Depois lhes ordenou: “Eu vou ser reunido ao meu povo. Sepultem-me junto aos meus pais, na caverna que está no campo de Efrom, o heteu,
1. Introdução
O poema acabou no versículo 28. Aqui o Gênesis muda de registro: sai da poesia e entra na prosa, sai do oráculo e entra na ordem.
São quatro versículos de instrução, e este é o primeiro. Jacó deixa de falar sobre o futuro dos filhos e passa a falar do próprio corpo.
O versículo levanta três pontos que os itens seguintes desenvolvem, cada um no seu lugar.
O primeiro é o modo de falar da própria morte. Ele não diz "quando eu morrer". Diz "eu vou ser reunido ao meu povo", no presente, com a fórmula que o Gênesis costuma usar sobre os mortos, não na boca deles.
O segundo é o destinatário. No capítulo 47 ele havia obtido um juramento de um filho só. Aqui a ordem é dada aos doze, no plural, e o que era compromisso pessoal de José vira encargo da casa inteira.
O terceiro é a maneira de identificar o túmulo. Jacó poderia dizer "a caverna de Macpela", e todos entenderiam. Ele começa nomeando o campo pelo homem que o vendeu — um estrangeiro, morto havia mais de um século. É o primeiro passo de uma recitação que vai ocupar os versículos 30, 31 e 32, e que este estudo trata como o que ela é: forma de escritura, não de despedida.
Convém dizer desde já o que o versículo não faz. Ele não menciona a promessa da terra e não invoca Deus. É um homem dizendo onde quer o próprio corpo, com a precisão de quem descreve um imóvel.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma ordem dada a todos, e não a um
O detalhe cultural que o versículo esconde está no número. Jacó fala no plural.
Em Gênesis 47:29-31 ele já tinha tratado do assunto, e tinha tratado com um filho só: chamou José, pediu a mão sob a coxa e exigiu juramento. Aqui não há juramento, não há gesto e não há filho preferido. Há uma ordem dirigida a doze pessoas ao mesmo tempo.
A mudança não é de estilo. É de destinatário, e mexe com quem fica obrigado.
Enterrar o pai era encargo de herdeiro
No mundo do texto, sepultar o pai não era gesto de afeto: era obrigação de quem herda. O dever do filho de sepultar o pai está tratado no estudo de Gênesis 25:9, e o que a família devia aos mortos depois do enterro está no estudo de Gênesis 47:29.
O que interessa aqui é a outra ponta dessa regra. Nos documentos mesopotâmicos que repartem uma herança entre vários filhos, o encargo funerário costuma aparecer junto com a partilha: quem divide os bens divide também a despesa e o trabalho do sepultamento do pai. Herdar e enterrar andam no mesmo parágrafo.
Convém marcar o grau de certeza. Esses documentos são de outros lugares e de outras épocas, e não se pode afirmar que a casa de Jacó seguisse essa prática. O que eles mostram é o padrão da região: a obrigação segue a herança, e quando os herdeiros são muitos, ela é de todos.
É exatamente essa forma que o versículo tem. Jacó acabou de distribuir, no poema, o que cabe a cada tribo. Em seguida, vira-se para todos e cobra a contrapartida.
"Sepulta-me com meus pais": um pedido com fórmula
A frase de Jacó não é invenção dele. Ela é a maneira corrente, na Bíblia hebraica, de se pedir uma sepultura — e o pedido reaparece em bocas muito diferentes.
Barzilai, o velho gileadita que recusa acompanhar Davi a Jerusalém, dá o motivo: quer morrer na sua cidade, junto ao túmulo do pai e da mãe (2 Samuel 19:37). O velho profeta de Betel manda que o enterrem no sepulcro em que está o homem de Deus, e que ponham os ossos dele ao lado dos outros ossos (1 Reis 13:31). Séculos depois, Neemias, perguntado pelo rei da Pérsia por que estava triste, responde falando da cidade onde estão os túmulos dos seus pais (Neemias 2:3).
Os três são casos diferentes. O que se repete é a lógica: um homem sabe de que grupo é, e o modo de dizer isso é apontar em que buraco de rocha quer ficar.
Jacó está no Egito, e é o único da lista que precisa atravessar uma fronteira para conseguir o que pede. O tamanho dessa operação está tratado no estudo de Gênesis 47:30. Aqui ele não menciona a distância, não menciona o Egito e não menciona o que vai custar. Dá a ordem e passa ao endereço.
3. Análise Teológica do Versículo
"Depois lhes ordenou"
O verbo muda, e a mudança organiza tudo o que vem.
Até o versículo 28, o que Jacó fazia tinha um nome dado pelo próprio texto: ele abençoou. O versículo 28 diz isso com todas as letras — "a cada um abençoou com a bênção que lhe era própria". Agora o Gênesis usa outra palavra. Não é abençoar. É ordenar.
São dois atos distintos, e o texto os separa. A bênção foi dita a cada filho por vez, um a um, e ninguém podia cumpri-la nem descumpri-la. A ordem é dita a todos de uma vez e existe para ser executada.
Vale reparar no que isso faz com o capítulo. O leitor vem de vinte e seis versículos de poesia difícil, cheia de animais e de leituras em disputa. Aqui a linguagem fica rasa de propósito. Não há imagem nenhuma nestes quatro versículos, e não há uma só palavra que admita duas traduções. Um homem que passou o capítulo inteiro falando por enigma termina falando como quem dita um documento.
"Eu vou ser reunido ao meu povo"
Esta é a frase mais estranha do versículo, e ela é fácil de atravessar sem notar.
A fórmula existe no Gênesis. O livro a usou sobre Abraão (Gênesis 25:8), sobre Ismael (Gênesis 25:17) e sobre Isaque (Gênesis 35:29). O que ela significa — e por que não é sinônimo de ser enterrado — está tratado no estudo de Gênesis 15:15.
O que muda aqui é quem fala. Nas outras vezes, é o texto que informa, depois do fato consumado. Aqui é o homem, antes, sobre si mesmo.
E o tempo verbal aperta ainda mais. Ele não diz "serei reunido", como quem prevê. A forma hebraica descreve algo em curso, e a tradução honesta fica entre "estou sendo reunido" e "estou para ser reunido" (item 10). Não é um prognóstico. É um relato do que já está acontecendo com ele enquanto fala.
Há uma consequência que costuma passar em branco. Jacó menciona duas coisas diferentes no mesmo fôlego: ser reunido ao seu povo, que ele põe no presente e que ninguém pode executar por ele, e ser sepultado com seus pais, que ele põe no imperativo e que depende inteiramente dos filhos. A primeira já começou. A segunda ele precisa mandar fazer.
O texto não explica a relação entre as duas, e não é possível decidir, a partir daqui, se ele as considerava a mesma coisa vista de dois lados ou dois acontecimentos distintos. O que se pode registrar é que ele as diz separadas, e nessa ordem.
"Sepultem-me junto aos meus pais"
O imperativo está no plural. Doze homens acabam de ser encarregados.
Repare no que ele pede e no que não pede. Ele não pede para ser enterrado na terra prometida. Não diz "em Canaã porque Deus a deu a Abraão"; não invoca promessa nenhuma. A palavra "Canaã" vai aparecer, mas só no versículo seguinte, e como parte do endereço.
O que ele pede é companhia. "Junto aos meus pais" — ao lado de pessoas determinadas, que estão num lugar determinado.
Isso merece ser dito sem enfeite, porque a leitura devocional costuma pular por cima. O último desejo declarado do homem que carrega a promessa da terra não é uma afirmação sobre a terra. É um pedido para ficar perto do avô e do pai.
Uma leitura possível é que as duas coisas sejam a mesma para ele, e que ficar com os pais em Canaã já seja um modo de se agarrar à promessa. É defensável, e vários comentaristas a sustentam. Mas ela é conclusão do leitor: o versículo não a enuncia, e convém não pôr na boca dele o que ele não disse.
"na caverna que está no campo de Efrom, o heteu"
Aqui começa a parte que os versículos 30, 31 e 32 vão levar até o fim, e o começo já diz para onde a coisa vai.
Havia um jeito curto de dizer isto: "a caverna de Macpela". Todos os presentes sabiam qual era; Isaque foi enterrado ali, e o próprio Jacó enterrou Lia ali. Bastavam duas palavras.
Ele não usa as duas palavras. Começa pelo campo, e identifica o campo pelo nome do homem que o vendeu — Efrom, um heteu, que morreu havia muito tempo e que não tem função nenhuma nesta cena.
Quem fala assim não está dando um endereço. Está descrevendo um bem. A forma jurídica dessa fala é o assunto do estudo de Gênesis 49:30, e a compra em si é o assunto do capítulo 23 inteiro; aqui basta registrar que a recitação já começou, e que ela começou pelo vendedor.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jacó
Tem cento e quarenta e sete anos, e está no Egito há dezessete (Gênesis 47:28). Chegou como pastor faminto e vive na melhor terra do Delta, sustentado por um filho que governa o país.
Nos capítulos 48 e 49 ele está sentado na cama, no mesmo cômodo, sem se levantar. Tudo o que ele faz desde Gênesis 48:2 — adotar os netos, abençoar as doze tribos, dar esta ordem — ele faz dali.
Os doze filhos
São os destinatários do plural. Estão todos presentes desde o versículo 1, convocados por ele.
Entre eles está José, que já havia jurado sozinho fazer exatamente isto (Gênesis 47:29-31). Estão também Rúben, Simeão e Levi, que acabaram de ouvir a destituição e a maldição dos versículos 3 a 7. O Gênesis não registra reação de nenhum deles, nem ao poema nem à ordem.
"Meus pais"
São Isaque e Abraão. O versículo 31 vai nomeá-los, junto com as mulheres.
Convém notar o alcance da palavra. Abraão veio de Ur e de Harã, e os pais dele ficaram lá. A cadeia que Jacó invoca tem três gerações e começa num homem que também não foi enterrado com o próprio pai.
Efrom, o heteu
O vendedor do campo. Aparece uma única vez na Bíblia como personagem vivo, no capítulo 23, negociando com Abraão diante da assembleia. Depois disso, só é nomeado como referência de propriedade — em Gênesis 25:9, aqui e no versículo 30.
É um estrangeiro em relação à família, e é pelo nome dele que a família localiza o próprio túmulo por três gerações.
A caverna
Fica no campo de Macpela, defronte de Manre, na região de Hebrom, na serra central de Canaã. A geografia e a natureza do lugar estão tratadas no estudo de Gênesis 23:19.
Neste ponto da história ela guarda cinco corpos: Sara, Abraão, Isaque, Rebeca e Lia. Jacó será o sexto — e o versículo 31 fará essa contagem.
O que aconteceu antes
Três cenas explicam a ordem deste versículo. A compra do campo, em Gênesis 23. O enterro de Abraão pelos dois filhos, em Gênesis 25:9. E o juramento arrancado a José, em Gênesis 47:29-31, dezessete anos depois da chegada ao Egito e pouco antes de Jacó adoecer.
5. Pontos de Ensino
Abençoar e mandar são coisas diferentes
O Gênesis usa duas palavras porque são dois atos. A bênção descreve; a ordem obriga. Um capítulo que passou vinte e seis versículos descrevendo termina com quatro versículos obrigando — e é a parte obrigatória que tem endereço, nome de vendedor e categoria de propriedade.
Uma promessa de um só é frágil
José havia jurado. Jacó, mesmo assim, repete a ordem diante dos doze.
O texto não diz que ele desconfiava. Diz apenas que ele o fez. E o efeito é objetivo: o que era palavra de um homem passa a ser encargo de todos, e cada um dos onze restantes vira testemunha do compromisso do outro.
Falar da própria morte sem rodeio
Jacó não ameniza e não dramatiza. Anuncia o que está acontecendo, diz o que precisa ser feito e passa à descrição do lugar. A fala inteira cabe em quatro versículos.
Convém não transformar isso em modelo de serenidade. O Gênesis não diz que ele estava sereno; não diz nada sobre o estado dele. Descreve o que ele falou.
O que ele não invoca
Não há Deus nesta ordem, não há aliança e não há promessa da terra. É um dado do texto, e vale registrá-lo em vez de preencher o vazio. O que Jacó alega não é um direito recebido: é um campo comprado.
6. Aspectos Filosóficos
Há uma diferença entre saber que se morre e saber que se está morrendo. A primeira é uma informação que todo mundo tem e que quase ninguém usa. A segunda é uma posição, e ela reorganiza o que ainda vale a pena dizer.
Jacó fala da segunda posição, e o efeito aparece na forma da fala. Ele para de descrever o futuro dos outros e passa a dar instrução sobre o próprio corpo — a única coisa que ainda lhe pertence e que ele já não pode manejar.
Daí nasce o problema que este versículo levanta. Uma ordem só existe enquanto alguém pode cobrá-la, e esta será executada precisamente quando ninguém puder mais ser cobrado por quem a deu. Toda a força dela está depositada em outras pessoas.
É por isso que ele fala aos doze, e não a um. Quem não poderá fiscalizar aumenta o número de testemunhas.
Vale marcar o limite: isso é leitura da forma da fala, e o Gênesis não atribui esse cálculo a Jacó. O que o texto mostra é um homem transferindo para outros a única coisa que lhe resta querer.
7. Aplicações Práticas
Dizer, e dizer para mais de uma pessoa
A aplicação que o versículo realmente sustenta é essa, e é modesta.
Jacó já tinha a palavra de José. Repetiu diante dos doze assim mesmo. O resultado é que a instrução deixou de depender da memória e da boa vontade de um único homem.
Quem já lidou com o fim da vida de um parente conhece o problema pelo avesso: a frase que ele disse a um só, e que os outros não ouviram, vira disputa. Não porque alguém minta — porque a lembrança de um não obriga ninguém.
Ser específico é um cuidado com quem fica
Repare no que Jacó faz nos quatro versículos: nomeia o lugar, o campo, o vendedor, os que já estão lá e a categoria da propriedade. Não deixa nenhuma decisão para os filhos tomarem depois.
Isso poupa os vivos. Onde a instrução é vaga, quem fica precisa adivinhar — e adivinhar, num momento desses, costuma virar conflito entre irmãos que já estão exaustos.
O que não cabe extrair daqui
Convém dizer o que este versículo não ensina. Ele não ensina que o lugar do sepultamento tenha valor espiritual, e não descreve uma morte exemplar: o Gênesis não elogia nem critica Jacó aqui, apenas registra o que ele mandou fazer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se José já tinha jurado, por que repetir a ordem aos doze?
O texto não dá o motivo, e é preciso dizer isso antes de qualquer resposta.
Duas explicações são defensáveis e não se excluem. A primeira é prática: a execução exigiria a família inteira, e não só o filho com cargo no Egito. A segunda é jurídica: uma ordem dada diante de doze testemunhas obriga de outro jeito que uma promessa feita a portas fechadas.
Uma terceira leitura — a de que Jacó desconfiava de José — não tem apoio no texto e contraria tudo o que o Gênesis mostra da relação dos dois desde o capítulo 46.
"Reunido ao meu povo" é o mesmo que ser enterrado?
Não, e o próprio versículo mostra isso: ele diz as duas coisas em frases separadas, com tempos verbais diferentes. A primeira está em curso; a segunda é uma ordem a ser cumprida depois.
O que a expressão significa exatamente está tratado no estudo de Gênesis 15:15, e a resposta honesta lá é a mesma daqui: ela aponta para alguma forma de reunião com os que morreram antes, e não diz mais do que isso.
Por que o túmulo é identificado pelo nome de Efrom?
Porque Jacó não está dando um endereço; está recitando a origem de um direito. A pergunta é o assunto do estudo de Gênesis 49:30, onde a fala inteira é examinada como forma jurídica.
Vale só antecipar o dado: em toda a Bíblia, o campo é lembrado pelo nome do vendedor — em Gênesis 25:9, em Gênesis 49:30 e ainda uma vez em Gênesis 50. O nome do estrangeiro grudou no título.
Jacó estava agindo por fé ao pedir para ser enterrado em Canaã?
A carta aos Hebreus lê os patriarcas assim, e é uma leitura antiga e respeitável. Mas ela não está neste versículo.
Aqui Jacó não menciona promessa, aliança nem Deus. Atribuir-lhe motivo religioso é acrescentar ao texto — o que não torna a leitura errada, e sim posterior. A diferença entre o que o versículo diz e o que a tradição concluiu dele merece ficar visível.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma fórmula, dita pelo texto sobre outros
Gênesis 25:8 — "E Abraão expirou e morreu em boa velhice, idoso e satisfeito de dias, e foi reunido ao seu povo."
Gênesis 35:29 — "E Isaque expirou e morreu, e foi reunido ao seu povo, velho e farto de dias; e Esaú e Jacó, seus filhos, o sepultaram."
Nos dois casos a expressão vem depois da morte, na voz do texto. Jacó é o único do livro que a diz sobre si mesmo, antes.
O pedido anterior, feito a um filho só
Gênesis 47:29-30 — "Se achei favor aos seus olhos, ponha a sua mão debaixo da minha coxa e use comigo de bondade e verdade: não me sepulte no Egito. Quando eu descansar com os meus pais, leve-me do Egito e sepulte-me no túmulo deles."
Compare os verbos. Lá havia juramento e gesto; aqui há ordem seca no plural.
O mesmo pedido em outras bocas
2 Samuel 19:37 — "Deixe voltar o seu servo, e morrerei na minha cidade, junto ao sepulcro de meu pai e de minha mãe."
1 Reis 13:31 — "Quando eu morrer, sepultem-me no sepulcro em que o homem de Deus está sepultado; ponham os meus ossos junto aos ossos dele."
Neemias 2:3 — "Como não estaria triste o meu rosto, estando em ruínas a cidade onde estão os sepulcros de meus pais?"
A ordem que foi cumprida, e o eco dela
Êxodo 13:19 — "E Moisés levou consigo os ossos de José, porque este havia feito os filhos de Israel jurarem solenemente, dizendo: Deus certamente os visitará; então levem daqui os meus ossos com vocês."
Josué 24:32 — "E os ossos de José, que os filhos de Israel tinham trazido do Egito, sepultaram-nos em Siquém."
O padrão atravessa gerações: um homem que morre fora encarrega os que ficam de levá-lo de volta. José aprendeu a forma com o pai, e a repetiu — com uma diferença que vale reparar, porque ele não pede sepultura imediata, e sim que os ossos esperem a saída de todo o povo.
O direito que sobrevive ao dono
Gênesis 23:20 — "Assim o campo e a caverna que nele há foram confirmados a Abraão pelos filhos de Hete, como propriedade para sepultura."
É esta frase, escrita gerações antes, que Jacó está começando a recitar.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Depois lhes ordenou: “Eu vou ser reunido ao meu povo. Sepultem-me junto aos meus pais, na caverna que está no campo de Efrom, o heteu,
Texto hebraico
וַיְצַ֣ו אוֹתָ֗ם וַיֹּ֤אמֶר אֲלֵהֶם֙ אֲנִי֙ נֶאֱסָ֣ף אֶל־עַמִּ֔י קִבְר֥וּ אֹתִ֖י אֶל־אֲבֹתָ֑י אֶל־הַ֨מְּעָרָ֔ה אֲשֶׁ֥ר בִּשְׂדֵ֖ה עֶפְר֥וֹן הַֽחִתִּֽי׃
Transliteração
waytsáv otám wayyómer aléhem aní ne’esáf el-ammí, qivrú otí el-avotái, el-ha-me‘aráh asher bi-sdéh Efrón ha-Chittí
Análise palavra por palavra
וַיְצַו · waytsáv — “e ordenou”
A raiz é tsavah. Ela quase não existe na forma simples do verbo hebraico: aparece praticamente sempre no Piel, a forma intensiva, que é a usada aqui. O sentido é dar instrução com autoridade — mandar, encarregar, determinar.
Não é o verbo de pedir e não é o verbo de aconselhar. É o verbo que Deus usa ao dar mandamento, e o que um rei usa ao despachar um subordinado.
Interessa a este versículo um uso específico: o da instrução dada em vista da morte. Em 2 Samuel 17:23, Aitofel ordena à sua casa e em seguida se enforca — a fórmula descreve pôr os assuntos em ordem antes de morrer. Em 2 Reis 20:1 e em Isaías 38:1, o profeta chega a Ezequias doente e diz: ordena à tua casa, porque vais morrer.
Ou seja: o verbo escolhido aqui é o do testamento. O Gênesis o repetirá no versículo 33, para fechar a moldura — Jacó acaba de ordenar, e é o fim dele.
אֲנִי נֶאֱסָף · aní ne’esáf — “eu estou sendo reunido”
Aqui está a forma mais discutida do versículo, e ela merece cuidado.
A raiz é asaf, “recolher”, “ajuntar”. É palavra de colheita: recolhe-se o grão da eira, recolhe-se o rebanho ao curral, recolhe-se a mão para dentro do manto. A partir daí ela passa a descrever também juntar pessoas — reunir o povo, recolher alguém para dentro de casa.
A forma é Niphal, a forma passiva do verbo hebraico, e é um particípio, não um verbo conjugado no futuro. O particípio hebraico não marca tempo: marca situação em curso.
Por isso as traduções se dividem. “Serei reunido” põe a coisa adiante; “estou sendo reunido” a põe agora. O hebraico não decide entre as duas, e não é possível escolher com segurança. O que se pode dizer é que a construção com o pronome “eu” em primeira posição dá ênfase ao sujeito e sugere iminência, e não previsão distante.
Esta raiz volta duas vezes no versículo 33, e ali ela faz um trabalho que só se enxerga com o versículo inteiro à vista.
אֶל־עַמִּי · el-ammí — “ao meu povo”
Am é “povo”, e no plural com sufixo — ammáv, “os seus povos”, como aparece no versículo 33 — a Bíblia usa a palavra para os parentes já mortos.
Vale notar a preposição. Não é “com”, é “para junto de”: movimento em direção a alguém. A discussão sobre o que essa reunião significa está no estudo de Gênesis 15:15.
קִבְרוּ אֹתִי · qivrú otí — “sepultem-me”
Imperativo plural do verbo qavar, “sepultar”. Dessa mesma raiz vem qéver, “sepulcro”, que aparecerá no fim do versículo 30.
O plural é o dado do versículo. Em Gênesis 47:30, falando a José, Jacó usou o singular.
O verbo se repetirá quatro vezes no versículo 31 — três na terceira pessoa do plural e uma na primeira do singular.
אֶל־אֲבֹתָי · el-avotái — “junto aos meus pais”
A mesma preposição de movimento usada com “meu povo”, duas linhas acima. Nos dois casos, Jacó se descreve indo em direção a um grupo.
Avot é o plural de “pai” e cobre os antepassados em geral. No caso dele, o texto vai nomear exatamente quem: Abraão e Isaque, no versículo 31.
אֶל־הַמְּעָרָה · el-ha-me‘aráh — “na caverna”
Me‘aráh é a caverna, a gruta natural. A palavra atravessa o capítulo 23 inteiro e reaparece nos versículos 30 e 32 deste capítulo.
De novo a preposição de movimento, e agora ela soa estranha em português: literalmente, “sepultem-me para dentro da caverna”. A cadeia inteira do versículo é de deslocamento — para o povo, para os pais, para a caverna.
בִּשְׂדֵה עֶפְרוֹן הַחִתִּי · bi-sdéh Efrón ha-Chittí — “no campo de Efrom, o heteu”
Sadeh é o campo — terreno aberto, cultivável ou não, por oposição à cidade.
A construção é de posse: o campo de Efrom. Repare que o campo continua sendo chamado pelo nome do vendedor, e não pelo do comprador, mais de cem anos depois da venda.
O nome do povo vem com artigo: ha-Chittí, “o heteu”. É a mesma etiqueta que o capítulo 23 gruda em Efrom todas as vezes, e que Jacó repete duas vezes seguidas — aqui e no versículo 30.
11. Conclusão
Do que foi examinado seguem três conclusões.
A primeira é sobre a forma do capítulo. O Gênesis separa dois atos com duas palavras: Jacó abençoou, e depois Jacó ordenou. A poesia dos versículos 2 a 27 descreve o futuro de doze tribos e não obriga ninguém a nada; os quatro versículos finais obrigam doze homens a uma tarefa concreta. Ler o capítulo como um bloco só apaga essa diferença, que é do texto.
A segunda é sobre o modo de falar da morte. Jacó põe no presente o que lhe acontece e no imperativo o que os outros devem fazer. Ele descreve um processo em curso, do qual não é agente, e ao lado dele uma tarefa da qual não será executor. As duas metades do versículo estão em vozes opostas, e a fala inteira se apoia nessa divisão.
A terceira é sobre o que ele alega. O homem que carrega a promessa da terra, no momento de dizer onde quer o corpo, não invoca a promessa. Invoca um campo, um vendedor e uma companhia de mortos. A leitura religiosa desse pedido é antiga e defensável, mas ela vem de fora: o versículo trabalha com propriedade e parentesco, e é assim que ele deve ser lido antes de qualquer coisa ser acrescentada.
Fica em aberto, e o texto não permite decidir, se ser reunido ao seu povo e ser sepultado com seus pais eram para Jacó a mesma coisa dita de dois modos. O que se pode afirmar é que ele as disse separadas, em tempos verbais diferentes, e que só a segunda dependia de alguém.













