o dono da cova pagará: devolverá o valor em dinheiro ao dono do animal, e o animal morto será dele.
1. Introdução
O boi caiu na cova e morreu; agora alguém paga. O versículo fecha o caso em três tempos: o “dono da cova” pagará, devolverá o valor em dinheiro ao dono do animal, e o animal morto “será dele”. Cada tempo abriu uma discussão. Quem é dono de um buraco cavado na rua? O pagamento tem de ser em dinheiro? E “dele” quer dizer de quem pagou ou de quem perdeu? A tradição judaica e os comentaristas cristãos responderam de modos diferentes a esta última pergunta, e a escolha decide quem fica com o prejuízo da carcaça.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que vale um boi morto
Um boi vivo puxa o arado, o carro, a pedra do moinho, e por isso vale muito. Um boi morto numa cova vale bem menos, mas não vale nada. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) lembra o primeiro uso: o couro. Curtido, ele virava sandália, odre, correia, cobertura de tenda. Os chifres e os ossos davam cabo de ferramenta e agulha.
A carne é outra questão. Um animal que morre sem ser abatido do modo certo não pode ser comido por um israelita. O próprio código diz, poucos versículos adiante, que a carne do animal dilacerado no campo vai para os cães (Êxodo 22:31). Mas o Deuteronômio abre uma saída comercial: a carne do animal que morre por si pode ser dada ao estrangeiro que mora na cidade, ou vendida ao forasteiro de passagem (Deuteronômio 14:21). Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) conta com isso quando calcula os casos de boi contra boi: há carcaça que, vendida a quem não é judeu, vale bastante. A carcaça tinha mercado, e é por isso que a lei precisa dizer com quem ela fica.
Pagar com o quê
“Dinheiro”, no versículo, é prata: no tempo do Êxodo não havia moeda cunhada, e a prata se pesava na balança, em barras ou pedaços (o funcionamento disso está no estudo de Gênesis 41:56). Mas a palavra pesa menos do que parece. O Talmude lê o verbo “devolverá” como uma ampliação: quem deve pode pagar com qualquer coisa que tenha valor, “até farelo” (Bava Kamma 7a). Numa economia de aldeia, em que a prata era rara e o grão, o óleo e o gado circulavam como dinheiro, a regra é realista. O que importa é que o valor volte para quem o perdeu, não a forma em que volta.
A Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), no tratado Nezikin, seção 11, completa com uma comparação entre este versículo e o Êxodo 21:36. Lá a lei diz “boi por boi”; aqui diz “dinheiro”. A Mekhilta conclui que as duas formas valem nos dois casos: quem perdeu um animal numa cova pode receber outro animal, e quem perdeu um boi chifrado pode receber prata. A lei fixa o valor, não a moeda.
Quem fazia a conta
O versículo não fala de juízes, mas a conta exigia alguém. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) supõe que o preço era fixado por avaliação judicial. A Mishná e o Talmude descrevem o procedimento como uma avaliação feita pelo tribunal: estima-se o valor do animal vivo, estima-se o valor da carcaça, e a diferença é a dívida. O procedimento tem nome técnico na literatura rabínica — “a perda da carcaça” — e é exatamente o que este versículo deixou em aberto.
3. Análise Teológica do Versículo
“o dono da cova”
No versículo anterior a cova foi aberta no caminho, e o caminho não é de ninguém. Aqui o responsável ganha um título: “dono da cova”. Como alguém é dono de um buraco cavado em terra que não é dele?
Rashi responde que o texto o fez dono para responsabilizá-lo: ele não é proprietário da terra, mas é “o dono do tropeço”. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) dá a razão: ele cavou para seu próprio uso, e por isso o texto o chama de dono. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) diz que é dono “em sentido negativo”: ninguém compra a cova, mas todos sabem a quem ela pertence quando algo dá errado. A propriedade aqui não é um direito; é o nome de uma responsabilidade.
O Talmude registra que a palavra dividiu dois dos maiores mestres do século II (Bava Kamma 49b-50a). Para Rabi Akiva, “dono da cova” mostra que a lei fala de uma cova que tem dono de verdade, cavada no próprio terreno e depois deixada aberta à passagem. Para Rabi Ishmael, a palavra serve para responsabilizar quem cavou na rua e depois declarou que a cova não era mais sua: nem assim ele se livra. Rav Yosef, mestre babilônico do século IV, propõe que os dois concordam num ponto: quem cava no próprio terreno e renuncia à terra em volta, ficando com a cova, continua respondendo por ela. A conclusão comum é forte: ninguém se desfaz de um perigo declarando que ele não é mais seu.
“pagará”
O verbo é o de completar uma conta, de deixar as coisas inteiras de novo. Não há multa, nem dobro, nem castigo. Logo adiante, no furto, o ladrão de um boi pagará cinco bois (Êxodo 22:1). Aqui, onde não houve intenção, o pagamento é exato: o que se perdeu, nem mais nem menos.
“devolverá o valor em dinheiro ao dono do animal”
Rashi percebe uma redundância. Bastaria dizer “pagará dinheiro ao dono”; o texto diz “pagará” e, além disso, “devolverá”. A palavra a mais é o fundamento da regra de que se paga com qualquer coisa que tenha valor, até farelo (Bava Kamma 7a). Ibn Ezra prefere ler a conta: “devolverá” quer dizer o valor que o animal tinha vivo, descontado o valor do morto. Os dois leem o mesmo verbo, um para a forma do pagamento, o outro para o tamanho dele.
O verbo “devolver” diz uma coisa sobre o pagamento que “pagar” não diz: ele trata o dinheiro como algo que já pertencia à vítima e precisa voltar para ela. Não é presente nem favor. É restituição.
“Ao dono do animal” também foi lido. O Talmude tira daí que a lei da cova vale para qualquer animal que tenha dono, e não só para o boi e o jumento nomeados no versículo anterior (Bava Kamma 54b). A consequência inversa é implícita: um animal sem dono que cai na cova não gera dívida, porque não há a quem devolver.
“e o animal morto será dele”
O hebraico diz só “e o morto será para ele”. Para quem? O pronome pode apontar para os dois homens do versículo, e as duas leituras têm defensores.
Primeira leitura: a carcaça fica com quem pagou. Rashbam a chama de sentido simples do texto: se o dono da cova pagou o valor inteiro do animal, é justo que fique com o que sobrou dele. Entre os comentaristas cristãos, Ellicott (comentário inglês do século XIX, organizado por Charles Ellicott) diz que o dono do poço tinha o direito de aproveitar o que pudesse da carcaça, e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem do mesmo modo. A conta é simples: o boi inteiro foi pago, o boi inteiro muda de dono.
Segunda leitura: a carcaça fica com quem perdeu. É a leitura da Mekhilta, do Talmude (Bava Kamma 10b) e de Rashi. A Mekhilta argumenta pela economia do texto: se o dono da cova pagasse tudo, nem seria preciso dizer que a carcaça é dele — isso seria óbvio. Se o versículo se deu ao trabalho de dizer, é porque a carcaça fica com o outro, e entra na conta. O dono do boi fica com o corpo do animal pelo valor que ele tem, e o dono da cova paga a diferença até completar o prejuízo.
Ramban (Nachmânides, rabino catalão do século XIII) aceita a segunda leitura, mas acha que Rashi não explicou o que ela muda. Não pode ser só a forma de pagar, diz ele: quem deve pode pagar com qualquer coisa de valor, até com a carne de outros animais mortos que tenha em casa. O versículo diz outra coisa: a carcaça é do dono do boi desde o momento da morte, e o risco dela é dele. Se depois do acidente a carcaça se estraga, perde valor ou é roubada, quem perde é o dono do boi. Ramban dá os números: o boi valia cem; morto, vale cinquenta; o dono da cova paga cinquenta, e o outro cuida da carcaça, tira o couro, vende a carne ou alimenta os cães. É a “perda da carcaça” da linguagem rabínica.
Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) registra as duas leituras e não decide. O hebraico também não decide: o pronome serve aos dois. A Mekhilta tem a seu favor o argumento da redundância; Rashbam tem a seu favor a leitura que qualquer pessoa faria ouvindo a frase pela primeira vez. Na prática, as duas chegam quase ao mesmo resultado em dinheiro. O que muda é quem tem de lidar com o boi morto no fundo da cova, e quem perde se a carne apodrecer antes de ser vendida.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O dono da cova. É a mesma pessoa que no versículo anterior abriu ou cavou o buraco e não o cobriu. Agora ela tem um título, e o título é uma dívida. A lei o chama de dono mesmo que a terra seja de todos.
O dono do animal. Pela primeira vez no caso ele é nomeado, e só como destinatário do pagamento. O hebraico o chama de “seus donos”, no plural, que é o modo comum de dizer o proprietário de um animal nas leis do Êxodo.
O animal morto. O boi ou o jumento do versículo anterior, agora carcaça. Ele é a terceira personagem do versículo, e a última palavra é sobre ele.
Rabi Akiva e Rabi Ishmael. Os dois mestres do século II que fundaram as duas grandes escolas de interpretação da Torá: Akiva, que lia em cada palavra uma regra; Ishmael, que dizia que a Torá fala a linguagem dos homens. A divergência sobre “dono da cova” é uma das muitas em que as duas maneiras de ler se encontram.
Rav Yosef. Chefe da academia de Pumbedita, na Babilônia, no século IV. Cego na velhice, era conhecido pela memória, e o Talmude o chama de “Sinai”, porque sabia de cor as tradições.
Ramban e Rashbam. O rabino catalão e o rabino francês que, sobre o mesmo pronome, tomaram lados opostos: Ramban com os sábios, Rashbam com o sentido simples, que ele defendia mesmo quando discordava do avô, Rashi.
5. Pontos de Ensino
1. Quem cria o perigo responde por ele mesmo sem ser dono da terra. A lei inventa um “dono” para a cova da rua. A responsabilidade não depende de título de propriedade, e ninguém se livra dela declarando que a cova não é mais sua.
2. A reparação é exata. Sem intenção, não há castigo: paga-se o que se perdeu. O contraste com o furto, poucos versículos depois, mostra que a lei distingue o descuido do dolo pelo tamanho da conta.
3. O valor importa mais que a forma. O pagamento pode ser em prata, em gado, em qualquer coisa de valor. O objetivo é que a vítima fique como estava, não que receba um tipo determinado de bem.
4. Ninguém lucra com o acidente. Se a vítima ficasse com a carcaça e ainda recebesse o valor inteiro do animal vivo, sairia ganhando. As duas leituras do fim do versículo evitam isso, cada uma a seu modo.
5. O risco depois do dano também tem dono. A leitura de Ramban mostra que a lei não termina no acidente: ela decide quem cuida do que sobrou e quem perde se o que sobrou se estragar.
6. Aspectos Filosóficos
Quando alguém paga pelo boi que morreu na sua cova, o que exatamente ele está fazendo? Cumprindo uma pena? Comprando o boi morto? Ou continuando, por outro meio, a obrigação que tinha antes do acidente?
John Gardner (1965-2019), filósofo do direito britânico que ocupou a cátedra de Teoria do Direito em Oxford, deu a esta última resposta uma forma precisa, que ficou conhecida como a “tese da continuidade”. Ele a expôs no artigo “What is Tort Law For?” (“Para que serve o direito dos danos?”, 2011) e a desenvolveu no livro From Personal Life to Private Law (“Da vida pessoal ao direito privado”, 2018). A ideia é esta: as razões que eu tinha para não causar o dano não desaparecem quando eu o causo. Elas continuam lá, e agora me pedem a coisa mais próxima possível do que eu deixei de fazer. Eu não posso mais cobrir a cova a tempo; posso devolver o valor do que ela destruiu. O dever de reparar não é um dever novo que nasce do acidente. É o mesmo dever de cuidado, cumprido da segunda melhor maneira.
O verbo do versículo combina com a tese. A lei não diz só “pagará”; diz “devolverá”. Pela leitura de Gardner, o dinheiro não é castigo nem preço: é o que resta do dever de não deixar a cova aberta, devolvido à pessoa a quem esse dever se dirigia. Por isso a reparação é exata, e por isso não há multa. Uma pena olharia para o culpado; a reparação olha para o que a vítima perdeu.
Gardner tem um segundo argumento que toca o caso. Num ensaio de 2001, “Obligations and Outcomes in the Law of Torts” (“Obrigações e resultados no direito dos danos”), ele defendeu que muitos dos nossos deveres não são deveres de tentar, mas de conseguir. O motorista não tem só o dever de tentar não atropelar ninguém; tem o dever de não atropelar. Quem fez o possível e falhou não fez nada de moralmente vergonhoso, mas ainda assim falhou num dever, e esse fracasso lhe dá razões para reparar. A lei da cova pensa assim: ela não pergunta se o dono da cova se esforçou para cobri-la, pergunta se a cova estava coberta. Ela lhe exige um resultado.
Gardner não escreveu sobre o Êxodo, e a tese dele foi pensada para o direito inglês, em que há tribunais, seguros e Estado. A semelhança não prova parentesco. Mas mostra que a frase curta do versículo — pagará, devolverá — contém uma resposta filosófica a uma pergunta que ainda se discute: a reparação é o que continua de um dever, e não o começo de outro.
7. Aplicações Práticas
Quem causa um prejuízo sem querer costuma querer resolver com desculpas, ou com um gesto. O versículo pede outra coisa: devolver o valor. A desculpa pode vir junto, mas não substitui a conta. Quem bate no carro de outra pessoa, quebra um objeto emprestado ou deixa um vazamento estragar o apartamento de baixo está dentro desta lógica.
A regra também corre no sentido contrário. A vítima tem direito ao que perdeu, não a mais. A leitura rabínica do fim do versículo impede que o dono do boi fique com a carcaça e com o valor inteiro do animal vivo. Quem recebe uma indenização e aproveita para lucrar com o acidente sai da justiça e entra no negócio.
E há um detalhe que a leitura de Ramban torna prático: depois do dano, quem ficou com o que sobrou tem de cuidar disso. O dono do boi morto não pode deixá-lo apodrecer na cova e cobrar o valor cheio. O cuidado não é só de quem causou o dano.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que não há multa, como no furto?
Porque não houve intenção. O código distingue com cuidado. Quem rouba um boi e o mata paga cinco bois por um (Êxodo 22:1); quem deixa uma cova aberta e mata o boi de alguém paga um. A diferença não está no tamanho do prejuízo, que é o mesmo animal; está no que a pessoa quis. A lei pune o dolo e repara o descuido.
E se o dono da cova não tiver como pagar?
O versículo não diz. Em outro lugar o código prevê que o ladrão sem recursos “será vendido pelo seu furto” (Êxodo 22:3). Mas o dono da cova não é ladrão, e a lei não diz que a dívida de um descuido levava à servidão. Se levava ou não, o texto não permite decidir.
O dono do boi pode recusar a carcaça e exigir o valor inteiro?
Pela leitura rabínica, não: a carcaça é dele desde a morte, e ele a recebe pelo valor que ela tem. Pela leitura de Rashbam, a pergunta nem se coloca, porque a carcaça vai para quem pagou. Nas duas, o que não se admite é a vítima ficar com as duas coisas.
E se o boi que caiu era excepcional — um touro de raça, um boi treinado?
O versículo manda devolver “o valor”, e o valor é o daquele animal, não o de um boi médio. É isso que diferencia esta lei da indenização fixa do escravo chifrado, trinta siclos qualquer que fosse o escravo (Êxodo 21:32). Para o animal, a lei não tem tabela: avalia-se o que se perdeu.
9. Conexão com Outros Textos
Êxodo 22:6 — “Se arrebentar um fogo e se prender nos espinhos, de modo que sejam destruídas as medas de trigo, ou as messes, ou o campo, aquele que acendeu o fogo, sem dúvida, fará restituição.”
O fogo é o quarto dos “pais” de dano da Mishná, e a lei dele tem a mesma forma da cova: alguém começou uma coisa perigosa, não a controlou, e paga pelo que ela destruiu. O verbo é o mesmo “pagará” do Êxodo 21:34.
Levítico 24:18 — “e quem matar a um animal por este fará restituição: vida por vida.”
O Levítico usa a fórmula do talião para o animal: “vida por vida”. Mas ali, como no Êxodo, a “vida” do animal se paga com outro animal ou com o valor dele. A fórmula que para o ser humano soa como vingança, para o boi é só uma conta.
Êxodo 22:13 — “Se for dilacerado, trá-lo-á por testemunho; não fará restituição pelo que tiver sido dilacerado.”
Aqui a carcaça serve de prova. O pastor que cuidava do animal de outro e o perdeu para uma fera leva o que sobrou como testemunho, e fica isento. A carcaça que no Êxodo 21:34 entra na conta do pagamento, no Êxodo 22:13 entra no tribunal como evidência.
Levítico 6:5 — “restituí-lo-á por inteiro e a isso acrescentará a quinta parte; a quem pertence, lho dará no dia em que se confessar culpado.”
O contraste ajuda a ler o Êxodo. Quando há fraude ou juramento falso, a restituição vem com um acréscimo de vinte por cento e com uma oferta pela culpa. Na cova não há acréscimo: só o valor. O tamanho da conta distingue quem enganou de quem se descuidou.
Gênesis 31:39 — “Nunca lhe trouxe o que as feras despedaçaram; eu mesmo arcava com o prejuízo. De mim você exigia o que era furtado, tanto de dia como de noite.”
Jacó reclama de Labão por ter sido tratado com uma regra mais dura do que a da lei: pagava até o que as feras matavam. A queixa mostra que a fronteira entre o que se paga e o que não se paga era conhecida e discutida antes de ser escrita.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
o dono da cova pagará: devolverá o valor em dinheiro ao dono do animal, e o animal morto será dele.
Texto hebraico
בַּעַל הַבּוֹר יְשַׁלֵּם כֶּסֶף יָשִׁיב לִבְעָלָיו וְהַמֵּת יִהְיֶה־לּוֹ׃
Transliteração
ba'al ha-bor yeshallem, kesef yashiv li-v'alav, ve-ha-met yihyeh-lo.
Análise palavra por palavra
בַּעַל הַבּוֹר — ba'al ha-bor, “o dono da cova”.
Ba'al é “dono”, “senhor”, “marido”; aqui está ligado à palavra seguinte, numa construção que o hebraico usa para dizer “o X de Y”: o dono-da-cova. A palavra serve para posse de coisas (o dono do boi, Êxodo 21:28), de casa (Êxodo 22:8) e de mulher. Com ela, o texto dá um proprietário a um buraco. Ônquelos, a tradução aramaica oficial da Torá, verte por marei de-guba, “o senhor da cova”, com a mesma palavra aramaica para “senhor” que se usa para o dono do escravo.
יְשַׁלֵּם — yeshallem, “pagará”.
O verbo shalem na forma intensiva (Piel), imperfeito, terceira pessoa do singular. Na forma simples, a raiz quer dizer estar inteiro, completo; na intensiva, tornar inteiro, completar uma conta, indenizar. O parentesco com shalom e o uso do verbo nas leis de restituição estão no estudo de Gênesis 44:4. Neste trecho do código ele aparece em quase todo caso de dano: Êxodo 21:36; 22:1, 3, 5, 6. É o verbo-chave das leis de propriedade, como “certamente será morto” é o das leis de sangue.
כֶּסֶף יָשִׁיב — kesef yashiv, “dinheiro devolverá”.
Kesef é a prata, e por extensão o dinheiro: a mesma palavra serve para o metal e para o pagamento, como no português “prata” em certos usos. Vem antes do verbo, na posição de ênfase: é prata que ele devolverá.
Yashiv é o verbo shuv, “voltar”, na forma causativa (Hifil, a que dá ao verbo o sentido de “fazer” a ação): “fazer voltar”, “devolver”. É o verbo da prata devolvida nos sacos dos irmãos de José e de toda restituição. O versículo junta dois verbos para o mesmo ato — completar a conta e fazer voltar o valor — e foi essa duplicação que Rashi leu como ampliação: o que volta pode ser qualquer coisa de valor.
לִבְעָלָיו — li-v'alav, “ao seu dono”.
A mesma palavra ba'al, agora no plural, com a preposição “a” e o pronome “seu”: literalmente “aos seus donos”. O plural com sentido singular é o uso normal nas leis do Êxodo para o proprietário de um animal (Êxodo 21:29; 22:14-15). Os gramáticos o comparam a outros plurais que indicam posição de autoridade. O versículo fica assim com dois “donos”, um no começo e outro no meio: o dono da cova paga ao dono do animal.
וְהַמֵּת — ve-ha-met, “e o morto”.
Met é o particípio do verbo “morrer”, usado como substantivo: “o que está morto”. Não há palavra para “carcaça” aqui; o texto diz simplesmente “o morto”. A mesma forma volta nos dois versículos seguintes (Êxodo 21:35, 36), e é ela que amarra os três casos: em cada um, o texto diz o que acontece com “o morto”.
יִהְיֶה־לּוֹ — yihyeh-lo, “será para ele”.
Yihyeh, “será”, do verbo hayah, “ser”, no imperfeito. Lo, “para ele”, a preposição “para” com o pronome da terceira pessoa. Em hebraico, “ser para alguém” é a forma comum de dizer “pertencer a alguém”: o hebraico bíblico não tem um verbo “ter”. A ambiguidade do versículo está toda nesta sílaba: “ele” pode ser o dono da cova, o último sujeito de verbo, ou o dono do animal, o último nome da frase. Ônquelos traduz dileh, “dele”, e mantém a ambiguidade.
Depois desta palavra, os manuscritos hebraicos trazem um sinal de parágrafo: o caso da cova termina aqui, e o próximo começa num novo bloco do texto.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a responsabilidade pode ter dono mesmo quando a coisa não tem. O texto chama de “dono da cova” quem cavou em terra alheia, e a tradição concluiu que ninguém se livra de um perigo renunciando a ele. A propriedade, aqui, é a forma jurídica de dizer “isto é problema seu”.
A segunda é que, sem intenção, a lei não castiga: restitui. O pagamento é exato e pode ser feito com qualquer coisa de valor. A conta não olha para o culpado, olha para o que voltou ou não voltou à vítima.
A terceira é que o versículo deixa uma pergunta que o hebraico não resolve — de quem é a carcaça —, e as duas respostas, a do sentido simples e a dos sábios, revelam duas maneiras de pensar a reparação. Numa, quem paga compra o que sobrou. Na outra, quem perdeu continua dono do que é seu, e o pagamento só cobre a diferença. Nas duas, ninguém sai do acidente mais rico do que entrou.













