Palha não se dá aos seus servos, e nos dizem: ‘Façam os tijolos!’ E eis que os seus servos são espancados; e a culpa é do seu povo.”
1. Introdução
Este é o conteúdo da queixa, e ele cabe em quatro frases curtas.
Falta o material. Exigem o produto. Os homens apanham. E a culpa é de alguém — a última frase é a que não se deixa fixar.
Três coisas deste versículo são desenvolvidas adiante, e convém anunciá-las. A primeira é que a queixa é estritamente trabalhista: não há nela uma palavra sobre Moisés, sobre o SENHOR, sobre o pedido de festa no deserto ou sobre a liberdade. É uma reclamação sobre insumo, cota e castigo, e nada mais.
A segunda é uma quebra de gramática no meio da fala. Eles começam dizendo "os seus servos", na terceira pessoa da etiqueta, e no meio da frase escorregam para "nos dizem" — a primeira pessoa. Depois voltam para "os seus servos". A fórmula de cortesia racha bem no ponto em que a queixa se torna concreta.
A terceira é a frase final. O hebraico ali é genuinamente ambíguo, as versões antigas o traduziram de maneiras diferentes, e não é possível decidir entre elas. A nossa tradução conservou a ambiguidade em português, de propósito. O item 10 mostra as leituras em disputa, e este estudo não escolhe nenhuma.
2. Contexto Histórico e Cultural
A palha era fornecimento, e o fornecimento era do Estado
O primeiro dado do versículo é administrativo, e é o que dá peso à queixa: a palha não era coisa que o trabalhador levasse de casa. Era entregue.
Num canteiro do Estado egípcio, quem produzia recebia o que precisava para produzir. Havia listas de entrega, havia responsáveis pela distribuição, havia a conta do que saiu do depósito e do que entrou pronto. O trabalhador punha o braço; o material vinha do sistema. Por isso a interrupção do fornecimento não é, do ponto de vista de quem reclama, uma dureza a mais: é a quebra de uma obrigação da outra parte.
É isso que a frase de abertura diz, e ela está construída com precisão administrativa: não se está reclamando de trabalho pesado — reclama-se de um insumo que deixou de ser entregue. A distinção é a espinha da queixa inteira.
Falta de palha era um problema real, e há papiro que reclama dela
A queixa deste versículo tem paralelo egípcio direto, e ele é surpreendentemente próximo.
No Papiro Anastasi IV, uma miscelânea de cartas e exercícios do período ramessida, um funcionário descreve a situação do posto em que está e escreve uma frase que qualquer leitor de Êxodo 5 reconhece: não há homens para fazer tijolos, e não há palha no distrito.
Convém medir exatamente o que esse paralelo vale, porque ele é fácil de exagerar.
O que ele prova: que a falta de palha era uma ocorrência conhecida na administração egípcia, que fazia parte do vocabulário de quem prestava contas de produção de tijolo, e que valia a pena registrar por escrito como impedimento. A alegação dos supervisores não é retórica nem pretexto — é o tipo de coisa que um funcionário egípcio escrevia ao seu superior.
O que ele não prova: nada sobre Israel. O documento é queixa de um egípcio sobre a carência do seu próprio posto, não registro de uma medida punitiva. E não há nele cota mantida nem castigo.
Vale registrar que outros papiros da mesma coleção Anastasi já foram apresentados em estudos anteriores, por outros motivos e com outros assuntos — o relatório de fronteira está nos de Gênesis 41:30, 41:36 e 42:9. Aqui entra este, e só pelo detalhe da palha que falta.
Do que os trabalhadores antigos reclamavam
Este é o ponto que mais explica a forma da queixa, e ele vale para todo o Antigo Oriente.
As reclamações de trabalhadores que sobreviveram em papiro, em óstraco e em tabuinha têm um repertório estreito e constante: ração que não chegou, salário atrasado, ferramenta que não foi entregue, material em falta, medida de grão errada, conta mal feita. Reclama-se do que está previsto e não foi cumprido.
O que não aparece em nenhum desses documentos é reclamação contra a instituição que os emprega. Ninguém escreve ao vizir pedindo que o trabalho compulsório acabe. O canal existe para corrigir a execução, não para discutir a regra — e quem usa o canal escreve dentro do que o canal aceita.
Guardado isso, a queixa dos supervisores fica exatamente do tamanho que devia ter: falta de material, exigência mantida, castigo aplicado. É a reclamação completa que aquele formato permitia, e eles a fizeram inteira.
3. Análise Teológica do Versículo
“Palha não se dá aos seus servos”
A queixa abre pelo material, e não pelo sofrimento. É uma escolha, e ela mostra que estes homens sabem o que estão fazendo.
Poderiam ter começado pela surra, que é o mais forte e o mais recente. Começam pelo insumo — porque o insumo é o ponto em que a obrigação é do outro lado. Falta de palha é falha de fornecimento, e fornecimento é responsabilidade de quem manda produzir.
Repare também na construção: não é "vocês não nos dão palha". É "palha não se dá", sem sujeito. O responsável não é nomeado, e é a segunda vez em três versículos que o Êxodo deixa o agente de fora — a primeira foi o espancamento do versículo 14.
Pode-se ler nisso prudência diplomática — quem vai falar com o rei não começa apontando o dedo para ele — ou apenas o uso de uma construção corrente da língua. Não é possível decidir.
“e nos dizem: ‘Façam os tijolos!’”
Aqui a fala muda de pessoa no meio, e essa é a informação mais discreta do versículo.
Até esta frase eles vinham dizendo "os seus servos" — a terceira pessoa da etiqueta, a linguagem correta de quem se dirige a um rei. E de repente aparece "nos": dizem a nós. O protocolo racha exatamente no ponto em que a queixa fica concreta.
Logo depois eles voltam à fórmula — "os seus servos são espancados" — e terminam o versículo dentro dela. O escorregão dura uma frase.
É pouco, e é muito. A etiqueta é uma maneira de falar de si como se fosse de outro, e permite dizer coisas duras mantendo a distância; quando a distância cede, é sinal de que a coisa dita alcançou quem fala. O Êxodo não comenta — registra as duas pessoas gramaticais na mesma frase. E note que também aqui quem ordena não é nomeado: "nos dizem" — quem? Presumivelmente os feitores. O texto não diz.
“E eis que os seus servos são espancados”
A terceira frase é a prova, e vem apresentada como prova.
O hebraico usa aqui a partícula que serve para apontar — o "eis que" da nossa tradução, a palavra de quem mostra alguma coisa. É razoável supor que estes homens estivessem exibindo o que tinham no corpo; o texto não descreve gesto nenhum, e a suposição é do leitor.
E o verbo é o mesmo do versículo 14, na mesma forma passiva sem agente. Vale reparar no que acontece com ele. Duas frases antes, o Êxodo dissera "foram espancados" para contar o fato. Agora são eles que dizem "somos espancados", ao rei, com a mesma palavra. A vítima adota o vocabulário do texto — e continua sem poder nomear quem bateu.
Há ainda o tempo do verbo: não é uma surra passada, é uma coisa que está acontecendo. A tradução "são espancados" está certa em manter o presente.
“e a culpa é do seu povo”
Esta é a frase que não se resolve, e é preciso dizer isso com todas as letras: não é possível decidir o que ela significa.
A dificuldade não é de tradução para o português. É do hebraico. As duas palavras finais admitem leituras diferentes conforme se tome a primeira como substantivo ou como verbo, e conforme se decida quem é "o seu povo" — e as versões antigas, que tinham o texto diante dos olhos há mais de dois mil anos, já se dividiam. O item 10 expõe as leituras uma a uma.
O que interessa aqui é a consequência de cada uma para a cena, e elas são bem diferentes.
Numa leitura, os supervisores estão acusando os egípcios: a falha é do pessoal do rei, dos feitores que cortaram a palha e cobram o impossível. É uma acusação lateral, que poupa o rei e responsabiliza os funcionários dele — exatamente o que se faz numa petição bem construída.
Noutra, eles estão dizendo que a culpa está sendo atribuída a eles, e indevidamente: somos tratados como se tivéssemos falhado, e não falhamos. Aí a frase não acusa ninguém — protesta contra uma imputação.
Numa terceira, que é a da tradução grega antiga, a frase é dirigida ao próprio rei: o senhor está cometendo injustiça contra o seu próprio povo. Esta é a mais forte de todas, e transforma uma petição respeitosa numa acusação frontal.
A tradução ABC escolheu deliberadamente uma frase portuguesa que conserva a dobra: "a culpa é do seu povo" pode significar que a culpa pertence a eles e pode significar que a culpa está sendo posta sobre eles. Preferiu-se manter aberto o que o hebraico mantém aberto a fechar arbitrariamente.
E convém acrescentar o que talvez seja o mais honesto de tudo. Nem toda ambiguidade é intencional. Pode ser que o hebraico aqui simplesmente tenha ficado difícil, por dano no texto ou por uma construção que se perdeu — e que não haja nenhum efeito de sentido a descobrir. Também isso é possível, e não é possível excluí-lo.
O que a queixa inteira não menciona
Vale fechar pela ausência, porque ela é grande e é fácil de não notar.
Não há nesta fala uma palavra sobre Moisés. Nenhuma sobre Arão. Nenhuma sobre o SENHOR, sobre a festa no deserto, sobre os três dias de caminho, sobre promessa, sobre libertação. Os supervisores não mencionam nem para culpar.
É informação sólida sobre o que eles estão fazendo ali: não vieram discutir o pedido de Moisés, vieram tratar de palha e de tijolo. Só que Faraó, no versículo seguinte, vai responder exatamente sobre o que eles não perguntaram.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem fala
Os supervisores israelitas, ainda diante do rei. Este versículo é a continuação direta da fala começada no versículo 15 — a pergunta foi lá, o conteúdo é aqui.
Nada mudou de cena entre um versículo e outro: mesma sala, mesmas pessoas, mesma conversa.
Quem é mencionado sem ser nomeado
Três grupos aparecem na fala e nenhum é identificado.
Quem deixou de dar palha: não é dito. Quem manda fazer os tijolos: "nos dizem", sem sujeito — provavelmente os feitores, que são quem pressiona no versículo 13, mas o texto não escreve. E quem bate: o verbo está na passiva, como no versículo 14.
A fala inteira é construída sobre agentes ausentes. Só o rei tem nome, e é a ele que se fala.
"O seu povo"
A última expressão do versículo é a única em que aparece um grupo designado — e é justamente a que não se consegue identificar com certeza.
Em português e em hebraico, "o seu povo", dito a Faraó, aponta naturalmente para os egípcios: a gente dele, os seus funcionários. Mas os israelitas também estão, naquele momento, sob a autoridade dele, e acabaram de se chamar de "os seus servos" duas vezes na mesma frase. As duas identificações são possíveis, e a escolha entre elas muda o sentido da queixa. O item 10 expõe o problema.
A palha e o tijolo
São as duas coisas materiais do versículo, e o Êxodo as põe uma no começo de cada frase, em posição de destaque.
O que a palha faz dentro do tijolo, por que sem ela a peça racha, e como se fabricava um tijolo no Egito — tudo isso está desenvolvido no estudo de Êxodo 1:14, e é de lá. O que muda no capítulo 5 é só quem tem de ir buscá-la.
A diferença entre a palha preparada e o restolho que o povo passou a recolher é assunto do estudo de Êxodo 5:12. Note que, na queixa ao rei, os supervisores não entram nesse detalhe: dizem apenas que palha não é dada.
5. Pontos de Ensino
Uma queixa bem feita começa pelo fato, não pela dor
Estes homens tinham marcas no corpo e podiam ter começado por elas. Começaram pelo insumo que faltou.
A ordem não é fria: é eficaz. Falta de material é uma falha verificável e de responsabilidade alheia; sofrimento é uma alegação que o outro sempre pode reduzir a exagero. Quem reclama bem põe primeiro o que pode ser conferido.
A etiqueta é útil até o ponto em que atrapalha
A fala escorrega de "os seus servos" para "nos dizem" e volta. É um detalhe pequeno e ensina uma coisa grande.
Formas de tratamento existem para permitir que coisas duras sejam ditas sem rompimento, e isso é bom. Mas elas também põem distância entre quem fala e o que está sendo dito — e há horas em que a distância é justamente o que impede o outro de entender. O momento em que a fórmula cede é o momento em que a queixa fica verdadeira.
O canal decide o tamanho do que se pode pedir
Não há nesta queixa uma palavra sobre liberdade. Não porque estes homens não a quisessem, e sim porque o instrumento que estavam usando não comportava esse pedido.
Vale reconhecer isso antes de julgar quem reclama pouco. Quase sempre, o tamanho da reclamação não mede a coragem de quem reclama: mede o que o canal aceita receber.
Nem toda frase da Bíblia tem um sentido só
A última frase deste versículo é ambígua no original, e este estudo não a resolve. Isso é um ponto de ensino por si.
Há leitores que tratam qualquer indefinição como problema a ser eliminado, e acabam escolhendo uma leitura e apresentando-a como se fosse a única. O procedimento honesto é o contrário: mostrar as leituras, dizer por que nenhuma se impõe, e seguir. Saber o que não se sabe faz parte de ler bem.
Quem cobra e quem fornece precisam responder juntos
A queixa existe porque duas obrigações que se sustentam foram separadas: entregar o material e entregar o produto. Onde esses dois lados não se encontram, haverá sempre alguém no meio pagando a conta — e é isso que este versículo tenta corrigir, subindo até o único ponto em que eles se juntam.
6. Aspectos Filosóficos
A frase que deveria nomear o culpado é justamente a que se desfaz
Há uma coisa digna de atenção na arquitetura desta queixa, e ela não depende de nenhuma teoria para ser vista.
As três primeiras frases são claríssimas. Falta palha. Exigem tijolo. Apanhamos. São fatos verificáveis, ditos em palavras simples, sem margem para dúvida.
A quarta frase — a única que atribui responsabilidade — é a que não se consegue ler com certeza. É nela que o hebraico fica indeciso, é sobre ela que as versões antigas divergiram, e é dela que ninguém consegue dizer com segurança o que quer dizer.
Pode ser acaso. O texto pode ter sofrido dano, ou a construção pode ter se perdido, e nesse caso não há nada a interpretar — só uma dificuldade material. É uma hipótese séria e não se pode excluí-la.
Mas vale registrar a coincidência, porque ela é de um tipo que se repete fora deste versículo. Descrever o que aconteceu costuma ser fácil; dizer de quem é a culpa costuma ser onde a linguagem trava. Não porque falte vocabulário, e sim porque a responsabilidade, num sistema de muitas mãos, não tem um lugar único onde pousar. O feitor cobrou. O escrivão anotou. O rei decidiu. Cada um fez a sua parte, e a soma das partes é uma injustiça de que nenhum deles é inteiramente o autor.
Quem está por baixo sente o resultado inteiro e precisa dizê-lo numa frase só. É aí que a frase se parte.
Nada disso está formulado no Êxodo, e convém repetir: o texto não discute responsabilidade e não explica a sua própria dificuldade. O que ele faz é deixar a queixa terminar num ponto em que o leitor, três mil anos depois, ainda não sabe contra quem ela foi feita.
7. Aplicações Práticas
Separe o que é verificável do que é sentido
A aplicação mais útil deste versículo é de método, e serve para qualquer reclamação séria — no trabalho, num contrato, diante de um órgão público.
A queixa dos supervisores tem uma ordem: primeiro o que deixou de ser entregue, depois o que continua sendo exigido, depois a consequência. Cada item é conferível por terceiros. O sofrimento entra por último e entra como fato, não como apelo.
Quem inverte essa ordem enfraquece a própria causa. Começar pela indignação dá ao outro a chance de discutir a indignação em vez de discutir o fato — e ele vai preferir isso.
Quem tem de responder precisa poder mostrar o que faltou
Há aqui uma aplicação para quem ocupa um cargo de entrega.
Se você responde por um resultado, registre o que deveria ter recebido e não recebeu, no dia em que não recebeu. Não como arma: como memória. A conta chega sempre, e chega no nome de quem assinou a linha — e a única defesa possível é a existência de um registro anterior à cobrança.
Os supervisores deste versículo tiveram de alegar de cabeça, diante do rei, aquilo que ninguém tinha escrito em lugar nenhum.
Cuidado com a frase que atribui culpa
A última frase da queixa é ambígua, e qualquer que seja a sua leitura ela é a parte mais arriscada da fala.
Vale tirar disso uma regra prática simples: quando se reclama a uma autoridade, os fatos sustentam; a atribuição de culpa expõe. É legítimo atribuir, às vezes é necessário — mas é bom saber que é ali que a conversa pode virar.
Neste caso virou. O rei não respondeu a nenhum dos três fatos alegados e devolveu uma acusação de motivo.
O limite
Convém não transformar este versículo num manual de negociação. Os homens que falam aqui são escravos, estão com o corpo marcado e não têm nenhum poder de barganha. Aprender a técnica deles é legítimo; esquecer a situação deles não é.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, de quem é a culpa segundo a última frase?
Não é possível decidir, e esta resposta não é evasiva: é o estado real da questão.
O hebraico admite pelo menos três leituras, conforme se tome a primeira palavra como substantivo ou como verbo e conforme se identifique "o seu povo" com os egípcios ou com Israel. A tradução grega antiga leu de um jeito, a latina de outro, e a tradição judaica registra mais de uma possibilidade. O item 10 apresenta cada uma.
O que se pode afirmar é que a frase atribui responsabilidade a alguém que não são os supervisores. Em todas as leituras, eles estão dizendo que a falha não é deles. O resto fica em aberto.
Por que a queixa não menciona Moisés?
O texto não diz, e o silêncio é notável porque foi o pedido de Moisés que desencadeou tudo — e porque, cinco versículos adiante, esses mesmos homens vão culpá-lo abertamente.
Há explicações plausíveis e nenhuma demonstrável. Uma é tática: mencionar Moisés diante do rei seria reconhecer ligação com a causa que provocou a medida. Outra é de foco: uma petição trata do que se quer resolver, e o que eles querem resolver é a palha. Uma terceira é que, naquele momento, eles ainda não tivessem ligado uma coisa à outra — a ligação aparece na fala do rei, no versículo seguinte, e talvez tenha sido ele quem a fez para eles.
Esta última hipótese é atraente e é só isso. O texto não permite confirmá-la.
Eles estavam mentindo em alguma coisa?
Nada no texto sugere isso, e cada uma das três alegações é confirmada pelo próprio capítulo: a palha foi cortada no versículo 7, a cota foi mantida no versículo 8, e o espancamento está contado no versículo 14.
Vale marcar isso porque a resposta do rei, no versículo 17, não contesta nenhum dos fatos. Ele muda de assunto. Quem lê depressa pode ficar com a impressão de que houve desmentido — não houve.
Eles pediram alguma coisa ao rei?
Não, e é um detalhe fácil de perder. Em todo o versículo não há um pedido formulado: há três fatos e uma frase sobre culpa. A única coisa que se aproxima de um pedido é a pergunta do versículo anterior — "por que você trata assim os seus servos?".
Numa petição antiga isso não é falha: expor a situação a quem pode corrigi-la já é o requerimento. Mas convém notar que o rei, no versículo seguinte, responde como se lhe tivessem pedido alguma coisa — e responde negando.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem de que esta queixa reclama
Êxodo 5:7 — "Não continuem a dar palha ao povo para fazer os tijolos, como faziam antes; eles mesmos que vão juntar palha para si."
Êxodo 5:8 — "Mas exijam deles a mesma cota de tijolos que faziam antes; não diminuam nada dela. Eles estão preguiçosos; por isso gritam: 'Vamos sacrificar ao nosso Deus.'"
As duas metades da queixa estão aí, e na mesma ordem: primeiro a palha cortada, depois a cota mantida. Os supervisores estão citando a ordem do rei de volta para ele, sem saber que é dele — ou sabendo.
A surra que eles apresentam como prova
Êxodo 5:14 — "E os supervisores dos filhos de Israel, que os feitores de Faraó tinham posto sobre eles, foram espancados, e lhes perguntavam: 'Por que não cumpriram, nem ontem nem hoje, a sua cota de tijolos, como antes?'"
O texto contou o fato; aqui eles o repetem ao rei com o mesmo verbo. A diferença é que o Êxodo disse "foram espancados", no passado, e a queixa diz "são espancados", em curso.
Egípcios que se chamaram servos de Faraó por vontade própria
Gênesis 47:25 — "E eles responderam: 'Você nos salvou a vida! Achemos favor aos olhos do nosso senhor, e seremos escravos de Faraó.'"
A mesma palavra hebraica, o mesmo rei, o oposto exato. No Gênesis são os egípcios que pedem para ser servos de Faraó, e chamam isso de salvação. Aqui são hebreus que se declaram servos dele porque não têm outra coisa a dizer.
A lei de Israel sobre salário e material retidos
Deuteronômio 24:14-15 — "Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado de teus irmãos, ou de teus estrangeiros, que estão na tua terra e nas tuas portas. No seu dia lhe darás o seu salário, e o sol não se porá sobre isso; porquanto pobre é, e sua vida depende disso; para que não clame contra ti ao SENHOR, e haja em ti pecado."
O paralelo é direto e é do próprio Israel. A lei prevê o caso de quem trabalha e não recebe o devido, e prevê também o que acontece em seguida: o lesado clama — o mesmo verbo do versículo anterior deste capítulo — e o clamor é ouvido por Deus. Em Êxodo 5:15 o clamor foi dirigido a um rei.
O salário retido, no Novo Testamento
Tiago 5:4 — "Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos."
A imagem é a mesma de Êxodo 2:23 e de Deuteronômio 24:15: o que foi retido grita, e o grito chega. Neste versículo do Êxodo, porém, o grito ainda está no palácio.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (ABC)
Palha não se dá aos seus servos, e nos dizem: ‘Façam os tijolos!’ E eis que os seus servos são espancados; e a culpa é do seu povo.”
Texto hebraico
תֶּבֶן אֵין נִתָּן לַעֲבָדֶיךָ וּלְבֵנִים אֹמְרִים לָנוּ עֲשׂוּ וְהִנֵּה עֲבָדֶיךָ מֻכִּים וְחָטָאת עַמֶּךָ
Transliteração
téven ein nittán la-avadékha, u-levením omrím lánu asú; ve-hinnéh avadékha mukkím, ve-chatát ammékha.
Análise palavra por palavra
תֶּבֶן — téven, "palha". É a palha picada que sobra da debulha do cereal, e não o colmo inteiro.
Na Bíblia ela aparece sobretudo como forragem, e nesse uso os donos são Gênesis 24:25 e 24:32; a função dela dentro do tijolo está no estudo de Êxodo 1:14, e a diferença entre ela e o restolho que o povo passou a recolher é do estudo de Êxodo 5:12. O que importa aqui é a posição: a palavra abre a frase. Em hebraico a ordem normal põe o verbo antes, e trazer o substantivo para a frente é a maneira de destacá-lo. A queixa começa apontando para o que falta.
אֵין נִתָּן — ein nittán, "não é dado", "não há quem dê".
Construção interessante. Ein é a partícula que nega a existência — "não há" —, e nittan é o particípio do verbo natan, "dar", no Nifal, a forma passiva do verbo hebraico. Somados, dizem algo como "não existe [o] ser dada".
Duas consequências: o tempo é contínuo, não pontual — não é uma entrega que atrasou, é um fornecimento que deixou de existir; e não há agente, porque a frase não diz quem não dá.
וּלְבֵנִים ... עֲשׂוּ — u-levením ... asú, "e tijolos… façam!".
Levenim é o plural de levenah, "tijolo", a palavra de que deriva o verbo de fazer tijolo visto no estudo de Êxodo 5:14. E, como teven, ela vem na frente da frase.
Aí está a arquitetura da queixa, visível só no hebraico: duas frases, cada uma aberta pelo seu material. Palha — não é dada. Tijolos — façam. Os dois substantivos em posição de destaque, um contra o outro, e a contradição fica exposta pela simples ordem das palavras.
Asu é o imperativo plural do verbo asah, "fazer". Uma ordem seca, de uma palavra só, citada dentro da queixa.
אֹמְרִים לָנוּ — omrím lánu, "dizem a nós". Particípio plural do verbo amar, "dizer", seguido da preposição com sufixo de primeira pessoa do plural.
O particípio, de novo, marca ação continuada: não é "disseram", é "vivem dizendo". E o sujeito outra vez não é nomeado — um plural indeterminado, o "dizem" do português.
Mas o que importa é o sufixo: aqui está o "nós". Em torno desta palavra, toda a fala usa a terceira pessoa da etiqueta — "os teus servos". Só nesta a primeira pessoa aparece. É o único ponto do versículo em que estes homens falam de si como "nós".
וְהִנֵּה — ve-hinnéh, "e eis que". Partícula que serve para apontar, para chamar a atenção sobre alguma coisa presente.
עֲבָדֶיךָ מֻכִּים — avadékha mukkím, "os teus servos [são] espancados". Frase sem verbo de ligação, que é a construção normal do hebraico, com o particípio mukkim.
O particípio é da raiz nakah no Hofal, a forma passiva do causativo — exatamente a mesma forma do verbo do versículo 14, agora em particípio. O efeito do particípio é o de sempre: ação em curso, sem começo nem fim marcados. Não é "apanhamos ontem": é "estamos apanhando".
E, pela terceira vez neste versículo, não há agente. Nem no fornecimento, nem na ordem, nem na pancada.
וְחָטָאת עַמֶּךָ — ve-chatát ammékha. Aqui está o problema.
Duas palavras, e nenhuma tradução consegue dar conta das duas ao mesmo tempo. Convém expor as leituras uma a uma.
Primeira leitura: "e a culpa é do teu povo". Toma-se chatat como substantivo — "pecado", "falta", "culpa" — ligado a ammekha, "o teu povo", numa construção de posse. O sentido é: a responsabilidade recai sobre a gente do rei, isto é, sobre os funcionários egípcios que cortaram a palha e mantiveram a cota. É a leitura da maior parte das traduções em português.
Segunda leitura: "e o teu povo peca". As mesmas consoantes admitem ler chatat como verbo, no perfeito da terceira pessoa feminina, com "o teu povo" como sujeito — em hebraico, nomes coletivos aceitam concordância no feminino singular. A diferença com a primeira é de grau: aqui não se diz que a culpa está com eles, diz-se que eles estão errando.
Terceira leitura: "e a culpa é posta sobre o teu povo". Entende-se "o teu povo" como sendo Israel — que, afinal, também está sob o rei, e cujos representantes acabaram de se chamar duas vezes de "os teus servos". Nesse caso a frase não acusa ninguém: protesta contra uma imputação. Somos tratados como culpados, e não somos.
Quarta leitura: "e tu pecas contra o teu povo". É a da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo, que verteu a frase por "cometerás, pois, injustiça contra o teu povo". A leitura grega supõe uma forma verbal de segunda pessoa, dirigida ao próprio rei. A Vulgata, tradução latina do século IV, foi por caminho aparentado: "e age-se injustamente contra o teu povo".
Ou seja: já no mundo antigo o texto era lido de mais de uma maneira, por tradutores que tinham o hebraico diante dos olhos e nenhum interesse em criar dificuldade. Isso é o indício mais forte de que a dificuldade está no texto, e não na nossa distância dele.
Três hipóteses explicam essa situação, e não é possível decidir entre elas. A primeira: a ambiguidade é de composição, e serve para acusar sem acusar. A segunda: o texto sofreu algum dano na transmissão, e o que temos é uma leitura difícil que ninguém consegue mais desfazer. A terceira: a construção era clara para quem falava a língua e deixou de ser clara para nós.
A decisão da tradução ABC foi não escolher. "E a culpa é do seu povo" conserva, em português, a mesma dobra: pode significar que a culpa pertence a eles e pode significar que a culpa está sendo atribuída a eles. Uma tradução que fechasse a frase estaria decidindo em nome do leitor uma questão que os melhores tradutores da Antiguidade não decidiram.
11. Conclusão
Três conclusões decorrem deste versículo, e uma quarta que é a de não concluir.
A primeira: a queixa é inteiramente trabalhista, e isso é informação, não omissão. Falta de material, exigência mantida, castigo em curso. Nenhuma palavra sobre Moisés, sobre o SENHOR ou sobre a liberdade. Estes homens não subiram ao palácio para discutir a causa que provocou a medida; subiram para tratar da medida. É o pedido que o instrumento que eles usavam comportava, e eles o fizeram por inteiro.
A segunda: os três fatos alegados são verdadeiros, e o capítulo já os narrou. A palha foi cortada, a cota foi mantida, os supervisores apanharam. O rei, no versículo seguinte, não vai contestar nenhum deles. Quem lê depressa pode achar que houve desmentido; não houve. Houve mudança de assunto, que é coisa diferente e mais eficaz.
A terceira: a fala inteira é construída sobre agentes que não aparecem. Palha não é dada — por quem, não se diz. Dizem-nos que façamos — quem, não se diz. Os teus servos são espancados — por quem, não se diz. Três vezes a língua descreve uma ação sem quem a pratique. Não se pode afirmar que isso seja proposital, porque as construções usadas são todas correntes em hebraico. O que se pode observar é que a queixa chega ao rei sem apontar para ninguém — até a última frase, que é justamente a que não se entende.
E aqui está o que não se conclui. A frase final permanece em disputa e este estudo não a resolve. As traduções antigas divergiram entre si, as leituras possíveis mudam bastante o sentido da cena, e nenhuma se impõe pela gramática. Fechar a questão seria oferecer ao leitor uma certeza que não existe — e o Êxodo, aqui, não a oferece a ninguém.













