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Êxodo 6:13

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 29 acessos
O SENHOR, porém, falou a Moisés e a Arão e lhes deu ordem para os filhos de Israel e para Faraó, rei do Egito, a fim de tirarem os filhos de Israel da terra do Egito.
Dois irmãos de pé lado a lado sob o sol do meio-dia, um mais velho com o rosto marcado e o outro segurando um cajado, olhando na mesma direção, com muros de tijolo cru ao fundo.

Estudo


O SENHOR, porém, falou a Moisés e a Arão e lhes deu ordem para os filhos de Israel e para Faraó, rei do Egito, a fim de tirarem os filhos de Israel da terra do Egito.

1. Introdução

Moisés acabou de perguntar como o rei do Egito o ouviria, sendo ele incircunciso de lábios. Este versículo é o que vem em seguida — e não é uma resposta.

Nada aqui trata da pergunta. Não se diz como Faraó ouvirá, não se fala da boca de Moisés, não se corrige o argumento dele e não se promete resultado. O que se dá é uma ordem.

E a ordem tem três novidades.

A primeira: ela é dirigida a dois. É a primeira vez, em todo o Êxodo, que uma fala divina tem Moisés e Arão como destinatários juntos. Até aqui Deus falava a um ou a outro; a partir daqui os dois ficam no mesmo endereço.

A segunda: ela tem dois destinatários do outro lado. O mandado vale para os filhos de Israel e para Faraó — as duas partes do conflito, cobertas pelo mesmo encargo. É construção estranha, e o item 10 mostra que ela é estranha também em hebraico.

A terceira: a tarefa é enunciada com o verbo que, sete versículos antes, tinha Deus como sujeito. No versículo 6, o primeiro dos cinco verbos da promessa era "eu os tirarei"; aqui, o mesmo verbo aparece como o que Moisés e Arão devem fazer.

Vale notar que o versículo fecha o bloco. Depois dele, a narrativa para e entra uma lista de nomes, que ocupa doze versículos. A história só é retomada no versículo 26, e volta exatamente a este ponto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Por que se mandava dois

A partir deste versículo a incumbência é de duas pessoas. No mundo em que a cena se passa, isso não era exceção: tarefa de responsabilidade raramente saía com uma cabeça só, e os documentos mostram por quê.

Nas expedições do Estado. O Egito mandava turmas para longe — buscar pedra, cobre, turquesa, madeira — e mandava com estrutura. As paredes de rocha do Uádi Hamamate, o caminho que ligava o vale do Nilo ao mar Vermelho e onde se extraía uma pedra escura muito apreciada, estão cobertas de inscrições deixadas por essas expedições ao longo de séculos. Nelas o padrão se repete: registra-se quem comandava e registra-se quem o acompanhava no comando — um segundo nome, normalmente o do escriba, com título próprio. Quem assinava a missão eram duas pessoas, e as duas ficavam gravadas na pedra.

Na diplomacia. As mensagens entre cortes também não viajavam com um homem só. A prática documentada é a de comitivas, e com frequência o enviado de um rei retornava acompanhado do enviado do outro — o que garantia que a versão levada de volta pudesse ser conferida pelos dois lados. O que acontecia ao portador quando a mensagem desagradava está tratado no estudo de Êxodo 5:20; o que interessa aqui é apenas o número.

No direito. Um ato que precisasse ser provado depois exigia mais de uma pessoa presente. Os contratos do Antigo Oriente Próximo terminam com lista de testemunhas, e a palavra de um homem sozinho valia pouco quando contestada.

As três razões, e o que elas resolvem

Juntando os três campos, aparecem as razões práticas, e nenhuma delas é sentimental.

Havia a conferência: uma mensagem repetida por duas bocas pode ser verificada, e um recado alterado no caminho fica exposto. Havia a segurança: estrada, fronteira e antessala de palácio eram lugares em que uma pessoa sozinha corria risco e não tinha quem respondesse por ela. E havia a responsabilidade: com dois, o encargo não morre se um falhar — e é possível saber de quem foi a falha.

Um encargo voltado para dois lados opostos

Há neste versículo, porém, uma coisa que o costume não explica, e convém registrá-la como estranheza.

Um enviado, naquele mundo, servia a uma parte. Ia de alguém para alguém. O mandado deste versículo faz outra coisa: incumbe os mesmos dois homens em relação aos filhos de Israel e em relação a Faraó — a população retida e o poder que a retém, no mesmo encargo e na mesma frase.

Não se conhece instituição antiga que corresponda exatamente a isso. O que existia eram figuras que falavam para dentro ou para fora: o arauto que publicava as ordens do rei à população, tratado no estudo de Êxodo 4:30, e o mensageiro que levava a palavra a outra corte. As duas funções na mesma incumbência são desta cena.

O que o texto não diz

Vale fechar pelo limite, porque a tentação de explicar é grande. O Êxodo não diz por que Arão entra aqui. Não relaciona a entrada dele com a objeção do versículo anterior, não repete o arranjo de Êxodo 4:15 — em que Arão seria a boca de Moisés — e não distribui tarefas entre os dois. Apenas passa a nomear os dois juntos.

Que a inclusão de Arão responda à alegação sobre os lábios é leitura plausível, sustentada pela vizinhança dos versículos, e não é demonstrável. O fundo histórico mostra que mandar dois era o normal; ele não autoriza afirmar o motivo neste caso.

3. Análise Teológica do Versículo

"O SENHOR, porém, falou a Moisés e a Arão"

A primeira informação do versículo é o número de destinatários, e ela é um marco no livro.

Até aqui, as falas divinas tiveram sempre um endereço só. Moisés é o interlocutor do Horebe em diante; Arão recebeu uma ordem própria, sozinho, em Êxodo 4:27, quando lhe foi dito que fosse ao deserto encontrar o irmão. Esta é a primeira vez que os dois aparecem juntos como destinatários de uma fala de Deus, e daqui em diante a construção se repetirá muitas vezes no Êxodo.

Convém dizer o que o texto não faz com isso. Não explica a inclusão. Não a apresenta como resposta à objeção do versículo 12. Não retoma o arranjo de Êxodo 4:15, em que Arão falaria por Moisés. Não distribui funções. Apenas nomeia os dois, com a preposição repetida diante de cada nome — o que, no hebraico, dá a cada um o mesmo estatuto de destinatário.

A vizinhança com a objeção é sugestiva e é preciso tratá-la com cuidado. Moisés diz que os lábios dele não servem; o versículo seguinte põe outra boca ao lado da dele. A ligação é leitura plausível — e continua sendo leitura, porque nenhuma palavra do texto a estabelece.

"e lhes deu ordem"

Aqui está o coração do versículo, e ele se enxerga por contraste.

Volte ao capítulo 4. Quando Moisés alegou ser pesado de boca, a resposta foi direta ao ponto: "Quem fez a boca do homem?", e depois "eu estarei com a sua boca e lhe ensinarei o que deve dizer". A objeção foi tratada. O argumento foi respondido, com uma pergunta e uma promessa, e o assunto era exatamente aquele que Moisés levantara.

Agora compare com o que acontece aqui. Moisés alega duas coisas — que o povo não o ouviu e que os seus lábios não estão em condição — e nenhuma das duas é mencionada. Não se diz que Faraó ouvirá. Não se diz que a boca dele não é problema. Não se diz que o argumento está errado. Dá-se uma ordem.

É preciso ser exato sobre o que isso é e o que não é. Não é repreensão: não há uma palavra de censura. Não é concessão: nada do que foi exigido no versículo 11 é retirado. E não é explicação. A resposta a uma pergunta é uma incumbência, e a pergunta continua de pé — tanto que reaparecerá inteira no versículo 30.

O verbo usado, na sua área de sentido, é o de encarregar alguém de alguma coisa, com autoridade — o mesmo que serve para a ordem de um superior e para a disposição que alguém deixa antes de morrer. O item 10 trata da palavra.

"para os filhos de Israel e para Faraó, rei do Egito"

Esta é a parte estranha do versículo, e a estranheza está também no hebraico, como o item 10 mostra.

O mandado é dado a Moisés e Arão, e é dado em relação a duas outras partes. E que partes: de um lado a população escravizada, que três versículos antes não deu ouvidos; do outro o rei que a retém, que no capítulo anterior disse não conhecer aquele nome. As duas metades do conflito entram na mesma frase, ligadas por um "e".

Três observações, e nenhuma conclusão fechada.

A primeira: o texto não diz o que deve ser feito em relação a cada parte. Não há "diga isto ao povo e aquilo ao rei". Há um encargo único, e ele cobre os dois.

A segunda: as duas recusas já aconteceram. O povo recusou no versículo 9, o rei recusou em Êxodo 5:2. O mandado é dado depois de as duas portas terem sido fechadas, e não menciona nenhuma das duas recusas.

A terceira: a construção admite mais de uma leitura — o encargo pode ser entendido como dirigido a essas duas partes ou como relativo a respeito delas. Não é possível decidir pela gramática, e a diferença prática é pequena; o que ela mostra é que a frase foi construída para cobrir os dois lados de uma vez.

"a fim de tirarem os filhos de Israel da terra do Egito"

O fim do versículo diz para que serve tudo isso, e usa um verbo que o leitor do capítulo já viu.

No versículo 6, a promessa abria com "eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito" — e aquele era o primeiro dos cinco verbos em primeira pessoa que sustentam a promessa, tratados no estudo daquele versículo. Aqui o mesmo verbo reaparece, e o sujeito mudou: o que era ação de Deus é agora a tarefa de dois homens.

O texto não comenta a mudança e não a explica. Ela é observável, e produz uma tensão que o livro carregará até o fim: a saída do Egito é descrita ora como obra de Deus, ora como obra de Moisés e Arão, e o Êxodo usa as duas descrições sem escolher. O versículo 26, que retoma a narrativa depois da lista de nomes, faz exatamente a mesma coisa — põe a ordem de tirar o povo na boca de Deus, dirigida aos dois.

Repare ainda na fórmula final. "Da terra do Egito", sem possessivo — diferente do versículo 11, onde o país era "a sua terra", de Faraó. A mudança é pequena e é consistente: quando se fala ao rei, o país é dele; quando se fala do que será feito, o país é apenas um lugar.

O que o versículo não faz

Três ausências fecham o bloco inteiro.

Não há promessa de êxito. Nada é dito sobre como a coisa terminará, e o aviso de Êxodo 3:19 não é repetido.

Não há prazo, roteiro ou método. O mandado diz o alvo e não diz o caminho — exatamente como a ordem do versículo 11.

E não há reação de Moisés. O texto não registra se ele aceitou, se calou, se foi. A narrativa simplesmente para aqui, e o que vem em seguida é uma lista de nomes.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Arão, que entra aqui

Vale reunir o que o livro já disse dele, porque este versículo muda a posição que ele ocupa.

Arão apareceu pela primeira vez em Êxodo 4:14, apresentado como irmão de Moisés e como alguém que "fala bem". Em Êxodo 4:15 ficou combinado que Moisés lhe poria as palavras na boca. Em Êxodo 4:27 recebeu uma ordem própria — ir ao deserto encontrar o irmão — e em Êxodo 4:30 falou ao povo e fez os sinais. Em Êxodo 5:1 e 5:4 esteve diante do rei, e em Êxodo 5:20 estava com Moisés quando os supervisores israelitas os encontraram.

Ou seja: ele já agia junto. O que muda aqui é o estatuto. Até este versículo, Arão executava o que Moisés recebia; a partir daqui, recebe também. O Êxodo não comenta a promoção e não diz de quem foi a iniciativa.

A genealogia que vem logo a seguir apresentará os dois com documento — e, quando a narrativa voltar, no versículo 26, o nome de Arão virá primeiro.

Moisés, agora acompanhado

Do lado dele, o dado é de alívio parcial e o texto não o celebra. Ele objetou sozinho no versículo 12; recebe o encargo em dupla no versículo 13. Não há registro de reação, agradecimento ou nova objeção.

Vale reter que a objeção não foi retirada: ela volta no versículo 30, e volta na boca dele, sozinho.

As duas partes que o mandado nomeia

Os filhos de Israel aparecem aqui duas vezes — uma como parte a que o encargo se refere, outra como quem deve ser tirado do Egito. É a terceira posição diferente que eles ocupam em cinco versículos: sujeito que não ouve, objeto que deve ser solto, e agora destinatário de um mandado que não lhes é comunicado.

Faraó aparece com a designação dobrada — título egípcio mais descrição comum —, a mesma do versículo 11 e a mesma que voltará nos versículos 27 e 29. Ele é a única figura nomeada do lado egípcio em todo o bloco.

O lugar: uma terra chamada de duas maneiras

O país aparece duas vezes neste versículo: "rei do Egito" e "terra do Egito". Não há possessivo, ao contrário do versículo 11 — e não há indicação de onde Moisés e Arão estão quando recebem a ordem.

O acontecimento, e a interrupção que vem depois

O que acontece aqui cabe em uma linha: dois homens recebem um encargo. Não há viagem, não há audiência, não há resposta.

E é o último acontecimento do capítulo por doze versículos. A partir do versículo 14 entra a genealogia, e a narrativa só é retomada no versículo 26, com uma frase que aponta para trás — "são estes o Arão e o Moisés a quem o SENHOR disse" — e que se refere exatamente a este mandado.

5. Pontos de Ensino

Nem toda resposta responde

É o ensino principal, e ele se apoia numa comparação dentro do próprio livro. Em Êxodo 4:11-12, a objeção sobre a boca recebeu resposta sobre a boca. Aqui, duas objeções ficam sem tratamento e o que vem é uma ordem. Quem ensina este trecho deve mostrar a diferença em vez de suavizá-la: o texto registra um caso em que a pergunta não foi respondida.

Uma incumbência pode ser a única resposta disponível

Sem transformar isso em doutrina, vale notar o que o versículo faz: ele não convence, não explica e não garante. Dá o que fazer. Há situações em que é isso que se recebe, e reconhecer que o Êxodo descreve uma delas evita a leitura falsa de que toda dúvida sincera termina em esclarecimento.

Trabalho difícil raramente vai sozinho

A partir deste versículo, o encargo é de dois. O fundo histórico mostra que essa era a prática comum para missões de responsabilidade, e as razões eram práticas: conferir a mensagem, dividir o risco, ter quem responda. O Êxodo não diz por que Arão foi incluído — mas o arranjo que passa a valer daqui em diante é esse.

O mesmo encargo vale para os dois lados

O mandado cobre a população retida e o poder que a retém. Não são duas missões: é uma. Para quem tem de conduzir um conflito, o dado é instrutivo — falar com quem se quer ajudar e falar com quem se opõe fazem parte da mesma tarefa, e a primeira não é necessariamente mais fácil que a segunda, como o versículo 9 mostrou.

Quem age não substitui quem promete

O verbo de tirar o povo do Egito aparece no versículo 6 com Deus como sujeito e aqui como tarefa de dois homens. O Êxodo usa as duas descrições sem escolher entre elas e sem explicar como se combinam. Quem ensina este capítulo faz bem em apresentar a tensão como ela está, em vez de resolvê-la com uma fórmula.

A narrativa para, e isso também é leitura

Depois deste versículo entram doze versículos de nomes. É um corte brusco, e é deliberado: o texto só volta ao assunto no versículo 26, retomando esta mesma ordem. Quem lê o capítulo sem notar isso perde o desenho — e quem prega apenas o trecho narrativo deixa de fora aquilo que o próprio capítulo julgou necessário dizer no meio.

6. Aspectos Filosóficos

Obrigar sem convencer

O versículo encena uma situação que a filosofia moral conhece bem: alguém levanta uma objeção razoável, a objeção não é refutada, e a obrigação permanece.

Isso separa duas coisas que costumam andar juntas. Uma é a força de um argumento, que se mede pela capacidade de persuadir quem ouve. A outra é a força de um comando, que não depende de persuasão nenhuma: vale porque vem de quem tem autoridade para dá-lo. Onde as duas coincidem, obedecer e concordar são a mesma coisa. Onde não coincidem — e é o caso aqui —, quem recebe a ordem fica com a obrigação e com a dúvida ao mesmo tempo.

O texto não resolve essa distância, e vale registrar que também não a suaviza: não há tentativa de convencer Moisés, e não há sanção por ele não estar convencido. A objeção fica de pé, e a incumbência também.

O intermediário posto entre duas partes

Há um segundo problema no versículo, e ele é de posição. O mesmo encargo põe dois homens em relação à população retida e em relação a quem a retém. Não são dois mandatos: é um.

Quem ocupa uma posição dessas tem um problema estrutural, e não de caráter: não pode representar plenamente nenhum dos dois lados. Diante do rei, fala por um povo que não o autorizou — e que, três versículos antes, não lhe deu ouvidos. Diante do povo, traz uma palavra que não é dele e cujo efeito imediato, no capítulo anterior, foi o agravamento da carga.

O Êxodo não discute isso. Registra o encargo numa frase e passa à lista de nomes. A leitura acima serve para nomear a posição em que os dois homens ficam; não é afirmação do texto, e o texto não dá sinal de considerá-la um problema.

7. Aplicações Práticas

Quando a dúvida não é respondida e a tarefa continua

A aplicação real deste versículo é a situação de quem levanta uma objeção pertinente e recebe de volta, não um esclarecimento, mas a mesma tarefa.

Acontece em qualquer relação de trabalho e em muitas outras. A pessoa aponta um obstáculo concreto, mostra o que deu errado da última vez, e a resposta é a instrução repetida. A reação natural é tratar isso como desrespeito; o versículo mostra um caso em que a objeção não foi desconsiderada nem punida — simplesmente não foi respondida.

A observação prática que decorre daí é modesta: distinguir "não me responderam" de "me ignoraram". São coisas diferentes, e confundi-las azeda conversas que ainda estão de pé. No texto, a objeção continua viva — tanto que volta, intacta, no versículo 30.

Fazer em dupla o que não se fez sozinho

A partir daqui há dois nomes no encargo. O Êxodo não diz que isso aconteceu por causa da objeção, e é honesto não afirmar o que o texto não afirma. O que se pode aproveitar é o arranjo em si, e as razões práticas que o mundo antigo tinha para adotá-lo: quem vai em dois tem quem confira o recado, quem divida o risco e quem responda no lugar do outro.

Para quem está diante de uma tarefa que já falhou uma vez, a pergunta útil não é "como me esforçar mais", e sim quem mais precisa estar nisto.

Receber o alvo sem receber o caminho

O mandado diz o que deve acontecer — tirar aquele povo do Egito — e não diz como. Não há método, não há prazo, não há garantia. É a mesma falta de roteiro do versículo 11, agora estendida a dois.

Vale extrair daí uma aplicação sóbria, sem heroísmo. Boa parte das incumbências chega assim, definida pelo resultado esperado; e o texto não sugere que a falta de instruções seja sinal de confiança nem de descaso. Ela é apenas o que está escrito. O que o Êxodo mostra, logo adiante, é que os dois foram — e que a objeção continuou existindo enquanto isso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Arão entrou porque Moisés alegou não saber falar?

É a explicação mais natural e o texto não a oferece. Não há aqui nenhuma menção à boca de Moisés, nenhuma referência ao arranjo de Êxodo 4:15 e nenhuma frase ligando as duas coisas. A vizinhança entre a objeção e a inclusão é real; a relação causal é leitura plausível, e não afirmação do Êxodo.

Este versículo responde à pergunta do versículo 12?

Não. Nada nele trata de como Faraó ouvirá nem dos lábios de Moisés. Dá-se uma ordem, e a pergunta reaparece inteira no versículo 30. É um dos pontos em que o capítulo deixa deliberadamente uma coisa em aberto.

O mandado foi dado aos filhos de Israel e a Faraó, ou a respeito deles?

A construção hebraica admite as duas leituras, e o item 10 mostra por quê. Não é possível decidir pela gramática. O efeito, nas duas leituras, é o mesmo: um único encargo que cobre os dois lados do conflito.

Se Deus prometeu tirar o povo no versículo 6, por que a tarefa é dada a dois homens aqui?

O Êxodo usa as duas descrições e não explica como se combinam. O mesmo verbo aparece nos dois lugares, com sujeitos diferentes, e o livro fará isso outras vezes. Qualquer sistema que concilie as duas frases é do comentarista — o texto não o oferece.

Moisés e Arão foram falar com Faraó depois disto?

Não dentro deste capítulo. A narrativa para no versículo seguinte e entra uma genealogia; quando é retomada, no versículo 26, ela aponta para trás, para este mandado, e o capítulo termina no versículo 30 com a objeção repetida. A audiência não é narrada aqui.

Por que a genealogia entra logo depois deste versículo?

O texto não explica, e a pergunta pertence ao estudo do versículo 14, onde a forma da lista e a função dela são tratadas. O que se observa deste lado é que a interrupção acontece exatamente quando os dois homens acabam de ser postos juntos no mesmo encargo — e que a lista existe, entre outras coisas, para dizer quem são esses dois.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo que muda de sujeito

Êxodo 6:6 — "Portanto, diga aos filhos de Israel: 'Eu sou o SENHOR. Eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito, os livrarei da escravidão deles e os resgatarei com braço estendido e com grandes juízos.'"

Sete versículos separam a promessa em primeira pessoa da tarefa entregue a dois homens. É o mesmo verbo nos dois lugares, e o Êxodo não explica a passagem de um sujeito ao outro.

A primeira formulação da mesma tarefa

Êxodo 3:10 — "Vá agora: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel."

No Horebe o encargo já era esse, e era de um homem só. A diferença deste versículo está no número e na inclusão do rei no próprio mandado.

Arão, antes de ser incluído

Êxodo 4:15 — "Você falará com ele e porá as palavras na boca dele; e eu estarei com a sua boca e com a boca dele, e lhes ensinarei o que devem fazer."

Êxodo 4:27 — "O SENHOR disse a Arão: 'Vá ao deserto encontrar-se com Moisés.' Ele foi, encontrou-o no monte de Deus e o beijou."

O primeiro versículo mostra o arranjo em que Arão dependia das palavras do irmão; o segundo, a única ordem que ele recebera diretamente até aqui. Nenhum dos dois é retomado neste versículo.

A retomada depois da lista de nomes

Êxodo 6:26 — "São estes o Arão e o Moisés a quem o SENHOR disse: 'Tirem os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos.'"

É este mandado citado de volta, doze versículos depois, com a mesma tarefa e os mesmos dois nomes — agora com Arão na frente. O estudo daquele versículo trata da ordem dos nomes e do vocabulário militar que ali aparece.

A objeção que o mandado não respondeu

Êxodo 6:30 — "Mas Moisés respondeu diante do SENHOR: 'Eis que sou incircunciso de lábios; como Faraó me ouvirá?'"

O fim do capítulo mostra que a incumbência não encerrou a questão. A mesma alegação volta, e o capítulo acaba com ela.

O que já se sabia sobre a resposta do rei

Êxodo 3:19 — "Eu sei, porém, que o rei do Egito não deixará vocês irem, a não ser por mão forte."

O aviso está no livro desde o capítulo 3 e não é repetido aqui. Vale ter isso presente: o mandado deste versículo é dado sem que nada se diga sobre o desfecho, embora o próprio Êxodo já o tenha antecipado noutro lugar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

O SENHOR, porém, falou a Moisés e a Arão e lhes deu ordem para os filhos de Israel e para Faraó, rei do Egito, a fim de tirarem os filhos de Israel da terra do Egito.

Texto hebraico

וַיְדַבֵּר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה וְאֶל־אַהֲרֹן וַיְצַוֵּם אֶל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאֶל־פַּרְעֹה מֶלֶךְ מִצְרָיִם לְהוֹצִיא אֶת־בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם

Transliteração

wa-yedabber YHWH el-Mosheh we-el-Aharon, wa-yetsawwem el-benei Yisrael we-el-Par'oh melekh Mitsrayim, lehotsi et-benei-Yisrael me-erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

אֶל־מֹשֶׁה וְאֶל־אַהֲרֹן — el-Mosheh we-el-Aharon, "a Moisés e a Arão". Repare que a preposição vem repetida diante de cada nome. O hebraico poderia dizer "a Moisés e Arão", com uma só; ao repetir, dá a cada um o mesmo estatuto de destinatário, em vez de acrescentar o segundo como companhia do primeiro.

A fórmula, com os dois nomes, é a primeira do Êxodo e se tornará frequente daqui em diante.

וַיְצַוֵּם — wa-yetsawwem, "e os incumbiu". É o verbo tsavah no Piel, a forma intensiva do hebraico, com o pronome de terceira pessoa do plural colado ao fim — "a eles dois".

O campo de sentido desta palavra é mais largo do que "mandar". Ela cobre:

A ordem dada por quem tem autoridade, que é o uso comum no Pentateuco — o que Deus ordena, o que o rei ordena, o que o pai ordena.

A incumbência propriamente dita: encarregar alguém de uma função, pôr sob a responsabilidade dele uma tarefa determinada. É esse o sentido em que o verbo aparece quando se nomeia alguém para um posto.

E a disposição que se deixa antes de morrer — o mesmo verbo é usado quando um homem dá as suas últimas determinações sobre a casa e sobre o sepultamento, em Gênesis 49:29 e 49:33.

O traço comum às três é este: não se trata de pedir nem de persuadir. Quem usa este verbo dispõe. E é por isso que ele é o verbo certo para o que acontece neste versículo: a objeção não é discutida, é coberta por um encargo.

אֶל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאֶל־פַּרְעֹה — el-benei Yisrael we-el-Par'oh. É a construção difícil do versículo.

O problema é o seguinte. Quando o verbo tsavah tem a pessoa incumbida, essa pessoa aparece ligada diretamente ao verbo — aqui, no sufixo "os". O que o hebraico normalmente traz em seguida é o conteúdo da incumbência. Mas o que vem aqui não é conteúdo: é a preposição de direção, duas vezes, diante de duas partes.

Ao pé da letra, portanto, a frase diz: "e os incumbiu para os filhos de Israel e para Faraó". As saídas propostas são duas.

Numa leitura, a preposição marca o destino da incumbência: eles são encarregados de ir a essas duas partes. Noutra, marca o assunto: eles são encarregados a respeito dessas duas partes. As traduções em português oscilam entre "ordem para" e "ordem acerca de", e as antigas versões também hesitaram.

Não é possível decidir, e a diferença prática é pequena. O que a construção mostra, em qualquer das leituras, é uma escolha: a frase foi montada para pôr os dois lados do conflito dentro de um único encargo, sem distribuir tarefa entre eles.

מֶלֶךְ מִצְרָיִם — melekh Mitsrayim, "rei do Egito", a designação que acompanha o título egípcio também nos versículos 11, 27 e 29 deste capítulo.

לְהוֹצִיא — lehotsi, "para tirar, para fazer sair". É o verbo yatsa, "sair", na forma causativa — a que transforma "sair" em "fazer sair" —, no infinitivo, precedido da preposição de finalidade.

É o verbo do Êxodo inteiro. Ele é o primeiro dos cinco verbos da promessa do versículo 6, tratados no estudo daquele versículo; é o verbo da fórmula que a Bíblia repetirá centenas de vezes — "o SENHOR, que te tirou da terra do Egito" —; e é, em grego, a palavra que deu nome ao livro, porque êxodo significa saída.

O que interessa aqui é o sujeito. No versículo 6, a forma é de primeira pessoa: eu os tirarei. Aqui, o infinitivo não tem sujeito marcado, e quem o cumpre são os dois homens recém-incumbidos. O mesmo verbo, portanto, descreve a ação de Deus e a tarefa dos enviados, sem que o texto explique a relação entre as duas coisas.

מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם — me-erets Mitsrayim, "da terra do Egito". Compare com o versículo 11, que dizia "da sua terra", com o possessivo referido a Faraó. Aqui não há dono: o país é nomeado, e nada mais.

O que o hebraico faz e o português não faz

Duas coisas, e as duas são de gramática.

A primeira é a repetição da preposição diante de cada nome, que em português soa apenas como estilo — "a Moisés e a Arão" — e que no hebraico é o modo de dizer que os dois são destinatários em igual medida.

A segunda é a estranheza da construção do meio do versículo. O leitor do original tropeça nela: a frase não se resolve limpa, e é por isso que as traduções divergem. Qualquer versão em português precisa escolher uma das leituras e, ao escolher, esconde do leitor que havia uma dificuldade ali.

11. Conclusão

Do que foi exposto saem quatro conclusões.

A primeira: o que vem depois de uma pergunta nem sempre é uma resposta. Moisés perguntou como o rei o ouviria e alegou lábios sem condição; este versículo não menciona nenhuma das duas coisas. A comparação com Êxodo 4:11-12, onde uma objeção equivalente foi respondida no assunto dela, torna a diferença visível — e mostra que o Êxodo sabe responder quando responde.

A segunda: a incumbência substitui o argumento. Não há repreensão, não há concessão e não há explicação; há uma disposição feita com o verbo de quem tem autoridade para dispor. A objeção permanece de pé — e volta inteira no versículo 30 —, o que basta para mostrar que ela não foi desfeita, apenas coberta.

A terceira: a partir daqui são dois. É a primeira fala divina do Êxodo dirigida a Moisés e a Arão juntos, com o mesmo estatuto para cada um. O texto não diz por que, e a relação com a objeção anterior é leitura plausível, não afirmação. O que se pode dizer é que mandar dois era a prática corrente do mundo antigo para tarefas de responsabilidade, e que é esse o arranjo que passa a valer no livro.

A quarta: um único encargo cobre os dois lados do conflito. A população retida e o rei que a retém entram na mesma frase, ligados pela mesma preposição, sem divisão de tarefa. A construção é difícil em hebraico e não permite decidir se o encargo é dirigido a eles ou relativo a eles; em qualquer leitura, o desenho é o mesmo.

E fica o registro do que este versículo faz com o verbo da promessa. No versículo 6, tirar o povo do Egito era ação de Deus; aqui, é o que dois homens devem fazer. O Êxodo põe as duas frases no mesmo capítulo, usa a mesma palavra nas duas e não explica como elas se combinam — deixando para o leitor uma tensão que o livro carregará até o fim.

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%