Você falará com ele e porá as palavras na boca dele; e eu estarei com a sua boca e com a boca dele, e lhes ensinarei o que devem fazer.
1. Introdução
Este versículo monta o arranjo que vai valer pelo resto do livro, e o monta em quatro movimentos curtos.
Moisés falará com Arão. Moisés porá as palavras na boca de Arão. Deus estará com as duas bocas. E Deus ensinará aos dois o que devem fazer.
O que se acrescenta ao versículo 12 é grande, e vale separar desde já.
A promessa de companhia dobra. Antes era "estarei com a sua boca"; agora é "com a sua boca e com a boca dele". É a mesma palavra hebraica que virou o nome de Deus em Êxodo 3:14 — e esta é a quarta vez que ela é dita nesta conversa. O achado é o eco, e o tratamento dele está no estudo do versículo 12.
E há um detalhe que merece atenção: a boca de Arão também precisa de companhia. Ele é o que fala bem, e ainda assim a promessa o inclui. Falar bem, pelo que este versículo mostra, não bastava.
Moisés passa a fazer com Arão o que Deus faz com os profetas. "Pôr as palavras na boca" é a linguagem exata do envio profético. Aqui quem põe é um homem, e o item 3 mostra que o verbo escolhido é o mesmo com que Deus, quatro versículos antes, reivindicou ter posto a boca no ser humano.
E há uma troca no fim que quase ninguém nota. No versículo 12 a promessa era ensinar o que dizer. Aqui é ensinar o que fazer — e no plural, aos dois.
2. Contexto Histórico e Cultural
A mensagem antiga morava numa boca
"Pôr as palavras na boca de alguém" soa, hoje, como figura de linguagem. Naquele mundo era a descrição técnica de um procedimento.
A razão é material. Nas cortes do Antigo Oriente Próximo, a escrita existia e era usada — mas o que chegava ao destinatário não era um documento entregue e lido em silêncio. A mensagem era pronunciada, diante de quem devia ouvi-la, por quem a levava. Quando havia tabuinha, ela funcionava com frequência como credencial e apoio; o corpo da comunicação passava pela voz.
Daí uma consequência que muda a leitura do versículo: carregar uma mensagem era guardá-la na memória e reproduzi-la em voz alta. O enviado não era um envelope; era o suporte. E "pôr as palavras na boca" descreve exatamente a operação de carregá-lo — dizer a ele o que ele dirá, até que esteja fixado.
Como se fixava um texto sem papel
Convém saber como isso se fazia, porque o método explica a expressão.
Fixava-se pela repetição em voz alta. Quem devia guardar um texto ouvia-o e repetia-o, muitas vezes, até que a sequência das palavras estivesse presa. Não é técnica exótica: foi assim que se transmitiram, durante séculos, poemas, listas, fórmulas de juramento e leis, em culturas que já escreviam.
É por isso que o hebraico usa "na boca" para o que alguém sabe de cor. O que está na boca não é o que está sendo dito neste instante — é o que está disponível para ser dito.
E a responsabilidade de quem levava
Uma última nota, e ela dá o peso do arranjo.
Quem levava a mensagem respondia pela fidelidade dela. A autoridade continuava sendo de quem mandava, mas o risco de deformação era do transporte — e um recado alterado no caminho era problema sério, porque não havia como conferir depois. É provavelmente por isso que a expressão insiste na boca: o que se garantia não era a boa vontade do mensageiro, era o conteúdo depositado nele.
Guardado isso, o versículo fica mais nítido. O que se está montando não é uma parceria entre dois irmãos: é uma cadeia de transmissão, com etapas definidas e com responsabilidade em cada uma. O item 3 mostra quantos elos ela tem e o que muda por ter um a mais.
3. Análise Teológica do Versículo
"Você falará com ele"
A instrução começa pelo elo mais simples, e é bom notar quem faz o quê.
Quem fala com Arão é Moisés. Não é Deus — pelo menos não neste versículo, e não sobre o conteúdo da missão. A ordem que põe Arão a caminho virá mencionada no versículo 27, e é uma ordem de deslocamento, não de mensagem.
Isso já organiza a cena: Arão receberá de Moisés o que Moisés recebeu de Deus. Ele não é um segundo destinatário da revelação; é o destinatário de uma transmissão.
E repare no verbo. É o mesmo que Moisés usou no versículo 10 para dizer o que não sabe fazer. A tarefa que se lhe atribui aqui é, literalmente, falar.
"e porá as palavras na boca dele"
Aqui está a frase forte do versículo, e ela tem duas camadas.
A primeira é o que a expressão é. "Pôr as palavras na boca" não é imagem: é a linguagem própria do envio profético no Antigo Testamento. É o que Deus diz a Jeremias ao tocar-lhe a boca, é o que Deuteronômio 18:18 anuncia sobre o profeta que virá, e é o que Balaão declara em Números 22:38, ao dizer que só pode falar o que lhe foi posto na boca. O item 9 reúne as passagens.
E a segunda é quem faz a operação aqui. Nas outras ocorrências, quem põe as palavras é Deus. Neste versículo, quem põe é Moisés.
Não convém exagerar o que isso significa — o versículo 16 dirá a frase que realmente pesa, e o estudo dele trata dela. Mas o dado é do texto: Moisés é instruído a fazer com Arão exatamente o que Deus faz com um profeta. A cadeia ganhou um elo, e o elo novo repete a forma do anterior.
E o verbo escolhido tem história neste capítulo
Este é o achado do versículo, e ele só aparece no hebraico.
O verbo traduzido por "porá" é o mesmo que Deus usou no versículo 11, na pergunta que respondeu à queixa de Moisés: quem pôs a boca no ser humano? É a mesma raiz, o mesmo verbo de instalar, colocar, dispor — e a análise dele está no item 10 daquele versículo.
Ponha as duas frases uma ao lado da outra e veja o desenho. Deus reivindicou ter posto a boca. Agora manda Moisés pôr as palavras dentro de outra boca. O que se atribui ao homem é uma versão da operação que quatro versículos antes foi reivindicada como divina — não a fabricação do órgão, mas o abastecimento dele.
Registre-se o limite, porque é fácil forçar aqui. O Êxodo não comenta a repetição, e o verbo é comum na língua. Que ela seja deliberada é leitura plausível e não é demonstrável — e, como sempre, o que a tradução pode fazer é conservar a mesma palavra portuguesa nos dois lugares e deixar a pergunta disponível.
"e eu estarei com a sua boca e com a boca dele"
A promessa do versículo 12, repetida e dobrada.
A palavra hebraica é a mesma que virou o nome de Deus em Êxodo 3:14, e esta é a quarta vez que ela é dita nesta conversa — depois de Êxodo 3:12, Êxodo 3:14 e Êxodo 4:12. O tratamento do eco está no estudo do versículo 12 e não se repete aqui.
O que é próprio deste versículo é a duplicação, e ela tem duas consequências.
A primeira: falar bem não bastava. Arão é apresentado, no versículo anterior, exatamente por saber falar. Se a competência dele resolvesse o problema, a promessa não precisaria alcançá-lo. Alcança — e alcança pelo mesmo caminho pelo qual alcançou a boca defeituosa de Moisés.
É um dado que desmonta a leitura simples do arranjo, segundo a qual Deus teria substituído uma boca ruim por uma boa. Não é isso que o texto diz. As duas bocas recebem a mesma coisa.
A segunda: a promessa continua sendo de companhia, e não de capacitação. Não se diz que a boca de Arão será tornada eficaz, nem que a de Moisés será consertada. Diz-se que ele estará com elas.
Vale notar, por fim, a raridade da construção. Promessas de que Deus estará com uma parte do corpo de alguém são pouquíssimas no Antigo Testamento, e este versículo traz duas de uma vez.
"e lhes ensinarei o que devem fazer"
A frase parece repetir o fim do versículo 12 e não repete. Duas coisas mudaram, e as duas importam.
Mudou o número. Ali o verbo trazia sufixo de segunda pessoa do singular — ensinarei você. Aqui é plural: ensinarei vocês. A instrução deixa de ser dirigida a um homem e passa a alcançar a dupla, antes mesmo de a dupla existir de fato.
E mudou o objeto. Ali era "o que você deve dizer". Aqui é "o que vocês devem fazer".
A troca é observável e o Êxodo não a explica. Duas leituras cabem.
Numa, o assunto simplesmente se alargou: com dois enviados e uma missão diante de Faraó, o que está em jogo não é mais só a fala, e a instrução acompanha o alargamento. A favor dessa leitura está o resto do capítulo — o versículo 17 falará de sinais, que são coisa que se faz, não que se diz.
Noutra, a troca é significativa: a fala deixa de ser o centro do problema no momento em que o falante está resolvido, e o texto move o foco. A favor está a estrutura — a palavra "boca" domina os versículos 10 a 16 e desaparece depois.
Não é possível decidir, e o mais honesto é registrar que o Êxodo trocou o verbo sem avisar.
A cadeia inteira, vista de uma vez
Vale reunir, porque é o que o versículo constrói.
Deus fala a Moisés. Moisés fala a Arão e põe as palavras na boca dele. Arão falará ao povo — o versículo 16 dirá isso. São três elos onde antes havia dois.
E há uma promessa que atravessa a cadeia inteira sem passar por ela: a companhia é prometida às duas bocas diretamente, e a instrução final é dada aos dois. Isto é, o arranjo é hierárquico na transmissão e não é hierárquico na assistência.
Convém marcar o que o texto não diz: não se diz o que acontece se a transmissão falhar, nem o que ocorre se Arão disser outra coisa. O livro tratará disso muito mais tarde, e não por meio de uma regra.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os três que a cena agora envolve
Até o versículo 13 havia dois interlocutores. A partir daqui há três nomes em jogo, e um deles ainda não chegou.
Deus fala. Moisés ouve e transmitirá. Arão receberá e falará. E existe um quarto termo, que não é pessoa: o povo, destinatário final, mencionado só no versículo seguinte.
Vale reparar em quem, na cena, nunca fala com quem. Arão não fala com Deus neste arranjo, e Moisés não falará com o povo. Cada um tem um interlocutor só.
Arão, de quem ainda não se sabe quase nada
Ele continua sendo, neste ponto, um nome, um parentesco, um título não explicado e uma competência. Não entrou em cena, não falou, não foi descrito.
E já recebeu duas coisas: uma função definida e uma promessa dirigida à boca dele. Tudo isso acontece antes de ele aparecer — o Êxodo organiza o papel do personagem antes de o personagem chegar.
"as palavras"
O objeto que Moisés deve pôr na boca de Arão vem com artigo: não são palavras quaisquer, são as palavras. O texto trata o conteúdo como coisa já determinada.
E o leitor sabe qual é. O roteiro foi dado em Êxodo 3:16-18, com as frases a dizer aos anciãos e a Faraó, e tem tratamento próprio no estudo daqueles versículos. É esse material que agora muda de boca.
O lugar, e o que ainda não se moveu
Continuamos no monte, e Moisés continua parado. O único movimento do capítulo até aqui é o de Arão, anunciado no versículo anterior.
Faltam dois versículos para a conversa terminar. O 16 completará o arranjo com a frase mais forte do trecho, e o 17 acrescentará o cajado — e então Moisés finalmente sairá dali.
5. Pontos de Ensino
Quem fala bem também precisa de assistência
É o ensino menos esperado do versículo, e está escrito com todas as letras.
Arão foi apresentado por saber falar. Se a competência resolvesse o problema, a promessa de companhia poderia ficar restrita à boca defeituosa. Não fica: alcança as duas do mesmo modo.
Isso contraria a leitura corrente do arranjo, segundo a qual Deus teria contornado a fraqueza de Moisés recorrendo à força de outro. O texto não trata a competência de Arão como suficiente. Trata-a como o que faltava — e, ainda assim, como insuficiente sozinha.
Transmitir é uma função com responsabilidade própria
Moisés não vai apenas contar a Arão o que ouviu. Vai pôr as palavras na boca dele, o que é operação deliberada, e vai fazê-lo com um verbo que o capítulo já usou para uma ação divina.
Ensina-se daí uma coisa concreta sobre cadeias de transmissão: cada elo é responsável pelo conteúdo, não só pelo repasse. Quem carrega uma mensagem carrega o que ela diz — e o item 2 mostra que era exatamente assim que se entendia isso naquele mundo.
A instrução mudou de "dizer" para "fazer"
É um ponto de leitura, e vale exercitá-lo aqui porque é fácil de verificar.
Duas frases quase idênticas, três versículos de distância, e uma palavra diferente. Quem lê depressa registra "e Deus ensinará"; quem compara vê que o objeto do ensino trocou, e que o número do verbo trocou junto.
Não se pode ir muito além disso — o item 3 expõe as duas leituras e registra que não é possível decidir. Mas notar a troca já é metade do trabalho.
A solução não desfez o problema
Convém repetir, porque este versículo é o lugar em que a tentação de esquecer é maior.
A boca de Moisés continua como estava. O arranjo inteiro existe porque ela não mudou, e a prova é que existe. Quem lê a série dos versículos 10 a 16 como história de superação está lendo o contrário do que está escrito: é história de acomodação, e o capítulo não pede desculpas por isso.
6. Aspectos Filosóficos
De quem é a fala, quando ela atravessa três pessoas?
O versículo monta uma cadeia — Deus, Moisés, Arão — e a questão que ela levanta é antiga e não é religiosa: quando um conteúdo passa de boca em boca, quem é o autor do que se ouve no fim?
A resposta que o arranjo pressupõe é clara: o autor é o primeiro, e os demais são transporte. É por isso que a expressão usada é "pôr as palavras na boca" — ela descreve um depósito, não uma produção.
Mas o pressuposto tem custo, e vale enunciá-lo. Se o transporte é neutro, a pessoa que fala não acrescenta nada; se acrescenta alguma coisa — e toda fala acrescenta, porque quem fala escolhe entonação, ritmo, ênfase —, então o conteúdo que chega não é idêntico ao que partiu. O texto não discute isso e opera como se o problema não existisse.
A competência que não basta
Há um segundo ponto, e ele é o mais interessante do versículo.
Arão sabe falar. A promessa, ainda assim, alcança a boca dele. Isto é: a habilidade e a assistência são tratadas como coisas independentes — ter uma não dispensa a outra, e nenhuma das duas produz a outra.
É uma distinção com consequência. Se a assistência divina fosse a mesma coisa que a competência, ela seria supérflua em quem já a tem; e se a competência bastasse, seria supérflua a assistência. O versículo recusa as duas simplificações mantendo os dois termos.
Convém marcar o limite: o texto não explica o que a assistência acrescenta a uma boca que já funciona, e não há como saber. Registra-se que ela é prometida.
7. Aplicações Práticas
Preparar quem vai falar por você
É a aplicação direta, e ela é bem mais técnica do que devocional.
O versículo não manda Moisés dar instruções gerais a Arão nem explicar-lhe o assunto. Manda pôr as palavras na boca dele — isto é, entregar o conteúdo formulado, não o tema.
A diferença é prática e imediata para quem já delegou uma conversa a alguém. Passar o tema produz improviso; passar as palavras produz transmissão. O texto escolhe o segundo, e escolhe num caso em que o custo de deformação seria alto.
Ter a habilidade não dispensa a preparação
Arão fala bem e mesmo assim recebe as palavras prontas e a promessa de companhia. A competência dele não o exime de nada.
É útil contra um hábito comum: confiar em quem tem facilidade e, por isso, prepará-lo menos. O arranjo deste versículo faz o contrário — trata a boca competente com o mesmo cuidado com que trata a que não é.
Dividir a tarefa e continuar responsável por ela
Moisés deixa de ser quem fala e não deixa de ser quem responde. A ordem continua sendo dele, o conteúdo continua vindo por ele, e é ele que carrega a missão até o fim do livro.
Para quem divide um trabalho, o versículo oferece um desenho utilizável: a delegação é da execução, não da responsabilidade. E oferece também a advertência que vem junto — o item 3 do versículo 16 mostra o que essa divisão custou, e os versículos 30 e 31 mostram quem o povo acabou vendo.
Uma cautela sobre a cadeia
Uma última nota, e ela é de leitura.
Este arranjo é montado para uma situação específica, com pessoas nomeadas e uma mensagem determinada. Não é possível decidir se o Êxodo o apresenta como modelo ou apenas como o que aconteceu — e o próprio capítulo dá razão para desconfiar do modelo, já que ele nasce de uma recusa e vem precedido da ira.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Arão fala bem, por que a promessa alcança a boca dele?
O Êxodo não explica, e o dado é claro: a promessa é dobrada e cobre as duas bocas igualmente.
Duas leituras. Numa, a assistência não tem relação com a competência — é de outra ordem, e seria prometida a qualquer enviado. Noutra, o texto está indicando que a competência de Arão, sozinha, não daria conta do que está por vir.
A segunda tem a seu favor o resto do livro, onde Arão erra em situações que não são de eloquência. Mas isso é o leitor lendo para trás, e não é possível decidir pelo que está aqui.
Por que o ensino passou de "o que dizer" para "o que fazer"?
O texto troca o verbo sem avisar, e não comenta.
A explicação mais econômica é que a missão inteira entrou no horizonte: com a boca resolvida, o que resta a ensinar é a execução — e o versículo seguinte falará de sinais, que se fazem. A explicação mais interessante é que o texto esteja tirando a fala do centro no momento exato em que ela deixa de ser problema.
As duas são hipótese. O que se pode afirmar é que a diferença existe e é verificável comparando as duas frases.
Isso faz de Arão um profeta?
Não neste versículo, e a palavra não aparece aqui.
Ela aparecerá em Êxodo 7:1, onde Arão é chamado expressamente de profeta de Moisés — e ali a nomeação é feita por Deus, não por dedução do leitor. O item 3 do versículo 16 trata da fórmula.
O que este versículo estabelece é a operação, não o título: Moisés fará com Arão o que Deus faz com um profeta. Chamar isso de profecia é conclusão razoável e é conclusão.
E se Arão dissesse outra coisa?
O texto não prevê a hipótese, e é bom notar a ausência.
Nenhuma garantia é dada de que a transmissão será fiel, nenhuma sanção é anunciada para o caso contrário, e não há mecanismo de conferência. O arranjo é montado sobre a confiança e sobre a promessa de companhia, e nada mais.
Vale registrar, sem transformar em acusação, que o livro trará adiante um episódio em que Arão fala e age por conta própria, diante do povo, com consequências graves. O texto não liga um episódio ao outro.
9. Conexão com Outros Textos
A fórmula do envio profético
Deuteronômio 18:18 — "Eu lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar."
É o paralelo mais próximo, e a coincidência vai longe: mesma expressão, mesma estrutura de duas etapas — pôr as palavras e depois falar —, e o profeta é comparado justamente a Moisés. A diferença é o sujeito: lá quem põe é Deus; aqui é um homem.
Jeremias 1:9 — "E o SENHOR estendeu a sua mão, e tocou-me na boca; e o SENHOR disse-me: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca."
A mesma operação, com um gesto que este versículo não tem: Deus toca a boca de Jeremias. Em Êxodo 4 nenhuma boca é tocada.
Quem só diz o que lhe foi posto
Números 23:5 — "Então o SENHOR pôs a palavra na boca de Balaão, e disse: Torna-te para Balaque, e assim falarás."
O caso mais explícito da expressão, e o mais desconfortável, porque quem a recebe é um adivinho contratado para amaldiçoar Israel. Serve para mostrar que a fórmula descreve uma operação, e não uma virtude de quem a recebe.
A companhia prometida a quem é enviado
Êxodo 3:12 — "E Deus respondeu: 'Eu estarei com você…'"
A primeira das quatro vezes em que a palavra é dita nesta conversa. A segunda é Êxodo 3:14, a terceira é Êxodo 4:12, e esta é a quarta — a única em que ela alcança duas pessoas.
Duplas enviadas juntas
Marcos 6:7 — "Chamou a si os doze, e começou a enviá-los a dois e dois."
A prática de enviar em pares aparece muito depois e com outra justificativa. Vale a comparação para marcar a diferença: ali os dois são pares; aqui um é a boca do outro, e a hierarquia é explícita.
O que este arranjo virou, três capítulos adiante
Êxodo 7:1-2 — "Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar, e Arão, teu irmão, falará a Faraó."
A mesma divisão, retomada com o vocabulário do profetismo. É lá que a relação recebe o nome que aqui só está descrita — e o estudo do versículo 16 trata da frase que a antecipa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (ABC)
Você falará com ele e porá as palavras na boca dele; e eu estarei com a sua boca e com a boca dele, e lhes ensinarei o que devem fazer.
Texto hebraico
וְדִבַּרְתָּ אֵלָיו וְשַׂמְתָּ אֶת־הַדְּבָרִים בְּפִיו וְאָנֹכִי אֶהְיֶה עִם־פִּיךָ וְעִם־פִּיהוּ וְהוֹרֵיתִי אֶתְכֶם אֵת אֲשֶׁר תַּעֲשׂוּן
Transliteração
we-dibbarta elav we-samta et-ha-devarim be-fiv; we-anokhi ehyeh im-pikha we-im-pihu, we-horeiti etkhem et asher ta'asun.
Análise palavra por palavra
וְדִבַּרְתָּ — we-dibbarta, "e você falará". Verbo davar no Piel — a forma intensiva do verbo hebraico, que neste verbo é a normal de "falar" —, perfeito com valor de futuro pela conjunção, segunda pessoa masculina do singular.
É a terceira aparição desta raiz em poucos versículos, e vale seguir o percurso: no 10, Moisés diz que não é homem de devarim; no 14, o texto diz de Arão que "falar ele fala"; aqui, quem fala é Moisés. O verbo que nomeou o defeito volta como ordem dirigida a quem o alegou.
וְשַׂמְתָּ — we-samta, "e você porá". Este é o achado do item 10.
O verbo é sim — pôr, colocar, instalar, dispor. É exatamente o mesmo verbo, na mesma raiz, que aparece no versículo 11: mi sam peh la-adam, "quem pôs a boca no ser humano?". A análise completa da raiz está no item 10 daquele versículo.
A diferença é o sujeito e o objeto. Lá o sujeito é Deus e o objeto é a boca; aqui o sujeito é Moisés e o objeto são as palavras que vão dentro dela. Quatro versículos separam as duas frases, e o verbo é o mesmo.
Registre-se que sim é verbo comuníssimo em hebraico, e que a coincidência pode ser só isso. Que ela seja intencional é leitura plausível e não é demonstrável — e é razão suficiente para a nossa versão usar "pôr" nos dois lugares.
אֶת־הַדְּבָרִים — et-ha-devarim, "as palavras", com marcador de objeto direto e com artigo.
O artigo importa: não são palavras quaisquer, são as palavras — as que já foram ditas, o roteiro que Moisés recebeu. E é a mesma palavra do plural que ele usou na queixa do versículo 10, ao dizer que não é homem de devarim.
בְּפִיו — be-fiv, "na boca dele". Preposição de lugar com o substantivo peh e sufixo de terceira pessoa masculina.
Note a preposição: é be, "em, dentro de", e não a de companhia. As palavras vão para dentro da boca de Arão. Duas palavras adiante, a preposição muda.
וְאָנֹכִי אֶהְיֶה עִם־פִּיךָ וְעִם־פִּיהוּ — we-anokhi ehyeh im-pikha we-im-pihu, "e eu estarei com a sua boca e com a boca dele".
Aqui a preposição é im, de companhia — a mesma de Êxodo 3:12, "com você". As palavras entram na boca; a presença fica junto dela. A distinção é do hebraico e é fácil de perder em português, onde as duas preposições ficam próximas.
Ehyeh é a forma verbal cuja análise está no item 10 de Êxodo 3:12, e cujo eco com o nome divino é tratado no estudo de Êxodo 4:12. Esta é a quarta vez que ela é dita nesta conversa.
E a repetição da preposição merece nota. O hebraico poderia ter escrito "com a boca de vocês dois"; escreve im duas vezes, uma para cada. As duas bocas são alcançadas separadamente, e a de Arão não é acessório da de Moisés.
וְהוֹרֵיתִי אֶתְכֶם — we-horeiti etkhem, "e eu ensinarei vocês". Verbo yarah no Hiphil — a forma causativa —, com o pronome de objeto no plural.
Compare com o versículo 12, onde o mesmo verbo trazia o sufixo no singular: ali "ensinarei você", aqui "ensinarei vocês". A instrução muda de destinatário, e o segundo destinatário ainda não chegou.
A raiz, com o parentesco de torah ("instrução, ensino, lei" — a palavra que dá nome aos cinco primeiros livros da Bíblia), tem tratamento no item 10 de Gênesis 46:28.
אֵת אֲשֶׁר תַּעֲשׂוּן — et asher ta'asun, "o que vocês farão".
O verbo é asah, "fazer", no imperfeito, segunda pessoa masculina do plural — e não davar, "falar", que era o verbo da frase paralela no versículo 12. A troca é dupla: mudou o número e mudou o verbo.
A forma traz ainda uma terminação longa, com um n final, que o hebraico usa em formas verbais enfáticas ou solenes — detalhe pequeno, e vale registrar que o valor exato dessa terminação é discutido entre gramáticos.
O que o hebraico faz e o português não faz
Três perdas.
O verbo de "pôr", que é o mesmo do versículo 11, chega ao leitor de português como coincidência de tradução e não como repetição do original. As duas preposições — dentro da boca, com a boca — quase se confundem. E ehyeh, como sempre, aparece como "estarei", sem que nada indique que é a palavra do nome.
11. Conclusão
Três conclusões saem deste versículo, e todas dependem de comparar com o que veio antes.
A promessa dobrou e alcançou a boca competente. Arão foi apresentado por saber falar; se isso resolvesse o problema, a companhia divina não precisaria cobri-lo. Cobre — e cobre com a mesma preposição e do mesmo modo com que cobre a boca que Moisés declarou defeituosa. O arranjo, portanto, não é a troca de uma boca ruim por uma boa: é a mesma assistência estendida a duas bocas desiguais.
Moisés recebe uma função que, no resto da Bíblia, é de Deus. "Pôr as palavras na boca" é a linguagem do envio profético, e nas outras ocorrências quem põe é sempre Deus. Aqui quem põe é um homem — e com o mesmo verbo que quatro versículos antes serviu para reivindicar a autoria das bocas humanas. O texto não comenta a repetição, e ela está lá.
E o ensino trocou de objeto. No versículo 12, o que se prometia ensinar era o que dizer, a uma pessoa. Aqui é o que fazer, a duas. É uma diferença de duas palavras que nenhuma leitura corrida percebe, e ela marca o ponto em que a fala deixa de ser o assunto do capítulo — a palavra "boca", que domina os versículos 10 a 16, some do texto logo depois.
Fica então o desenho final: uma cadeia de três elos, uma companhia prometida em duas pontas, um conteúdo já determinado que muda de boca, e um defeito que ninguém corrigiu. O versículo seguinte dará a esse arranjo o nome mais forte que ele podia receber.













