e lhes disseram: “Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.”
1. Introdução
Este é o versículo em que o povo se volta contra os seus libertadores, e ele é o mais duro do capítulo.
A fala é curta e tem três partes. Abre com uma invocação: que o SENHOR olhe e julgue. Segue com a acusação: vocês nos tornaram malcheirosos diante do rei e dos homens dele. Fecha com a consequência temida: puseram na mão deles uma espada para nos matar.
Três coisas precisam ser ditas logo, porque a leitura corrente costuma errar nas três.
A primeira: a acusação é, quanto aos fatos, correta. Nada no capítulo a contradiz. A situação piorou depois de Êxodo 5:1, por causa de Êxodo 5:1, e quem pagou foram eles.
A segunda: o Êxodo não repreende ninguém aqui. Não há uma palavra de censura, nem no versículo, nem no seguinte, nem no fim do capítulo. Quem lê "falta de fé" está trazendo de fora um julgamento que o texto não faz.
A terceira, e é o achado deste versículo: eles não amaldiçoam Moisés e não apelam a Faraó. Invocam o SENHOR contra Moisés — o mesmo nome que Moisés trouxe, usado contra ele. É a única vez no Êxodo inteiro em que israelitas pedem a Deus que julgue Moisés.
O item 2 trata do que estava em jogo quando um grupo perdia posição diante da administração egípcia. O item 3 percorre a fala frase por frase. O item 6 examina, com Paulo Freire, por que a desconfiança se dirige a quem propõe a mudança e não a quem mantém a opressão. E o item 10 mostra que o hebraico mistura cheiro e olhos numa imagem que a tradução tem dificuldade de carregar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem são "os servos de Faraó"
A expressão não designa criados. Designa o corpo de funcionários do Estado — o conjunto dos que tinham título, despacho e acesso ao rei. É o mesmo aparelho que o Gênesis chama de "casa de Faraó", cuja composição está descrita no estudo de Gênesis 50:4.
Entender isso muda o peso da frase. Os supervisores não estão dizendo que ficaram malvistos pelo soberano apenas. Estão dizendo que ficaram malvistos por toda a cadeia que decide o dia a dia deles: o escriba que anota a cota, o feitor que cobra, o oficial que julga, o encarregado que distribui trabalho. São essas pessoas que têm a mão em cima da vida de um trabalhador forçado — e é diante delas que a reputação do grupo acabou de ser destruída.
A reputação como único bem jurídico de quem não tem direitos
Num sistema de trabalho compulsório, o trabalhador não tem contrato, não tem foro e não tem quem o represente. O que ele tem é posição: ser considerado gente que cumpre, gente ordeira, gente com quem não há problema. Essa consideração não é sentimento — é a diferença prática entre ser cobrado com rigor e ser cobrado com violência.
É esse bem que a fala diz ter sido perdido. Quem lê "ficamos com má fama" pensa em constrangimento; o que está em causa é a proteção informal que sustentava a vida daquela gente. A imagem escolhida para dizê-lo — fazer feder — vem de um vocabulário que a Bíblia já tinha usado, e o tratamento dela está em Gênesis 34:30, onde Jacó acusa os filhos exatamente do mesmo. O que este versículo faz de novo com a imagem está no item 10.
"Pondo na mão deles uma espada": o que os documentos mostram e o que não mostram
Aqui é preciso ser exato, porque a frase costuma ser lida como se descrevesse um massacre iminente.
O que a documentação egípcia registra como punição de trabalhadores é o espancamento — que o próprio capítulo já mostrou em Êxodo 5:14 —, a transferência para serviços piores, a prisão e, em crimes graves, a mutilação, esta última tratada no estudo de Gênesis 44:33. Também há registro de execução, mas ligada a delitos específicos, como o saque de tumbas ou a conspiração contra o rei, e sempre com processo.
O que não existe na documentação é o extermínio de uma força de trabalho. E há um motivo óbvio: o valor daquela gente para o Estado era o trabalho dela. Matar a mão de obra é destruir o que se está construindo.
Disso não se conclui que os supervisores estejam exagerando. Conclui-se outra coisa, e é mais precisa: eles não estão descrevendo um procedimento conhecido; estão descrevendo um pretexto. A espada na mão de alguém é a figura de quem recebeu a justificativa de que precisava. Se a justificativa seria usada ou não, o texto não diz, e não é possível decidir — e esse povo tinha memória recente de uma ordem de matar, a de Êxodo 1:22.
A espada que se põe na mão, na imagem egípcia
Há um detalhe de cultura visual que vale registrar, com a ressalva de que o Êxodo não o menciona e de que a ligação é observação de quem comenta, não afirmação do texto.
Nas paredes dos templos egípcios existe uma cena repetida durante séculos: o deus estende ao rei a espada curva, a arma de lâmina em foice que os egípcios usavam, e o rei a recebe da mão do deus antes de abater os inimigos. Entregar a espada é, na linguagem visual do Egito, autorizar o massacre.
Os supervisores dizem que quem pôs a espada na mão de Faraó foram Moisés e Arão. Nos termos daquele mundo, é uma acusação de ter ocupado o lugar do deus — e de tê-lo ocupado em favor do inimigo.
3. Análise Teológica do Versículo
“e lhes disseram”
Não há saudação, não há pergunta e não há relato. O primeiro som que sai da boca desses homens depois do palácio já é a acusação.
Vale reparar em quem fala. Não é o povo, que está espalhado pelo Egito desde Êxodo 5:12. São os supervisores — os mesmos que transmitiram a ordem ao povo em Êxodo 5:10, apanharam em Êxodo 5:14 e foram chamados de preguiçosos em Êxodo 5:17. Quem acusa Moisés é a camada que estava no meio, e ela acusa depois de ter percorrido o sistema inteiro por dentro.
Isso descarta duas leituras fáceis. Não é uma multidão exaltada, e não é gente que não tentou. É um grupo de homens com função, que fez o que havia para fazer, e que chegou ao fim da linha.
“Que o SENHOR olhe para vocês e julgue!”
É uma fórmula de apelação. Ela pertence ao mundo em que duas partes em conflito não têm juiz comum e remetem a causa a Deus — o funcionamento da fórmula está tratado em Gênesis 16:5, onde Sarai a usa contra Abrão, e ela reaparece em outras disputas do Antigo Testamento.
O que é próprio deste versículo não é a fórmula. É o alvo.
Considere-se o que aconteceu nos dois capítulos anteriores. O nome do SENHOR foi revelado a Moisés no Horebe. Moisés o levou ao povo. O povo acreditou e adorou, em Êxodo 4:31. Moisés o pronunciou diante de Faraó em Êxodo 5:1 — "Assim diz o SENHOR" — e o rei respondeu que não o conhecia.
E aqui, quinze versículos depois, o primeiro uso que Israel faz desse nome no livro é contra o homem que o trouxe. Não é blasfêmia, não é rejeição de Deus e não é abandono da fé: é o contrário disso. Só invoca um juiz quem acredita que ele existe e que ele julga. A fé que Êxodo 4:31 registrou está inteira nesta frase — e apontada para o outro lado.
O verbo da primeira metade merece atenção. Eles pedem que o SENHOR olhe. É o vocabulário de Êxodo 2:25 e de Êxodo 3:7, onde Deus viu os filhos de Israel e viu a aflição do seu povo, e onde esse olhar foi o começo da salvação. Aqui o mesmo olhar é pedido como início de um processo contra Moisés e Arão. A palavra que em Êxodo 3 abre a libertação, em Êxodo 5 abre uma acusação.
E há o que a fórmula não contém. Eles não amaldiçoam. Não desejam mal, não pedem castigo, não estipulam pena. Pedem que Deus veja e decida — que é, tecnicamente, um pedido de julgamento, não de vingança. A diferença é fina e é real: quem amaldiçoa dispensa o juiz; quem invoca o juiz aceita de antemão o que ele decidir, inclusive contra si.
“Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos”
Este é o corpo da acusação, e o primeiro trabalho é examinar de que ela acusa.
Não acusa de mentira. Ninguém diz que Moisés inventou o recado, que Deus não falou, que os sinais foram truque. Não acusa de traição. Não acusa de má intenção.
Acusa de resultado. O argumento inteiro cabe numa linha: vocês agiram, e depois de vocês agirem nós ficamos assim. É uma acusação de consequência, e por isso é irrespondível dentro do capítulo — porque a consequência está documentada em todos os versículos anteriores.
Quanto aos fatos, eles têm razão. Antes de Êxodo 5:1 havia trabalho forçado com palha fornecida. Depois de Êxodo 5:1 há a mesma cota sem fornecimento, gente espalhada pelo Egito atrás de restolho, supervisores espancados e uma negativa final do rei. O texto não oferece nenhuma informação que desminta a fala.
E o Êxodo não a corrige. Não escreve que eles erraram, não escreve que se esqueceram da promessa, não escreve que murmuraram. Registra a fala e passa adiante. Quem conhece o vocabulário das murmurações do deserto tende a aplicá-lo aqui por antecipação; convém notar que aquele vocabulário não está neste capítulo, e que lê-lo aqui é decisão do leitor.
Um detalhe da acusação costuma passar despercebido e é importante: eles dizem "vocês nos fizeram". Não dizem "vocês fizeram o SENHOR nos abandonar", não põem Deus na frase como causa. A responsabilidade que eles atribuem é humana e é dos dois homens que estão ali. Deus entra na fala como juiz, não como réu. Quem acusará Deus é Moisés, no versículo seguinte.
“pondo na mão deles uma espada para nos matar”
A frase fecha com uma morte que não aconteceu.
Três observações. A primeira é que a imagem não é de execução, e sim de armamento: a espada está na mão de alguém, e quem a pôs ali foram os acusados. É acusação de ter dado o pretexto, e o que essa figura significava naquele mundo está no item 2.
A segunda é o tempo verbal da expectativa. Ninguém morreu. Eles apanharam, o que é fato, e temem morrer, o que é previsão. A fala mistura o que aconteceu com o que se teme, sem separar as duas coisas — que é como as pessoas falam depois de uma surra e de uma humilhação pública, e o Êxodo não faz nenhum reparo a isso.
A terceira é a memória que sustenta o medo. Este povo tinha ouvido, na geração anterior, uma ordem real de jogar meninos no rio, em Êxodo 1:22. A hipótese de que o rei mande matar hebreus não era abstrata na cabeça de quem falava.
O que a fala não pede
É a observação final, e talvez a mais desconfortável do versículo.
Eles não pedem nada a Moisés. Não pedem que ele volte ao palácio, que desfaça o que fez, que interceda, que explique. Não perguntam o que vai acontecer agora. Não mencionam a promessa de libertação, não mencionam a saída do Egito, não mencionam o deserto nem a festa.
A fala entrega o caso a Deus e termina. Depois dela, os supervisores saem de cena: o capítulo se encerra sem que voltem a aparecer. E Moisés não lhes responde uma palavra — o que ele tem a dizer, dirá a Deus, e será outra acusação.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os supervisores dos filhos de Israel
São os que falam, e é a última fala deles no livro. Hebreus postos por Faraó sobre hebreus: a natureza do cargo está em Êxodo 5:6, e o preço de exercê-lo, em Êxodo 5:14.
O capítulo lhes deu uma trajetória completa e, é preciso dizer, não os julgou em momento nenhum. Não são apresentados como colaboradores do opressor nem como heróis da resistência. Transmitem uma ordem cruel porque é a função deles; apanham porque a função não vinha com poder; peticionam porque era o que restava; e agora acusam. Qualquer leitura que os reduza a traidores ou a vítimas puras apaga o que o texto construiu em dezesseis versículos.
Moisés e Arão
São os acusados, tratados no plural em toda a fala — "vocês nos fizeram", "que o SENHOR olhe para vocês". Não respondem. Não há verbo nenhum atribuído a eles neste versículo: estão ali como destinatários.
É a última vez em todo o capítulo em que os dois aparecem juntos. No versículo seguinte, Moisés se move sozinho.
O SENHOR
É invocado e está ausente da cena. Não fala, não aparece, não responde. A menção é a primeira do nome desde Êxodo 5:17, e ela vem na boca de israelitas — não na de Moisés e não na de Faraó.
Aqui o nome ocupa uma função precisa: a de juiz entre duas partes israelitas. É um papel que o livro ainda não lhe tinha dado.
Faraó e os seus servos
Aparecem apenas como olhos. Não agem, não falam, não decidem nada neste versículo — são a instância diante da qual a reputação do grupo foi perdida.
A menção conjunta importa: não é só o rei. É o rei e toda a máquina de gente que o cerca, tratada no item 2.
Quem não está
O povo não está. Desde Êxodo 5:12 ele se dispersou pelo Egito, e não se reúne mais no capítulo. A acusação mais grave do capítulo não é feita por uma multidão: é feita por seis ou sete homens numa porta.
Os anciãos, que deviam ter ido ao rei junto com Moisés segundo Êxodo 3:18 e que foram reunidos em Êxodo 4:29, continuam fora do texto.
A espada
Não é um objeto da cena: é uma figura de linguagem. Ninguém desembainha nada neste versículo, e ninguém morre neste capítulo.
5. Pontos de Ensino
A acusação pode estar certa nos fatos
Esta é a lição mais difícil do versículo, e ela é a que a pregação costuma pular. Os supervisores não estão delirando. A vida deles piorou, piorou por causa do que Moisés fez, e eles apanharam por isso. Quem quiser ler o capítulo tem de aceitar que a queixa é factualmente exata — e que o texto, mesmo assim, não conclui daí que Moisés errou.
Invocar Deus contra alguém é um ato de fé, não o contrário
Só pede juiz quem acredita que há juiz. A fala deste versículo pressupõe tudo o que Êxodo 4:31 registrou: que o SENHOR existe, que vê, que julga e que pode decidir uma causa entre israelitas. O que mudou não foi a crença; foi para onde ela está apontada.
O primeiro efeito de uma libertação anunciada pode ser piora
O capítulo inteiro é a demonstração disso, e este versículo é a fatura. Nada no Êxodo prepara o leitor para essa sequência, e o livro não a explica como pedagogia, prova de fé ou etapa necessária. Apenas registra que foi assim que começou.
A camada do meio é a que apanha primeiro
Feitores egípcios cobram, o rei decide, o povo trabalha — e quem é espancado, quem peticiona e quem acaba acusando são os hebreus postos entre uns e outros. Sistemas de opressão costumam funcionar assim, e é raro um texto antigo mostrar o mecanismo com esta clareza.
Quem não responde não é necessariamente quem não tem resposta
Moisés ouve tudo e não devolve uma palavra. Não se defende, não corrige, não explica o plano, não lembra a promessa. Leva o assunto para outro lugar — e é lá, no versículo seguinte, que se descobre que ele estava fazendo a mesma pergunta que eles.
O texto não pune quem fala assim
Não há castigo, não há repreensão, não há sequer um comentário desaprovador. Para quem foi ensinado que reclamar é pecado, este versículo é um problema — e o problema é do ensino, não do texto.
6. Aspectos Filosóficos
A questão filosófica deste versículo é uma das mais incômodas que existem: por que a desconfiança de quem sofre se volta contra quem propõe a mudança, e não contra quem mantém a opressão?
A pergunta não é retórica. Neste versículo o rei ordenou a medida, os feitores a executaram, os supervisores foram espancados — e a acusação, quando sai, não é dirigida a nenhum desses. É dirigida a dois homens que pediram uma festa no deserto.
O pensador que descreveu esse mecanismo com mais precisão foi o brasileiro Paulo Freire (1921-1997), na Pedagogia do Oprimido, escrita no exílio e publicada em 1968. O livro é sobre alfabetização de adultos e educação política, não sobre a Bíblia, e a aproximação que se faz aqui é leitura de quem comenta — o Êxodo não pensa nesses termos e não usa esse vocabulário.
O medo da liberdade
A tese central de Freire é que a liberdade não é recebida como alívio. Ela é recebida, num primeiro momento, como ameaça — porque exige preencher o vazio que a opressão ocupava, e porque o que existe, por pior que seja, é conhecido.
Ele chama isso de medo da liberdade, e acrescenta uma observação mais dura: o oprimido carrega dentro de si a imagem do opressor. Aprendeu com ele o que é ordem, o que é autoridade, o que é o normal. Por isso, no momento em que a ordem antiga é sacudida, a reação imediata não é festejar — é procurar quem sacudiu.
Aplicado ao versículo, isso explica a direção da acusação sem precisar diminuir ninguém. Faraó não é acusado porque Faraó é o mundo como ele é. Moisés é acusado porque Moisés é a novidade — e a novidade, no dia em que chega, custa tijolos, palha e pancada.
A liderança que traz um plano pronto
Há uma segunda parte da análise de Freire que morde ainda mais fundo, e que o capítulo permite ver.
Freire distingue a ação feita com o povo da ação feita para o povo. A segunda, mesmo com a melhor das intenções, trata as pessoas como beneficiárias de um projeto que não é delas — e a chamada libertação vira mais uma coisa que acontece com elas, decidida em outro lugar.
Repare no que o capítulo mostra, sem dizer nada a respeito. A instrução de Êxodo 3:18 era ir ao rei com os anciãos de Israel. Em Êxodo 5:1 entram dois homens sozinhos. A petição de Êxodo 5:15 é feita pelos supervisores sem Moisés. E quando os dois grupos finalmente se encontram, é na porta, depois do estrago. Em nenhum momento deste capítulo os israelitas e os seus libertadores decidem alguma coisa juntos.
Não se deve forçar a conclusão. O texto não critica Moisés por isso e não estabelece relação de causa entre uma coisa e outra; a leitura é possível, não é demonstrável, e o Êxodo não a autoriza.
O limite da aproximação
Freire escreveu sobre um processo educativo em que a consciência do oprimido se transforma pelo diálogo, e a sua esperança é explicitamente política. O Êxodo 5 não oferece nada disso. Não há diálogo, não há processo, não há tomada de consciência — há uma acusação na porta de um palácio, e um capítulo que termina sem resposta.
O que a leitura de Freire acrescenta é uma coisa só, e ela basta: a reação dos supervisores é inteligível. Não é fraqueza moral nem falha espiritual. É o que costuma acontecer quando a primeira consequência concreta de uma promessa de liberdade é o aumento da carga. Quem já viu isso de perto não tem dificuldade nenhuma em entender o versículo 21.
7. Aplicações Práticas
Quando a queixa contra você está certa nos fatos
É a situação exata de Moisés, e ela é frequente. Alguém propõe uma mudança, a mudança sai pela culatra num primeiro momento, e quem paga vem cobrar. A tentação é responder no terreno dos fatos — explicar que não era isso que se pretendia, que o resultado foi de terceiros, que ainda vai melhorar.
Repare no que Moisés faz: não responde nada. Não corrige, não se defende, não promete. Isso não é modelo de conduta, porque o Êxodo não o apresenta como modelo — mas é um dado útil. Há momentos em que a explicação, mesmo correta, só serve a quem explica.
Reconhecer o mecanismo antes de acusar
Do outro lado, o versículo serve a quem está no lugar dos supervisores. Quando algo piora, a mira procura automaticamente quem está ao alcance, e quem está ao alcance quase nunca é o responsável. O rei estava inacessível; os dois homens estavam na porta.
Notar esse automatismo em si mesmo, no minuto em que ele acontece, é praticamente tudo o que se pode fazer a respeito. Não impede a raiva, que é legítima. Muda a pontaria.
Entregar a causa em vez de resolvê-la por conta própria
Há uma coisa que esses homens fazem e que merece ser vista sem romantismo. Eles estavam armados de raiva, com marcas nas costas, diante de dois homens desprotegidos, e não encostaram a mão neles. Pediram que Deus visse e julgasse.
Não é resignação — a fala é duríssima. É a decisão de submeter a disputa a um juiz em vez de executá-la. Para quem vive conflitos em família, em sociedade ou no trabalho, a distinção entre desejar o mal de alguém e pedir que a causa seja julgada é mais prática do que parece.
Não usar este versículo para calar ninguém
A aplicação mais importante é uma proibição. Este texto é usado com frequência para ensinar que reclamar da liderança é pecado, e o versículo não dá base nenhuma para isso: não há repreensão, não há castigo, não há comentário. Quem o usa assim está pregando o que gostaria que estivesse escrito.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os supervisores perderam a fé?
O texto não diz, e a fala sugere o contrário. Quem pede que o SENHOR olhe e julgue está contando com o SENHOR. O que a fala não menciona é a promessa de libertação — e essa ausência é real e vale registrar, sem que dela se conclua o que o Êxodo não conclui.
O Êxodo está condenando essa fala?
Não há uma palavra de condenação no versículo, no versículo seguinte ou no fim do capítulo. Também não há endosso. O texto registra a fala e segue, e essa neutralidade é uma escolha — o Êxodo sabe reprovar o que quer reprovar, e não reprova nada aqui.
Por que eles acusam Moisés e não Faraó?
A resposta prática está na geografia da cena, e o item 2 a desenvolve: o rei acabou de fechar a porta, e os dois homens estão ao alcance da voz. A resposta mais funda, sobre por que a desconfiança se dirige a quem propõe a mudança, está no item 6, com Paulo Freire.
A acusação é justa?
Quanto aos fatos, sim: a piora veio depois da intervenção de Moisés e por causa dela. Quanto à conclusão — que os dois devam ser julgados por isso —, o texto não decide. E é preciso resistir à vontade de decidir por ele.
Por que Moisés não responde?
O Êxodo não informa. O que informa é o que ele faz em seguida: em vez de se explicar aos homens, leva a mesma questão a Deus. Quem lê os dois versículos juntos percebe que ele não tinha o que responder porque estava fazendo a mesma pergunta.
"Feder aos olhos" não é uma imagem estranha?
É, e a estranheza está no hebraico, não na tradução. O original mistura cheiro com visão, e a nossa versão preservou a mistura em vez de alisá-la. O tratamento da expressão está no item 10.
Alguém chegou a morrer?
Não. Ninguém morre neste capítulo. A espada é figura de linguagem, e a morte é temida, não ocorrida — distinção que a leitura apressada costuma apagar.
9. Conexão com Outros Textos
A fórmula da apelação
Gênesis 16:5 — "Então Sarai disse a Abrão: 'Caia sobre você a afronta que sofro! Eu pus a minha serva nos seus braços, e agora que ela se vê grávida, me olha com desprezo. Que o SENHOR julgue entre mim e você.'"
A mesma fórmula, dita entre pessoas que não têm juiz comum. O funcionamento dela está tratado ali; o que este versículo acrescenta é o alvo — um enviado de Deus, acusado diante do próprio Deus que o enviou.
A mesma acusação, na boca de Jacó
Gênesis 34:30 — "Então Jacó disse a Simeão e a Levi: 'Vocês me puseram em apuros, tornando-me odioso aos habitantes desta terra, os cananeus e os ferezeus. Somos poucos; se eles se juntarem contra mim e me atacarem, serei destruído, eu e a minha casa.'"
É o paralelo mais próximo da Bíblia inteira, e a estrutura é idêntica: você agiu, ficamos malcheirosos diante de quem tem poder sobre nós, e agora vamos morrer. Lá é um pai falando com os filhos; aqui é um povo falando com quem veio libertá-lo.
A primeira vez que um israelita fala com Moisés
Êxodo 2:14 — "E o homem respondeu: 'Quem o pôs como chefe e juiz sobre nós? Você pretende me matar como matou o egípcio?' Então Moisés teve medo e pensou: 'Sem dúvida a coisa se sabe.'"
Vale pôr as duas falas lado a lado. Antes deste capítulo, a única vez em que um hebreu se dirige a Moisés no livro é para contestar a autoridade dele e falar em morte. Aqui acontece de novo, quarenta anos e dois capítulos de sinais depois.
Tornar-se odioso ao ocupante
1 Samuel 13:4 — "E todo o Israel ouviu dizer que Saul tinha ferido a guarnição dos filisteus, e também que Israel se tinha feito odioso aos filisteus."
O mesmo verbo, na mesma situação política: um ato de resistência que deixa o povo inteiro malvisto diante de quem o domina. Lá o texto não julga a reação; aqui também não.
O que virá depois, e a diferença
Êxodo 14:11-12 — "E disseram a Moisés: ‘Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto? Que foi isso que você fez conosco, tirando-nos do Egito? Não é isto o que lhe dissemos no Egito: “Deixe-nos, para que sirvamos aos egípcios”? Pois melhor nos seria servir aos egípcios do que morrermos no deserto.’"
Números 16:13 — "É pouco que você nos tenha feito subir de uma terra que mana leite e mel para nos matar no deserto, e ainda quer se fazer príncipe sobre nós?"
As queixas posteriores são parecidas na forma e diferentes no essencial: nelas o povo fala com Moisés e reclama de Moisés. Aqui, e só aqui, a queixa é endereçada a Deus contra Moisés, em forma de pedido de julgamento.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
e lhes disseram: “Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.”
Texto hebraico
וַיֹּאמְרוּ אֲלֵהֶם יֵרֶא יְהוָה עֲלֵיכֶם וְיִשְׁפֹּט אֲשֶׁר הִבְאַשְׁתֶּם אֶת־רֵיחֵנוּ בְּעֵינֵי פַרְעֹה וּבְעֵינֵי עֲבָדָיו לָתֶת־חֶרֶב בְּיָדָם לְהָרְגֵנוּ
Transliteração
way-yō-mə-rū 'ă-lê-hem yê-re YHWH 'ă-lê-ḵem wə-yiš-pōṭ 'ă-šer hiḇ-'aš-tem 'eṯ-rê-ḥê-nū bə-'ê-nê p̄ar-'ōh ū-ḇə-'ê-nê 'ă-ḇā-ḏāw lā-ṯeṯ-ḥe-reḇ bə-yā-ḏām lə-hā-rə-ḡê-nū
Análise palavra por palavra
יֵרֶא יְהוָה עֲלֵיכֶם — yê-re YHWH 'ă-lê-ḵem, "veja o SENHOR sobre vocês".
O verbo é rā-'āh, ver, na forma curta que o hebraico usa para desejo e ordem branda — um "que ele veja". Não é afirmação: é pedido.
A preposição é a peça delicada. O texto não diz "veja vocês", com objeto direto; diz "veja sobre vocês". Em hebraico, olhar sobre alguém, nesta construção, é examinar o caso dele — é o olhar de quem vai decidir, e é por isso que o verbo seguinte é "julgar". As traduções se dividem entre "olhe para vocês" e "olhe sobre vocês", e a nossa preferiu a primeira por clareza, sem perder o sentido processual, que o par de verbos garante.
É o mesmo verbo de Êxodo 2:25 ("e Deus viu os filhos de Israel") e de Êxodo 3:7 ("vi a aflição do meu povo"). Ali, ver é o começo da libertação. Aqui, é o começo de um processo contra os libertadores.
וְיִשְׁפֹּט — wə-yiš-pōṭ, "e julgue".
Da raiz šā-p̄aṭ, a mesma de mišpāṭ, o juízo, a sentença, o direito. O verbo cobre tanto a função de decidir uma causa quanto a de governar — os "juízes" do livro de Juízes são essa palavra.
O uso da raiz como fórmula de apelação entre duas partes sem árbitro tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 16:5. Aqui basta registrar a forma: também ela é a de desejo, e vem ligada à anterior pela conjunção. Ver e julgar formam um par único.
אֲשֶׁר — 'ă-šer, "porque".
A partícula costuma introduzir orações relativas ("aquele que"), mas tem também este emprego causal, que é o do versículo. Ela liga o pedido de julgamento ao motivo — isto é, apresenta a causa em juízo.
הִבְאַשְׁתֶּם אֶת־רֵיחֵנוּ — hiḇ-'aš-tem 'eṯ-rê-ḥê-nū, "vocês fizeram feder o nosso cheiro".
Aqui está o centro do versículo, e a tradução literal já mostra por quê: o hebraico tem um objeto que o português quase sempre apaga — o nosso cheiro.
O verbo é bā-'aš, feder, cheirar mal, na forma causativa (Hiphil): fazer com que fedesse. A raiz e o seu percurso estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 34:30, onde Jacó usa exatamente esta forma contra os filhos, e não há por que reabri-los aqui.
O que é próprio deste versículo é o substantivo. Rê-aḥ é o cheiro, o odor — e é a mesma palavra que a Bíblia usa para o "cheiro suave" que sobe dos sacrifícios, em Gênesis 8:21 e em dezenas de textos do culto. A palavra que nomeia o aroma agradável a Deus nomeia aqui o fedor de um povo diante de um rei. O Êxodo não faz nada com essa coincidência, e não se deve construir doutrina sobre ela; mas o vocabulário é o mesmo, e quem lê em hebraico não tem como não notar.
בְּעֵינֵי פַרְעֹה וּבְעֵינֵי עֲבָדָיו — bə-'ê-nê p̄ar-'ōh ū-ḇə-'ê-nê 'ă-ḇā-ḏāw, "aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos".
Um cheiro nos olhos. A mistura está no original, e a nossa versão a preservou em vez de alisá-la para "ficamos malvistos".
Convém, porém, medir a estranheza com honestidade. "Aos olhos de" é em hebraico uma expressão gasta, que significa simplesmente "na opinião de", "na estimativa de" — do mesmo modo que em português dizemos "aos olhos da lei" sem pensar em olho nenhum. É discutido, portanto, o quanto o choque entre cheiro e visão era sentido por quem escreveu. O que se pode afirmar é que as duas imagens estão na mesma frase, e que em português a colisão ressoa mais do que ressoaria em hebraico.
A repetição da fórmula — "aos olhos de Faraó" e "aos olhos dos seus servos" — não é enfeite. Ela separa duas instâncias: o rei, que decide, e o corpo de funcionários, que executa. Perder posição diante dos dois é perder tudo.
E há a palavra 'ă-ḇā-ḏāw, "os seus servos". É a mesma palavra, 'e-ḇeḏ, que nomeia o escravo — a que o livro usa para a condição de Israel e que os próprios supervisores usaram para si diante do rei, em Êxodo 5:15-16. Servos do lado de dentro e servos do lado de fora, com a mesma palavra e com destinos opostos.
לָתֶת־חֶרֶב בְּיָדָם — lā-ṯeṯ-ḥe-reḇ bə-yā-ḏām, "dar uma espada na mão deles".
Infinitivo do verbo dar, precedido da preposição lə. A construção é ambígua em hebraico, e a ambiguidade é significativa.
Ela pode marcar finalidade — "para dar", como se os acusados tivessem agido com esse fim. E pode marcar resultado — "de modo que deram", sem intenção nenhuma. A gramática permite as duas, e não é possível decidir qual está em jogo. A nossa versão usou "pondo", que é a solução portuguesa mais próxima de deixar o ponto em aberto.
A diferença não é técnica: na primeira leitura, a acusação é de intenção; na segunda, apenas de consequência. Tudo o mais no capítulo aponta para a segunda.
Ḥe-reḇ, a espada, já apareceu neste capítulo. Em Êxodo 5:3, Moisés e Arão dizem a Faraó que temem ser feridos "com peste ou com espada" caso não sacrifiquem. A mesma palavra volta agora, e trocou de mão: no versículo 3, a espada era o risco que vinha de Deus; no versículo 21, é a que os hebreus dizem ter sido entregue ao rei.
לְהָרְגֵנוּ — lə-hā-rə-ḡê-nū, "para nos matar".
Infinitivo de hā-raḡ, matar, com sufixo de primeira pessoa do plural. É o verbo geral do ato de matar — não o termo específico do mandamento contra o assassinato, e sim a palavra usada para Caim em Gênesis 4:8 e para o egípcio morto por Moisés em Êxodo 2:14.
Vale reter essa última ocorrência. O mesmo verbo que um hebreu atirou em Moisés em Êxodo 2:14 — "você pretende me matar como matou o egípcio?" — volta agora, no fim da fala de outros hebreus, para descrever o que eles temem que lhes aconteça por culpa dele.
11. Conclusão
Do exposto seguem cinco conclusões.
A primeira é sobre o alvo, e é o que faz deste versículo um caso único. Israelitas invocam o SENHOR contra Moisés. Não contra Faraó, que ordenou; não contra os feitores, que cobraram; contra os dois homens que trouxeram o recado. E o nome que usam para isso é o nome que aqueles mesmos homens lhes ensinaram poucos dias antes. O Êxodo não repete essa cena em nenhum outro lugar.
A segunda é sobre a natureza da acusação. Ela não é de mentira, de traição nem de má-fé: é de resultado. Vocês agiram e nós ficamos assim. Quanto aos fatos, o capítulo inteiro lhes dá razão — a piora é real, é posterior à intervenção e é consequência dela. Quanto ao juízo que daí decorre, o texto não decide, e o leitor não deve decidir no lugar dele.
A terceira é sobre o silêncio do Êxodo. Não há repreensão, castigo, correção ou comentário: a fala é registrada e o capítulo segue. Ler "murmuração" neste versículo é importar um vocabulário que virá depois, de outros capítulos e de outro livro.
A quarta é sobre o que a fala revela de crença, e é o contrário do que se costuma dizer. Pedir que Deus veja e julgue é contar com um Deus que vê e julga. O que se perdeu entre Êxodo 4:31 e aqui não foi a fé: foi a confiança nos dois homens. São coisas diferentes, e o versículo as separa com precisão.
A quinta é sobre o que a fala não faz. Não pede nada, não propõe nada, não ameaça ninguém e não encosta a mão em ninguém. Entrega a causa e se cala. Depois dela, os supervisores somem da cena, e o único movimento que resta no capítulo é o de Moisés indo procurar Deus — para dizer, em outras palavras, quase exatamente a mesma coisa.













