Cada mulher pedirá à sua vizinha e à que morar em sua casa objetos de prata, objetos de ouro e roupas; vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas, e assim despojarão o Egito.”
1. Introdução
O capítulo termina numa palavra dura, e o texto não a suaviza: "e assim despojarão o Egito".
Despojar é o que se faz com um inimigo vencido em batalha. O verbo hebraico é esse mesmo, e os comentaristas que mais defendem a cena reconhecem que ele não significa "receber presentes" nem "tomar emprestado".
Esta é a segunda dificuldade moral do capítulo — a outra está em Êxodo 3:18 —, e ela também não se resolve. As leituras existem, têm defensores de peso, e nenhuma se impõe. Este estudo vai expô-las com nome e não vai escolher.
Antes disso, é preciso desfazer um mal-entendido que envenenou a discussão durante séculos. O verbo do pedido, em hebraico, é "pedir" — não "tomar emprestado". Nisso não há divergência entre os comentaristas, e a tradução por "emprestar", que algumas versões antigas adotaram, criou um problema que o texto não tem: o de gente que pega prometendo devolver e não devolve. Não é isso que está escrito.
O que está escrito é mais simples e mais difícil. Pede-se. Dá-se. E o resultado é chamado de despojo.
O versículo tem ainda três detalhes que quase nunca são notados: quem pede são as mulheres; a pessoa a quem se pede pode ser alguém que mora na mesma casa; e o que se ganha é posto sobre os filhos, sem que ninguém explique por quê.
2. Contexto Histórico e Cultural
Prata antes de ouro: uma ordem que diz alguma coisa
O versículo lista "objetos de prata, objetos de ouro e roupas", nessa ordem. Para um leitor moderno a ordem é indiferente. No Egito, não era.
O Egito tinha ouro em abundância. As minas do deserto oriental e da Núbia abasteciam a corte, os templos e o comércio exterior, e as cartas dos reis estrangeiros à corte do faraó pedem ouro com insistência, porque no Egito, diziam eles, ele era como poeira.
Prata, não. O Egito não tinha depósitos importantes de prata, e o metal precisava ser importado — da Anatólia, do Egeu, das rotas do Levante. A consequência é a que se poderia esperar: nos períodos mais antigos a prata valia mais que o ouro. Só a partir do fim do Império Médio a relação se inverte, e no Império Novo a prata passa a valer cerca de metade do peso equivalente em ouro. Mesmo então, objetos de prata continuam bem mais raros nos túmulos do que os de ouro.
O versículo cita a prata primeiro. Não é possível dizer se isso é intencional — a ordem "prata e ouro" também é comum em hebraico por outras razões —, mas o dado é real e vale ser conhecido: o item mais raro da lista é o que vem na frente.
"Objetos", não "joias"
A palavra hebraica traduzida por "objetos" é a de uso geral para utensílio, recipiente, instrumento, apetrecho. Não é a palavra de joia. Várias versões portuguesas traduzem por "joias", e isso estreita o sentido sem necessidade.
O que a expressão abrange é tudo o que se faz de metal precioso: taças, jarros, bacias, espelhos, anéis, braceletes, arrecadas, colares, placas. Isso importa por uma razão prática. Não havia moeda no Egito daquele período; o pagamento se fazia por peso de metal, e o assunto está tratado no estudo de Gênesis 41:56. Um objeto de prata não era um enfeite: era valor guardado numa forma que se podia carregar, cortar e pesar.
As roupas entram pela mesma lógica. Tecido bom era caro, durava e servia de reserva de valor — e, num povo prestes a atravessar deserto, era também necessidade imediata.
A vizinha e a que mora na casa
O versículo supõe uma coisa que a imagem corrente do Êxodo não comporta: hebreus e egípcios morando lado a lado, e às vezes sob o mesmo teto.
A primeira expressão é "a sua vizinha" — mulher que mora perto. A segunda é mais forte: literalmente, "a que reside na casa dela". A construção é ambígua e admite as duas direções — uma egípcia hospedada em casa hebreia, ou uma hebreia hospedada em casa egípcia —, e o hebraico não permite decidir.
Em qualquer das duas, o pressuposto é o mesmo: aquelas mulheres se conheciam, moravam perto e havia relação suficiente para que uma pedisse à outra objetos de valor.
Isso não combina com um regime de segregação total, e o próprio livro é ambíguo a respeito. Êxodo 8:22 e 9:26 falam da terra de Gósen como área distinta, poupada de duas das pragas; este versículo e a cena de Êxodo 12:23, com as casas marcadas nos umbrais, supõem convivência próxima. O Êxodo não resolve a tensão, e nenhuma reconstrução moderna a resolve de modo definitivo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Cada mulher pedirá"
Duas informações aqui, e as duas são incomuns.
A primeira: quem age são as mulheres. O versículo põe o verbo no feminino singular — "e pedirá uma mulher" — e mantém tudo o que segue na esfera dela: a vizinha, a que mora na casa. Os homens não aparecem.
Isso muda quando a ordem é repetida. Em Êxodo 11:2, Deus manda falar aos ouvidos do povo "que todo homem peça ao seu vizinho, e toda mulher à sua vizinha". Em Êxodo 12:35, quem pede são "os filhos de Israel", sem distinção. A versão deste capítulo é a única em que a tarefa é só das mulheres.
O texto não explica. As razões que se costumam propor — que a relação de vizinhança doméstica era coisa de mulheres, que elas circulavam entre as casas — são plausíveis e não estão escritas.
A segunda: o verbo é "pedir". Este é o ponto que precisa ficar firme, porque a discussão inteira já foi contaminada por ele.
O hebraico usa o verbo comum de pedir, requerer, solicitar — o mesmo de qualquer pedido feito a alguém. Ele não significa tomar emprestado, e não contém promessa de devolução.
Nisso os comentaristas são unânimes, e vale registrar quantos. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) observa que não havia sequer pretexto de empréstimo, já que o pedido se dá no momento mesmo da partida. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) escrevem que "o único sentido do verbo é pedir ou solicitar", e acrescentam que nenhum egípcio poderia ter imaginado que se tratava de empréstimo. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz o mesmo em três palavras: significa simplesmente "pedir".
A Septuaginta traduziu por "pedirá" e a Vulgata, por "pedirá". A tradução por "emprestar" entrou por versões posteriores e criou um escândalo que o texto hebraico não produz. Quem quiser acusar a cena, acuse pelo que ela diz — que é grave o bastante — e não por uma palavra que não está lá.
"à sua vizinha e à que morar em sua casa"
O detalhe doméstico é o que torna a cena difícil de olhar.
Não se pede a um funcionário do Estado, nem a um feitor, nem ao palácio. Pede-se à mulher da porta ao lado. E a segunda expressão vai mais longe: à que mora dentro da casa. O fundo material está no item 2; o que interessa aqui é a consequência.
Quem entrega os bens não é quem impôs o trabalho forçado. É uma mulher que morava perto. O versículo não diz que ela lucrou com a escravidão, não diz que ela concordava com ela, não diz coisa alguma sobre ela — a não ser que tinha objetos de prata e que os deu.
Guarde isso. É a raiz do problema moral do versículo, e nenhuma das leituras que virão a seguir consegue apagá-lo.
"objetos de prata, objetos de ouro e roupas"
A lista é breve e concreta. O que ela não inclui também diz alguma coisa: não há terra, não há gado, não há grão, não há escravos. Só o que se carrega.
É o tipo de bem que serve a quem vai andar. E é exatamente o que Êxodo 12:35 registrará que foi pedido, com as mesmas três palavras.
"vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas"
Esta frase é a mais estranha do versículo, e quase ninguém para nela.
Por que os filhos? O texto não diz. Há duas leituras razoáveis e nenhuma decide.
A primeira é a do enfeite: as crianças sairiam do Egito adornadas, e a cena seria a de um povo que parte vestido de festa em vez de partir como fugitivo.
A segunda é a do transporte: as crianças carregariam o que os adultos não podiam carregar, porque os adultos levavam massa, tendas, animais e os mais velhos.
As duas cabem no verbo, que significa simplesmente "pôr sobre". E há um detalhe que talvez pese: o versículo diz "sobre os seus filhos e sobre as suas filhas", e não "sobre vocês". Quem sai carregando o metal é a geração seguinte. Não é possível decidir se isso é observação prática ou se tem alguma intenção; o Êxodo não comenta.
"e assim despojarão o Egito"
Chegamos à palavra.
O verbo hebraico, nesta forma, significa despojar, saquear, tirar de alguém o que ele tem. É o verbo do exército que limpa uma cidade tomada. A Septuaginta traduziu por um verbo grego de despojar inimigos vencidos, e a Vulgata, por um verbo latino do mesmo campo — a palavra da qual vem o nosso "espoliar".
Keil e Delitzsch, que defendem a cena, são categóricos e é justo citá-los: o verbo não significa furtar às escondidas, tomar por astúcia ou surrupiar; significa despojar. Eles não suavizam a palavra. Discordam de que ela seja um problema.
Aqui está a dificuldade, e ela é simples de enunciar: o que se descreve é pedido e entrega voluntária, e o nome que se dá ao resultado é despojo de guerra. As duas coisas estão no mesmo versículo.
As leituras, com os seus donos
Primeira: é salário retido. O que sai do Egito é pagamento por trabalho que nunca foi pago. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) escreve que os israelitas reclamavam aqueles bens como remuneração justa, ainda que muito insuficiente, por serviços que lhes tinham amargado a vida. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que eram "os salários que lhes eram devidos".
A leitura é antiga. O Talmude de Babilônia, no tratado Sanhedrin 91a, conta uma cena em que representantes do Egito processam Israel diante de Alexandre pedindo a devolução da prata e do ouro. A defesa, feita por um homem chamado Geviha ben Pesisa, não nega o fato: pede a conta do trabalho de seiscentos mil homens ao longo dos anos da servidão. Os autores da história não tratam a saída dos bens como problema — tratam como crédito.
Segunda: é despojo de guerra. É a leitura que leva o verbo ao pé da letra. Keil e Delitzsch a formulam assim: o Egito havia despojado Israel, e agora Israel leva o despojo do Egito — o troféu de uma vitória que não foi dele, e sim de Deus. Hengstenberg, citado por eles, fala de um povo carregado com os despojos do inimigo. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) chama aquilo de prêmio de vitória e compensação por longa opressão.
Terceira: é dádiva espontânea. Apoia-se no que o próprio livro registra depois. Em Êxodo 12:36 o texto diz que o SENHOR deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, "de maneira que estes deram ao povo o que pedia". O verbo é dar. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) lê a cena por aí: Deus torna generosos os inimigos do seu povo.
Quarta: é espoliação, e ponto. É a leitura dos críticos do texto, antiga e nunca extinta: uma população foi levada a entregar bens a quem já sabia que não voltaria, e o texto chama isso pelo nome que lhe cabe — despojo. Keil e Delitzsch registram, no começo do próprio comentário, que a passagem sempre serviu de argumento a quem quer desacreditar a Bíblia.
O que o texto diz e o que não diz
Vale separar, porque é aqui que quase toda discussão sobre este versículo desliza.
O texto diz: pede-se; entrega-se; e o resultado é chamado de despojo.
O texto não diz: que era empréstimo; que seria devolvido; que era salário; que era pagamento de dívida; que os egípcios sabiam que aquela gente não voltaria; e não diz uma palavra de aprovação ou de reprovação sobre a cena.
Essa última ausência é a mais importante. O Êxodo não comenta. Não justifica, não se desculpa, não elogia. Registra a instrução aqui e o cumprimento em Êxodo 12:35-36, e segue adiante.
Onde este estudo para
Não é possível decidir, e é honesto dizer por quê: as quatro leituras se apoiam em partes diferentes do mesmo texto, e todas essas partes estão realmente lá.
Quem lê como salário tem a favor o trabalho não pago que o livro descreveu nos dois primeiros capítulos, e tem contra o fato de que a conta nunca é feita e de que quem paga não é o devedor.
Quem lê como despojo de guerra tem a favor o verbo, que é exatamente esse, e tem contra a ausência de guerra: ninguém lutou, e os bens vieram de mulheres que deram.
Quem lê como dádiva tem a favor o verbo "deram" de Êxodo 12:36, e tem contra o verbo "despojar" deste versículo, que não é o nome que se dá a um presente.
Quem lê como espoliação tem a favor o mesmo verbo, e tem contra o fato de que o texto descreve pedido e entrega, e não tomada à força.
Duas coisas este estudo não fará. Não dirá que "era o salário deles" como se fosse consenso — não é, e a leitura tem problemas sérios. E não transformará o versículo em denúncia — o texto não descreve roubo, e quem o lê assim está lendo por cima do que está escrito.
Fica o incômodo, e ele é do próprio Êxodo: a vizinha que entregou os objetos de prata não construiu nenhuma cidade de depósito, e o livro nunca diz o que ela tinha a ver com aquilo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
As mulheres de Israel
É a única instrução do capítulo dirigida a elas, e é uma tarefa concreta. O verbo está no feminino, e tudo o que o cerca também.
Elas já tinham aparecido no livro como quem faz a história andar: as parteiras que desobedecem em Êxodo 1:17, a mãe e a irmã do menino no cesto, a filha do faraó. Nos primeiros capítulos do Êxodo as mulheres agem com frequência notável, e este versículo continua a série.
A vizinha egípcia
Não tem nome, não tem fala e não tem opinião registrada. Aparece uma vez, como quem tem objetos de prata e os entrega, e desaparece.
É a única egípcia comum de todo o capítulo, e é sobre ela que recai o efeito do versículo. Vale reter o que o texto não informa: se ela sabia que aquela gente não voltaria, se deu de bom grado, se deu com medo. Em Êxodo 12:33 o livro diz que os egípcios apressavam o povo a sair, "pois diziam: todos nós somos mortos" — o que sugere pressa e pavor, mas isso é a cena da saída, não esta.
Os filhos e as filhas
Aparecem como quem carrega, ou como quem é enfeitado, conforme a leitura. É a última menção do capítulo a pessoas, e é curiosa: o capítulo que começou com um homem sozinho diante de uma sarça termina com crianças carregando prata.
O Egito
Última palavra do capítulo, e é objeto do verbo despojar. O livro fecha esta primeira revelação com o nome do país que será esvaziado.
5. Pontos de Ensino
1. O verbo é "pedir", e isso precisa ficar claro
Não é "tomar emprestado". A tradução por empréstimo criou séculos de discussão sobre um problema que o hebraico não tem. Os comentaristas são unânimes nisso, inclusive os que discordam de tudo o mais.
2. E, ainda assim, o resultado é chamado de despojo
Esta é a dureza do versículo. Pede-se, dá-se — e o texto chama o que aconteceu pelo nome que se dá ao que um exército leva de uma cidade tomada. Nenhuma tradução honesta consegue amaciar isso.
3. O texto não comenta
Nem aprova nem condena. Dá a instrução, registra o cumprimento em Êxodo 12:35-36 e segue. Quem procura no Êxodo uma justificativa para a cena não encontra, e quem procura uma crítica também não.
4. Quem entrega não é quem oprimiu
É a vizinha. Nada no versículo diz que ela decidiu alguma coisa sobre os hebreus. É o dado que nenhuma das leituras consegue eliminar, e é por isso que a passagem continua incomodando.
5. As mulheres é que fazem
Aqui a tarefa é delas, e só delas. Nas outras duas versões da ordem, em Êxodo 11:2 e 12:35, homens também pedem. É diferença real entre passagens do mesmo livro.
6. Aspectos Filosóficos
Quem paga a conta de uma injustiça
O versículo põe uma questão que continua viva e que quase nunca é colocada com esta clareza: quando se repara uma injustiça antiga, de quem se tira o que se entrega?
A resposta simples é: de quem a cometeu. Mas essa resposta só funciona enquanto o culpado está vivo, identificável e com bens. Aqui não está. O trabalho forçado durou gerações; quem o decretou pode ter morrido; e quem entrega os objetos de prata é uma mulher que morava na casa ao lado.
Há três modos de justificar que ela pague, e vale examinar os três, porque cada um tem um custo.
O primeiro é o do benefício. Ela pode não ter decidido nada, mas viveu num país cuja riqueza foi construída, em parte, por aquele trabalho. Quem se beneficia de uma injustiça, mesmo sem tê-la querido, tem alguma coisa que não é inteiramente sua. O custo desse argumento é que ele não tem fundo: se estendido, atinge qualquer pessoa que tenha nascido em qualquer sociedade, e uma responsabilidade que atinge todo mundo deixa de distinguir alguém.
O segundo é o da coletividade. Não é ela que responde: é o Egito, e ela é a porta pela qual o Egito responde, como o contribuinte é a porta pela qual o Estado paga o que deve. O custo aqui é que a analogia exige um Estado que decidiu pagar — e no versículo o Estado não decidiu nada. Quem decide é cada mulher, sozinha, na porta da sua casa.
O terceiro é o da escolha dela. Ninguém a obrigou: ela deu. E, se deu, o problema desaparece, porque uma dádiva não precisa de justificação. O custo é o mais visível de todos: o próprio texto diz que aquele favor foi posto nela, em Êxodo 3:21, e não que nasceu dela. Chamar de escolha livre o que o texto atribui a outro é usar o texto pela metade.
Nenhum dos três fecha, e o versículo não escolhe entre eles. O que se pode dizer com segurança é que a dificuldade é real e não é invenção de leitor moderno: ela existe porque o texto põe, na mesma frase, um pedido feito a uma vizinha e um resultado chamado de despojo.
E vale registrar o que sobra quando os três argumentos são examinados. A reparação, quando finalmente acontece, quase nunca é cobrada de quem devia. Ela chega tarde, e tarde demais o devedor já não existe — restam os que vieram depois, os que estavam por perto, os que apenas moravam ali. É uma dificuldade prática de toda justiça que demora, e o Êxodo a exibe sem discuti-la, no último versículo do seu capítulo mais famoso.
7. Aplicações Práticas
Sobre reparação, com cuidado
Este versículo é usado com frequência nos dois lados de discussões sobre reparação histórica, e é justamente por isso que convém ser preciso sobre o que ele autoriza.
Ele não autoriza ninguém a tomar nada. Não há aqui uma técnica, um direito genérico nem um modelo de conduta: existe uma instrução dada uma vez, numa situação específica, com Deus como autor e sem uma linha de comentário do texto.
O que ele oferece, isso sim, é uma pergunta bem formulada, e ela é útil em qualquer discussão sobre dívidas antigas: quem paga? Não "havia dívida" — sobre isso é fácil concordar —, mas de quem se tira o que se entrega, quando o devedor original já não está. Quem discute reparação sem enfrentar essa pergunta está discutindo a parte fácil.
Sobre pedir
Um detalhe pequeno e verdadeiro: o que aquelas mulheres fizeram foi pedir. Não tomaram, não exigiram e não roubaram. Muita coisa que se supõe impossível de conseguir nunca foi pedida — e a resposta, em Êxodo 12:36, foi que deram.
Vale a ressalva óbvia: no texto, o resultado é atribuído a um favor que Deus pôs nos egípcios, e não à eficácia do pedido. Ler o versículo como técnica de persuasão é ler nele o que ele não diz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os israelitas roubaram os egípcios?
O texto não descreve roubo. Descreve pedido e, em Êxodo 12:36, entrega. O que ele faz é dar ao resultado o nome de despojo, que é palavra de guerra. As duas coisas estão no mesmo versículo, e é essa combinação — e não um furto — que constitui a dificuldade.
Eles pegaram emprestado e não devolveram?
Não. O verbo hebraico significa pedir, e não tomar emprestado; nisso os comentaristas são unânimes. A tradução por "emprestar", que aparece em versões antigas em várias línguas, criou uma acusação que o hebraico não sustenta.
Era o salário deles?
É uma leitura, com defensores antigos e modernos — Barnes, Gill e, muito antes, a tradição rabínica registrada no tratado Sanhedrin. Mas não é consenso, e o texto nunca usa a palavra salário nem faz conta nenhuma. Apresentá-la como o sentido do versículo é escolher um lado e não avisar o leitor.
Por que só as mulheres pedem, e por que pôr os objetos sobre os filhos?
O texto não explica nenhuma das duas coisas. As outras versões da ordem, em Êxodo 11:2 e 12:35, incluem os homens; e quanto aos filhos, cabem duas leituras — enfeite ou transporte —, que o verbo hebraico admite igualmente.
O que aconteceu com esse ouro depois?
Aqui é preciso cuidado. Em Êxodo 32:2-4, Arão manda tirar as arrecadas de ouro das mulheres, dos filhos e das filhas, e delas faz o bezerro. Em Êxodo 35:22, homens e mulheres trazem gargantilhas, arrecadas, anéis e braceletes de ouro para a construção do santuário.
É tentador ligar as duas cenas a este versículo, e a ligação é plausível — o povo saiu do deserto sem ourives e sem minas. Mas o texto nunca diz, em nenhum dos dois lugares, que aquele ouro era o do Egito. A inferência é do leitor.
O Êxodo aprova o que descreve aqui?
O livro não diz nada. Não elogia, não critica e não explica. Esse silêncio é o dado mais importante deste versículo, e qualquer leitura que o preencha está acrescentando.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma ordem, repetida com diferenças
Êxodo 11:2 — "Fala agora aos ouvidos do povo que todo homem peça ao seu vizinho, e toda mulher à sua vizinha, joias de prata e joias de ouro."
Agora os homens também pedem, e as roupas não são mencionadas.
Êxodo 12:35-36 — "Fizeram também os filhos de Israel segundo as palavras de Moisés: pediram aos egípcios joias de prata, e joias de ouro, e vestidos. E o SENHOR deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, de maneira que estes deram ao povo o que pedia. E despojaram os egípcios."
O cumprimento, com as três palavras deste versículo — prata, ouro e roupas — e com os dois verbos que sustentam a discussão: deram e despojaram.
A promessa antiga
Gênesis 15:14 — "…e depois sairão com grande riqueza."
O anúncio feito a Abraão, tratado no estudo daquele versículo. Aqui ele chega à forma de procedimento.
O verbo do despojo, no outro sentido
Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla."
"Livrar", ali, e "despojar", aqui, são a mesma raiz hebraica em formas diferentes. O item 10 trata do assunto.
O destino do ouro, se for o mesmo
Êxodo 32:2-3 — "Respondeu-lhes Arão: Tirai as arrecadas de ouro que vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas têm nas orelhas e trazei-mas. Todo o povo tirou as arrecadas de ouro que tinham nas orelhas, trazendo-as a Arão."
Repare que a instrução de Arão cita exatamente os três grupos deste versículo. O texto não diz que é o ouro do Egito.
A lei que sai desta memória
Deuteronômio 15:14 — "liberalmente o fornecerás do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar; dar-lhe-ás, como o SENHOR, teu Deus, te houver abençoado."
O que Israel recebeu ao sair vira, na lei, o que Israel deve dar a quem sai. O estudo de Êxodo 3:21 trata da ligação.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Cada mulher pedirá à sua vizinha e à que morar em sua casa objetos de prata, objetos de ouro e roupas; vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas, e assim despojarão o Egito.”
Texto hebraico
וְשָׁאֲלָה אִשָּׁה מִשְּׁכֶנְתָּהּ וּמִגָּרַת בֵּיתָהּ כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב וּשְׂמָלֹת וְשַׂמְתֶּם עַל־בְּנֵיכֶם וְעַל־בְּנֹתֵיכֶם וְנִצַּלְתֶּם אֶת־מִצְרָיִם׃
Transliteração
we-sha'alah ishah mi-shekhentah u-mi-garat beitah kelei-khesef u-khelei zahav u-semalot; we-samtem al-beneikhem we-al-benoteikhem, we-nitsaltem et-Mitsrayim.
Análise palavra por palavra
וְשָׁאֲלָה אִשָּׁה — we-sha'alah ishah, "e pedirá uma mulher".
O verbo é sha'al, e o sentido dele é pedir, perguntar, requerer, solicitar. É o verbo de qualquer pedido — o que se usa quando se pede uma informação, um favor, um objeto. É também a raiz do nome de Saul, Sha'ul, "o pedido".
É preciso ser explícito sobre o que ele não é. Sha'al não significa tomar emprestado. O hebraico tem outro verbo para isso, lavah, que aparece em Deuteronômio 28:12 e no Salmo 37:21, e que carrega a ideia de devolução. Ele não está aqui.
Todas as versões antigas leram "pedir": a Septuaginta traz o verbo grego de pedir, e a Vulgata, o latino. A tradução por "emprestar", que entrou em versões posteriores, não tem apoio no texto — e é dela que veio a maior parte da má fama desta passagem.
Repare no sujeito: ishah, "uma mulher", e o verbo no feminino singular. A instrução é dirigida às mulheres.
מִשְּׁכֶנְתָּהּ — mi-shekhentah, "da sua vizinha".
De shakhen, vizinho, aquele que habita perto, da raiz shakhan, habitar, morar, assentar-se. É a mesma raiz de onde vem, mais adiante no Êxodo, o nome do santuário portátil, mishkan — a "morada".
A forma está no feminino e com sufixo: a vizinha dela.
וּמִגָּרַת בֵּיתָהּ — u-mi-garat beitah, "e da que reside na casa dela".
Garat é o feminino de ger, palavra importante do Antigo Testamento: designa quem mora num lugar sem ser dali — o estrangeiro residente, o hóspede, quem vive sob o teto ou a proteção de outro sem ter direito de propriedade ali.
A construção é ambígua, e vale dizer com clareza por quê. "A residente da casa dela" pode significar a mulher estrangeira que mora na casa da hebreia, ou a mulher que mora na casa em que a hebreia está — isto é, a dona egípcia da casa onde ela vive. O hebraico não permite decidir, e as duas leituras são defendidas.
Em qualquer das duas, a informação de fundo é a mesma: as duas mulheres compartilham espaço doméstico.
כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב — kelei-khesef u-khelei zahav, "objetos de prata e objetos de ouro".
Keli é a palavra geral para utensílio, recipiente, instrumento, equipamento — qualquer coisa fabricada e usada. Aparece para vasos, para armas, para alfaias do santuário, para instrumentos musicais. Não é a palavra de joia, e as versões que traduzem "joias de prata" estreitam o sentido.
A ordem prata-ouro é a que o texto traz, e o fundo egípcio dessa ordem está no item 2.
וּשְׂמָלֹת — u-semalot, "e roupas". De simlah, a peça externa de vestir, o manto que se usava por cima e que servia também de coberta à noite.
É palavra que a lei bíblica trata com seriedade: em Êxodo 22:26-27 o manto tomado como penhor deve ser devolvido antes do pôr do sol, "porque é a única coberta dele". Roupa, ali, não é acessório.
וְשַׂמְתֶּם עַל־בְּנֵיכֶם — we-samtem al-beneikhem, "e vocês porão sobre os seus filhos".
Repare na mudança: o verbo sai do feminino singular e vai para o masculino plural. Quem pede é cada mulher; quem põe são vocês, o povo.
O verbo sim significa pôr, colocar, dispor. Não é vestir e não é carregar: é simplesmente pôr sobre. É por isso que as duas leituras do item 3 — enfeite ou transporte — cabem as duas, e nenhuma se impõe pela gramática.
וְנִצַּלְתֶּם אֶת־מִצְרָיִם — we-nitsaltem et-Mitsrayim, "e vocês despojarão o Egito".
Aqui está a palavra que dá o problema, e ela merece o detalhe.
A raiz é natsal. No Hifil — a forma causativa do hebraico —, ela é um dos verbos mais frequentes do Antigo Testamento para livrar, salvar, arrancar do perigo. É a palavra do socorro.
Aqui ela está no Piel, a forma intensiva, e nessa forma o sentido é outro: despojar, saquear, tirar de alguém o que ele tem. A imagem por trás das duas é a mesma — arrancar alguma coisa de alguém —, e o que muda é o ponto de vista: no Hifil, arranca-se a vítima do perigo; no Piel, arrancam-se os bens do dono.
Keil e Delitzsch são explícitos: o verbo não significa furtar às escondidas nem tomar por astúcia; significa despojar. Eles apontam para a Septuaginta, que traduz com um verbo grego de despojar inimigos vencidos, e para a Vulgata, que usa o latino do qual vem o nosso "espoliar".
O detalhe que o capítulo esconde
Esta mesma raiz já apareceu neste capítulo, e no sentido oposto.
Em Êxodo 3:8, Deus diz: "desci para livrá-lo da mão dos egípcios". Esse "livrar" é natsal no Hifil — le-hatsilo, "para arrancá-lo".
Aqui, catorze versículos depois, o mesmo verbo fecha o capítulo no Piel: we-nitsaltem, "e vocês arrancarão de".
Deus arranca Israel da mão do Egito; Israel arranca do Egito os seus bens. A mesma raiz, duas formas, dois objetos — o povo numa ponta e a prata na outra.
Vale a ressalva de método. Natsal é verbo comum, e o Êxodo não faz o comentário. O que se pode afirmar é que as duas ocorrências estão no mesmo capítulo, em posições notáveis — uma na promessa que o abre e outra na frase que o encerra — e que a coincidência é observável. Dizer que foi construído de propósito é hipótese, e este estudo não vai além disso.
11. Conclusão
Do que foi visto, quatro conclusões.
A primeira: o escândalo tradicional desta passagem é falso, e o escândalo verdadeiro é outro. O verbo hebraico é "pedir", não "tomar emprestado", e nisso não há divergência entre os comentaristas — a acusação de que Israel pegou prometendo devolver nasceu de traduções, não do texto. O que resta depois de desfeito o mal-entendido é mais difícil de resolver: pede-se a uma vizinha, ela dá, e o texto chama o resultado de despojo.
A segunda: as quatro leituras se apoiam todas em partes reais do texto, e por isso nenhuma vence. Salário retido, despojo de guerra, dádiva espontânea, espoliação — cada uma tem defensores de peso e cada uma explica bem uma parte da cena e mal as outras. Um estudo que apresentasse uma delas como o sentido do versículo estaria escondendo do leitor que há discussão. Este não escolhe, e a razão é que o Êxodo também não.
A terceira: o silêncio do texto é o dado, e não a falta de um dado. O Êxodo não justifica a cena e não a condena. Registra a instrução, registra o cumprimento em Êxodo 12:35-36 e passa adiante sem uma linha de comentário. Quem preenche esse silêncio — para defender ou para acusar — está acrescentando ao texto, e é honesto que saiba disso.
A quarta: o problema que sobra é o de quem paga. A mulher que entregou os objetos de prata não decretou o trabalho forçado, não construiu cidade de depósito nenhuma e não aparece no livro fazendo mal a ninguém. O versículo a põe na cena, tira dela o que ela tinha e não diz uma palavra sobre o que ela tinha a ver com aquilo. É a dificuldade de toda reparação que chega tarde, e o Êxodo a exibe sem discuti-la — na última frase do capítulo em que Deus disse o seu nome.













