E aconteceu que, naquele mesmo dia, o SENHOR tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos.
1. Introdução
O capítulo mais longo do Êxodo termina com uma frase de nove palavras em hebraico, e duas delas mudam a cor de tudo o que veio antes: eles saíram "segundo os seus exércitos".
Treze versículos antes, quem subia junto com Israel era "uma grande mistura de gente". Agora o mesmo grupo é descrito com vocabulário de tropa organizada, em divisões. Entre as duas descrições não há nada que explique a passagem. E a expressão traduzida por "naquele mesmo dia" diz, em hebraico, "no osso deste dia" — a mesma palavra que o versículo 46 usou para os ossos do cordeiro.
2. Contexto Histórico e Cultural
A palavra tsava, que fecha este versículo, é vocabulário militar. Ela designa o exército, a tropa organizada em divisões, e também o serviço militar como período — o tempo em que alguém está sob as armas.
O recenseamento que a palavra pressupõe
Um ano depois desta cena, o livro de Números abre com uma contagem, e a fórmula mostra para que serve o termo: contam-se os homens de vinte anos para cima, "todos os que podem sair à guerra em Israel", casa paterna por casa paterna, e o resultado é organizado por tsava. A palavra funciona aí como unidade de arrolamento: não se conta gente, contam-se corpos disponíveis para marchar.
Isso tem consequência para a leitura deste versículo. "Segundo os seus exércitos" não descreve gente marchando em passo certo; descreve gente arrolada em divisões, com lugar definido na coluna.
A forma do acampamento
Números 2 detalha o arranjo, e ele é o de um quartel. As tribos acampam em quatro blocos, um por ponto cardeal, três tribos em cada bloco, cada uma sob o seu estandarte, e o santuário fica no centro. A ordem de levantar acampamento é fixa: primeiro o bloco do leste, depois o do sul, e assim por diante. Ninguém escolhe onde fica nem quando parte.
O desenho — unidades dispostas em retângulo em torno do que precisa ser protegido — é o de qualquer acampamento de campanha do mundo antigo. O que muda é o que está no meio: não o comandante, mas a tenda.
O título que a palavra gerou
De tsava vem um dos nomes mais usados de Deus na Bíblia hebraica: "SENHOR dos Exércitos". Ele aparece cerca de duzentas e oitenta vezes, quase todas nos profetas e nos livros históricos — e não aparece nenhuma vez no Pentateuco. A primeira ocorrência está em 1 Samuel 1:3.
De que exércitos se trata é questão antiga e sem solução. Três leituras circulam: os exércitos de Israel, os astros — que a Bíblia chama de "exército dos céus" —, e os seres celestiais. O próprio uso bíblico não escolhe: Isaías 40:26 manda levantar os olhos e ver quem faz sair o exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome; outros textos ligam o título à guerra de Israel.
O que se pode observar, com cautela, é que o livro do Êxodo aplica a palavra ao povo — "os exércitos do SENHOR", no versículo 41 deste mesmo capítulo. Se há relação entre esse uso e o título posterior, ela não é demonstrável pelos textos disponíveis.
A coluna
Mover um grupo grande com rebanhos e crianças não se parece com uma marcha de tropa. O ritmo é o do animal mais lento e da criança menor; a coluna se estica e se rompe; a bagagem atrasa; a água determina onde se para. Quem organiza um deslocamento assim precisa de divisões justamente porque não há disciplina possível no conjunto — só na parte.
É esse o contraste que o versículo produz sem comentar. Ele descreve, com vocabulário de exército, um movimento que o próprio capítulo acabou de apresentar como fuga apressada, com massa crua carregada no ombro e gente de origens misturadas atrás.
3. Análise Teológica do Versículo
"E aconteceu que, naquele mesmo dia"
A expressão hebraica é literalmente "no osso deste dia". Ela não é rara — a Bíblia a usa em momentos de data marcada —, e o que ela faz é apontar o dia exato, sem folga: este, e não um outro. O português resolve com "naquele mesmo dia" e perde a imagem, que é a de tocar a parte mais dura e mais própria de uma coisa.
Ramban — Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII — tira daí uma consequência que reorganiza o fim do capítulo. O versículo 42 tinha chamado aquela de "noite de vigília", e alguém poderia concluir que a saída aconteceu de madrugada. O texto volta atrás, diz Ramban, para explicar que não foi assim: Faraó deu a permissão à noite, e com ela os israelitas se tornaram homens livres, mas a saída de todo o território do Egito se deu em pleno dia. Um povo que parte à noite parte fugindo; um povo que parte ao meio-dia parte à vista de todos.
A tensão com Deuteronômio
Essa leitura resolve um problema e encontra outro. Deuteronômio 16:1 diz, com todas as letras, que foi no mês de Abibe que "o SENHOR seu Deus tirou você do Egito, de noite".
Os dois textos não dizem a mesma coisa, e as saídas propostas são conhecidas. Uma distingue os momentos: a permissão e a libertação jurídica foram de noite, a marcha efetiva foi de dia — que é exatamente o argumento de Ramban. Outra entende que Deuteronômio usa "de noite" para o conjunto do acontecimento, tomando a noite da décima praga como marco de tudo. Uma terceira reconhece que os dois livros conservam tradições diferentes sobre a hora.
Não é possível decidir pelo texto. O que se pode afirmar é que a diferença existe, que ela foi notada desde cedo e que a solução mais antiga — a de separar a permissão da partida — é também a que melhor se encaixa na sequência do próprio Êxodo 12.
"o SENHOR tirou os filhos de Israel da terra do Egito"
O capítulo teve três candidatos ao sujeito desta frase, e ele fecha com um só.
Faraó foi um deles: no versículo 31 ele manda que saiam, e no versículo 39 o texto diz que foram expulsos do Egito. Moisés foi outro: é ele quem recebe as ordens, quem fala aos anciãos, quem conduz. O versículo final não nomeia nenhum dos dois. Quem tira é o SENHOR.
O verbo está na forma causativa — "fazer sair" —, e ele é o verbo próprio do livro: é com ele que a saída do Egito será nomeada, daí em diante, em toda a Bíblia hebraica. A escolha de encerrar o capítulo com esse verbo e com esse sujeito não é neutra: ela atribui a um só agente um acontecimento que o próprio texto tinha descrito como resultado de uma capitulação política e de um pânico coletivo.
"segundo os seus exércitos"
De quem são os exércitos? O hebraico traz apenas o sufixo "deles", e a referência mais natural é Israel: os exércitos deles. Mas dez versículos antes, no 41, a mesma cena foi descrita com outra atribuição — "todos os exércitos do SENHOR saíram da terra do Egito".
Os dois versículos, lidos juntos, deixam a propriedade em aberto. Israel sai nas suas divisões, e essas divisões são os exércitos de Deus. A ambiguidade é do texto e não precisa ser resolvida; ela é o que permite que a mesma frase descreva um povo em marcha e uma tropa que pertence a outro.
A tradução grega desfez a questão pelo caminho mais simples: verteu a expressão por "com a sua força", eliminando o plural e o vocabulário militar. Uma decisão de tradutor que apaga o achado.
O contraste que o capítulo produz e não comenta
No versículo 38, quem sai junto é "uma grande mistura de gente". Aqui, treze versículos depois, sai-se em divisões. As duas descrições são do mesmo grupo e do mesmo dia.
O texto não explica a passagem de uma para a outra, e qualquer explicação será leitura. Uma delas, plausível, é que as duas frases olham para coisas diferentes — a composição do grupo e a forma do deslocamento —, e que não há contradição nenhuma entre ser misturado e estar organizado. Outra, também defensável, é que o capítulo se encerra impondo uma ordem retrospectiva a uma saída que ele mesmo descreveu como apressada e confusa. As duas leituras são compatíveis com o hebraico.
Onde este versículo pertence
Há uma discussão antiga sobre se a frase fecha o capítulo 12 ou abre o 13, e ela é mais interessante do que parece.
Ibn Ezra defende que o versículo se liga ao que vem depois: "naquele mesmo dia em que o SENHOR tirou os filhos de Israel do Egito, o SENHOR falou a Moisés, dizendo: santifique-me todo primogênito". A praga dos primogênitos tinha acontecido à meia-noite; no dia da saída, Deus ordena imediatamente a consagração dos primogênitos de Israel. Rashbam concorda, e acrescenta que a repetição do versículo 41 se explica por isso. Ellicott e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chegam à mesma conclusão e chegam a propor que a frase seja transferida para o início do capítulo seguinte.
Ramban prefere lê-la como fecho, pelas razões já expostas. Shadal apresenta uma objeção gramatical contra Ibn Ezra: se a intenção fosse essa, o hebraico deveria dizer "no dia em que tirou", com o relativo, e não é o que está escrito. Chizkuni liga a frase ao versículo 41, que descreve a mesma saída com as mesmas palavras.
Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) propõem que ela faça as duas coisas ao mesmo tempo: uma fórmula de encerramento que fecha o relato anterior e serve de ponte para o seguinte. Como a divisão em capítulos é medieval e não pertence ao texto original, essa é provavelmente a descrição mais honesta do que a frase faz.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os exércitos
A expressão não estreia aqui. Ela aparece três vezes antes, sempre em contexto de anúncio, e sempre na boca de Deus. Em Êxodo 6:26, apresentando o par que vai conduzir: "tirem os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos". Em Êxodo 7:4, no plano anunciado a Moisés: "tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel". E em Êxodo 12:41, na saída propriamente dita: "todos os exércitos do SENHOR saíram da terra do Egito".
Este versículo é o quarto e o último do livro. A palavra abre o ciclo como promessa e o fecha como fato consumado, e nas quatro ocorrências ela está ligada ao mesmo verbo: fazer sair.
O dia
O texto não o nomeia por data, mas o capítulo já a forneceu: o décimo quarto dia do primeiro mês, contado a partir do calendário refundado no versículo 2. A expressão "no osso deste dia" remete a ele, e o versículo 41 usa a mesma fórmula para dizer que os quatrocentos e trinta anos terminaram exatamente ali.
Quem não aparece
Moisés e Arão estão ausentes desta frase, embora tenham sido nomeados no versículo anterior. Faraó também. A última linha do capítulo tem um agente e um objeto: Deus e o povo. Todos os intermediários saíram de cena.
O itinerário que começa aqui
O livro de Números abre o capítulo 33 com a lista das etapas da viagem e usa a mesma linguagem: "estas são as jornadas dos filhos de Israel, os quais saíram da terra do Egito segundo os seus exércitos, sob a condução de Moisés e de Arão". A expressão militar acompanha o povo para fora do Êxodo e vira o cabeçalho do roteiro inteiro do deserto.
5. Pontos de Ensino
A libertação vem com uma forma
O capítulo não termina com gente correndo em todas as direções. Termina com divisões, lugar na coluna e ordem de marcha. Sair da servidão, no relato, não é passar da estrutura para a ausência de estrutura — é passar de uma estrutura para outra, e a segunda é descrita com vocabulário de tropa.
O grupo continua misturado
A organização não apagou a composição. O mesmo capítulo que registra a saída em divisões tinha registrado, treze versículos antes, que quem subiu junto era uma grande mistura de gente. Um corpo organizado não é necessariamente um corpo homogêneo, e o texto não vê problema em afirmar as duas coisas de uma vez.
Quem recebe o crédito
O versículo final atribui a saída a um só agente, depois de o próprio capítulo ter mostrado a capitulação de Faraó, o pânico dos egípcios e a condução de Moisés. Isso não é contradição: é a diferença entre relatar uma sequência de causas e declarar a quem a coisa é imputada. Todo texto que encerra um acontecimento faz essa escolha, e vale saber que ela foi feita.
A hora exata continua em disputa
Êxodo diz que foi em pleno dia; Deuteronômio diz que foi de noite. Nenhuma harmonização resolve a diferença sem custo, e a mais antiga delas — separar a permissão da partida — é também a mais elegante. Apresentar o conjunto como se não houvesse divergência seria esconder do leitor algo que os comentaristas notaram há oitocentos anos.
6. Aspectos Filosóficos
Um povo deixa de estar preso e a primeira coisa que o texto diz dele é que estava em divisões. A frase junta, sem nenhuma costura visível, duas ideias de liberdade que a filosofia política passou dois séculos tentando separar.
Duas perguntas diferentes
Isaiah Berlin (pensador britânico nascido em Riga, 1909-1997) mostrou, na conferência Dois Conceitos de Liberdade, de 1958, que a palavra responde a duas perguntas que não são a mesma.
A primeira é: até onde me deixam agir sem interferência? Berlin chama isso de liberdade negativa. Ela se mede pelo tamanho da porta aberta, e não pelo que se faz com ela. Um homem é livre nesse sentido quando ninguém o impede — não importa se ele sabe o que quer, se escolhe bem ou se é dono de si.
A segunda é: quem manda em mim? É a liberdade positiva: ser senhor de si mesmo, agir por razões próprias, não ser conduzido pelo impulso nem pela ignorância. Ela não se mede por portas, e sim pela relação de alguém consigo.
Por que Berlin desconfiava da segunda
A parte célebre da conferência é a advertência. A liberdade positiva supõe que exista um "eu verdadeiro" a ser realizado — e, a partir daí, alguém sempre pode alegar saber melhor do que a pessoa qual é esse eu. Dali para a frente o caminho é curto: se o seu eu verdadeiro quer o que você não quer, quem o obriga não o está coagindo, está libertando. Berlin escreveu em meio às experiências políticas do século XX e considerava essa a mais perigosa inversão já feita com a palavra.
O que o versículo faz com as duas
A liberdade negativa está clara: a porta se abriu, o impedimento acabou, eles saíram. É o que todo o capítulo vinha narrando — a resistência de Faraó cedendo, a permissão dada de madrugada, a partida.
A liberdade positiva aparece na segunda metade da frase, e em forma inesperada. Eles não saem como massa solta: saem em divisões, com lugar definido. O texto apresenta isso como parte do mesmo acontecimento, sem nenhuma consciência de que possa haver tensão entre uma coisa e outra.
E há um ponto em que a cena escapa do esquema de Berlin. A ordem de marcha não é imposta por ninguém que alegue conhecer o eu verdadeiro do povo; ela vem no mesmo pacote que a saída, de um agente que é, ele próprio, quem abriu a porta. Não há dois momentos — libertar e depois enquadrar. Há um só.
O risco continua real
Isso não desarma a advertência, e seria desonesto dizer que desarma. O mesmo relato em que a libertação vem junto com a forma será usado, séculos adentro, para justificar formas impostas em nome de uma libertação. A estrutura do argumento é exatamente a que Berlin identificou: quem foi liberto deve agora viver de determinado modo, porque é isso que a liberdade dele significa.
A resposta possível é modesta, e é do texto e não da filosofia. Êxodo 12 descreve o que aconteceu com um povo específico num dia específico, e não enuncia uma tese sobre o que a liberdade é. Transformar uma frase que descreve uma coluna em marcha numa doutrina sobre liberdade é fazer com o versículo exatamente o que este trabalho procura não fazer.
O que sobra, e é bastante, é a observação de que o texto não conhece a oposição. Para ele, sair e estar em ordem são a mesma notícia.
7. Aplicações Práticas
Sair não basta
A metade da frase que fala da saída é a que costuma ser citada; a que fala das divisões é a que descreve o dia seguinte. Quem só organiza a saída de uma situação ruim — um emprego, um vínculo, um lugar — descobre depois que a parte difícil é a forma que vem em seguida, e que não existe ausência de forma: existe uma forma escolhida ou uma que se instala sozinha.
Divisões, não disciplina
O que o texto descreve não é marcha em passo certo: é gente arrolada em unidades, cada uma com lugar. Mover muita gente exige exatamente isso, e nada mais — não é preciso que o conjunto funcione como um só corpo, basta que cada parte saiba onde está. É a diferença entre organizar e uniformizar.
O dia marcado
"No osso deste dia" é a linguagem do que tem data. Acontecimentos que mudam alguma coisa costumam ter um dia exato, e nomear esse dia é o que permite lembrá-lo depois. O capítulo inteiro é a construção de uma memória em torno de uma data, e esta frase é o carimbo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que repetir o que o versículo 41 já disse?
Porque entre um e outro foi inserido o estatuto dos versículos 43 a 49 — um bloco legal no meio de uma narrativa. Retomar a saída depois dele é o modo de o texto voltar ao fio interrompido, e essa é a explicação que a Cambridge Bible oferece. Ibn Ezra e Rashbam dão outra: a repetição existe porque a frase se liga ao que vem depois, e não ao que veio antes. As duas explicam o fato e não podem ser confirmadas ao mesmo tempo.
Israel saiu de noite ou de dia?
Êxodo 12:51 e Deuteronômio 16:1 respondem coisas diferentes, e a divergência é antiga. A solução de Ramban — permissão de noite, partida de dia — funciona bem para a sequência do Êxodo e exige ler "de noite", em Deuteronômio, como referência ao conjunto do acontecimento. Não há como verificar qual leitura é a original.
Um povo que acabou de sair sem armas pode ser chamado de exército?
A palavra hebraica não pressupõe armamento. Ela designa a tropa organizada em unidades, e é usada também para o serviço prestado, para o turno de trabalho dos levitas e para o conjunto dos astros. O que ela afirma sobre o povo é que ele estava arrolado e dividido, não que estivesse equipado para lutar. Traduzir por "esquadrões" ou "divisões" evita o mal-entendido que "exércitos" produz em português.
Se o SENHOR tirou o povo, o que fizeram Moisés e Faraó?
O capítulo relatou os dois com detalhe: a capitulação de Faraó de madrugada, a condução de Moisés, o pânico dos egípcios empurrando o povo para fora. Nada disso é desmentido pelo versículo final. O que ele faz é atribuir o acontecimento — dizer a quem ele é imputado. Relatar causas e imputar um acontecimento são duas operações diferentes, e textos antigos costumam fazer as duas sem sinalizar a mudança.
A expressão "no osso deste dia" tem alguma relação com o osso do cordeiro?
A palavra é a mesma, e a relação é de etimologia, não de sentido. Em "no osso deste dia" o termo já funciona como expressão fixa — significa "exatamente neste dia" — e ninguém que a use está pensando em esqueleto. O que se pode afirmar é que o capítulo termina repetindo, num sentido figurado, a palavra que usou no sentido literal cinco versículos antes, e que não há como saber se isso foi notado por quem escreveu.
9. Conexão com Outros Textos
A expressão antes do fato
Êxodo 6:26 — "São estes o Arão e o Moisés a quem o SENHOR disse: Tirem os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos."
A primeira ocorrência, numa apresentação dos dois irmãos. A saída é anunciada, desde ali, com vocabulário de divisão militar.
Êxodo 7:4 — "Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos."
Aqui os exércitos são explicitamente de Deus — "os meus exércitos" —, e a aposição que vem depois os identifica com o povo.
A mesma saída, dez versículos antes
Êxodo 12:41 — "E aconteceu que, ao fim de quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do SENHOR saíram da terra do Egito."
A mesma fórmula do dia e a mesma palavra para as divisões, agora atribuídas ao SENHOR. É o par deste versículo, e a comparação entre os dois é que deixa a posse dos exércitos em aberto.
O outro lado da descrição
Êxodo 12:38 — "Subiu também com eles uma grande mistura de gente, com rebanhos e gado, muitíssimo numerosos."
O mesmo grupo, no mesmo dia, descrito sem nenhuma ordem. O contraste com o fecho do capítulo é do próprio texto.
O arrolamento que a palavra pressupõe
Números 1:3 — "De vinte anos para cima, todos os que podem sair à guerra em Israel, você e Arão os contarão segundo as suas divisões."
Um ano depois, a palavra reaparece como unidade de contagem no primeiro recenseamento.
Números 2:2 — "Os filhos de Israel acamparão cada um junto ao seu estandarte, segundo as insígnias das casas dos seus pais; acamparão ao redor da tenda do encontro, de frente para ela."
A forma do acampamento: quatro blocos em torno do centro, com estandarte próprio. É o desenho que "segundo os seus exércitos" supõe.
O cabeçalho do roteiro
Números 33:1 — "Estas são as jornadas dos filhos de Israel, que saíram da terra do Egito segundo os seus exércitos, sob a condução de Moisés e de Arão."
A expressão deste versículo vira a abertura da lista de todas as etapas do deserto.
A hora divergente
Deuteronômio 16:1 — "Guarde o mês de Abibe e celebre a Páscoa ao SENHOR seu Deus, porque no mês de Abibe o SENHOR seu Deus tirou você do Egito, de noite."
A afirmação que não coincide com a leitura de "em pleno dia", e que sustenta a discussão exposta no item 3.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E aconteceu que, naquele mesmo dia, o SENHOR tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos.
Texto hebraico
וַיְהִי בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה הוֹצִיא יְהוָה אֶת־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם עַל־צִבְאֹתָם׃
Transliteração
va-yehi be-etsem ha-yom ha-zeh hotsi YHWH et benei Yisra'el me-erets Mitsrayim al tsiv'otam.
Análise palavra por palavra
וַיְהִי — va-yehi, "e aconteceu".
Raiz hayah, ser ou acontecer, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina do singular. É a abertura mais comum de episódio na prosa bíblica, quase uma marca de parágrafo: "e sucedeu que". Ela costuma introduzir uma cena nova, e é por isso que os comentaristas que ligam este versículo ao capítulo seguinte têm argumento a favor.
בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה — be-etsem ha-yom ha-zeh, "no osso deste dia".
A tradução literal soa estranha e o sentido não é obscuro: "exatamente neste dia", "neste dia mesmo". A palavra etsem significa osso, e daí passou a significar a substância de uma coisa — aquilo de que ela é feita, o seu cerne duro. A ponte entre os dois sentidos é fácil de percorrer: o osso é o que resta quando tudo o mais se desfaz, e é portanto a parte mais própria do corpo.
Dessa passagem nasce um uso adverbial fixo. "No osso deste dia" é a fórmula do documento e da data: marca o dia exato, sem aproximação, e aparece regularmente em contextos de aliança, de circuncisão e de datas cultuais. É a mesma expressão usada no versículo 41, o que liga as duas frases.
Cinco versículos antes, no 46, a mesma palavra apareceu no sentido literal — "nem quebrarão nenhum dos seus ossos". A repetição é de vocabulário, e não de sentido: em etsem ha-yom ninguém pensa em esqueleto, do mesmo modo que quem diz "o cerne da questão" não pensa em madeira. O que se pode observar é que o capítulo termina fazendo uso figurado da palavra que usou literalmente poucas linhas antes, e não há como saber se isso foi intencional.
Ha-yom ha-zeh, "o dia este", é a construção hebraica normal do demonstrativo: artigo no substantivo e artigo no pronome.
הוֹצִיא — hotsi, "fez sair, tirou".
Raiz yatsa, sair, no Hifil — a forma causativa do verbo hebraico, a que transforma "sair" em "fazer sair" —, perfeito, terceira pessoa masculina do singular.
Este é o verbo do livro. A fórmula "o SENHOR, que te tirou da terra do Egito" percorre a Bíblia hebraica inteira e abre o Decálogo. O sujeito nunca é Moisés e nunca é o povo: é sempre Deus, ainda que a mesma raiz, no Qal, descreva o povo saindo por conta própria. A diferença entre "sair" e "ser feito sair" é toda a teologia do êxodo condensada num tronco verbal.
O tempo é o perfeito, sem o encadeamento narrativo, o que dá à frase valor de fato consumado — não o próximo passo da história, mas o registro do que se realizou.
אֶת־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — et benei Yisra'el, "os filhos de Israel".
Com a partícula de objeto direto. A expressão é a designação padrão do povo, e aqui ela está no lugar de quem sofre a ação — quem é tirado, e não quem sai.
מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם — me-erets Mitsrayim, "da terra do Egito".
Preposição min ("de, desde") fundida ao substantivo. Mitsrayim tem forma de dual em hebraico, o que levou a leitura tradicional a ver nela os dois Egitos, o alto e o baixo; a etimologia é discutida e o nome provavelmente não é hebraico.
עַל־צִבְאֹתָם — al tsiv'otam, "segundo os seus exércitos".
A preposição al significa habitualmente "sobre"; em construções como esta ela tem valor distributivo — "conforme", "de acordo com", "arrolados em". A mesma preposição aparece na descrição do acampamento e das etapas da marcha.
Tsiv'otam é o plural de tsava com o sufixo de terceira pessoa masculina do plural, "deles". O campo semântico da palavra é mais largo do que "exército" sugere:
A tropa organizada — o sentido militar, o de unidade arrolada. É o que está em jogo aqui.
O serviço, o turno de trabalho — a palavra designa o período em que alguém está sob obrigação. Números a usa para o serviço dos levitas no santuário, e Jó a emprega para o tempo de vida de um homem na terra, como quem cumpre um turno.
O exército dos céus — o conjunto dos astros, e também o das criaturas celestiais. É o sentido que aparece já em Gênesis 2:1, na ABC: "Assim foram concluídos os céus e a terra, e todo o seu exército." Não se trata de tropa nenhuma; trata-se de tudo o que povoa o céu e a terra, arrolado.
Dessa última acepção vem o título divino "SENHOR dos Exércitos", ausente do Pentateuco e frequentíssimo nos profetas. Qual dos sentidos está nele é discutido desde a Antiguidade e permanece em aberto.
A Septuaginta
A tradução grega verte a expressão final por algo como "com a força deles", no singular, eliminando o plural e o vocabulário de divisão. A escolha simplifica a frase e apaga justamente o que ela tem de específico — e mostra que a dificuldade de traduzir tsava é antiga, não uma invenção dos tradutores modernos.
11. Conclusão
Do exposto decorrem quatro conclusões.
Primeira: o capítulo fecha atribuindo a saída a um só agente. Ele havia mostrado Faraó capitulando, os egípcios empurrando o povo para fora e Moisés conduzindo — e a última linha não nomeia nenhum dos três. A escolha do verbo causativo, com Deus como sujeito, é a forma pela qual toda a Bíblia hebraica passará a nomear o acontecimento.
Segunda: a saída é descrita com vocabulário de tropa, e o mesmo capítulo tinha descrito o grupo como uma mistura. As duas coisas estão no mesmo texto, no mesmo dia, sem explicação da passagem de uma à outra. A leitura mais econômica é que as frases olham para aspectos diferentes — quem são e como se movem —, e a alternativa, de que o fecho impõe ordem a uma partida confusa, continua defensável.
Terceira: a propriedade dos exércitos fica em aberto, e provavelmente de propósito. Aqui são "os seus", deles; dez versículos antes eram "os exércitos do SENHOR". O hebraico permite as duas coisas ao mesmo tempo, e a tradução grega, ao desfazer a ambiguidade, mostra o que se perde quando ela é resolvida.
Quarta: a frase não é apenas um ponto final. Ela retoma o fio da narrativa interrompido pelo bloco legal, repete a fórmula do dia exato e abre caminho para a ordem sobre os primogênitos que vem em seguida. Os comentaristas que a ligam ao que vem depois e os que a leem como fecho estão ambos descrevendo algo que a frase faz — e a divisão em capítulos, que é medieval, é o que obriga a escolher.













