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Êxodo 12:36

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✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 30 acessos
E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito.
Uma mulher egípcia entregando um vaso de prata a um homem hebreu à porta de casa, na madrugada da saída do Egito, com outras portas abertas ao fundo.

Estudo


E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito.

1. Introdução

Pela terceira e última vez o Êxodo diz que Deus pôs favor no olhar dos egípcios — e é a única em que o texto conta o que aconteceu em seguida.

O que acontece inverte os papéis: quem dá são os egípcios, e é o único momento do livro inteiro em que o Egito entrega alguma coisa por vontade própria.

A frase final resolve a cena com a palavra mais dura disponível, a do saque de guerra — e, ao mesmo tempo, não diz o que foi levado.

A pergunta moral aberta nove capítulos antes chega aqui ao fim sem sentença. O Êxodo não absolve e não condena: mostra o metal mudando de mão e segue.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se fazia com o despojo no mundo antigo

A palavra que fecha este versículo é palavra técnica, e ela vem de um mundo com regras. Saque não era bagunça: era um procedimento com etapas, contagem e partilha.

Os relatos de campanha do Egito e da Assíria registram o despojo como registram baixas — em lista, com números. Um rei que voltava de campanha mandava inscrever quantos cativos, quantas cabeças de gado, quantos vasos de metal, quanto peso de ouro. A lista era parte da vitória, e não apêndice dela. Um general que não trouxesse lista não tinha o que gravar na parede.

Dois traços atravessam todos esses textos. Primeiro, o despojo é contado. Segundo, uma parte dele é separada para o santuário — o deus tem quinhão no que se tomou.

O que falta aqui

Ponha a cena do versículo ao lado desse pano de fundo e três coisas estão faltando.

Não houve batalha. A palavra pressupõe exército, cerco, cidade tomada. Aqui houve gente batendo em porta e recebendo o que pediu. O vocabulário do saque está aplicado a uma cena em que ninguém ergueu arma.

Não houve contagem. Nenhum número, nenhuma lista, nenhum peso. Num gênero literário que existe para contar o que se tomou, este texto não conta nada.

Não houve partilha. Não há porção do sacerdote, não há porção do santuário, não há critério de divisão. O metal simplesmente entra com o povo, e o livro o reencontrará muito adiante, em duas cenas opostas.

O Egito no papel invertido

Há um detalhe que o leitor antigo captaria mais depressa do que nós. O Egito era, na região, a potência que despojava — e que fazia questão de registrar isso. As paredes de templo do Império Novo estão cobertas de listas de tributo estrangeiro: metal, tecido, animais, pessoas.

Este versículo põe o verbo na direção contrária. Quem é despojado é o Egito, e quem o despoja é a mão de obra dele. Nenhuma inscrição egípcia registra nada parecido, o que é esperado — relatos oficiais de qualquer época não registram as próprias derrotas, e esse ponto foi tratado no estudo de Êxodo 3:19.

Resta a observação, que é de leitura e não de arqueologia: o Êxodo aplica ao Egito o vocabulário com que o Egito descrevia o que fazia aos outros.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios"

É a terceira vez que esta frase aparece no Êxodo, e as três são diferentes no tempo.

Em Êxodo 3:21 ela é promessa: "darei". Em Êxodo 11:3 é constatação isolada, sem consequência narrada: o favor foi dado, e o texto passa a falar do prestígio de Moisés. Aqui, e só aqui, a frase vem colada ao resultado: o favor foi dado, e por isso os egípcios entregaram. A promessa do capítulo 3 é a única das grandes promessas da sarça que o livro se dá ao trabalho de declarar cumprida com o verbo no passado e o efeito à vista.

O que os rabinos fizeram com esta frase

A Mekhilta, comentário rabínico ao Êxodo compilado por volta do século III, preserva três respostas à pergunta "como assim, favor?", e elas discordam entre si — o que já diz alguma coisa sobre o quanto a frase incomodava.

Rabi Yossi, o Galileu, responde com um fato do capítulo 10. Os egípcios confiaram em Israel, diz ele, e tinham motivo: durante os três dias de trevas, quando ninguém enxergava nada, os hebreus puderam entrar em qualquer casa e não levaram nada. Quem não roubou no escuro não seria suspeito à luz.

É leitura de gente que leu o livro inteiro antes de comentar o versículo. Êxodo 10:22-23 registra que a escuridão durou três dias, que ninguém se levantou do seu lugar e que os filhos de Israel tinham luz nas suas moradas. O texto não tira nenhuma conclusão daquilo; Rabi Yossi tira, e a conclusão é uma explicação natural para o favor: os egípcios confiavam porque tinham sido testados sem saber.

Rabi Eliezer ben Yaakov vai na direção oposta. Para ele o favor não é confiança nenhuma: é o próprio Espírito, agindo. Ele cita Zacarias 12:10, onde Deus promete derramar sobre Jerusalém "um espírito de graça" — a mesma palavra hebraica que está aqui traduzida por favor. Na leitura dele, o hebreu dizia ao egípcio onde estava o objeto que queria, dentro da casa do egípcio, e o objeto estava lá.

Rabi Natan corta a discussão: não é preciso nada disso para entender o versículo.

Três leituras, e o que elas disputam é uma coisa só: o favor é psicológico ou é sobrenatural? Foi uma disposição humana que Deus provocou por meios normais, ou foi uma intervenção direta sobre a vontade alheia? O Êxodo não decide. Ele diz que o favor foi dado, e não diz como.

"de modo que estes lhes davam o que pediam"

Aqui o sujeito da frase muda, e é a mudança mais surpreendente do versículo.

Durante onze capítulos, o Egito não deu nada. Negou, endureceu, prometeu e voltou atrás, cedeu sob pressão e revogou. Esta é a única frase do Êxodo em que os egípcios são o sujeito de um verbo de dar, dirigido a Israel. E não há ordem de Faraó por trás: Faraó mandou o povo sair, não mandou ninguém entregar prata.

Os comentaristas leem a cena de dois modos, e os dois cabem na mesma frase.

Primeira leitura: foi generosidade. A Mekhilta traz uma cena curta e memorável — o hebreu pedia um objeto e o egípcio respondia: "Você diz um? Leve dois, e vá." Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) recolhe isso e formula o ponto: davam até o que não tinha sido pedido. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chega perto por outro caminho, chamando aquilo de dádiva espontânea que ninguém esperava reaver.

Segunda leitura: foi pressa de se livrar deles. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) é direto: deram de bom grado, sim, "para se verem livres deles". Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX, em um volume) apontam o pavor como motor.

Repare que as duas leituras se apoiam no mesmo detalhe — a facilidade com que se entregava. E repare que a frase da Mekhilta funciona igualmente bem nas duas bocas. "Leve dois e vá" pode ser generosidade. Também pode ser: pegue o que quiser, mas suma daqui.

O capítulo dá munição ao segundo lado. Dois versículos antes, em Êxodo 12:33, os egípcios estão empurrando o povo para fora dizendo "estamos todos mortos". É o mesmo grupo, na mesma noite.

"Assim despojaram o Egito"

A frase tem quatro palavras em português e três em hebraico, e nelas o texto faz duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira: escolhe a palavra mais dura que tinha. O verbo é o do exército que limpa uma cidade tomada. Não é "receberam", não é "levaram", não é "ganharam". É o mesmo verbo que Deus pusera na previsão de Êxodo 3:22, agora no passado.

A segunda: não diz o que foi levado. E isso não é descuido — é uma propriedade da forma verbal escolhida, e quem a apontou foi Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII).

A observação dele é técnica e vale a paciência. Aquela raiz hebraica, diz ele, não existe na forma simples do verbo; só aparece em duas formas derivadas. As duas significam arrancar alguma coisa de alguém. A diferença é de foco: uma delas nomeia o objeto arrancado; a outra, não. Em Gênesis 31:9, Jacó diz que Deus "tirou o gado" de Labão — e o gado está escrito ali. Aqui o texto usa a outra forma, e por isso a frase diz "despojaram o Egito" sem dizer de quê.

Ibn Ezra encerra com a constatação seca: o texto não diz o que eles tomaram.

Isso muda o alvo da frase. Ela não fecha a contabilidade da noite — não há contabilidade. Ela nomeia o que aconteceu com o Egito, e não o que entrou na bagagem de Israel. O Targum de Ônquelos, a tradução aramaica antiga do Pentateuco, entendeu exatamente assim e traduziu por um verbo de esvaziar: esvaziaram o Egito.

O problema ético, e o que o texto faz em vez de resolvê-lo

A discussão sobre a moral desta cena é antiga, tem defensores e acusadores nomeados, e foi tratada no estudo de Êxodo 11:2. O que pertence a este versículo é outra coisa: é aqui que o assunto se encerra, e o modo como se encerra é ele mesmo uma informação.

O que o livro faz, em vez de julgar, é mostrar o destino daquele metal — e mostrá-lo dividido. A mesma prata e o mesmo ouro reaparecem duas vezes no Êxodo, em cenas opostas. Em Êxodo 32, são fundidos num bezerro, e a cena é a maior catástrofe religiosa do livro. Em Êxodo 35 a 38, são entregues para a construção do santuário, e a cena é a maior realização.

O mesmo despojo serve às duas coisas. É leitura possível, e não afirmação do texto, dizer que essa duplicidade é deliberada — o Êxodo em nenhum momento liga as duas cenas a esta. O que é verificável é o material: o ouro que entra em Êxodo 12:36 é o único ouro que aquele povo tem no deserto, e é dele que saem tanto o bezerro quanto a arca.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

Ele é o sujeito da primeira frase e some das outras duas. Dá o favor, e a partir daí quem age são os egípcios e Israel. O versículo tem três verbos e três sujeitos diferentes, em cadeia: Deus dá o favor, os egípcios dão os objetos, Israel despoja.

Nenhuma frase do versículo diz que Deus ordenou a entrega. Ele altera a disposição de quem entrega, e o Êxodo não explica como isso funciona.

Os egípcios

São mencionados duas vezes no versículo e por dois nomes. Na primeira frase, o favor está "aos olhos" deles — o hebraico usa o nome do país, e são pessoas com olhos que olham. Na última, quem é despojado é "o Egito" — a mesma palavra, agora como nação inteira.

Quem são, nesta hora: gente que enterrou o primogênito na mesma noite, segundo Êxodo 12:30, e que dois versículos antes estava empurrando Israel para fora com pressa. É esse grupo que abre as arcas e entrega o que tem.

O povo

A primeira frase o chama de "o povo" — a palavra neutra, a mesma que Deus usara em Êxodo 3:21 ao falar de como terceiros o veriam. A última frase o deixa sem nome: quem despoja é um "eles" implícito no verbo.

O despojo

Aquilo que se tomou não é descrito neste versículo. O versículo anterior deu a lista — prata, ouro, roupas —, e aqui não há nem lista, nem quantidade, nem peso.

Não há registro egípcio de nada disso, e não seria de esperar que houvesse. Fora da Bíblia, o episódio não tem documentação, e é honesto dizer isso.

Dentro da Bíblia, ele tem consequências. O ouro do deserto é este ouro, e o Êxodo vai gastá-lo duas vezes, em direções opostas.

5. Pontos de Ensino

Duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo

O versículo diz que os egípcios deram e diz que Israel despojou. São descrições da mesma transação, de lados opostos da porta.

Nenhuma anula a outra. Quem lê só a primeira metade sai com uma cena de generosidade; quem lê só a segunda, com uma cena de saque. O texto põe as duas na mesma linha e não escolhe.

Isso vale como método de leitura para muito além deste versículo: um texto que traz duas descrições incompatíveis do mesmo fato quase sempre está dizendo que o fato era assim mesmo, e não que se contradisse.

A disputa sobre o favor é antiga e não foi resolvida

Os rabinos da Mekhilta não concordaram entre si sobre o que era aquele favor. Um explicou por confiança conquistada no escuro; outro, por intervenção direta sobre a vontade; um terceiro achou a pergunta dispensável.

Que a tradição tenha preservado as três respostas, lado a lado, sem eleger uma, é um dado sobre como aqueles leitores trabalhavam. Eles não achavam que comentar fosse fechar.

O silêncio sobre a quantia

Um texto que quisesse celebrar a riqueza teria dado números. Um texto que quisesse minimizar o episódio teria dito que foi pouco. Este não diz nem uma coisa nem outra — usa a palavra pesada e cala sobre o conteúdo.

Quem pregar sobre "as riquezas do Egito" está preenchendo um branco que o versículo deixou. Vale saber que é um branco.

O que se ganha não define o que se faz com aquilo

O metal que sai do Egito nesta noite vai ter dois destinos dentro do mesmo livro, e são destinos opostos. O material é idêntico nos dois casos.

Isso desarma a pergunta que se costuma fazer à cena — se aquilo era ou não legítimo — e a substitui por outra, que o Êxodo efetivamente responde: o que aquele povo fez com o que tinha nas mãos.

6. Aspectos Filosóficos

Quem deu a prata: Deus ou o egípcio?

O versículo tem duas frases e elas descrevem o mesmo acontecimento com dois agentes diferentes. Deus deu o favor. Os egípcios deram os objetos. Se você perguntar "quem fez com que aquela mulher abrisse o armário?", o texto oferece duas respostas e não escolhe entre elas.

Essa é uma das perguntas mais antigas da filosofia, e ela tem nome: o problema da causa segunda. Quando se diz que Deus faz alguma coisa por meio de uma pessoa, a pessoa é uma causa de verdade, ou é apenas o lugar onde a causa divina aparece?

A resposta radical de al-Ghazali

Abu Hamid al-Ghazali (1058-1111, teólogo e filósofo persa, um dos autores mais influentes do islã) enfrentou isso em Tahafut al-Falasifa ("A incoerência dos filósofos", cerca de 1095), livro escrito contra os aristotélicos do seu tempo.

O exemplo que ele usa ficou famoso e é de uma simplicidade brutal: o algodão e o fogo.

Todo mundo diz que o fogo queima o algodão. Al-Ghazali pergunta: o que você observou, exatamente? Você observou o fogo encostando no algodão e, em seguida, o algodão preto. Observou dois acontecimentos, um depois do outro. Você não observou a queima — não viu nenhuma força passando de um para o outro, nem nenhuma necessidade obrigando o segundo a seguir o primeiro.

Daí a conclusão dele: a ligação que chamamos de causa não está nas coisas. Está no nosso hábito de ver aquilo junto. Quem queima o algodão é Deus, diretamente, e o fogo é apenas a ocasião em que ele o faz — com uma regularidade tão constante que a confundimos com necessidade.

O que isso faz com o versículo

Aplicada aqui, a tese dissolve a pergunta. A egípcia que entrega a taça de prata é como o fogo: ela é a ocasião, e não a causa. Quem move a mão dela é quem pôs o favor. As duas frases do versículo não descrevem dois agentes, e sim o mesmo ato visto por fora e por dentro.

Isso explica bem por que o Êxodo não vê contradição nenhuma em justapor as duas — e explica também a leitura rabínica mais ousada da frase, a de Rabi Eliezer ben Yaakov, que trata o favor como intervenção direta.

Mas o preço aparece na mesma hora. Se a egípcia é só ocasião, ela não fez nada — e então nem se pode agradecer, nem se pode culpar ninguém por coisa alguma. O Êxodo inteiro depende do contrário disso: Faraó é responsabilizado, o povo é responsabilizado, e o livro se dá ao trabalho de registrar quem fez o quê.

A outra saída

A tradição que responde a al-Ghazali — e a versão europeia dessa discussão, com Malebranche, foi tratada no estudo de Gênesis 31:12 — sustenta que a causa segunda é causa de verdade. Deus age, mas age fazendo com que a coisa aja por si mesma: o fogo queima porque queimar é o que fogo faz, e foi Deus quem o fez assim.

Nessa leitura, o versículo diz duas coisas distintas e ambas verdadeiras. Deus dispôs o ânimo; a egípcia decidiu. Ela poderia ter fechado a porta, e não fechou.

O que o texto permite e o que não permite

Ele não permite escolher. O Êxodo não tem vocabulário para causa primeira e causa segunda, não define liberdade e não discute o assunto. Ele conta, lado a lado, que Deus pôs o favor e que os egípcios deram.

O que se pode afirmar é mais modesto, e é o que torna a passagem interessante: a frase sobre os egípcios não é decorativa. O texto poderia ter dito apenas que Deus fez com que Israel saísse carregado — e não disse. Disse que houve pessoas entregando coisas, e disse antes de usar a palavra despojo. A cena tem dois lados porque o texto insistiu em mostrar os dois.

7. Aplicações Práticas

Descrever de um lado só é como quase toda briga começa

Este versículo faz, numa linha, o que ninguém consegue fazer numa discussão: conta os dois lados da mesma transação, com as duas palavras certas, sem escolher.

Na prática, é o contrário do que fazemos. Quem vendeu diz que foi um bom negócio; quem comprou diz que pagou caro. Quem demitiu diz que era necessário; quem foi demitido diz que foi descartado. As duas frases costumam ser verdadeiras, e cada lado trata a do outro como mentira.

O exercício que o versículo sugere é simples e desconfortável: antes de defender a sua versão, escreva a versão do outro lado com as palavras que ele usaria — não com as suas, amenizadas. Se a versão dele também descrever o que de fato aconteceu, você ainda pode discordar, mas já não pode fingir que ela é invenção.

O que você faz com o que recebeu

A pergunta que o Êxodo responde sobre este metal não é se era merecido. É o que foi feito com ele — e o livro mostra o mesmo ouro virando um bezerro e virando um santuário.

Vale para qualquer coisa que tenha chegado às suas mãos por caminho discutível: uma herança que dividiu a família, um cargo que outra pessoa também queria, um dinheiro que veio de um acerto que você preferia não ter feito. A origem já está fixada e não muda. O destino ainda não.

E vale a ressalva, para não virar conselho barato: o Êxodo não diz que o bom uso conserta a origem. Ele apenas mostra que a origem não decide o uso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o favor foi posto por Deus, os egípcios escolheram dar?

O versículo não responde, e a pergunta não é acadêmica: dela depende se houve consentimento ali.

Os próprios comentaristas antigos se dividiram. Um deles explica o favor por um motivo humano comum — confiança conquistada. Outro o explica como ação direta sobre a vontade. O Êxodo não usa o vocabulário necessário para decidir a questão e, no resto do livro, trata os egípcios como gente que responde por seus atos. Não é possível decidir.

Por que o texto não diz quanto foi?

Num gênero literário que existe para contar o que se tomou, a omissão salta aos olhos.

Ibn Ezra mostrou que ela tem base gramatical: a forma verbal escolhida é justamente aquela que não nomeia o objeto. Isso explica como o texto pôde calar, não por que calou. Uma hipótese plausível é que o foco da frase seja o Egito esvaziado, e não a bagagem de Israel — foi assim que o Targum de Ônquelos a entendeu. O Êxodo não confirma.

O que aconteceu com esses objetos depois?

O livro não os menciona por um bom tempo, e depois os menciona duas vezes.

Aparecem em Êxodo 32, fundidos num bezerro, e em Êxodo 35 a 38, entregues ao santuário. O Êxodo nunca diz explicitamente que é o ouro do Egito nos dois casos — mas aquele povo estava no deserto, e não há outra procedência à vista.

Israel pediu, ou Israel exigiu?

A pergunta importa porque muda a cena de dádiva para extorsão, e o versículo tem elementos dos dois lados.

A favor de pedido: o verbo usado é o de pedir, os egípcios são o sujeito de "davam", e a Mekhilta imagina egípcios oferecendo mais do que se pediu. A favor de pressão: a noite é a do luto nacional descrito em Êxodo 12:30, e a população está em pânico. Ninguém é neutro ao ser abordado nessas condições.

O texto não qualifica o pedido. Quem o qualificar está acrescentando.

Por que a palavra "despojo", se ninguém lutou?

É a tensão central do versículo e não se desfaz.

Há quem responda que a palavra descreve o resultado, não o método: o Egito ficou sem, e é isso que o verbo registra. Há quem responda que o texto está declarando a natureza do ato, por baixo da aparência cordial da transação. E há quem note que o mesmo verbo já estava na boca de Deus, em Êxodo 3:22, antes de qualquer coisa acontecer — o que tira a escolha da palavra das mãos de quem narra o desfecho.

Nenhuma dessas respostas elimina o desconforto, e provavelmente não deveria eliminar.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa, na primeira pessoa do futuro

Êxodo 3:21 — "E darei a este povo favor aos olhos dos egípcios; e, quando vocês partirem, não sairão de mãos vazias."

Mesma fórmula, tempo diferente. Ali é promessa; aqui, cumprimento com efeito narrado.

A mesma fórmula, sem consequência

Êxodo 11:3 — "E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios. Também o homem Moisés era muito grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo."

Em Êxodo 11:3 o favor é constatado e o texto muda de assunto. Aqui ele vem colado ao resultado.

O verbo do despojo, na boca de Deus

Êxodo 3:22 — "Cada mulher pedirá à sua vizinha e à que morar em sua casa objetos de prata, objetos de ouro e roupas; vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas, e assim despojarão o Egito."

A palavra dura é anunciada antes do episódio, por quem dá a ordem. Em Êxodo 12:36 ela reaparece como relato.

Os três dias de trevas, base da leitura de Rabi Yossi

Êxodo 10:23 — "Não se viam uns aos outros, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias; mas todos os filhos de Israel tinham luz nas suas moradas."

O texto não comenta a oportunidade de saque que aquela escuridão abria. A Mekhilta comenta.

O pânico da mesma noite

Êxodo 12:33 — "E os egípcios apertavam o povo para apressá-lo a sair da terra, porque diziam: 'Estamos todos mortos.'"

É o estado de espírito dos que entregam a prata, três versículos antes.

Os dois destinos do metal

Êxodo 32:4 — "Ele os recebeu das mãos deles, deu-lhes forma com um buril e fez um bezerro fundido; e disseram: 'Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito.'"

Êxodo 35:5 — "Tomem do que é de vocês uma oferta para o SENHOR; todo aquele que for de coração disposto a traga como oferta ao SENHOR: ouro, prata e bronze."

A mesma raiz verbal, com o objeto nomeado

Gênesis 31:9 — "Assim Deus tirou o gado do pai de vocês e o deu a mim."

É o contraste que Ibn Ezra usa: ali o texto diz o que foi tirado; em Êxodo 12:36, não.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito.

Texto hebraico

וַיהוָה נָתַן אֶת־חֵן הָעָם בְּעֵינֵי מִצְרַיִם וַיַּשְׁאִלוּם וַיְנַצְּלוּ אֶת־מִצְרָיִם׃

Transliteração

wa-YHWH natan et-chen ha-am be-einei Mitsrayim; wa-yash'ilum, wa-yenatslu et-Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיהוָה נָתַן — wa-YHWH natan, "e o SENHOR deu".

O nome divino vem antes do verbo, e essa inversão marca contraste com o que veio antes: enquanto os egípcios apertavam o povo, o SENHOR dava o favor. O verbo natan, "dar", está no perfeito — a forma que descreve o fato consumado, e não o passo seguinte da narrativa.

אֶת־חֵן הָעָם — et-chen ha-am, "o favor do povo".

A construção é estranha e merece atenção. Em português é preciso dizer "deu favor ao povo"; o hebraico diz, ao pé da letra, "deu o favor do povo".

Ou seja: o favor é descrito como pertencendo ao povo — é a boa impressão que o povo causa, a simpatia que ele desperta. Deus não dá ao povo uma qualidade interior. Dá a esse povo o efeito que ele produz nos outros. É por isso que a frase termina "aos olhos de".

Na Bíblia, o normal é que alguém ache favor. Aqui o favor é posto, e por um terceiro. A mesma construção aparece em Êxodo 3:21 e 11:3, e em nenhum outro lugar do Pentateuco.

בְּעֵינֵי מִצְרַיִם — be-einei Mitsrayim, "aos olhos do Egito". Expressão fixa: significa "no julgamento de", e não o que alguém enxerga.

וַיַּשְׁאִלוּם — wa-yash'ilum, "e eles lhes concederam o pedido".

Esta é a palavra que mais consequências teve na história das traduções deste episódio, e a razão está na forma.

O verbo é sha'al, "pedir" — o mesmo do versículo anterior e o mesmo da ordem de Êxodo 11:2. Ali ele estava no tronco simples (Qal, a forma básica): Israel pede. Aqui está no tronco causativo (Hifil, a forma que faz o sujeito provocar a ação): os egípcios fazem o pedido acontecer, isto é, atendem.

Em outros textos, essa mesma forma causativa pode significar "emprestar" — porque quem empresta também é quem realiza o pedido do outro. Grego, latim e inglês escolheram essa possibilidade, e foi daí que nasceu o escândalo do empréstimo não devolvido; a cadeia inteira está no estudo de Êxodo 11:2.

Duas observações próprias deste versículo. A primeira: o sufixo -um no fim da palavra é o objeto, "a eles" — os egípcios concederam a eles. A segunda: este é o único lugar do Êxodo em que os egípcios são o sujeito de um verbo de entrega dirigido a Israel.

וַיְנַצְּלוּ — wa-yenatslu, "e despojaram".

Raiz n-ts-l, no tronco intensivo (Piel).

Ibn Ezra observou que esta raiz não ocorre no tronco simples: ela só existe nas formas derivadas. No tronco causativo (Hifil) ela significa livrar, resgatar, arrancar do perigo — é o verbo de "livra-nos do mal" e o verbo de Êxodo 3:8, quando Deus desce para livrar Israel. No intensivo, significa despojar, esvaziar, tirar de alguém o que ele tem.

A imagem por baixo das duas é a mesma: arrancar. O que muda é o que se arranca — a vítima do perigo, ou os bens do dono.

E Ibn Ezra acrescenta a diferença que costuma passar despercebida: no tronco causativo o texto nomeia a coisa arrancada; no intensivo, não. Gênesis 31:9 diz que Deus "tirou o gado" — e o gado está escrito. Aqui não há objeto tirado, só a vítima. Por isso a frase diz quem foi despojado sem dizer de quê.

O Targum de Ônquelos traduziu por um verbo aramaico de esvaziar; a Septuaginta, por um verbo grego de despojar inimigo vencido; a Vulgata, pelo latino do qual vem "espoliar".

אֶת־מִצְרָיִם — et-Mitsrayim, "o Egito".

A partícula et marca o objeto direto, e o objeto é o nome do país — não "os egípcios". Quem é despojado, na frase, é o Egito inteiro.

É a terceira vez que esse nome aparece em dois versículos, sempre no lugar em que se poderia esperar uma palavra de pessoa. Em Êxodo 12:35, é do Egito que se pede. Aqui, é aos olhos do Egito que está o favor, e é o Egito que é despojado.

11. Conclusão

Três conclusões se impõem, e a terceira é a que o capítulo vinha preparando desde a sarça.

A primeira: o Êxodo trata a entrega e o despojo como descrições compatíveis do mesmo fato. Não escreve "deram, mas na verdade foi saque", nem "foi saque, embora tenham dado". Põe as duas frases em sequência, sem conector adversativo, como se não houvesse tensão. A tensão existe — é ela que sustenta dois milênios de discussão —, e o texto a deixa de pé por escolha, não por descuido.

A segunda: a palavra mais pesada do episódio vem desacompanhada de conteúdo. O verbo é o do saque, e o que foi saqueado não é dito. Ibn Ezra mostrou que a forma escolhida é justamente a que dispensa nomear o objeto, de modo que a omissão não é lacuna: é o que aquela forma faz. O efeito é que a frase aponta para o Egito esvaziado, e não para Israel enriquecido.

A terceira: o problema aberto em Êxodo 3:22 termina aqui sem sentença, e o que o livro oferece em lugar dela é o destino do metal. Nenhuma conta é feita, nenhuma justificativa é dada, nenhum arrependimento é registrado. O que se pode acompanhar, lendo adiante, é o que aquele povo fez com o que levou — e o Êxodo mostra o mesmo ouro servindo à pior e à melhor coisa que aquela geração produziu.

Um leitor que chegue a este versículo procurando o veredito do texto sobre a noite vai sair sem ele. O que leva, em troca, é uma cena exposta pelos dois lados, com as duas palavras certas, e a informação de que nem o Êxodo achou o assunto fácil.

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Êxodo 12:36

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