E os filhos de Israel fizeram conforme a palavra de Moisés: pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas.
1. Introdução
Uma ordem dada três vezes ao longo de nove capítulos finalmente é executada, e o texto registra o cumprimento com uma fórmula inesperada: o povo fez conforme a palavra de Moisés, e não conforme a palavra do SENHOR.
O que se pede aos egípcios não é exatamente o que fora mandado pedir: as roupas, que tinham sumido da instrução mais recente, voltam — e voltam no fim da lista, posição que os intérpretes judeus antigos leem como a do item mais valioso.
Sumiram também as crianças, que na primeira versão da ordem carregariam os objetos.
E o outro lado da transação deixou de ser uma pessoa. Onde antes havia "o seu companheiro" e "a sua vizinha", aqui há só o Egito.
2. Contexto Histórico e Cultural
Por que a roupa vem por último
Um leitor moderno lê "objetos de prata, objetos de ouro e roupas" e entende a lista como decrescente: primeiro o caro, depois o barato. No mundo do versículo, essa ordem provavelmente é a inversa.
Tecido, antes da máquina, era caríssimo — e era caro por causa do trabalho, não da matéria-prima. Uma peça de roupa começava no campo ou no rebanho, passava pela lavagem, pela cardagem, pela fiação, pela montagem do tear, pela tecelagem e pelo acabamento. A fiação sozinha consumia a maior parte do tempo: para manter um tecelão ocupado eram necessárias várias fiandeiras trabalhando ao mesmo tempo. Uma única peça boa representava semanas ou meses de trabalho humano acumulado. Um pedaço de prata não representa nada disso — representa só o peso dele.
Por isso a roupa funciona, nos textos do Antigo Oriente Próximo, como aquilo que hoje chamaríamos de reserva de valor. Ela é herdada, é dada em dote, é aceita como pagamento, é penhorada e é roubada.
Onde a Bíblia mostra isso
A própria lei de Israel trata o manto como bem penhorável, o que só faz sentido se ele valer dinheiro. Êxodo 22:26-27 obriga quem tomou o manto do vizinho como garantia a devolvê-lo antes do pôr do sol, porque é com ele que o pobre se cobre para dormir. A garantia é real; o que a lei faz é limitar a execução dela.
Em 2 Reis 5:22-23, o servo Geazi corre atrás do general sírio e pede "um talento de prata e duas mudas de roupa". A roupa aparece ao lado do metal, na mesma frase, como parte do mesmo pedido.
E há o caso que mais se parece com este. Em Josué 7:21, o homem que tomou para si o que estava consagrado confessa exatamente o que pegou: um manto de Sinar, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro. É a mesma tríade — roupa, prata, ouro — e naquele contexto ela é chamada de despojo tomado indevidamente.
Como se registrava que uma ordem tinha sido cumprida
A frase de abertura do versículo pertence a um gênero administrativo antigo. Nas cartas de funcionários ao rei, na Mesopotâmia e no Egito, o relatório de execução tem forma quase fixa: repete-se a ordem recebida e declara-se que ela foi feita. "Conforme meu senhor escreveu, assim fiz."
A narrativa hebraica adotou essa forma. Ela aparece nos dois versículos que emolduram esta passagem — Êxodo 12:28 e 12:50 — e em ambos o cumprimento é medido contra a ordem do SENHOR. Aqui, contra a palavra de um homem. A diferença é do texto, e é dela que o item seguinte trata.
3. Análise Teológica do Versículo
"E os filhos de Israel fizeram conforme a palavra de Moisés"
Duas coisas mudaram nesta frase em relação a tudo o que veio antes, e as duas são verificáveis.
A primeira: quem age agora é o povo inteiro. A ordem tinha sido dada no singular distributivo — "cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira", em Êxodo 11:2. Era uma instrução casa a casa, pessoa a pessoa. Aqui o sujeito é "os filhos de Israel", no plural, como um corpo. O que era uma multidão de pequenos pedidos virou um ato único, e é como ato único que o versículo seguinte vai julgá-lo.
A segunda, e é a mais forte: o cumprimento é medido contra a palavra de Moisés.
Isso soa banal e não é. Êxodo 12:28, sete versículos antes, diz: "como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram". Êxodo 12:50, mais adiante, repete quase igual. A fórmula normal do livro põe Deus na origem e Moisés como via. Aqui Moisés está na origem, e Deus não aparece na frase.
Uma resposta possível é técnica: a ordem específica sobre prata e ouro chegou ao povo pela boca de Moisés, e é a essa fala que o texto se refere. É a leitura da maioria dos comentaristas, e ela é razoável — a Bíblia de Cambridge ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) simplesmente remete a Êxodo 3:21-22 e 11:2 e segue adiante.
Mas há uma leitura que faz a frase trabalhar, e ela é antiga.
O que Or HaChaim viu aqui
Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII, autor de um dos comentários judaicos mais lidos à Torá) lê a frase como uma defesa embutida no texto.
O argumento dele tem duas partes. A primeira: o texto diz "conforme a palavra de Moisés" para deixar claro que o motivo não foi cobiça. Ninguém saiu de casa naquela noite porque quisesse prata. Saiu porque tinha recebido uma ordem.
A segunda parte é mais dura, e é ela que interessa. Or HaChaim supõe que o povo não estava confortável com o que ia fazer — e invoca uma regra jurídica precisa para explicar por que fez assim mesmo. Maimônides, nas Leis dos Fundamentos da Torá, estabelece que um profeta reconhecido pode determinar, em caráter excepcional e temporário, um ato que a lei normalmente proíbe, e que a comunidade deve obedecer — com uma única exceção, a idolatria. Or HaChaim aplica isso aqui: o povo obedeceu apesar do incômodo, porque quem mandava era um profeta credenciado.
Repare no que essa leitura concede. Ela não diz que o ato era correto. Ela diz que o ato precisava de uma autorização excepcional para ser praticado — o que só faz sentido se, sem ela, o ato fosse problemático. Or HaChaim está entre os que leram o gesto como moralmente pesado, e resolveu o peso pelo lado da autoridade, não pelo lado do mérito.
Não é a única leitura possível, e o Êxodo não a confirma. O texto não registra hesitação nenhuma do povo. O que ele registra é uma fórmula de cumprimento que, sozinha entre as fórmulas do capítulo, não menciona Deus.
"pediram aos egípcios"
A tradução em português precisa dizer "aos egípcios" para soar natural, e ao fazer isso perde o que está no hebraico. O texto não diz "dos egípcios", no plural, como pessoas. Diz "do Egito" — o nome do país, no singular.
Isso importa porque desfaz alguma coisa. Em Êxodo 3:22 o outro lado era "a sua vizinha" e "a que morar em sua casa". Em Êxodo 11:2 era "o seu companheiro" e "a sua companheira" — a palavra que a Lei usará depois para o próximo. Em ambos os casos, uma pessoa com rosto, do outro lado de uma porta conhecida.
Aqui, ninguém. O país.
Pode ser simples economia de linguagem: o hebraico usa o nome do país pelos habitantes dele o tempo todo, inclusive neste mesmo capítulo. E pode ser que a mudança acompanhe o que aconteceu — enquanto era instrução, o outro lado era o vizinho; agora que é relatório, o outro lado é a nação que fica para trás. Não é possível decidir. O dado verificável é que o texto tinha três palavras disponíveis para a contraparte, usou uma diferente a cada vez, e a última é a menos pessoal.
"objetos de prata, objetos de ouro e roupas"
A lista tem três itens e uma história.
Em Êxodo 3:22, eram prata, ouro e roupas — e havia mais: os objetos seriam postos "sobre os seus filhos e sobre as suas filhas". Em Êxodo 11:2, eram prata e ouro apenas: sem roupas, sem crianças. Aqui, prata, ouro e roupas — sem crianças.
As roupas voltaram e as crianças não.
Sobre as roupas, os intérpretes judeus antigos têm uma leitura que contraria o instinto moderno. A Mekhilta, comentário rabínico ao Êxodo compilado por volta do século III, pergunta por que o texto se dá ao trabalho de mencionar roupas, e responde com uma regra de leitura: numa lista, o que vem por último é o mais estimado. Se a prata vem antes do ouro, e o ouro antes das roupas, então as roupas eram o que aquelas pessoas mais queriam. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) recolhe a leitura quase palavra por palavra.
A regra é uma convenção dos intérpretes, não um dado da língua, e ela não se aplica a toda lista do Antigo Testamento. Mas a observação material que está por trás dela é sólida, e o item anterior a desenvolve.
Sobre as crianças, o texto simplesmente cala. A imagem de Êxodo 3:22 — meninos e meninas saindo do Egito carregando a prata dos vizinhos — desapareceu, e o Êxodo não diz por quê. Quem quiser explicar terá de inventar a explicação.
Ibn Ezra e a pergunta de quanto cada um pediu
Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) faz ao versículo uma pergunta que ninguém costuma fazer: todos pediram a mesma coisa?
A resposta dele é não. Cada um pediu conforme a sua posição — e ele sustenta isso com uma prova tirada de muito adiante no livro. Quando chegar a hora de construir o santuário, em Êxodo 35:27-28, só os chefes trarão pedras preciosas, especiarias e óleo. Os demais trarão metal e tecido. Para Ibn Ezra, isso revela o que cada camada do povo tinha em casa — e, portanto, o que cada uma conseguiu pedir naquela noite.
É argumento de leitor atento, e é hipótese: o versículo não distingue ninguém. O que a observação de Ibn Ezra faz, sem querer, é apontar para onde esta prata vai acabar indo. Isso é assunto do versículo seguinte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel
Pela primeira vez no episódio da prata e do ouro, eles aparecem como sujeito coletivo. Nas duas ordens anteriores, quem pedia era um homem, uma mulher, cada um por si. Aqui o povo age em bloco, e é assim que o Êxodo vai descrevê-lo daqui em diante: um corpo único que se desloca, acampa, reclama e obedece.
O grupo que faz isso já não é homogêneo, aliás — Êxodo 12:38 dirá que subiu com eles "uma grande mistura de gente". O versículo 35 ainda fala como se fosse só Israel.
Moisés
Ele não está em cena. Não fala, não aparece, não é descrito fazendo nada. O que está aqui é a palavra dele, funcionando como padrão contra o qual se mede se o povo obedeceu.
O Egito
Não os egípcios — o Egito. A contraparte da transação é nomeada pelo nome do país, e é esse nome que aparecerá de novo, duas vezes, no versículo seguinte.
Convém ter presente quem são essas pessoas nesta altura da noite. São os mesmos que acabam de enterrar os primogênitos, segundo Êxodo 12:30, e os mesmos que, em Êxodo 12:33, estão empurrando Israel para fora dizendo "estamos todos mortos". O pedido de prata acontece dentro dessa janela — entre o luto e a expulsão.
A prata, o ouro e as roupas
Os objetos de metal não são moedas: a cunhagem ainda levaria séculos para chegar ao Oriente Próximo. São peças — vasos, taças, joias, aplicações — cujo valor se media pesando.
Esse metal ainda vai reaparecer no livro, e em duas cenas opostas — o que é assunto do versículo seguinte.
O que aconteceu antes
Três momentos prepararam este. Em Gênesis 15:14, na visão noturna de Abraão, anunciou-se que os descendentes dele sairiam da servidão "com grande riqueza". Em Êxodo 3:21-22, junto à sarça, a promessa virou instrução, com o verbo do despojo no fim. Em Êxodo 11:2, na véspera da última praga, a instrução foi repassada ao povo — dessa vez sem a palavra "despojar".
Este versículo é o quarto momento: a execução. Levou nove capítulos.
5. Pontos de Ensino
Obediência não é o mesmo que concordância
O texto registra que o povo fez o que Moisés mandou. Não registra que o povo achava certo. São coisas diferentes, e a leitura que Or HaChaim faz do versículo depende exatamente dessa diferença — ele supõe um povo que obedece contrariado.
Isso corta dois caminhos fáceis. Não dá para transformar a cena em prova de que aquilo era moralmente limpo, porque o texto não diz que era. E também não dá para transformá-la em denúncia de um povo ganancioso, porque o texto atribui a iniciativa a uma ordem recebida.
O cumprimento pode ser diferente da ordem
Três versões da mesma instrução, três listas diferentes de itens. As roupas entram, saem e voltam. As crianças entram e somem. A contraparte muda de vizinha para companheiro e depois para país.
Um texto que quisesse apenas confirmar que tudo correu como planejado teria copiado a lista. Este não copiou. Quem lê com atenção encontra variação onde esperava repetição — e a variação é o que há de informação nova no versículo.
O valor das coisas não é óbvio
Prata e ouro parecem, para nós, obviamente mais valiosos do que roupa. Para quem escreveu e para quem primeiro leu, provavelmente não era assim, e a leitura antiga inverte a lista sem achar que está sendo original.
A lição que sai disso é de método: o que parece evidente no texto costuma ser o que trazemos de fora dele. A roupa custava trabalho humano acumulado; o metal, não. A hierarquia de valores de uma sociedade não se deduz da nossa.
O texto deixa o incômodo de pé
A cena tem todos os elementos de um problema moral: uma população em luto, um povo que vai embora e não volta, bens que mudam de mão. E o Êxodo não a julga. Não absolve, não condena, não faz conta.
Um leitor que exija do texto um veredito vai ter de fornecê-lo por conta própria — e é honesto saber que está fazendo isso.
6. Aspectos Filosóficos
Quando "porque me mandaram" é uma razão de verdade?
O versículo diz que o povo agiu conforme a palavra de Moisés. Se você perguntasse a um daqueles homens por que ele estava batendo na porta do vizinho àquela hora, a resposta seria: porque Moisés mandou.
Essa resposta nos deixa desconfortáveis, e a desconfiança tem motivo histórico: o século XX ouviu "eu só cumpri ordens" vezes demais. Mas a desconfiança, levada até o fim, produz um absurdo. Ninguém decide tudo sozinho. Você toma remédio porque o médico receitou, paga o imposto na alíquota que o contador calculou, atravessa a ponte que o engenheiro assinou. Em nenhum desses casos você refez a conta.
A pergunta filosófica, então, não é se obedecer é bom ou ruim. É outra: em que condições a palavra de outra pessoa passa a valer como razão para você agir?
A resposta de Joseph Raz
Joseph Raz (1939-2022, filósofo do direito israelense-britânico) dedicou a isso boa parte da obra, e a formulação mais conhecida está em The Morality of Freedom ("A moralidade da liberdade", 1986).
Raz começa recusando a ideia de que obedecer seja abdicar. Para ele, uma ordem legítima não pede que você pare de pensar — ela substitui certas razões que você teria, e o faz por um motivo que você mesmo pode reconhecer.
Ele chama isso de concepção da autoridade como serviço, e ela tem duas partes.
A primeira é o que Raz chama de razão excludente. Quando uma autoridade legítima manda alguma coisa, a ordem não entra na sua balança como mais um peso, a ser somado aos outros. Ela tira certos pesos da balança. A ordem não compete com as suas razões: ocupa o lugar delas.
A segunda parte é a condição que torna isso aceitável, e Raz a enuncia como uma tese de justificação normal: a autoridade é legítima quando, seguindo-a, você acerta mais do que acertaria decidindo sozinho. Não é o poder que a legitima, nem o cargo, nem o medo. É o desempenho. O médico tem autoridade sobre a dosagem porque, seguindo-o, você erra menos do que estimando por conta própria.
O que isso ilumina no versículo
Ilumina, primeiro, por que o texto se dá ao trabalho de dizer "conforme a palavra de Moisés" em vez de simplesmente contar o que aconteceu. A fórmula registra a razão do ato, e não só o ato — e a razão é a palavra de alguém.
Ilumina, segundo, a construção dos dez capítulos anteriores. Moisés anunciou coisas e elas aconteceram, uma depois da outra. Na linguagem de Raz, isso é precisamente o histórico que sustenta a tese de justificação normal: quem seguiu a palavra dele até aqui acertou. O povo que obedece em Êxodo 12:35 tem um registro atrás de si.
E ilumina a leitura de Or HaChaim. A regra do profeta que pode determinar um ato excepcional, mas nunca idolatria, é um limite de competência — o profeta tem autoridade sobre isto e não sobre aquilo. É a mesma estrutura que Raz descreve, montada seiscentos anos antes com outro vocabulário.
Onde a comparação falha
Falha num ponto que não é pequeno. Raz escreve para o caso em que a autoridade serve ao governado: ela é legítima porque ajuda você a agir melhor pelas suas próprias razões. No versículo, quem recebe a ordem não é o único interessado no resultado — há uma promessa antiga a cumprir, e há o Egito do outro lado da porta, que não foi consultado sobre nada.
O que sobra da aproximação, e é bastante: a diferença entre obedecer e abdicar não está no ato, está nas condições. O Êxodo registra as condições — dez capítulos delas — e depois registra o ato. Nessa ordem.
7. Aplicações Práticas
Quando você faz o que mandaram e não está convencido
Essa situação é comum e quase nunca é discutida com honestidade. O médico prescreve um tratamento que você acha exagerado. O advogado manda não responder à mensagem. O chefe determina um procedimento que parece perda de tempo. Você cumpre, incomodado.
A leitura de Or HaChaim descreve exatamente isso: um povo que obedeceu sem estar convencido. E o que ela sugere é útil: o incômodo não é sinal de que você errou ao obedecer, nem de que acertou. É só o que acontece quando você segue o juízo de outra pessoa.
O que dá para fazer com ele é decidir de antemão duas coisas. Primeira: se aquela pessoa tem competência sobre aquele assunto específico — e não sobre assuntos em geral. Segunda: onde está o limite que você não atravessa, seja quem for que mande. Or HaChaim marcou o dele: idolatria. Ter o seu marcado antes da hora evita ter de improvisá-lo no meio da pressão.
O que você faz não diz tudo sobre por que você fez
Visto de fora, o gesto daquela noite é indistinguível de cobiça: pessoas pedindo prata a vizinhos em luto. O texto acrescenta o motivo, e o motivo muda o que a cena é.
Isso serve para dois lados. Serve para você julgar os outros com mais reserva, porque você quase nunca tem o motivo — só tem o gesto. E serve para você julgar a si mesmo com mais rigor, porque no seu caso você tem o motivo, e sabe quando ele é o que você diz que é.
A leitura antiga põe as roupas acima do ouro, e a razão é que a roupa concentrava trabalho humano. É um critério de valor diferente do nosso, e não é um critério tolo.
Vale aplicá-lo ao seu próprio inventário. O que você tem que representa tempo de vida de alguém — seu ou de outra pessoa — e o que você tem que representa apenas um preço. A lista costuma sair diferente da que você esperava.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o texto queria defender o povo, por que não disse simplesmente que Deus mandou?
Seria a defesa mais forte disponível, e o Êxodo a usa em outros lugares — nos dois versículos que emolduram este. Aqui não usou.
Há duas explicações plausíveis e nenhuma prova. Uma: o texto está sendo preciso, porque a instrução chegou ao povo pela boca de Moisés e é a ela que o cumprimento se refere. Outra: o texto está registrando que a ordem, na cadeia como ela de fato se deu, tinha um homem no último elo — e deixando o leitor com isso. Não é possível decidir.
Os egípcios sabiam que Israel não ia voltar?
O Êxodo não responde, e a resposta muda tudo na avaliação moral da cena.
O que o capítulo registra a favor de que sabiam: Faraó acabara de mandar o povo embora "do meio do meu povo", em Êxodo 12:31, e a população estava empurrando Israel para fora com pressa, segundo Êxodo 12:33. Quem empurra alguém para fora não espera visita de volta.
O que se registra do outro lado é mais fraco, e vem das traduções antigas: foi o grego e, depois dele, o latim e o inglês que introduziram a ideia de empréstimo — sem apoio no hebraico. A origem dessa cadeia foi tratada no estudo de Êxodo 11:2.
Por que as crianças sumiram da lista?
Em Êxodo 3:22, os objetos seriam postos sobre os filhos e as filhas. Aqui não há ninguém carregando nada.
O texto não diz. Quem quiser explicar tem de escolher entre possibilidades igualmente sem apoio: que o detalhe era decorativo e o relatório o dispensou; que a saída às pressas tornou o arranjo impraticável; que as duas passagens vêm de tradições diferentes sobre a mesma cena. Nenhuma delas se verifica no Êxodo.
Um relato precisa dizer o que pensa da cena que conta?
O Êxodo não diz. Não escreve que foi justo, não escreve que foi injusto, não compara o valor do que saiu com o valor do trabalho que entrou.
Essa recusa é constante no livro e não é distração. Textos antigos sabiam moralizar quando queriam — os ensinamentos egípcios e a literatura de sabedoria fazem isso o tempo todo. A narrativa hebraica escolhe o contrário com frequência, e deixa o julgamento com quem lê. Aqui a escolha custa caro, porque o assunto é espinhoso; e é justamente por isso que ela merece ser vista como escolha.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem original, com as roupas e as crianças
Êxodo 3:22 — "Cada mulher pedirá à sua vizinha e à que morar em sua casa objetos de prata, objetos de ouro e roupas; vocês os porão sobre os seus filhos e sobre as suas filhas, e assim despojarão o Egito."
A comparação item a item é o que revela o que mudou: aqui há roupas e crianças, e há o verbo "despojar". Em Êxodo 12:35 há roupas, não há crianças e não há o verbo.
A ordem repassada na véspera, sem roupas
Êxodo 11:2 — "Fale agora aos ouvidos do povo: que cada homem peça ao seu companheiro, e cada mulher à sua companheira, objetos de prata e objetos de ouro."
É esta a fala a que "conforme a palavra de Moisés" se refere, segundo Rashi. E é a única das três listas em que as roupas não aparecem.
A fórmula normal de cumprimento no mesmo capítulo
Êxodo 12:28 — "E os filhos de Israel foram e fizeram; como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram."
Êxodo 12:50 — "E todos os filhos de Israel fizeram como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão; assim fizeram."
Duas vezes no mesmo capítulo a medida é a ordem do SENHOR. Em Êxodo 12:35, a medida é a palavra de Moisés.
A promessa antiga que está sendo cumprida
Gênesis 15:14 — "Mas também a nação a quem servirão como escravos, eu a julgarei; e depois disso sairão com grande riqueza."
A frase da visão de Abraão fala em riqueza, não em prata pedida a vizinhos. O modo como a promessa se cumpre é escolha do Êxodo, e foi discutido no estudo daquele versículo.
A mesma tríade, com outro nome
Josué 7:21 — "Vi entre os despojos um belo manto de Sinar, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro de cinquenta siclos; eu os cobicei e os tomei."
Manto, prata, ouro — na mesma ordem, e com o motivo declarado: cobiça. É o retrato invertido de Êxodo 12:35, onde o motivo declarado é uma ordem recebida.
O manto como bem penhorável na lei
Êxodo 22:26 — "Se você tomar em penhor a roupa do seu próximo, devolva-a a ele antes do pôr do sol."
A lei trata a roupa como garantia real de dívida — sinal de que ela valia dinheiro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E os filhos de Israel fizeram conforme a palavra de Moisés: pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas.
Texto hebraico
וּבְנֵי־יִשְׂרָאֵל עָשׂוּ כִּדְבַר מֹשֶׁה וַיִּשְׁאֲלוּ מִמִּצְרַיִם כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב וּשְׂמָלֹת׃
Transliteração
u-venei-Yisrael asu ki-devar Mosheh; wa-yish'alu mi-Mitsrayim keley-khesef u-kheley zahav u-semalot.
Análise palavra por palavra
וּבְנֵי־יִשְׂרָאֵל — u-venei-Yisrael, "e os filhos de Israel".
O sujeito vem antes do verbo, e no hebraico narrativo isso não é o normal. A sequência corrente é verbo-sujeito, e é ela que aparece nos versículos vizinhos. Quando o sujeito é posto na frente, a frase em geral deixa de empurrar a narrativa e passa a informar alguma coisa em paralelo — algo que já estava acontecendo, ou que acontece ao lado do fio principal.
עָשׂוּ — asu, "fizeram".
Perfeito, terceira pessoa do plural, do verbo asah, "fazer". É o verbo mais comum da língua, e no Êxodo ele carrega peso próprio: é com ele que o capítulo fecha os relatórios de obediência nos versículos 28 e 50.
כִּדְבַר מֹשֶׁה — ki-devar Mosheh, "conforme a palavra de Moisés".
A preposição ke- significa "como", "conforme", e aqui mede um ato contra um padrão. Devar é a forma ligada de davar, palavra de espectro largo: palavra dita, assunto, coisa, ordem. Ki-devar mais um nome é fórmula fixa do hebraico administrativo e narrativo — "segundo a palavra de".
Em Êxodo 8:13 e 8:31 a mesma fórmula aparece com outro genitivo: ki-devar Mosheh, quando Deus faz conforme o pedido de Moisés. O que é próprio deste versículo é que a fórmula mede o povo, e o mede contra um homem.
וַיִּשְׁאֲלוּ — wa-yish'alu, "e pediram".
Forma narrativa encadeada, terceira pessoa do plural, do verbo sha'al, no tronco simples (Qal, a forma básica do verbo hebraico).
É exatamente a mesma forma que estava na ordem de Êxodo 11:2 — mesmo verbo, mesmo tronco, mesmo número —, com uma diferença de modo: lá era um pedido ("que peçam"), aqui é um relato ("pediram"). O sentido do verbo e a história das traduções que fizeram dele "tomar emprestado" estão tratados no estudo de Êxodo 11:2.
מִמִּצְרַיִם — mi-Mitsrayim, "do Egito".
Preposição min ("de") mais o nome próprio do país. Não é o plural "dos egípcios", que em hebraico seria outra construção.
O que decide é a escolha: nas duas versões anteriores da ordem, a contraparte era designada por palavras de pessoa. Nesta, pelo nome do território. É a mesma palavra que reaparecerá duas vezes no versículo 36, inclusive como objeto do verbo "despojar".
כְּלֵי־כֶסֶף וּכְלֵי זָהָב — keley-khesef u-kheley zahav, "objetos de prata e objetos de ouro".
Keli (plural kelim, aqui na forma ligada keley) é uma das palavras mais elásticas do hebraico bíblico. Cobre vaso, utensílio, ferramenta, arma, instrumento musical, bagagem. Em Gênesis 24:53 são keley khesef e keley zahav que o servo de Abraão entrega a Rebeca; em Números 31:50, são keley zahav que os soldados trazem como oferta.
Kesef é prata, e por extensão dinheiro; zahav é ouro. A ordem prata-antes-de-ouro é a corrente na Bíblia hebraica e não indica preço relativo.
וּשְׂמָלֹת — u-semalot, "e roupas".
Plural de simlah. A palavra designa a peça exterior de vestuário: o manto retangular que se veste por cima, serve de capa durante o dia e de coberta à noite.
É a simlah que a lei manda devolver ao devedor antes do anoitecer, em Êxodo 22:26 e em Deuteronômio 24:13, precisamente porque é com ela que o pobre dorme. É a simlah que José dá aos irmãos em Gênesis 45:22, e em quantidade desigual, como presente graduado. E é a simlah que aparece entre os despojos de Josué 7:21.
A palavra falta em Êxodo 11:2 e está em Êxodo 3:22 e aqui. Na leitura da Mekhilta, a posição final dela na lista é o que indica que era o item mais estimado.
11. Conclusão
O versículo obriga a três conclusões, e nenhuma delas é confortável.
A primeira: o Êxodo registra a cadeia de comando como ela de fato se deu, e não como conviria que fosse. Havia uma fórmula pronta à mão, usada duas vezes no mesmo capítulo, que teria posto Deus na origem do ato. O texto não a usou aqui. Seja qual for o motivo — e não é possível decidir qual foi —, o resultado é que o único nome na origem do pedido é o de um homem.
A segunda: a execução de uma ordem não é a cópia dela. Três versões da mesma instrução produziram três listas diferentes, e o que varia entre elas — as roupas, as crianças, o nome da contraparte — carrega mais informação do que aquilo que se repete. Um relato que quisesse apenas confirmar o cumprimento teria repetido; este variou, e a variação é onde o leitor atento encontra o versículo.
A terceira: o incômodo da cena é antigo, e quem mais o sentiu foram os defensores dela. Or HaChaim precisou de uma regra de exceção para explicar o gesto — a regra que autoriza um profeta a determinar, uma vez, o que a lei proíbe. Quem recorre a uma exceção está admitindo que existe uma regra sendo excepcionada. A defesa mais cuidadosa do ato é, ao mesmo tempo, o reconhecimento mais claro de que o ato pedia defesa.
O que o texto faz, e é a sua marca, é não decidir. Ele registra o motivo — uma ordem —, registra o objeto — prata, ouro, roupas —, registra a contraparte — o Egito — e passa ao versículo seguinte sem comentar nada. O veredito, se alguém quiser um, terá de ser assinado por quem lê.













