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Êxodo 5:20

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 28 acessos
Ao saírem da presença de Faraó, encontraram Moisés e Arão, que estavam ali à espera deles,
Grupo de homens hebreus saindo por um portal de pedra ao fim da tarde, com marcas de pancada nas costas, e dois homens de pé à espera junto ao muro de tijolo cru.

Estudo


Ao saírem da presença de Faraó, encontraram Moisés e Arão, que estavam ali à espera deles,

1. Introdução

O versículo é meio versículo. Não tem fala, não tem ação e não tem juízo: registra que duas partes se cruzaram numa porta.

E é a dobradiça do capítulo. Até aqui tudo se passou dentro da máquina egípcia — ordem, cota, palha, espancamento, petição, recusa. A partir daqui o capítulo muda de assunto e de língua: quem fala passa a ser hebreu com hebreu, e depois homem com Deus.

Três informações estão no versículo, e cada uma pesa. A primeira é o momento: o encontro acontece na saída, com a resposta do rei ainda fresca. A segunda é a posição: Moisés e Arão estão do lado de fora. A terceira é a mais discreta, e é ela que organiza o resto — eles estavam ali à espera, o que pressupõe que sabiam da audiência que corria lá dentro.

O que o Êxodo não informa é todo o resto. Não diz por que os dois não entraram, não diz se foram impedidos, não diz o que pensavam, não diz quanto tempo ficaram ali. O versículo descreve uma posição no espaço e deixa o motivo em branco. O item 3 mostra o que se pode e o que não se pode concluir disso.

Vale notar ainda uma ausência longa que este versículo encerra: desde Êxodo 5:4, quando o rei os mandou de volta às cargas, Moisés e Arão não apareciam. Quinze versículos de administração de trabalho forçado correram sem eles.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem carrega o recado responde pelo recado

No mundo antigo, o enviado não era um portador neutro. Ele falava na primeira pessoa do remetente, e por isso recebia, no corpo, a reação que o remetente teria recebido se estivesse ali.

O arquivo de cartas diplomáticas encontrado em Amarna, no Egito, mostra isso: há cartas em que um rei da Babilônia reclama que os seus enviados foram retidos anos a fio na corte egípcia, e outras em que o tratamento dado a um mensageiro é discutido como se fosse o tratamento dado ao rei que o mandou.

A Bíblia registra a mesma lógica na sua forma mais crua em 2 Samuel 10, quando o rei amonita manda rapar metade da barba dos embaixadores de Davi e cortar-lhes a roupa pela cintura. Ninguém entendeu aquilo como uma ofensa aos homens: entendeu-se como declaração de guerra ao rei que os mandou.

Daí decorre a situação deste versículo, e ela é simples e desconfortável. Faraó é inalcançável: os supervisores acabaram de tentar e foram chamados de preguiçosos. Deus é inalcançável para eles neste momento — não há sacerdote, altar nem oráculo em cena. Moisés e Arão estão a três passos. São o único corpo disponível da mensagem que produziu tudo aquilo. (A fórmula com que um enviado abria o recado — "assim diz" — tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 44:6; o que interessa aqui é o outro lado, o que se fazia com quem a pronunciava.)

Por que eles estão do lado de fora

A repartição do espaço não é detalhe de cenário.

Os supervisores tinham função dentro do sistema: respondiam pela cota, prestavam contas, tinham nome nas listas. Era essa função que lhes dava motivo para estar diante do rei. Moisés e Arão não tinham cargo egípcio nenhum. Como um assunto chegava ao soberano no Egito — sempre por intermédio de quem já estava dentro — está tratado no estudo de Gênesis 50:4, e o que sobra para cá é a consequência prática: quem não tinha função ficava de fora, e o lado de fora era o único lugar onde os dois podiam estar.

O texto, é preciso dizer, não afirma nada disso. Não diz que foram impedidos, não diz que escolheram ficar. A reconstituição acima explica o que era possível naquele mundo; ela não decide o caso.

O que não se sabe do lugar

O Êxodo não nomeia a cidade e não descreve o palácio. O capítulo pressupõe que a distância entre a residência do rei e os campos de tijolo era vencível num dia, já que os supervisores vão, são atendidos e voltam — mas isso é inferência do enredo, não dado do texto. As cidades que o livro nomeia como obra desse trabalho aparecem em Êxodo 1:11.

3. Análise Teológica do Versículo

“Ao saírem da presença de Faraó”

A expressão marca o fim de uma audiência. Não é uma saída qualquer: é o afastamento de diante do rei, e no Êxodo ela sempre fecha uma cena de palácio.

O primeiro trabalho aqui é notar o que o texto corta. Entre a última palavra de Faraó, em Êxodo 5:18, e esta saída, não há nada. Nenhum protesto, nenhuma insistência, nenhuma reação registrada dos supervisores dentro da sala. O Êxodo registrou que eles gritaram ao rei em Êxodo 5:15 e não registra nem um som deles depois da resposta. Saem calados.

E saem carregando o que Êxodo 5:19 já informou: entenderam que estavam em apuros. A frase que abre o nosso versículo pega esses homens no pior momento possível — segundos depois de descobrirem que a via institucional acabou.

No hebraico esta frase não abre o versículo: vem no fim. A inversão é decisão de tradução, e está explicada no item 10.

“encontraram Moisés e Arão”

Quem age no versículo são os supervisores. Eles são o sujeito dos dois verbos; Moisés e Arão são objeto. A cena é contada do lado de quem apanhou.

Isso não é pouco. O Êxodo poderia ter escrito que Moisés e Arão foram ao encontro deles — e não escreveu. Escreveu que os homens que saíam do palácio deram com os dois no caminho. Quem se move, no versículo, é quem vem de ser humilhado.

O verbo escolhido merece uma frase, e só uma: serve para topar com alguém no caminho, mas em outros lugares da Bíblia significa cair sobre alguém para matar e, em outros ainda, interceder por alguém. O que essa amplitude permite e o que ela não permite afirmar fica no item 10, que é o lugar disso. Em português a frase soa neutra; no hebraico ela tem uma borda áspera, e o versículo seguinte mostra que a aspereza estava certa.

“que estavam ali à espera deles”

Aqui está o versículo.

A forma verbal não descreve gente que passava por ali. Descreve gente postada, de pé, em posição — o mesmo tipo de expressão que se usa para quem se planta num lugar com um propósito. E o complemento fecha o sentido: estavam postados ao encontro deles, isto é, virados para quem havia de sair.

Disso decorre uma afirmação segura e uma série de perguntas sem resposta.

A afirmação segura é que eles sabiam. Não se espera alguém sem saber que ele vem. Moisés e Arão estavam informados de que uma delegação de supervisores havia entrado para falar com o rei, e ficaram ali para ver no que dava. O Êxodo não conta como souberam, e a informação não estava no capítulo até agora.

As perguntas começam logo depois. Por que não entraram junto? Foram impedidos, por não terem função nem acesso? Acharam melhor não aparecer, depois do que Faraó lhes dissera em Êxodo 5:4? Esperavam um resultado favorável e queriam estar ali para o que viesse em seguida? O texto não diz. Nenhuma dessas leituras tem apoio no versículo, e não é possível decidir entre elas.

Convém marcar isso com clareza, porque o espaço em branco atrai leitura devota e leitura acusatória com a mesma força. Não há uma palavra de censura aos dois neste capítulo. Também não há uma palavra de elogio, nem a menor sugestão de que estivessem ali por prudência, por estratégia ou por coragem. Quem lê covardia e quem lê fidelidade estão ambos acrescentando ao texto.

O que o versículo faz, sem dizer

Três observações sobre a posição da cena no capítulo, todas verificáveis no texto.

A primeira: a petição de Êxodo 5:15-16 não menciona Moisés, não menciona Arão, não menciona o SENHOR e não menciona o pedido de festa. É uma reclamação estritamente de trabalho. Os homens que provocaram a crise não entraram na sala e não foram citados dentro dela — e estão esperando na porta.

A segunda: este é o único versículo do capítulo em que alguém está parado. Todo o resto é movimento sob pressão — sair, espalhar-se, juntar, terminar, gritar, ir trabalhar. O capítulo inteiro corre contra o relógio da cota. Aqui dois homens estão de pé, sem fazer nada, esperando.

A terceira: o versículo não tem fala. Ele existe para pôr as duas partes frente a frente, e a fala vem no versículo seguinte — da boca dos supervisores, não da de Moisés. Nesta cena inteira, Moisés não responde nada. O que ele tem a dizer, dirá em Êxodo 5:22, e não será a eles.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os supervisores dos filhos de Israel

São o sujeito do versículo. Hebreus postos por Faraó sobre hebreus, com responsabilidade pela cota e nenhum poder sobre as condições de produzi-la — a natureza do cargo está tratada em Êxodo 5:6 e Êxodo 5:14, onde eles aparecem pela primeira vez e onde apanham.

O que importa registrar aqui é o percurso deles dentro do próprio capítulo. Recebem a ordem em Êxodo 5:6, transmitem-na ao povo em Êxodo 5:10, são espancados em Êxodo 5:14, peticionam ao rei em Êxodo 5:15, são chamados de preguiçosos em Êxodo 5:17 e entendem a situação em Êxodo 5:19. É a trajetória mais completa de qualquer personagem do capítulo, incluindo Moisés.

Moisés e Arão

Aparecem pela segunda vez no capítulo. A primeira foi em Êxodo 5:1-5, na audiência com o rei, que terminou com a ordem de voltarem às suas cargas.

Onde estiveram desde então, o Êxodo não conta. Não há notícia deles durante a ordem da palha, durante a corrida pelo restolho, durante os espancamentos e durante a petição — quinze versículos de lacuna que o texto não preenche.

Os dois estão juntos, como estiveram desde Êxodo 4:29, e funcionam como uma unidade: a acusação de Êxodo 5:21 é dirigida aos dois, no plural. Em Êxodo 5:22, Arão desaparece.

Faraó

Não é personagem desta cena. Aparece apenas como o ponto de onde se sai — "da presença de Faraó". É a última menção dele no capítulo, e ela o reduz a um lugar. Continua sem nome, como todos os reis do Egito neste livro.

Quem não está

O povo não está. Desde Êxodo 5:12 ele se espalhou por toda a terra do Egito atrás de restolho, e não se reúne mais no capítulo. A acusação do versículo seguinte será feita pelos supervisores, não pela multidão.

Os feitores não estão. Eles são egípcios, pressionam nos campos, e a cena da porta do palácio não é deles.

Os anciãos não estão — e é a ausência mais notável. Em Êxodo 3:16-18 eles deviam ir ao rei junto com Moisés; em Êxodo 4:29 foram reunidos e ouviram tudo. Depois disso somem do texto e não reaparecem em lugar nenhum deste capítulo.

O lugar

O texto não o nomeia. Sabe-se apenas que é fora, na saída, em algum ponto entre a sala do rei e o mundo. O Êxodo não descreve o palácio, não diz de que cidade se trata e não indica a hora do dia.

5. Pontos de Ensino

Quem propõe a mudança nem sempre é quem paga por ela

O pedido foi feito por Moisés em Êxodo 5:1. A conta chegou nas costas dos supervisores em Êxodo 5:14. E, no momento em que a conta é fechada, o proponente está do lado de fora, esperando notícia. O capítulo não comenta essa distribuição — apenas a arruma no espaço, e a deixa visível.

O texto registra posição, não motivo

Este versículo é uma lição de método para quem lê a Bíblia. Ele diz onde cada um estava e não diz por quê. Toda leitura que atribui intenção a Moisés e Arão aqui — boa ou má — é acréscimo de quem lê. Aprender a parar onde o texto para é parte do trabalho.

Esperar é uma posição, e ela é vista

Moisés e Arão não fizeram nada de errado neste versículo. Não disseram nada, não prometeram nada, não atrapalharam ninguém. Estavam ali. E é exatamente a posição deles — do lado de fora, inteiros, enquanto os outros saíam marcados — que a fala do versículo seguinte vai usar contra eles.

O silêncio de quem foi procurado

Nem neste versículo nem no próximo Moisés responde aos supervisores. Ele ouve a acusação e leva o assunto para outro lugar. Para quem tem o hábito de esperar defesa, explicação ou reação dos personagens principais, o Êxodo aqui frustra — e é preciso ler o que está escrito, não o que faltou.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma questão neste versículo, e ela cabe em uma pergunta: quem tem o direito de propor um risco que outra pessoa vai correr?

A cena põe a assimetria em forma física. De um lado da porta, homens que acabaram de apanhar e de ser chamados de preguiçosos pelo rei. Do outro, dois homens intactos, que trouxeram a proposta e não estavam na sala quando ela foi cobrada. Nenhum dos dois grupos escolheu essa distribuição; ela resultou de posições — quem tem função entra, quem não tem espera fora.

O incômodo da cena não vem de alguém ter agido mal. Vem de a responsabilidade e o custo terem caído em corpos diferentes — o que é comum em qualquer ação coletiva e, justamente por ser comum, quase nunca se discute. Decide-se em um lugar, paga-se em outro, e o intervalo entre os dois costuma ser invisível. Este versículo o torna visível ao descrever uma porta.

Não há aqui uma tese a defender, e o Êxodo não oferece nenhuma. O que o texto faz é menos e é mais difícil: mostra a assimetria sem resolvê-la, e passa adiante. A fala que vem no versículo seguinte nasce dessa assimetria, e é a única resposta que o capítulo lhe dá.

7. Aplicações Práticas

A aplicação deste versículo é estreita, e convém não alargá-la. Ele não ensina um procedimento nem prescreve um comportamento: descreve uma posição. O que se pode tirar dele é a capacidade de reconhecer essa posição quando ela aparece.

Saber de que lado da porta se está

Quem propõe uma mudança dentro de uma empresa, de uma igreja, de uma equipe ou de uma família raramente é quem primeiro sente o custo dela. A proposta circula; a consequência cai sobre alguém em particular — o funcionário que perde o turno, o parente que absorve a tarefa, o subordinado que responde pelo prazo. Perceber isso a tempo não anula a proposta. Muda o modo de sustentá-la.

Entre a proposta e a cobrança há sempre um intervalo, e é dentro dele que se decide se o proponente aparece ou espera do lado de fora. O Êxodo não diz o que Moisés e Arão fizeram nesse intervalo. A pergunta, para quem lê, é o que ele próprio costuma fazer no seu.

Vale ainda uma distinção que este versículo permite: estar disponível para o resultado não é a mesma coisa que estar presente no processo. De longe as duas se parecem. Para quem está dentro da sala, não.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Moisés e Arão não entraram com os supervisores?

O texto não diz. As possibilidades são todas plausíveis e nenhuma é demonstrável: não tinham função que lhes desse acesso; tinham sido expressamente mandados de volta ao trabalho em Êxodo 5:4; a petição era de matéria trabalhista e eles não faziam parte dela. O Êxodo não escolhe, e o leitor também não deveria.

Como eles souberam que a audiência estava acontecendo?

Também não está escrito. O que a frase garante é que sabiam, porque estavam postados à espera, e ninguém espera o que não sabe que vem. O caminho da informação — se os supervisores avisaram, se a notícia correu pelos campos, se os dois acompanhavam o assunto de perto — fica de fora do relato.

O Êxodo está criticando os dois por estarem ali fora?

Não há no capítulo uma única palavra de censura a Moisés e Arão. Também não há defesa. O texto é neutro a ponto de incomodar: informa a posição e passa à fala seguinte. Ler crítica aqui é possível, mas é leitura de quem lê, e convém dizê-lo assim.

Por que este versículo existe, se nada acontece nele?

Porque sem ele a acusação de Êxodo 5:21 viria de lugar nenhum. O versículo monta a cena: junta as duas partes, fixa o momento — a saída, com a derrota ainda quente — e estabelece que os acusados estavam esperando. Tirar este versículo não tiraria um fato do capítulo; tiraria a condição de possibilidade do próximo.

9. Conexão com Outros Textos

A última vez que os dois estiveram em cena

Êxodo 5:4 — "O rei do Egito lhes disse: 'Moisés e Arão, por que fazem o povo largar os seus trabalhos? Voltem às suas cargas!'"

É a despedida deles do palácio, quinze versículos antes. Saíram dali com uma ordem de voltar ao trabalho, e o capítulo não informa se a cumpriram.

O que os supervisores carregavam ao sair

Êxodo 5:19 — "Os supervisores dos filhos de Israel viram-se em apuros quando lhes disseram: 'Não diminuirão nada dos seus tijolos, a tarefa de cada dia no seu dia.'"

O versículo imediatamente anterior. É o estado em que esses homens chegam à porta.

A expressão "ao encontro de", no mesmo livro

Êxodo 4:14 — "Então a ira do SENHOR se acendeu contra Moisés, e ele disse: 'E Arão, o levita, seu irmão? Eu sei que ele fala bem. E olhe: ele está saindo ao seu encontro e, quando o vir, se alegrará no coração.'"

A mesma expressão do nosso versículo. Ali Arão sai ao encontro de Moisés e o encontro é de alegria; aqui os dois estão postados ao encontro de outros, e o que vem é o oposto. O livro usa a fórmula duas vezes em dois capítulos, com resultados invertidos.

Ficar de lado para ver no que dá

Êxodo 2:4 — "E a irmã dele ficou de longe, para saber o que lhe aconteceria."

A postura é parente: alguém se posta a distância, sem interferir, para acompanhar o desfecho de uma coisa que já saiu das suas mãos. Lá deu certo. Aqui não se diz o que os dois esperavam.

Esperar notícia de uma decisão que se tomou longe

1 Samuel 4:13 — "Eli estava sentado na sua cadeira à beira do caminho, vigiando, porque o coração lhe tremia por causa da arca de Deus."

A cena mais próxima em toda a Bíblia: um homem à margem do caminho, parado, à espera de quem vem de onde a coisa foi decidida. Ali o texto informa o que ia no coração dele; aqui, não.

O ponto de onde este capítulo partiu

Êxodo 4:31 — "E o povo acreditou. Quando ouviram que o SENHOR tinha visitado os filhos de Israel e que vira a aflição deles, inclinaram-se e adoraram."

Menos de trinta versículos separam aquela cena desta porta, e no meio não houve infidelidade registrada: houve uma audiência com o rei.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ao saírem da presença de Faraó, encontraram Moisés e Arão, que estavam ali à espera deles,

Texto hebraico

וַיִּפְגְּעוּ אֶת־מֹשֶׁה וְאֶת־אַהֲרֹן נִצָּבִים לִקְרָאתָם בְּצֵאתָם מֵאֵת פַּרְעֹה

Transliteração

way-yif-gə-'ū 'eṯ-mō-šeh wə-'eṯ-'a-hă-rōn niṣ-ṣā-ḇîm liq-rā-ṯām bə-ṣê-ṯām mê-'êṯ par-'ōh

A ordem das palavras, e o que a nossa versão mudou

O hebraico começa pelo encontro e termina pela saída do palácio: "e encontraram Moisés e Arão, postados ao encontro deles, ao saírem de diante de Faraó". A nossa versão inverteu, pondo a saída na frente.

A troca tem custo e tem razão. O custo é que a ênfase hebraica cai no verbo do encontro, que abre a frase, e em português passa a cair na saída. A razão é que a ordem original, mantida ao pé da letra, deixaria o leitor sem saber quem sai e quem encontra até o fim da frase. A diferença é de foco, não de sentido.

Análise palavra por palavra

וַיִּפְגְּעוּ — way-yif-gə-'ū, "e encontraram", "e deram com".

Do verbo pā-ḡa', no Qal — a forma simples e mais comum do verbo hebraico. A raiz tem uma amplitude incomum, e vale percorrê-la, porque é dela que vem o tom da frase.

O sentido básico é de contato: topar com alguma coisa, dar de encontro, alcançar um limite. É o verbo usado quando Jacó, a caminho de Harã, "deu com" o lugar onde passaria a noite, em Gênesis 28:11.

Desse contato saem dois ramos opostos. Um é o do golpe: em Juízes 8:21 e em 1 Reis 2:29-34 o mesmo verbo significa cair sobre alguém e matá-lo, e é a palavra da ordem de execução. O outro é o da intercessão: quando alguém "encontra" a divindade em favor de terceiro, o verbo passa a significar interceder, rogar por — é assim em Gênesis 23:8, onde a palavra recebe tratamento próprio, e em Jeremias 7:16 e Isaías 53:12.

Encontro, golpe e intercessão saem todos daqui. Não se deve concluir que o verbo, neste versículo, signifique agressão: o sentido corrente de topar com alguém explica a frase por inteiro, e nenhuma tradução antiga leu outra coisa. O que se pode registrar é que o Êxodo escolheu, para este encontro, uma palavra que carrega essa vizinhança — e que o versículo seguinte confirma que o encontro não foi cordial.

A forma está no plural masculino, e o sujeito não é dito: são os supervisores do versículo anterior.

אֶת־מֹשֶׁה וְאֶת־אַהֲרֹן — 'eṯ-mō-šeh wə-'eṯ-'a-hă-rōn, "a Moisés e a Arão".

A partícula 'eṯ marca o objeto direto e vem repetida diante de cada nome. Gramaticalmente, portanto, os dois são o objeto da ação — quem encontra são os outros. É o dado que sustenta a observação do item 3: a cena é contada do lado de quem saiu do palácio.

נִצָּבִים — niṣ-ṣā-ḇîm, "postados", "de pé", "em posição".

Particípio no Nifal — a forma passiva e reflexiva do verbo hebraico — da raiz nā-ṣaḇ. O particípio descreve estado contínuo: não "ficaram de pé", mas "estavam de pé", e ali permaneciam.

A palavra não é neutra como "estar em pé" em português: indica alguém plantado num lugar, firme, geralmente com um propósito. É a forma usada para os três homens diante de Abraão em Gênesis 18:2 e para o SENHOR no alto da escada de Gênesis 28:13, casos já examinados nos estudos daqueles versículos; da mesma família vem o verbo da irmã de Moisés tomando posição a distância, em Êxodo 2:4. O que a forma não traz é motivo — diz que estavam postados, não diz para quê.

לִקְרָאתָם — liq-rā-ṯām, "ao encontro deles".

Expressão fixa, formada da preposição lə com um infinitivo da raiz que significa "ir ao encontro", mais o sufixo de terceira pessoa do plural. É o vocabulário de quem se põe na direção de alguém que vem.

A mesma expressão aparece em Êxodo 4:14 e Êxodo 4:27, quando Arão sai ao encontro de Moisés no deserto. Ali o encontro é de alegria e de abraço. Aqui a fórmula é a mesma e a cena é a oposta — e as duas ocorrências estão a um capítulo de distância uma da outra.

בְּצֵאתָם — bə-ṣê-ṯām, "ao saírem eles".

Preposição bə com o infinitivo do verbo yā-ṣā, "sair", e sufixo de plural. A construção marca simultaneidade: a coisa acontece no ato de sair, não depois. Os dois grupos se cruzam na porta, não no caminho.

מֵאֵת פַּרְעֹה — mê-'êṯ par-'ōh, "de junto de Faraó".

A preposição composta mê-'êṯ significa "de com", "de junto de" — indica afastamento da companhia de alguém, não de um lugar. Em português a diferença se perde: dizemos "da presença de Faraó", e o hebraico diz algo mais próximo de "de onde ele estava". É fórmula de audiência, e o livro voltará a usá-la nos capítulos seguintes, sempre no mesmo contexto.

11. Conclusão

Do exposto seguem quatro conclusões.

A primeira é sobre a função da cena. Este é um versículo sem fala, sem ato e sem juízo, e mesmo assim é indispensável: ele junta na mesma porta os que apanharam e os que trouxeram a proposta, no minuto em que a derrota acabou de ser confirmada. Tudo o que o capítulo dirá a seguir depende dessa aproximação física. O Êxodo gastou meio versículo para arrumar as pessoas no espaço, e é assim que ele prepara uma acusação.

A segunda é sobre o único dado firme que o versículo oferece: eles estavam à espera. Não é uma informação de cenário. Esperar exige saber, e saber muda a posição dos dois de passantes para interessados. Moisés e Arão acompanhavam o desfecho de uma petição da qual não participaram, e o texto não explica como ficaram sabendo dela.

A terceira é sobre o limite da leitura, e é a mais importante para quem estuda. O motivo da ausência dos dois no palácio não está escrito. Nenhuma das explicações possíveis — falta de acesso, obediência à ordem de Êxodo 5:4, prudência, distância do assunto — tem apoio no texto, e não é possível decidir entre elas. Quem lê omissão e quem lê fidelidade estão ambos preenchendo um branco deixado de propósito.

A quarta é sobre a forma do encontro. Quem se move são os supervisores; Moisés e Arão são o objeto da frase, e continuarão sendo o objeto no versículo seguinte. Num capítulo em que Moisés falou primeiro e acionou tudo, o fecho começa com ele calado, de pé, recebendo.

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