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Êxodo 5:15

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 31 acessos
Então os supervisores dos filhos de Israel foram e gritaram a Faraó: “Por que você trata assim os seus servos?
Grupo de homens de túnica empoeirada de pé diante de um estrado no interior de um palácio egípcio, com colunas pintadas ao fundo e guardas imóveis aos lados.

Estudo


Então os supervisores dos filhos de Israel foram e gritaram a Faraó: “Por que você trata assim os seus servos?

1. Introdução

Os supervisores apanharam no versículo anterior. Neste, eles fazem alguma coisa.

O que fazem é notável, e o texto o conta em meia dúzia de palavras: vão até o rei. Não fogem, não param o trabalho, não procuram Moisés, não se voltam contra os feitores. Sobem a cadeia inteira e batem na porta de cima.

Três pontos deste versículo pedem desenvolvimento, e os três vêm adiante. O primeiro é o verbo escolhido para o que eles fazem diante do rei: não é "pediram" nem "falaram" — é "gritaram", e é o mesmo verbo com que o Êxodo já descreveu o clamor que subiu a Deus. O segundo é a forma da fala, que é a de uma petição: pergunta respeitosa, tratamento na segunda pessoa, autodesignação como "servos". O terceiro é o que eles pedem — e, mais ainda, o que não pedem.

Porque a queixa deles não é sobre a escravidão. É sobre a palha.

Convém não julgar isso depressa. Estes homens estão usando o único caminho institucional daquele mundo, na forma correta, diante da única pessoa com poder de desfazer a medida. É o movimento mais razoável que lhes restava — e o capítulo vai mostrar que ele não serve para nada.

2. Contexto Histórico e Cultural

Reclamar, no Egito, tinha forma, lugar e caminho

A cena deste versículo costuma ser lida como um gesto desesperado. Ela não é: é um procedimento, e o Egito tinha um.

Quem se sentia lesado apresentava uma petição, e ela tinha destino certo: o vizir, o mais alto funcionário do reino, que mantinha audiência diária na sua sala e ali recebia os requerentes, em pessoa quando possível e por escrito em qualquer caso. Abaixo dele havia os conselhos locais, que julgavam o que era de vizinhança e de ofício; esses estão tratados nos estudos de Gênesis 39:18 e 43:21.

O rei estava no topo dessa pirâmide, como fonte última da justiça. Mas o topo de uma pirâmide não é a porta de entrada dela. A documentação egípcia mostra petições subindo até o vizir; não mostra grupos de trabalhadores compulsórios chegando ao rei em pessoa. Isso não prova que nunca tenha acontecido — a documentação é fragmentária, e argumento por ausência é fraco. O que se pode dizer é que o Êxodo descreve um acesso que os papéis egípcios não registram, e que ele não explica como se deu.

Um documento em que um trabalhador passa por cima do seu chefe

Há um papiro que mostra por dentro como era acusar um superior, e ele é o parente mais próximo desta cena que a arqueologia oferece.

Chama-se Papiro Salt 124, está no Museu Britânico e é do começo da vigésima dinastia, por volta do século XII antes de Cristo. É a cópia de uma carta dirigida ao vizir. Quem escreve é Amennakht, operário da aldeia de Deir el-Medina e filho de um antigo chefe de turma; contra quem escreve é Paneb, o chefe de turma em exercício.

O documento é uma lista de acusações, uma atrás da outra, e algumas são graves: abuso de autoridade, desvio de material do Estado, violência contra os operários, uso do pessoal da equipe em obra particular. A forma importa tanto quanto o conteúdo — é um rol de fatos concretos, endereçado por escrito à autoridade que estava acima do acusado. Dele se tira que passar por cima do chefe imediato era possível, e havia caminho para isso: não era impensável, e um operário sabia como se fazia.

A segunda é a ressalva honesta, e ela é grande. Amennakht não era desinteressado: ele julgava que o cargo de chefe de turma lhe pertencia, e a acusação lhe servia. Além disso, ele era um artesão livre, assalariado, morador de uma aldeia privilegiada do Estado, com escribas próprios e tribunal local. Não é a condição dos homens deste versículo. O que o papiro documenta é o procedimento, não a situação.

E há o outro lado da mesma moeda, que o estudo de Êxodo 2:11 já apresentou: num sistema em que decretos reais listam a acusação contra um superior entre as faltas puníveis com pancada, usar o caminho institucional era, ele próprio, arriscado. Os supervisores deste versículo não estão apenas tentando; estão se expondo.

O que uma petição antiga pedia

Este é o ponto que mais ilumina o versículo, e ele é de forma, não de sentimento.

As petições que sobreviveram do Antigo Oriente pedem coisas determinadas: a devolução de uma peça de roupa tomada, o pagamento de um salário atrasado, a restituição de um campo, a correção de uma conta. Pedem que uma situação volte ao que era. Nenhuma delas pede que a ordem do mundo mude. A petição é um instrumento de dentro do sistema, e por isso só sabe falar a língua do sistema.

Três desses documentos já foram apresentados no acervo: a queixa de um ceifeiro e a petição de um sacerdote egípcio estão no estudo de Gênesis 44:18, e o relato mais elaborado de um homem comum reclamando de injustiça está no de Gênesis 41:55.

Guardada essa forma, a fala dos supervisores fica inteligível. Eles não vão pedir liberdade. Vão pedir palha — e essa é a única coisa que um pedido como o deles podia pedir.

Convém, por fim, separar este episódio de uma greve. O caso documentado de trabalhadores do Estado egípcio que pararam de trabalhar e saíram em bloco está apresentado no estudo de Êxodo 4:1, e é de outra natureza. Aqui ninguém para nada: o trabalho continua, a cota continua correndo, e os supervisores usam o caminho formal sem tirar uma palha do lugar. É a diferença entre pressionar e requerer — e eles requerem.

3. Análise Teológica do Versículo

“Então os supervisores dos filhos de Israel foram”

O versículo começa com um deslocamento, e o texto não conta nada sobre ele.

Não diz quem autorizou. Não diz se pediram licença aos feitores, se foram escondidos, se levaram salvo-conduto, se esperaram na porta, quantos dias andaram, quem os anunciou. Entre a surra do versículo 14 e a presença deles diante do rei não há uma palavra.

É uma lacuna grande, e vale enunciá-la em vez de preenchê-la. O Êxodo trata o acesso ao rei como se fosse simples, e o item 2 mostra que não era. Três hipóteses ficam abertas, e nenhuma se demonstra: que o texto tenha comprimido uma audiência obtida por via normal; que o cargo lhes desse um acesso que o povo não tinha, por serem gente com nome em lista, responsável por uma entrega do Estado; ou que o Êxodo simplesmente não se interesse pelo protocolo. O que não se pode é tratar a lacuna como se não existisse.

Uma coisa, porém, o verbo diz: eles foram por conta própria. Ninguém os mandou. É a primeira iniciativa desses homens em todo o capítulo — até aqui só haviam recebido ordem, transmitido ordem e apanhado.

“e gritaram a Faraó”

Aqui está o achado do versículo, e ele está numa única palavra.

O verbo escolhido não é "pediram", não é "requereram", não é "falaram". É o verbo do grito — o berro de quem está sendo esmagado e chama socorro. É o mesmo verbo, ou a variante gêmea dele, que o Êxodo usou em Êxodo 2:23 para o clamor do povo sob a escravidão, e é a mesma palavra que aparece na boca de Deus em Êxodo 3:7 e 3:9, quando ele diz que ouviu o grito dos filhos de Israel.

E agora a diferença, que é toda a questão: aquele grito não tinha endereço; este tem. Em Êxodo 2:23 o povo gemia e clamava, e o texto diz que o grito "subiu a Deus" — ninguém o dirigiu a ninguém, ele apenas subiu. Aqui a preposição é explícita: gritaram a Faraó.

Vale medir bem o que isso significa e o que não significa.

Não significa que eles tenham trocado Deus por Faraó: o texto não diz isso, não os repreende e não estabelece comparação nenhuma. Significa que o livro passa a ter dois destinatários possíveis para o mesmo grito, e que a diferença entre eles ficará clara pelo resultado. O grito de Êxodo 2:23 foi ouvido; este será respondido com um insulto. O Êxodo não comenta o contraste — constrói-o, deixando as duas cenas usarem a mesma palavra.

“Por que você trata assim os seus servos?”

Repare no que essa frase é: uma pergunta, e não uma exigência. E repare em qual pergunta.

O hebraico tem dois modos de perguntar "por quê". Um pede a causa de um fato e é a pergunta de quem apura — foi esse que os feitores usaram no versículo anterior, quando quiseram saber por que a cota não saiu. O outro pergunta "para quê" e é a pergunta de quem sofre a consequência. É esse que os supervisores usam aqui. A distinção está no item 10, e ela põe os dois lados do diálogo em posições diferentes com uma palavra só.

A frase também é cuidadosa de um jeito que não se nota à primeira leitura. Ela não acusa: pergunta. Não diz "o senhor está sendo injusto"; diz "por que o senhor faz assim?". Deixa ao rei a saída de responder que houve engano, que a ordem foi mal transmitida, que os feitores exageraram. É uma pergunta construída para permitir que o poderoso recue sem perder a face — e, no versículo 17, ele não vai usar a saída que lhe ofereceram.

Há ainda o tratamento direto: "você faz". Eles falam ao rei na segunda pessoa, olhando para ele. Na mesma frase, falam de si na terceira — "os seus servos". Essa mistura não é desleixo: é a forma exata da petição antiga, em que o requerente se rebaixa e, ao mesmo tempo, interpela.

“os seus servos”

Esta é a expressão mais carregada do versículo, e o peso dela vem de uma coincidência que o hebraico não tinha como evitar.

"Servo" é a palavra da etiqueta. Quem fala com um superior chama-se servo dele, e isso é apenas boa educação — a fórmula está tratada nos estudos de Gênesis 32:18 e 43:20. Só que a mesma palavra hebraica designa o escravo, e é a palavra com que o livro do Êxodo vem descrevendo a condição de Israel desde o capítulo 1.

Ou seja: a fórmula de cortesia e a descrição literal do fato coincidem. Quando esses homens dizem "os seus servos", estão sendo polidos e estão dizendo a verdade ao mesmo tempo. A língua não lhes dá como separar as duas coisas.

Há uma consequência, e ela é dura. A cortesia da petição já concede o essencial. Ao se apresentarem como servos de Faraó, eles aceitam a moldura dentro da qual vão reclamar — e dentro dessa moldura só cabe pedir tratamento melhor, nunca outra condição. É por isso que o versículo seguinte vai falar de palha.

Convém não transformar isso em censura. Não havia outra língua disponível, e usar a que havia não é fraqueza. É a única forma de falar que o sistema aceitava ouvir — e, mesmo assim, ele não ouviu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os supervisores, agora como sujeito

São os mesmos homens do versículo anterior, e é a primeira vez no capítulo que eles aparecem como sujeito de uma decisão própria.

Vale acompanhar o percurso deles nos poucos versículos em que existem. Em Êxodo 5:6 são citados junto com os feitores, como destinatários de uma ordem do rei. Em Êxodo 5:10 saem e repassam a ordem ao povo. Em Êxodo 5:14 apanham. Aqui vão ao palácio por iniciativa própria. Em Êxodo 5:19 verão que não há saída, e em Êxodo 5:21 se voltarão contra Moisés.

Cinco aparições e cinco posições diferentes. É a linha mais móvel do capítulo, e é por isso que reduzi-los a um rótulo — traidores, covardes, heróis — apaga justamente o que o texto quis mostrar.

Faraó

Reaparece em cena pela primeira vez desde Êxodo 5:9. Entre aquele versículo e este, ele deu a ordem e sumiu; quem apareceu foram os feitores, os supervisores e o povo.

O rei volta aqui na posição de quem recebe um pedido, e é a única vez em todo o capítulo em que alguém do povo lhe fala diretamente sem ser Moisés ou Arão. Note que o texto não descreve o palácio, não descreve a corte, não descreve o trono. Diz apenas que foram e gritaram.

O lugar

O versículo não nomeia. O texto passa dos canteiros de tijolo à presença do rei sem transição, e só no versículo 20 vamos saber que houve uma saída — "ao saírem da presença de Faraó" —, o que confirma que a cena se deu diante dele, em algum recinto.

Convém lembrar que o palácio de um faraó do Império Novo era construído em tijolo de barro, como quase tudo no Egito: a matéria do edifício em que eles entram é a mesma que estão sendo obrigados a produzir. O ponto material está no estudo de Êxodo 1:14.

O que está acontecendo enquanto isso

Nada parou. O povo continua espalhado pelo Egito juntando restolho, os feitores continuam cobrando o prazo, e a cota do dia em que esta conversa acontece continua correndo. A audiência não suspende a obrigação: seja qual for o resultado, o trabalho daquele dia já está atrasado.

5. Pontos de Ensino

Usar o caminho formal não é ingenuidade

É fácil, lendo o capítulo do fim para o começo, achar que os supervisores foram tolos em recorrer ao rei. Não foram.

Eles identificaram corretamente quem tinha poder de desfazer a medida, foram até lá, e apresentaram o pedido na forma que aquele mundo reconhecia. Errar não foi o método. O método era o certo. O que falhou foi a suposição de que existisse alguém disposto a corrigir.

Vale aprender a distinguir as duas coisas, porque elas costumam ser confundidas — inclusive por quem tenta e fracassa, e depois conclui que não deveria ter tentado.

A forma do pedido limita o que se pode pedir

Quem começa dizendo "os seus servos" já decidiu, antes de falar, o que a conversa pode e não pode conter.

Isso não é um defeito moral desses homens: é uma propriedade das instituições. Todo canal de reclamação vem com um formulário, e o formulário determina de antemão quais queixas cabem nele. Reclamar da palha cabia. Reclamar da escravidão não cabia em lugar nenhum.

O grito muda de valor conforme o destinatário

A mesma palavra hebraica descreve o clamor que subiu a Deus em Êxodo 2:23 e o grito dirigido a Faraó aqui. O som é o mesmo; o resultado não.

O ensino não é que seja errado recorrer a autoridades humanas — o Antigo Testamento está cheio de gente que recorre, e com razão. O ensino é mais sóbrio: a quem se grita importa, e descobrir isso costuma custar caro.

Não se espera de quem sofre que sofra com elegância

Estes homens apanharam num dia e foram falar com o rei no seguinte. Não fizeram discurso, não citaram Deus, não invocaram promessa nenhuma: gritaram e perguntaram por que estavam sendo tratados assim. O texto não os corrige, e o leitor também não deveria — a Bíblia registra queixa humana sem obrigá-la a ser edificante, e este capítulo vai terminar com o próprio Moisés fazendo coisa muito mais forte.

6. Aspectos Filosóficos

Quem não pode sair, fala

O que esses homens fazem neste versículo tem um nome no pensamento do século XX, e quem o deu foi Albert Hirschman (1915-2012), economista alemão que fugiu do nazismo, combateu na resistência francesa e passou a vida estudando como as pessoas reagem quando aquilo de que dependem começa a piorar.

O livro saiu em 1970 e foi traduzido para o português como Saída, Voz e Lealdade. A tese cabe nas três palavras do título.

Quando uma organização se deteriora — uma empresa, uma escola, um país, um sistema qualquer de que se faça parte —, quem está dentro tem dois caminhos. Pode sair: parar de comprar, pedir demissão, mudar de cidade, trocar de fornecedor. É um gesto silencioso, individual e imediato. Ou pode usar a voz: reclamar, protestar, petição, greve, carta, assembleia. É um gesto barulhento, custoso, que exige tempo e expõe quem o pratica.

Hirschman observou que os dois caminhos se substituem um ao outro. Onde sair é fácil, quase ninguém reclama — vai-se embora, e a organização nem fica sabendo por quê. Onde sair é difícil ou impossível, a voz é o que resta. A lealdade, no vocabulário dele, é o que segura alguém dentro de uma coisa que piorou e o faz preferir a voz à saída.

O que o esquema mostra neste versículo

Os supervisores não têm saída. Não no sentido figurado: no literal. São escravos, e sair do Egito é exatamente aquilo que a lei daquele Estado impede. O único caminho que lhes sobra é a voz — e é a voz que eles usam, na forma mais respeitosa que existia, dirigida à pessoa certa.

Mas há um detalhe que torna esta cena mais interessante do que o esquema. A saída estava sendo oferecida a eles naquele exato momento. Moisés tinha acabado de propor a Israel precisamente aquilo — sair. E eles escolhem a voz.

Hirschman notou que a lealdade nem sempre é afeto: muitas vezes é apenas o cálculo de quem investiu tanto numa coisa que não consegue imaginar-se fora dela. Os supervisores tinham cargo, tinham lugar na cadeia, tinham um funcionamento que conheciam. Pedir palha ao rei é operar dentro do mundo que existe. Sair atrás de Moisés é apostar num mundo que ainda não existe, com base na palavra de um homem que ninguém via havia quarenta anos.

Do ponto de vista do risco, a escolha deles é a conservadora — e é por isso que ela merece menos julgamento do que costuma receber.

Quando a voz também fecha

O próprio Hirschman, mais tarde, voltou ao seu esquema para examinar um caso em que a saída era literalmente murada: a Alemanha Oriental, em 1989. A questão que ele levantou ali interessa aqui — o que acontece quando a saída está bloqueada e a voz é rejeitada?

O capítulo 5 do Êxodo responde a essa pergunta em quatro versículos, e a resposta não é bonita. A voz é rejeitada no versículo 17 com um insulto. No versículo 19 os supervisores entendem que não há caminho por dentro. E no versículo 21, sem saída e sem voz, eles se voltam contra quem lhes propôs a saída — que é o alvo mais próximo e o mais indefeso.

Esse último movimento não está no livro de 1970, e não se deve atribuí-lo a Hirschman. É a leitura que este estudo faz, e o desenvolvimento pertence ao versículo 21.

O limite da comparação

Convém marcá-lo, porque é grande. Hirschman construiu o modelo pensando em consumidores, funcionários e cidadãos — gente que, em princípio, pode ir embora. A escravidão é o caso extremo, em que a saída não é cara: é crime. Aplicar a um texto do segundo milênio antes de Cristo um esquema pensado para a economia moderna é leitura de comentarista, e o Êxodo não formula nada disso.

O que o esquema oferece é um modo de ver o que já está no texto: que a petição destes homens não é submissão nem heroísmo, e sim a única jogada disponível a quem tem uma porta fechada e uma boca aberta.

7. Aplicações Práticas

Reclamar no lugar certo

A aplicação mais direta deste versículo é prática e não é óbvia: a queixa precisa ser dirigida a quem pode desfazer a decisão.

Os supervisores acertaram nisso. Não descontaram nos feitores, que apenas cobravam; não descontaram no povo, que não tinha culpa; não reclamaram entre si. Foram ao lugar de onde a ordem tinha saído.

A reclamação que não chega ao autor da decisão só faz uma coisa: piorar o ambiente de quem não pode mudar nada. É o erro mais comum em qualquer estrutura, e o versículo mostra o procedimento correto — inclusive quando ele não funciona.

A forma da pergunta

Há uma técnica no que eles dizem, e ela vale para conversas muito menores do que esta.

Perguntar "por que você faz assim?" é diferente de afirmar "você está errado". A pergunta expõe o mesmo fato, mantém a acusação implícita e deixa ao outro uma porta por onde recuar sem humilhação. Quem quer resolver oferece essa porta; quem quer ter razão a fecha.

Que o rei não tenha usado a porta é informação sobre o rei, não sobre o método.

Quando tentar é a coisa certa mesmo sabendo que pode não dar em nada

Aqui está a aplicação mais difícil, e ela precisa ser dita sem falsidade.

A petição destes homens fracassou. Piorou a situação deles, e a recusa do rei no versículo 18 fecha a única porta que havia. Ainda assim, não se pode dizer que não deveriam ter ido — porque, antes de ir, não havia como saber. O caminho institucional só se prova inútil depois de usado.

Isso tem consequência prática para quem hesita entre tentar e desistir: a tentativa não é ingênua por ter falhado. O erro, quando existe, é repetir indefinidamente um caminho já provado inútil — e é exatamente o que os supervisores não farão, porque o versículo 19 registra o momento em que eles entendem.

Não se extrai daqui que reclamar seja inútil, nem que a autoridade sempre ouça: o Antigo Testamento traz os dois desfechos. O que este versículo oferece é um caso em que o pedido estava certo, o destinatário estava certo, a forma estava certa — e ainda assim não deu em nada. Saber que isso acontece não é pessimismo: é o que permite reconhecer a hora de parar de bater na mesma porta.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que eles não pediram a liberdade?

Porque não era isso que estavam fazendo, e convém entender a diferença.

Uma petição é um instrumento de dentro do sistema. Ela pede a correção de uma medida, não a substituição da ordem que a produziu — e o item 2 mostra que as petições antigas que sobreviveram pedem todas coisas determinadas: um salário, um campo, uma peça de roupa.

E há o ponto óbvio: pedir liberdade ao dono não é pedido, é outra coisa. Esse caminho estava sendo oferecido por Moisés, fora do palácio, e é o que eles não tomaram. O texto não os censura, e nós também não.

Eles estavam defendendo o povo ou a própria pele?

Os dois, e o texto não separa.

Eles apanharam: a queixa é deles. Eles respondem pela cota: o problema é do cargo deles. E a medida de que reclamam pesa sobre o povo inteiro, não sobre eles em particular. As três coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e não há no versículo nenhum elemento que permita dizer qual pesou mais.

Vale registrar um dado a favor deles, sem exagerá-lo: no que dizem ao rei não há pedido de vantagem pessoal nem tentativa de jogar a culpa nos trabalhadores. Poderiam ter feito as duas coisas. Não fizeram.

Por que o texto usou o verbo "gritar" numa audiência formal?

Não se sabe, e há duas leituras. Uma diz que o verbo descreve o tom: homens que apanharam no dia anterior não entram numa sala falando baixo. Outra diz que a escolha amarra esta cena às outras do livro em que a mesma palavra aparece. As duas podem ser verdadeiras, e o efeito é o mesmo: a palavra do clamor, que até aqui subia, aqui é dirigida a um homem.

Deus não é mencionado. Isso significa alguma coisa?

Significa que ele não é mencionado, e é preciso resistir à tentação de transformar o silêncio em acusação.

A queixa dos supervisores é estritamente trabalhista: falta de material, cota mantida, gente apanhando. Não invocam o SENHOR, não citam Moisés, não mencionam a promessa. O Êxodo registra isso sem comentário e sem reprovação.

Ler aí falta de fé é acrescentar ao texto um juízo que ele não emite — e é uma leitura que fica difícil de sustentar quando se chega ao fim do capítulo, onde quem acusa Deus abertamente é o próprio Moisés, e o texto também não o repreende.

9. Conexão com Outros Textos

O clamor que não tinha endereço

Êxodo 2:23 — "Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. E os filhos de Israel gemiam sob a escravidão e clamavam; e o grito deles subiu a Deus, por causa da escravidão."

É a mesma família de palavras, e a diferença está na direção. Ali o grito sobe sem destinatário declarado; aqui ele é dirigido a Faraó. O campo da palavra está tratado naquele estudo e no de Gênesis 18:20.

O que Deus disse ter ouvido

Êxodo 3:7 — "E o SENHOR disse: 'Eu vi, sim, a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi o grito dele diante dos seus feitores; pois conheço as dores dele.'"

Êxodo 3:9 — "Agora, pois, o grito dos filhos de Israel chegou até mim, e também vi a opressão com que os egípcios os oprimem."

O substantivo usado nos dois versículos é o desta mesma raiz. Dois capítulos antes, Deus declarou ter ouvido esse grito. Aqui ele é despejado diante do rei — e o rei responde no versículo 17.

Uma mulher que gritou a um rei e foi atendida

2 Reis 8:3 — "E sucedeu que, ao fim dos sete anos, a mulher voltou da terra dos filisteus, e saiu a clamar ao rei pela sua casa e pelas suas terras."

O verbo é o mesmo, a construção é a mesma — clamar ao rei —, e o pedido é do mesmo tipo: a devolução de uma coisa concreta. A diferença é o desfecho, porque naquele caso o rei mandou restituir tudo. O Antigo Testamento conhece os dois resultados, e não trata o recurso ao rei como erro.

A etiqueta do "teu servo"

Gênesis 47:25 — "E eles responderam: 'Você nos salvou a vida! Achemos favor aos olhos do nosso senhor, e seremos escravos de Faraó.'"

A comparação é dura e é do mesmo livro egípcio. No Gênesis, quem se declara escravo de Faraó são os egípcios, por vontade própria e em agradecimento. No Êxodo, quem se declara servo dele são hebreus que não escolheram nada. A palavra hebraica é a mesma nos dois lugares.

A resposta que este versículo vai receber

Êxodo 5:17 — "Ele respondeu: 'Preguiçosos, é o que vocês são, preguiçosos! Por isso dizem: Vamos sacrificar ao SENHOR.'"

A pergunta é sobre palha; a resposta é sobre motivo. Não há uma palavra do rei sobre nenhum dos fatos alegados.

A queixa maior que fecha o capítulo

Êxodo 5:22 — "Então Moisés voltou ao SENHOR e disse: 'Senhor, por que trouxeste mal a este povo? Por que me enviaste?'"

Mesma pergunta, outro destinatário. Os supervisores perguntam a Faraó por que ele faz assim; Moisés pergunta a Deus a mesma coisa, sete versículos depois. O capítulo repete a interrogação de baixo para cima até o topo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Então os supervisores dos filhos de Israel foram e gritaram a Faraó: “Por que você trata assim os seus servos?

Texto hebraico

וַיָּבֹאוּ שֹׁטְרֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וַיִּצְעֲקוּ אֶל־פַּרְעֹה לֵאמֹר לָמָּה תַעֲשֶׂה כֹה לַעֲבָדֶיךָ

Transliteração

vayyavó'u shoterêi benêi Yisra'él vayyits'aqú el-Par'óh lemór: lámmah ta'aséh khoh la-avadékha.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹאוּ — vayyavó'u, "e vieram", "e entraram". Verbo bo no Qal — a forma simples e ativa —, terceira pessoa do plural.

É um dos verbos mais comuns da língua, e o seu campo cobre tanto "vir" quanto "entrar". Sem preposição de lugar, o português precisa escolher, e a ABC ficou com "foram".

O que merece registro é o que o verbo não traz: nenhuma indicação de como. Não há "subiram", não há "pediram audiência", não há "apresentaram-se", não há mediador. O hebraico usa o verbo mais neutro que possui e passa direto para o que eles fazem lá dentro.

שֹׁטְרֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — shoterêi benêi Yisra'él, "os supervisores dos filhos de Israel". A palavra do cargo, com a sua origem provável e as suas ocorrências, está no item 10 do estudo de Êxodo 5:14.

Vale notar que o Êxodo repete a expressão inteira em vez de abreviar. Poderia escrever "eles", já que são os mesmos do versículo anterior; escreve outra vez o título completo, e vai escrevê-lo de novo no versículo 19.

וַיִּצְעֲקוּ — vayyits'aqú, "e gritaram". Verbo tsa'aq no Qal, terceira pessoa do plural. É a palavra central do versículo.

Duas informações de vocabulário, antes do sentido.

A primeira: o hebraico tem duas formas desta palavra, tsa'aq e za'aq, que diferem numa consoante e são tratadas pelos dicionários como variantes de um mesmo verbo. As duas aparecem nos mesmos contextos, e o Êxodo usa as duas. Em Êxodo 2:23 está a forma com z; aqui, a forma com ts. Não é um verbo diferente, e o campo da raiz está desenvolvido nos estudos de Gênesis 18:20 e Êxodo 2:23, onde fica.

A segunda: é desta mesma raiz o substantivo que Deus emprega em Êxodo 3:7 e 3:9 — "ouvi o grito dele", "o grito dos filhos de Israel chegou até mim". A palavra que nomeia o que subiu ao céu é a que aqui nomeia o que é despejado diante do trono.

Quanto ao sentido, o verbo não é o de pedir nem o de requerer. É o berro de quem está sob violência e chama socorro — o grito de Abel em Gênesis 4:10 é do mesmo campo, e é o verbo do apelo das cidades em Gênesis 18:20-21.

אֶל־פַּרְעֹה — el-Par'óh, "a Faraó". A preposição el indica direção: para, em direção a, na direção de.

Aqui está o que este versículo acrescenta à palavra, e é pouco em extensão e muito em consequência. O grito ganhou destinatário.

Em Êxodo 2:23 o texto diz que o grito "subiu" — o verbo é de movimento, sem alvo declarado, e só a frase seguinte informa que chegou a Deus. Aqui não há subida: há uma preposição de direção e um nome próprio. A construção "clamar a" alguém aparece no Antigo Testamento dirigida a Deus dezenas de vezes e a homens pouquíssimas — 2 Reis 6:26 e 8:3 são dois dos raros casos, e nos dois quem clama é uma mulher diante de um rei de Israel.

לֵאמֹר — lemór, "dizendo". A partícula fixa que abre citação. Repare que ela vem depois de "gritaram": o hebraico não vê contradição entre gritar e dizer uma frase bem construída.

לָמָּה — lámmah, "por quê". Formada pela preposição le, "para", mais mah, "quê": ao pé da letra, "para quê".

É preciso pôr esta palavra ao lado da do versículo anterior, porque o contraste é exato. Os feitores perguntaram maddúa, que pede a causa de um fato e é a pergunta de quem apura uma falta. Os supervisores perguntam lammah, que pede a finalidade e é, no uso bíblico, a pergunta típica de quem sofre a consequência e não entende para que serve — é o "por quê" de Jó, do Salmo 22:1 e das queixas do deserto.

Duas perguntas, duas palavras, dois lugares na hierarquia. Quem está por cima quer saber o que houve; quem está por baixo quer saber para quê.

תַעֲשֶׂה כֹה — ta'aséh khoh, "você faz assim". Verbo asah, "fazer", no imperfeito da segunda pessoa masculina do singular, com o advérbio koh, "assim, deste modo".

O tempo verbal hebraico aqui não marca futuro: marca ação em curso, o que se está fazendo e continua sendo feito. E o tratamento é direto — eles falam ao rei em segunda pessoa, sem intermediário e sem circunlóquio.

O advérbio koh merece uma nota. É a mesma palavra que abre a fórmula do mensageiro — "assim diz o SENHOR", no versículo 1 deste capítulo, e "assim diz Faraó", no versículo 10. Aqui ela não introduz mensagem nenhuma: aponta para o que está acontecendo. A repetição é observável e pode ser só acaso de uma palavra muito comum; não se deve construir nada sobre ela.

לַעֲבָדֶיךָ — la-avadékha, "aos teus servos". Substantivo eved no plural, com a preposição e o sufixo de segunda pessoa masculina do singular.

É a palavra do servo e do escravo — o hebraico não as distingue —, e o campo dela, com o duplo uso que atravessa o livro do Êxodo, está tratado no estudo de Êxodo 1:14.

O que é próprio deste versículo é o uso da palavra em primeira pessoa. Eles não estão descrevendo a condição de terceiros: estão se nomeando. E a mesma frase os põe falando "você" para o rei e "os seus servos" para si mesmos — a segunda pessoa para ele, a terceira para eles.

Essa mistura não é desajeitada: é a forma da petição antiga, e a etiqueta do "teu servo" está tratada nos estudos de Gênesis 32:18 e 43:20. O que se acrescenta aqui é a coincidência incômoda — a fórmula de cortesia descreve exatamente o que eles são. Em qualquer outra boca, "teu servo" seria modéstia; nesta, é a descrição jurídica do caso.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A primeira: os supervisores agiram, e agiram bem. Identificaram quem podia desfazer a medida, foram até lá por conta própria, e apresentaram a queixa na forma que aquele mundo reconhecia como legítima. Nada nisso é ingênuo e nada é servil. É o uso correto do único instrumento disponível — e o fato de não ter funcionado diz respeito a quem estava do outro lado, não ao método.

A segunda: a palavra escolhida põe este grito no mesmo lugar do clamor que Deus disse ter ouvido. O Êxodo não faz nenhum comentário sobre isso. Constrói a coincidência e deixa que o leitor a encontre, mais forte por não estar explicada: o mesmo som, dois destinos, dois resultados. Um subiu e foi ouvido; este foi dirigido a um homem e será respondido com um insulto. O texto não conclui nada disso — apenas põe as duas cenas no acervo do leitor.

A terceira: a forma da petição já decide o que a petição pode conter. Quem entra chamando-se de servo aceitou, antes de abrir a boca, o mundo dentro do qual vai falar. Daí em diante só é possível pedir que o senhor seja melhor senhor. Pedir a palha é o teto do que cabe naquele formulário, e o versículo seguinte mostra que foi exatamente até esse teto que eles foram.

Resta o que não se conclui. Este versículo não permite decidir se estes homens estavam defendendo o povo ou a própria pele, se acreditavam ou não na promessa de Moisés, nem como conseguiram chegar à presença do rei. O Êxodo não diz, e cada uma dessas lacunas é um lugar em que o leitor precisa segurar a mão em vez de preencher.

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Êxodo 5:15

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