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Êxodo 11:3

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✍️ Por Alberto Adriano·24 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 26 acessos
E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios. Também o homem Moisés era muito grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo.
Moisés de pé diante dos oficiais da corte egípcia, que o observam com atenção enquanto o trono permanece ao fundo.

Estudo


E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios. Também o homem Moisés era muito grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo.

1. Introdução

O texto interrompe o anúncio da praga para informar como Moisés era visto na corte egípcia.

É a única vez no livro em que ele é medido pelos olhos dos egípcios, e não pelos de Israel nem pelos de Deus. A palavra usada é "grande" — não "bom", não "justo", não "santo" —, e o versículo não explica em que consistia essa grandeza. Também não é pacífico a quem se refere "o povo" no fim da frase: os comentaristas se dividiram entre os egípcios e os próprios hebreus, e a tradução grega antiga resolveu a dúvida por conta própria, mudando o texto. Tudo isso prepara o versículo 8, em que os servos de Faraó se curvarão diante desse homem.

2. Contexto Histórico e Cultural

A fama de Moisés no Egito, fora da Bíblia

Este versículo faz uma afirmação verificável em princípio: houve, no Egito, um homem de nome Moisés que era tido por muito importante. Nenhum documento egípcio conhecido o menciona. O que existe é outra coisa, e é interessante por si: a memória dele circulou pelo mundo grego e romano, e quem a registrou eram pessoas que nunca leram o Êxodo em hebraico.

São três casos, cada um com a sua ressalva.

Artapano, o Moisés egípcio

Artapano foi um autor judeu de língua grega que escreveu no Egito, provavelmente no século II antes de Cristo. A obra dele se perdeu; o que sobrou são trechos citados por Alexandre Polístor e conservados por Eusébio de Cesareia (bispo e historiador do século IV) no livro IX da Preparação Evangélica.

O Moisés que aparece ali é irreconhecível para quem só conhece o do Êxodo. É ele quem organiza o Egito em trinta e seis distritos administrativos e atribui a cada um o seu culto. É ele quem inventa os barcos, as máquinas de içar pedra, as armas e a filosofia. Os gregos, diz Artapano, o chamavam de Museu e o tinham por mestre de Orfeu. E o trecho decisivo para o nosso versículo: "por causa dessas coisas Moisés era amado pelas multidões, e foi julgado digno de honra divina pelos sacerdotes, e chamado Hermes" — nome grego do deus egípcio da escrita.

Uma advertência, e ela é grande. Isso não é fonte histórica sobre Moisés. É literatura de apologia, escrita por um judeu do Egito helenístico para mostrar aos vizinhos gregos que a cultura deles vinha de um antepassado seu. O método é o da época e era praticado por todo mundo: egípcios, babilônios e gregos reivindicavam uns para os outros a invenção das artes.

O que o texto prova, portanto, não é que Moisés fosse grande no Egito. Prova que, dois ou três séculos antes de Cristo, havia leitores para quem essa frase do versículo 3 pedia desenvolvimento — e que o desenvolvimento foi feito na chave da corte egípcia, e não na do deserto.

Numênio, e Moisés como filósofo

Numênio de Apameia, filósofo grego do século II depois de Cristo, ficou conhecido por uma frase que Clemente de Alexandria e Eusébio conservaram: "o que é Platão senão Moisés falando ático?" — isto é, falando o grego de Atenas.

É um elogio, e um elogio pagão. Numênio não era judeu nem cristão; para ele, a antiguidade da sabedoria oriental dava peso a uma doutrina. A frase circulou tanto que se tornou lugar-comum entre autores cristãos posteriores, que a usaram para outros fins.

Pompeu Trogo, e a versão romana embaralhada

O terceiro caso é o mais útil, justamente porque está errado.

Pompeu Trogo escreveu, no tempo de Augusto, uma história universal que se perdeu e que conhecemos por um resumo feito por Justino. No livro XXXVI aparece a origem dos judeus, e ali Moisés é apresentado como filho de José — o que o Êxodo não diz e a cronologia não permite —, herdeiro do saber do pai e condutor dos que foram expulsos do Egito.

A confusão é reveladora. Um romano culto, escrevendo para romanos, sabia que havia um egípcio chamado Moisés, que ele tinha grande reputação e que estava ligado à saída dos judeus. Não sabia mais do que isso, e preencheu o resto com o material que tinha à mão.

O que se pode e o que não se pode concluir

É preciso ser exato aqui, porque o assunto atrai exagero nos dois sentidos.

Não se pode usar nada disso como confirmação do versículo. Os três textos são muito posteriores, dois deles dependem de fontes judaicas e nenhum é egípcio. Quem os apresentar como prova de que "até os pagãos reconheciam a grandeza de Moisés" está fazendo o que Artapano fazia.

Pode-se afirmar o seguinte, e já é bastante: a figura de um Moisés poderoso dentro do Egito, e não apenas fora dele, tem um rastro longo na antiguidade — em grego, em latim, em textos judaicos e pagãos. E o ponto de partida desse rastro, no texto bíblico, é esta frase de meia linha, que diz que ele era muito grande na terra do Egito e não explica por quê.

O silêncio egípcio, por sua vez, não decide nada em nenhuma direção — pelas razões tratadas no estudo de Êxodo 3:19, o argumento pela ausência é fraco dos dois lados.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios"

A frase cumpre uma promessa feita em Êxodo 3:21, e a construção dela — o favor que é posto por Deus, e não conquistado pelo povo — foi analisada no estudo daquele versículo. O que é novo aqui é o tempo do verbo, e Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) fez disso um argumento.

Repare: o texto não diz "eu darei". Diz "deu", no passado, e diz isso antes de a décima praga acontecer. Para Ramban, isso impede ler a frase como simples antecipação do que ocorrerá em Êxodo 12:36 — se fosse promessa, o verbo estaria no futuro, como em Êxodo 3:21.

Daí ele tira uma leitura incômoda e concreta: os egípcios não passaram a odiar Israel por causa das pragas. Aconteceu o contrário. Eles começaram a olhar aquela gente com simpatia e, na formulação de Ramban, a reconhecer — "nós é que somos os ímpios; há violência nas nossas mãos".

Isso é leitura de comentarista, e é justo dizê-lo. O Êxodo não atribui arrependimento a ninguém e não registra fala nenhuma de egípcio comum. O que Ramban tem a seu favor é o tempo verbal; o que ele acrescenta é o conteúdo psicológico.

Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) resolve o mesmo problema pelo caminho oposto e trata a frase como adiantamento do que só se daria depois. As duas soluções continuam em pé, e não é possível decidir entre elas pelo hebraico.

"Também o homem Moisés era muito grande na terra do Egito"

Aqui o texto para a história e faz um comentário sobre uma pessoa. É raro no Êxodo, e a forma como faz isso é mais rara ainda.

A expressão é "o homem Moisés" — com artigo, como se apresentasse um desconhecido. Ela aparece exatamente mais uma vez na Torá, em Números 12:3, e a construção é idêntica: artigo, "homem", o nome, um adjetivo, "muito". Lá se diz que o homem Moisés era muito manso. Aqui, que era muito grande.

Os dois únicos comentários que a Torá faz sobre o caráter de Moisés, portanto, têm a mesma forma e dizem coisas de ordens diferentes: uma é sobre o que ele era por dentro, a outra sobre o tamanho que ele tinha aos olhos de fora.

E é preciso insistir no que o versículo não diz. Não diz que Moisés era bom. Não diz que era justo, nem sábio, nem temido por Deus. Diz "grande" — palavra de posição, de peso, de importância. Os comentaristas ingleses do século XIX convergem nisso: o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) traduz por "muito influente"; Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) chega a dizer que os egípcios o viam quase no mesmo plano do faraó; Gill atribui a fama aos sinais que ele fizera.

Transformar a frase em elogio moral é acrescentar o que não está. Um homem pode ser muito grande na terra do Egito por razões que não o honram — e o versículo não informa quais eram as dele.

"aos olhos dos servos de Faraó"

"Servos", aqui, não são criados: é o termo da corte para os oficiais do rei, os que despacham com ele.

Ramban observa uma ausência e a explora. O texto diz "aos olhos dos servos de Faraó" e não diz "aos olhos de Faraó". Para ele isso é deliberado: o coração do rei havia sido endurecido, de modo que ele continuava sem enxergar o que a corte inteira já enxergava.

E há um detalhe que fecha um circuito do livro. A expressão "aos olhos dos servos de Faraó" já aparecera uma vez, em Êxodo 5:21, na boca dos capatazes hebreus: Moisés e Arão, diziam eles, os tinham feito feder "aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos". A mesma fórmula, as mesmas pessoas, o juízo invertido. E lá Faraó estava incluído na lista; aqui não está.

Esta frase é também a preparação do versículo 8. Lá, Moisés dirá que esses mesmos servos descerão até ele e se prostrarão pedindo que saia. A prostração de um oficial egípcio diante de um pastor hebreu só não é absurda porque este versículo já preparou o terreno.

"e aos olhos do povo"

Que povo? A frase termina sem dizer, e a dúvida é antiga.

Primeira leitura: são os egípcios. Defende-a Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII), que entende "o povo" como a população do Egito, em contraste com os oficiais citados antes. A frase ficaria assim: Moisés era grande tanto para a corte quanto para o povo comum — de cima a baixo. A favor dela está o começo do versículo, que fala dos egípcios.

Segunda leitura: é Israel. Defende-a Ramban, e o argumento dele é o mais interessante do versículo. Em Êxodo 5:21, os capatazes hebreus tinham dito a Moisés e Arão: "que o SENHOR olhe para vocês e julgue". Em Êxodo 6:9, o povo não ouviu Moisés, por causa da angústia e da servidão dura. Depois de tudo isso, escreve Ramban, ele agora se tornou grande também aos olhos deles, porque viram que estava confirmado como profeta.

Essa leitura resolve um desconforto que o livro vinha carregando. Moisés não foi popular entre os hebreus. O Êxodo registra isso duas vezes antes deste versículo, e registrará outras depois. Se "o povo" é Israel, então este é o primeiro momento do livro em que a relação vira.

E há um terceiro voto, que quase ninguém menciona. A Septuaginta não escolheu: reescreveu. No lugar de "na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo", o grego traz "diante dos egípcios, e diante de Faraó, e diante de todos os seus servos". Ou seja: eliminou "o povo" do fim, e acrescentou Faraó — exatamente o nome que Ramban julgava excluído de propósito.

O tradutor grego, portanto, leu tudo como egípcio e não viu problema nenhum em incluir o rei. Isso não decide a questão; mostra que ela já era sentida no século II antes de Cristo, e que a solução antiga foi ler tudo pelo lado egípcio.

Quem escreve uma frase dessas sobre si mesmo?

A pergunta é inevitável e os comentaristas a enfrentaram.

Ellicott reconhece a estranheza de Moisés escrever "o homem Moisés", e responde que é mais difícil imaginar outra pessoa dando-lhe uma designação tão seca. O Pulpit Commentary registra que se chegou a supor um acréscimo posterior, e argumenta contra.

O mesmo problema existe, e com mais força, em Números 12:3 — onde o texto afirma que Moisés era o mais manso dos homens, o que é peculiar de se escrever a respeito de si. A discussão sobre quem redigiu esses trechos é antiga e não há consenso. O que se pode afirmar é o dado de forma: são as duas únicas vezes em que a Torá usa essa construção, e nas duas a frase olha Moisés de fora.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, visto de fora pela única vez no livro

Ao longo do Êxodo, Moisés é apresentado pelo que Deus lhe diz, pelo que ele responde e pelo que Israel reclama dele. Este versículo faz outra coisa: informa a posição que ele ocupava na avaliação dos egípcios.

É também um homem com biografia egípcia. Cresceu na casa do rei, fugiu depois de matar um homem, passou décadas em Midiã e voltou como estrangeiro. Nada disso é repetido aqui — o versículo trata apenas do resultado, e o resultado é que ele é grande naquela terra.

Os servos de Faraó, que são a corte

A palavra traduzida por "servos" designa os oficiais do rei: os que têm cargo, acesso e voz. Eles já apareceram no ciclo das pragas — em Êxodo 10:7, pedindo ao rei que deixasse aquela gente ir antes que o Egito se perdesse.

São eles que este versículo diz enxergar a grandeza de Moisés, e são eles que, no versículo 8, se prostrarão diante dele.

Faraó, que não é citado

O rei está ausente da frase, e a ausência foi notada cedo. Ramban a lê como intencional; a tradução grega antiga discordou a ponto de acrescentar o nome dele ao texto. Em qualquer das duas leituras, o dado do hebraico é o mesmo: a corte enxerga, e o rei não é mencionado entre os que enxergam.

O povo, que pode ser um de dois

A palavra "povo" aparece duas vezes no versículo. Na primeira, é seguramente Israel — é ao povo hebreu que o favor é dado. Na segunda, no fim da frase, não é claro, e a divisão dos comentaristas está no item 3.

A mesma palavra abre e fecha o versículo com referentes possivelmente diferentes, e o efeito é real: quem lê depressa lê "Israel" nas duas.

O Egito, como lugar de reputação

"Na terra do Egito" é a única indicação de alcance que o versículo dá. Não diz "em Gósen", não diz "na corte", não diz "entre os hebreus". Diz: no país.

5. Pontos de Ensino

"Grande" não é "bom", e o texto sabe a diferença

A palavra escolhida mede posição, não caráter. Quem lê o versículo como atestado de virtude está pondo ali uma informação que não está — e o mesmo livro, mais adiante, mostrará Moisés errando de modos que não combinam com um atestado.

A reputação é feita pelos outros, e por isso é a única coisa aqui medida de fora

Tudo o que o versículo afirma depende de "aos olhos de" alguém. A grandeza de Moisés não é descrita como qualidade dele: é descrita como coisa que existe na avaliação de terceiros. É o mesmo desenho da primeira metade da frase, onde o favor de Israel também mora nos olhos dos egípcios.

O texto não explica por que ele era grande, e a lacuna é instrutiva

Poderia ter dito que era pelos sinais, pelo medo, pela formação na casa real ou pela posição diante do rei. Não diz nada. Quem quiser explicar terá de escolher uma hipótese — e todas as que os comentaristas propuseram são acréscimos.

Quem tinha motivo para desprezar Moisés é quem o reconhece

Os oficiais de uma corte não costumam admirar o estrangeiro que arruinou o país deles. Este versículo diz que admiravam, e é essa inversão que torna verossímil a cena do versículo 8.

Uma nota de método, para quem ensina

Há duas leituras sérias sobre quem é "o povo" no fim do versículo, e elas mudam bastante o sentido. Apresentar apenas uma delas como se fosse o texto é o tipo de simplificação que este estudo procura evitar.

6. Aspectos Filosóficos

Por que um funcionário obedece a quem não tem poder de obrigá-lo?

Os servos de Faraó não devem nada a Moisés. Ele não tem cargo no Egito, não tem tropa, não tem dinheiro e não pode punir ninguém ali. Mesmo assim, o versículo diz que ele é grande aos olhos deles — e três versículos adiante se anuncia que vão se curvar.

Isso não se explica por medo puro. Quem age só por medo obedece enquanto a ameaça está presente e deixa de obedecer quando ela sai da sala. O que o versículo descreve é outra coisa, e ela tem nome.

O autor que tentou defini-la

Alexandre Kojève (1902-1968, filósofo russo radicado na França) escreveu em 1942 um ensaio curto, La notion de l'autorité ("A noção de autoridade"), que só foi publicado décadas depois da morte dele. O problema que ele quer resolver é exatamente este: o que distingue a autoridade da força.

A definição que ele propõe é aguda. Autoridade é a possibilidade de um agente agir sobre os outros sem que eles reajam, embora fossem capazes de reagir. Se houve força, não houve autoridade — houve violência. Se o outro não podia resistir, também não houve autoridade — houve apenas superioridade material.

Daí decorre o ponto que interessa ao versículo: a autoridade existe em quem a reconhece. Quem a detém não pode fabricá-la sozinho. Ela é uma renúncia voluntária a reagir, feita por quem teria como reagir.

Kojève acrescenta que ela nunca vem em estado puro e distingue quatro tipos elementares, que se combinam: a do Pai (fundada na origem, no que veio antes), a do Senhor (fundada no risco assumido), a do Chefe (fundada no projeto, no que ele vê do futuro) e a do Juiz (fundada na imparcialidade).

Onde o versículo encaixa

O encaixe é quase literal na estrutura da frase. O hebraico não diz "Moisés era grande". Diz que ele era grande aos olhos dos servos de Faraó — isto é, situa a grandeza no lugar exato onde Kojève a situa: no reconhecimento alheio.

E os quatro tipos ajudam a ver o que Moisés tinha e o que não tinha. Ele não é Pai daquela gente — não é do lugar, não veio antes deles. Não é Juiz — não arbitra nada no Egito. O que ele tem, na leitura do Êxodo, é algo do Senhor, por ter enfrentado o rei sem recuar, e algo do Chefe, por dizer o que vem a seguir e acertar nove vezes.

O que decide, segundo esse critério, é a ausência de reação. Os oficiais egípcios podiam reagir: tinham cargo, tinham guarda, tinham o rei. Em Êxodo 10:7 eles já haviam falado, e falado contra a posição do próprio rei. A partir daí, param de reagir.

E o que a aproximação revela por contraste

Há um ponto em que o versículo escapa ao esquema, e é o mais interessante.

Kojève descreve a autoridade como relação entre pessoas. Este versículo, porém, põe as duas metades da frase na mesma estrutura: o favor de Israel está "aos olhos dos egípcios" e foi dado por Deus; a grandeza de Moisés está "aos olhos dos servos de Faraó" e o texto não diz quem a pôs ali.

A vizinhança das duas frases sugere uma leitura — a de que também essa grandeza foi posta. Sugere, e não afirma: o sujeito "o SENHOR" governa a primeira oração, e a segunda começa com uma partícula de acréscimo e frase nova. Não é possível decidir se o texto está atribuindo a Deus a reputação de Moisés ou apenas registrando um fato ao lado do outro.

Onde a aproximação falha

Kojève escreve em 1942, na França ocupada, pensando em Estado e em poder político, e não está comentando o Êxodo — a aproximação é do comentarista. O ensaio dele também trabalha com um vocabulário de filosofia alemã que o versículo desconhece.

E há o limite que o próprio texto impõe: o Êxodo não discute por que os egípcios reconheciam Moisés. Registra que reconheciam. Toda explicação — inclusive esta — é acréscimo de leitor.

7. Aplicações Práticas

Ser considerado grande e ser bom são avaliações diferentes, e feitas por gente diferente

O versículo separa as duas coisas com uma palavra só. "Grande" é medida de peso — quanto alguém conta, quanto a opinião dele move, quanto de espaço ele ocupa numa sala. Não diz nada sobre o que essa pessoa é.

A confusão entre as duas medidas é rotineira. Ela aparece quando se toma o cargo de alguém como prova do seu caráter, e aparece igualmente no sentido inverso, quando se supõe que quem tem boa índole deveria ter posição. O Êxodo não faz nenhuma das duas coisas aqui: informa a reputação, e cala sobre o resto.

A reputação mora nos outros, e isso tem consequência prática

Quem depende do reconhecimento alheio para trabalhar — e isso é quase todo mundo — trabalha com um ativo que não é seu e que pode ser retirado sem aviso. O versículo mostra isso sem comentar: a grandeza de Moisés está nos olhos de gente que, semanas antes, o teria mandado embora.

A leitura que faz de Israel o segundo grupo de olhos torna o ponto ainda mais concreto. As mesmas pessoas que haviam pedido que o SENHOR julgasse Moisés, em Êxodo 5:21, passariam a vê-lo como grande — e, poucos capítulos adiante, no deserto, voltariam a reclamar. Reputação não é posse; é estado de uma relação.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, "aos olhos do povo" são os egípcios ou os hebreus?

As duas leituras estão no item 3, com os seus donos, e nenhuma se impõe. O que se pode acrescentar é o critério que cada uma usa: Ibn Ezra decide pelo contexto imediato — o versículo começa falando de egípcios —, e Ramban decide pela história do livro — Moisés vinha sendo rejeitado por Israel, e alguma hora isso tinha de mudar. São dois métodos legítimos, e eles apontam para lados opostos.

Se Moisés era tão grande, por que Faraó não cedeu?

O versículo não responde, e Ramban tenta: o rei estava endurecido, e por isso não via o que a corte inteira já via. É leitura, não texto.

O que se pode observar sem sair do versículo é a separação que ele faz. A reputação de Moisés circula entre os oficiais; a decisão está com um homem só, e esse homem não aparece na lista dos que enxergam.

Moisés poderia ter escrito isso a respeito de si mesmo?

A pergunta é antiga e não tem resposta pacífica. A mesma dificuldade existe em Números 12:3, onde se afirma que ele era o mais manso dos homens.

Há três caminhos, e nenhum é confortável: tratar a frase como acréscimo posterior, o que alguns comentaristas consideraram e outros rejeitaram; tratá-la como registro objetivo feito pelo próprio Moisés, o que exige supor nele uma distância incomum; ou não decidir. Este estudo fica com a terceira, e observa apenas que a construção usada nos dois casos olha Moisés de fora — como se o texto estivesse citando o que se dizia dele.

Por que a Bíblia não conta o que Moisés fez para ficar grande no Egito?

Porque este não é um livro sobre Moisés. O Êxodo dá a ele uma infância, uma fuga, um chamado e uma missão, e omite quase tudo o que um biógrafo quereria. A lacuna foi sentida desde cedo, e é ela que autores judeus de língua grega se puseram a preencher — o material está no item 2.

O favor "dado" por Deus tira dos egípcios a decisão de serem generosos?

O texto não discute isso, e é honesto não fingir que discute. Ele diz que o favor foi posto, e não explica o que sobra da vontade de quem o recebeu. A mesma pergunta já aparecia em Êxodo 3:21, e o livro não a enfrenta em nenhum dos dois lugares.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa que a primeira metade do versículo cumpre

Êxodo 3:21 — "E darei a este povo favor aos olhos dos egípcios; e, quando vocês partirem, não sairão de mãos vazias."

A mesma construção, com o verbo no futuro. É a diferença de tempo entre os dois versículos que sustenta o argumento de Ramban tratado no item 3.

A mesma fórmula, com o juízo invertido

Êxodo 5:21 — "e lhes disseram: ‘Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.’"

Esta é a ligação mais forte do versículo. A expressão "aos olhos dos servos de Faraó" aparece nos dois lugares, e só nos dois. No primeiro, os capatazes hebreus acusam Moisés de tê-los tornado repugnantes justamente diante daquela gente; no segundo, o texto informa que diante daquela mesma gente ele é muito grande. E há a diferença de lista: em Êxodo 5:21 o rei está incluído; aqui, não.

Israel rejeitando Moisés, antes

Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."

É o segundo pilar da leitura de Ramban, para quem "o povo" do fim do nosso versículo é Israel: depois de não ser ouvido, Moisés passa a ser reconhecido.

A corte falando contra o próprio rei

Êxodo 10:7 — "Então os servos de Faraó lhe disseram: ‘Até quando este homem será uma armadilha para nós? Deixe esses homens irem, para que sirvam ao SENHOR, o seu Deus. Você ainda não sabe que o Egito está perdido?’"

Os oficiais já haviam tomado posição contrária à do rei um capítulo antes. Note como eles chamam Moisés ali: "este homem". O nosso versículo usa a mesma palavra em tom oposto — "o homem Moisés".

O que este versículo prepara

Êxodo 11:8 — "Então todos estes seus servos descerão a mim e se prostrarão diante de mim, dizendo: ‘Saia, você e todo o povo que segue os seus pés’; e depois disso eu sairei."

A prostração de oficiais egípcios diante de um hebreu é o desfecho que a nota deste versículo torna possível de ler. Sem ela, a cena do versículo 8 seria inverossímil dentro do próprio relato.

A única outra vez em que a Torá descreve Moisés assim

Números 12:3 — "E o homem Moisés era muito manso, mais do que todos os homens que havia sobre a face da terra."

Mesma construção, mesma estrutura, outra qualidade — e o mesmo problema de saber quem escreveria uma frase dessas.

O cumprimento do favor

Êxodo 12:36 — "E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito."

A frase da primeira metade do nosso versículo reaparece quase idêntica, agora com a consequência explicitada. Para Gill, é neste ponto que ela de fato se realiza; para Ramban, o versículo 3 já descrevia outra coisa.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios. Também o homem Moisés era muito grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo.

Texto hebraico

וַיִּתֵּן יְהוָה אֶת־חֵן הָעָם בְּעֵינֵי מִצְרָיִם גַּם הָאִישׁ מֹשֶׁה גָּדוֹל מְאֹד בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם בְּעֵינֵי עַבְדֵי־פַרְעֹה וּבְעֵינֵי הָעָם׃

Transliteração

wa-yittén YHWH et-chen ha-am be-einei Mitsráyim; gam ha-ish Mosheh gadól me'ód be-érets Mitsráyim, be-einei avdey-far'óh u-ve-einei ha-am.

Análise palavra por palavra

וַיִּתֵּן — wa-yittén, "e deu".

Verbo natan — dar, pôr, conceder — na cadeia narrativa do passado. Aqui está o ponto que Ramban explorou: em Êxodo 3:21 a mesma construção aparece no futuro, "eu darei". Esta é a forma do fato consumado, e ela aparece antes da décima praga.

אֶת־חֵן הָעָם — et-chen ha-am, "o favor do povo".

Chen é favor, boa disposição, simpatia — o que hoje se chamaria de aceitação. A construção incomum, em que Deus é o sujeito que põe o favor em vez de o povo achá-lo, foi desenvolvida no estudo de Êxodo 3:21, e não se repete aqui.

Ao pé da letra, a expressão é "o favor do povo", com os dois substantivos ligados: o favor que diz respeito a esse povo.

בְּעֵינֵי מִצְרָיִם — be-einei Mitsráyim, "aos olhos do Egito".

Ayin é olho; a forma aqui é dual em estado construto, "os olhos de". O hebraico diz "do Egito", com o nome do país, onde o português precisa do povo.

Esta locução — "aos olhos de" — aparece três vezes neste único versículo, e é o eixo dele: tudo o que se afirma aqui é afirmado como coisa que existe na avaliação de alguém.

גַּם — gam, "também".

Partícula de acréscimo. Ela é pequena e faz um trabalho grande: marca que o que vem a seguir é informação adicional, fora da linha do relato. É por causa dela que a segunda metade do versículo tem cara de nota à margem.

הָאִישׁ מֹשֶׁה — ha-ish Mosheh, "o homem Moisés".

Ish é homem, varão, indivíduo. Com artigo e seguido do nome próprio, a construção soa estranha também em hebraico: é como apresentar alguém que o leitor deveria conhecer.

Ela aparece duas vezes na Torá, e as duas com a mesma estrutura: artigo, ish, o nome, um adjetivo, me'ód ("muito"). Aqui, "o homem Moisés era muito grande". Em Números 12:3, "o homem Moisés era muito manso".

Não há terceira ocorrência. São, portanto, as duas únicas frases da Torá que descrevem Moisés de fora, com o mesmo molde — e cada uma mede uma coisa diferente.

גָּדוֹל — gadól, "grande".

Adjetivo comum, de uso amplíssimo: grande em tamanho, em quantidade, em idade, em importância. Aplicado a pessoas, mede posição e peso social, não virtude.

É a palavra que descreve Naamã como homem grande diante do seu senhor, em 2 Reis 5:1, e é a que forma o título do sumo sacerdote — literalmente "o sacerdote grande". O hebraico tinha outras palavras disponíveis para dizer justo, íntegro, sábio ou temente a Deus. Usou esta.

מְאֹד — me'ód, "muito".

Advérbio de grau, o mais forte do idioma. É a mesma palavra do "muito bom" do sexto dia da criação.

בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם — be-érets Mitsráyim, "na terra do Egito".

Érets é terra, país, território. A expressão marca o alcance geográfico da reputação: não era coisa de palácio nem de Gósen, e sim do país.

בְּעֵינֵי עַבְדֵי־פַרְעֹה — be-einei avdey-far'óh, "aos olhos dos servos de Faraó".

Eved significa servo, escravo, súdito — e também funcionário do rei. É esse o sentido aqui: os oficiais da corte, os que despacham com o soberano.

A mesma palavra, no mesmo livro, nomeia os hebreus sob trabalho forçado. O Êxodo não explora a coincidência, e forçá-la seria acrescentar o que o texto não faz; o dado de vocabulário, porém, está lá.

Esta expressão exata — "aos olhos dos servos de Faraó" — só aparece mais uma vez no livro, em Êxodo 5:21, com o sentido invertido.

וּבְעֵינֵי הָעָם — u-ve-einei ha-am, "e aos olhos do povo".

Ha-am, "o povo", com artigo e sem qualquer qualificação. É exatamente a mesma palavra usada no começo do versículo, onde designa Israel.

Daí a ambiguidade, que o hebraico não resolve: a repetição favorece ler "Israel" nas duas vezes, e o contexto imediato — servos de Faraó, terra do Egito — favorece ler "os egípcios" na segunda. As duas leituras, com os seus defensores, estão no item 3.

O que a Septuaginta fez com o fim do versículo

A tradução grega não conservou esta frase. Onde o hebraico traz "na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo", ela traz "diante dos egípcios, e diante de Faraó, e diante de todos os seus servos".

São três mudanças: some "na terra do Egito", some "o povo" do fim, e entra Faraó. O grego também acrescentou, antes disso, uma frase inteira sobre os egípcios terem emprestado.

Não é possível decidir se o tradutor tinha diante de si um texto hebraico diferente ou se estava resolvendo a ambiguidade por conta própria. O que se pode afirmar é que ele leu tudo pelo lado egípcio, e que a ausência de Faraó — que comentaristas medievais considerariam significativa — não o incomodou.

11. Conclusão

Com base no que foi examinado, três conclusões se sustentam e uma pergunta continua sem resposta.

A primeira: tudo o que este versículo afirma é afirmado como avaliação de terceiros. A locução "aos olhos de" aparece três vezes em duas frases curtas. Nem o favor de Israel nem a grandeza de Moisés são descritos como qualidades próprias: existem no juízo de quem olha. É um modo de dizer que o livro usa pouco, e usa aqui.

A segunda: a palavra escolhida mede posição, não caráter. Um homem pode ser muito grande na terra do Egito sem que isso diga nada sobre o que ele é. Quem transforma a frase em elogio moral está lendo o que não está escrito, e o próprio livro mostrará Moisés de modos que não combinariam com um atestado.

A terceira: a nota existe para tornar legível o que vem a seguir. Sem ela, a cena do versículo 8 — oficiais do Egito prostrados diante de um pastor hebreu — não teria como ser lida dentro do relato. O texto interrompe o anúncio da praga para preparar o desfecho da audiência.

E o que fica sem resposta: a quem pertencem os últimos olhos do versículo. Ibn Ezra lê os egípcios, Ramban lê Israel, a Septuaginta reescreveu a frase e apagou a dúvida, e o hebraico continua admitindo as duas. A escolha muda bastante o versículo — numa leitura ele descreve a conquista de um país estrangeiro; na outra, a reconciliação com o próprio povo.

Resta a estranheza de fundo, e ela é do texto. A única frase do Êxodo que informa como Moisés era considerado no Egito não diz que ele era bom, não diz o que ele fez para ser assim considerado e não diz quem pôs ali essa grandeza. Diz o tamanho, e passa adiante.

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Êxodo 11:3

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