com o seu bordão na mão, por causa da idade" (Zacarias 8:4), e o Egito como "bordão de cana quebrada" (2 Reis 18:21). O ferido pode estar fraco e precisar de apoio; o que importa é que saiu de casa por conta própria. A Septuaginta ("sobre um bastão") e a Vulgata ("sobre o seu bastão") também traduzem pelo objeto, e a Cambridge Bible (série de comentários da universidade inglesa) chama o bordão de "prova de convalescença".
A diferença tem consequência. Na primeira leitura, a exigência é a cura completa; na segunda, basta a recuperação parcial, desde que o homem esteja de pé e fora de perigo. Nachmânides acaba conciliando as duas: tudo isso é linguagem que descreve o modo comum de as pessoas se comportarem, e a regra de fundo é que o ferido tenha sido avaliado como alguém que vai viver. Não é possível decidir pela letra; o hebraico admite as duas.
"o que o feriu será absolvido"
Absolvido de quê? A pergunta é do Talmude (Ketubot 33b e Sanhedrin 78b), e é engenhosa: passaria pela cabeça de alguém que o ferido anda pela praça e o agressor é executado como homicida? Se não passaria, o versículo não precisava dizer que ele é absolvido. A resposta dos rabinos: o versículo diz isso porque até então o agressor estava preso. "Absolvido" é "solto". Enquanto o ferido não se levanta, quem bateu fica detido, à espera do desfecho. Ibn Ezra resume: "soltam-no da prisão".
A leitura moderna mais comum é outra. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem "absolvido" como livre da acusação de homicídio: se o ferido morrer mais tarde, depois de ter andado na rua, o agressor não responde pela morte. O Targum de Pseudo-Jônatas já explicitava: "absolvido da pena de morte". A Cambridge Bible dá a razão prática: uma vez de pé, o ferido pode ter sofrido outro acidente, e a morte já não se liga com segurança ao golpe.
As duas leituras não se excluem. A primeira descreve o que acontecia enquanto se esperava; a segunda, o efeito jurídico do momento em que a espera acaba.
"somente lhe pagará o tempo perdido"
"Somente" corta duas coisas. Corta a pena de morte, que fica afastada. E corta o talião. A Mekhilta abre a sua seção sobre estes versículos com essa pergunta: se a Torá já diz "olho por olho, dente por dente" (Êxodo 21:24), para que este trecho? Porque o talião fala do membro perdido, e não diz nada sobre os dias de cama nem sobre o médico. Este versículo existe para cobrir o que o talião não cobre.
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX, editor de um comentário bíblico em vários volumes) dá outra razão para o talião ficar fora: devolver o mesmo golpe ao agressor poderia matá-lo, e a punição passaria a ser maior que o crime. A ferida não tem medida exata, e o golpe de volta também não teria.
O que se paga é o tempo, e não o golpe. A lei não fixa preço para a agressão em si; ela olha para o que a vítima perdeu. Um soco que deixa alguém dez dias de cama custa mais que o mesmo soco que deixa dois.
"e cuidará de que ele fique curado"
O hebraico dobra o verbo: "e curar, fará curar". A ABC traduz a obrigação pelo resultado — "cuidará de que ele fique curado" —, porque é isso que a dobra exige: não basta pagar uma consulta, é preciso chegar à cura.
Nachmânides tira daí uma regra prática. O versículo não diz "pagará o tempo perdido e o tratamento", em dinheiro; diz que o agressor "fará curar". Logo, ele paga o médico, e o ferido não pode exigir o valor em mãos para gastar com outra coisa. O dinheiro do tratamento tem destino. A Mekhilta acrescenta uma leitura moral, curta: a Torá "ensina aqui o comportamento correto" — quem fere cuida.
A Mekhilta também lê o limite da obrigação na relação entre as duas parcelas. O tempo perdido só se paga enquanto dura a cura; se o ferido fica aleijado para sempre, essa perda permanente já entrou no cálculo do dano, e não se paga salário vitalício. O tratamento, ao contrário, vai até o fim: se a ferida sarar e se abrir de novo, "quatro ou cinco vezes", o agressor continua obrigado, desde que seja a mesma ferida.
Foi deste "fará curar" que a escola de Rabi Ishmael tirou a permissão para o médico curar, como se discute no estudo de Êxodo 15:26.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O ferido. O mesmo homem do versículo anterior. Agora ele tem três momentos: levanta-se, sai, anda apoiado. É dele o bordão e são dele os dias perdidos.
"O que o feriu". O agressor ganha um nome que funciona como título jurídico, como quem diz "o réu". Até aqui estava preso, na leitura rabínica; agora é solto, mas devedor.
O médico. Não é nomeado, mas está pressuposto. "Fará curar" supõe alguém que cure, e o Targum de Ônquelos o torna explícito: o agressor "pagará o salário do médico". Nas leis da Torá, é a primeira vez que um profissional pago para tratar ferimentos está pressuposto. Antes disso, "médicos", no plural, só tinham aparecido como os embalsamadores egípcios de Gênesis 50:2.
A rua. O "fora" do versículo é o espaço público da aldeia, o lugar onde os vizinhos veem quem anda e quem não anda. A cura é atestada pela vizinhança.
O tribunal. Implícito, como no versículo anterior. Alguém precisa decidir quando o ferido "andou fora" e quanto vale o seu tempo.
5. Pontos de Ensino
Escapar da pena não é escapar da dívida. O agressor é absolvido da acusação de homicídio e, na mesma frase, condenado a pagar. A lei não confunde as duas coisas: não ter matado não quer dizer não ter feito mal.
A reparação olha para a vítima. O que se paga é medido pelo que o ferido perdeu — dias de trabalho, gastos com tratamento —, e não pelo tamanho da raiva de quem bateu. O mesmo golpe custa mais se deixar a vítima mais tempo de cama.
Reparar inclui cuidar. O versículo não manda só indenizar; manda "fazer curar". A obrigação vai até o resultado. Na leitura de Nachmânides, o dinheiro do tratamento é para o tratamento.
A lei cobre o que a regra geral não cobre. O "olho por olho" fala do membro perdido. Este versículo trata do que fica de fora dessa conta: o tempo e a cura. A tradição viu aí a prova de que a lei de lesão não se reduz ao talião.
A cura se prova em público. O critério é o ferido andando na rua. Não é preciso perícia sofisticada; é preciso que a comunidade veja.
6. Aspectos Filosóficos
Quando um homem fere outro e o ferido sobrevive, quem deve arcar com o custo, e para quê? A resposta do versículo parece simples — paga quem feriu. Mas cada escolha da tradição em torno dele (pagar o médico diretamente, pagar o tempo pelo salário do vigia de pepinos, separar cinco parcelas) supõe uma ideia sobre o que a indenização deve fazer. Uma das tentativas modernas mais influentes de responder a essa pergunta foi a do jurista ítalo-americano Guido Calabresi (nascido em 1932, professor e diretor da Faculdade de Direito de Yale, depois juiz federal nos Estados Unidos), no livro O custo dos acidentes (1970).
Três custos
Calabresi parte de uma constatação incômoda: nenhuma sociedade quer reduzir os acidentes a zero, porque isso exigiria proibir quase tudo — carros, fábricas, obras, esportes. O que se quer é reduzir a soma de dois custos: o custo dos acidentes e o custo de evitá-los. E o custo dos acidentes, para ele, tem três camadas.
Os custos primários são os próprios ferimentos e mortes, e se reduzem diminuindo o número e a gravidade dos acidentes. A ferramenta principal é fazer pesar o custo sobre quem pode evitá-lo mais barato: quem sabe que vai pagar tem motivo para tomar cuidado.
Os custos secundários são o que acontece depois: a perda que cai inteira sobre uma família pode arruiná-la, enquanto a mesma perda repartida entre muitos quase não se sente. Reduzi-los é tarefa da compensação e da distribuição do prejuízo.
Os custos terciários são os do próprio sistema: tribunais, peritos, advogados, tempo. Uma regra perfeita que custa mais para aplicar do que o dano que repara é uma regra ruim.
Por cima das três, Calabresi põe a justiça como um limite. Um arranjo que reduza custos mas pareça injusto às pessoas não se sustenta, e ele não pretendia reduzir o direito à contabilidade.
O versículo lido com essas lentes
A obrigação de "fazer curar", lida por Nachmânides como pagamento direto ao médico, ataca os custos secundários onde eles doem mais: o ferido pobre não precisa adiantar nada, e o dinheiro não se desvia do tratamento. A extensão do dever enquanto a ferida voltar a abrir faz o mesmo.
O vigia de pepinos é um caso claro de atenção aos custos terciários. Em vez de abrir um processo para estimar quanto aquele homem em particular ganharia nos próximos meses, o tribunal usa um padrão fixo, baixo e fácil de aplicar, e põe o resto da perda na parcela do dano, calculada uma vez. O Talmude defende a regra exatamente contra a acusação de injustiça, mostrando que nada fica sem pagamento.
E o próprio fato de o agressor pagar, e não a aldeia ou o rei, funciona como os custos primários de Calabresi: cada um sabe que o soco tem preço, e preço proporcional aos dias de cama.
O limite
Calabresi pensava em acidentes — atropelamentos, falhas de máquina —, em que ninguém quis ferir. A briga do Êxodo é um ato voluntário, e a lei não está reduzindo custos sociais: está obrigando um culpado. Calabresi também não excluía o seguro e os fundos coletivos, que o mundo antigo não conhecia. A aproximação ilumina as escolhas práticas da tradição rabínica, que de fato foram feitas com atenção à aplicação; não autoriza dizer que o versículo tem uma teoria econômica.
7. Aplicações Práticas
Quem causou um dano tende a medir a sua responsabilidade pelo que fez, e não pelo que o outro sofreu. "Foi só um empurrão." O versículo inverte a régua: o que se deve é medido na vítima — nos dias que ela perdeu, no tratamento de que precisou. Um pedido de desculpas que não se preocupa com as consequências práticas do dano fica aquém do que esta lei pede.
A obrigação também tem um fim. O agressor paga até a cura, e não para sempre; e o ferido não pode transformar o tratamento em renda. Há aqui uma medida para as duas partes de qualquer conflito em que alguém se machucou: quem feriu deve ir até o fim da reparação, e quem foi ferido não deve usá-la para cobrar além do dano.
E há uma aplicação simples no "fazer curar". Reparar não é só pagar: é se ocupar de que o outro fique bem.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Este versículo autoriza a medicina?
Foi lido assim pela escola de Rabi Ishmael. Ibn Ezra acrescenta, comentando este versículo, uma restrição que pouca gente lembra: a licença valeria para as feridas e os golpes visíveis, na superfície do corpo; a doença interna estaria nas mãos de Deus, e ele cita o rei Asa, censurado por buscar médicos e não o SENHOR (2 Crônicas 16:12). A distinção é dele, não do texto. O versículo só pressupõe que alguém vai tratar o ferido e manda o agressor pagar.
2. E se o ferido se recusar a se tratar?
O versículo não trata disso. Pela leitura de Nachmânides, o ferido não pode exigir o dinheiro para outro fim; mas a lei também não o obriga a aceitar médico. Se a recusa agravar o quadro, a pergunta passa a ser se a piora ainda decorre do golpe. O texto não diz, e a questão fica para quem julga.
3. Por que a lei não pune o agressor também com açoites ou multa ao tribunal?
Porque o caso, uma vez afastada a morte, passa a ser entre as duas partes. O Deuteronômio conhece os açoites (Deuteronômio 25:1-3), mas para outro tipo de processo. Aqui, o que o agressor deve, ele deve ao ferido. Os rabinos acrescentaram outras parcelas — a dor e a vergonha —, mas todas pagas à vítima.
9. Conexão com Outros Textos
O bordão em outras mãos
Zacarias 8:4 — "Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Ainda se sentarão velhos e velhas nas praças de Jerusalém, cada um com o seu bordão na mão, por causa da idade."
A mesma palavra do versículo, e a mesma cena: gente de bordão andando em público. Nachmânides usa este texto para defender o sentido literal.
2 Reis 18:21 — "Agora você confia no Egito, esse bordão de cana quebrada, que, se alguém se apoiar nele, entra-lhe pela mão e a fura."
O bordão como imagem do apoio em que se confia — aqui, um apoio que trai.
Salmo 23:4 — "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu bordão me consolam."
O salmo junta as duas palavras que o Êxodo põe em versículos vizinhos: o bordão do ferido (Êxodo 21:19) e a vara do senhor que bate no escravo (Êxodo 21:20). No salmo, ambas estão na mão de quem protege.
O caso já decidido de outro modo
Êxodo 21:12 — "Quem ferir um homem, e ele morrer, certamente será morto."
O mesmo golpe com outro desfecho. O "será absolvido" deste versículo só tem sentido diante desta frase.
O talião que este versículo complementa
Êxodo 21:24 — "olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,"
A Mekhilta lê os dois textos juntos: o talião cobre o membro; este versículo, o tempo e a cura.
Quem cura
Êxodo 15:26 — "… porque eu sou o SENHOR, que o cura."
O mesmo verbo de "fará curar". Em Mara, Deus é quem cura; aqui, o homem que feriu é obrigado a fazer curar.
2 Crônicas 16:12 — "No trigésimo nono ano do seu reinado, Asa adoeceu dos pés, e a doença era muito grave; mas, na sua doença, não buscou o SENHOR, e sim os médicos."
O texto que Ibn Ezra opõe a este, para limitar a licença dos médicos às feridas externas.
Jó 5:18 — "Porque ele faz a ferida e ele mesmo a enfaixa; ele fere, e as suas mãos curam."
Também citado por Ibn Ezra no comentário a este versículo: o golpe e a cura nas mesmas mãos, agora as de Deus.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
se ele se levantar e andar fora, apoiado no seu bordão, o que o feriu será absolvido; somente lhe pagará o tempo perdido e cuidará de que ele fique curado.
Texto hebraico
אִם־יָק֞וּם וְהִתְהַלֵּ֥ךְ בַּח֛וּץ עַל־מִשְׁעַנְתּ֖וֹ וְנִקָּ֣ה הַמַּכֶּ֑ה רַ֥ק שִׁבְתּ֛וֹ יִתֵּ֖ן וְרַפֹּ֥א יְרַפֵּֽא׃
Transliteração
im-yaqum ve-hit'hallekh ba-chuts al-mish'anto ve-niqqah ha-makkeh raq shivto yitten ve-rappo yerappe.
Análise palavra por palavra
אִם־יָקוּם — im-yaqum, "se ele se levantar".
Im é o "se" das variações dentro de um caso já aberto. Yaqum, do verbo qum, "levantar-se", no imperfeito. O verbo responde ao "cair de cama" do versículo anterior: quem caiu se levanta.
וְהִתְהַלֵּךְ בַּחוּץ — ve-hit'hallekh ba-chuts, "e andar fora".
Hit'hallekh é o verbo halakh, "andar", no Hitpael, a forma que muitas vezes exprime ação repetida ou de ida e volta: andar de um lado para outro, circular. Não é dar um passo; é passear, mover-se à vontade. Ba-chuts, "na rua, do lado de fora", com artigo.
עַל־מִשְׁעַנְתּוֹ — al-mish'anto, "apoiado no seu bordão".
Mish'enet vem da raiz sha'an, "apoiar-se, encostar-se". É o objeto em que alguém se apoia. A palavra aparece pouco mais de dez vezes na Bíblia hebraica, quase sempre como cajado ou bordão concreto: o bordão de Eliseu entregue a Geazi (2 Reis 4:29), o dos velhos de Jerusalém (Zacarias 8:4), o da cana quebrada do Egito (2 Reis 18:21; Isaías 36:6; Ezequiel 29:6), o do Salmo 23:4. A mesma raiz dá mish'an, "apoio", usada para o apoio que é Deus (Salmo 18:18). É esse leque, entre o objeto e a figura do apoio, que permite as duas leituras do item 3.
וְנִקָּה הַמַּכֶּה — ve-niqqah ha-makkeh, "o que o feriu será absolvido".
Niqqah é o verbo naqah, "estar limpo, ser isento", no Nifal (a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico): "será declarado limpo". O sentido de base é o de ficar livre de uma acusação ou de uma obrigação, e é a raiz da palavra "inocente" que o capítulo usa para o dono do boi (Êxodo 21:28). Ha-makkeh é o particípio Hifil de nakhah, "ferir", com artigo: "o que golpeou", o agressor como categoria.
רַק — raq, "somente".
Advérbio restritivo. É a palavra que a Mekhilta usa para ler um limite e, ao mesmo tempo, um acréscimo: "absolvido" da morte, "somente" pagará.
שִׁבְתּוֹ — shivto, "o seu tempo perdido".
Literalmente, "o seu parar" ou "o seu sentar". A palavra é rara, e Ibn Ezra registra duas etimologias. Pela primeira, vem de shavat, "cessar, parar", a raiz do sábado: o ferido teve o trabalho interrompido. Pela segunda, vem de yashav, "sentar-se, ficar", como shivtah em Rute 2:7 ("ela ficou um pouco em casa"): o tempo que o ferido passou sentado em casa, sem trabalhar. Para a segunda, Ibn Ezra dá um argumento tirado do próprio versículo: ficar sentado em casa é o oposto de "andar fora". E conclui que as duas explicações só diferem na origem da palavra; o sentido é o mesmo. Chizkuni (comentarista judeu francês do século XIII) cita o mesmo versículo de Rute. A Septuaginta traduz por argia, "ociosidade", e a Vulgata por operas, "os dias de trabalho".
Em hebraico, shivto soa próximo de ba-shevet, "com a vara", que abre o versículo seguinte. As consoantes não são as mesmas — uma termina em tav, a outra em tet —, mas, lidos em voz alta, os dois versículos vizinhos passam do "tempo parado" do homem livre à "vara" do escravo.
יִתֵּן — yitten, "dará, pagará".
O verbo comum de "dar", natan. A lei não usa aqui o verbo técnico de restituir (shillem), que o capítulo reserva para os casos de boi e de cova (Êxodo 21:34, 36). O agressor "dá" o tempo perdido.
וְרַפֹּא יְרַפֵּא — ve-rappo yerappe, "e cuidará de que ele fique curado".
O verbo rafa, "curar", duas vezes: primeiro no infinitivo, depois no imperfeito, as duas formas no Piel (a forma intensiva do verbo hebraico). A repetição do verbo com o infinitivo é o modo hebraico de reforçar: "curar, fará curar". O Talmude (Bava Kamma 85b) repara num detalhe: a duplicação não é idêntica. Se o texto quisesse só reforçar, diria rappo rappo ou yerappe yerappe; se quisesse falar do médico, diria ve-rofe yerappe, "e um médico curará". A forma escolhida, um infinitivo e um imperfeito, foi lida como fonte de mais de uma regra.
Ibn Ezra observa a escolha do Piel. Quando Deus cura, a Bíblia usa a forma simples do verbo (Números 12:13; Deuteronômio 32:39); aqui, quando é o homem que faz curar, usa a forma intensiva, que indica esforço. A cura humana dá trabalho.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o Êxodo 21:19 leva a três conclusões.
A primeira: a absolvição da pena maior não apaga a dívida menor. O agressor que não matou é solto e, no mesmo movimento, obrigado. A lei separa o que é crime contra a vida do que é dano ao corpo, e não deixa o segundo sem resposta só porque o primeiro não aconteceu.
A segunda: a medida da reparação está na vida concreta do ferido — os dias de cama e o caminho até a cura. A tradição rabínica ampliou essa medida para cinco parcelas e lhe deu tabelas, mas o princípio já está no versículo: paga-se o que a vítima perdeu, e paga-se até o fim.
A terceira: o versículo deixa abertas as perguntas que mais tarde ocuparam os tribunais — o que é estar curado, quanto vale um dia de trabalho, até onde vai o dever de tratar. As respostas dadas foram práticas e discutidas, e a mais incômoda delas é que, para medir o corpo do homem livre, a Mishná usou o preço do escravo no mercado.













