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Êxodo 5:7

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 29 acessos
“Não continuem a dar palha ao povo para fazer os tijolos, como faziam antes; eles mesmos que vão juntar palha para si.
Trabalhadores semitas junto a uma cova de barro numa olaria egípcia, com moldes de madeira e tijolos secando ao sol, enquanto um encarregado observa de pé com um bastão na mão.

Estudo


“Não continuem a dar palha ao povo para fazer os tijolos, como faziam antes; eles mesmos que vão juntar palha para si.

1. Introdução

Esta é a primeira ordem concreta do capítulo, e ela não é sobre tijolo. É sobre entrega.

Faraó não proíbe a palha. Não manda fazer tijolo sem palha. Não diz que a peça pode sair pior. Ele corta o fornecimento — e devolve ao próprio trabalhador a tarefa de conseguir o material.

A diferença entre as duas coisas é o assunto deste versículo. O trabalho de recolher palha não desaparece; ele muda de lado. Deixa de ser feito por quem administrava a obra e passa a ser feito por quem já tinha a jornada inteira ocupada — e, a partir daí, deixa de aparecer em qualquer conta.

O versículo levanta ainda três pontos menores, cada um desenvolvido adiante. O primeiro é que a ordem não é dirigida ao povo: é dirigida aos homens que estão entre o rei e o povo, e o povo só vai ouvi-la no versículo 10. O segundo é a marca de tempo — "como faziam antes" —, que divide a vida daquela gente em um regime anterior e um posterior. O terceiro é o pronome enfático do hebraico: "eles mesmos", que existe para carregar a transferência.

Duas coisas que o leitor talvez espere encontrar aqui não estão aqui, porque já têm lugar próprio. Por que a palha importa para o tijolo, e o que a falta dela faz com a peça, está no estudo de Êxodo 1:14. E a cota que continua a mesma, que é o segundo golpe da medida, é do versículo seguinte.

2. Contexto Histórico e Cultural

O Estado egípcio fornecia — e por isso podia deixar de fornecer

Uma obra egípcia não era um canteiro onde cada um se virava. Era uma operação de abastecimento.

A administração entregava às turmas de trabalho aquilo de que elas precisavam para existir e para produzir: grão, óleo, cerveja, peixe, roupa, ferramenta, e o material da obra. Cada entrega era ordem escrita, registrada por um escriba, com data e quantidade. Quem estudou esses arquivos costuma observar que o Estado faraônico administrava menos pessoas do que porções: a unidade de conta era a ração e o lote de material.

Isso muda o sentido da frase do rei. "Não continuem a dar" só é uma ordem possível dentro de um sistema em que dar era o procedimento normal, anotado e previsto. Faraó não está inventando uma crueldade nova; está usando uma alavanca que o próprio aparelho lhe oferece — a de suspender uma linha do abastecimento.

Um documento de entrega: o Papiro Leiden I 348

Existe um papiro que mostra exatamente esse gesto administrativo, e vale apresentá-lo com cuidado, porque ele é citado com frequência em contextos onde não cabe.

O Papiro Leiden I 348 está no Rijksmuseum van Oudheden ("Museu Nacional de Antiguidades", em Leiden, na Holanda). É um rolo reaproveitado, e os dois lados não têm nada a ver um com o outro. A frente traz textos mágicos e médicos — fórmulas contra dor de cabeça, proteção da mãe e da criança —, publicados em 1971 pelo egiptólogo holandês Joris Borghouts. O verso traz papelada administrativa do reinado de Ramessés II: cartas, memorandos, contas.

Numa dessas anotações está a linha que interessa. É uma ordem de distribuição de grão, e ela manda entregar a ração aos soldados e aos Apiru (nome egípcio de um grupo social de gente sem lugar fixo na estrutura, que aparece em documentos de todo o Oriente antigo) que arrastam pedra para o grande pilono — o portal monumental de um templo de Ramessés.

É um bilhete de rotina. E é justamente por ser rotina que ele serve: mostra a mecânica da entrega funcionando. Havia uma lista de quem recebia, havia uma quantidade, havia alguém encarregado de mandar entregar, e havia uma frente de obra do outro lado esperando a ração chegar.

O que esse documento não diz

Convém dizer com todas as letras, porque o uso apressado dessa fonte é comum.

O papiro não fala de tijolo. A obra que ele menciona é de pedra arrastada para um pilono, que é outra frente de trabalho, com outra técnica e outro tipo de equipe.

O papiro não fala de cota. Não há ali meta de produção, nem registro de quem ficou abaixo dela. É documento de entrega, não de cobrança.

E o papiro não fala de Israel. A palavra Apiru parece-se com "hebreu" e as duas foram aproximadas por muitos estudiosos, mas a identificação é discutida há mais de um século e não está resolvida; o assunto pertence ao estudo de Gênesis 14:13, onde a palavra "hebreu" aparece pela primeira vez na Bíblia. Aqui basta o que o documento oferece de fato: uma ração, um grupo de trabalhadores estrangeiros ou marginais, e um Estado que decide o que entra na entrega.

Dito de outro modo: o Leiden I 348 não confirma Êxodo 5. Ele mostra o tipo de administração dentro da qual uma ordem como a de Êxodo 5 faria sentido.

Palha não era uma coisa que se acha

Aqui está o ponto que a leitura moderna costuma perder, porque imagina palha como mato à beira do caminho.

A palha é resto de cereal já colhido e já debulhado. Ela se produz na eira, no fim da colheita, e é ali que se junta, se transporta e se guarda. Tem dono, tem lugar de armazenamento e tem destino: serve de alimento grosseiro para o gado e de cama para os animais — sentido que o estudo de Gênesis 24:25 desenvolve —, serve de combustível, e serve de liga na massa do tijolo.

Quer dizer que a palha entregue às olarias do rei tinha atrás de si uma cadeia inteira: alguém a recolheu, alguém a carregou, alguém a estocou e alguém a distribuiu. Cortar essa entrega não elimina esse trabalho. Elimina o custo que ele representava para o Estado.

O que muda quando o insumo sai da conta

Vale fazer a conta do ponto de vista do palácio, porque ela é instrutiva.

Antes da ordem, a palha era despesa: homens, animais e dias empregados em recolher e transportar material que não era o produto final. Depois da ordem, essa despesa simplesmente desaparece dos livros — não porque o trabalho deixou de ser feito, mas porque passou a ser feito por gente cujo tempo o Estado não paga e não conta.

É uma economia real, e é pequena. O que o rei ganha em material é muito menos do que perde em produção, e o versículo 8 vai mostrar que ele sabe disso e não se importa. A medida não é de gestão: é de castigo, e usa a linguagem da gestão.

Convém marcar o limite desta leitura. Nenhum documento egípcio conhecido registra uma política de cortar o fornecimento de palha mantendo a meta de tijolos. O que a documentação sustenta é a moldura — Estado fornecedor, entrega registrada, equipes abastecidas. O ato descrito em Êxodo 5:7 não está documentado fora da Bíblia, e dizer o contrário seria forçar a fonte.

3. Análise Teológica do Versículo

“Não continuem a dar palha ao povo”

O verbo é "dar". Não é "vender", não é "permitir", não é "fornecer" no sentido vago — é o verbo comum da entrega de mão em mão.

Isso define a relação anterior com precisão. Havia uma obrigação do lado de quem mandava: entregar o material. O trabalho forçado descrito até aqui no Êxodo não era um regime em que o escravizado se sustentava sozinho; era um regime em que o Estado punha o insumo e cobrava o produto.

A ordem desmonta essa metade. O que Faraó revoga não é um privilégio nem uma gentileza — é a parte do arranjo que cabia a ele.

Repare também que a frase diz "ao povo", e não "aos hebreus" nem "aos filhos de Israel". É a palavra que Faraó usa desde Êxodo 5:4, e ele a usa como quem fala de uma massa de trabalho, não de uma nação. O Êxodo põe na boca dele exatamente o vocabulário de um administrador.

“para fazer os tijolos”

A finalidade fica dita em três palavras, e é a única vez no versículo em que o produto aparece.

Vale reparar no que a frase supõe sem explicar: que a palha entra no tijolo, que sem ela o resultado é pior, e que todos os envolvidos sabem disso. O rei não precisa argumentar. Fala com feitores e supervisores, gente do ramo, e a ordem é compreendida na hora.

É esse conhecimento compartilhado que torna a medida eficaz. Quem não soubesse como o tijolo é feito ouviria uma mudança de logística; quem sabia ouviu uma sentença. O efeito prático da ordem — a mesma quantidade, de uma peça pior, com uma tarefa a mais — já está tratado no estudo de Êxodo 1:14, e este versículo não o refaz.

“como faziam antes”

O hebraico diz literalmente "como ontem e anteontem", expressão fixa que significa "como até agora" e que o estudo de Êxodo 4:10 já analisou.

O que interessa aqui é a função dela na frase. Ela cria uma linha divisória no tempo. Existe um "antes", em que a palha vinha, e existe um "de agora em diante", em que não vem mais. A vida daquela gente passa a ter duas metades, e a ordem de um homem é a fronteira entre elas.

Há um detalhe cruel na escolha da referência. O ponto de comparação que o rei fixa é o regime antigo — que já era escravidão, já era trabalho pesado, já era descrito em Êxodo 1:14 como amargura. Esse regime acaba de virar o padrão bom, aquele com o qual tudo será comparado daqui em diante. O capítulo inteiro vai medir a nova situação pela régua da antiga, e não pela régua da liberdade.

“eles mesmos que vão juntar palha para si”

Aqui está o coração do versículo, e ele está num pronome.

O hebraico põe "eles" antes do verbo, numa posição que a língua reserva para o contraste: hem ("eles", em hebraico, na forma independente que marca ênfase). Não é "que se vire quem quiser". É "eles, e não nós". A frase existe para nomear quem passa a carregar o que antes era carregado por outro.

E a transferência tem um efeito que o texto não comenta, mas que a sequência do capítulo vai demonstrar: o trabalho transferido some das contas. No versículo 13 os feitores cobrarão a tarefa do dia "como quando havia palha", isto é, pelo padrão de um dia que não tinha essa tarefa dentro. O tempo gasto em recolher palha não é descontado, não é somado, não é reconhecido. Ele existe para quem o gasta e não existe para quem o cobra.

Há ainda o "para si" — um dativo que em português soa pleonástico e em hebraico é comum, mas que aqui ganha um tom seco: juntem a palha de vocês, para vocês, por conta de vocês. É a linguagem de quem devolve um problema.

O que o versículo não diz

Três silêncios merecem registro, porque a pregação costuma preenchê-los.

O texto não diz que a palha vai faltar. Diz que não será entregue. São coisas diferentes, e o versículo 12 mostrará que o povo encontra alguma coisa — pior, mas encontra.

O texto não diz que a medida é uma resposta a Moisés. A ligação com o pedido está no versículo 8, na boca do rei, e é o rei quem a faz. Aqui a ordem é apenas técnica.

E o texto não faz nenhum comentário moral. Não há "e isto foi mau aos olhos do SENHOR", não há indignação, não há adjetivo. O Êxodo registra a ordem como se registrasse um despacho, e deixa a avaliação por conta do leitor. Essa contenção é uma escolha de estilo, e ela atravessa o capítulo inteiro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Continua sem nome, como em todo o livro até aqui. O Êxodo nomeia parteiras e não nomeia o rei do Egito — inversão que o estudo de Êxodo 1:15 já comentou.

Neste versículo ele aparece numa função muito concreta: a de quem tem autoridade para mexer numa linha de abastecimento. Não é o rei sagrado dos hinos egípcios; é o homem que decide o que sai do armazém.

Os destinatários da ordem

A ordem é dada a quem foi convocado no versículo anterior: os feitores, que são egípcios, e os supervisores, que são israelitas postos sobre os seus. Os dois cargos e a diferença entre eles são o assunto do estudo de Êxodo 5:6, e é dele que sai a chave do capítulo inteiro.

O que cabe registrar aqui é apenas isto: entre a boca que ordena e os ombros que carregam há pelo menos duas camadas de gente, e uma delas é feita de vítimas com função.

"O povo"

É como Faraó chama os israelitas. A palavra aparece repetidamente na fala dele neste capítulo, e sempre com o mesmo sentido administrativo: a força de trabalho.

O detalhe tem peso porque o mesmo termo é o que o Êxodo usa quando Deus diz "o meu povo". Duas bocas, a mesma palavra, dois donos em disputa — e é dessa disputa que o livro trata.

A palha e o tijolo

Não são personagens, mas são os objetos em torno dos quais o capítulo gira, e vale fixá-los.

O tijolo de barro cru era o material de construção do Egito inteiro: casas, muros, armazéns, palácios. Como ele era feito, e por que a palha entra na massa, está no estudo de Êxodo 1:14.

A palha é o resto do cereal depois da debulha, e no mundo antigo era um bem útil e contabilizado, não um lixo. O estudo de Gênesis 24:25 mostra a palha funcionando como sinal de fartura de uma casa.

O que já tinha acontecido

Três coisas, e nessa ordem.

Moisés e Arão pediram autorização para uma festa no deserto (Êxodo 5:1). Faraó recusou, declarou não conhecer o SENHOR (Êxodo 5:2) e tratou o pedido como interrupção de trabalho (Êxodo 5:4-5). Depois convocou a cadeia de comando (Êxodo 5:6).

Este versículo é a primeira frase dessa convocação. Entre o pedido e a ordem não há intervalo: o texto diz "naquele mesmo dia".

5. Pontos de Ensino

Retirar a condição é uma forma de aumentar a exigência

A lição mais direta do versículo é também a menos óbvia, porque a ordem parece modesta.

Ninguém foi mandado trabalhar mais. Ninguém teve a meta elevada. O que se tirou foi um insumo — e isso basta para tornar impossível o que antes era apenas penoso. Quem quiser reconhecer esse mecanismo em qualquer situação de trabalho vai encontrá-lo com facilidade, e raramente sob a forma de uma ordem explícita de trabalhar mais.

O trabalho transferido some da conta

A tarefa de recolher palha não foi criada por esta ordem: ela já existia, e alguém já a fazia.

O que a ordem faz é mudar quem a executa, e com isso ela muda de natureza. Nas mãos do Estado, era despesa registrada. Nas mãos do trabalhador, virou nada — tempo que ninguém mede, que não aparece em documento nenhum e que, por isso, não pode sequer ser alegado como defesa. É por isso que os supervisores, no versículo 16, terão tanta dificuldade de explicar o que aconteceu.

O padrão bom pode ser um regime ruim

"Como faziam antes" transforma a escravidão anterior em referência de normalidade.

Vale prestar atenção nisso, porque a manobra é frequente. Quando a situação piora, a situação anterior deixa de ser julgada e passa a ser o alvo a recuperar. O capítulo 5 inteiro será uma luta para voltar ao que já era intolerável — e ninguém, nem os supervisores no versículo 15, vai pedir a liberdade. Vão pedir a palha de volta.

Quem dá a ordem não precisa executá-la

Faraó fala uma vez e vai embora do texto até o versículo 17. Quem sai andando são outros.

A ordem tem uma frase; o cumprimento dela ocupa doze versículos e inclui gente espalhada por todo o Egito, homens espancados e uma petição fracassada. A distância entre a facilidade de mandar e o custo de obedecer é um dos assuntos do capítulo, e começa aqui.

O conhecimento técnico serve aos dois lados

A ordem só funciona porque quem a dá conhece o ofício.

Faraó sabe o que a palha faz na massa; sabe que a peça sem ela é pior; sabe quanto tempo custa recolhê-la. Não é uma decisão tomada por ignorância do chão de fábrica — é o contrário. Saber como as coisas são feitas permite fazer o bem e permite calcular o dano com precisão, e o versículo mostra o segundo uso.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão que não tem nome fácil: a diferença entre exigir mais de alguém e retirar aquilo de que essa pessoa depende para cumprir o que já se exigia.

São dois atos moralmente distintos, e o segundo tem uma vantagem para quem o pratica. O primeiro é visível e discutível — quem aumenta uma meta assume publicamente que a aumentou. O segundo se apresenta como ausência de ação: ninguém pediu nada a mais, apenas se deixou de dar. Quem deixa de dar pode alegar que não fez nada.

A questão está em saber se essa alegação vale. Retirar uma condição necessária é um ato, e produz o mesmo resultado que a exigência aberta produziria, com a diferença de ficar mais difícil de acusar. O versículo é interessante porque mostra os dois lados da coisa numa frase só: a forma é de omissão, o conteúdo é de ordem.

Há um segundo ponto, ligado ao primeiro. A ordem transfere uma tarefa e, ao mesmo tempo, retira dela o estatuto de tarefa. Recolher palha era trabalho enquanto o Estado o fazia; deixa de ser trabalho quando passa para o escravizado. Isso sugere que o que conta como trabalho não é uma propriedade da atividade em si, mas uma decisão de quem mantém os registros — e essa decisão pode ser tomada sem que nada mude na realidade do esforço.

Não se pode afirmar que o Êxodo esteja propondo essa reflexão. O texto registra a ordem e segue. Mas ele a registra com uma precisão que permite vê-la, e a precisão é uma escolha.

7. Aplicações Práticas

Reconhecer a medida pela forma, não pelo tom

A aplicação mais útil deste versículo é um exercício de identificação.

Exigências impossíveis raramente chegam com cara de exigência impossível. Chegam como corte de apoio, redução de equipe, fim de um fornecimento, mudança de fornecedor, retirada de uma ferramenta — com a meta anterior mantida no mesmo lugar, sem que ninguém a mencione. Quem só escuta o que foi dito ouve uma decisão administrativa. Quem faz a conta do que foi retirado ouve outra coisa.

A pergunta prática é sempre a mesma: o que era entregue e não é mais, e quem passou a fazer esse serviço?

Nomear o trabalho que ninguém conta

O segundo uso vale para quem está do lado de quem recebe a ordem.

Trabalho não contabilizado é indefensável justamente por não estar em lugar nenhum. Os supervisores do versículo 16 vão tentar explicar ao rei o que aconteceu e não terão como medir a diferença — a única coisa que existe escrita é a cota de tijolos. Registrar o que foi transferido, antes de precisar alegá-lo, é o que torna possível discutir mais tarde.

Isso vale para trabalho de casa, para cuidado de pessoas doentes ou idosas, para tarefas que foram absorvidas por alguém quando um posto foi extinto. Enquanto ninguém escreve, o esforço existe só na fadiga de quem o faz.

Do lado de quem manda

Há uma aplicação para quem dá ordens, e ela é curta.

Quando se retira uma condição e se mantém a exigência, a decisão precisa ser dita por inteiro, inclusive na parte que incomoda: "vocês vão ter de conseguir isto por conta própria, e isso vai custar tempo do dia de vocês". Faraó não diz essa segunda metade. Ele podia ter dito, e a escolha de calar é parte da medida.

Um cuidado

Convém não transformar o versículo em metáfora de qualquer contrariedade.

Aqui há trabalho forçado, e há um poder sem contrapeso. Uma dificuldade comum de trabalho, uma temporada de recursos escassos ou uma decisão dura tomada com franqueza não são a mesma coisa. O que o versículo ensina a reconhecer é uma estrutura específica: exigência mantida, condição retirada, silêncio sobre o custo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Faraó proibiu a palha?

Não. Ele proibiu a entrega.

A distinção é o versículo inteiro. A palha continua sendo necessária, continua sendo usada e continua a ser procurada — o povo sai atrás dela no versículo 12. O que acabou foi a obrigação do Estado de fornecê-la. Confundir uma coisa com a outra faz perder o que há de mais engenhoso na medida.

Por que ele não aumentou simplesmente a cota?

Não se sabe, e o texto não explica. Duas leituras são possíveis e nenhuma é demonstrável.

A primeira é que aumentar a cota seria assumir uma punição, e a forma escolhida permite ao rei apresentar-se como quem não mudou nada — a exigência continua a mesma, palavra por palavra, no versículo 8.

A segunda é mais simples: cortar a palha economiza algo de verdade para o palácio, e aumentar a cota não economiza nada. A medida escolhida pune e corta despesa ao mesmo tempo.

Havia palha à disposição no Egito?

Havia, mas não do jeito que a pergunta sugere.

Palha é subproduto de colheita: existe em quantidade logo depois da debulha, fica guardada em quem a recolheu e tem usos concorrentes, a começar pelo gado. Não era material sem dono espalhado pelo campo. O que o povo vai encontrar, no versículo 12, é outra coisa, e a mudança de palavra ali não é estilo.

O Egito realmente fornecia material aos trabalhadores?

Sim, e isso está bem documentado.

A administração egípcia funcionava por entrega registrada de rações e de insumos, com ordem escrita e escriba responsável. O item 2 apresenta um papiro do reinado de Ramessés II que mostra uma dessas ordens em funcionamento. O que não existe é documento egípcio registrando a política descrita neste versículo — o quadro é verossímil, o episódio não é comprovado.

Esse papiro prova que os hebreus estavam ali?

Não. É um uso indevido de uma fonte real.

O documento fala de trabalhadores chamados Apiru (nome egípcio para gente sem lugar fixo na estrutura social), empregados em arrastar pedra, e a aproximação entre essa palavra e "hebreu" é antiga, discutida e não resolvida — o assunto pertence ao estudo de Gênesis 14:13. Além disso, o papiro trata de pedra, não de tijolo, e não menciona cota nenhuma.

A ordem foi dada ao povo?

Não. Foi dada aos feitores e aos supervisores.

O povo só vai saber no versículo 10, e vai saber pela boca de israelitas. Essa arquitetura — o rei fala uma vez, e a ordem chega à vítima pela voz de um vizinho — é o que torna este capítulo diferente de tudo o que o Êxodo escreveu até aqui sobre a escravidão.

Deus está ausente deste versículo?

Do versículo, sim, e do trecho inteiro entre Êxodo 5:6 e 5:19.

Não há intervenção, não há comentário, não há sinal. A ausência é notável logo depois de quatro capítulos cheios de fala divina, e o texto não a explica. Quem quiser uma resposta terá de esperar Êxodo 6, e a acusação de Moisés em Êxodo 5:22-23 mostra que a espera foi sentida também por ele.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo trabalho, descrito antes

Êxodo 1:14 — "e amarguraram a vida deles com trabalho pesado: a argamassa, os tijolos e todo o serviço do campo. Todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade."

É a apresentação da olaria no livro, e é lá que está o processo de fabricação. Êxodo 5:7 pressupõe tudo aquilo e não repete nada: entra direto na logística.

Tijolo, no lugar onde a Bíblia o menciona pela primeira vez

Gênesis 11:3 — "Disseram uns aos outros: 'Vamos, façamos tijolos e queimemo-los bem no fogo.' Usaram tijolo em vez de pedra, e betume em vez de argamassa."

O hebraico de Babel usa o mesmo par de palavras que Êxodo 5:7 — o verbo e o substantivo da mesma raiz, algo como "entijolar tijolos". A semelhança é de vocabulário, não de tema: lá é um projeto voluntário, aqui é trabalho forçado. Mas o leitor que conhece Gênesis 11 ouve a construção outra vez.

A palha como bem de uma casa

Gênesis 24:25 — "E acrescentou: 'Temos palha e forragem em abundância, e também lugar para passar a noite.'"

Ali a palha em quantidade é sinal de que a casa tem colheita, eira e depósito. Dito de outro modo: ter palha para oferecer era coisa de quem tinha posses. É o oposto exato do que se ordena aqui, onde escravizados são mandados conseguir sozinhos o que casas prósperas guardavam.

A expressão do tempo

Êxodo 4:10 — "Então Moisés disse ao SENHOR: 'Ai, meu Senhor! Eu não sou homem de palavras, nem ontem, nem anteontem, nem desde que falaste ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua.'"

"Nem ontem nem anteontem" é a mesma fórmula que aparece em Êxodo 5:7 traduzida por "como faziam antes". O estudo de Êxodo 4:10 analisa a expressão. Vale registrar a coincidência: Moisés usou-a para dizer que sempre foi assim, e Faraó a usa para dizer que a partir de agora não será mais.

O verbo de catar do chão

Números 15:32 — "E estando os filhos de Israel no deserto, acharam um homem que recolhia lenha em dia de sábado."

1 Reis 17:10 — "Então ele se levantou, e se foi a Sarepta. E quando chegou à porta da cidade, eis que uma mulher viúva que estava ali colhendo gravetos; e ele a chamou, e disse-lhe: Rogo-te que me tragas um pouco de água em um vaso, para que beba."

O verbo hebraico que Êxodo 5:7 usa para "juntar palha" é o mesmo desses dois lugares, e nos três a cena é a mesma: alguém abaixado, catando do chão o que sobrou. Nos dois exemplos quem cata é um homem só ou uma viúva prestes a morrer de fome. Em Êxodo 5 é um povo inteiro.

Quem fornece e quem cobra

Gênesis 47:19 — "Por que havemos de morrer diante dos seus olhos, tanto nós como as nossas terras? Compre a nós e as nossas terras em troca de pão, e nós, com as nossas terras, seremos escravos de Faraó; e dê-nos semente, para que vivamos e não morramos, e a terra não fique deserta."

É a mesma administração, vista do outro lado e num momento em que ela ainda fornecia. Os egípcios pedem semente a José, e recebem: o Estado entrega o insumo e cobra a produção. Em Êxodo 5:7 essa mesma máquina decide parar de entregar e continuar cobrando.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

“Não continuem a dar palha ao povo para fazer os tijolos, como faziam antes; eles mesmos que vão juntar palha para si.

Texto hebraico

לֹ֣א תֹאסִפ֞וּן לָתֵ֨ת תֶּ֧בֶן לָעָ֛ם לִלְבֹּ֥ן הַלְּבֵנִ֖ים כִּתְמ֣וֹל שִׁלְשֹׁ֑ם הֵ֚ם יֵֽלְכ֔וּ וְקֹשְׁשׁ֥וּ לָהֶ֖ם תֶּֽבֶן׃

Transliteração

lo tosifun latet teven la-am lilbon ha-levenim kitmol shilshom; hem yelechu we-qosheshu lahem teven.

Análise palavra por palavra

לֹא תֹאסִפוּן — lo tosifun

"Não tornem a". O verbo é yasaf, "acrescentar, repetir, continuar", aqui no Hiphil (a forma causativa do verbo hebraico), imperfeito, segunda pessoa do plural.

A construção é idiomática: yasaf mais infinitivo significa "fazer de novo", e com a negação significa "não fazer mais". A tradução ABC opta por "não continuem a dar", que guarda a ideia de interrupção de uma prática em curso.

O detalhe que chama atenção é o nun final — a forma longa da segunda pessoa do plural, chamada nun paragógico. Ela é rara na prosa e costuma aparecer em falas de tom solene ou enfático. Não é possível decidir se aqui ela marca ênfase, formalidade de decreto real ou apenas uso do dialeto do texto; o que se pode dizer é que a forma comum seria tosifu, e o texto escolheu a outra.

לָתֵת — latet

Infinitivo de natan, "dar" — o verbo mais comum do hebraico para entregar alguma coisa a alguém.

Vale notar o que não foi escolhido: não há aqui verbo de vender, de emprestar, de permitir nem de fornecer em sentido técnico. É o verbo simples da entrega, o mesmo que a Bíblia usa quando alguém põe um objeto na mão de outro. A relação que está sendo cortada era, em hebraico, uma relação de dar.

תֶּבֶן — teven

"Palha". O substantivo aparece dezessete vezes na Bíblia hebraica, e cinco delas estão neste único capítulo — o que já indica de que trata Êxodo 5.

Fora daqui, o sentido dominante é o de alimento e cama para animais: é o que se dá aos camelos em Gênesis 24:25 e 24:32, e o que Isaías 11:7 e 65:25 põem na boca do leão nas cenas de paz futura. O campo semântico é o do resto de cereal já debulhado, coisa útil e barata.

לָעָם — la-am

"Ao povo". Am é a palavra corrente para povo, gente, população.

Na boca de Faraó, ao longo deste capítulo, ela funciona como termo administrativo — a massa de trabalho. É a mesma palavra que o SENHOR usa em "deixe o meu povo ir", no versículo 1. O Êxodo não assinala a coincidência, mas ela está no texto: os dois lados chamam aquela gente pelo mesmo nome, e discutem de quem ela é.

לִלְבֹּן הַלְּבֵנִים — lilbon ha-levenim

"Para fazer os tijolos". Aqui o verbo e o objeto vêm da mesma raiz: laven, "fazer tijolo", é verbo formado a partir do substantivo levenah, "tijolo". Em português seria algo como "entijolar os tijolos".

A mesma construção aparece em Gênesis 11:3, na torre de Babel. São os dois únicos lugares da Bíblia em que ela ocorre, e os dois falam de grandes obras de tijolo cru.

A raiz tem parentesco com lavan, "branco", provavelmente porque o tijolo de barro seco ao sol fica claro. A ligação é plausível e é aceita pela maioria dos léxicos, mas não é demonstrável a partir do texto bíblico.

כִּתְמוֹל שִׁלְשֹׁם — kitmol shilshom

Literalmente "como ontem e anteontem". É expressão fixa para "como até agora", "como vinha sendo", e o estudo de Êxodo 4:10 analisa a fórmula por inteiro.

Neste capítulo ela reaparece nos versículos 8 e 14, sempre marcando a comparação com o regime anterior.

הֵם יֵלְכוּ — hem yelechu

"Eles é que vão". O verbo já traria a pessoa embutida; o pronome independente hem não era necessário.

Quando o hebraico acrescenta o pronome assim, antes do verbo, quase sempre há contraste: é este e não aquele, são eles e não nós. A tradução ABC verte por "eles mesmos", e o português precisa desse reforço porque não dispõe do mesmo recurso.

É o ponto exato em que a tarefa muda de dono, e o hebraico o marca com uma palavra que poderia ter sido omitida.

וְקֹשְׁשׁוּ — we-qosheshu

"E que juntem". O verbo é qashash, numa forma intensiva, e o seu campo semântico é bem estreito: significa catar do chão material solto e disperso.

É o que faz o homem que recolhe lenha em Números 15:32-33, e o que faz a viúva de Sarepta ajuntando gravetos em 1 Reis 17:10 e 17:12. Em Sofonias 2:1 o verbo aparece aplicado a um povo, num sentido discutido pelos tradutores.

O que importa reter é o gesto: não é colher nem receber, é recolher o que sobrou, abaixado. E a raiz é a mesma de qash, "restolho", a palavra que vai substituir "palha" no versículo 12 — coincidência de som que o hebraico ouve e o português perde.

לָהֶם — lahem

"Para si", literalmente "para eles". É o chamado dativo de interesse, comum em hebraico e quase sempre sem tradução necessária.

Aqui, porém, ele fecha a frase com um tom seco que combina com o resto: a palha passa a ser assunto deles, problema deles, conta deles.

11. Conclusão

Do que foi visto, três conclusões se impõem.

A primeira: a medida de Faraó é uma retirada, não um acréscimo. Ele não manda trabalhar mais nem eleva meta nenhuma. Suspende uma entrega — e essa suspensão produz, sem dizer o nome, o mesmo efeito que uma ordem de trabalhar mais produziria. O capítulo começa, portanto, com uma lição sobre a forma do poder: ele pode agravar por omissão, e a omissão é mais difícil de acusar do que a ordem.

A segunda: o trabalho que muda de mãos muda de estatuto. Recolher palha era serviço do Estado, com custo e registro; passa a ser tempo de escravizado, sem custo e sem registro. Nada mudou no esforço; mudou quem escreve os livros. Daí decorre que a invisibilidade do trabalho não é um acidente da percepção — é um efeito administrativo, e pode ser produzido de propósito.

A terceira: a régua do capítulo foi fixada aqui, e ela é baixa. "Como faziam antes" transforma a escravidão descrita em Êxodo 1:14 no padrão a recuperar. A partir deste versículo, tudo o que acontecer será medido contra o regime antigo, e ninguém no capítulo — nem os supervisores, quando forem ao rei — vai pedir mais do que a volta ao que já era insuportável.

Resta um dado que só o conjunto do capítulo esclarece: quem executa esta ordem não é Faraó. Ele fala uma vez, e some do texto por dez versículos. O que vem a seguir é a máquina funcionando sozinha.

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Êxodo 5:7

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