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Êxodo 12:50

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✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 24 acessos
E todos os filhos de Israel fizeram como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão; assim fizeram.
Acampamento ao amanhecer com famílias arrumando cargas em silêncio, tendas baixas e a faixa de deserto ao fundo.

Estudo


E todos os filhos de Israel fizeram como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão; assim fizeram.

1. Introdução

O versículo repete, quase palavra por palavra, o que Êxodo 12:28 já tinha dito vinte e dois versículos antes. E cria um problema de tempo: o estatuto que ele diz ter sido cumprido — o dos versículos 43 a 49 — foi dado depois de a Páscoa ter sido comida e depois de o povo ter saído do Egito.

Três respostas atravessam a história da interpretação. Um midrash antigo diz que eles correram e circuncidaram todo mundo naquela mesma hora. Um comentarista medieval diz que a frase não pode ser literal e descreve o que o povo passou a fazer todos os anos. A leitura crítica moderna diz que as palavras não cabem onde estão.

2. Contexto Histórico e Cultural

A Bíblia hebraica tem um modo próprio de registrar obediência, e ele não é narrar o que foi feito: é repetir o que foi mandado.

A fórmula

O padrão aparece cedo e é reconhecível. Deus ordena alguma coisa, e o texto, em vez de descrever a execução em detalhe, fecha com uma frase do tipo "como o SENHOR ordenou, assim fez". Gênesis 6:22 é o exemplo mais antigo e o mais próximo deste versículo: "Assim fez Noé; tudo o que Deus lhe ordenou, assim ele fez." A mesma fórmula, com a mesma duplicação do verbo, no fim da instrução sobre a arca.

No próprio livro do Êxodo, ela já tinha aparecido em 7:6, sobre Moisés e Arão: "fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram". E aparecerá, mais adiante, com uma densidade que chama atenção: nos capítulos 39 e 40, que descrevem a montagem do santuário, a fórmula fecha praticamente cada etapa da obra, dezenas de vezes em duas páginas — "como o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram", repetido peça por peça.

Para que serve repetir

A função é de relatório de conformidade. O texto não pede ao leitor que confie na palavra "obedeceram": ele devolve a ordem inteira e diz que foi assim. Quem lê pode conferir, porque a instrução está escrita algumas linhas acima.

Isso tem uma consequência que muda o modo de ler todo o Pentateuco: onde a execução não repete a ordem, o leitor deve notar. Se um relatório omite um item, troca a sequência ou acrescenta algo, o texto está dizendo alguma coisa. O caso mais discutido do próprio Êxodo 12 está no versículo 21, onde Moisés transmite aos anciãos uma versão resumida da instrução que recebeu, e as duas listas não coincidem.

O gênero por trás

O formato não é exclusivo de Israel. Relatos de obra e de campanha do Antigo Oriente Próximo fecham com fórmulas equivalentes: o rei declara que fez conforme o deus lhe ordenou, e a conformidade é o ponto do documento, não a descrição do trabalho. O interesse de um texto desses não é informar o que aconteceu — é registrar que o que aconteceu correspondeu ao que fora determinado.

A diferença, no caso bíblico, é quem executa. Nas inscrições reais, quem cumpre a ordem divina é o rei, sozinho, e o documento existe para dizer isso dele. Aqui o sujeito é "todos os filhos de Israel", sem nome nenhum. O relatório de conformidade mais comum do mundo antigo é escrito no singular, sobre um homem poderoso; este está no plural e não tem protagonista.

O que a fórmula não registra

Nenhuma dessas frases diz que quem obedeceu entendeu, concordou ou sentiu alguma coisa. Elas registram correspondência entre ordem e ato, e param. Essa secura é característica do gênero e não deve ser lida como frieza: um relatório de conformidade não é o lugar de estado de espírito.

3. Análise Teológica do Versículo

"E todos os filhos de Israel fizeram"

Fizeram o quê? A resposta natural é: o que acabou de ser mandado — o estatuto dos versículos 43 a 49, sobre quem pode comer a Páscoa e sobre circuncidar os homens da casa do estrangeiro que quiser entrar.

E aí está a dificuldade. A Páscoa já tinha sido comida, vinte e dois versículos antes. O povo já tinha saído do Egito, já estava em Sucote, já tinha andado. O estatuto foi dado depois de tudo isso. Dizer que eles o cumpriram "assim" é dizer que cumpriram, naquele momento, uma regra sobre uma refeição que já havia acontecido.

Primeira leitura: eles cumpriram sim, e na hora

O midrash de Êxodo Rabbá, em 19:5, encara o problema de frente e resolve com uma cena. Rabi Shimon ben Halafta conta que, quando Israel viu que o incircunciso ficava de fora, todos se levantaram depressa e circuncidaram os seus escravos, os seus filhos e todos os que sairiam com eles — e a prova disso, diz o texto, é justamente este versículo: "os filhos de Israel foram e fizeram".

O midrash acrescenta uma parábola. Um rei preparou um banquete para todos os que amava e disse: quem não trouxer o emblema não entra aqui. Assim Deus preparou a refeição de carne assada, pães sem fermento e ervas amargas, e disse: se o selo de Abraão não estiver na carne de vocês, não provarão dela.

E vai mais longe, num trecho duro que costuma ser omitido. Segundo outros rabinos do mesmo texto, Israel não quis se circuncidar no Egito; ao contrário, todos tinham abandonado a prática ali, com exceção da tribo de Levi. Deus quis redimi-los e eles não tinham mérito; mandou Moisés circuncidá-los, e muitos não aceitaram. Nessa versão, o "assim fizeram" do versículo 50 não é a confirmação de uma obediência contínua — é o registro do momento em que um povo que havia largado a marca a retomou às pressas, na véspera de partir.

É uma leitura tardia e narrativa, sem apoio em nenhum outro texto bíblico. E ela tem o mérito de explicar exatamente o que incomoda no versículo: por que ele fala de cumprimento logo depois de uma ordem que, em tese, ainda não podia ser cumprida.

Segunda leitura: a frase não é sobre aquele dia

Chizkuni — comentarista francês do século XIII — observa que "todos os filhos de Israel fizeram" não pode ser tomado ao pé da letra: crianças de colo e recém-nascidos não celebraram Páscoa nenhuma. O sentido, para ele, é que o povo passou a celebrar o rito todos os anos, dali em diante. Ele compara com outro uso da mesma construção no próprio livro, em que "fizeram o mesmo" claramente não descreve um ato idêntico.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) chegam a resultado parecido por outro caminho: o versículo encerra as instruções sobre a Páscoa informando que os israelitas as cumpriram — nos tempos posteriores. O texto que eles apontam como cumprimento é Números 9:5, a primeira Páscoa celebrada no deserto, um ano depois.

Essa leitura resolve a cronologia e paga um preço: transforma um verbo no passado, aparentemente ligado à cena, num resumo do futuro.

Terceira leitura: as palavras não cabem aqui

A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) diz sem rodeios que a frase parece deslocada onde está, porque a Páscoa já havia sido comida e a instrução dos versículos 43 a 49 não poderia ser executada naquele momento. A observação não propõe solução; constata a dificuldade.

Para quem trabalha com a hipótese de que o Pentateuco reúne materiais de origens diferentes, a explicação é de composição: um bloco legal foi inserido no meio de uma narrativa, e a fórmula de execução que o fecha ficou fora de lugar. Essa é uma leitura e não uma demonstração — o texto que temos é o que temos, e a hipótese explica o incômodo sem poder ser verificada.

"como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão"

Os dois nomes juntos. Arão não é figurante no capítulo: ele é co-destinatário da fala inicial, em Êxodo 12:1, e da fala do estatuto, no versículo 43. O bloco começa e termina com o par.

A fórmula nomeia o intermediário, e não quem executa. Quem ordenou foi o SENHOR, a quem ele ordenou foram Moisés e Arão, e quem fez foram os filhos de Israel — três posições numa frase de doze palavras. O povo cumpre uma ordem que não recebeu diretamente, o que é a descrição exata de como toda essa legislação chega a ele.

"assim fizeram"

O verbo aparece duas vezes na mesma frase, abrindo e fechando. Não é descuido nem é ênfase decorativa: é a moldura de conformidade descrita no item 2, e ela existe para que o leitor possa comparar o segundo "fizeram" com a ordem que está escrita acima.

O que essas duas palavras não trazem é qualquer fala. Ninguém pergunta nada, ninguém discute, ninguém comenta. O contraste dentro do próprio capítulo é nítido: nos versículos 26 e 27 o rito existe justamente para gerar uma pergunta e uma resposta, e o povo se inclina e adora. Aqui não há nem pergunta, nem resposta, nem gesto. Há execução.

Não se pode atribuir a isso um significado psicológico — o texto não descreve estados de ânimo em nenhum dos dois casos. O que se pode observar é que o capítulo termina do modo mais seco possível, e que esse tipo de final é o que a fórmula de conformidade sempre produz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés e Arão

O par fecha o capítulo como o abriu. Em Êxodo 12:1 a fala é dirigida aos dois; no versículo 43, a fala do estatuto também; e aqui, no relatório de cumprimento, os dois nomes reaparecem na mesma ordem. É o único capítulo longo do livro em que Arão está presente do começo ao fim sem falar uma palavra.

Os filhos de Israel

O sujeito é coletivo e anônimo. Nenhum indivíduo é nomeado, nenhum grupo é distinguido, ninguém é apontado como exemplo. Nos relatos de conformidade do mundo antigo, quem cumpre a ordem do deus costuma ser o rei, e o documento serve para dizer isso dele. Aqui não há ninguém a elogiar.

Onde eles estavam

Pela sequência do próprio capítulo, já não estavam no Egito. O versículo 37 os coloca em marcha de Ramessés para Sucote, e os versículos 40 e 41 registram a saída como fato consumado. O estatuto dos versículos 43 a 49 e este relatório de cumprimento acontecem, portanto, depois da partida — e é essa posição que cria a dificuldade discutida no item 3.

A primeira Páscoa que o texto descreve depois desta

Números 9:5 conta que celebraram a Páscoa no primeiro mês, no dia catorze, ao entardecer, no deserto do Sinai, "conforme tudo o que o SENHOR ordenou a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel" — a mesma fórmula, um ano depois. É esse versículo que Keil e Delitzsch apontam como o cumprimento efetivo do que Êxodo 12:50 antecipa.

Gilgal

Josué 5 conta que, ao entrar na terra, Israel foi circuncidado outra vez, porque os nascidos no deserto não tinham sido — e só depois disso celebrou a Páscoa. A sequência é a mesma deste bloco, na ordem inversa: lá a circuncisão precede a festa; aqui a regra sobre circuncisão vem depois dela.

5. Pontos de Ensino

Obediência registrada pela comparação, e não pela palavra

O texto não diz "o povo foi obediente". Ele devolve a ordem e diz que foi assim. Essa é uma diferença de método com consequência: a primeira forma pede que se acredite na palavra do texto; a segunda entrega ao leitor os dois termos e deixa que ele confira. Boa parte do que a Bíblia afirma sobre comportamento funciona desse jeito.

Onde o relatório não repete a ordem, há algo a ver

A regra vale ao contrário e é a parte mais útil do padrão. Quando um texto do Pentateuco descreve a execução de uma ordem e muda alguma coisa — omite um item, inverte a sequência, acrescenta uma palavra —, essa diferença raramente é acidental. Saber que a fórmula existe é o que permite notar quando ela é quebrada.

Um capítulo que termina sem ninguém falar

Nos versículos 26 e 27, o rito foi desenhado em torno de uma criança perguntando. No 50, ninguém pergunta nada. As duas coisas estão no mesmo capítulo e não se contradizem: uma descreve a liturgia que se transmite, a outra registra a execução de uma regra. Confundir os dois registros é o que produz leituras sentimentais de textos administrativos.

A dificuldade não foi inventada pela crítica moderna

O problema de tempo que a Cambridge Bible aponta no século XIX é o mesmo que o midrash de Êxodo Rabbá tinha enfrentado mais de mil anos antes — e as duas tradições responderam de modos incompatíveis. Quem apresenta a crítica histórica como uma invenção recente que "cria problemas no texto" desconhece que os problemas estavam catalogados, com solução própria, muito antes.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo registra um fazer e não registra nenhum entender. Isso levanta uma questão que a filosofia moderna tratou pouco e mal: existe um tipo de saber que não se deixa enunciar, e que só existe enquanto alguém está fazendo?

Dois tipos de conhecimento

Michael Oakeshott (filósofo inglês, 1901-1990) distinguiu, no ensaio Racionalismo na Política, de 1947, duas espécies de conhecimento que toda atividade humana envolve.

O primeiro ele chama de conhecimento técnico: o que pode ser formulado em regras, escrito num manual e aprendido por leitura. A receita de bolo, o código de trânsito, o estatuto dos versículos 43 a 49. É o conhecimento que se pode transmitir a alguém que nunca viu a coisa ser feita.

O segundo ele chama de conhecimento prático, e a definição é a parte interessante: ele existe apenas no exercício e não pode ser formulado em regras. Não é que seja difícil de escrever — é que não há como. Quem cozinha sabe alguma coisa que não está na receita, e essa coisa não se transmite por escrito; transmite-se por convívio, por imitação, por participação continuada numa prática.

A tese polêmica de Oakeshott é que o racionalismo moderno — a confiança de que tudo o que importa pode ser posto em forma de método e aplicado de fora — nasce de ignorar o segundo tipo. Ele considerava esse um erro com consequências políticas graves, porque conduz à ideia de que uma sociedade pode ser reorganizada a partir de um plano, como quem segue um manual.

O versículo do ponto de vista dessa distinção

Êxodo 12 contém as duas coisas, e as separa com uma nitidez que quase parece propositada. Os versículos 43 a 49 são conhecimento técnico puro: regras enunciáveis, verificáveis, aplicáveis por quem nunca viu uma Páscoa. O versículo 50 registra o outro lado — o momento em que essas regras deixam de estar escritas e passam a estar sendo feitas por um povo inteiro.

E há um detalhe do texto que se encaixa nisso melhor do que seria de esperar. A leitura de Chizkuni, segundo a qual "assim fizeram" descreve o que o povo passou a fazer todos os anos, transforma o versículo exatamente no registro de uma prática — não de um ato único, mas de um saber transmitido por repetição ao longo de gerações. É esse o tipo de conhecimento que Oakeshott diz não caber em manual.

A objeção séria

A distinção tem um perigo conhecido. Dizer que um saber não se deixa formular é um modo cômodo de blindá-lo de crítica: quem discorda passa a ser alguém que "não participa da prática", e a discussão acaba. Oakeshott foi acusado disso, e a acusação não é sem fundamento — a defesa da tradição contra o método pode virar recusa a examinar a tradição.

O próprio texto, aliás, não dá razão a uma versão extrema dessa tese. Ele escreveu as regras. O estatuto dos versículos 43 a 49 é um documento, com condições verificáveis e sem apelo a nenhum saber tácito — e é justamente por estar escrito que ele pode ser cobrado, discutido e, como se viu, disputado por dois mil anos de comentário.

O que sobra

Sobra a observação mais modesta e mais firme: uma regra escrita não se executa sozinha, e o que acontece entre o texto e o ato não está no texto. Êxodo 12:50 é a linha que marca essa passagem, e ele a marca sem descrevê-la — porque não há o que descrever nessa forma.

7. Aplicações Práticas

Registrar o que foi feito comparando com o que foi pedido

A forma deste versículo é a de um relatório de conformidade, e ela continua sendo o melhor modo de prestar contas de qualquer coisa: repetir a instrução e dizer o que foi cumprido dela, item por item, em vez de declarar que tudo correu bem. A primeira forma pode ser conferida por quem lê; a segunda pede confiança.

A diferença entre o manual e a prática

Regras escritas não transmitem o que se aprende fazendo, e nenhuma quantidade de detalhe no manual resolve isso. Quem treina alguém sabe que há um ponto em que só resta executar junto. Reconhecer esse limite evita dois erros opostos: achar que basta entregar o documento e achar que o documento é dispensável.

Um cumprimento que ninguém comenta

O texto não registra discurso, celebração nem avaliação do que foi feito. Só o fato. Há situações em que isso é exatamente o certo — o que foi combinado foi feito, e não há mais nada a dizer —, e reconhecê-las poupa muita conversa. O capítulo tem lugar para a pergunta da criança e para a adoração do povo; este versículo não é esse lugar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o versículo 28 já dizia isso, por que repetir?

Porque as duas frases fecham blocos diferentes. O versículo 28 encerra a transmissão que Moisés faz aos anciãos, nos versículos 21 a 27 — o sangue, o hissopo, a ordem de não sair de casa. Este encerra o estatuto dos versículos 43 a 49, sobre quem pode comer. São dois conjuntos de instruções e dois relatórios de conformidade, e a fórmula é a mesma porque é a fórmula padrão. O problema não é a repetição: é que o segundo relatório vem depois de a ação já ter acontecido.

O midrash inventou a cena da circuncisão às pressas?

Provavelmente sim, no sentido de que ela não está em nenhum texto bíblico. O que o midrash faz é derivar a cena do próprio versículo: se o texto diz que eles fizeram, logo depois de uma regra que exige circuncisão, então fizeram isso. É um raciocínio de leitor, não um registro histórico, e ele opera com uma premissa que o comentário rabínico assume sempre — a de que nenhuma palavra da Torá está ali sem função.

Por que tantos comentaristas preferem a leitura do "dali em diante"?

Porque ela resolve a cronologia sem precisar inventar nada. Se "assim fizeram" descreve a prática dos anos seguintes, não há contradição alguma: a regra foi dada no acampamento e passou a ser cumprida quando havia Páscoa a fazer. O preço é gramatical — força um verbo no passado a funcionar como resumo do futuro —, e o hebraico admite isso, embora não seja o uso mais natural.

O que se perde ao escolher uma das três leituras em silêncio?

Perde-se o mais interessante do versículo, que é o fato de ele ter incomodado todo mundo. Um midrash do século IV, um comentarista do século XIII e uma série de comentários ingleses do século XIX olharam para a mesma frase e sentiram a mesma falta de encaixe. Que tenham respondido de modos incompatíveis é menos significativo do que terem concordado sobre onde está o problema.

O texto afirma que absolutamente todos cumpriram?

Chizkuni diz que não, e o argumento dele é de bom senso: crianças de colo não celebraram nada. "Todos os filhos de Israel" é uma expressão de totalidade que a própria língua usa com folga, como em outros lugares do mesmo livro. Levar a fórmula ao pé da letra produz afirmações que o texto não pretende fazer — e é um dos modos mais comuns de ler mal uma narrativa antiga.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula, no mesmo capítulo

Êxodo 12:28 — "E os filhos de Israel foram e fizeram; como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram."

O relatório de conformidade que fecha a instrução dada aos anciãos. Este versículo é o par dele, vinte e dois versículos depois, fechando o estatuto.

O modelo mais antigo

Gênesis 6:22 — "Assim fez Noé; tudo o que Deus lhe ordenou, assim ele fez."

A mesma construção, com o verbo duplicado, encerrando a instrução sobre a arca. É o primeiro relatório de conformidade da Bíblia.

Moisés e Arão como sujeitos

Êxodo 7:6 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR lhes ordenou; assim fizeram."

A mesma fórmula, no início do ciclo das pragas, com os dois no lugar em que aqui está o povo.

Onde a fórmula se torna refrão

Êxodo 39:32 — "Assim foi acabada toda a obra do tabernáculo da tenda do encontro; e os filhos de Israel fizeram conforme tudo o que o SENHOR ordenara a Moisés; assim fizeram."

Êxodo 39:43 — "E Moisés viu toda a obra, e eis que a tinham feito como o SENHOR ordenara; assim a fizeram. E Moisés os abençoou."

Nos dois capítulos finais do livro a fórmula fecha cada etapa da montagem do santuário, dezenas de vezes. A obediência é registrada peça por peça.

A Páscoa que o texto descreve depois

Números 9:5 — "E celebraram a Páscoa no primeiro mês, no dia catorze do mês, ao entardecer, no deserto do Sinai; conforme tudo o que o SENHOR ordenou a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel."

A primeira Páscoa depois da saída, um ano mais tarde. Keil e Delitzsch veem nela o cumprimento efetivo do que este versículo antecipa.

A circuncisão e a Páscoa juntas, na entrada da terra

Josué 5:5 — "Porque todo o povo que saíra estava circuncidado; mas todo o povo que nascera no deserto, pelo caminho, depois de terem saído do Egito, esse não fora circuncidado."

A informação que obriga à circuncisão coletiva de Gilgal, imediatamente antes da Páscoa celebrada nas planícies de Jericó — a mesma dupla de ritos deste bloco de Êxodo 12.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E todos os filhos de Israel fizeram como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão; assim fizeram.

Texto hebraico

וַיַּעֲשׂוּ כָּל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל כַּאֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה אֶת־מֹשֶׁה וְאֶת־אַהֲרֹן כֵּן עָשׂוּ׃

Transliteração

va-ya'asu kol benei Yisra'el ka-asher tsivvah YHWH et Moshe we-et Aharon, ken asu.

Análise palavra por palavra

וַיַּעֲשׂוּ — va-ya'asu, "e fizeram".

Raiz asah, fazer, no Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico —, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina do plural. É o verbo que abre a frase, o que em hebraico é a posição normal do relato: primeiro o que aconteceu, depois quem fez.

כָּל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — kol benei Yisra'el, "todos os filhos de Israel".

Kol é o quantificador universal. A expressão "filhos de Israel" é a designação padrão do povo no Pentateuco, e o acréscimo de kol não é automático: o capítulo usa a expressão sem ele em outros lugares, e é a presença do "todos" que cria a dificuldade apontada por Chizkuni — a totalidade tomada ao pé da letra incluiria quem não tinha idade de celebrar coisa alguma. Em hebraico, esse tipo de totalidade admite folga, do mesmo modo que em português "a cidade inteira saiu às ruas" não conta ninguém.

כַּאֲשֶׁר — ka-asher, "conforme, assim como".

Composto da preposição de comparação ke com o pronome relativo asher. É a primeira metade de uma estrutura correlativa que o hebraico usa muito: "assim como… assim". A segunda metade está no fim da frase, no ken. Os dois formam um par, e as palavras que ficam entre eles são o conteúdo da comparação.

צִוָּה — tsivvah, "ordenou".

Raiz tsavah, no Piel — o tronco intensivo do verbo hebraico —, perfeito, terceira pessoa masculina do singular. O verbo só existe nesse tronco e no seu passivo, e o seu campo é estritamente o da ordem dada por quem tem autoridade: Deus ordena, o rei ordena, o pai ordena.

Dessa raiz vem mitsvah, "mandamento" — a palavra que designa cada preceito da lei judaica. E vem também, por caminho próprio, o sentido de "dar instruções finais": o mesmo verbo é usado para o testamento oral que um moribundo deixa à sua casa.

אֶת־מֹשֶׁה וְאֶת־אַהֲרֹן — et Moshe we-et Aharon, "a Moisés e a Arão".

A partícula et marca objeto direto, e aqui ela merece uma observação de gramática. O verbo tsavah constrói-se normalmente com a preposição el ("a, para") diante da pessoa a quem se ordena; a construção com et, como aqui, trata o destinatário como objeto direto do verbo — algo mais próximo de "instruiu Moisés" do que de "ordenou a Moisés". A diferença é pequena em português e regular em hebraico, e as duas construções convivem no mesmo livro.

A repetição da partícula diante de cada nome — et Moisés e et Arão — é o uso normal quando há dois objetos coordenados. Ela mantém os dois no mesmo nível, sem subordinar um ao outro.

כֵּן עָשׂוּ — ken asu, "assim fizeram".

Ken é o advérbio "assim", a segunda metade da correlação aberta por ka-asher. O verbo volta, agora no perfeito, sem o encadeamento narrativo — o que em hebraico dá a ele valor conclusivo, de fato consumado, e não de próximo passo da história.

A frase inteira, portanto, tem a forma de um anel: faz o verbo, diz a que se conforma, repete o verbo. Doze palavras em hebraico, com asah na primeira e na última. Esse desenho é o da fórmula padrão de conformidade, e é o que permite ao leitor conferir a execução contra a ordem.

Uma nota sobre a Septuaginta

A tradução grega segue o hebraico de perto, mantendo a duplicação do verbo. O que ela não consegue reproduzir é o anel: o grego precisa de estrutura diferente para a correlação, e a frase perde a simetria que o hebraico obtém pondo o mesmo verbo nas duas pontas.

11. Conclusão

Do exposto decorrem três conclusões.

Primeira: a dificuldade deste versículo é real e antiga. Ele afirma cumprimento de uma regra que, pela ordem do próprio capítulo, ainda não tinha onde ser cumprida. Um midrash do século IV, um comentarista do século XIII e a crítica inglesa do século XIX identificaram o mesmo ponto — e isso basta para descartar a ideia de que a dificuldade foi fabricada por leitores modernos mal-intencionados.

Segunda: as três soluções propostas custam coisas diferentes, e nenhuma é gratuita. A do midrash acrescenta uma cena que nenhum texto bíblico registra. A de Chizkuni e a de Keil e Delitzsch forçam um verbo no passado a resumir o futuro. A da crítica histórica explica o encaixe ruim pela composição do livro, e não pode ser verificada. Escolher entre elas é possível; fingir que não há escolha, não.

Terceira: a forma da frase é mais informativa do que o conteúdo dela. Um anel com o mesmo verbo nas duas pontas e a ordem original no meio é o modo padrão pelo qual esse corpo de textos registra obediência — e saber disso vale menos por este versículo do que pelos casos em que a fórmula aparece quebrada. Ler bem Êxodo 12:50 é, sobretudo, ganhar um instrumento para ler outras passagens.

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