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Êxodo 11:2

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✍️ Por Alberto Adriano·24 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 16 acessos
Fale agora aos ouvidos do povo: que cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira, objetos de prata e objetos de ouro.”
Mulher hebreia e mulher egípcia à porta de uma casa de tijolo de barro, com objetos de prata e de ouro sendo entregues.

Estudo


Fale agora aos ouvidos do povo: que cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira, objetos de prata e objetos de ouro.”

1. Introdução

No meio do anúncio da praga mais dura do livro, Deus interrompe para tratar de prata e ouro.

A instrução é breve e cada palavra dela tem consequência. O verbo é "pedir", e não "pedir emprestado" — mas a acusação de que Israel saiu roubando durou dezoito séculos, e é possível mostrar em que linha de qual tradução ela nasceu. A ordem vem com uma partícula de súplica que fez os rabinos perguntarem por que Deus estaria pedindo um favor ao seu próprio povo. E a palavra usada para o egípcio do outro lado da porta não é "vizinho": é a mesma que a lei empregará em "amarás o teu próximo". O que falta no versículo diz tanto quanto o que está nele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Em que linha de qual tradução nasceu a palavra "emprestado"

A má fama desta passagem tem endereço, e é possível apontá-lo com precisão.

O hebraico deste versículo usa o verbo comum de pedir. Ele não contém promessa de devolução, e as razões disso estão no estudo de Êxodo 3:22, onde a questão foi tratada. Mas a acusação de furto não nasceu do hebraico — nasceu de uma cadeia de traduções, e o elo inicial dela está a um versículo de distância.

Aqui, no versículo 2, todas as versões antigas trazem "pedir". A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) usa o verbo grego de solicitar; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) usa postulet, "que peça". Não há empréstimo em nenhuma das duas.

No versículo seguinte, o grego muda a mão. Ao contar que os egípcios atenderam, a Septuaginta acrescenta ao versículo 3 uma frase que o hebraico não tem: "e lhes emprestaram". Não é o verbo de Israel — é o verbo do Egito. E a Vulgata repete a operação em Êxodo 12:36, onde traduz o gesto dos egípcios por commodarent, "que emprestassem".

Há uma razão gramatical para isso, que não é invenção dos tradutores. Em Êxodo 12:36 o hebraico usa o mesmo verbo de pedir, mas numa forma causativa — algo como "fizeram-nos pedir", isto é, "atenderam ao pedido deles". Essa forma, em outros textos, também pode significar "emprestar". Grego e latim escolheram a segunda possibilidade.

O inglês fez o resto. As versões inglesas antigas, e depois a Bíblia do rei Jaime, de 1611, levaram o "emprestar" do versículo do cumprimento de volta para os versículos da ordem, e passaram a traduzir o verbo de Israel por borrow, "tomar emprestado". O leitor de língua inglesa passou a ler, em Êxodo 3:22, 11:2 e 12:35, que os hebreus pediram emprestado o que nunca devolveram.

Isso basta para fabricar um escândalo. Quem pede emprestado e some é ladrão; quem pede e recebe, não. A diferença inteira estava numa forma verbal do versículo 36 do capítulo seguinte.

A palavra que a Septuaginta acrescentou aqui

E o grego fez mais uma coisa neste versículo, que o hebraico não autoriza.

Onde o hebraico diz "fale agora aos ouvidos do povo", a Septuaginta traz "fale, portanto, em segredo, aos ouvidos do povo". A palavra "em segredo" não tem nada por trás dela no original.

O efeito é considerável. O tradutor grego entendeu — ou quis que se entendesse — que a instrução era clandestina, combinada às escondidas dos egípcios. É exatamente a moldura de que a acusação precisa. Também é o grego que acrescenta aqui as roupas, que o hebraico deste versículo não menciona. Não é possível decidir se ele harmonizava o texto com Êxodo 3:22 e 12:35 ou se lia um manuscrito diferente; o que se pode afirmar é que as duas mudanças puxam no mesmo sentido.

A acusação e as duas respostas antigas

No século II, os discípulos de Marcião — que sustentavam que o Deus do Antigo Testamento não era o Pai de Jesus — usavam esta cena como prova. Um deus que manda tomar os bens alheios, diziam, não pode ser o deus bom.

Irineu de Lyon (bispo grego radicado na Gália, cerca de 130-202), no livro IV de Contra as Heresias, respondeu de dois modos. O primeiro é o esperado: o povo serviu em escravidão abjeta, construiu cidades, enriqueceu senhores que planejavam exterminá-lo, e saiu levando pouco diante do muito que produziu.

O segundo é o que ainda hoje desconcerta quem o lê. Irineu vira o argumento contra quem o faz e diz aos acusadores que eles estão em posição pior: os cristãos possuem casas, roupas e utensílios que vieram de ganhos de avareza ou de pais pagãos, e os pagãos não lhes deviam nada — enquanto os egípcios deviam a Israel anos de trabalho. E fecha citando Mateus 7:1: "Não julguem, para que não sejam julgados".

Agostinho (bispo de Hipona, 354-430) enfrentou a mesma objeção em Contra Fausto, o maniqueu, no livro XXII, e a resposta dele é bem mais dura do que se costuma supor. Ele não ameniza: sustenta que Moisés não apenas não pecou, como teria pecado se não fizesse aquilo, porque a ordem era de Deus. E vai além — os egípcios usavam o ouro no culto dos ídolos e tinham oprimido estrangeiros fazendo-os trabalhar sem pagamento, de modo que mereciam a punição, e Israel foi o instrumento dela.

Repare no que aconteceu com a discussão. A acusação dizia que Deus mandara furtar. A resposta de Agostinho não é "não foi furto": é "foi castigo, e foi merecido".

Nenhuma das defesas antigas nega que bens mudaram de mão. Todas discutem o título com que mudaram.

3. Análise Teológica do Versículo

"Fale agora"

O "agora" da tradução esconde um problema que os rabinos levaram a sério.

A palavra hebraica que está ali é uma partícula curtíssima, de uma sílaba, que o idioma acrescenta a um pedido para suavizá-lo. Ela aparece quando alguém diz "por favor", "faça isso, peço-lhe". Em ordens de Deus a Moisés, é rara.

A escola de Rabi Yannai, no Talmude de Babilônia, no tratado Berakhot, parou nisso e fez a pergunta óbvia: por que Deus diria "por favor" a Israel?

A resposta que eles dão é uma cena. Deus diz a Moisés: peço-lhe, vá e diga a Israel — peço-lhes, peçam aos egípcios objetos de prata e de ouro —, para que aquele justo, Abraão, não venha a dizer que a parte dura da promessa foi cumprida e a parte boa, não. Em Gênesis 15:13-14, Abraão ouvira que os seus descendentes seriam escravizados e afligidos, e que depois sairiam "com grande riqueza". A escravidão veio; faltava a outra metade. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) recolhe essa leitura quase palavra por palavra no seu comentário a este versículo.

E o Talmude acrescenta um detalhe que a pregação não costuma reproduzir. Israel, diz o texto, respondeu algo como "quem dera pudéssemos sair nós mesmos". E compara: é como o preso a quem se promete soltura no dia seguinte com muito dinheiro, e que responde — soltem-me hoje e não quero nada.

Não é obrigatório concordar com a leitura para reconhecer o que ela apanha: a ordem teria sido dada a um povo que não estava interessado. Isso é hipótese de leitores antigos, e não afirmação do Êxodo — o livro não registra resposta nenhuma de Israel aqui.

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) discorda e resolve de modo seco: a partícula ali significa apenas "agora". É a leitura que a ABC segue, e a Septuaginta fez o mesmo, traduzindo por "portanto".

"aos ouvidos do povo"

O hebraico não diz "fale ao povo". Diz "fale aos ouvidos do povo", e a diferença é de registro.

A expressão pertence ao vocabulário da comunicação formal: é o que se usa quando alguma coisa é dita diante de todos, para que ninguém depois alegue não ter ouvido. Ela aparece na leitura pública da Lei e nas negociações feitas na presença de testemunhas. Não é conversa — é proclamação.

Há também a questão de quando. Moisés está diante de Faraó. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) resolve em uma linha: a ordem se executa depois que você sair da presença de Faraó. É solução razoável, e o texto não a confirma nem a exclui.

Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) acrescenta um motivo prático para que a ordem precisasse ser proclamada: o povo hesitaria. Quem está prestes a fugir não quer sair carregando o que pode fazer o dono correr atrás.

"que cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira"

Duas mudanças em relação à primeira vez em que essa instrução foi dada, e as duas importam.

A primeira: os homens entraram. Em Êxodo 3:22, quem pedia eram só as mulheres — o verbo estava no feminino e tudo o que seguia também. Aqui há um homem e uma mulher, cada um com o seu par do mesmo sexo.

Os comentaristas explicam de modos diferentes. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) trata a diferença como precisão: a ordem fica mais explícita quando chega a hora de executá-la. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) lembra um dado material — no Egito, objetos de ouro e prata eram usados por homens tanto quanto por mulheres. Nenhuma dessas explicações está no texto. O que está é a mudança.

A segunda, e é a mais forte: a palavra escolhida para o egípcio.

Em Êxodo 3:22 o outro lado era "a vizinha" e "a que mora na casa" — palavras de proximidade física, de porta ao lado. Aqui a palavra é outra: re'a ("companheiro", "próximo", o outro com quem se tem uma relação reconhecida).

É a palavra dos mandamentos. É ela que está em "não cobiçarás a casa do teu próximo", no Decálogo, e em "amarás o teu próximo como a ti mesmo", em Levítico 19:18. É também a palavra que a lei usa para o companheiro de quem não se deve reter o salário nem o penhor.

O Êxodo, portanto, chama o egípcio do outro lado da porta pelo nome que a Lei dará ao membro da comunidade. Não é "o estrangeiro", não é "o inimigo", não é "o opressor": é o próximo.

A palavra é comum, porém, e aparece em contextos de todo tipo — significa simplesmente o outro, aquele com quem se lida. Concluir daí que o texto constrói uma ironia deliberada é leitura possível, e não conclusão obrigatória. O dado é verificável: havia outras palavras disponíveis, e Êxodo 3:22 usou duas delas.

E o desconforto não desaparece. Quem entrega os objetos não é o Estado que impôs a servidão. É o companheiro — a pessoa com quem se convivia.

"objetos de prata e objetos de ouro"

Dois itens, e o que não está aqui é tão visível quanto o que está.

Não há roupas. Elas aparecem em Êxodo 3:22 e voltarão em Êxodo 12:35, e faltam justamente na ordem dada às vésperas. Os tradutores gregos notaram a falta e a preencheram.

Não há crianças. A instrução de Êxodo 3:22 mandava pôr os objetos sobre os filhos e as filhas. Aqui, nada.

E não há a palavra "despojar". Esta é a ausência maior. Em Êxodo 3:22 a ordem terminava com o verbo do saque — "e assim despojarão o Egito" —, e em Êxodo 12:36 ele reaparece para dizer o que aconteceu. No meio dos dois, aqui, a ordem é dada sem nomear o resultado.

O versículo que manda pedir é o único dos três que não chama aquilo de despojo. Se a economia é deliberada, o texto não diz; mas quem quiser discutir a moral da cena precisa saber que a palavra dura não está na ordem — está na moldura que a cerca.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O povo, que aparece aqui como destinatário e não como personagem

Israel não fala neste versículo, não responde e não aparece agindo. É mencionado como quem vai receber um recado — "os ouvidos do povo" — e some outra vez. O cumprimento só será registrado em Êxodo 12:35, com uma frase curta: fizeram conforme a palavra de Moisés.

Entre a ordem e o cumprimento há um capítulo inteiro, e nele o povo terá outras coisas para fazer: escolher um cordeiro, marcar as portas, comer de pé.

O egípcio comum, que é o outro lado da instrução

A figura que este versículo introduz não tinha aparecido assim no ciclo das pragas. Não é Faraó, não é um oficial da corte, não é um mago. É um homem e uma mulher quaisquer, que moram perto, que têm objetos de valor e a quem se vai pedir.

O Êxodo não diz nada sobre eles — nem que tivessem lucrado com a servidão, nem que a aprovassem, nem que a lamentassem. Diz apenas que serão procurados.

Moisés, como porta-voz para dentro

Todas as falas de Moisés no capítulo 10 foram dirigidas ao rei. Esta ordem é a primeira, em muitos capítulos, que o manda falar ao próprio povo. Ele está no palácio, e recebe uma tarefa que só pode ser executada fora dele.

Abraão, citado por uma tradição posterior

Abraão não está nesta cena, mas entrou na discussão dela por causa de Gênesis 15:13-14, onde lhe foi dito que os descendentes seriam afligidos e sairiam com grande riqueza. A leitura rabínica tratada no item 3 faz dessa promessa a razão da partícula de súplica. O Êxodo, por sua vez, não cita Abraão aqui: a ligação é da tradição interpretativa, não do versículo.

A prata e o ouro, que voltarão

Os objetos que este versículo manda pedir reaparecem duas vezes no livro, e em papéis opostos. Em Êxodo 25 e seguintes, o ouro e a prata entram na construção do santuário portátil. Em Êxodo 32, viram o bezerro.

O Êxodo não comenta a coincidência de material, e este estudo não vai transformá-la em tese. Ela é observável, e o que se pode afirmar é que o metal que sai do Egito nesta ordem é o mesmo que abastece as duas cenas.

5. Pontos de Ensino

Uma acusação pode viver séculos apoiada numa palavra errada

A ideia de que Israel saiu do Egito com bens tomados sob falso pretexto sustentou polêmicas do século II ao século XX. Ela depende inteiramente de um verbo que não está no hebraico, e que entrou por uma escolha de tradutor num versículo vizinho. O caso serve de medida do tamanho que um erro de tradução pode alcançar.

O texto manda pedir, e pedir supõe que o outro possa dizer não

O versículo não manda tomar, não manda exigir e não manda enganar. Manda pedir. O Êxodo não informa se algum egípcio recusou, e a ausência dessa informação é do texto, não deste estudo.

A ordem é dada antes de a saída estar garantida

Quando Moisés recebe esta instrução, a décima praga ainda não aconteceu e Faraó ainda não cedeu. Pedir prata e ouro naquele momento é agir como quem já está de partida — e é isso que a leitura rabínica apanha ao imaginar um povo que preferiria sair sem nada.

A palavra usada para o egípcio é a dos mandamentos

O texto poderia ter dito "o estrangeiro", "o senhor", "o opressor". Disse "o companheiro". Quem ensina esta cena como confronto entre dois blocos hostis está contrariando a palavra que o próprio versículo escolheu.

O que falta na ordem aparece na moldura

Nem roupas, nem filhos, nem a palavra "despojar". Quem discute a moral desta cena precisa notar em que versículo cada termo está — porque a ordem propriamente dita é a mais sóbria das três formulações do assunto no livro.

6. Aspectos Filosóficos

Quem paga a conta de uma injustiça que não cometeu?

Esta é a pergunta que o versículo levanta e não responde, e ela não é antiga nem religiosa: é atual e prática. Quando um Estado causa um dano, quem repara? O Estado tem cofre próprio, mas o cofre é feito do que se tira dos seus habitantes. No fim, a reparação sai do bolso de pessoas que, individualmente, podem não ter feito nada.

No caso deste versículo, a pergunta fica ainda mais aguda. Quem entrega os objetos de prata é uma mulher do outro lado do muro. Ela não decidiu a política de trabalho forçado. Ela não é Faraó.

O autor que enfrentou isso de frente

Hugo Grócio (1583-1645, jurista e filósofo holandês) escreveu De Jure Belli ac Pacis ("Do direito da guerra e da paz", 1625) num continente destroçado por uma guerra de trinta anos. Ele queria uma coisa modesta e difícil: estabelecer que, mesmo entre inimigos, há regras — e que elas valem porque decorrem da razão, e não porque alguém as impôs.

No meio disso, Grócio encara exatamente o nosso problema, sob um título que soa estranho ao ouvido moderno: o de saber em que medida os súditos respondem pela dívida do governante.

A distinção que ele faz

Grócio separa duas coisas que a linguagem corrente mistura.

A primeira é a culpa: quem fez, quem mandou fazer, quem consentiu. Essa não se transmite. O súdito que não participou não é culpado do ato do seu rei, e Grócio insiste nisso.

A segunda é a obrigação de reparar, que segue outra lógica. Quem detém um bem que só existe por causa de um dano causado a outro tem, segundo ele, obrigação de restituir — não por ter feito o mal, mas por estar com o que veio dele. É o mesmo princípio que faz o herdeiro de boa-fé devolver o que o morto havia tomado indevidamente.

E Grócio acrescenta um limite severo: essa obrigação alcança bens, nunca pessoas. Pode-se cobrar o patrimônio de quem não é culpado; não se pode puni-lo. A distinção é a razão de ser do livro.

Onde o versículo encaixa

Encaixa, primeiro, porque o texto não acusa a mulher egípcia de nada. Não diz que ela oprimiu, não diz que aprovou, não pede que ela se arrependa. Trata-a apenas como quem tem objetos de prata em casa. Encaixa, segundo, porque o que se pede são bens, e só bens: ninguém é levado, ninguém é ferido, ninguém é punido nesta ordem.

E falha no ponto que importa: o versículo não faz conta nenhuma. Grócio exige proporção — o que se restitui mede o que se deve. Aqui não há avaliação, não há cálculo de anos de trabalho, não há critério de quanto pedir. A leitura que trata a cena como acerto de salários precisa fornecer, por conta própria, a conta que o texto não faz.

O que não se deve concluir

Grócio escreve para um debate entre Estados europeus do século XVII e não está comentando o Êxodo: a aproximação é do comentarista, e o vocabulário dele é jurídico, enquanto o do versículo não é — não há aqui linguagem de dívida, de restituição ou de direito, e sim uma ordem.

O limite maior é outro: o Êxodo não justifica a cena. Não diz que era devido, não diz que era justo, não diz que era reparação. Quem sustenta que era — inclusive os comentaristas antigos que o fizeram — acrescenta ao texto uma categoria que ele não usa. O livro registra a ordem, registra o cumprimento e segue adiante, e deixa o leitor sozinho com o incômodo.

7. Aplicações Práticas

Conferir a palavra antes de repetir a acusação

A aplicação mais direta deste versículo é de método, e serve fora da Bíblia. Uma acusação inteira — repetida por gerações, em livros sérios, por gente honesta — apoiava-se numa palavra que não estava no texto original. Ninguém mentiu: herdou-se uma tradução e repetiu-se.

Isso acontece todos os dias, com frases atribuídas a políticos, com números citados de segunda mão, com histórias de família. Antes de repassar uma acusação, vale perguntar de onde vem a palavra que a sustenta — e, quando possível, ir até a fonte.

Pedir é diferente de tomar, e a diferença continua importando

O versículo manda pedir a alguém que podia recusar. É pouco, e é justamente o pouco que separa uma cena difícil de uma cena indefensável.

Quem trata de acertos com quem tem menos poder — patrões, credores, herdeiros, instituições — encontra essa fronteira com frequência. O pedido feito a quem não pode dizer não já não é pedido. O Êxodo não discute esse ponto, e este estudo não vai atribuir-lhe a discussão; mas quem lê o versículo com atenção fica com ela na mão.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o verbo sempre significou "pedir", por que tantas Bíblias escreveram "emprestado"?

Porque a palavra não entrou por este versículo. Entrou pela tradução do versículo que narra o cumprimento, onde o hebraico usa uma forma causativa do mesmo verbo — "atenderam ao pedido" — que também pode significar "emprestaram". Grego e latim escolheram esse sentido ali, e as versões inglesas depois o trouxeram de volta para os versículos da ordem. O caminho está detalhado no item 2.

Por que Deus diz "por favor"?

A pergunta é antiga e a resposta que a tradição judaica dá é uma leitura, não um dado. Segundo ela, a súplica existe porque a promessa feita a Abraão tinha duas metades e só a dura havia se cumprido; Deus estaria pedindo a Israel que aceitasse a outra.

A leitura tem a seu favor a raridade da partícula em ordens divinas. Contra ela há o fato de que a mesma partícula aparece em contextos banais e às vezes funciona só como "agora". Não é possível decidir, e a ABC traduziu pelo caminho sóbrio.

O texto está mandando enganar os egípcios?

Não há nada disso no versículo. A palavra "em segredo" que aparece em algumas edições vem da tradução grega, não do hebraico. A ordem não diz que se deve ocultar a intenção de partir, não diz que se deve prometer devolução e não diz que se deve mentir sobre coisa alguma.

O que se pode afirmar é mais incômodo justamente por ser mais simples: o texto não informa o que os egípcios sabiam. Não diz que sabiam da partida e não diz que a ignoravam. O silêncio é do Êxodo, e é ele que deixa as duas leituras de pé.

Por que aqui os homens pedem, se em Êxodo 3:22 só as mulheres pediam?

O texto não explica. As razões que os comentaristas propõem — maior precisão na hora de executar, o uso egípcio de joias por homens, maior convívio entre os dois povos naquele ponto do relato — são todas plausíveis e nenhuma está escrita.

Por que não há roupas na lista, se elas aparecem antes e depois?

Essa é a pergunta que ninguém faz e que os tradutores antigos já tinham enfrentado: a Septuaginta acrescentou as roupas aqui. Se o hebraico é econômico de propósito, ou se o grego harmonizou com os outros dois versículos, permanece em aberto. Registrar a falta é o que se pode fazer com segurança.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma ordem, dada antes e com outras palavras

Êxodo 3:22 — "Cada mulher pedirá à sua vizinha e à que morar em sua casa objetos de prata, objetos de ouro e roupas; vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas, e assim despojarão o Egito."

Ponha as duas lado a lado e a diferença salta. Lá, só mulheres; aqui, homens e mulheres. Lá, "vizinha" e "a que mora na casa"; aqui, "companheiro" e "companheira". Lá, três itens; aqui, dois. Lá, os filhos carregando; aqui, ninguém. E lá, o verbo do saque; aqui, silêncio.

O cumprimento

Êxodo 12:35 — "E os filhos de Israel fizeram conforme a palavra de Moisés: pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas."

Êxodo 12:36 — "E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito."

O primeiro registra a obediência com a fórmula seca do livro, e devolve as roupas à lista. O segundo é o versículo decisivo para a história da tradução: foi a forma verbal usada ali para o gesto dos egípcios que, vertida por "emprestaram", gerou o escândalo de dezoito séculos. E repare no sujeito de cada frase: quem despoja é Israel, quem dá é o Egito, e quem põe o favor é o SENHOR.

A promessa que a tradição judaica pôs por trás da súplica

Gênesis 15:13 — "Então o SENHOR disse a Abrão: ‘Saiba com certeza que a sua descendência será peregrina numa terra que não é sua; ali serão escravizados e afligidos por quatrocentos anos.’"

Gênesis 15:14 — "Mas também a nação a quem servirão como escravos, eu a julgarei; e depois disso sairão com grande riqueza."

É a este par que a escola de Rabi Yannai remete a partícula de súplica deste versículo: a primeira metade da promessa se cumpriu por inteiro, e faltava a segunda. O Êxodo não faz a ligação; ela é da tradição interpretativa.

A palavra usada para o egípcio, na Lei

Levítico 19:18 — "Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR."

Êxodo 20:17 — "Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo."

É o mesmo substantivo do nosso versículo. A lei o usa para o membro da comunidade; o Êxodo o usa aqui para o egípcio da casa ao lado.

A fórmula "aos ouvidos"

Êxodo 24:7 — "Então tomou o livro da aliança e leu aos ouvidos do povo; e eles disseram: ‘Tudo o que o SENHOR falou faremos e obedeceremos.’"

A mesma construção, na leitura pública da aliança. É proclamação diante de todos, e não conversa reservada — o que torna mais notável a palavra "em segredo" que a tradução grega acrescentou ao nosso versículo.

A lei que manda não despedir de mãos vazias

Deuteronômio 15:13-14 — "E, quando o despedires livre, não o despedirás de mãos vazias. Liberalmente o fornecerás do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar; daquilo com que o SENHOR teu Deus te abençoou lhe darás."

A lei do servo hebreu solto no sétimo ano obriga o senhor a entregar bens ao liberto, e declara em seguida que a razão disso é a lembrança do Egito. A relação entre essa lei e a cena do Êxodo foi tratada no estudo de Êxodo 3:21; o que interessa a este versículo é a coincidência de desenho — em ambos os casos, quem sai de servidão sai com alguma coisa.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Fale agora aos ouvidos do povo: que cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira, objetos de prata e objetos de ouro.”

Texto hebraico

דַּבֶּר־נָא בְּאָזְנֵי הָעָם וְיִשְׁאֲלוּ אִישׁ מֵאֵת רֵעֵהוּ וְאִשָּׁה מֵאֵת רְעוּתָהּ כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב׃

Transliteração

dabber-na be-oznei ha-am; we-yish'alu ish me-et re'éhu we-ishah me-et re'utáh, keley-khesef u-kheley zaháv.

Análise palavra por palavra

דַּבֶּר — dabber, "fale".

Imperativo masculino singular do verbo davar na forma intensiva (Piel). É o verbo comum de falar, e o masculino singular mostra que a ordem é dirigida a Moisés sozinho.

נָא — na.

Uma sílaba, e é a palavra mais discutida do versículo.

Trata-se de uma partícula que o hebraico acrescenta a imperativos e a pedidos. Os gramáticos a chamam de partícula de súplica ou de cortesia, e o efeito dela é aproximadamente o do nosso "por favor". Em muitos contextos, porém, ela perde força e funciona como um simples "então", "agora", marcando que a fala vai continuar.

Daí as duas leituras, tratadas no item 3. A tradução da ABC segue a segunda. Nenhuma solução em português consegue guardar as duas, porque "por favor" e "agora" não coexistem numa palavra só.

בְּאָזְנֵי הָעָם — be-oznei ha-am, "aos ouvidos do povo".

Ozen é ouvido, orelha; a forma aqui é o dual — o hebraico tem uma forma própria para as coisas que vêm em par, e os ouvidos são uma delas — em estado construto, "os ouvidos de".

A construção "falar aos ouvidos de" é expressão fixa e não significa sussurrar. Significa o contrário: dizer publicamente, diante da própria pessoa, de modo que fique registrado. Ela aparece na leitura da aliança em Êxodo 24:7 e na leitura pública da Lei; também aparece nas negociações feitas diante de testemunhas.

Ha-am, "o povo", com artigo. Sem qualificação: não é "o meu povo", não é "os filhos de Israel". É a palavra neutra.

וְיִשְׁאֲלוּ — we-yish'alu, "e que peçam".

O verbo é sha'al. O sentido dele é pedir, perguntar, requerer — é o verbo de qualquer pedido, e é a raiz do nome de Saul, Sha'ul, "o pedido". Ele não significa tomar emprestado; o hebraico tem outro verbo para isso, e o campo semântico completo está no estudo de Êxodo 3:22.

O que é próprio deste versículo é a forma, e é ela que resolve a história da tradução.

Aqui o verbo está no tronco simples (Qal), no plural, com a conjunção: "e que peçam". Simples pedido, sujeito ativo, sem nenhuma outra camada.

Em Êxodo 12:36, ao contar que os egípcios atenderam, o hebraico usa o mesmo verbo no tronco causativo (Hifil) — algo como "fizeram-nos pedir", isto é, "concederam-lhes o pedido". E é esse tronco que, em outros textos, pode significar "emprestar", porque quem empresta também é quem faz o pedido do outro se realizar. Foi por aí que grego, latim e inglês construíram o "tomar emprestado", como mostra o item 2.

Ou seja: a acusação inteira mora na diferença entre dois troncos do mesmo verbo, e nem sequer no verbo que Israel pratica.

אִישׁ … וְאִשָּׁה — ish … we-ishah, "cada homem … e cada mulher".

Homem e mulher, no singular, com valor distributivo — o hebraico usa essa construção para "cada um". É a diferença mais visível em relação a Êxodo 3:22, onde só a mulher aparecia.

מֵאֵת — me-et, "de junto de".

Preposição composta, formada por min ("de") mais a partícula et ("junto a"). Ela indica origem pessoal: o objeto vem de junto de alguém, e não de um lugar. A escolha reforça que se trata de uma pessoa entregando, e não de bens recolhidos.

רֵעֵהוּ — re'éhu, "o seu companheiro".

De re'a, com sufixo de terceira pessoa masculina.

Re'a é palavra de alcance largo: o companheiro, o próximo, o outro com quem se convive ou se lida. A raiz é discutida, e a etimologia não decide o uso — o que decide é onde a palavra aparece. É ela que está no décimo mandamento, em Êxodo 20:17, e em Levítico 19:18; é também a palavra da lei que proíbe reter o salário e o penhor do companheiro.

Êxodo 3:22 usara dois termos diferentes: shakhen ("vizinha", quem mora perto) e a forma feminina de ger (quem reside sem ser dali). Este versículo trocou os dois pela palavra da comunidade.

רְעוּתָהּ — re'utáh, "a sua companheira".

O feminino correspondente, com sufixo de terceira pessoa feminina. E ele é raríssimo: re'ut aparece seis vezes em toda a Bíblia hebraica, e uma delas é aqui. As outras cinco estão em Ester 1:19 (a coroa dada "a outra"), em Isaías 34:15 e 34:16 (as aves de rapina, cada uma com a sua parceira), em Jeremias 9:19 (as carpideiras ensinando lamento umas às outras) e em Zacarias 11:9 (o rebanho devorando a carne "uma da outra").

O grupo é pequeno e heterogêneo demais para sustentar conclusão de sentido. O que se pode afirmar é que o Êxodo escolheu aqui uma forma incomum para dizer "a companheira dela", e que a construção fica perfeitamente simétrica.

כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב — keley-khesef u-kheley zaháv, "objetos de prata e objetos de ouro".

Keli, no plural construto keley, é a palavra geral de utensílio, recipiente, instrumento, apetrecho. Não é palavra de joia, e traduzi-la por "joias" estreita o sentido sem necessidade.

Kesef é prata; zaháv, ouro. A ordem — prata antes de ouro — é a mesma de Êxodo 3:22 e de Êxodo 12:35, e o fundo material da escolha foi tratado naquele primeiro estudo.

E o que a lista não traz

O versículo termina aqui. Não há semalot, "roupas", que estão nos outros dois; não há nada sobre pôr os objetos sobre os filhos; e não há o verbo natsal na forma que significa "despojar", que fecha Êxodo 3:22 e Êxodo 12:36.

A Septuaginta acrescentou aqui as roupas. Se o grego harmonizou os três textos ou se conheceu um hebraico diferente, não é possível decidir — o que se pode dizer é que a falta foi percebida cedo.

11. Conclusão

Com base no que foi examinado, três conclusões se sustentam.

A primeira: a acusação de furto não sobrevive ao exame do verbo, mas o incômodo da cena sobrevive. O hebraico manda pedir, e a palavra "emprestado" entrou por uma escolha de tradutor num versículo vizinho — o caminho é reconstituível linha por linha. Isso encerra a acusação de engano. Não encerra a pergunta de por que os bens vieram de quem veio.

A segunda: o versículo trata o egípcio como próximo, e não como inimigo. Das três formulações da ordem no livro, esta é a única que usa a palavra dos mandamentos para designar quem vai entregar. Também é a única que não chama o resultado de despojo. A ordem propriamente dita, portanto, é a mais contida das três — e quem discute a moral da cena precisa saber em que versículo cada palavra dura está.

A terceira: as defesas antigas não negaram o fato, e isso é instrutivo. Irineu contra os marcionitas, Agostinho contra Fausto e o Talmude contra o acusador trabalham todos com o mesmo movimento — admitem que bens mudaram de mão e discutem com que título. Nenhum deles tenta apagar a cena, e é honesto seguir esse exemplo em vez de amaciá-la.

Resta a partícula de uma sílaba com que o versículo começa. Se ela é um "por favor", como leram os rabinos, ou apenas um "agora", como leu Ibn Ezra, não é possível decidir pelo hebraico. O que a leitura antiga apanhou — e vale reter mesmo quem não a adote — é que uma ordem dada em tom de pedido supõe alguém que talvez preferisse não cumpri-la.

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Êxodo 11:2

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