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Êxodo 7:4

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 27 acessos
Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos.
Uma multidão de trabalhadores parada ao amanhecer diante de um muro de tijolos, com um oficial anotando numa tabuinha.

Estudo


Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos.

1. Introdução

Este versículo responde a uma pergunta que ninguém tinha coragem de responder.

Em Êxodo 6:30 Moisés perguntou: "como Faraó me ouvirá?". Era pergunta de desânimo, do tipo que não espera resposta. Aqui ela recebe uma, e é seca: "Faraó não os ouvirá."

Dito isso, o versículo passa ao que vai acontecer, e é o roteiro inteiro da saída do Egito em uma frase.

Três coisas ficam levantadas.

A primeira é a mão. "Porei a minha mão sobre o Egito" — e não sobre Faraó. O alvo declarado é o país, não o rei, e a expressão usada aqui não é a mesma do versículo seguinte, embora o português aproxime as duas. O item 10 separa as expressões.

A segunda é o nome dado ao povo. O versículo o chama de três coisas seguidas: os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel. Três designações empilhadas para o mesmo grupo, numa ordem que não é casual. O item 3 as examina uma a uma.

A palavra "exércitos", aplicada a gente sob trabalho forçado, já apareceu em Êxodo 6:26, e o estudo daquele versículo é o dono dela. O que é daqui é o empilhamento — e o item 2 mostra por que, no Egito, chamar uma força de trabalho de exército não era imagem tão estranha quanto parece.

A terceira é o fecho: "com grandes juízos". A mesma expressão apareceu há um capítulo, em Êxodo 6:6 — mas dita a Israel, como promessa. Aqui ela é dita a respeito do Egito.

E há o que o versículo não faz. Não diz quantos juízos, não diz quais, não diz quando, e não explica por que um rei que não vai ouvir precisa mesmo assim ser procurado.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, exército e mão de obra eram a mesma máquina

Chamar de "meus exércitos" um povo que fabrica tijolo soa, para nós, como ironia ou como promessa distante. Para quem morava no Egito do Império Novo, a distância entre as duas coisas era menor do que imaginamos.

O Estado egípcio administrava tropa e turma de trabalho com o mesmo aparato: as mesmas listas, os mesmos escribas, a mesma cadeia de oficiais. Um homem alistado podia passar a campanha inteira carregando pedra, e passava.

Como o exército era organizado

As grandes unidades do exército egípcio no Império Novo levavam nomes de deuses — havia divisões chamadas pelo nome de Amon, de Rá, de Ptah. Abaixo delas vinham companhias com porta-estandarte próprio, e abaixo destas, pelotões pequenos.

O que interessa nessa estrutura não é o organograma: é o hábito mental que ela cria. Um egípcio letrado pensava gente organizada em blocos nomeados, cada bloco com um sinal na frente e um responsável pela conta. O relato militar egípcio mais conhecido, e o que se pode e não se pode tirar dele, está tratado no estudo de Êxodo 3:19.

E havia o escriba do exército, encarregado de contar — os homens, as rações, as armas, e depois da batalha os despojos. Contar era parte do ofício militar tanto quanto lutar.

Soldados trabalhavam, e trabalhadores eram enquadrados

Os dois lados dessa moeda estão documentados.

Expedições a pedreiras e a minas saíam comandadas por oficiais militares, com destacamentos de soldados fazendo escolta, transporte e extração. As inscrições deixadas por essas expedições, e o que elas registram, são tratadas no estudo de Êxodo 6:13.

Do outro lado, as turmas de trabalhadores do Estado eram enquadradas como unidades: divididas em grupos, com chefe designado, presença anotada dia a dia, falta registrada e cota a cumprir. O sistema de trabalho devido ao Estado egípcio tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 47:18, e o registro diário de presença, no de Êxodo 5:13.

A consequência para este versículo

Junte as duas coisas e a frase deixa de ser figura de linguagem.

Aquele povo já estava organizado em unidades — só que as unidades pertenciam ao Egito. Havia contagem, havia chefe de grupo, havia cota, havia lista com nomes. O vocabulário de tropa já se aplicava a eles.

O que o versículo faz, portanto, não é transformar escravos em soldados por metáfora. É trocar o dono das unidades. A mesma gente, a mesma organização, e um possessivo diferente: não os batalhões de trabalho do Egito, e sim "os meus exércitos".

Vale marcar o limite com cuidado. O Êxodo não faz essa comparação e não menciona nem o exército egípcio nem a organização do trabalho neste versículo. A palavra hebraica traduzida por "exércitos" tem campo próprio, tratado no item 10 de Êxodo 6:26, e não depende do vocabulário egípcio. O que este item mostra é o que a frase podia evocar em quem vivia ali — não o que o livro pretendeu dizer, porque isso ele não declara.

Uma nota sobre "juízos"

A expressão que fecha o versículo pertence a outro campo: o do castigo aplicado, e não o do processo judicial. A palavra e o seu uso já foram analisados no item 10 de Êxodo 6:6, onde ela aparece pela primeira vez na Bíblia hebraica.

O que cabe registrar aqui é só a distribuição. Em Êxodo 6:6 a expressão foi dita a Israel, dentro de uma promessa. Aqui ela é dita a respeito do Egito, dentro de um anúncio. Mesmas palavras, dois endereços.

3. Análise Teológica do Versículo

"Faraó não os ouvirá"

Esta frase é a resposta a uma pergunta feita quatro versículos antes, e convém pôr as duas lado a lado.

Moisés disse, em Êxodo 6:30: "como Faraó me ouvirá?". Era desabafo, e a forma da pergunta já continha a resposta que ele esperava — nenhuma.

Aqui a pergunta é respondida ao pé da letra: não ouvirá. Sem consolo, sem correção, sem "mas".

Duas observações.

A primeira: o objeto está no plural. Não é "não o ouvirá", como se fosse só Moisés. É "não os ouvirá" — os dois. O arranjo do versículo 2, que punha Arão para falar, não altera o prognóstico: acrescentar um porta-voz não melhora a chance de ser ouvido.

A segunda: "ouvir", aqui, é obedecer. O verbo hebraico cobre as duas coisas, e o contexto decide. Não se está dizendo que o rei ficará surdo ou que sairá da sala: está-se dizendo que não fará o que lhe for pedido.

É o mesmo uso de Êxodo 5:2, onde o rei perguntou "quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz?" — e ouvir a voz ali significava atender à exigência.

"então porei a minha mão sobre o Egito"

A frase marca a virada do versículo: até aqui, o que os homens fariam; a partir daqui, o que Deus fará.

Repare no alvo. Não é Faraó. É o Egito — o país inteiro, gente que não participou de decisão nenhuma. A distinção entre ferir o rei e ferir o país já foi tratada no estudo de Êxodo 3:20, e este versículo a mantém.

Há também uma diferença de expressão que a tradução não deixa ver, e é importante porque ela some no versículo seguinte. Aqui está escrito "pôr a mão em"; em Êxodo 7:5 estará escrito "estender a mão sobre". São dois gestos diferentes em hebraico, e o item 10 os separa.

Adianto só a consequência para a leitura: "pôr a mão em" é o gesto de quem agarra, apreende, toma posse — é o que se faz com uma coisa que se reivindica. "Estender a mão" é o gesto de alcance, de quem chega até onde quer chegar.

"e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel"

Aqui está o achado do versículo, e ele está na pilha de nomes.

O mesmo grupo de pessoas recebe três designações seguidas, sem conjunção entre elas, numa ordem que vale examinar devagar.

"Os meus exércitos."

É o nome mais estranho dos três, e vem primeiro.

A palavra e o seu campo — a tropa, o turno de serviço com prazo, o exército dos céus — já foram tratados no item 10 de Êxodo 6:26, que é o dono do termo. O que interessa aqui é a colocação.

Esta frase será dita, por Arão, diante do rei do Egito. E o que ela chama de exército é a mão de obra daquele rei. O item 2 mostra que, no Egito, tropa e turma de trabalho eram administradas pela mesma máquina — o que torna a frase menos poética e mais direta do que parece.

"O meu povo."

Segundo nome, e ele muda o tipo de coisa que está sendo dita.

"Exército" descreve como o grupo está organizado. "Povo" descreve a quem ele pertence, e a palavra hebraica traz dentro a ideia de parentesco — um povo é, na origem, gente aparentada.

Note que o possessivo se repete: meus exércitos, meu povo. Duas vezes a mesma reivindicação de propriedade, e ela está sendo feita sobre pessoas que, do ponto de vista egípcio, já tinham dono.

"Os filhos de Israel."

Terceiro nome, e o único sem possessivo.

É a designação corrente do livro, e é a mais concreta das três: não diz como estão organizados, não diz de quem são, diz de quem descendem. Remete ao homem cujo nome o livro deu no primeiro versículo do primeiro capítulo.

O desenho da pilha

Ponha os três em ordem e veja o movimento.

Do funcional — como estão arrumados — para o relacional — de quem são — para o familiar — de quem vieram.

O efeito, para quem ouve, é de aproximação progressiva. Começa-se com um termo de organização e termina-se com um nome de família. E o versículo faz isso sem nenhuma conjunção: os três nomes simplesmente se seguem, como quem corrige a pontaria.

Convém marcar o limite. Que a ordem produza esse efeito é observável. Que ela tenha sido montada para produzi-lo é leitura, e o texto não comenta. O empilhamento de designações é recurso comum em hebraico e nem sempre carrega intenção.

"da terra do Egito"

Segunda vez que a expressão aparece no bloco com esta forma, e a terceira vez em três versículos que a terra é nomeada de um jeito diferente.

Em Êxodo 7:2 foi "a sua terra", a do rei. Em Êxodo 7:3, "na terra do Egito", como lugar onde. Aqui, "da terra do Egito", como lugar de onde se sai. O item 10 acompanha a série.

"com grandes juízos"

A expressão fecha o versículo e ela não é nova: apareceu em Êxodo 6:6, e o item 10 daquele versículo é o dono da palavra.

O que é próprio deste lugar é o endereço.

Em Êxodo 6:6 a frase foi dita aos filhos de Israel, dentro de uma promessa de resgate: eu os resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. Era consolo.

Aqui a mesma expressão entra num anúncio sobre o Egito, e o efeito é outro. A mesma palavra que, ouvida por Israel, significa libertação, ouvida pelo Egito significa castigo.

É uma das coisas mais desconfortáveis do livro, e o Êxodo não a atenua: o mesmo acontecimento tem dois nomes conforme o lado em que a pessoa está. O livro só conta um dos lados, e não finge estar contando os dois.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Aparece como sujeito de um verbo negativo: ele não ouvirá.

É a única coisa que o versículo diz dele, e é uma previsão sobre a conduta futura de alguém que ainda não teve a oportunidade de decidir nada dentro deste capítulo. O rei não está em cena, não foi procurado ainda e não sabe que essa frase existe.

"Os" — Moisés e Arão

O plural do verbo é a única aparição dos dois homens neste versículo, e eles aparecem como objeto de uma recusa.

Vale reter a posição em que ficam: são enviados a alguém que, pelo próprio anúncio, não os atenderá. Não há aqui nenhuma ressalva do tipo "no começo não, mas depois sim".

Os exércitos, o povo, os filhos de Israel

São a mesma gente, chamada por três nomes seguidos.

É bom lembrar em que estado essa gente está no ponto do livro em que a frase é dita. Em Êxodo 5 a carga sobre eles tinha aumentado; em Êxodo 6:9 eles não ouviram Moisés "por causa da angústia de espírito e da dura escravidão". Não há sinal de organização, de ânimo nem de disposição para sair.

A frase, portanto, descreve como exército um grupo que o próprio livro acabou de mostrar exausto e sem querer ouvir.

O Egito

Aparece duas vezes, e em papéis diferentes.

Na primeira, é o alvo: a mão será posta sobre ele. Na segunda, é o lugar de onde se sai. País golpeado e país de origem da saída, na mesma frase.

Repare que o texto não distingue região nem população. Quem é atingido é "o Egito", sem qualificação — e o livro só começará a separar áreas em Êxodo 8:22 e 9:26.

"A minha mão"

Não é pessoa nem lugar, e mesmo assim vale listar, porque é o elemento que faz a ação neste versículo.

A mão de Deus já tinha aparecido no livro: em Êxodo 3:19-20, na promessa da "mão forte" e da mão estendida, e em Êxodo 6:1, onde é a mão forte que fará o rei expulsar o povo. O que a imagem evocava no Egito, onde o braço erguido era o emblema do poder do rei, está tratado no estudo de Êxodo 3:20.

5. Pontos de Ensino

A resposta pode confirmar o pior

Moisés perguntou como seria ouvido e recebeu, quatro versículos depois, a informação de que não seria.

Há alguma coisa a aprender com a maneira como isso é dito. Não há reprovação da pergunta, não há promessa de que tudo daria certo, não há tentativa de animar ninguém. A previsão desfavorável é entregue inteira, e a incumbência continua de pé.

É um contraste útil com o modo devocional corrente de tratar a dúvida, que costuma respondê-la garantindo o resultado. Aqui a dúvida é respondida confirmando-a — e o que sustenta o envio é outra coisa, que aparece no versículo seguinte.

Um nome muda o que se enxerga

Aquele povo é chamado de exército num momento em que não tem nada de exército: está exausto, disperso, sob cota de trabalho, e acabou de se recusar a ouvir.

Vale distinguir duas coisas que se confundem com facilidade. Isto não é pensamento positivo, e não é dizer que chamar alguém de forte o torna forte. É uma afirmação sobre de quem aquela gente é — e a organização, no livro, virá depois da saída, não antes.

Três nomes para a mesma gente

Exércitos, povo, filhos de Israel. Um diz como estão arrumados, outro de quem são, o terceiro de quem descendem.

Nenhum dos três é falso e nenhum basta sozinho. Há um ensino discreto nisso, e ele serve para leitura de qualquer texto bíblico: a Bíblia costuma dizer a mesma coisa por camadas, e apagar uma camada em favor de outra empobrece o que está escrito.

O mesmo acontecimento tem dois nomes

"Grandes juízos" foi promessa em Êxodo 6:6, dita a quem estava embaixo. É ameaça aqui, dita a respeito de quem estava em cima.

O Êxodo não suaviza isso e não pede desculpa por isso. Quem lê o livro precisa saber que está lendo o relato de um dos lados — e que o livro sabe disso, tanto que usa a mesma palavra para as duas coisas.

É o ponto em que uma leitura honesta se separa de uma leitura de torcida. Reconhecer que há um lado que não é contado não enfraquece o texto; enfraquece apenas a leitura que precisava que ele não existisse.

6. Aspectos Filosóficos

A questão: o que um nome faz com aquilo que nomeia?

O versículo chama a mesma gente de três coisas em três palavras, e uma delas contradiz o que os olhos veem. Aquele grupo não é um exército. Está sob cota de trabalho, exausto, e acabou de se recusar a ouvir quem veio falar em nome dele.

A pergunta que isso levanta é antiga e não é religiosa: nomear é descrever ou é fazer?

A resposta fácil — nomear apenas descreve, e um nome errado é só um erro — não cobre o que acontece aqui, nem o que acontece em qualquer lugar onde alguém tem autoridade para nomear. Quem define a categoria define o tratamento. Chamar um grupo de tropa, de mão de obra, de estrangeiros ou de população tem consequências administrativas antes de ter consequências morais.

Repare, porém, no que o versículo faz e no que não faz. Ele não afirma que aquela gente virou exército ao ser chamada assim. E o livro é coerente com isso: a organização do povo em unidades não aparece aqui, e sim muito adiante, depois da saída.

O que a frase faz é outra coisa, e é mais modesta e mais dura ao mesmo tempo: ela troca o dono. Não diz o que aquela gente é; diz de quem ela é. E é essa afirmação — não a de força — que entra em choque com a reivindicação do rei do Egito.

O Êxodo não discute nada disso, e a observação é de quem lê.

7. Aplicações Práticas

Continuar quando o prognóstico já foi dado

A aplicação mais direta do versículo nasce da frase inicial: Faraó não os ouvirá — e eles vão assim mesmo, dois versículos adiante.

Isso tem uso em situações concretas e frequentes. A conversa que precisa ser tida com alguém que provavelmente não vai mudar. A posição que precisa ser registrada numa reunião em que a decisão já está tomada. O recurso que se apresenta sabendo que será negado. O aviso que se dá a quem não quer ouvir.

O que o texto oferece aqui não é otimismo. É uma separação útil: a razão de fazer uma coisa e a probabilidade de ela dar certo são duas perguntas diferentes, e a segunda não responde a primeira.

Convém dizer o limite, porque o princípio é fácil de deformar. Isto não é elogio da insistência inútil, e não vale para qualquer causa que alguém abrace. Moisés e Arão estão cumprindo uma incumbência recebida, com prazo e conteúdo definidos por outro. Quem não tem isso está em outra situação.

Quando o mau prognóstico vem de quem manda

Há um detalhe prático que passa despercebido e vale isolar: quem informou Moisés de que daria errado foi quem o estava enviando.

Isso é o oposto do que se costuma fazer. O hábito comum, em qualquer chefia, é esconder a dificuldade de quem vai executar, para não desanimá-lo. O resultado é sempre o mesmo: a pessoa descobre no meio do caminho e conclui que foi enganada.

O versículo mostra o outro modo — dizer antes, inteiro, e manter a tarefa. Quem já recebeu uma missão assim sabe a diferença que faz.

Sobre chamar as pessoas pelo nome errado — e pelo nome certo

Um povo exausto é chamado de exército. Não porque estivesse organizado, e sim porque o versículo está dizendo de quem ele é.

A aplicação está na distinção, e ela tem uso em casa, em sala de aula e em qualquer trabalho com gente: afirmar pertencimento é diferente de elogiar desempenho. Dizer a alguém "você é dos nossos" não é o mesmo que dizer "você está indo bem" — e a primeira coisa se sustenta em dias em que a segunda seria mentira.

O Êxodo não transforma esse dado em conselho, e este item não o transforma em técnica. É só o que a frase faz: mantém o vínculo num momento em que a condição da pessoa não o recomendaria.

Uma ressalva sobre a última parte do versículo

"Com grandes juízos" não tem aplicação prática, e é honesto dizer.

A frase anuncia o que virá sobre um país inteiro, e não oferece princípio de conduta para ninguém. Quem a usa para justificar a própria severidade com outras pessoas está fazendo com ela exatamente o que o texto não faz: transformar um anúncio sobre a ação de Deus em autorização para a ação de um homem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o rei não vai ouvir, para que mandá-los falar?

A pergunta é a mais natural do versículo, e a resposta está no versículo seguinte, não neste.

Êxodo 7:5 declara a finalidade: que os egípcios saibam. O convencimento do rei nunca foi apresentado como objetivo — e é por isso que a recusa dele não é, no vocabulário do livro, um insucesso.

O que este versículo acrescenta é a informação de que o fracasso da conversa estava previsto e foi comunicado aos dois homens antes de irem.

Por que "os meus exércitos", se aquela gente não era exército?

Porque a palavra hebraica não significa só tropa armada. Ela cobre também o turno de serviço com prazo e o conjunto organizado em unidades, e o campo inteiro está tratado no item 10 de Êxodo 6:26.

E porque, no Egito, a mesma administração cuidava de tropa e de turma de trabalho — o item 2 mostra como. O que a frase reivindica não é força; é propriedade.

Qual é a diferença entre "pôr a mão" e "estender a mão"?

São duas expressões hebraicas diferentes, e elas aparecem em versículos seguidos: esta em Êxodo 7:4, a outra em Êxodo 7:5.

Pôr a mão em alguma coisa é o gesto de agarrar e tomar. Estender a mão é o gesto de alcançar. O item 10 mostra a construção de cada uma.

Em português as duas soam quase iguais, e é fácil ler os dois versículos como repetição. Não são.

Por que o golpe é sobre "o Egito", e não sobre Faraó?

É a pergunta moral do versículo, e o Êxodo não a enfrenta.

O livro registra que o alvo é o país, e o mantém assim ao longo do ciclo inteiro: as pragas atingem rios, gado, lavoura e casas. O rei decide; a população paga.

O texto não justifica isso, não comenta e não se desculpa. Quem quiser uma explicação terá de construí-la — e deve dizer que a construiu, porque ela não está ali. O assunto já foi levantado no estudo de Êxodo 3:20.

Este versículo promete que o povo vai querer sair?

Não, e é bom notar.

Tudo o que o versículo diz sobre o povo está na voz passiva do ponto de vista deles: eles serão tirados. Não há aqui nenhum verbo em que Israel seja o sujeito.

Isso importa porque a última notícia que o livro deu sobre o povo, em Êxodo 6:9, foi a de que não ouviram. O texto não diz que isso mudou, e não voltará a falar deles neste capítulo.

9. Conexão com Outros Textos

A pergunta que este versículo responde

Êxodo 6:30 — "Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: 'Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?'"

Quatro versículos separam a pergunta da resposta, e a resposta é a confirmação do que a pergunta temia. Repare ainda na mudança de número: Moisés perguntou por si — "me ouvirá" —, e a resposta vem no plural, "não os ouvirá".

A mesma palavra para o povo, um capítulo antes

Êxodo 6:26 — "São estes o Arão e o Moisés a quem o SENHOR disse: 'Tirem os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos.'"

A palavra "exércitos" entra no livro ali, no fecho da genealogia, e o estudo daquele versículo é o dono dela. A diferença de uso é visível: lá a expressão descreve como sair — por unidades; aqui ela é um dos nomes do povo, e vem com possessivo.

A mesma promessa, dita a quem está embaixo

Êxodo 6:6 — "Portanto, diga aos filhos de Israel: 'Eu sou o SENHOR. Eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito, os livrarei da escravidão deles e os resgatarei com braço estendido e com grandes juízos.'"

"Grandes juízos" aparece ali pela primeira vez na Bíblia hebraica, dentro de uma fala de consolo. Aqui a mesma expressão está num anúncio sobre o Egito. Duas ocorrências em dois capítulos, e o endereço muda tudo.

O anúncio anterior, com a mesma mão

Êxodo 3:19-20 — "Eu sei, porém, que o rei do Egito não deixará vocês irem, a não ser por mão forte. Por isso estenderei a minha mão e ferirei o Egito com todas as maravilhas que farei no meio dele; depois disso ele deixará vocês irem."

Ponha os dois textos lado a lado e a semelhança é grande: o rei que não deixa, a mão, o golpe sobre o Egito. A diferença está no que vem depois. Lá, "depois disso ele deixará vocês irem". Aqui, "tirarei os meus exércitos" — não é o rei quem solta, é Deus quem tira.

O cumprimento, com a mesma palavra

Êxodo 12:41 — "E aconteceu que, ao fim dos quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do SENHOR saíram da terra do Egito."

Cinco capítulos adiante, a frase se cumpre com o mesmo vocabulário: exércitos, do SENHOR, da terra do Egito. É a mesma expressão de Êxodo 7:4, agora em relato e não em anúncio.

Os juízos, quando finalmente são nomeados

Êxodo 12:12 — "Naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei todo primogênito na terra do Egito, desde os homens até os animais; e contra todos os deuses do Egito executarei juízos. Eu sou o SENHOR."

Este é o lugar em que o livro diz contra quem os juízos são executados, e a resposta é inesperada: contra os deuses do Egito. Êxodo 7:4 não adianta nada disso; quem lê apenas este versículo não tem como saber o que está sendo anunciado.

A outra versão do mesmo desfecho

Êxodo 6:1 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Agora você verá o que farei a Faraó: com mão forte ele os deixará ir, e com mão forte os expulsará da sua terra.'"

Um capítulo antes, a saída é descrita como ato do rei: ele deixará ir, ele expulsará. Aqui, como ato de Deus: eu tirarei. O mesmo acontecimento, dois sujeitos, e o Êxodo usa as duas formulações sem escolher entre elas.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos.

Texto hebraico

וְלֹא־יִשְׁמַע אֲלֵכֶם פַּרְעֹה וְנָתַתִּי אֶת־יָדִי בְּמִצְרָיִם וְהוֹצֵאתִי אֶת־צִבְאֹתַי אֶת־עַמִּי בְנֵי־יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם בִּשְׁפָטִים גְּדֹלִים׃

Transliteração

we-lo yishma alekhem Par'oh, we-natatti et-yadi be-Mitsrayim, we-hotseti et-tsiv'otai et-ammi venei-Yisra'el me-erets Mitsrayim bi-shfatim gedolim.

Análise palavra por palavra

וְלֹא־יִשְׁמַע — we-lo yishma, "e não ouvirá".

Verbo shama no Qal, o tronco simples, imperfeito de terceira pessoa masculina do singular, com a negação.

A raiz cobre um campo largo: ouvir com o ouvido, entender, atender, obedecer. Em hebraico não há dois verbos para ouvir e obedecer, e é a construção da frase que decide qual dos sentidos está em jogo. Com a preposição que vem a seguir, o sentido é o de atender ao que se pede.

אֲלֵכֶם — alekhem, "a vocês".

Preposição el com sufixo de segunda pessoa masculina do plural. Duas notas.

A primeira é o número. É plural: não ouvirá vocês, os dois. O português "não os ouvirá" conserva.

A segunda é de grafia, e é um detalhe que os manuscritos preservaram. A forma normal desta preposição com sufixo plural é aleikhem, escrita com a letra que marca a vogal longa. Aqui o texto hebraico traz a forma curta, sem essa letra — uma grafia reduzida, correta e menos comum. É o tipo de variação que atravessa a transmissão do texto sem alterar o sentido, e vale o registro apenas como curiosidade de quem lê o original.

פַּרְעֹה — Par'oh, "Faraó".

O sujeito vem depois do verbo e do complemento, o que é a ordem normal do hebraico. A história do termo como título está no estudo de Gênesis 41:44.

וְנָתַתִּי אֶת־יָדִי בְּמִצְרָיִם — we-natatti et-yadi be-Mitsrayim, "e porei a minha mão no Egito".

Aqui está o achado do item, e é preciso comparar com o versículo seguinte para vê-lo.

O verbo é natan, dar, pôr, colocar — o mesmo de Êxodo 7:1, ali com Moisés como objeto. Está no perfeito de primeira pessoa, encadeado pela conjunção: "e eu porei".

Yad é mão, com sufixo de primeira pessoa. E a preposição é be, "em", "dentro de".

A expressão completa — pôr a mão em alguma coisa — não é a mesma que aparecerá em Êxodo 7:5. Lá o verbo será natah, estender, esticar, com a preposição al, "sobre".

Ponha as duas em fila:

Êxodo 7:4 — natan yad be: pôr a mão em. É o gesto de quem agarra, apreende, põe a mão sobre uma coisa para tomá-la. O hebraico usa essa construção para encostar a mão com intenção de segurar.

Êxodo 7:5 — natah yad al: estender a mão sobre. É o gesto de alcance, o braço que se estica na direção de alguma coisa distante.

Em português os dois viram quase a mesma frase, e é por isso que o leitor lê dois versículos seguidos como se repetissem a imagem. Em hebraico são gestos diferentes, com verbos de raízes diferentes.

Sobre o que a mão estendida evocava no Egito, e sobre o braço erguido como emblema do poder do rei, o dono é o item 2 de Êxodo 3:20.

וְהוֹצֵאתִי — we-hotseti, "e tirarei".

Raiz yatsa, sair, no Hiphil — a forma causativa —, perfeito de primeira pessoa encadeado: "e farei sair".

É o verbo central do livro, e o estudo de Êxodo 6:26 já o tratou. Registre-se apenas o contraste de sujeito: ali o verbo está no imperativo, dirigido a Moisés e Arão — tirem. Aqui está na primeira pessoa — eu tirarei. A mesma ação, dois agentes, dois versículos do mesmo livro.

אֶת־צִבְאֹתַי — et-tsiv'otai, "os meus exércitos".

Tsava no plural, com sufixo de primeira pessoa. O campo completo da palavra — o ramo militar, o do serviço com prazo e o do exército dos céus — está no item 10 de Êxodo 6:26, que é o dono do termo.

Duas notas de forma são próprias daqui.

A primeira: o possessivo. Em Êxodo 6:26 a palavra vinha com sufixo de terceira pessoa — "segundo os seus exércitos", os do povo. Aqui o sufixo é de primeira pessoa: os meus.

A segunda: ⚠️ esta palavra não tem nenhuma relação com o verbo "ordenar" que apareceu em Êxodo 7:2. As duas soam parecidas em transliteração — tsava e tsavah — e são raízes diferentes. O aviso está registrado no estudo de Êxodo 6:26 e se repete aqui porque os dois termos caíram a dois versículos de distância.

אֶת־עַמִּי — et-ammi, "o meu povo".

Segunda designação, e ela vem com a sua própria partícula de objeto direto.

Isso merece atenção, porque é a mesma construção que Êxodo 7:3 usou com "sinais" e "prodígios": cada termo com o seu et. A língua trata os dois nomes como objetos separados do mesmo verbo, e não como uma expressão única.

Am é povo, e a palavra tem dentro a ideia de parentesco — o conjunto dos aparentados, antes de ser o conjunto dos governados.

בְנֵי־יִשְׂרָאֵל — venei-Yisra'el, "os filhos de Israel".

Terceira designação, e esta vem sem partícula e sem possessivo.

A diferença é visível no original e desaparece na tradução. Os dois primeiros nomes são apresentados como objetos marcados, cada um com o seu et, e cada um com "meu". O terceiro entra solto, encostado nos anteriores — o nome de sempre, sem reivindicação.

O movimento da pilha, portanto, não é só de sentido: é de forma. Dois termos reivindicados, e depois o nome próprio do grupo, sem marca nenhuma.

מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם — me-erets Mitsrayim, "da terra do Egito".

Preposição de procedência mais erets em construção com o nome do país. É a terceira forma de nomear o mesmo chão em três versículos, e o item 10 de Êxodo 7:3 acompanha a série inteira.

Repare que o Egito aparece duas vezes neste versículo, com preposições opostas: be-Mitsrayim, a mão posta no Egito, e me-erets Mitsrayim, o povo tirado do Egito. Uma preposição entra, a outra sai.

בִּשְׁפָטִים גְּדֹלִים — bi-shfatim gedolim, "com grandes juízos".

Expressão idêntica à de Êxodo 6:6, inclusive na preposição, e o item 10 daquele versículo é o dono da palavra: shefatim designa os atos pelos quais uma sentença é executada, e não o processo de julgar.

O que o hebraico faz e o português não faz

Três perdas.

Os dois gestos de mão, que em hebraico são verbos diferentes e em português viram quase a mesma frase em dois versículos seguidos.

A marcação desigual dos três nomes do povo — dois com partícula e possessivo, o terceiro sem nada.

E a diferença entre o "ordenar" de Êxodo 7:2 e o "exército" deste versículo, que em hebraico são raízes sem parentesco e que, em transliteração, enganam qualquer leitor desavisado.

11. Conclusão

Três conclusões.

A primeira: o envio não depende do resultado.

Moisés perguntou como seria ouvido, e a resposta confirma o pior — não será. Mesmo assim a ordem permanece, e dois versículos adiante os dois homens a executam sem uma pergunta. Conclui-se que, neste livro, a incumbência não é medida pelo efeito que produz sobre quem a recebe; e conclui-se também que a informação desfavorável foi dada antes, por quem enviava, e não descoberta no caminho.

A segunda: o versículo troca o dono daquela gente.

"Os meus exércitos, o meu povo" reivindica, na frente do rei do Egito, propriedade sobre a mão de obra dele. E o faz com um vocabulário que, naquele país, já se aplicava àquelas pessoas — porque tropa e turma de trabalho eram administradas pela mesma máquina. Conclui-se que a frase não promete força a quem não a tem: afirma pertencimento a quem já estava enquadrado por outro.

A terceira: o mesmo acontecimento recebe dois nomes conforme o lado.

"Grandes juízos" foi consolo em Êxodo 6:6, dito a quem estava sob carga, e é anúncio de castigo aqui, dito a respeito de quem mandava. A expressão não muda; muda quem a ouve. Conclui-se que o Êxodo sabe estar contando um dos lados, e que não disfarça isso — e que uma leitura honesta do livro precisa reconhecer o lado que ele não conta, em vez de fingir que ele não existe.

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Êxodo 7:4

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