Então o SENHOR disse a Moisés: “Agora você verá o que farei a Faraó: com mão forte ele os deixará ir, e com mão forte os expulsará da sua terra.”
1. Introdução
O capítulo 5 terminou com uma acusação. Moisés disse a Deus que ele havia trazido mal ao povo e que não o tinha livrado de nada. Este versículo é a resposta — e a primeira coisa a notar é o que ela não tem.
Não tem repreensão. Não tem explicação. Não responde à pergunta “por quê”, que era a pergunta feita. Começa por uma palavra de tempo — “agora” — e passa direto ao que vai acontecer.
O que vem depois é uma promessa em duas metades que parecem dizer a mesma coisa e não dizem. Faraó vai deixar ir, e Faraó vai expulsar. Um verbo é de licença concedida; o outro é o verbo de quem põe alguém para fora de casa. O Êxodo vai cumprir os dois, e este versículo é o primeiro lugar em que a saída aparece descrita como as duas coisas ao mesmo tempo.
A expressão “com mão forte” aparece duas vezes numa frase só, e ela já tinha sido dita a Moisés em Êxodo 3:19. O que é próprio daqui é a duplicação e o lugar dela: a fórmula está colada em dois verbos diferentes, e o estudo examina o que isso faz com a leitura.
O versículo abre o bloco que vai até Êxodo 6:8 — oito versículos de fala divina ininterrupta, os mais densos do livro até este ponto. Este é o pórtico, e o que ele anuncia é uma agenda, não um argumento.
2. Contexto Histórico e Cultural
“Agora”: a palavra que virava a página numa carta antiga
A fala começa por um advérbio de tempo, e essa escolha tem fundo documental que vale conhecer, porque ela muda a expectativa de quem lia.
Nas cartas hebraicas que chegaram até nós — os cacos escritos de Arad, na fronteira sul de Judá, e os de Laquis, do fim do reino — há um padrão de composição bastante rígido. Primeiro a identificação e a saudação; depois, quando o assunto começa de fato, entra uma fórmula curta de transição: we-attah (“e agora”, em hebraico). Do outro lado dessa palavra não vem mais conversa: vem a instrução, a cobrança, a ordem.
O mesmo mecanismo existia nas línguas vizinhas. A correspondência diplomática em acádio marca a virada com partículas equivalentes, e o efeito é idêntico: encerrada a parte em que se recapitula a situação, uma palavra avisa que o despacho vai começar.
Quem conhecia esse formato lia Êxodo 6:1 de um jeito específico. A queixa de Moisés, em Êxodo 5:22-23, tinha a forma de uma petição: o servo expõe o dano e pergunta. E a resposta não retoma a exposição, não discute os fatos alegados, não concede nem nega razão. Ela entra pela fórmula que significa “a parte da conversa acabou”.
Sair do Egito era coisa autorizada
O verbo traduzido por “deixar ir” pressupõe um mundo em que a saída de um grupo do território não era decisão de quem saía.
O Egito controlava a sua fronteira leste com postos, registros e patrulhas, e o assunto tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 42:9. O dado que interessa aqui é apenas o efeito jurídico: um grupo que se pusesse a caminho sem licença não estava exercendo um direito, estava em falta. Por isso a exigência do livro é sempre formulada como pedido de licença, e por isso a promessa deste versículo está formulada como concessão — Faraó vai dar a saída.
E expulsar um grupo era outra coisa
O segundo verbo pertence a uma família diferente de atos.
Expulsar população indesejada era prática conhecida no mundo antigo, e ela não é um favor. Quem expulsa não concede: livra-se. O expulso não recebe autorização, recebe uma ordem de saída, normalmente com pressa e sem condições negociadas. Nos textos egípcios, grupos estrangeiros aparecem sendo admitidos, alocados, empregados — e, em situações de crise, mandados embora.
Convém marcar o limite disso com clareza, porque a tentação de ligar esses registros a Israel é grande e o material não sustenta a ligação. Nenhum documento egípcio conhecido menciona a saída narrada no Êxodo. O que se pode afirmar é que o livro descreve um procedimento que existia e era reconhecível, e não que exista confirmação externa do episódio. Não é possível decidir a questão com o que se tem.
Por que as duas coisas na mesma frase soavam estranhas
Um último dado de fundo, e ele é o que dá o sabor do versículo.
Licença e expulsão eram atos administrativos de sinais contrários. Um se pede; o outro se sofre. Um deixa em aberto a volta; o outro fecha a porta. Prometer que o mesmo rei faria os dois, no mesmo movimento, é anunciar um acontecimento que nenhuma das duas categorias descreve sozinha — e o Êxodo, quando chegar ao dia, vai precisar das duas palavras para contar o que houve.
3. Análise Teológica do Versículo
“Então o SENHOR disse a Moisés”
Antes de qualquer palavra do conteúdo, vale registrar o que está faltando na abertura.
Moisés acabou de dizer duas coisas muito duras. Perguntou por que Deus tinha trazido mal ao povo, e afirmou, com todas as letras, que ele não o havia livrado. Era acusação, não desabafo: a segunda frase é uma negação de fato dirigida a Deus.
A resposta não contém repreensão. Não há “como você ousa”, não há correção de tom, não há lembrete de quem fala com quem. O Êxodo simplesmente registra que houve resposta e passa ao que foi dito.
Isso não é neutro, e convém não transformá-lo em lição apressada. O texto não diz que a queixa era legítima, e também não diz que era indevida. Não a comenta. O que se pode observar é o dado: no livro, quem reclamou em termos acusatórios recebeu de volta uma agenda, e não uma advertência.
“Agora você verá”
Aqui está o eixo do versículo, e ele está em duas palavras.
A primeira é “agora”. Ela marca corte no tempo: o que valia até aqui deixou de valer, e o que vem é outra fase. O item 2 mostra que essa palavra tinha função reconhecível nos documentos da época — era a fórmula que encerrava a exposição e abria a ordem. Quem a ouvia entendia que a discussão tinha sido dada por encerrada.
A segunda é “verá”. Repare no verbo escolhido, porque ele não é o esperado. Moisés perguntou por quê. A resposta não diz “você entenderá”, não diz “eu explico”, não diz “é assim porque”. Diz que ele vai ver.
A diferença entre as duas coisas é grande e é o ponto mais desconfortável do versículo. Ver é ficar sabendo o que aconteceu; entender é ficar sabendo por quê. O Êxodo promete a primeira e não promete a segunda — e, de fato, a pergunta de Êxodo 5:22 nunca recebe resposta em lugar nenhum do livro. Ela some. O que aparece no lugar dela é um calendário.
Vale acrescentar que o verbo está na segunda pessoa do singular. Quem vai ver é Moisés, e só ele. O povo não é mencionado nesta frase, e não é a ele que se promete nada aqui.
“o que farei a Faraó”
Uma troca de assunto que passa facilmente despercebida e muda a conversa inteira.
Moisés tinha falado do povo. As duas frases dele, em Êxodo 5:22-23, têm “este povo” como objeto do mal: por que trouxeste mal a este povo, ele tem feito mal a este povo. A resposta não fala do povo. Fala do que será feito a Faraó.
Ou seja: a queixa era sobre a piora da vida de quem carrega tijolo, e a resposta é sobre o que vai acontecer com o rei. As duas coisas estão ligadas, evidentemente — mas o texto não faz a ligação, e a mudança de objeto fica registrada sem explicação.
Há aqui, ainda, uma informação que o versículo entrega de passagem e que é grande. Nada do que Deus anuncia depende de Israel. Não se diz “quando eles crerem”, “se eles obedecerem”, “depois que ouvirem”. O que vem é uma ação sobre um terceiro, e Israel, na frase, é objeto: será deixado ir, será expulso.
“com mão forte ele os deixará ir”
A expressão já apareceu no livro, em Êxodo 3:19, onde Deus antecipou que o rei não deixaria sair “a não ser por mão forte”. A discussão sobre de quem é a mão — se de Deus, que força, ou de Faraó, que age sob pressão — está desenvolvida ali, e não se reabre.
O que é deste versículo é o que a fórmula faz aqui: ela aparece duas vezes numa frase só, colada a dois verbos diferentes. Não é repetição de ênfase solta; é a mesma condição aplicada a dois atos distintos.
E vale medir o que o primeiro verbo carrega. “Deixar ir” é exatamente a palavra da exigência que Moisés levou ao palácio em Êxodo 5:1 — “deixe o meu povo ir” —, e é a palavra que o rei recusou em Êxodo 5:2. Aqui ela volta, no futuro, e com o rei como sujeito. Quem disse que não vai ser quem faz.
Repare também no que a promessa não inclui. Não se diz que Faraó mudará de ideia, que se convencerá, que reconhecerá coisa nenhuma. Diz-se que ele fará. O Êxodo promete o ato, não a adesão.
“e com mão forte os expulsará da sua terra”
Aqui está o achado do versículo, e ele é uma estranheza que a leitura corrida apaga.
O segundo verbo não é sinônimo do primeiro. É o verbo de pôr para fora — o mesmo com que o Gênesis descreve a saída do homem do jardim, em Gênesis 3:24, e a expulsão de Agar e do filho a pedido de Sara, em Gênesis 21:10. É palavra de ruptura, não de licença.
Junte as duas metades e veja o que se promete. O mesmo homem, no mesmo ato, vai conceder a saída e pôr o povo porta afora. Uma coisa é dada; a outra é imposta. E o sujeito das duas é ele, não Deus.
O livro vai cumprir isso ao pé da letra, e de um jeito que só faz sentido com os dois verbos. Em Êxodo 12:31 o rei chama Moisés e Arão de noite e manda sair — é a licença. No versículo seguinte, os egípcios pressionam o povo para que se apresse, dizendo que morrerão todos — é a expulsão. A saída do Egito, no relato, não é uma porta que se abre: é uma porta que se abre enquanto empurram de dentro.
Uma consequência disso merece ser dita devagar, porque contraria a versão devocional mais comum. A libertação, na forma em que o texto a descreve, não é um acolhimento. Ninguém no Egito conclui que aquele povo tem direito de ir embora. O que o versículo promete é que o Egito vai querer ver Israel pelas costas — e que essa vontade será o veículo da saída.
“da sua terra”
Duas palavras no fim da frase, e elas guardam uma ironia que o Êxodo não comenta.
A terra é dele, do rei. Israel está nela há gerações, nasceu nela, construiu nela cidades inteiras — e o versículo a chama, sem hesitação, de terra de Faraó. Sete versículos adiante, em Êxodo 6:8, virá a promessa de outra terra, e essa será chamada de herança do povo.
O contraste está nas palavras e é verificável. Que ele seja intencional é leitura, e o texto não a confirma.
O que fica em aberto
Duas coisas, e nenhuma delas se resolve no capítulo.
A primeira: por que agora. A frase abre marcando um corte no tempo e não diz o que mudou. O povo não fez nada entre Êxodo 5:23 e Êxodo 6:1; Moisés fez uma reclamação. O texto não diz que a reclamação provocou a resposta, e também não diz que não provocou.
A segunda: o silêncio sobre o dano já feito. A carga aumentou, homens foram espancados, o povo ficou pior do que estava. Nada disso é mencionado, desfeito ou justificado. A resposta olha para a frente inteira, e o que ficou para trás fica onde está.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés, neste ponto da história
Ele voltou de Midiã havia pouco. Falou ao povo, foi acreditado, foi ao palácio, piorou a vida de quem foi defender, ouviu dos supervisores de Israel que tinha posto uma espada na mão do rei, e levou a Deus uma acusação. É esse o homem a quem o versículo se dirige.
Convém reter o tamanho do intervalo. Entre a promessa de Êxodo 3:8 — de que Deus desceria para livrar — e este versículo há uma viagem, um reencontro com um irmão, uma assembleia com anciãos, uma audiência com o rei e uma derrota completa. Nada do que foi prometido aconteceu ainda.
Faraó
O livro nunca lhe dá nome. Aqui ele aparece como objeto de uma ação anunciada e como sujeito de dois verbos futuros — vai deixar ir e vai expulsar —, e essa é a única vez, até este ponto, em que o texto diz de antemão o que o rei fará.
Repare que ele não é apresentado como inimigo a ser destruído. A promessa é sobre o que ele fará, não sobre o que será feito dele. O Êxodo mantém essa moldura por muito tempo: o rei é aquele de quem se espera um ato.
A terra do Egito, chamada de terra dele
O versículo fecha localizando tudo num território que atribui ao rei. Israel está lá desde a descida de Jacó, nas gerações contadas em Êxodo 1, e o texto não lhe reconhece nenhum vínculo com o solo — nem de posse, nem de origem, nem de direito.
É posição reconhecível no mundo antigo e é a mesma condição descrita no estudo de Gênesis 17:8: morar de modo estável num lugar sem pertencer a ele.
O que ainda não aconteceu
Vale listar, porque ajuda a situar o versículo na linha do tempo do livro: não houve praga nenhuma, o bastão ainda não virou serpente diante do rei, Arão ainda não falou no palácio, e o povo ainda não ouviu uma palavra do que está sendo dito aqui. Tudo isso vem depois — e o primeiro item da lista é a fala que começa no versículo seguinte.
5. Pontos de Ensino
1. A resposta não é a mesma coisa que a explicação. Moisés perguntou por quê; recebeu o quê e o quando. É honesto registrar que o livro não trata as duas coisas como equivalentes e não finge que a segunda satisfaz a primeira.
2. A queixa não foi repreendida. O texto não elogia Moisés nem o corrige. Quem quiser tirar daí uma doutrina sobre reclamar com Deus estará indo além do que a página oferece — o que ela oferece é o silêncio a respeito.
3. A promessa é sobre um terceiro. O que Deus anuncia acontecerá a Faraó, e não a Israel. O povo aparece como quem será deixado ir e expulso — objeto dos dois verbos, sujeito de nenhum.
4. Libertação e expulsão não se excluem. O versículo põe as duas no mesmo ato, e o livro vai cumprir as duas. Quem só conhece a versão em que a saída é um acolhimento está com metade do relato.
5. “Agora” não vem acompanhado de “porque agora”. O texto marca a virada e não a explica. Nada no comportamento do povo mudou entre um capítulo e o outro.
6. A fórmula da mão forte aparece duas vezes na mesma frase. Não é ênfase decorativa: são dois atos diferentes debaixo da mesma condição. O detalhe está no item 3.
7. A promessa não inclui mudança de coração em ninguém. Faraó fará; não está escrito que ele reconhecerá. O Êxodo, aqui, promete um resultado e não uma conversão.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta um problema antigo sobre a forma das respostas: o que se recebe quando se pergunta “por quê” e se responde com “veja o que vou fazer”.
São duas operações diferentes. Uma pergunta de causa pede uma razão — algo que torne o que aconteceu inteligível. Um anúncio de ação oferece outra coisa: um compromisso sobre o futuro. Quem anuncia não explica o passado; muda o que está em jogo.
Vale notar que a segunda resposta pode ser satisfatória sem ser uma resposta. Alguém que perguntou por que sofreu e recebeu a garantia de que aquilo vai terminar pode sair da conversa apaziguado — e continua sem saber por quê. A pergunta não foi respondida; foi desalojada.
É exatamente isso que o Êxodo registra, e o mérito dele é não disfarçar. A pergunta de Êxodo 5:22 fica sem resposta no livro inteiro. Quem lê com atenção percebe a lacuna; quem lê depressa acha que ela foi preenchida, porque veio alguma coisa forte no lugar.
Convém deixar marcado o que é leitura e o que é texto. Que o versículo troque explicação por anúncio é observável. Que essa troca signifique alguma coisa sobre o modo como Deus trata perguntas é interpretação de quem comenta, e o Êxodo não a autoriza nem a proíbe.
7. Aplicações Práticas
Quando a resposta que se recebe não é a que se pediu
Há uma experiência muito comum por trás deste versículo, e ela não exige nenhuma transposição forçada: perguntar “por que isso aconteceu comigo” e não obter causa nenhuma.
O que o texto mostra é que a ausência de explicação não impediu que alguma coisa acontecesse depois. Não é consolo — é descrição. Moisés seguiu sem entender, e o livro continua.
Vale dizer o que isso não autoriza. Não autoriza concluir que perguntar seja errado, porque a pergunta não foi repreendida. Não autoriza prometer a ninguém que a explicação virá mais tarde, porque neste livro ela não vem. E não autoriza usar o versículo para calar quem pergunta, que é o uso mais frequente que se faz dele.
Ser posto para fora também pode ser saída
A segunda aplicação é concreta e vale para relações e ambientes reais.
O versículo diz que a saída viria em duas formas ao mesmo tempo: uma licença e um empurrão. Muita gente sai de um emprego, de uma casa, de um grupo, e sai empurrada — sem despedida honrosa, sem reconhecimento, com quem fica querendo que se apresse. A tendência é ler isso como fracasso, porque a saída bonita é a que se imagina.
O que o texto registra é que as duas coisas podem ser o mesmo acontecimento visto de dois lados. Não é uma promessa de que toda porta fechada seja um bem; é a observação de que, no relato, o desejo alheio de se livrar do povo foi o que abriu caminho.
E há um cuidado a tomar. O versículo não diz que a expulsão foi boa, nem que o Egito agiu bem, nem que a dureza tinha um propósito educativo. Diz que o rei faria as duas coisas. Tudo o que se acrescentar a isso é acréscimo de quem lê.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a resposta não menciona a piora que Moisés relatou?
Não há como saber. O versículo não retoma nada do que foi alegado — nem a cota de tijolos, nem os espancamentos, nem a acusação de que Israel ficou malvisto. O texto não diz se o silêncio é recusa de discutir, se é dispensa do assunto ou se é apenas a forma econômica de um despacho. O que se observa é que a fala vai adiante sem olhar para trás.
O “agora” significa que alguma coisa mudou?
Ele marca que a fase mudou, e só. Não informa a causa. Entre o fim do capítulo 5 e este versículo não se registra ato nenhum do povo, e o único ato de Moisés foi a queixa. Ligar as duas coisas é leitura possível e não está escrita.
Se Faraó vai deixar o povo ir, por que ainda serão precisas dez pragas?
O versículo promete o desfecho, não o percurso. Ele diz o que o rei fará ao final, e nada sobre quanto tempo levará ou o que acontecerá no meio. A tensão só existe para quem lê a promessa como se fosse um prazo.
De quem é a “mão forte”?
A frase admite mais de uma leitura, e a discussão está inteira no estudo de Êxodo 3:19, que é o dono do assunto. Aqui basta registrar que a mesma expressão aparece duas vezes num só versículo, o que é raro, e que ela condiciona dois verbos de sentido contrário.
Deixar ir e expulsar não é contradição?
Não, e é o achado do versículo. São dois atos com origens diferentes: um é concessão, o outro é rejeição. O Êxodo descreve a saída como as duas coisas simultâneas, e é por isso que precisa dos dois verbos. Quem exigir que só um deles seja verdadeiro terá de apagar metade da frase.
A promessa vale para o povo ou para Moisés?
O verbo de ver está no singular e se dirige a Moisés. O povo aparece adiante, como objeto. Esse detalhe importa porque o capítulo vai terminar, em Êxodo 6:9, com o povo não ouvindo — e o que foi dito aqui nunca lhe foi dito diretamente.
Por que Deus não repreende a acusação de Êxodo 5:23?
Não se sabe. É tentador transformar o silêncio em aprovação, e é leitura que vai além do texto. Não se pode afirmar mais do que isto: houve acusação, houve resposta, e a resposta não tratou do tom de quem acusou.
9. Conexão com Outros Textos
A acusação a que este versículo responde
Êxodo 5:23 — “Pois desde que fui a Faraó para falar em teu nome, ele tem feito mal a este povo; e tu de modo algum livraste o teu povo.”
É a frase imediatamente anterior. Ler as duas seguidas mostra o que a resposta faz: troca o objeto — de “este povo” para “Faraó” — e troca o tempo — do que já houve para o que vai haver.
A mesma fórmula, dita antes
Êxodo 3:19 — “Eu sei, porém, que o rei do Egito não deixará vocês irem, a não ser por mão forte.”
A promessa deste versículo não é nova para Moisés: ele a ouviu no monte, antes de descer. O que mudou é que agora ela vem depois do fracasso, e não antes.
A exigência que o rei recusou
Êxodo 5:2 — “Mas Faraó respondeu: ‘Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.’”
O verbo que o rei nega duas vezes é o mesmo que Êxodo 6:1 lhe atribui no futuro. A resposta de Deus usa a palavra que Faraó tinha acabado de recusar.
O verbo de expulsar, nas duas cenas em que o Gênesis o emprega para pessoas
Gênesis 3:24 — “Assim expulsou o homem; e a leste do jardim do Éden colocou os querubins e a espada flamejante que girava em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida.”
Gênesis 21:10 — “Então disse a Abraão: ‘Expulse esta escrava e o filho dela, pois o filho desta escrava não herdará com o meu filho, com Isaque.’”
Nos dois casos o verbo descreve alguém posto para fora de um lugar onde estava. Não é o vocabulário da libertação; é o de quem sobra.
O dia em que as duas coisas aconteceram juntas
Êxodo 12:31 — “Então, de noite, chamou Faraó a Moisés e a Arão e disse: ‘Levantem-se, saiam do meio do meu povo, tanto vocês como os filhos de Israel; vão, sirvam ao SENHOR, como têm dito.’”
Êxodo 12:33 — “E os egípcios apertavam o povo, apressando-se para lançá-los fora da terra, pois diziam: ‘Estamos todos mortos.’”
Duas frases separadas por um versículo. A primeira é a licença; a segunda é a expulsão. O cumprimento tem exatamente a forma dupla que Êxodo 6:1 anunciou.
Como o resto da Bíblia resume o episódio
Deuteronômio 26:8 — “E o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com maravilhas.”
Na recapitulação, a mão forte passa a ser de Deus e o sujeito do verbo de tirar também. A ambiguidade que Êxodo 6:1 mantém — quem faz o quê — some nos textos que contam a história depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então o SENHOR disse a Moisés: “Agora você verá o que farei a Faraó: com mão forte ele os deixará ir, e com mão forte os expulsará da sua terra.”
Texto hebraico
וַיֹּ֤אמֶר יְהֹוָה֙ אֶל־מֹשֶׁ֔ה עַתָּ֣ה תִרְאֶ֔ה אֲשֶׁ֥ר אֶֽעֱשֶׂ֖ה לְפַרְעֹ֑ה כִּ֣י בְיָ֤ד חֲזָקָה֙ יְשַׁלְּחֵ֔ם וּבְיָ֣ד חֲזָקָ֔ה יְגָרְשֵׁ֖ם מֵאַרְצֽוֹ׃
Transliteração
wa-yómer YHWH el-Mosheh: attáh tir'éh ashér e'eséh le-Far'óh, ki ve-yád chazaqáh yeshalechém, u-ve-yád chazaqáh yegareshém me-artsó.
Análise palavra por palavra
עַתָּה — attáh, “agora”.
Advérbio de tempo, e o hebraico o usa muito além da indicação cronológica. Ele abre conclusões (“agora, pois, faça isto”), abre pedidos e, sobretudo, marca a passagem da exposição para a decisão. Nas cartas hebraicas conservadas em cacos de cerâmica, a forma com a conjunção — we-attáh — é praticamente um sinal gráfico: dali em diante vem o assunto.
Aqui ele aparece sem conjunção e em primeiro lugar na fala, que é a posição de ênfase. O efeito é o de quem bate na mesa antes de falar.
תִרְאֶה — tir'éh, “você verá”.
Raiz ra'ah, ver. Qal — a forma simples do verbo hebraico —, imperfeito, segunda pessoa masculina do singular.
Duas observações. A primeira é o número: singular. A promessa é feita a um homem, não ao povo. A segunda é o campo da raiz: ra'ah cobre ver com os olhos, perceber, constatar, e por extensão experimentar. O que ela não cobre é compreender — para isso o hebraico tem outras palavras, e nenhuma delas está nesta frase.
É a mesma raiz que abriu o chamado de Moisés, em Êxodo 3:7, quando Deus diz ter visto a aflição do povo. Lá ele viu; aqui é Moisés quem verá.
אֲשֶׁר אֶעֱשֶׂה — ashér e'eséh, “o que farei”.
Ashér é o pronome relativo, invariável. E'eséh é o verbo asah, fazer, no Qal imperfeito de primeira pessoa do singular.
O imperfeito hebraico marca ação não concluída e não fixa o momento, de modo que a forma serve para o futuro, para o que se pretende e para o que se pode fazer. Aqui o contexto — um anúncio — favorece o futuro, e é assim que as versões traduzem.
לְפַרְעֹה — le-Far'óh, “a Faraó”.
A preposição le marca o destinatário da ação. Vale registrar que o título egípcio entra no hebraico como se fosse nome próprio, sem artigo, e o Êxodo o trata assim do princípio ao fim.
כִּי — ki.
Uma partícula pequena e de leitura disputada. Ela pode introduzir causa (“porque”), pode introduzir conteúdo (“que”) e pode ter valor enfático (“certamente”, “com efeito”). As três funcionam aqui, e a escolha muda a articulação da frase: “você verá o que farei, porque ele os deixará ir”, ou “você verá o que farei: que ele os deixará ir”. A segunda é a que a nossa versão adota, com os dois-pontos. Não é possível decidir pela gramática.
בְּיָד חֲזָקָה — be-yád chazaqáh, “com mão forte”.
Yad é mão, e por extensão poder, controle, domínio — é uma das palavras mais produtivas do hebraico nesse sentido figurado. Chazaqáh é o adjetivo feminino de chazaq, forte, firme, que não cede; concorda com yad, que é feminino.
A expressão aparece duas vezes neste versículo, exatamente com as mesmas palavras, a segunda vez apenas com a conjunção prefixada. É a única ocorrência dupla da fórmula num só versículo em toda a Bíblia hebraica, pelo que as concordâncias registram.
A quem pertence essa mão — se a Deus ou ao rei — é problema discutido, e a discussão tem dono no estudo de Êxodo 3:19. Registre-se apenas o dado gramatical: a preposição be é de instrumento e de acompanhamento, e não identifica o possuidor da mão.
יְשַׁלְּחֵם — yeshalechém, “ele os deixará ir”.
Raiz shalach, enviar, soltar, despachar. A forma é Piel — a conjugação intensiva do hebraico — no imperfeito, terceira pessoa masculina do singular, com sufixo de terceira pessoa masculina do plural: “ele os enviará para fora”.
É a palavra técnica da exigência do livro inteiro: shalach et ammi, “deixe o meu povo ir”. No Piel, a raiz ganha o sentido de dispensar alguém de uma obrigação, mandar embora sem retenção — e o seu uso como termo de alforria está tratado no estudo de Êxodo 4:23.
O sujeito é Faraó. Não Deus, não Moisés: o rei.
יְגָרְשֵׁם — yegareshém, “ele os expulsará”.
Raiz garash, expulsar, lançar fora, banir. Também no Piel imperfeito, terceira do singular, com o mesmo sufixo de plural — a construção é gêmea da anterior, o que torna o contraste de sentido ainda mais visível.
O campo desta raiz é duro e é consistente. Ela descreve o homem posto fora do jardim em Gênesis 3:24; a escrava e o filho mandados embora em Gênesis 21:10; Caim afastado da face da terra em Gênesis 4:14; e, depois, a expulsão dos povos de Canaã diante de Israel. Também é o verbo do divórcio na linguagem legal: a mulher expulsa de casa, em Levítico 21:7 e 21:14.
Isso deixa a frase com dois verbos no mesmo modo, no mesmo tempo, com o mesmo sujeito e o mesmo objeto — e de campos opostos. Um solta; o outro enxota.
מֵאַרְצוֹ — me-artsó, “da terra dele”.
Preposição min (de, para fora de), o substantivo érets (terra, país) e o sufixo de terceira pessoa masculina do singular, que remete a Faraó.
Vale contrastar com o fecho do bloco. Aqui a terra é “dele”; em Êxodo 6:8 a terra prometida será dada ao povo com outra palavra, morasháh, que o estudo daquele versículo examina. Os dois extremos da fala divina falam de terra, e nenhuma das duas é de Israel no momento em que se fala.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões.
A primeira é sobre a forma da resposta. Quem perguntou por que recebeu um anúncio do que vai acontecer. Isso não é a mesma coisa, e o livro não disfarça a diferença: a pergunta de Êxodo 5:22 não é respondida aqui nem em lugar nenhum do Êxodo. Concluir que ela foi respondida é acrescentar ao texto; concluir que foi ignorada é ir além do que ele diz. O que se conclui com segurança é que a fala mudou de assunto e de tempo.
A segunda é sobre quem age. Tudo o que é prometido tem Faraó como sujeito e Israel como objeto. Nada depende da fé do povo, do desempenho de Moisés ou de qualquer coisa que Israel faça — e isso decorre da frase, não de doutrina trazida de fora. A leitura que faz da saída do Egito uma recompensa por alguma qualidade do povo não encontra apoio neste versículo.
A terceira é a mais desconfortável, e é a que o versículo autoriza com mais firmeza. A saída anunciada tem duas faces: é licença e é expulsão. Quem sai não sai homenageado; sai porque ficou insuportável mantê-lo. Essa é a forma que o Êxodo dá à libertação, e é a forma que ele cumprirá em Êxodo 12. Nenhuma leitura que precise de uma saída limpa sobrevive à segunda metade da frase.













