queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
1. Introdução
A lista do talião termina pelo menor: queimadura, ferida, golpe — lesões que não matam e, na maior parte, não deixam ninguém aleijado. Os rabinos perguntaram para que a lei as enumera, se já falou de olho e de mão, e responderam que cada uma ensina uma reparação diferente: a dor que não deixa marca, a dor que se paga além do dano, a marca que passa. Junto com elas a tradição pôs uma ofensa que o versículo não nomeia e que às vezes dói mais do que o golpe: a vergonha. E as duas últimas palavras da lista são as mesmas com que Lameque, no começo do Gênesis, se gabou de ter matado um homem.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma tabela para a humilhação
O versículo fala de lesões no corpo. Os rabinos acrescentaram a ele uma lesão que não deixa marca na pele: a vergonha. A palavra hebraica boshet ("vergonha", "humilhação") não está no Êxodo, mas a Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta de 200 d.C.) a pôs entre as cinco parcelas que quem fere outro deve pagar, e dedicou a ela as regras mais vivas do tratado Bava Kamma.
A primeira regra é que a vergonha depende de quem envergonha e de quem é envergonhado. Por isso a Mishná se detém nos casos-limite. Quem humilha um homem nu, um cego ou alguém que dorme paga, embora a vítima não tenha visto nada ou já estivesse exposta. Mas quem, dormindo, humilha outro não paga. E quem cai de um telhado sobre outra pessoa paga o ferimento, mas não a vergonha, porque não há vergonha sem intenção de envergonhar (Mishná Bava Kamma 8:1). A prova vem de Deuteronômio 25:11, onde a mulher agarra as partes íntimas do adversário do marido: a palavra hebraica para essas partes é da mesma raiz de boshet, e o caso supõe um gesto deliberado.
A segunda regra é uma tabela, e ela diz muito sobre o mundo em que nasceu (Mishná Bava Kamma 8:6). Quem dá um soco em outro paga um sela (uma moeda de prata de quatro denários). Um tapa no rosto custa duzentos denários. Um tapa com as costas da mão, que era o gesto de desprezo, custa o dobro: quatrocentos. O mesmo valor se paga por puxar a orelha de alguém, arrancar-lhe o cabelo, cuspir nele e acertá-lo, tirar-lhe o manto em público ou descobrir a cabeça de uma mulher no mercado. Um tapa vale cinquenta vezes mais do que um soco, que dói mais. A tabela não mede a dor; mede a afronta.
O pobre e o nobre
Se a vergonha depende da dignidade de quem é humilhado, o pobre vale menos? Rabi Akiva, o grande mestre do século II, respondeu que não: até os mais pobres de Israel devem ser vistos como homens livres que perderam os seus bens, porque são todos filhos de Abraão, Isaque e Jacó.
A Mishná conta um caso que testou a regra. Um homem descobriu a cabeça de uma mulher em plena rua. Ela foi a Rabi Akiva, e ele condenou o homem a pagar quatrocentos denários. O homem pediu prazo. Ficou espiando a mulher até vê-la à porta de casa e quebrou ali um jarro com um pouco de azeite. Ela descobriu a própria cabeça e passou o azeite com a mão nos cabelos. O homem tinha posto testemunhas, voltou a Rabi Akiva e argumentou: vou pagar quatrocentos denários a uma mulher que descobre a cabeça por uma gota de azeite? Akiva respondeu: "você não disse nada". Quem fere a si mesmo não paga; quem fere outro paga. O que ela faz com a própria honra não autoriza ninguém a tirá-la dela.
A dor sem marca
A Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo sobre as leis do Êxodo) usa a "queimadura" do versículo para falar das dores que não deixam nenhum sinal: queimar alguém na unha ou na sola do pé sem deixar cicatriz, carregá-lo de pedras até sofrer, pôr neve na cabeça dele até gelar. Nenhum desses atos diminui o valor de quem os sofre. Todos se pagam. E a Mekhilta acrescenta: se a vítima era frágil, criada com mimo e delicada, a parcela da dor dobra. A conta não é feita pelo golpe, mas por quem o recebeu.
O modo de calcular essa dor — quanto alguém aceitaria receber para suportá-la — está desenvolvido no estudo de Êxodo 21:19.
3. Análise Teológica do Versículo
"queimadura por queimadura"
A palavra aparece só aqui em toda a Bíblia, duas vezes, neste versículo. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu da Espanha do século XII) insiste em lê-la sem rodeios: é a queimadura feita com fogo. Numa casa antiga, com forno de barro, lamparina de azeite e brasas para cozinhar, uma briga perto do fogo podia acabar assim.
Mas por que pôr a queimadura numa lista que já tem olho, dente, mão e pé? A Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo sobre as leis do Êxodo) raciocina por exclusão. Se a queimadura fosse uma lesão com sangue, já estaria na "ferida". Se deixasse um vergão, já estaria no "golpe". Logo, ela ensina outra coisa: a dor que não deixa marca, a queimadura na unha que não corta a pele. A lista não repete; cada palavra acrescenta uma categoria. É assim que a lei da dor sem sinal nasce de um substantivo raro.
Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido, França, século XI) põe a fronteira no mesmo lugar. Até o versículo 24, a lei falou de lesões que diminuem o valor de uma pessoa — quem perdeu um olho vale menos no mercado. Aqui começa a lesão que não diminui valor nenhum e só dói. A partir desta palavra, a reparação deixa de ser só pelo que se perdeu e passa a ser também pelo que se sofreu.
"ferida por ferida"
A palavra designa o ferimento aberto, o corte. Rashi a define como o golpe que faz sair sangue. Saadia Gaon (o grande sábio judeu da Babilônia, morto em 942), citado por Ibn Ezra, entende outra coisa: a fratura de osso. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista do século XII que preferia o sentido simples) a liga à arma: é a ferida feita por espada ou instrumento capaz de matar.
O Talmude tira desta frase uma regra que parece redundante e não é (Bava Kamma 84a, e Rashi sobre o versículo). Se alguém cortou a mão de outro e já pagou o valor da mão, ainda deve pagar a dor? Pagou a mão, poderia argumentar; tinha "comprado" o direito de tirá-la. A resposta é que sim, deve pagar a dor, e Rashi dá a razão com uma imagem dura: ele poderia ter tirado a mão com uma droga que fizesse a vítima sofrer menos; cortou-a com ferro. A ferida por ferida obriga a pagar não só o que se tirou, mas o modo como se tirou.
"golpe por golpe"
A última palavra designa a marca do golpe na pele: o vergão, a mancha roxa, a equimose. Rashi a descreve como a ferida em que o sangue se junta sob a pele sem sair, e compara com as manchas do leopardo de Jeremias 13:23. Saadia, outra vez, troca as definições e faz dela a ferida que sangra. As traduções portuguesas oscilam: "golpe", "contusão", "pisadura".
É a lesão mais leve da lista. Passa em alguns dias e não deixa sequela. Mesmo assim, a lei a põe na mesma fórmula do olho e da vida. Nada no corpo de outra pessoa está fora da conta.
A série inteira
Lidos juntos, os versículos 23 a 25 descem: a vida, depois os membros que não voltam (olho, dente, mão, pé), depois as marcas da pele, que passam (queimadura, ferida, golpe). A ordem dentro deste versículo não é tão clara: os comentaristas discordam sobre qual das três é mais grave, como mostram as definições trocadas de Rashi e de Saadia. O que é claro é o conjunto: a lei vai do mais grave ao mais leve sem mudar de forma.
As palavras de Lameque
As duas últimas palavras do versículo, "ferida" e "golpe", são exatamente as do canto de Lameque: "eu matei um homem por me ferir, e um rapaz por me golpear" (Gênesis 4:23). Lameque matou por uma ferida e por um golpe. A lei responde com as mesmas duas palavras: ferida por ferida, golpe por golpe. Não é possível provar que o texto do Êxodo tenha Lameque em vista; as palavras são comuns no vocabulário das lesões. Mas quem lê a Torá em ordem encontra no fim da lista do talião as duas palavras com que a vingança sem medida tinha começado, agora presas a uma medida.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem fere e quem é ferido. O versículo continua a lista dirigida ao tribunal e não nomeia ninguém. Pelo contexto, são homens livres numa briga, como os dos versículos anteriores.
Lameque. Descendente de Caim, o primeiro homem da Bíblia com duas mulheres, Ada e Zilá, a quem dirige o canto de Gênesis 4:23-24. Ele não aparece no Êxodo, mas as duas últimas palavras deste versículo são as do canto dele.
Rabi Akiva. Mestre da terra de Israel, morto por volta de 135 durante a revolta contra Roma. Na Mishná, é ele quem afirma que até os pobres de Israel têm a dignidade de nobres empobrecidos, e quem julga o caso da mulher cuja cabeça foi descoberta na rua.
Rashi, Rashbam e Saadia. Três comentaristas que definem de modo diferente as três lesões do versículo. Rashi e o neto Rashbam, na França dos séculos XI e XII; Saadia, na Babilônia do século X, dois séculos antes, com definições que Ibn Ezra preservou.
A mulher do jarro de azeite. Personagem anônima de um caso da Mishná, cuja dignidade Rabi Akiva defendeu contra o homem que tentou provar que ela não se importava com a própria honra.
5. Pontos de Ensino
1. Nenhuma lesão é pequena demais para a lei. A lista termina na mancha roxa que some em dias. Ela está na mesma fórmula do olho e da vida.
2. A dor conta, mesmo sem marca. A queimadura que não deixa cicatriz se paga. O que a vítima sofreu vale, e não apenas o que ela perdeu.
3. O modo de ferir também é julgado. Quem paga pelo membro que tirou ainda responde pela dor com que o tirou. A lei olha para o resultado e para a crueldade do caminho.
4. A humilhação é dano. A tradição rabínica pôs a vergonha ao lado das lesões do corpo, com tabela própria, e fez dela uma ofensa às vezes mais cara do que o golpe.
5. A dignidade não depende da renda. Rabi Akiva recusou que o pobre valesse menos na conta da vergonha, e recusou que a vítima perdesse a honra por tê-la tratado com descaso em outra ocasião.
6. Aspectos Filosóficos
A pena como entrega de dor
"Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe." Lido ao pé da letra, o versículo descreve uma justiça que funciona devolvendo dor: a mesma dor, na mesma medida, a quem a causou.
Nils Christie (criminologista norueguês da Universidade de Oslo, morto em 2015) passou a carreira chamando a pena pelo nome que ela costuma esconder. No livro Limites à dor, de 1981, ele define a punição como a entrega intencional de dor a uma pessoa. Os sistemas penais modernos falam em "sanção", "medida", "tratamento", "ressocialização"; Christie insiste que, por baixo dessas palavras, o que o Estado faz é decidir quanta dor alguém deve sofrer. E propõe que, uma vez dito isso com clareza, a pergunta passe a ser como reduzir essa dor ao mínimo.
O versículo tem a franqueza que Christie pedia. Ele não usa eufemismo: diz queimadura, ferida, golpe. Se a pena é dor, aqui está escrito.
O conflito como propriedade
Num ensaio de 1977, "Conflitos como propriedade", Christie fez uma segunda observação, e ela toca o modo como a tradição leu este versículo. Nos sistemas modernos, diz ele, o conflito entre quem feriu e quem foi ferido é "roubado" das partes pelo Estado. O processo vira assunto entre o promotor e o réu; a vítima é chamada como testemunha e depois mandada para casa. Christie a descreve como duplamente perdedora: primeiro perdeu para o agressor, depois perdeu o direito de participar da solução do próprio caso.
A leitura rabínica do talião fez o movimento contrário. Ao transformar "queimadura por queimadura" em pagamento da dor, os rabinos tiraram a dor do corpo do agressor e puseram a reparação nas mãos da vítima. Quem recebe não é o tribunal, é o ferido, e a conta é feita pela dor dele. O conflito continua pertencendo a quem o viveu.
As objeções
Christie foi criticado por idealizar sociedades pequenas, onde todos se conhecem e o conflito pode ser resolvido entre as partes. Em sociedades grandes e desiguais, devolver o conflito às partes pode significar deixar a vítima fraca sozinha diante do agressor forte, sem a proteção que o Estado oferece. Há também vítimas que não querem reparação, e sim que o agressor sofra; para elas, a troca da dor pelo dinheiro parece uma injustiça.
O próprio versículo guarda essa tensão. A letra fala em devolver dor; a tradição leu pagamento. Nenhuma das duas leituras desaparece completamente: Ibn Ezra e Sforno (Obadias Sforno, rabino e médico italiano do século XVI), como se viu nos estudos dos versículos anteriores, ainda diziam que o agressor "merecia" sofrer o mesmo.
O limite precisa ficar claro: Christie escreveu sobre a justiça penal da Escandinávia e da Europa do século XX, e não sobre o Êxodo. A aproximação é deste estudo. Ela serve para mostrar que a pergunta do versículo — se a resposta à dor deve ser dor — continua sendo a pergunta central de qualquer sistema de punição.
7. Aplicações Práticas
Leve a sério as lesões "pequenas". Um tapa, um empurrão, uma queimadura de cigarro, uma mancha roxa no braço de uma criança ou de um idoso: nada disso deixa sequela visível, e por isso costuma ser tratado como coisa sem importância. A lei do Êxodo pôs essas lesões na mesma fórmula do olho e da vida. Quem vê esses sinais em alguém próximo não deve tratá-los como detalhe.
A humilhação também machuca. O tapa que custava cinquenta vezes mais do que o soco na tabela da Mishná continua sendo o tapa que humilha, no lugar de trabalho, na escola, em casa ou nas redes. Quem expõe outra pessoa ao ridículo em público pratica uma ofensa que a tradição judaica já sabia medir.
A dor do outro não se mede pela sua. A Mekhilta manda dobrar a reparação quando quem sofre é frágil. O que para um é um empurrão, para outro é uma queda; o que para um é uma brincadeira, para outro é uma humilhação. Quem feriu não decide sozinho o tamanho do que causou.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. E se a própria vítima pedir para ser ferida?
A Mishná responde com uma distinção que surpreende o leitor de hoje. Se alguém diz a outro "cegue o meu olho" ou "corte a minha mão" e o outro faz, ele paga, mesmo que a vítima tenha dito "com a condição de que você não pague nada". Mas, se alguém diz "rasgue a minha roupa" ou "quebre o meu jarro" com essa condição, quem rasgou ou quebrou fica isento (Mishná Bava Kamma 8:7). A roupa é um bem que o dono pode dispensar; o corpo, não. O consentimento não transforma o corpo em coisa.
2. O escravo também recebia pela vergonha?
Aqui a tradição se divide. A Mishná manda quem fere o escravo de outro pagar as cinco parcelas, como pagaria por um homem livre. Mas Rabi Judá discorda: "os escravos estrangeiros não têm vergonha", e quem os fere não paga essa parcela (Mishná Bava Kamma 8:3). A frase mostra até onde chegava a lógica da escravidão: a humilhação supõe uma honra a ferir, e para Rabi Judá o escravo não a tinha. A opinião da maioria recusou essa conclusão.
3. E se quem fere é uma mulher casada ou uma criança?
A Mishná diz que encontrar-se com eles numa briga é "um mau negócio": quem os fere paga, e eles, se ferem alguém, ficam isentos. A criança, o surdo-mudo e quem não tem juízo, porque não respondem pelos próprios atos. O escravo e a mulher casada, porque não têm bens próprios com que pagar — mas a dívida fica, e eles pagam se forem libertados ou se a mulher ficar viúva ou se divorciar (Mishná Bava Kamma 8:4). A regra revela a posição jurídica da mulher casada naquele sistema: capaz de culpa, mas sem patrimônio.
4. Ferir o próprio corpo era permitido?
Não, segundo a Mishná, mas não havia pena: quem fere a si mesmo "não tem permissão, mas está isento". É a regra que Rabi Akiva usa no caso da mulher do jarro de azeite: ela pode tratar a própria honra com descaso; isso não dá a ninguém o direito de tirá-la dela.
5. Por que a lei precisa falar de lesões tão pequenas, se já falou do olho e da mão?
Porque, sem elas, o talião cobriria só as perdas permanentes. A queimadura, a ferida e a mancha roxa saram, e alguém poderia concluir que quem as causou não deve nada. O versículo fecha essa porta: o dano que passa também se paga.
9. Conexão com Outros Textos
As mesmas duas palavras, no começo da vingança
Gênesis 4:23-24 — "E Lameque disse às suas mulheres: 'Ada e Zilá, ouçam a minha voz; mulheres de Lameque, escutem as minhas palavras: eu matei um homem por me ferir, e um rapaz por me golpear. Se Caim será vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete vezes.'"
"Ferir" e "golpear" são, no hebraico, as duas últimas palavras de Êxodo 21:25. Lameque pagou cada uma com uma vida; a lei as paga com a mesma medida.
A ferida e a pisadura como imagem
Isaías 1:6 — "Da planta do pé até a cabeça não há nele nada são: só feridas, pisaduras e chagas abertas, que não foram limpas, nem enfaixadas, nem amolecidas com óleo."
O profeta junta as lesões da lista para descrever um povo inteiro castigado. O vocabulário do tribunal vira o do diagnóstico.
Isaías 53:5 — "Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos curados."
A palavra do "golpe" de Êxodo 21:25 é a das "pisaduras" do servo. Aqui a lógica do talião é invertida: quem recebe a marca não é quem a causou.
Feridas que fazem bem e feridas sem motivo
Provérbios 20:30 — "Os vergões da ferida purificam do mal, e os golpes, o mais íntimo do ser."
A sabedoria antiga aceitava o castigo corporal como educação. O versículo registra uma visão da época; não é medida para hoje.
Provérbios 27:6 — "Leais são as feridas feitas por quem ama, mas enganosos são os beijos de quem odeia."
A ferida, aqui, é a palavra dura do amigo. A lista do Êxodo mede o corpo; Provérbios lembra que há feridas que não se medem.
Provérbios 23:29 — "Para quem são os ais? Para quem os pesares? Para quem as brigas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivo? Para quem os olhos vermelhos?"
As feridas de briga que ninguém sabe explicar: as do bêbado. A mesma palavra de "ferida por ferida".
A queimadura na lei da pele
Levítico 13:24 — "Ou, se houver na pele da carne uma queimadura de fogo, e a carne viva da queimadura se tornar uma mancha…"
A palavra para a queimadura é aparentada com a do Êxodo e aparece na lei da doença de pele: o sacerdote examina a marca que o fogo deixou.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
Texto hebraico
כְּוִיָּה תַּחַת כְּוִיָּה פֶּצַע תַּחַת פָּצַע חַבּוּרָה תַּחַת חַבּוּרָה׃
Transliteração
keviyyah tachat keviyyah, petsa tachat patsa, chabburah tachat chabburah.
Análise palavra por palavra
Como no versículo anterior, não há verbo: três pares governados pelo "darás" do versículo 23, com a mesma preposição tachat, "por". Depois da última palavra vem a marca de fim de parágrafo: o texto hebraico fecha aqui a seção das lesões entre homens livres, antes de passar ao escravo ferido pelo senhor.
כְּוִיָּה — keviyyah, "queimadura".
Substantivo da raiz kavah, "queimar, chamuscar". A palavra só existe neste versículo, nas duas ocorrências. O verbo aparece em Provérbios 6:28 ("andará alguém sobre brasas sem que os seus pés se queimem?") e em Isaías 43:2 ("quando você passar pelo fogo, não se queimará"). Um substantivo aparentado, mikhvah, designa a queimadura na pele examinada pelo sacerdote em Levítico 13:24-28. A raridade da palavra explica a leitura da Mekhilta: um termo que a Bíblia não usa em nenhum outro lugar foi lido como portador de uma regra própria.
פֶּצַע — petsa, "ferida".
Da raiz patsa, "ferir, abrir uma ferida". É a palavra de Lameque ("matei um homem por me ferir", Gênesis 4:23), das "feridas sem motivo" do bêbado (Provérbios 23:29), das "feridas" leais do amigo (Provérbios 27:6) e da queixa de Jó, a quem Deus "multiplica as feridas sem motivo" (Jó 9:17). O verbo está no Cântico dos Cânticos, quando os guardas "feriram" a mulher que procurava o amado (Cânticos 5:7). O sentido mais constante é o do corte que sangra, como diz Rashi; a leitura de Saadia, "fratura de osso", não tem apoio claro nessas ocorrências.
פָּצַע — patsa, "ferida".
A mesma palavra em forma de pausa, com a vogal alongada, porque cai no meio do versículo, no ponto de divisão marcado pelos acentos.
חַבּוּרָה — chabburah, "golpe".
A marca deixada pelo golpe: o vergão, a pisadura, a mancha roxa. É a segunda palavra de Lameque ("um rapaz por me golpear"), a das "pisaduras" de Isaías 1:6 e de Isaías 53:5, e a dos "vergões" de Provérbios 20:30. No Salmo 38:5, o doente diz que as suas "chagas" cheiram mal. Rashi a liga às "manchas" do leopardo de Jeremias 13:23, palavra de som parecido. A raiz chavar significa "juntar", e alguns estudiosos explicam o nome pelo sangue que se junta sob a pele; é uma hipótese, não um dado seguro.
As traduções antigas
A Septuaginta traduz as três palavras por katakauma ("queimadura"), trauma ("ferida", a palavra grega que deu "trauma") e mōlōps ("vergão", "pisadura"). A mesma mōlōps aparece na Septuaginta de Isaías 53:5, "pelas suas pisaduras", de modo que a ligação entre os dois textos, já presente no hebraico, se conserva no grego. A Vulgata diz adustionem pro adustione, vulnus pro vulnere, livorem pro livore; livor é a mancha lívida, roxa.
O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) traduz o "golpe" por mashqofei, que Rashi explica como "batidas", e liga ao mashqof, a verga da porta, assim chamada porque a porta bate contra ela. O Targum chamado de Jônatas escreve a interpretação rabínica dentro do texto: "o valor da dor da queimadura por queimadura".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
Primeira: a lei de lesões não para nos danos permanentes. Ela inclui o que sara e o que não deixa marca, e, ao fazê-lo, reconhece que a dor e o sofrimento são danos em si, e não apenas meios de medir uma perda.
Segunda: a tradição que leu este versículo transformou a lista de dores em lista de reparações devidas à vítima, e acrescentou a ela a vergonha. O que a letra formula como devolução de dor, a leitura rabínica converteu em atenção a quem sofreu — incluindo a fragilidade de cada um e a honra de quem não tem nada.
Terceira: as duas últimas palavras do versículo são as de Lameque. A lei não deixa de falar a linguagem da retribuição, mas a põe sob medida: por uma ferida, uma ferida; por um golpe, um golpe — e não uma vida.













