Se o boi de alguém ferir o boi do seu próximo, e este morrer, venderão o boi vivo e repartirão o valor; e também repartirão o morto.
1. Introdução
Dois bois de donos diferentes se encontram no pasto, um fere o outro, e o ferido morre. Ninguém tem culpa: o boi que feriu não tinha fama de bravo, e nenhum dos donos fez nada errado. A lei manda vender o boi vivo, repartir o dinheiro e repartir também o morto — os dois donos dividem o prejuízo ao meio. É quase a mesma regra das Leis de Eshnunna, escritas séculos antes, e a tradição rabínica tirou dela todo o sistema da “meia indenização”. Tirou também, das palavras “do seu próximo”, uma distinção entre o boi do israelita e o boi do estrangeiro, que os próprios rabinos registraram como incômoda.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma regra mais velha que Israel
Este é o versículo do Êxodo que tem o paralelo mais exato em todo o direito antigo. O parágrafo 53 das Leis de Eshnunna, cidade da Mesopotâmia, diz praticamente a mesma coisa com quase as mesmas palavras, e a comparação está feita no estudo de Êxodo 20:22. O que ela mostra para este versículo é a idade da regra: o caso do boi contra boi, com a solução de dividir o vivo e o morto, circulou entre escribas e juízes do Oriente por séculos antes de entrar no código de Israel. A solução não foi inventada aqui. Foi recebida e mantida.
Bois que brigam
Quem cria gado sabe que o caso é banal. Bois e touros de rebanhos diferentes, levados ao mesmo pasto ou ao mesmo bebedouro, disputam espaço, e o mais forte empurra, chifra, derruba. Numa aldeia antiga, onde o pasto era comum e os animais de várias famílias andavam juntos, a briga entre animais acontecia sem que ninguém visse começar. E onde ninguém viu, ninguém sabe qual dos dois provocou.
O mesmo pasto gerava a briga dos homens. O Gênesis conta duas: entre os pastores de Abrão e os de Ló (Gênesis 13:7) e entre os pastores de Isaque e os de Gerar, por causa de poços (Gênesis 26:20). A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) lê a lei do boi contra boi nessa chave: ela existe para evitar que a morte de um animal vire rixa, às vezes mortal, entre os donos. Uma regra fixa, conhecida de antemão, tira do acidente a necessidade de achar um culpado.
O mercado como avaliador
A lei não manda os juízes fixarem um preço. Manda vender. O boi vivo vai ao mercado, e o preço que ele alcançar é o que se reparte. A solução evita a discussão sobre quanto o boi valia: vale o que alguém pagar por ele. Pressupõe uma aldeia com compradores, uma feira, um vizinho interessado. E tem um custo que a lei aceita: o dono do boi que sobreviveu perde o seu animal, mesmo sem culpa nenhuma, e fica com metade do valor dele em prata.
3. Análise Teológica do Versículo
“Se o boi de alguém ferir o boi do seu próximo”
Nos versículos anteriores, o boi que mata uma pessoa “chifra”. Aqui o verbo muda: o boi “fere”, “golpeia” — em hebraico, yiggof (“golpear”), e não yiggach (“chifrar”). A Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), no tratado Nezikin, seção 12, conclui que este verbo é mais largo: ele inclui chifrar, empurrar com a cabeça, empurrar com o corpo, deitar por cima, dar coice e morder. É a opinião de Rabi Yoshiyah. Abba Chanan, em nome de Rabi Eliezer, aceita a lista menos a mordida, que ele tira do versículo seguinte. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) resume: o verbo quer dizer qualquer golpe de uma coisa contra outra. A lei não se importa com a maneira como um boi matou o outro.
Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) registra uma leitura curiosa de Ben Zuta, um intérprete caraíta (da corrente judaica que rejeitava a tradição oral dos rabinos). Ben Zuta entendia “seu próximo” como adjetivo do boi: “o boi que é seu vizinho”. Ibn Ezra responde que a construção hebraica é a mesma dos dois lados — “o boi de alguém”, “o boi do seu próximo” — e acrescenta: “um boi não tem próximo; só Ben Zuta tem”.
“do seu próximo”
A palavra “próximo” é a mesma do Decálogo — “não cobiçarás o boi do teu próximo” (Êxodo 20:17). A tradição rabínica tirou dela uma regra que a própria tradição achou difícil de defender.
A Mekhilta lê “seu próximo” como exclusão: ficam fora o boi do samaritano, o boi do estrangeiro não judeu e o boi do estrangeiro residente que não se converteu. A Mishná transforma isso numa regra assimétrica: se o boi de um israelita ferir o boi de um não judeu, o dono está isento; se o boi de um não judeu ferir o boi de um israelita, o dono paga o dano inteiro, seja o boi manso ou bravo (Mishná Bava Kamma 4:3). A mesma Mishná isenta também o boi do templo, nos dois sentidos, pela mesma palavra: o boi consagrado não é “do próximo”.
O Talmude da Babilônia registra o incômodo na própria discussão: “isto é difícil de qualquer lado que se olhe”. Se “do seu próximo” é para ser lido ao pé da letra, o boi do não judeu que fere o do israelita também devia estar isento; se não é, o israelita também devia pagar (Bava Kamma 38a). Duas justificativas são dadas. Rabi Abbahu lê Habacuque 3:6 — “ele olhou e fez tremer as nações” — como se Deus tivesse visto que os povos não cumpriam as sete leis dadas aos filhos de Noé e tivesse liberado os bens deles. Rabi Yochanan tira o mesmo de Deuteronômio 33:2. São leituras feitas para sustentar uma regra que já existia, e o próprio texto talmúdico as apresenta como tal.
O Talmude de Jerusalém traz outra explicação, também em nome de Rabi Yochanan: “segundo as leis deles”. O direito dos outros povos não conhecia a meia indenização, e a regra apenas aplicaria ao estrangeiro o direito que ele mesmo usava (Yerushalmi Bava Kamma 4:3). E conta uma história. O governo romano mandou dois funcionários estudarem a Torá com Rabban Gamaliel. Aprenderam a Bíblia, a Mishná, a lei e os relatos. Ao ir embora, disseram que tudo era belo e digno de louvor, exceto algumas regras, e citaram entre elas esta do boi. “Mas não vamos contar isso ao governo.” O Talmude de Jerusalém acrescenta que, por causa da conversa, Rabban Gamaliel proibiu tirar proveito do que fosse roubado de um não judeu, “por causa da profanação do Nome” — isto é, para que a lei de Israel não fosse vista como injusta. A versão do Sifrei Devarim (comentário rabínico ao Deuteronômio), seção 344, conta a mesma visita, centrada no roubo.
Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e rabino de Córdova e do Cairo, 1138-1204), no código Mishné Torá (Leis dos Danos à Propriedade 8:5), adota a explicação da reciprocidade: os outros povos não responsabilizam ninguém pelos danos do seu gado, e por isso se julga o caso pelas leis deles. Quanto ao dono estrangeiro pagar o dano inteiro, Maimônides diz que é uma sanção, porque, sem ela, eles não guardariam os animais. O Raavad (Abraão ben David de Posquières, crítico de Maimônides, do século XII) contesta o fato: os outros povos também tomavam animais em pagamento de danos.
O que se pode dizer com segurança é o seguinte. O versículo diz “próximo”, e a palavra, na Torá, designa em geral o compatriota, o vizinho, o outro com quem se vive. A regra assimétrica não está no versículo; está na leitura rabínica dele. E a tradição que a fixou também guardou, ao lado dela, a objeção dos romanos, o “difícil de qualquer lado” do Talmude, e uma correção de Rabban Gamaliel em matéria vizinha. Não é possível decidir, pelo versículo, se “próximo” aqui quer excluir alguém ou só nomear o vizinho do caso comum.
“e este morrer”
O caso exige a morte. Se o boi ferido só se machuca, a lei não diz nada aqui. A tradição aplicou a mesma divisão aos ferimentos, mas o texto trata apenas do caso extremo, em que os dois donos ficam com um boi vivo e um morto.
“venderão o boi vivo e repartirão o valor”
A solução parece simples, e só funciona num caso. A Mekhilta percebe isso: se os dois bois valiam o mesmo, dividir o vivo e o morto ao meio faz cada dono perder exatamente a metade do prejuízo. Mas se o boi que matou valia muito mais que o morto, a divisão daria ao dono do boi morto mais do que ele perdeu. E se valia muito menos, a divisão daria ao dono do boi que matou um lucro. “Qual é o caminho de quem causa o dano? Perder, e não ganhar. E o de quem sofre? Receber o seu dano, e não mais.” Logo, conclui a Mekhilta, o versículo fala de bois de mesmo valor. Rabi Yehudá, o Príncipe, que fechou a Mishná, chega à mesma conclusão por outro caminho: o texto manda dividir ao meio o vivo e o morto, e isso só é justo se forem iguais.
Daí sai a regra geral, que Rashi expõe longamente. O boi que fere pela primeira vez, sem fama de bravo, faz o dono pagar metade do dano — nem mais, nem menos. O versículo dá o caso dos bois iguais porque nele a metade aparece sozinha, sem conta. Nos outros casos, faz-se a conta. A Mekhilta dá a tabela: boi de cem que mata boi de cem, o dono do morto leva metade do vivo; boi de cem que mata boi de duzentos, leva o vivo inteiro, que é a metade do dano; boi de duzentos que mata boi de cem, leva um quarto do vivo, que também é a metade do dano.
Rashi acrescenta uma segunda regra, que ele tira da forma da frase. Por que o texto diz “venderão o boi vivo” e não simplesmente “pagará a metade”? Porque o boi manso só responde com o próprio corpo. Se ele vale menos que a metade do dano, o dono do boi morto fica com ele e perde o resto; o dono do boi que feriu não tira nada do próprio bolso. O boi sem culpa paga até onde ele vale, e não além.
Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) chega a uma solução parecida sem a tabela rabínica: a divisão não seria matemática, mas proporcional, fixada pelos juízes conforme o valor dos animais e as circunstâncias.
“e também repartirão o morto”
A Mishná registra a discussão sobre esta segunda metade (Mishná Bava Kamma 3:9). Rabi Meir propõe o caso típico: boi de duzentos mata boi de duzentos, e a carcaça não vale nada; o dono do boi morto leva metade do vivo, cem, e é disso que fala o versículo. Rabi Yehuda responde que a regra está certa, mas a leitura está errada: assim se cumpre “venderão o boi vivo e repartirão o valor”, mas não se cumpre “também repartirão o morto”, porque não há o que repartir. O caso do versículo, diz ele, é o do boi de duzentos que mata boi de duzentos, com a carcaça valendo cinquenta: cada dono fica com cem do vivo e vinte e cinco do morto. Os dois saem com cento e vinte e cinco. Cada um perdeu setenta e cinco — a metade exata dos cento e cinquenta que a morte destruiu.
Ônquelos, a tradução aramaica oficial da Torá, decide a questão na tradução: em vez de “repartirão o morto”, escreve “repartirão o valor do morto”. A carcaça não é cortada ao meio; é vendida, e o dinheiro é dividido.
O que a frase faz, no fim, é recusar duas saídas fáceis. A primeira seria deixar o prejuízo onde ele caiu: o boi de um morreu, azar dele. A segunda seria procurar um culpado e pôr tudo na conta dele. A lei não faz nem uma coisa nem outra. Ellicott (comentário inglês do século XIX, organizado por Charles Ellicott) resume: quando não há culpa do dono, o prejuízo se reparte igualmente. Os dois donos são tratados como sócios de um acidente que nenhum dos dois quis. O prejuízo da morte de um boi deixa de ser de um dono e passa a ser do encontro entre os dois.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois donos. O texto não os nomeia: “alguém” e “o seu próximo”. São vizinhos, presumivelmente da mesma aldeia, cujos animais andam pelos mesmos lugares. No fim do caso, os dois estão na mesma situação: cada um com metade de um boi vivo vendido e metade de um boi morto.
Os dois bois. O que fere e o que morre. O primeiro não tem fama de bravo — se tivesse, o caso seria o do versículo seguinte. O segundo é a vítima, mas o texto não pergunta se ele provocou.
O comprador. Personagem invisível do versículo. Sem alguém disposto a pagar pelo boi vivo e pela carcaça, a regra não funciona.
Os rabinos do caso. Rabi Yoshiyah e Abba Chanan, que discutem o que o verbo “ferir” inclui; Rabi Meir e Rabi Yehuda, discípulos de Rabi Akiva, no século II, que discutem a carcaça; Rabi Yehudá, o Príncipe, que editou a Mishná por volta do ano 200; Rabi Abbahu e Rabi Yochanan, mestres da terra de Israel no século III, que justificam a regra do boi do estrangeiro.
Rabban Gamaliel e os dois romanos. Rabban Gamaliel II foi o chefe do tribunal rabínico em Yavne depois da destruição do templo, no fim do século I. A história dos funcionários romanos que estudaram com ele aparece nas duas versões do Talmude e no Sifrei Devarim, com detalhes diferentes. É provavelmente lenda, e é discutido se o mestre era ele ou um descendente com o mesmo título; como lenda, guarda o modo como os próprios rabinos imaginavam um olhar de fora sobre a sua lei.
Ben Zuta. Intérprete caraíta do século X, conhecido quase só pelas citações de Ibn Ezra, que quase sempre o cita para discordar.
5. Pontos de Ensino
1. Há acidentes sem culpado. A lei admite um dano em que ninguém errou. Não inventa um culpado para ter a quem cobrar.
2. O prejuízo sem culpa não fica só com quem o sofreu. A lei não deixa o dono do boi morto sozinho com a perda. Divide-a com o dono do outro boi, que não fez nada de errado mas cujo animal estava no encontro.
3. Uma regra conhecida evita a briga. A solução fixa — vende-se, reparte-se — dispensa a discussão sobre quem provocou. A paz entre vizinhos vale mais do que a apuração exata de cada caso.
4. Ninguém lucra com o acidente. A leitura rabínica dos bois de mesmo valor existe para impedir que um dos donos saia ganhando. A justiça do caso está em repartir a perda, não em redistribuir bens.
5. A interpretação também tem história. O mesmo versículo que reparte a perda entre vizinhos foi lido para excluir o estrangeiro da proteção. Saber disso faz parte de ler o versículo, e a própria tradição que fez a leitura guardou as objeções a ela.
6. Aspectos Filosóficos
Quando um boi mata o outro, quem causou o dano? A resposta parece óbvia: o boi que feriu. Mas se o outro boi não estivesse ali, não haveria dano nenhum. O encontro precisou dos dois.
Ronald Coase (1910-2013), economista britânico que fez carreira nos Estados Unidos e recebeu o prêmio Nobel de economia em 1991, construiu sobre essa observação um dos artigos mais citados da história do direito: “The Problem of Social Cost” (“O problema do custo social”, 1960). O exemplo dele é quase bíblico: um criador de gado e um agricultor vizinhos; o gado escapa e come a plantação. A pergunta comum é como fazer o criador pagar pelo dano. Coase diz que a pergunta está mal posta, porque o problema é recíproco. Impedir o dano ao agricultor causa um dano ao criador, que terá de cercar o pasto ou reduzir o rebanho. A pergunta verdadeira é outra: o criador deve ter o direito de prejudicar o agricultor, ou o agricultor deve ter o direito de prejudicar o criador?
Daí sai a conclusão que George Stigler, outro economista, batizou de “teorema de Coase”: se os vizinhos pudessem negociar sem custo nenhum, chegariam ao mesmo arranjo eficiente, qualquer que fosse a regra de responsabilidade. Quem valoriza mais o uso pagaria ao outro. A lei só faz diferença porque negociar custa — tempo, desconfiança, advogados, a impossibilidade de saber o que o outro realmente quer. Onde negociar custa, a regra que a lei escolhe decide quem fica com o prejuízo, e decide também quem tem motivo para tomar cuidado.
O boi contra boi do Êxodo é o caso recíproco mais puro que se pode imaginar. Não há agricultor e criador, com atividades diferentes; há dois criadores, dois bois, e um encontro em que ninguém sabe quem começou. A lei recusa escolher um lado. Ela divide. Uma leitura econômica — que é dos intérpretes, não do próprio Coase, que não escreveu sobre o Êxodo — diria que a divisão dá aos dois donos o mesmo motivo para vigiar os seus animais, porque cada um sabe que vai arcar com metade de qualquer acidente. E diria que uma regra fixa, conhecida de antemão, poupa os vizinhos da negociação mais cara de todas: a que começa depois de um animal morto.
O contraste com o direito moderno é instrutivo. Oliver Wendell Holmes, juiz da Suprema Corte americana, escreveu em The Common Law (“O direito comum”, 1881) que “o princípio geral do nosso direito é que a perda por acidente deve ficar onde caiu”. Sem culpa, sem indenização: o boi morto seria problema do dono dele. O Êxodo, quase três mil anos antes, preferiu a solução contrária para este caso: sem culpa, a perda não fica onde caiu; fica no meio.
7. Aplicações Práticas
O caso tem equivalentes diretos. Dois carros batem num cruzamento sem sinalização, sem testemunha, e cada motorista jura que o outro avançou. Duas famílias dividem um muro que cai com a chuva. Dois sócios perdem dinheiro num negócio que nenhum dos dois conduziu mal. Em todos, a pergunta “de quem é a culpa?” não tem resposta, e insistir nela só produz briga.
A lei do Êxodo sugere outra pergunta: como dividir o que se perdeu? A resposta dela é a metade, mas o princípio vai além do número. Quando o dano vem do encontro e não da falta de alguém, reparti-lo é mais justo do que deixá-lo inteiro sobre quem teve o azar de sofrê-lo.
O versículo pede também que a divisão não vire lucro. Quem recebe a sua metade não deve sair do acidente melhor do que entrou. A regra dos rabinos, de que ninguém ganha com o dano, vale para qualquer acordo entre vizinhos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que vender o boi vivo, se ele não fez nada de errado?
Porque é o único jeito de transformar o boi em valor que se possa dividir. O dono do boi que sobreviveu poderia ficar com ele e pagar metade do valor em prata; o hebraico manda vender, mas na discussão rabínica a venda já virou conta: o que se divide é o valor, e o boi pode ficar com o dono. O que a lei garante é o resultado: os dois donos repartem a perda.
E se o boi ferido só se machucou?
O versículo trata só da morte. A tradição rabínica aplicou ao ferimento a mesma regra da meia indenização: o dono do boi que feriu paga metade do valor que o boi ferido perdeu. É uma extensão razoável, mas está fora do texto.
A regra vale também para outros animais?
O versículo fala de bois, porque o boi era o animal que brigava e valia mais. Pelo mesmo raciocínio que a tradição aplicou à cova, de que o boi nomeado vale pelo caso comum, a regra valeria para qualquer animal doméstico. O texto não diz isso; a leitura rabínica, sim.
E se os dois bois se feriram e os dois morreram?
O versículo não prevê o caso. Pela lógica da divisão, cada dono perdeu um boi, e não haveria o que repartir: cada perda ficaria onde caiu. É uma das situações em que a solução do Êxodo e a de Holmes chegariam ao mesmo resultado, por caminhos diferentes.
9. Conexão com Outros Textos
1 Reis 3:22 — “A outra mulher respondeu: Não é assim; mas o vivo é meu filho, e o morto é o teu. A primeira replicou: Não; mas o morto é teu filho, e o vivo é o meu. Assim falavam diante do rei.”
1 Reis 3:25 — “Dividi, disse o rei, em duas partes o menino que está vivo e dai metade a uma e metade a outra.”
O julgamento de Salomão usa o vocabulário deste versículo: um vivo, um morto, duas partes, e a palavra “metade”, da mesma raiz do verbo dividir do Êxodo. Diante de duas mães e de um caso sem testemunha, o rei aplica, de propósito, a solução da lei do boi — e é a reação da mãe verdadeira que mostra que gente não se reparte como gado. A lei que serve para dois bois sem culpado vira, nas mãos de Salomão, o teste que revela quem ama.
Êxodo 20:17 — “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”
O “boi do teu próximo” do Decálogo é o mesmo “boi do seu próximo” desta lei. O que o mandamento protege no desejo, o código protege no acidente.
Êxodo 23:4 — “Se encontrares o boi do teu inimigo ou o seu jumento desgarrado, sem falta lho reconduzirás.”
Dois capítulos adiante, o mesmo código manda devolver o boi do inimigo. O versículo mostra que a lei de Israel não limitava todo dever ao “próximo”: há uma obrigação que vale até para quem se odeia. Isso pesa na discussão sobre quem cabe no “próximo” do Êxodo 21:35.
Gênesis 13:8 — “Então Abrão disse a Ló: “Que não haja briga entre mim e você, nem entre os meus pastores e os seus, pois somos irmãos.”
A briga de pastores é o pano de fundo social da lei. Abrão resolve a de Ló dividindo a terra; a lei resolve a dos bois dividindo o prejuízo. Nos dois casos, a divisão é o preço da paz entre vizinhos.
Levítico 19:18 — “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
A palavra “próximo” é a mesma, e o paralelo da frase a define: o próximo são “os filhos do teu povo”. É o texto que sustenta a leitura restrita do “próximo” no Êxodo 21:35 — e o mesmo Levítico, poucos versículos depois, manda amar o estrangeiro “como a ti mesmo” (Levítico 19:34).
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se o boi de alguém ferir o boi do seu próximo, e este morrer, venderão o boi vivo e repartirão o valor; e também repartirão o morto.
Texto hebraico
וְכִי־יִגֹּף שׁוֹר־אִישׁ אֶת־שׁוֹר רֵעֵהוּ וָמֵת וּמָכְרוּ אֶת־הַשּׁוֹר הַחַי וְחָצוּ אֶת־כַּסְפּוֹ וְגַם אֶת־הַמֵּת יֶחֱצוּן׃
Transliteração
ve-khi-yiggof shor-ish et-shor re'ehu va-met, u-makheru et-ha-shor ha-chai ve-chatsu et-kaspo, ve-gam et-ha-met yechetsun.
Análise palavra por palavra
וְכִי־יִגֹּף — ve-khi-yiggof, “e se ferir”.
O ki abre um caso novo, como em todo o capítulo. Yiggof é o verbo nagaf, “golpear”, “ferir”, no imperfeito. O campo da raiz — o golpe que derruba, a praga que fere — está no estudo de Êxodo 12:23. Neste capítulo, o verbo já apareceu uma vez, nos homens que lutam e atingem a mulher grávida (Êxodo 21:22). Do Êxodo 21:28 ao 21:32, e de novo no 21:36, o verbo do boi é outro: nagach, “chifrar”, o golpe com os chifres. Aqui, e só aqui, o boi “golpeia”. Ônquelos mantém a distinção: traduz por yigof, e não pelo verbo de chifrar.
שׁוֹר־אִישׁ — shor-ish, “o boi de um homem”.
Construção em que a primeira palavra fica presa à segunda: “boi-de-homem”. Rashi anota o óbvio porque não era óbvio para todos: shor ish quer dizer “o boi de alguém”, e não “um boi, um homem”. Ish funciona aqui como “alguém”, sem nome.
אֶת־שׁוֹר רֵעֵהוּ — et-shor re'ehu, “o boi do seu próximo”.
Et é a partícula que marca o objeto direto, sem tradução. Re'ehu é rea, “companheiro”, “vizinho”, “próximo”, com o pronome “seu”. A palavra vem de uma raiz que significa associar-se, andar junto. É a mesma de “não cobiçarás o boi do teu próximo” (Êxodo 20:17) e de “amarás o teu próximo” (Levítico 19:18). No Êxodo, rea também designa o outro numa briga, até o egípcio (Êxodo 11:2, onde cada israelita pede objetos ao seu “próximo” egípcio). É esse uso que torna discutível a leitura que restringe a palavra ao compatriota.
וָמֵת — va-met, “e morrer”.
O verbo mut, “morrer”, no perfeito com o “e” que continua a condição. A vogal longa do “e” (va- em vez de ve-) é a que o hebraico usa antes de certas sílabas tônicas; não muda o sentido.
וּמָכְרוּ אֶת־הַשּׁוֹר הַחַי — u-makheru et-ha-shor ha-chai, “e venderão o boi vivo”.
Makheru é o verbo makhar, “vender”, no perfeito com o “e” que o faz valer como futuro, terceira pessoa do plural: “eles venderão”. O sujeito plural não é nomeado, e a leitura natural são os dois donos juntos. Ha-chai, “o vivo”, adjetivo com artigo. O versículo opõe ha-chai e ha-met, o vivo e o morto, nas duas metades, e é esse par que reaparece no julgamento de Salomão (1 Reis 3:22).
וְחָצוּ אֶת־כַּסְפּוֹ — ve-chatsu et-kaspo, “e dividirão a prata dele”.
Chatsu é o verbo chatsah, “dividir ao meio”, de onde vem chatsi, “metade”. Não é o verbo comum de repartir em várias partes; é o de cortar em duas. É o verbo de Jacó dividindo o seu acampamento em dois (Gênesis 32:7) e do “meio” da noite (Êxodo 11:4). Kaspo, “a prata dele”, isto é, o dinheiro apurado com a venda do boi vivo.
וְגַם אֶת־הַמֵּת יֶחֱצוּן — ve-gam et-ha-met yechetsun, “e também o morto dividirão”.
Gam, “também”, amarra a segunda divisão à primeira. Ha-met, “o morto”, o particípio usado como substantivo, como no versículo anterior. Yechetsun é o mesmo verbo chatsah, agora no imperfeito, com um nun final a mais. Essa terminação longa do plural aparece em textos antigos e em frases de peso, e marca aqui o fim do caso. A frase começa e termina com o mesmo verbo — dividirão… dividirão —, e a simetria da gramática é a simetria da solução.
Ônquelos acrescenta uma palavra: “e também o valor do morto dividirão”. A tradução decide o que o hebraico deixa implícito: a carcaça não se corta, vende-se.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a lei de Israel conhece o acidente puro, sem culpado, e não o trata nem como culpa de alguém nem como azar de quem perdeu. Ela o trata como um prejuízo comum aos dois envolvidos, e o reparte. É uma solução antiga, herdada de um direito anterior ao próprio Israel, e é uma solução que o direito moderno, por muito tempo, recusou.
A segunda é que a divisão tem um limite: ninguém pode ganhar com ela. Toda a construção rabínica sobre bois de mesmo valor, metade do dano e pagamento até o valor do próprio boi existe para garantir que repartir a perda não vire forma de enriquecer.
A terceira é que a palavra “próximo”, que dá ao caso a sua moldura de vizinhança, foi lida pela tradição de um modo que excluía o estrangeiro, e essa leitura deixou rastro de desconforto na própria tradição. O versículo, por si, não decide quem é o próximo. Mas o mesmo código que o escreveu manda devolver o boi do inimigo, e isso pesa contra a leitura mais estreita.













